INVASÃO
DE PRIVACIDADE (Sliver, 1993, Paramount Pictures, 103min) Direção:
Phillip Noyce. Roteiro: Joe Eszterhas, romance de Ira Levin. Fotografia:
Vilmos Zsigmond. Montagem: Richard Francis-Bruce, William Hoy. Música:
Howard Shore. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Paul
Sylbert/Lisa Fischer. Produção executiva: Joe Ezsterhas, Howard W. Koch
Jr.. Produção: Robert Evans. Elenco: Sharon Stone, Tom Berenger,
William Baldwin, Polly Walker, Martin Landau, Amanda Foreman, CCH
Pounder, Nina Foch. Estreia: 21/5/93
As
expectativas para a reunião entre o roteirista Joe Eszterhas e a atriz
Sharon Stone não poderiam ser maiores: juntos, eles foram responsáveis
por "Instinto selvagem" - um dos maiores sucessos de bilheteria de 1992 e
o filme que catapultou a estrela de Sharon para a estratosfera - e seu
reencontro se daria graças a uma história de Ira Levin (o mesmo autor do
clássico "O bebê de Rosemary" (68), de Roman Polanski) e com direção de
Philip Noyce, o diretor que havia ressuscitado a carreira do agente da
CIA Jack Ryan no bem-sucedido "Jogos patrióticos" (92). Além do mais,
havia na receita momentos de suspense e (é claro) doses generosas de
sexo, protagonizadas por uma Sharon no auge da beleza e da popularidade.
Não tinha como dar errado, certo? Mas deu. "Invasão de privacidade", um
dos filmes mais aguardados da temporada 1993 chegou às telas como uma
das produções mais esperadas do ano e acabou se tornando uma de suas
maiores decepções, não somente em termos de crítica - desagradou a
gregos e troianos - mas principalmente no que diz respeito a suas
ambições financeiras, já que não chegou nem mesmo a empatar seu
orçamento de 40 milhões de dólares. No entanto, não é difícil perceber
as razões do fracasso quando se assiste ao produto final.
Os
problemas de "Invasão de privacidade" começaram, a bem da verdade, já
durante a fase de pré-produção. A ideia do produtor Robert Evans era
novamente contar com Roman Polanski na direção de uma obra de Ira Levin -
como já havia ocorrido com "O bebê de Rosemary", em 1968 - mesmo com o
cineasta proibido de por os pés nos EUA devido à sua condenação por
sedução de uma menor nos anos 70. Com Polanski fora da jogada e Philip
Noyce contratado - assim como a estrela maior, Sharon Stone - começou a
busca pelo ator principal, que seria o responsável, junto com Sharon, de
incendiar as telas em cenas pra lá de tórridas. Com a recusa de Johnny
Depp, Val Kilmer e River Phoenix, o papel acabou ficando com William
Baldwin, e o que deveria ser motivo de descanso para a Paramount
tornou-se uma preocupação inesperada: ele e Sharon Stone simplesmente se
odiaram à primeira vista e nunca fizeram questão de esconder seus
sentimentos (algo como havia acontecido com Mickey Rourke e Kim Basinger
durante as filmagens de "9 1/2 semanas de amor", em 1986). Não bastasse
isso, Joe Eszterhas era obrigado constantemente a fazer modificações no
roteiro - que já alterava significativamente o romance de Levin - e um
helicóptero com uma equipe do filme, que fazia imagens de um vulcão em
erupção no Havaí (para cenas importantes do primeiro roteiro) caiu com
todos os passageiros, perdendo todo o material - ainda que ninguém tenha
morrido no desastre.
Pra
piorar a situação, terminadas as filmagens, uma sessão-teste do filme
mostrou que o bicho era ainda mais feio do que parecia: boa parte da
audiência respondeu pessimamente ao resultado um novo final foi criado,
mudando o desfecho do livro e alterando drasticamente a história. Tal
decisão não agradou a alguns atores (entre eles o veterano Tom Berenger)
e obviamente aumentou o número de fofocas a respeito dos bastidores do
filme, o que não ajudou em nada quando finalmente ele estreou. Ninguém
deixou de notar a absoluta falta de química entre Stone e Baldwin (coisa
que, digam o que disserem, havia em alto grau entre Rourke e Basinger),
a fragilidade do roteiro, a apatia de Baldwin e Berenger e a total
falta de suspense de uma trama que, em tese, se apoiava justamente nos
elementos básicos do gênero. Ok, Philip Noyce fez o que pode com o que
tinha em mãos, tentando criar um clima de tensão desde os primeiros
momentos - e mais uma vez um prédio assume papel importante em uma
criação de Ira Levin - mas tudo vai por água abaixo quando se percebe
que tudo não passa de promessas que não são cumpridas no decorrer da
projeção. Nem mesmo o erotismo tão alardeado vale a sessão: apesar de
quentes, as cenas de sexo não empolgam nem excitam como as orquestradas
por Paul Verhoeven em "Instinto selvagem".
Mas, afinal,
de que se trata "Invasão de privacidade"? Tudo começa muito bem, quando
uma jovem é misteriosamente jogada do vigésimo andar de um prédio
localizado em um condomínio de luxo de Nova York. O caso é tratado como
suicídio e não demora para que seu apartamento passe a ser habitado por
Carly Norris (Stone, linda e boa atriz, fazendo o impossível com um
papel sem graça), uma editora introvertida que acaba de sair de um
relacionamento falido. Tão logo chega no prédio, ela passa a ser
assediada por dois moradores, o sedutor Zeke (William Baldwin, péssimo) e
o escritor de livros policiais Jack Lansford (Tom Berenger), ambos
dispostos a seduzí-la. Quando misteriosos acidentes começam a acontecer
nos limites do condomínio, porém, Carly passa a desconfiar de que alguém
(talvez um dos dois) esteja envolvido bem mais do que o normal com
eles. E, pior ainda: sem que ela saiba, alguém que também está à sua
volta tem uma milionária aparelhagem de segurança, que dá acesso a todos
os apartamentos do local.
E é só. A trama - fraca -
não encontra respaldo na direção correta mas indiferente de Noyce e
muito menos no elenco, que inclui até o futuro vencedor do Oscar Martin
Landau. Stone está melhor atriz do que nunca, mas perde boa parte de seu
carisma em um papel que faz dela a caça ao invés da caçadora. Sua falta
de química com William Baldwin - uma escolha totalmente infeliz de
elenco - tampouco a ajuda e, na falta de maiores qualidades, destaca-se a
trilha sonora, que abre espaço até para uma bela versão de "I can't
help falling in love", com o grupo UB 40. É muito pouco para o que
prometia ser uma das maiores bilheterias de 1993.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade. Afinal, a sétima arte não tem esse nome à toa.
quarta-feira
terça-feira
DAVE - PRESIDENTE POR UM DIA
DAVE,
PRESIDENTE POR UM DIA (Dave, 1993, Warner Bros, 110min) Direção: Ivan
Reitman. Roteiro: Gary Ross. Fotografia: Adam Greenberg. Montagem:
Sheldon Kahn. Música: James Newton Howard. Figurino: Richard Hornung.
Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Michael Taylor. Produção
executiva: Michael C. Gross, Joe Medjuck. Produção: Ivan Reitman, Lauren
Schuler-Donner. Elenco: Kevin Kline, Sigourney Weaver, Frank Langella,
Ving Rhames, Ben Kingsley, Charles Grodin, Laura Linney, Bonnie Hunt.
Estreia: 07/5/93
Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Do cinismo agridoce de Frank Capra até o realismo controverso de Oliver Stone, a política norte-americana frequentou as telas de cinema com certa regularidade, nem sempre com muita simpatia por parte dos produtores e cineastas - que viam nos filmes a chance de expor seus pontos de vista nem sempre compatíveis com quem estava no poder. Por isso não nada surpreendente que "Dave, presidente por um dia", a simpática e inofensiva comédia de Ivan Reitman lançada em 1993 tenha se tornado, já em seu lançamento, um dos filmes preferidos do então morador da Casa Branca, Bill Clinton. Sem despertar polêmicas e apresentando um personagem principal que refletia a popularidade de Clinton junto aos eleitores, o filme acabou se saindo bem nas bilheterias - rendeu mais de 60 milhões de dólares somente nos EUA - e, o que de resto não é nada mal, chegou ao Oscar, concorrendo à estatueta de roteiro original (que perdeu para o mais sério e mais "artístico" "O piano").
O Dave do título original é o altruísta dono de uma agência de empregos que complementa a renda doméstica servindo de sósia do presidente americano, Bill Mitchell, em feiras agrícolas e eventos afins. Depois de se passar por Mitchell para a imprensa e o público em um grande evento na Casa Branca, porém, ele tem sua vida transformada radicalmente: durante um ato sexual com uma secretária (uma iniciante Laura Linney), o presidente sofre um derrame grave e que o deixa em coma irreversível. Com a aparente intenção de proteger o país de um escândalo de tais proporções, o assistente da presidência, Bob Alexander (Frank Langella caprichando na cara de vilão) convence Dave a assumir o papel de líder da nação por mais algum tempo. No entanto, seus planos - que são bem outros, e incluem afastar o vice-presidente, Nance (Ben Kingsley) do caminho e ser nomeado para o cargo de homem mais poderoso dos EUA - passam a ser ameaçados pela boa índole de Dave, que, influenciado pela boa política da primeira-dama, Ellen (Sigourney Weaver), começa a criar novas medidas de governo que beneficiam a população mais pobre. Tais atitudes o põem em rota de colisão com Alexander, mas o aproximam tanto de Nance quanto de Ellen, que vivia um casamento de aparências e subitamente passa a sentir uma indefinível atração pelo marido.
Escrito por Gary Ross - que posteriormente assinaria também como diretor o belo "A vida em preto-e-branco" (03) - "Presidente por um dia" não é uma comédia de gargalhadas. Seu humor, um tanto mais sofisticado mas popular o bastante para não afastar a plateia avessa a filmes com conotação política, nasce basicamente como uma comédia de erros dos velhos tempos de Frank Capra e Preston Sturgess, com sua inocência devidamente adequada aos anos 90. É assim, por exemplo, que o romance entre Dave e a primeira-dama inconsciente de sua real personalidade começa com um diálogo furioso quando ele está se deliciando com um bom banho quente (nu, portanto) mas nunca ultrapassa as longas conversas, os passeios às escondidas e os olhares apaixonados. Sigourney Weaver, aliás, nunca esteve tão classuda e bonita em cena, a anos-luz de distância da guerreira Tenente Ripley da série "Aliens". Seu timing cômico, mostrado em "Uma secretária de futuro" (88), mantém-se intocado, principalmente ao lado de Kevin Kline, mostrando (mais uma vez) que é um dos atores mais versáteis e talentosos de Hollywood, em papel recusado por Warren Beatty e Kevin Costner e que encontra nele o intérprete ideal. E seu semblante de adorável pateta - que graças à sua ingenuidade consegue conquistar até os mais arraigados rivais políticos - encontra o contraponto perfeito em Frank Langella, sempre competente quando brinca de vilão.
Feito de pequenas piadas - como a participação sensacional de Oliver Stone como ele mesmo, discutindo uma provável conspiração na Casa Branca e a presença de inúmeros políticos comentando os acontecimentos que se desenrolam no roteiro - "Presidente por um dia" é uma comédia à moda antiga: charmosa, esperta e visualmente atraente, além de bem dirigida e interpretada com energia e simpatia. Não muda a vida de ninguém, mas diverte e inspira.
Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Do cinismo agridoce de Frank Capra até o realismo controverso de Oliver Stone, a política norte-americana frequentou as telas de cinema com certa regularidade, nem sempre com muita simpatia por parte dos produtores e cineastas - que viam nos filmes a chance de expor seus pontos de vista nem sempre compatíveis com quem estava no poder. Por isso não nada surpreendente que "Dave, presidente por um dia", a simpática e inofensiva comédia de Ivan Reitman lançada em 1993 tenha se tornado, já em seu lançamento, um dos filmes preferidos do então morador da Casa Branca, Bill Clinton. Sem despertar polêmicas e apresentando um personagem principal que refletia a popularidade de Clinton junto aos eleitores, o filme acabou se saindo bem nas bilheterias - rendeu mais de 60 milhões de dólares somente nos EUA - e, o que de resto não é nada mal, chegou ao Oscar, concorrendo à estatueta de roteiro original (que perdeu para o mais sério e mais "artístico" "O piano").
O Dave do título original é o altruísta dono de uma agência de empregos que complementa a renda doméstica servindo de sósia do presidente americano, Bill Mitchell, em feiras agrícolas e eventos afins. Depois de se passar por Mitchell para a imprensa e o público em um grande evento na Casa Branca, porém, ele tem sua vida transformada radicalmente: durante um ato sexual com uma secretária (uma iniciante Laura Linney), o presidente sofre um derrame grave e que o deixa em coma irreversível. Com a aparente intenção de proteger o país de um escândalo de tais proporções, o assistente da presidência, Bob Alexander (Frank Langella caprichando na cara de vilão) convence Dave a assumir o papel de líder da nação por mais algum tempo. No entanto, seus planos - que são bem outros, e incluem afastar o vice-presidente, Nance (Ben Kingsley) do caminho e ser nomeado para o cargo de homem mais poderoso dos EUA - passam a ser ameaçados pela boa índole de Dave, que, influenciado pela boa política da primeira-dama, Ellen (Sigourney Weaver), começa a criar novas medidas de governo que beneficiam a população mais pobre. Tais atitudes o põem em rota de colisão com Alexander, mas o aproximam tanto de Nance quanto de Ellen, que vivia um casamento de aparências e subitamente passa a sentir uma indefinível atração pelo marido.
Escrito por Gary Ross - que posteriormente assinaria também como diretor o belo "A vida em preto-e-branco" (03) - "Presidente por um dia" não é uma comédia de gargalhadas. Seu humor, um tanto mais sofisticado mas popular o bastante para não afastar a plateia avessa a filmes com conotação política, nasce basicamente como uma comédia de erros dos velhos tempos de Frank Capra e Preston Sturgess, com sua inocência devidamente adequada aos anos 90. É assim, por exemplo, que o romance entre Dave e a primeira-dama inconsciente de sua real personalidade começa com um diálogo furioso quando ele está se deliciando com um bom banho quente (nu, portanto) mas nunca ultrapassa as longas conversas, os passeios às escondidas e os olhares apaixonados. Sigourney Weaver, aliás, nunca esteve tão classuda e bonita em cena, a anos-luz de distância da guerreira Tenente Ripley da série "Aliens". Seu timing cômico, mostrado em "Uma secretária de futuro" (88), mantém-se intocado, principalmente ao lado de Kevin Kline, mostrando (mais uma vez) que é um dos atores mais versáteis e talentosos de Hollywood, em papel recusado por Warren Beatty e Kevin Costner e que encontra nele o intérprete ideal. E seu semblante de adorável pateta - que graças à sua ingenuidade consegue conquistar até os mais arraigados rivais políticos - encontra o contraponto perfeito em Frank Langella, sempre competente quando brinca de vilão.
Feito de pequenas piadas - como a participação sensacional de Oliver Stone como ele mesmo, discutindo uma provável conspiração na Casa Branca e a presença de inúmeros políticos comentando os acontecimentos que se desenrolam no roteiro - "Presidente por um dia" é uma comédia à moda antiga: charmosa, esperta e visualmente atraente, além de bem dirigida e interpretada com energia e simpatia. Não muda a vida de ninguém, mas diverte e inspira.
segunda-feira
FEITIÇO DO TEMPO
FEITIÇO
DO TEMPO (Groundhog day, 1993, Columbia Pictures, 103min) Direção:
Harold Ramis. Roteiro: Harold Ramis, Danny Rubin, estória de Danny
Rubin. Fotografia: John Bailey. Montagem: Pembroke J. Harring. Música:
George Fenton. Figurino: Jennifer Butler. Direção de arte/cenários:
David Nichols/Lisa Fischer. Produção executiva: C.O. Erickson. Produção:
Trevor Albert, Harold Ramis. Elenco: Bill Murray, Andie MacDowell,
Chris Elliott, Stephen Tobolowski, Michael Shannon. Estreia: 12/02/93
Imagine a situação: você passa um dia inteiro em uma cidade do interior, fazendo um trabalho que detesta, pega uma nevasca que o impede de ir embora e, no dia seguinte, ao acordar, percebe que o dia está prestes a repetir-se. Pra piorar ainda mais, o problema se estende por dias e dias e não parece dar sinal de que vai acabar em algum momento, ou seja, você está indefinidamente preso a um dos mais entediantes dias de sua vida. Pois é exatamente por isso que passa Phil Connors, o protagonista de "Feitiço do tempo", uma das mais divertidas e inteligentes comédias dos anos 90. Porém, interpretado pelo sempre genial Bill Murray, o protagonista do filme de Harold Ramis (também ator, mais conhecido por ter vivido um dos colegas de Murray no clássico oitentista "Os caça-fantasmas") não se faz de rogado e, espertamente, resolve utilizar o eterno dèja-vu a seu favor. Quem se diverte - e muito - é o público.
Acostumado a fazer rir sem precisar se esforçar muito, Murray deita e rola na pele de Connors, um arrogante e misantropo repórter que apresenta a previsão do tempo de um telejornal de Pittsburgh e que vai, a contragosto, pela quarta vez, cobrir uma festividade folclórica da pequena Punxsutawney, localizada na Pensilvânia. Lá ocorre, todo ano, o Dia da Marmota, quando o animalzinho prevê, de acordo com as lendas locais, a duração do inverno. Dotado de absoluto desdém pela cidade, pela festa e pelas lendas, Phil só quer acabar logo sua tarefa e ir embora, mas uma tempestade de neve o impede de retornar pra casa. Quando amanhece, uma surpresa: o mesmo dia o aguarda, com todos os detalhes se repetindo. Seu estranhamento inicial dá lugar ao desespero, no entanto, quando ele vê que o que parecia um pesadelo é uma bizarra realidade e que todos os dias são sempre o mesmo. Sabendo que ninguém mais nota a kafkiana situação, ele resolve então aproveitá-la em benefício próprio e parte para a conquista de sua nova produtora, Rita (Andie MacDowell).
De posse de um roteiro nunca aquém de genial - co-escrito por ele e Danny Rubin - Harold Ramis criou um pequeno clássico dos anos noventa, uma comédia romântica que enfatiza muito mais o humor do que o romance. Se a base da trama são as tentativas de Phil em seduzir Rita - que até então nunca havia lhe percebido senão como colega de trabalho - o caminho para o desfecho do romance é pavimentado com piadas sensacionais geradas apenas pela premissa central: assim, Phil se utiliza das informações que consegue em um dia para se dar bem no seguinte, comete suicidio várias vezes por saber que sempre irá acordar em sua cama ouvindo o despertador tocando Cher e aprende coisas tais como fazer escultura no gelo e tocar piano com maestria. Além disso, é claro, se torna um ser humano melhor, com se poderia esperar de um filme vindo de Hollywood (por mais cínico que ele seja em âmago). O que é bom em "Feitiço do tempo" é que, mesmo com o óbvio final feliz, não existe nele a obsessão do politicamente correto que estragou boa parte do humor do cinema norte-americano a partir justamente da década de 90.
Engraçado sem ser histérico e romântico sem ser piegas, "Feitiço do tempo" é, também, a comprovação das imensas qualidades de Bill Murray como ator. Transformando seu Phil Connors de um homem egoísta e antipático em um personagem querido pela plateia e por Rita (que descobre um novo homem por debaixo das inúmeras camadas de sarcasmo e arrogância), ele é o corpo e a alma do filme de Ramis, insuperável tanto em termos de humor físico quanto nos momentos de maior sutileza. Sorte de todos (do filme, do público e do diretor) que o papel não ficou com Chevy Chase, Steve Martin e John Travolta. A despeito do talento de todos, Bill Murray nasceu para viver o desagradável Phil Connors. E o resultado final comprova essa afirmação.
Imagine a situação: você passa um dia inteiro em uma cidade do interior, fazendo um trabalho que detesta, pega uma nevasca que o impede de ir embora e, no dia seguinte, ao acordar, percebe que o dia está prestes a repetir-se. Pra piorar ainda mais, o problema se estende por dias e dias e não parece dar sinal de que vai acabar em algum momento, ou seja, você está indefinidamente preso a um dos mais entediantes dias de sua vida. Pois é exatamente por isso que passa Phil Connors, o protagonista de "Feitiço do tempo", uma das mais divertidas e inteligentes comédias dos anos 90. Porém, interpretado pelo sempre genial Bill Murray, o protagonista do filme de Harold Ramis (também ator, mais conhecido por ter vivido um dos colegas de Murray no clássico oitentista "Os caça-fantasmas") não se faz de rogado e, espertamente, resolve utilizar o eterno dèja-vu a seu favor. Quem se diverte - e muito - é o público.
Acostumado a fazer rir sem precisar se esforçar muito, Murray deita e rola na pele de Connors, um arrogante e misantropo repórter que apresenta a previsão do tempo de um telejornal de Pittsburgh e que vai, a contragosto, pela quarta vez, cobrir uma festividade folclórica da pequena Punxsutawney, localizada na Pensilvânia. Lá ocorre, todo ano, o Dia da Marmota, quando o animalzinho prevê, de acordo com as lendas locais, a duração do inverno. Dotado de absoluto desdém pela cidade, pela festa e pelas lendas, Phil só quer acabar logo sua tarefa e ir embora, mas uma tempestade de neve o impede de retornar pra casa. Quando amanhece, uma surpresa: o mesmo dia o aguarda, com todos os detalhes se repetindo. Seu estranhamento inicial dá lugar ao desespero, no entanto, quando ele vê que o que parecia um pesadelo é uma bizarra realidade e que todos os dias são sempre o mesmo. Sabendo que ninguém mais nota a kafkiana situação, ele resolve então aproveitá-la em benefício próprio e parte para a conquista de sua nova produtora, Rita (Andie MacDowell).
De posse de um roteiro nunca aquém de genial - co-escrito por ele e Danny Rubin - Harold Ramis criou um pequeno clássico dos anos noventa, uma comédia romântica que enfatiza muito mais o humor do que o romance. Se a base da trama são as tentativas de Phil em seduzir Rita - que até então nunca havia lhe percebido senão como colega de trabalho - o caminho para o desfecho do romance é pavimentado com piadas sensacionais geradas apenas pela premissa central: assim, Phil se utiliza das informações que consegue em um dia para se dar bem no seguinte, comete suicidio várias vezes por saber que sempre irá acordar em sua cama ouvindo o despertador tocando Cher e aprende coisas tais como fazer escultura no gelo e tocar piano com maestria. Além disso, é claro, se torna um ser humano melhor, com se poderia esperar de um filme vindo de Hollywood (por mais cínico que ele seja em âmago). O que é bom em "Feitiço do tempo" é que, mesmo com o óbvio final feliz, não existe nele a obsessão do politicamente correto que estragou boa parte do humor do cinema norte-americano a partir justamente da década de 90.
Engraçado sem ser histérico e romântico sem ser piegas, "Feitiço do tempo" é, também, a comprovação das imensas qualidades de Bill Murray como ator. Transformando seu Phil Connors de um homem egoísta e antipático em um personagem querido pela plateia e por Rita (que descobre um novo homem por debaixo das inúmeras camadas de sarcasmo e arrogância), ele é o corpo e a alma do filme de Ramis, insuperável tanto em termos de humor físico quanto nos momentos de maior sutileza. Sorte de todos (do filme, do público e do diretor) que o papel não ficou com Chevy Chase, Steve Martin e John Travolta. A despeito do talento de todos, Bill Murray nasceu para viver o desagradável Phil Connors. E o resultado final comprova essa afirmação.
domingo
VIVOS
VIVOS
(Alive, 1993, Paramount Pictures, 120min) Direção: Frank Marshall.
Roteiro: John Patrick Shanley, livro de Piers Paul Read. Fotografia:
Peter James. Montagem: William Goldenberg, Michael Kahn. Música: James
Newton Howard. Figurino: Jennifer L. Parsons. Direção de arte/cenários:
Norman Reynolds/Tedd Kuchera. Produção: Kathleen Kennedy, Robert Watts.
Elenco: Ethan Hawke, Vincent Spano, Josh Hamilton, Bruce Ramsay, John
Newton, Ileana Douglas, Josh Lucas, John Malkovich. Estreia: 15/01/93
Uma das mais famosas tragédias da aeronáutica mundial, o Milagre dos Andes tornou-se manchete no início dos anos 70 nem tanto pelo acidente que vitimou 29 pessoas - entre o acidente e uma avalanche posterior - mas sim pelo sinistro meio com que os sobreviventes conseguiram manter-se depois do final das provisões alimentícias: utilizando a carne dos passageiros mortos, conservada pela neve da Cordilheira dos Andes. Considerando todos os elementos que a história - dramática, tensa, com todos os tipos de superação humana - carregava, até que demorou para chegar aos filmes via Hollywood (o México já havia realizado uma produção pouco conhecida fora dos limites da língua espanhola, chamada "Os sobreviventes dos Andes", em 1976). Mais de vinte anos se passaram até que Frank Marshall - produtor dos bem-sucedidos de Steven Spielberg e que havia começado a aventurar-se na direção com o fraco "Aracnofobia" (90) - assumisse o comando de "Vivos", um relato o mais preciso possível dos nefastos acontecimentos que começaram em 13 de outubro de 1972 e se estenderam até as vésperas do Natal, quando foram resgatados os últimos sobreviventes.
Com roteiro escrito por John Patrick Shanley - vencedor do Oscar por "Feitiço da lua" (87) - e baseado no livro de Piers Paul Read publicado em 1974, "Vivos" não se preocupa muito em apresentar seus personagens, partindo direto para a ação e deixando que o público vá descobrindo aos poucos quem são as pessoas com quem irá conviver pelas próximas duas horas (ou quais delas não conseguirão ultrapassar as barreiras que o destino irá interpor em seu caminho pela sobrevivência). Narrados em flashback por um dos passageiros - vivido na maturidade por John Malkovich - os acontecimentos se sucedem rapidamente na tela, ditando um ritmo que só vai diminuir no terço final, quando, cansados de esperar pelo resgate, alguns jovens partem em busca da salvação arriscando-se pela maior das cordilheiras do mundo. Dividindo a ação de seu filme em três atos bem definidos, Marshall consegue manter a atenção da plateia até os últimos minutos mesmo quando se sabe o desfecho da trama, uma prova de sua inteligência em não deixar que o mais bizarro da situação assuma importância exagerada a ponto de tornar-se um clímax precoce.
Não há dúvida de que a decisão dos sobreviventes do desastre em comer a carne de seus amigos mortos é assustadora e forte o bastante para ser o ponto principal da história narrada, mas "Vivos" não se detém desproporcionalmente a ela, focando-se também em todos os outros dias passados no gelo dos Andes, onde todos estavam expostos ao frio excessivo e ao perigo constante de avalanches (uma delas, aliás, é a responsável pela segunda tragédia do filme, apesar de filmada sem a grandiosidade do cinemão hollywoodiano, inadequada ao tom sério da produção). Desde as primeiras cenas - que mostram o acidente com um misto de realismo e cuidado para não chocar plateias mais suscetíveis - fica claro que a intenção de Marshall é contar a história de forma quase didática, sem maiores arroubos de criatividade, e isso ele faz com louvor. Seu cuidado em tratar dos atores, em especial, é perceptível quando se percebe que Ethan Hawke, mesmo sendo o nome mais conhecido do elenco, não é o protagonista heroico, dividindo as atenções com os ótimos Vincent Spano e Josh Hamilton (e é bom reparar ainda que estavam em cena Ileana Douglas e um iniciante Josh Lucas, que tem poucas falas antes de tornar-se uma das vítimas fatais da queda do avião).
É complicado descrever "Vivos" como diversão, uma vez que o público quase não tem tempo para respirar diante de tantos acontecimentos trágicos diante de si. Mas Frank Marshall aprendeu bem a lição em sua convivência com Spielberg e e transformou uma história de desespero e angústia em um entretenimento familiar, sem apelar para a violência gratuita ou o dramalhão exagerado. Sua visão de espetáculo é bem definida, equilibrando bom cinema com uma história real empolgante. Não é uma obra-prima da sétima arte, mas é um filme ao qual se assiste com interesse constante - e isso é muito mais do que se pode dizer de muitas obras de sucesso comercial.
Uma das mais famosas tragédias da aeronáutica mundial, o Milagre dos Andes tornou-se manchete no início dos anos 70 nem tanto pelo acidente que vitimou 29 pessoas - entre o acidente e uma avalanche posterior - mas sim pelo sinistro meio com que os sobreviventes conseguiram manter-se depois do final das provisões alimentícias: utilizando a carne dos passageiros mortos, conservada pela neve da Cordilheira dos Andes. Considerando todos os elementos que a história - dramática, tensa, com todos os tipos de superação humana - carregava, até que demorou para chegar aos filmes via Hollywood (o México já havia realizado uma produção pouco conhecida fora dos limites da língua espanhola, chamada "Os sobreviventes dos Andes", em 1976). Mais de vinte anos se passaram até que Frank Marshall - produtor dos bem-sucedidos de Steven Spielberg e que havia começado a aventurar-se na direção com o fraco "Aracnofobia" (90) - assumisse o comando de "Vivos", um relato o mais preciso possível dos nefastos acontecimentos que começaram em 13 de outubro de 1972 e se estenderam até as vésperas do Natal, quando foram resgatados os últimos sobreviventes.
Com roteiro escrito por John Patrick Shanley - vencedor do Oscar por "Feitiço da lua" (87) - e baseado no livro de Piers Paul Read publicado em 1974, "Vivos" não se preocupa muito em apresentar seus personagens, partindo direto para a ação e deixando que o público vá descobrindo aos poucos quem são as pessoas com quem irá conviver pelas próximas duas horas (ou quais delas não conseguirão ultrapassar as barreiras que o destino irá interpor em seu caminho pela sobrevivência). Narrados em flashback por um dos passageiros - vivido na maturidade por John Malkovich - os acontecimentos se sucedem rapidamente na tela, ditando um ritmo que só vai diminuir no terço final, quando, cansados de esperar pelo resgate, alguns jovens partem em busca da salvação arriscando-se pela maior das cordilheiras do mundo. Dividindo a ação de seu filme em três atos bem definidos, Marshall consegue manter a atenção da plateia até os últimos minutos mesmo quando se sabe o desfecho da trama, uma prova de sua inteligência em não deixar que o mais bizarro da situação assuma importância exagerada a ponto de tornar-se um clímax precoce.
Não há dúvida de que a decisão dos sobreviventes do desastre em comer a carne de seus amigos mortos é assustadora e forte o bastante para ser o ponto principal da história narrada, mas "Vivos" não se detém desproporcionalmente a ela, focando-se também em todos os outros dias passados no gelo dos Andes, onde todos estavam expostos ao frio excessivo e ao perigo constante de avalanches (uma delas, aliás, é a responsável pela segunda tragédia do filme, apesar de filmada sem a grandiosidade do cinemão hollywoodiano, inadequada ao tom sério da produção). Desde as primeiras cenas - que mostram o acidente com um misto de realismo e cuidado para não chocar plateias mais suscetíveis - fica claro que a intenção de Marshall é contar a história de forma quase didática, sem maiores arroubos de criatividade, e isso ele faz com louvor. Seu cuidado em tratar dos atores, em especial, é perceptível quando se percebe que Ethan Hawke, mesmo sendo o nome mais conhecido do elenco, não é o protagonista heroico, dividindo as atenções com os ótimos Vincent Spano e Josh Hamilton (e é bom reparar ainda que estavam em cena Ileana Douglas e um iniciante Josh Lucas, que tem poucas falas antes de tornar-se uma das vítimas fatais da queda do avião).
É complicado descrever "Vivos" como diversão, uma vez que o público quase não tem tempo para respirar diante de tantos acontecimentos trágicos diante de si. Mas Frank Marshall aprendeu bem a lição em sua convivência com Spielberg e e transformou uma história de desespero e angústia em um entretenimento familiar, sem apelar para a violência gratuita ou o dramalhão exagerado. Sua visão de espetáculo é bem definida, equilibrando bom cinema com uma história real empolgante. Não é uma obra-prima da sétima arte, mas é um filme ao qual se assiste com interesse constante - e isso é muito mais do que se pode dizer de muitas obras de sucesso comercial.
sábado
MARIDOS E ESPOSAS
MARIDOS
E ESPOSAS (Husbands and wives, 1992, TriStar Pictures, 103min) Direção e
roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E.
Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo
Loquasto/Susan Bode. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins.
Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Judy Davis,
Sydney Pollack, Liam Neeson, Juliette Lewis, Ron Rifkin, Blythe Danner.
Estreia: 14/9/92 (Festival de Toronto)
2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Judy Davis), Roteiro Original
Em 1992, o mundo do cinema foi pego de surpresa com um escândalo envolvendo um de seus mais discretos membros: o mesmo Woody Allen avesso à badalações e que preferia tocar jazz a frequentar as cerimônias de entrega do Oscar - estatueta que ele já havia ganho por "Noivo neurótico, noiva nervosa" (77) e "Hannah e suas irmãs" (86) - estampava as capas dos tabloides sensacionalistas graças ao controverso final de sua relação amorosa e profissional com a atriz Mia Farrow, que vinha desde 1980 e computava uma dúzia de filmes: aos 66 anos, Allen estava apaixonado por Soon-yi Previn, filha adotiva de Mia de apenas 21 anos. No rastro da polêmica, todo mundo se aproveitou: Farrow acusou o cineasta de pedofilia (fato que ainda em 2014 despertava acaloradas discussões), jornais venderam como nunca, os detratores de Allen encontraram finalmente um motivo para desprezá-lo (a despeito das afirmações de Farrow se mostrarem improcendentes com o passar do tempo) e a TriStar Pictures antecipou a estreia de "Maridos e esposas", comédia dramática que analisava os relacionamentos de dois casais de amigos - e que mostrava Woody se afastando de Mia por estar interessado em uma aluna décadas mais jovem - para lucrar em cima da polêmica. Por baixo de tanta gritaria, porém, o que pouca gente percebeu foi que, fofocas à parte, o filme era muito bom. Desde "Crimes e pecados" (89) o diretor/roteirista não encontrava um equilíbrio tão grande em drama, humor e insights sobre relações humanas.
Filmando em tom de documentário - câmera na mão, entrevistas diretas, cortes abruptos - "Maridos e esposas" é, na verdade, um Woody Allen típico, na forma e no conteúdo. Ele mesmo interpreta Gabe Roth, professor de literatura que acaba de escrever seu próprio livro e vive um relacionamento pacifico e quase tedioso com Judy (Mia Farrow), que está no segundo casamento. O filme começa quando eles recebem a visita de um casal de amigos, Jack (Sydney Pollack) e Sally (Judy Davis) que, para sua surpresa, anunciam sua separação. Tidos como um exemplo de relacionamento, Jack e Sally resolveram seguir caminhos diferentes na vida e tal fato cai como uma bomba na vida de Gabe e Judy, que lidam com a situação de maneiras opostas: enquanto Judy tenta servir de cupido entre Sally e Michael (Liam Neeson), um colega de trabalho pelo qual ela mesma está atraída, Gabe se envolve com Rain (Juliette Lewis), uma brilhante aluna com uma queda por homens com o triplo de sua idade.
Sob a luz do escândalo Soon-yi, "Maridos e esposas" foi dissecado exaustivamente pela mídia, pelo público e por qualquer pessoa que julgasse ter uma opinião sobre o caso. Não adiantou que fosse divulgado que o papel pensado para Mia Farrow fosse o de Sally e não o de Judy (uma passivo-agressiva neurastência e manipuladora): os conspiradores de plantão já afirmavam que Allen estava propositalmente dando à atriz um papel amargo e antipático. Não bastava que o final do filme contrariasse o final da história na vida real: todos achavam que o diretor estava justificando, em seu roteiro, as atitudes que tomara fora dos sets. Foram tantas teorias, tantos boatos transformados em fatos e opiniões pessoais tidas como verdades universais que o filme - enquanto produto cinematográfico - acabou ficando em segundo plano. Uma pena. Nem mesmo as duas indicações ao Oscar (roteiro e atriz coadjuvante) foram o suficiente para que fosse dada mais importância a ele. E isso que Judy Davis simplesmente arrasa na pele da insegura Sally: além de concorrer ao Oscar e ao Golden Globe, ela foi premiada pelos críticos de Los Angeles, pelo National Board of Review e pela National Society of Film Critics. Só a cena em que ela discute a relação com o ex-marido pelo telefone da casa do homem com quem está de saída para a ópera vale o filme todo.
À parte escândalos e teorias, "Maridos e esposas" é um Woody Allen da melhor safra. Inteligente, engraçado, perspicaz e realista, o roteiro nunca se deixa mergulhar na autocomplacência ou na crítica exagerada às relações, dando a todas elas uma dose de generosidade, independente de seu grau de neurose. Além do mais, é o ponto final de uma parceria que muito deu ao cinema americano nos anos 80. Uma chave de ouro que ainda será descoberta como um dos melhores filmes da década de 90.
2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Judy Davis), Roteiro Original
Em 1992, o mundo do cinema foi pego de surpresa com um escândalo envolvendo um de seus mais discretos membros: o mesmo Woody Allen avesso à badalações e que preferia tocar jazz a frequentar as cerimônias de entrega do Oscar - estatueta que ele já havia ganho por "Noivo neurótico, noiva nervosa" (77) e "Hannah e suas irmãs" (86) - estampava as capas dos tabloides sensacionalistas graças ao controverso final de sua relação amorosa e profissional com a atriz Mia Farrow, que vinha desde 1980 e computava uma dúzia de filmes: aos 66 anos, Allen estava apaixonado por Soon-yi Previn, filha adotiva de Mia de apenas 21 anos. No rastro da polêmica, todo mundo se aproveitou: Farrow acusou o cineasta de pedofilia (fato que ainda em 2014 despertava acaloradas discussões), jornais venderam como nunca, os detratores de Allen encontraram finalmente um motivo para desprezá-lo (a despeito das afirmações de Farrow se mostrarem improcendentes com o passar do tempo) e a TriStar Pictures antecipou a estreia de "Maridos e esposas", comédia dramática que analisava os relacionamentos de dois casais de amigos - e que mostrava Woody se afastando de Mia por estar interessado em uma aluna décadas mais jovem - para lucrar em cima da polêmica. Por baixo de tanta gritaria, porém, o que pouca gente percebeu foi que, fofocas à parte, o filme era muito bom. Desde "Crimes e pecados" (89) o diretor/roteirista não encontrava um equilíbrio tão grande em drama, humor e insights sobre relações humanas.
Filmando em tom de documentário - câmera na mão, entrevistas diretas, cortes abruptos - "Maridos e esposas" é, na verdade, um Woody Allen típico, na forma e no conteúdo. Ele mesmo interpreta Gabe Roth, professor de literatura que acaba de escrever seu próprio livro e vive um relacionamento pacifico e quase tedioso com Judy (Mia Farrow), que está no segundo casamento. O filme começa quando eles recebem a visita de um casal de amigos, Jack (Sydney Pollack) e Sally (Judy Davis) que, para sua surpresa, anunciam sua separação. Tidos como um exemplo de relacionamento, Jack e Sally resolveram seguir caminhos diferentes na vida e tal fato cai como uma bomba na vida de Gabe e Judy, que lidam com a situação de maneiras opostas: enquanto Judy tenta servir de cupido entre Sally e Michael (Liam Neeson), um colega de trabalho pelo qual ela mesma está atraída, Gabe se envolve com Rain (Juliette Lewis), uma brilhante aluna com uma queda por homens com o triplo de sua idade.
Sob a luz do escândalo Soon-yi, "Maridos e esposas" foi dissecado exaustivamente pela mídia, pelo público e por qualquer pessoa que julgasse ter uma opinião sobre o caso. Não adiantou que fosse divulgado que o papel pensado para Mia Farrow fosse o de Sally e não o de Judy (uma passivo-agressiva neurastência e manipuladora): os conspiradores de plantão já afirmavam que Allen estava propositalmente dando à atriz um papel amargo e antipático. Não bastava que o final do filme contrariasse o final da história na vida real: todos achavam que o diretor estava justificando, em seu roteiro, as atitudes que tomara fora dos sets. Foram tantas teorias, tantos boatos transformados em fatos e opiniões pessoais tidas como verdades universais que o filme - enquanto produto cinematográfico - acabou ficando em segundo plano. Uma pena. Nem mesmo as duas indicações ao Oscar (roteiro e atriz coadjuvante) foram o suficiente para que fosse dada mais importância a ele. E isso que Judy Davis simplesmente arrasa na pele da insegura Sally: além de concorrer ao Oscar e ao Golden Globe, ela foi premiada pelos críticos de Los Angeles, pelo National Board of Review e pela National Society of Film Critics. Só a cena em que ela discute a relação com o ex-marido pelo telefone da casa do homem com quem está de saída para a ópera vale o filme todo.
À parte escândalos e teorias, "Maridos e esposas" é um Woody Allen da melhor safra. Inteligente, engraçado, perspicaz e realista, o roteiro nunca se deixa mergulhar na autocomplacência ou na crítica exagerada às relações, dando a todas elas uma dose de generosidade, independente de seu grau de neurose. Além do mais, é o ponto final de uma parceria que muito deu ao cinema americano nos anos 80. Uma chave de ouro que ainda será descoberta como um dos melhores filmes da década de 90.
sexta-feira
O GUARDA-COSTAS
O
GUARDA-COSTAS (The bodyguard, 1992, Warner Bros, 129min) Direção: Mick
Jackson. Roteiro: Lawrence Kasdan. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem:
Donn Cambern, Richard A. Harris. Música: Alan Silvestri. Figurino: Susan
Nininger. Direção de arte/cenários: Jeffrey Beecroft/Lisa Dean.
Produção: Kevin Costner, Lawrence Kasdan, Jim Wilson. Elenco: Kevin
Costner, Whitney Houston, Gary Kemp, Bill Cobbs, Ralph Waite, Michele
Lamar Richars. Estreia: 25/11/92
2 indicações ao Oscar: Melhor Canção ("I have nothing", "Run to you")
Primeiro, na metade dos anos 70, o projeto que seria estrelado por Diana Ross e Steve McQueen foi cancelado por ser considerado muito controverso (vale lembrar que o racismo era uma chaga social ainda maior no período). Poucos anos depois, ainda na mesma década, ele voltou à baila, novamente com Ross cotada como estrela, mas dessa vez ao lado do ex-namorado Ryan O'Neal - e novamente ficou só no papel, justamente porque as diferenças entre os outrora amantes impediram que a coisa andasse. Foi preciso, então, praticamente outros vinte anos para que finalmente "O guarda-costas" visse a luz dos refletores. E, levando-se em consideração o estouro de bilheteria - e o status de clássico kitsch que amealhou com o passar do tempo, devido às inúmeras apresentações na televisão - o filme que conta a história de amor entre um guarda-costas branco e uma estrela da música pop negra (que vem a ser sua cliente) não poderia ter estreado em melhor momento. Estrelado por um Kevin Costner no auge da popularidade - ainda surfando na onda do prestígio acumulado pelos sete Oscar de seu "Dança com lobos" (90) e pela polêmica do genial "JFK" (91), de Oliver Stone - e pela cantora Whitney Houston - que estreava no cinema no rastro de seu êxito nas paradas de sucesso - "O guarda-costas" custou a bagatela de 25 milhões de dólares e arrecadou mais de 120 milhões só no mercado doméstico (EUA e Canadá), além de ver sua trilha sonora quebrar recordes de vendas, puxada pela música-chiclete da década, "I will always love you", hit country que Houston regravou especialmente para o filme e transformou em uma das canções mais emblemáticas de sua carreira.
Houston - que morreu precocemente, vítima de uma overdose em 2012 - não era uma atriz de muitas nuances, mas era dona de uma beleza delicada e de um carisma inegável, o que fez dela a escolha ideal para o papel da protagonista do filme de Mick Jackson, que até então não apresentava nada mais recomendável no currículo do que a comédia romântica "L.A. Story", estrelada por Steve Martin em 1991. Marron, vivida por Houston no filme, é uma cantora extremamente popular, linda, milionária e talentosa que, em vias de também ser reconhecida como grande atriz ao ser indicada ao Oscar, passa a ser ameaçada (via cartas anônimas e bombas caseiras) de morte. Para protegê-la, é contratado Frank Farmer (Kevin Costner), famoso como o melhor do ramo e por ter entre suas regras não trabalhar com celebridades. O pagamento generoso, porém, faz com que ele mude de ideia, mas logo ele percebe que terá muito trabalho pela frente: não apenas a equipe da cantora não é exatamente simpática à ideia de um estranho circulando e impondo ordens, mas a própria estrela, subestimando o perigo que corre, o trata apenas como mais um empregado. As coisas mudam, no entanto, quando ela se apaixona por ele, é correspondida, e o criminoso começa a dar sinais de estar mais perto do que se pensava.
O roteiro de "O guarda-costas" - escrito pelo cineasta Lawrence Kasdan - é repleto de clichês, mas eles desfilam pela tela banhados em um visual tão caprichado que é difícil não se deixar conquistar. A mansão de Marron - a mesma utilizada por Francis Ford Coppola na famosa cena da cabeça de cavalo em "O poderoso chefão" (72) - é espetacular, assim como as referências do cineasta aos clássicos "Metrópolis" (22), de Fritz Lang (citado plasticamente no videoclipe "Queen of the night") e "Yojimbo, o guarda-costas", de Akira Kurosawa (filme preferido do personagem de Costner, que o assiste em companhia de sua cliente/namorada). Tais momentos desviam a trama de sua previsibilidade e até mostram o dedo de Kasdan, um roteirista/diretor que sempre demonstrou carinho pelas tradições cinematográficas - haja visto sua revisita ao western em "Silverado" e seu script para o vitorioso "Caçadores da arca perdida" (81). Aqui ele equilibra o tom cerebral do cinema policial dos anos 70 com referências à cultura popular da década de 90, evitando tanto a violência excessiva quanto o erotismo que se tornaria ingrediente obrigatório em filmes de suspense após o sucesso de "Instinto selvagem" (92). O romance entre Farmer e Rachel beira o puritanismo (a cena de amor entre eles é basicamente um beijo e um corte para a manhã seguinte) e as sequências em que Frank precisa passar à ação soam mais como uma justificativa para enquadrar o filme no gênero policial do que uma necessidade orgânica do roteiro.
Apesar dos pesares, porém, "O guarda-costas" é um dos filmes-ícone dos anos 90 e sobrevive incólume a quaisquer críticas e esnobismo por parte dos cinéfilos mais intelectualoides. Suas constantes reprises na TV aberta ainda conquistam audiência, a trilha sonora entoada por Whitney Houston se mantém inesquecível e é difícil encontrar alguma pessoa que nunca tenha o assistido ao menos uma vez. Um clássico moderno, a despeito de suas falhas.
2 indicações ao Oscar: Melhor Canção ("I have nothing", "Run to you")
Primeiro, na metade dos anos 70, o projeto que seria estrelado por Diana Ross e Steve McQueen foi cancelado por ser considerado muito controverso (vale lembrar que o racismo era uma chaga social ainda maior no período). Poucos anos depois, ainda na mesma década, ele voltou à baila, novamente com Ross cotada como estrela, mas dessa vez ao lado do ex-namorado Ryan O'Neal - e novamente ficou só no papel, justamente porque as diferenças entre os outrora amantes impediram que a coisa andasse. Foi preciso, então, praticamente outros vinte anos para que finalmente "O guarda-costas" visse a luz dos refletores. E, levando-se em consideração o estouro de bilheteria - e o status de clássico kitsch que amealhou com o passar do tempo, devido às inúmeras apresentações na televisão - o filme que conta a história de amor entre um guarda-costas branco e uma estrela da música pop negra (que vem a ser sua cliente) não poderia ter estreado em melhor momento. Estrelado por um Kevin Costner no auge da popularidade - ainda surfando na onda do prestígio acumulado pelos sete Oscar de seu "Dança com lobos" (90) e pela polêmica do genial "JFK" (91), de Oliver Stone - e pela cantora Whitney Houston - que estreava no cinema no rastro de seu êxito nas paradas de sucesso - "O guarda-costas" custou a bagatela de 25 milhões de dólares e arrecadou mais de 120 milhões só no mercado doméstico (EUA e Canadá), além de ver sua trilha sonora quebrar recordes de vendas, puxada pela música-chiclete da década, "I will always love you", hit country que Houston regravou especialmente para o filme e transformou em uma das canções mais emblemáticas de sua carreira.
Houston - que morreu precocemente, vítima de uma overdose em 2012 - não era uma atriz de muitas nuances, mas era dona de uma beleza delicada e de um carisma inegável, o que fez dela a escolha ideal para o papel da protagonista do filme de Mick Jackson, que até então não apresentava nada mais recomendável no currículo do que a comédia romântica "L.A. Story", estrelada por Steve Martin em 1991. Marron, vivida por Houston no filme, é uma cantora extremamente popular, linda, milionária e talentosa que, em vias de também ser reconhecida como grande atriz ao ser indicada ao Oscar, passa a ser ameaçada (via cartas anônimas e bombas caseiras) de morte. Para protegê-la, é contratado Frank Farmer (Kevin Costner), famoso como o melhor do ramo e por ter entre suas regras não trabalhar com celebridades. O pagamento generoso, porém, faz com que ele mude de ideia, mas logo ele percebe que terá muito trabalho pela frente: não apenas a equipe da cantora não é exatamente simpática à ideia de um estranho circulando e impondo ordens, mas a própria estrela, subestimando o perigo que corre, o trata apenas como mais um empregado. As coisas mudam, no entanto, quando ela se apaixona por ele, é correspondida, e o criminoso começa a dar sinais de estar mais perto do que se pensava.
O roteiro de "O guarda-costas" - escrito pelo cineasta Lawrence Kasdan - é repleto de clichês, mas eles desfilam pela tela banhados em um visual tão caprichado que é difícil não se deixar conquistar. A mansão de Marron - a mesma utilizada por Francis Ford Coppola na famosa cena da cabeça de cavalo em "O poderoso chefão" (72) - é espetacular, assim como as referências do cineasta aos clássicos "Metrópolis" (22), de Fritz Lang (citado plasticamente no videoclipe "Queen of the night") e "Yojimbo, o guarda-costas", de Akira Kurosawa (filme preferido do personagem de Costner, que o assiste em companhia de sua cliente/namorada). Tais momentos desviam a trama de sua previsibilidade e até mostram o dedo de Kasdan, um roteirista/diretor que sempre demonstrou carinho pelas tradições cinematográficas - haja visto sua revisita ao western em "Silverado" e seu script para o vitorioso "Caçadores da arca perdida" (81). Aqui ele equilibra o tom cerebral do cinema policial dos anos 70 com referências à cultura popular da década de 90, evitando tanto a violência excessiva quanto o erotismo que se tornaria ingrediente obrigatório em filmes de suspense após o sucesso de "Instinto selvagem" (92). O romance entre Farmer e Rachel beira o puritanismo (a cena de amor entre eles é basicamente um beijo e um corte para a manhã seguinte) e as sequências em que Frank precisa passar à ação soam mais como uma justificativa para enquadrar o filme no gênero policial do que uma necessidade orgânica do roteiro.
Apesar dos pesares, porém, "O guarda-costas" é um dos filmes-ícone dos anos 90 e sobrevive incólume a quaisquer críticas e esnobismo por parte dos cinéfilos mais intelectualoides. Suas constantes reprises na TV aberta ainda conquistam audiência, a trilha sonora entoada por Whitney Houston se mantém inesquecível e é difícil encontrar alguma pessoa que nunca tenha o assistido ao menos uma vez. Um clássico moderno, a despeito de suas falhas.
quinta-feira
NADA É PARA SEMPRE
NADA
É PARA SEMPRE (A river runs through it, 1992, Allied
Filmmakers/Wildwood Enterprises, 130min) Direção: Robert Redford.
Roteiro: Richard Friedenberg, estória de Norman MacLean. Fotografia:
Philippe Rousselot. Montagem: Robert Estrin, Lynzee Klingman. Música:
Mark Isham. Figurino: Kathy O'Rear. Direção de arte/cenários: Jon
Hutman/Gretchen Rau. Produção executiva: Jake Eberts. Produção: Patrick
Markey,Amalia Mato, Robert Redford. Elenco: Tom Skerrit, Brad Pitt,
Craig Scheffer, Brenda Blethyn, Emily Lloyd, Joseph Gordon-Levitt.
Estreia: 30/10/92
3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Fotografia
Há de se reconhecer que, vez ou outra, a Academia de Hollywood acerta em cheio em suas escolhas. Um perfeito exemplo dessa afirmação é o Oscar de melhor fotografia concedido a Philippe Rousselot na cerimônia de 1993: as belíssimas sequências captadas por ele para o filme "Nada é para sempre", são o que há de melhor no filme de Robert Redford, baseado na estória real do escritor Norman MacLean e na sua relação com a família e a natureza (mais especificamente a pesca). Tratando cada cena como se fosse um quadro, o diretor de fotografia francês - que já tinha no currículo uma indicação à estatueta por seu trabalho em "Esperança e glória" (87) - transforma as vastas paisagens de Montana em um personagem de crucial importância para a trama, ditando o ritmo da narrativa e emoldurando em deslumbrantes takes a bela e trágica história contada com delicadeza e poesia por um inspirado Redford - que conseguiu os direitos de filmagem por muito tempo cobiçados por gente como William Hurt.
Diretor bissexto - ele assinou apenas três filmes em doze anos - Robert Redford ganhou um Oscar já por sua estreia na função, com o dramático "Gente como a gente", de 1980, que, assim como "Nada é para sempre", tem um núcleo familiar como base para uma história que versa sobre amor, amizade, perdas e o duro aprendizado que vem com elas. Um cineasta arraigado aos valores mais tradicionais da sociedade americana - apesar de sua postura política liberal - Redford traduz, em seus filmes, uma visão poética e melancólica de seu país, seja através de um vilarejo lutando por seus direitos básicos - tema de "Rebelião em Milagro" (88) - ou de uma família desestruturada pelo suicídio de um adolescente incapaz de lidar com suas inseguranças frente a um futuro incerto. Em "Nada é para sempre", ele viaja até o inicio do século XX para vasculhar os preconceitos, a religiosidade e a estrutura social de uma pequena cidade americana que serve como microcosmo de um país em construção. E encontra uma poderosa história, que conta de maneira suave e caudalosa como um rio em toda a sua extensão.
O cerne de "Nada é para sempre" é a pesca, esporte praticado de forma quase sagrada pelos homens da família MacLean (sim, o sistema é patriarcal, onde à mãe, vivida por Brenda Blethyn, cabem apenas os afazeres domésticos e as eventuais visitas à Igreja presbiteriana local onde seu marido é o pastor). O chefe da casa - vivido com a medida certa de aspereza e delicadeza por Tom Skerrit - é o pastor da pequena localidade onde moram, e educa os dois filhos com rigidez, dentro das normas religiosas e morais com que também foi criado. A história começa realmente quando o mais velho dos irmãos, Norman (Craig Scheffer), retorna, depois de seis anos distante, à casa dos pais. Formado mas ainda indeciso em relação à seu futuro, ele encontra o caçula, Paul (Brad Pitt em seu primeiro papel de destaque depois do furor que causou em "Thelma & Louise", de 1991) respeitado como jornalista, mas metido em diversas encrencas relacionadas a jogo e bebidas. O reencontro dos irmãos - de personalidades distintas mas profundamente ligados um ao outro - também acontece quando Norman se apaixona por Jesse (Emily Lloyd), de convições religiosas diferentes às de sua família e Paul resolve desafiar a preconceituosa sociedade local envolvendo-se com uma bela mestiça indígena.
Como se pode perceber, a história é o que menos importa em "Nada é para sempre", uma vez que nada conta de diferente. O que faz a diferença no filme - e o que o torna tão fascinante - é a união de fatores que forma o conjunto. Além da espetacular fotografia e da trilha sonora sutil de Mark Isham (que substituiu outra, de autoria de Elmer Bernstein), o roteiro de Richard Friedenberg - indicado ao Oscar - mantém a poesia da prosa de Norman MacLean, tanto na narração em off quanto em vários diálogos, valorizados pelo elenco bem escalado. Apesar de Craig Scheffer ser o protagonista, Brad Pitt rouba todas as cenas com seu carisma jovem que, logo em seguida o tornaria o astro mais popular de Hollywood. Tom Skerrit e Brenda Blethyn emocionam sem fazer alarde e até mesmo um pequeno Joseph Gordon-Levitt, em sua estreia no cinema, dá as caras com o jovem Norman. Filmado com precisão, delicadeza e a dose certa de emoção - leia-se sem apelar para o sentimentalismo - "Nada é para sempre" é para ser degustado com calma, paciência e serenidade. Como uma boa pescaria.
3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Fotografia
Há de se reconhecer que, vez ou outra, a Academia de Hollywood acerta em cheio em suas escolhas. Um perfeito exemplo dessa afirmação é o Oscar de melhor fotografia concedido a Philippe Rousselot na cerimônia de 1993: as belíssimas sequências captadas por ele para o filme "Nada é para sempre", são o que há de melhor no filme de Robert Redford, baseado na estória real do escritor Norman MacLean e na sua relação com a família e a natureza (mais especificamente a pesca). Tratando cada cena como se fosse um quadro, o diretor de fotografia francês - que já tinha no currículo uma indicação à estatueta por seu trabalho em "Esperança e glória" (87) - transforma as vastas paisagens de Montana em um personagem de crucial importância para a trama, ditando o ritmo da narrativa e emoldurando em deslumbrantes takes a bela e trágica história contada com delicadeza e poesia por um inspirado Redford - que conseguiu os direitos de filmagem por muito tempo cobiçados por gente como William Hurt.
Diretor bissexto - ele assinou apenas três filmes em doze anos - Robert Redford ganhou um Oscar já por sua estreia na função, com o dramático "Gente como a gente", de 1980, que, assim como "Nada é para sempre", tem um núcleo familiar como base para uma história que versa sobre amor, amizade, perdas e o duro aprendizado que vem com elas. Um cineasta arraigado aos valores mais tradicionais da sociedade americana - apesar de sua postura política liberal - Redford traduz, em seus filmes, uma visão poética e melancólica de seu país, seja através de um vilarejo lutando por seus direitos básicos - tema de "Rebelião em Milagro" (88) - ou de uma família desestruturada pelo suicídio de um adolescente incapaz de lidar com suas inseguranças frente a um futuro incerto. Em "Nada é para sempre", ele viaja até o inicio do século XX para vasculhar os preconceitos, a religiosidade e a estrutura social de uma pequena cidade americana que serve como microcosmo de um país em construção. E encontra uma poderosa história, que conta de maneira suave e caudalosa como um rio em toda a sua extensão.
O cerne de "Nada é para sempre" é a pesca, esporte praticado de forma quase sagrada pelos homens da família MacLean (sim, o sistema é patriarcal, onde à mãe, vivida por Brenda Blethyn, cabem apenas os afazeres domésticos e as eventuais visitas à Igreja presbiteriana local onde seu marido é o pastor). O chefe da casa - vivido com a medida certa de aspereza e delicadeza por Tom Skerrit - é o pastor da pequena localidade onde moram, e educa os dois filhos com rigidez, dentro das normas religiosas e morais com que também foi criado. A história começa realmente quando o mais velho dos irmãos, Norman (Craig Scheffer), retorna, depois de seis anos distante, à casa dos pais. Formado mas ainda indeciso em relação à seu futuro, ele encontra o caçula, Paul (Brad Pitt em seu primeiro papel de destaque depois do furor que causou em "Thelma & Louise", de 1991) respeitado como jornalista, mas metido em diversas encrencas relacionadas a jogo e bebidas. O reencontro dos irmãos - de personalidades distintas mas profundamente ligados um ao outro - também acontece quando Norman se apaixona por Jesse (Emily Lloyd), de convições religiosas diferentes às de sua família e Paul resolve desafiar a preconceituosa sociedade local envolvendo-se com uma bela mestiça indígena.
Como se pode perceber, a história é o que menos importa em "Nada é para sempre", uma vez que nada conta de diferente. O que faz a diferença no filme - e o que o torna tão fascinante - é a união de fatores que forma o conjunto. Além da espetacular fotografia e da trilha sonora sutil de Mark Isham (que substituiu outra, de autoria de Elmer Bernstein), o roteiro de Richard Friedenberg - indicado ao Oscar - mantém a poesia da prosa de Norman MacLean, tanto na narração em off quanto em vários diálogos, valorizados pelo elenco bem escalado. Apesar de Craig Scheffer ser o protagonista, Brad Pitt rouba todas as cenas com seu carisma jovem que, logo em seguida o tornaria o astro mais popular de Hollywood. Tom Skerrit e Brenda Blethyn emocionam sem fazer alarde e até mesmo um pequeno Joseph Gordon-Levitt, em sua estreia no cinema, dá as caras com o jovem Norman. Filmado com precisão, delicadeza e a dose certa de emoção - leia-se sem apelar para o sentimentalismo - "Nada é para sempre" é para ser degustado com calma, paciência e serenidade. Como uma boa pescaria.
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