segunda-feira

O JOGO DA IMITAÇÃO

O JOGO DA IMITAÇÃO (The imitation game, 2014, Black Bear Pictures, 114min) Direção Morten Tyldum. Roteiro: Graham Moore, livro de Andrew Hodges. Fotografia: Oscar Faura. Montagem: William Goldenberg. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Sammy Sheldon Differ. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Tatiana Macdonald. Produção executiva: Graham Moore. Produção: Nora Grossman, Ido Ostrowsky, Teddy Schwarzman. Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Rory Kinnear, Charles Dance, Mark Strong, Allen Leech, Matthew Beard. Estreia: 29/8/1 (Festival de Telluride)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Morten Tyldum), Ator (Benedict Cumberbatch), Atriz Coadjuvante (Keira Knightley), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado 

Se o filme fosse ruim e sua história não fosse fascinante e quase inacreditável ainda assim "O jogo da imitação" deveria ser obrigatório para qualquer um devido à sua mensagem pró-tolerância - conceito abstrato desconhecido para aberrações políticas nacionais cujos nomes não serão citados para que não tenham mais mídia do que já tem sem merecê-la mas que são extremamente perigosos em seu preconceito doentio e beligerante. A história real de Alan Turing, o matemático inglês que criou uma máquina capaz de decifrar códigos secretos da Alemanha nazista e assim abreviou a II Guerra em cerca de dois anos - poupando, por consequência, milhares de vidas - não é apenas uma história de guerra. Não é apenas uma ilustração de como o ser humano pode superar as máquinas com sua inteligência. Não é apenas sobre um período negro na história da humanidade. É também uma história sobre como a discriminação e a ignorância ainda conseguem suplantar o espírito humano a ponto de compactuar com a tragédia. Sim, Alan Turing, além de gênio, era homossexual, crime passível de prisão na Inglaterra da época, e optou pela castração química a ter que abandonar sua criação - que tinha raízes profundas que remetiam à sua infância e a seu primeiro e grande amor. Sim, "O jogo da imitação" é, além de um estupendo suspense de guerra, uma bela e emocionante história de amor.

Dirigido pelo norueguês Morten Tyldum - que merecidamente ficou entre os indicados ao Oscar de sua categoria em um ano repleto de injustiças cometidas pela Academia - "O jogo da imitação" é brilhante por pelo menos duas razões. Primeiro, porque não levanta a bandeira da homossexualidade para vender ingressos, preferindo deixar a vida pessoal de seu protagonista vir à tona aos poucos, quase com uma subtrama que se desvenda magistralmente no ato final, dando sentido e um toque emocional precioso à narrativa (mérito também do roteiro de Graham Moore). E segundo porque apresenta uma das atuações mais viscerais da temporada: na pele de Turing, o ator Benedict Cumberbatch mostra porque tornou-se, a partir de 2012, um dos intérpretes mais requisitados de Hollywood. Caminhando na tênue linha que separa o grotesco do sublime, ele constroi um protagonista que, a despeito de suas características quase clichês (é antissocial, é excêntrico, é um tanto arrogante), conquista a simpatia do público sem precisar apelar para a compaixão - até as explosivas sequências finais onde revela seu lado apaixonado e desmancha o coração de qualquer ser humano dotado de alma.


Baseado em um livro de Andrew Hodges, "O jogo da imitação" é, também, um fascinante passeio pelos bastidores da II Guerra menos retratados pelo cinema, bem mais afeito à batalhas sangrentas do que a lutas intelectuais. Sem deixar que as complicadas equações e códigos decifrados por Turing sejam empecilho para a compreensão da história, o roteiro busca concentrar-se na relação do protagonista com seus colegas de missão - também importantes para o desfecho do conflito - e com seu passado, contado através de flashbacks inseridos nos momentos corretos: ao contrário do que acontece com outros filmes que abusam do recurso, atrapalhando o ritmo com desnecessárias interrupções, a edição do veterano William Goldenberg é certeira, trabalhando em conjunto para desenhar o belíssimo produto final, assim como a impecável reconstituição de época e a trilha sonora inspirada de Alexandre Desplat. A direção de Tyldum é tão firme, aliás, que até mesmo Keira Knightley está bem em cena, deixando de lado suas caras e bocas costumeiras - ser indicada ao Oscar de coadjuvante talvez tenha sido mais reflexo de um ano fraco na categoria do que da excelência de seu trabalho, mas ela está decididamente contida e convincente.

Mas, sem dúvida nenhuma, o maior valor de "O jogo da imitação" é a força que imprime em seus minutos finais, quando fica claro à plateia o quanto a humanidade ainda precisa caminhar para se tornar digna de ser assim chamada. Saber que foi um homossexual um dos maiores responsáveis pelo fim de um período de terror no mundo, e que foi ele quem salvou milhares de vidas talvez - talvez, já que não dá para pedir razão a seres desprovidos dela - pudesse mudar o modo como muita coisa é vista e percebida ainda hoje, sete décadas depois do fim do conflito. E muito disso se deve à corajosa atuação de Benedict Cumberbatch. Seu trabalho irretocável enfrentou concorrência ferrenha no Oscar deste ano, principalmente do vencedor Eddie Redmayne em "A teoria de tudo" e Michael Keaton em "Birdman", ambos excelentes em seus filmes. Mas arrepios de emoção somente a sua interpretação ele conseguiu causar.

domingo

BIRDMAN ou (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA)

BIRDMAN ou (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA) (Birdman or (The unexcpected virtue of ignorance, 2014, New Regency Pictures, 119min) Direção: Alejandro González Iñárritu. Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dineralis Jr., Armando Bo. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Douglas Crise, Stephen Mirrione. Música: Antonio Sanchez. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/George De Titta Jr.. Produção executiva: Molly Conners, Sarah E. Johnson, Christopher Woodrow. Produção: Alejandro G. Iñárritu, John Lesher, Arnon Milchan, James W. Skotchdopole. Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Naomi Watts, Emma Stone, Zach Galifianakis. Estreia: 27/8/14 (Festival de Veneza)

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro González Iñárritu), Ator (Michael Keaton), Ator Coadjuvante (Edward Norton), Atriz Coadjuvante (Emma Stone), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro González Iñárritu), Roteiro Original, Fotografia
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator Comédia/Musical (Michael Keaton), Roteiro

Quem estava acostumado a ver o nome de Alejandro Gonzalez Iñárritu nos créditos de filmes densos e praticamente desprovidos de qualquer tipo de senso de humor como "Amores brutos" (00), "21 gramas" (03), "Babel" (06) e "Biutiful" (10) provavelmente levou um susto ao deparar-se com seu "Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)", que entrou firme e forte na disputa pelo Oscar de melhor filme de 2014 e deixou pra trás outros elogiados trabalhos da temporada - como "Boyhood, da infância à juventude" e "O Grande Hotel Budapeste" - ao abocanhar 4 estatuetas, incluindo filme e diretor.  Abandonado o pessimismo realista que permeava seus três primeiros filmes - e sua parceria com o roteirista Guillermo Arriaga - o cineasta mexicano realizou seu trabalho mais poético, recheado de metáforas brilhantes sobre a arte, a vida e as relações interpessoais e dotado de um tom onírico e sarcástico que contrasta com o habitual realismo de sua cinematografia anterior. Amparado ainda em uma atuação arrebatadora do até então canastrão Michael Keaton - a maior de suas ferramentas de metalinguagem - o filme de Iñárritu discute, sem parecer pedante ou hermético, o culto vazio às celebridades, a efemeridade da fama, o sensacionalismo e a irresponsabilidade da mídia (Internet incluída) ao contar a aparentemente simples história de um decadente ator popular de cinema tentando provar-se um intérprete sério ao estrelar um peça de teatro na Broadway. Tecnicamente impecável e sombriamente engraçado, "Birdman" é, acima de tudo, um filme sobre a paixão pelo teatro, pela busca incessante da transcendência através da arte.

Riggan Thompson (Michael Keaton) é o que pode-se chamar de um ex-astro: protagonista de uma série de três filmes onde interpretou um super-herói chamado Birdman, ele viu sua carreira entrar em decadência vertiginosa depois de ter recusado um quarto capítulo, há mais de vinte anos. Considerando-se um fracassado quase irrecuperável, ele resolve dar uma última cartada para retomar sua autoestima e conquistar o respeito da crítica e do público: escrever, dirigir, produzir e estrelar uma peça de teatro na Broadway. Sua insegurança, porém, ameaça a estreia do espetáculo, assim como a gama de personagens surreais que o rodeiam, como Mike Shiner (Edward Norton, sensacional como sempre), ator de métodos tradicionais que se considera superior à toda a equipe por ter construído sua carreira nos palcos e não nas telas, e a filha de Riggan, Sam (Emma Stone), que acaba de sair de uma clínica de reabilitação. Além dos problemas normais de uma produção teatral, o ídolo de uma geração de cinéfilos também precisa enfrentar a má-vontade pré-concebida da crítica e lidar com a voz do próprio Birdman - que surge como uma espécie de conselheiro invisível que o empurra adiante em suas ambições.


"Birdman" é uma festa para os olhos, os ouvidos e o cérebro da plateia. A fotografia de Emmanuel Lubezki integra-se à narrativa de forma tão orgânica que parece quase invisível diante dos ilusórios planos-sequência criados por Iñárritu, que conduzem a plateia pelos corredores estreitos do teatro onde se passa a maior parte da ação apenas para culminar em um clímax de extrema poesia e força dramática. O roteiro - equilibrado com maestria entre o humor cáustico e o drama existencial de uma geração exposta ao nada admirável mundo novo da tecnologia que torna tudo vorazmente fugaz - soa como um bálsamo para um público acostumado a diálogos pobres e ginasiais. E as questões que discute - a prostituição da arte, o amor pelo teatro, a dicotomia prestígio/popularidade, a falta de sentido na fama pela fama - nunca foram tão prementes quanto hoje em dia, quando talento vem sendo mercadoria dispensável na fogueira das vaidades do sucesso instantâneo. Somados a tudo isso há ainda o elenco em dias de extrema inspiração: Michael Keaton, no papel de sua vida (literalmente), tinha tudo para ganhar um Oscar de melhor ator, caso a Academia não tivesse se rendido ao óbvio e homenageado Eddie Redmayne por sua caracterização de Stephen Hawking. E Edward Norton - duas vezes indicado anteriormente e duas vezes descaradamente roubado - teve o azar de encontrar J.K. Simmons pela frente: uma vitória sua teria sido surpreendente, mas jamais injusta.

Talvez uma parte do público - menos disposta a experiências que fujam do banal - rejeitem "Birdman" por sua estética, sua narrativa, seu tema. Mas provavelmente não seja essa parte da audiência que Alejandro Gonzalez Iñárritu queira atingir com sua magistral fábula. Encantar-se com a inteligência e a sutileza de seu trabalho é privilégio de quem consegue sonhar acordado apesar dos pesares. "Birdman" é para quem tem a arte na alma.

quinta-feira

A 100 PASSOS DE UM SONHO

A 100 PASSOS DE UM SONHO (The hundred-foot journey, 2014, DreamWork Studio/Amblin Entertainment, 122min) Direção: Lasse Halstrom. Roteiro: Steven Knight, romance de Richar C. Morais. Fotografia: Linus Sandgren. Montagem: Andrew Mondshein. Música: A.R. Rahman. Figurino: Pierre-Yves Gayraud. Direção de arte/cenários: David Gropman/Sabine Delouvrier, Seema Kashyap, Marie-Laure Valla. Produção executiva: Carla Gardini, Caroline Hewitt, Jonathan King, Jeff Skoll. Produção: Juliet Blake, Steven Spielberg, Oprah Winfrey. Elenco: Helen Mirren, Om Puri, Manish Dayal, Charlotte Le Bon, Amith Shah, Michel Blanc. Estreia: 07/8/14

Lasse Hallstrom - o cineasta sueco que conquistou Hollywood com seu lírico "Minha vida de cachorro", pelo qual concorreu ao Oscar de melhor direção em 1988 - não é nenhum novato quando se trata de comandar filmes cuja gastronomia tem papel preponderante. Em 2000, ele dirigiu Juliette Binoche e Johnny Depp em "Chocolate", que, a despeito de ser apenas razoável abocanhou uma indicação ao Oscar de melhor filme, graças à máquina de marketing da Miramax. Passando por um período de pouca criatividade, assinando filmes fracos como "Querido John" e "Um porto seguro", ambos baseados em romances de Nicholas Sparks, Hallstrom voltou a acertar a mão justamente em uma produção que se utiliza da paixão pela comida como ingrediente central. Produzido por Steven Spielberg e Oprah Winfrey, "A 100 passos de um sonho" arrecadou mais de 50 milhões de dólares nos EUA - contra um orçamento modesto de pouco mais de 20 milhões - e ainda rendeu à Helen Mirren uma inesperada indicação ao Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical. Nada mais justo. Apesar de ser despretensioso e simples, o filme é uma deliciosa trama romântica e bem-humorada, que se aproveita do embate cultural entre franceses e indianos para construir uma delicada história de amor e fraternidade, ilustrada com momentos de puro tesão gastronômico.

Apesar do nome de Mirren encabeçar os créditos do filme, o verdadeiro protagonista de "A 100 passos de um sonho" é o jovem indiano Hassan Kadam (Manish Dayal), que chega a um vilarejo da França acompanhado do pai (Om Puri) e dos irmãos, disposto a recomeçar a vida depois da morte da mãe e dos problemas políticos locais que destruíram o restaurante da família. Depois de alugar um prédio que já havia abrigado outros estabelecimentos semelhantes, porém, o clã dos Kadam descobre o motivo pelo qual nada dá certo no lugar: exatamente em frente - a contados cem passos - fica o tradicional e respeitadíssimo restaurante "Le Saule Pleurer", comandado com mão de ferro pela dedicada Madame Mallory (Helen Mirren), que tem como objetivo máximo e urgente conseguir uma segunda estrela dos Guias Michelin - o que o colocaria em lugar de destaque na culinária mundial. Sentindo-se ameaçada pela presença dos estrangeiros, a elegante viúva começa, então, um jogo sujo de trapaças que acaba por aproximá-la ainda mais dos rivais. Enquanto isso, Hassan não consegue esconder a paixão que sente por Marguerite (Charlotte De Bon), uma funcionária de Madame Mallory.

Dividido em três atos bem discerníveis - a briga entre os restaurantes, a união entre as duas famílias e o sucesso profissional de Hassan - "A 100 passos de um sonho" sofre uma queda de ritmo em seu terço final, quando abandona sua premissa inicial para focar-se nos desafios de seu protagonista em Paris, mas tem a seu favor um elenco coeso, um roteiro simples e direto (escrito pelo mesmo Steven Knight que pouco depois dirigiria Bradley Cooper em "Pegando fogo", que também utiliza a culinária como pano de fundo) e o melhor trabalho de direção de Lasse Hallstrom desde "Regras da vida" (que lhe deu a segunda indicação ao Oscar da carreira, em 2000). Inspirado talvez pela beleza da cultura indiana ou talvez pela possibilidade de versar sobre a diversidade cultural através de uma arte que ainda não atingiu todo o seu potencial no cinema, o cineasta (que também é o nome por trás de inúmeros videoclipes do grupo pop ABBA) está em seus melhores momentos, deixando de lado o sentimentalismo de seus últimos trabalhos e acrescentando à história - baseada em livro de Richard C. Morais - uma sensibilidade visual própria e delicada, valorizada pelas atuações de Helen Mirren, Om Puri e Manish Dayal, que ilustram com perfeição a guerra cultural proposta pela trama.

Simpático e sem firulas, "A 100 passos de um sonho" é um filme que conquista pela despretensão. Sem apelar para efeitos visuais ou malabarismos narrativos, é uma obra que cativa aos poucos, graças a personagens desenvolvidos com um mínimo de inteligência e sutileza e uma história que mistura, em doses exatas, romance, drama, comédia e um pouquinho de crítica social. Impossível não se deixar envolver, apesar da duração um tanto excessiva - uns quinze minutos a menos e seria ainda melhor. Ainda assim, é uma bela opção para uma sessão descompromissada para os cinéfilos que valorizam uma boa história e um bom elenco - e Helen Mirren sempre vale uma espiada.


quarta-feira

LIVRAI-NOS DO MAL

LIVRAI-NOS DO MAL (Deliver us from Evil, 2014, Screen Gems/Jerry Bruckheimer Films, 118min) Direção: Scott Derrickson. Roteiro: Scott Derrickson, Paul Harris Boardman, livro de Ralph Sarchie, Lisa Collier Cool. Fotografia: Scott Kevan. Montagem: Jason Hellman. Música: Christopher Young. Figurino: Christopher Peterson. Direção de arte/cenários: Bob Shaw/Ellen Christiansen. Produção executiva: Paul Harris Boardman, Glenn S. Gainor, Chad Oman, Mike Stenson, Ben Waisbren. Produção: Jerry Bruckheimer. Elenco: Eric Bana, Édgar Ramírez, Olivia Munn, Chris Coy, Dorian Missick. Estreia: 24/6/14

O cineasta Scott Derrickson adora misturar filmes de terror com outros gêneros que aparentemente não permitiriam tal conexão. Foi isso que ele fez em "O exorcismo de Emily Rose", de 2005, baseado em uma história real e que caiu no gosto da crítica e do público ao equilibrar com segurança um assustador conto de horror com um filme de tribunal. Quase dez anos - e um fracasso no caminho, o remake da ficção científica "O dia em que a Terra parou", de 2008 - o diretor voltou a buscar na fusão de estilos a inspiração para um novo trabalho. Nascia "Livrai-nos do mal", que misturava elementos dos filmes sobre possessões demoníacas com uma tradicional narrativa de filme policial. Não deu certo. Vendido como baseado em fatos reais - descritos pelo detetive da polícia nova-iorquina Ralph Sarchie em seu livro de mesmo nome - o filme acabou apenas empatando seu orçamento de 30 milhões de dólares nas bilheterias americanas e não convenceu a crítica. E o pior é que motivos não faltaram para tal apatia: apesar de ter o sempre dedicado Eric Bana à frente do elenco - substituindo a escolha inicial para o papel, Mark Wahlberg - o filme de Derrickson tropeça justamente no que tinha tudo para ser seu maior trunfo, e fica a dever tanto como filme de terror quanto como policial.

Tudo começa muito bem e dá para perceber o talento do diretor em criar um clima e prender a atenção da plateia: em uma noite chuvosa em Nova York, o detetive Ralph Sarchie (Eric Bana) encontra o corpo sem vida de um bebê jogado em uma lixeira e é chamado, junto a seu parceiro, Jimmy (Chris Coy), a atender um chamado no zoológico da cidade, onde uma mulher, aparentemente sem motivo algum, acaba de atirar seu filho pequeno na jaula dos leões. Os dois policiais chegam quando a criança já está a salvo, mas investigações mais profundas ligam a mulher, Jane Crenna (Olivia Horton), a um trio de ex-soldados americanos com históricos de comportamento violento e imprevisível. Sentindo vibrações pouco saudáveis à sua volta, Sarchie - conhecido por seus colegas como um homem cujos pressentimentos são sempre confiáveis - se aproxima do Padre Mendoza (Edgar Ramírez), um sacerdote pouco convencional que tenta convencê-lo que a razão da violência que cerca Jane é um ritual demoníaco que eles devem, juntos, tentar impedir de acontecer.


A produção de "Livrai-nos do mal" é exemplar. A fotografia sombria e em tons amarelados dá a exata dimensão do suspense da história (ainda que seja escura demais em alguns momentos) e a trilha sonora (apesar de apelar para o clichê quando usa The Doors como elo entre o mal e suas vítimas) pontua com destreza um bom desenho de som, que enfatiza sem espaço para dúvidas todos os (vários) momentos de tensão que pontuam a narrativa. Em especial no clímax - poderoso, perturbador e chocante, mas infelizmente prejudicado por sua demora em acontecer - a união de todos esses elementos dramáticos acontece de forma orgânica e inteligente, oferecendo ao público o que ele espera quando assiste a um filme de terror. Mas acontece que, ao tentar amenizar o tom sobrenatural da trama e fincá-la mais na realidade, o roteiro acaba por diluir o impacto de suas melhores sequências.

Eric Bana está bem na pele do protagonista, acertando mais uma vez em uma atuação que ilustra com perfeição os conflitos internos de seu personagem - que são revelados ao espectador em uma cena especialmente interessante - e Edgar Ramírez também está no ponto como o imprevisível Padre Mendoza. Os sustos estão todos no lugar, a maquiagem é caprichada e a tensão é palpável. Por que, então, "Livrai-nos do mal" não funciona tão bem como deveria? Talvez seja culpa do roteiro, que insiste em fazer um cruzamento nem sempre satisfatório entre os dois gêneros, talvez seja culpa da direção de Derrickson, que tenta abraçar muitas ramificações da trama sem saber como dar conta de todas elas. A história começa muito interessante, mas vai se esvaziando cada vez mais, até chegar a um final que, a despeito de extremamente bem-filmado, carece de força dramática - é pouco provável que o espectador ainda esteja se importando com os personagens quando chega o momento mais crítico da história, e isso, como se sabe, é um pecado mortal para qualquer filme.

No fim das contas, "Livrai-nos do mal" é um filme de terror superior à média, com uma produção bem cuidada e uma nítida preocupação em encantar e chocar a plateia com seu visual caprichado. Porém, erra feio ao tropeçar em suas próprias ambições, se arrastando sem muito critério até um clímax capaz de atenuar seus defeitos. Vale uma sessão, mas não será tão marcante quanto poderia.

terça-feira

MALÉVOLA

MALÉVOLA (Maleficent, 2014, Walt Disney Pictures, 97min) Direção: Robert Stromberg. Roteiro: Linda Woolverton, baseado em "A bela adormecida", de Charles Perrault. Fotografia: Dean Semler. Montagem: Chris Lebenzon, Richard Pearson. Música: James Newton Howard. Figurino: Anna B. Sheppard. Direção de arte/cenários: Dylan Cole, Gary Freeman/Lee Sandales. Produção executiva: Sarah Bradshaw, Don Hahn, Angelina Jolie, Palak Patel, Matt Smith, Michael Vieira. Produção: Joe Roth. Elenco: Angelina Jolie, Elle Fanning, Sharlto Copley, Lesley Manville, Imelda Staunton, Juno Temple, Sam Riley. Estreia: 28/5/14

Indicado ao Oscar de Melhor Figurino

A trama em si todo mundo conhece, no mínimo desde a estreia de "A bela adormecida" versão Walt Disney, de 1959: uma jovem princesa, vítima de uma maldição jogada sobre ela ainda no berço, cai em um sono profundo do qual só poderá sair depois de um beijo de amor verdadeiro. Clássico absoluto e adorado por crianças e adultos de todas as idades, o desenho animado tinha como um de seus maiores destaques a responsável pela triste sina da delicada Aurora, a fada má Malévola, que entrou para a história, assim como a Madrasta da Branca de Neve, como uma das maiores vilãs do estúdio do Mickey. Merecedora de um filme só para si, a charmosa e assustadora personagem - criada por Charles Perrault no conto publicado originalmente em 1697 - encontrou a intérprete ideal em Angelina Jolie: no filme de estreia de Robert Stromberg (apropriadamente batizado com o nome da personagem) a estonteante filha do ator Jon Voight mostra que nenhuma outra atriz de sua geração seria uma Malévola tão perfeita.

Também produtora-executiva do filme (cujo projeto já existia há algum tempo, com o nome do diretor Tim Burton atrelado a alguns estágios de produção), Jolie aproveitou a onda de reinvenções de histórias infantis que deu origem à "Espelho, espelho meu" e "Branca de Neve e o caçador" (ambos de 2012) para mostrar um lado da história da Bela Adormecida até então desconhecido ou meramente imaginado. Sob um roteiro esperto e romântico de Linda Woolverton - que subverte expectativas e joga uma luz de melancolia e solidão à nova protagonista - o filme conquistou o público e a crítica com sua mistura bem equilibrada de respeito à obra original (a cena do batizado de Aurora, por exemplo, é extremamente semelhante à do desenho animado, com a fala de Malévola sendo repetida literalmente devido à exigência de Jolie) e a ousadia de desconstruir elementos-chave da narrativa, como é o caso do príncipe Felipe (Brenton Twaithes, visto também em "Sangue jovem", ao lado de Ewan McGregor), que tem bem menos importância no desfecho da trama do que se poderia esperar. Com uma renda superior a 240 milhões de dólares arrecadados só nos EUA, o filme já tem continuação garantida para 2017 - o que a sequência irá contar ainda é uma incógnita.

Visualmente deslumbrante, "Malévola" começa estabelecendo o tom da narrativa, mostrando à plateia a infância de Malévola, uma fada poderosa que vive em um reino povoado de seres especiais e mágicos - mas que sofre com o constante assédio dos seres humanos que habitam um reino bastante próximo. Ainda criança, ela salva o pequeno Stefan de ser hostilizado por seus companheiros da floresta e surge entre eles uma afinidade instantânea que aos poucos vai se transformando em amor. Porém, ao ficar adulto (e assumir as feições de Sharlto Copley, de "Distrito 9"), Stefan é tomado por uma ambição desmedida que acaba o levando a magoar profundamente a amiga de infância (em uma cena dolorosa e triste). Coroado rei, ele torna-se pai de uma linda menina a que dá o nome de Aurora - e, em busca de vingança, Malévola solta a maldição que todos conhecem. Escondida no meio da floresta por três fadinhas atrapalhadas, a menina cresce sob a vigilância e proteção da bela vilã - até que o dia previsto na cerimônia de batismo chega.

Contar os desdobramentos da reinvenção criada novamente pelos estúdios Disney é privar o espectador de algumas surpresas muito interessantes e estragar o final - menos romântico que o original, mas bem mais emocionante. Sem privar a plateia de boas cenas de ação e efeitos visuais competentes que justificam o orçamento generoso de 180 milhões de dólares, "Malévola"

ainda se beneficia de um desenho de produção deslumbrante e de um figurino (indicado ao Oscar) que acentua o tom de fantasia e sonho proposto pela narrativa - não exageradamente forte a ponto de incomodar o público infantil nem excessivamente pueril para alienar o espectador adulto. Belo, emocionante e criativo, é um filme que merece o sucesso que fez e prova de novo o talento de Angelina Jolie - capaz de dar consistência até mesmo a um conto de fadas.

segunda-feira

ORGULHO E ESPERANÇA

ORGULHO E ESPERANÇA (Pride, 2014, Pathé/BBC Films, 119min) Direção: Matthew Warchus. Roteiro: Stephen Beresford. Fotografia: Tat Radcliffe. Montagem: Melanie Oliver. Música: Christopher Nightingale. Figurino: Charlotte Walter. Direção de arte/cenários: Simon Bowles/Liz Griffiths. Produção executiva: James Clayton, Christine Langan, Cameron McCracken. Produção: David Livingstone. Elenco: Ben Schnetzer, Abram Rooney, Jim McManus, George MacKay, Dominic West, Paddy Considine, Bill Nighy, Imelda Staunton. Estreia: 23/5/14 (Festival de Cannes)

Entre 1984 e 1985, uma greve de mineiros de carvão - paralisados por melhores condições de trabalho e salários mais justos - tornou-se uma grande pedra no sapato da então primeira-ministra Margaret Tatcher e mobilizou toda a Inglaterra. Tal greve, que foi o pano de fundo do lírico "Billy Elliot" (2000) é também o catalisador da trama de "Orgulho e esperança", bela comédia dramática inspirada em fatos reais que foi indicada ao Golden Globe de melhor comédia/musical de 2014. Com um elenco coadjuvante que inclui nomes respeitados como Bill Nighy, Imelda Staunton e Paddy Considine, o trabalho do britânico Matthew Marcus - cujo único cartão de visitas em longas-metragens até então havia sido o pouco visto "Simpático", estrelado por Sharon Stone e Nick Nolte (e devidamente ignorado) em 1999 - consegue o feito de ser acessível tanto ao público simpatizante ao movimento gay quanto ao espectador que busca apenas uma história bem contada e emocionante. Tudo ao mostrar, com delicadeza e bom-humor, a força da união, da solidariedade e da tolerância.

O protagonista do filme - se é que um filme com tantos personagens importantes tem um protagonista - é Mark Ashton (Ben Schnetzer), um jovem londrino que, tocado pela situação complicada pela qual passam os mineiros em greve e suas famílias, tem a ideia de fundar uma associação para arrecadar dinheiro que os impeça de passar necessidades. Surge, então, o "Gays e lésbicas em apoio aos Mineiros em Greve", que, com a ajuda de um grupo de amigos, desafia o preconceito e o desprezo de muitos conterrâneos contrários aos grevistas (considerados ilegais) e aos próprios jovens gays da região. Depois de um tempo - e já com uma boa quantia em mãos - o clube entra em contato com a Associação de Mineiros de um pequeno vilarejo do interior, cujo líder é o racional e empático Dai (Paddy Considine) e marcam de viajar para lá e entregar sua colaboração. A chegada do grupo, porém, não é das mais bem-sucedidas: apesar do caloroso carinho de alguns moradores - em especial as mulheres - os jovens gays descobrem que sua sexualidade pode ser um empecilho à união entre os dois times. Começa então uma luta para que o preconceito não atrapalhe uma relação que pode ser muito benéfica a ambos.


"Orgulho e esperança" é um filme de muitos acertos, boa parte deles graças ao roteiro esperto, ágil e simples de Stephen Beresford, que consegue contar sua história central - o embate entre dois grupos radicalmente diferentes com objetivos comuns - sem deixar de lado a atenção às figuras essenciais ao drama. Sem esquecer que foi justamente no princípio dos anos 80 que a AIDS começou a fazer suas vítimas, Beresford a coloca como uma sombra de angústia e medo diante de seus personagens - mesmo que de forma discreta e sem alarde. Sem sexualizar em excesso os protagonistas - que se beijam, dormem juntos e são abertamente gays mas não são vistos em cenas eróticas que destoariam da narrativa - o roteirista busca conquistar a simpatia do público médio, mas o faz com inteligência, nunca deixando de sublinhar o orgulho (afinal o título original) de uma sexualidade sem culpa e sem neuroses. E até mesmo quando caminha pelo drama, consegue ser sutil e evitar o óbvio. É assim que conta a saída do armário do jovem Joe (George MacKay) - que começa o filme sem ter os 21 anos de idade que fariam de sua homossexualidade algo legal - e a situação mal-resolvida de Gethin (Andrew Scott) com sua mãe - e até mesmo a violência de que o rapaz é vítima.

Sem atolar na superficialidade mesmo quando tenta contar várias histórias ao mesmo tempo - um mérito que deve ser dividido com a edição de ritmo impecável - e ao fazer rir e chorar ao mesmo tempo, Matthew Marcus faz um gol de placa com "Orgulho e esperança". Não apenas conta uma história relevante e inspiradora - que ilustra como poucas a noção de união entre diferenças - como desmistifica muitas lendas do universo homossexual, graças a diálogos carregados de ironia e um delicioso sarcasmo britânico. O equilíbrio certeiro entre a graça e o drama, entre a risada fácil e as lágrimas de emoção é o ingrediente secreto do filme, que ainda encontra espaço para surpreender o espectador a fugir, em alguns momentos, do previsível, e entregar cenas carregadas de um humanismo irresistível. "Orgulho e esperança" é uma pequena obra-prima do gênero. Não percam!

domingo

MOMMY

MOMMY (Mommy, 2014, Metafilms/SODEC, 139min) Direção e roteiro: Xavier Dolan. Fotografia: André Turpin. Montagem: Xavier Dolan. Música: Noia. Figurino: Xavier Dolan. Direção de arte/cenários: Colombe Raby/Jean-Charles Claveau. Produção: Xavier Dolan, Nancy Grant. Elenco: Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon, Suzanne Clément, Patrick Huard, Alexandre Goyette. Estreia: 22/5/14 (Festival de Cannes)

Prêmio do Júri no Festival de Cannes

Em 2009, o jovem Xavier Dolan, então com meros 20 anos de idade, lançou o autobiográfico "Eu matei a minha mãe", em que narrava a difícil convivência de um adolescente homossexual com sua mãe - colocando-o como vítima de uma criação severa e opressiva. Cinco anos, quatro filmes e uma série de elogios e prêmios depois, o enfant terrible do cinema canadense surpreendeu ao demonstrar uma precoce maturidade em seu quinto longa-metragem. Em "Mommy"", ele inverte o ponto-de-vista de seu filme de estreia e, ciente das dificuldades pelas quais sua mãe teve de passar ao criar um filho não exatamente convencional, entrega um drama potente, belamente fotografado e interpretado com os nervos à flor da pele. Não à toa, levou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e angariou os mais entusiasmados aplausos de sua carreira até então.

Abdicando do papel central - afinal o personagem é um adolescente de 15 anos e nem mesmo com seu rosto juvenil ele convenceria o público - Dolan tem o controle quase total de seu filme, assinando a obra como diretor, roteirista, produtor e editor. Poderia ser apenas mais um exercício cansativo de autossuficiência se o rapaz não tivesse talento bastante para dar conta de tantas responsabilidades. Ao optar até mesmo por um formato de fotografia que enfatiza as limitações claustrofóbicas do jovem protagonista (e que se abre em uma já antológica sequência ao som de "Wonderwall", da banda inglesa Oasis), o jovem cineasta demonstra uma segurança ímpar no desenvolvimento do emocional material que tem em mãos, conseguindo até mesmo conter a tendência ao exagero dramático que caracterizava seus primeiros trabalhos. Cuidadoso na escolha de cada detalhe de seu filme, Dolan atinge o coração do espectador ao sublinhar principalmente a relação complicada entre seus dois protagonistas - visceralmente interpretados por Antoine-Olivier Pilon e Ann Dorval (que, sintomaticamente, também era a atriz central de "Eu matei a minha mãe").


Dorval - intensa, entregue, à flor da pele - dá vida à Diane Després, uma viúve jovem e atraente que dá duro como faxineira para sustentar-se e ao filho único, Steve (Antoine Olivier-Pilon), que vive em uma instituição psiquiátrica desde que foi diagnosticado como portador da Síndrome do Déficit de Atenção. Quando ela toma a decisão de retirá-lo do hospital - impulsionada pelo fato do rapaz ter agredido violentamente um colega - sua vida se transforma. Steve é extremamente inconstante e oscila radicalmente entre a docilidade e a agressividade, além de ser incapaz de encaixar-se nos moldes tradicionais de ensino. É aí que entra em cena Kyla (Suzanne Clemént), uma vizinha que s oferece para dar aulas particulares para ele e torna-se amiga íntima de Diane. Dona de um trauma familiar que envolve a morte de uma criança, ela acaba por ser testemunha da relação extrema entre mãe e filho, que atinge níveis surpreendentes de violência física e psicológica. No entanto, ela não consegue deixar de notar, também, o amor obsessivo de um pelo outro.

Um filme capaz de deixar o coração do espectador apertado e em lágrimas, "Mommy" é mais do que apenas o filme da maturidade de Xavier Dolan: é um poderoso drama familiar, repleto de momentos antológicos e sequências dolorosamente realistas, escritas e interpretadas com uma naturalidade admiráveis. Com cenas intensamente tristes - em especial perto do desfecho, razoavelmente otimista - e uma trilha sonora que mistura Oasis, Dido, Lana Del Rey, Counting Crows e Andrea Bocelli, o filme de Dolan funciona bem tanto como cinema - é tecnicamente o mais bem-acabado do cineasta - quanto como pedido de desculpas por seus dramas e excessos juvenis. Um trabalho avassalador e inesquecível, de deixar qualquer um de queixo caído.

A CADELA (1931)

A CADELA (La chienne, 1931, Les Étbalissements Braunberger-Richebé, 91min) Direção: Jean Renoir. Roteiro: Jean Renoir, baseado no romance ...