domingo

INVENCÍVEL

INVENCÍVEL (Unbroken, 2014, Legendary Pictures, 137min) Direção: Angelina Jolie. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, Richard LaGravenese, William Nicholson, livro de Laura Hillebrand. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: William Goldenberg, Tim Squyres. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Jon Huttman/Lisa Thompson. Produção executiva: Mick Garris, Jon Jashni, Thomas Tull. Produção: Matthew Baer, Angelina Jolie, Erwin Stoff, Clayton Townsend. Elenco: Jack O'Connell, Domhnall Gleeson, Garrett Hedlund, Miyavi, Finn Witrock, Jai Courtney. Estreia: 17/11/14 (Sydney)

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Edição de Som, Mixagem de Som


Quando se sabe dos detalhes da vida do norte-americano Louis Zamperini – contada na biografia escrita por Laura Hildebrand – uma das primeiras histórias que veem à mente é a do sofredor Jó, que, testado pelo inclemente Deus do Velho Testamento, pagou seus pecados com juros altíssimos, sentindo na pele a ira (ou o sadismo) do Criador. Porém, “Invencível” – segunda incursão da atriz Angelina Jolie como cineasta e a versão para as telas do livro de Hildebrand – não tem a intenção de fazer um paralelo religioso entre as agruras do jovem atleta feito prisioneiro de um campo de trabalhos forçados no Japão da II Guerra Mundial e qualquer personagem bíblico. Ainda que algumas imagens do filme remetam à ícones cristãos – Zamperini erguendo um pesado corte de madeira sob a supervisão cruel de um comandante inimigo, por exemplo – e sua mensagem final glorifique o perdão como um dos mais nobres sentimentos, “Invencível” é apenas, em uma visão mais direta e óbvia, um grande drama de guerra, com todos os elementos necessários para conquistar os fãs do gênero.
Emolduradas pela impecável fotografia do veterano Roger Deakins (indicado ao Oscar pelo trabalho) e embaladas pela trilha sonora discreta e eficiente de Alexandre Desplat, as desventuras de Zamperini servem de matéria-prima para um filme que é um passo à frente na carreira da bela Jolie como diretora. Depois do pouco visto “Na terra do amor e do ódio”, falado em bósnio e relativamente bem-sucedido junto à crítica - já que até uma indicação ao Golden Globe de melhor filme em língua estrangeira arrebatou – Jolie demonstra uma segurança ímpar ao contar uma história tão recheada de lances dramáticos que até parece mentira. Sem ousadias narrativas ou lapsos de brilhantismo, a atriz vencedora do Oscar de coadjuvante por “Garota, interrompida” (99) constrói um filme de estrutura clássica e linear, explorando mais a via-crúcis de seu protagonista do que artifícios técnicos e/ou sentimentalistas. Apesar de sua tendência em enfatizar talvez em excesso a força do espírito humano diante das adversidades – que parece ser o tema subjacente de toda a trama – Jolie consegue se manter à margem do piegas na maior parte do tempo, contando para isso com a ajuda de um roteiro enxuto e direto escrito pelos experientes irmãos Coen (Joel e Ethan) e William Goldenberg.
Muito criticado por não acrescentar nada de novo a um gênero já apinhado de clássicos considerados além do bem e do mal, “Invencível” decepcionou àqueles que viam nele um forte candidato ao Oscar 2015 – a Academia, que adora histórias de superação pessoal e filmes passados durante os duros anos da II Guerra, praticamente ignorou a produção, indicando-a apenas a alguns prêmios técnicos não convertidos em estatuetas. A recepção bem menos calorosa do que o esperado não faz jus à beleza do filme, no entanto. Cercada por uma equipe de profissionais de primeira linha, Angelina Jolie conta sua história com delicadeza feminina, suavizando até mesmo momentos de extrema violência com enquadramentos que buscam a beleza como forma de atenuar a dor e a crueldade. Longe da crueza de filmes que retratam o mesmo período, “Invencível” se destaca por ver a torpeza aflorada em homens no seu limite envernizada por uma beleza plástica irretocável e quase poética. Mesmo sem poupar a plateia de cenas decididamente fortes, a sra. Brad Pitt o faz com elegância e uma sinceridade de que só cineastas ainda não tornados cínicos pela indústria de Hollywood conseguem manter.



E talvez essa visão ainda romântica e generosa de Jolie é que tenha lhe aproximado da história de Louis Zamperini, um homem que, apesar de todas as provações pelas quais passou, ainda manteve a fé em Deus e na bondade humana. Criança problema tornada um promissor jovem atleta – chegou a correr nas Olimpíadas de 1940 – Zamperini foi convocado para defender os EUA na II Guerra. Seu primeiro revés foi ver seu avião abatido pelas forças inimigas e passar mais de 45 dias em mar aberto, ao lado de dois companheiros, passando fome e sede, lutando contra o medo de tubarões e sofrendo de constantes insolações. O segundo talvez tenha sido ainda pior: resgatado por uma embarcação japonesa, viu-se, ao lado de outros soldados, prisioneiro em um campo de trabalhos forçados: vítima constante de espancamentos e humilhações por parte do comandante Watanabe (o astro pop japonês Miyavi, cuja androginia torna seus confrontos com o protagonista ainda mais interessantes), Zamperini agarra-se à sua crença religiosa para manter-se de pé e vivo até o fim do conflito. Corajoso e íntegro, ele chega a recusar, por lealdade a seu país, a oportunidade de deixar o campo e aliar-se aos inimigos.
Interpretado pelo ótimo Jack O’Connell – ator irlandês desconhecido do grande público mas dono de um talento que lhe aponta um futuro alvissareiro – Louis Zamperini é um personagem de proporções épicas, um herói moderno que luta pela vida e pela dignidade sem precisar usar de superpoderes além da fé e da resiliência quase inacreditável. O’Connell transmite a sensação exata de dor e força do personagem com a segurança de um veterano, carregando nas costas toda a responsabilidade de convencer o público de sua garra inabalável. Sua transformação de promessa do esporte à prisioneiro de guerra é crível e impressionante – ajudada pela maquiagem discreta e eficaz – e é inegável que boa parte da credibilidade da história passa por suas mãos. Mais um crédito para Jolie, que escolheu acertadamente seu ator central e soube dirigí-lo com a firmeza necessária para impedir exageros grotescos ou minimalismos enfadonhos. Diante de O’Connell fica difícil ao espectador não se deixar envolver e torcer por um final feliz.
Mesmo não sendo um filme perfeito – o ritmo em determinados momentos cai um pouco e os flashbacks iniciais soam deslocados da narrativa, uma vez que não voltam a acontecer no decorrer da história – “Invencível” é uma obra digna de figurar entre os melhores dramas de guerra já realizados em Hollywood. Tecnicamente impecável (até mesmo nas cenas de ação aérea a atriz demonstra habilidade e competência) e dramaticamente eficiente, conquista pela força da trama, pela inteligência na escolha de seus profissionais e principalmente pela mensagem de tolerância e paz em um mundo tão necessitado de tais sentimentos. Não se poderia esperar menos de uma atriz tão militante em relação à paz mundial. “Invencível” é um belo drama de guerra que termina deixando o espectador pensando somente na paz. Um belo exemplo.

sábado

SELMA: UMA LUTA PELA IGUALDADE

SELMA: UMA LUTA PELA IGUALDADE (Selma, 2014, Cloud Eight Films, 128min) Direção: Ava DuVernay. Roteiro: Paul Webb. Fotografia: Bradford Young. Montagem: Spencer Averick. Jason Moran. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Elizabeth Keenan. Produção executiva: Nik Bower, Ava DuVernay, Paul Garnes, Cameron McCracken, Diarmuid McKeown, Nan Morales, Brad Pitt. Produção: Christian Colson, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Oprah Winfrey. Elenco: David Oyelowo, Tim Roth, Oprah Winfrey, Carmen Ejogo, Tom Wilkinson, Giovanni Ribisi, Common, Dylan Baker, Cuba Gooding Jr., Alessandro Nivola. Estreia: 11/11/14

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Canção Original ("Glory")
Vencedor do Oscar de Melhor Canção ("Glory") 
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção Original ("Glory")

Em 2015, um ano marcado por omissões escandalosas, indicações discutíveis e surpresas um tanto desagradáveis na lista de indicados ao Oscar - pensando bem, em qual ano isso não acontece? - talvez a questão mais debatida dentre os fãs de cinema e os ditos "especialistas de plantão" disse respeito à esnobada quase geral dada ao filme "Selma: uma luta pela igualdade", que muitos julgavam merecedor de figurar entre os destaques da cerimônia. Mesmo indicada na categoria principal, a produção dirigida por Ava DuVernay não conseguiu conquistar os votos dos eleitores da Academia em outros páreos importantes, como direção (Ava seria a primeira mulher afro-americana a concorrer ao Oscar) e ator (David Oyelowo), o que acarretou uma interminável discussão sobre a falta de miscigenação racial na festa mais importante do cinema - uma polêmica que estendeu-se até o ano seguinte, quando a situação repetiu-se com ainda mais força. Enquanto alguns creditavam a omissão à Paramount por não ter enviado cópias do filme aos eleitores a tempo da votação, outros não hesitavam em dizer que tudo não passava de racismo puro e simples por parte da Academia e de Hollywood em si. O que ninguém cogitou pensar é na possibilidade de o filme - apesar de suas inúmeras qualidades e importância histórica e social - não ser tão forte quanto os acontecimentos que retrata.

É lógico que "Selma" é infinitamente superior a aberrações demagógicas como "Sniper americano" e ao filme-fórmula "A teoria de tudo" - ambos sintomaticamente indicados na principal categoria mas também deixados de fora na briga por diretor - mas é muito provável que os fãs mais radicais do filme não percebam que, por trás de todas as emocionantes e chocantes cenas que mostram os confrontos raciais que sacudiram os EUA nos anos 60, por trás da performance discreta e convincente de David Oyelowo como Martin Luther King e por trás da força emocional da história contada, não existe um roteiro consistente a ponto de esconder o ritmo claudicante, os tempos mortos e, pior ainda, a edição pouco criativa. A cada sequência empolgante, que leva o espectador para dentro da história, como se fosse participante ativo do movimento social que está transformando um país - e por consequência, o mundo todo - existem várias outras sonolentas, que o afastam emocionalmente. Toda vez que Martin Luther King vai ao encontro do Presidente Lyndon Johnson (Tom Wilkinson) ou este debate a situação com o governador do Alabama, George Wallace (Tim Roth), o filme perde o pique. São momentos importantes para a ação, claro, mas que contrastam radicalmente com outros de grande intensidade dramática e que comprometem o ritmo do filme como um todo.


Quando DuVernay mostra ao espectador a violência a que os negros - e até mesmo os brancos que compravam sua briga - eram submetidos simplesmente porque lutavam pelo direito básico ao voto, seu filme cresce, se agiganta, emociona às lágrimas. Quando se dedica a mostrar a forma idealista de Luther King lutar contra o preconceito, sua obra se ilumina e inspira. Quando dá espaço a seus atores - em especial Oyelowo, Tim Roth e sua produtora Oprah Winfrey em pequena participação - brilharem, seu trabalho conquista. Mas ao final da sessão, quando a sensação de injustiça e revolta passam, não sobra muito mais. Falta a "Selma" aquele algo mais que faz de um bom filme um filme inesquecível. É forte, é intenso e é imprescindível historicamente. Mas não faz jus a toda a polêmica que criou em torno de suas duas únicas indicações ao Oscar - e nem o fato de Brad Pitt estar entre os produtores executivos ajudou muito na campanha a seu favor (Pitt era também produtor executivo de "12 anos de escravidão", vencedor do Oscar principal do ano anterior, o que de certa forma anula a acusação de racismo generalizado por parte da Academia).

E seria injusto falar a respeito de "Selma" - cidade americana que foi sede de uma passeata de grande importância na luta pelos direitos civis dos negros - sem citar aquela que é, sem dúvida, uma de suas maiores qualidades (além da atuação de David Oyelowo, que interpretou, também com consistência e garra, o filho de Forest Whitaker no igualmente engajado "O mordomo da Casa Branca"). Vencedora do Oscar e do Golden Globe de Melhor Canção Original, a bela "Glory" levantou a plateia na cerimônia de entrega dos prêmios da Academia com uma performance energética e poderosa de Common e John Legend - e lembrou da força da emoção que em muitos momentos falta ao filme de DuVernay. Com um roteiro um pouco mais profundo e menos ambicioso em abraçar o mundo com as pernas, seria um filme genial. Como está, é um filme inspirador, mas muito aquém de extraordinário.

sexta-feira

GAROTA EXEMPLAR

GAROTA EXEMPLAR (Gone girl, 2014, 20th Century Fox, 149min) Direção: David Fincher. Roteiro: Gillian Flynn, romance de sua autoria. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Kirk Baxter. Música: Trent Reznor, Atticus Ross. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Douglas A. Mowat. Produção executiva: Leslie Dixon, Bruna Papandrea. Produção: Ceán Chaffin, Joshua Donen, Arnon Milchan, Reese Witherspoon. Elenco: Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris, Tyler Perry, Kim Dickens, Patrick Fugit, Sela Ward. Estreia: 26/9/14 (Festival de Nova York)

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Rosamund Pike)


Poucos cineastas norte-americanos em atividade parecem ter tanto gosto pelos desvãos da mente humana quanto David Fincher. Desde que mergulhou Brad Pitt e Morgan Freeman na busca por um serial killer que matava de acordo com os sete pecados capitais no já antológico “Seven, os sete crimes capitais”, em 1995, o homem que começou sua carreira cinematográfica brigando com a indústria por discordar dos rumos de seu primeiro filme – a saber, o terceiro capítulo da série “Alien”, lançado em 1992 – consagrou-se como um brilhante artesão da violência (nunca totalmente explícita, sempre estilizada e frequentemente dotada de uma paradoxal beleza). Foi assim que ele narrou a caça a um dos mais infames criminosos da história dos EUA no subestimado “Zodíaco” (2007) e deu personalidade própria ao remake do sueco “Os homens que não amavam as mulheres” (que deu à atriz Rooney Mara uma indicação ao Oscar 2012) – filmes adultos e sérios que tinham, em seu DNA, a coragem de contar, sem subterfúgios, histórias que, em mãos menos talentosas, poderiam descambar para o sadismo e/ou a pasteurização mais banal do gênero. Nada mais apropriado, portanto, que o nome de Fincher estampe os créditos de “Garota exemplar”, bem-sucedida (artística e comercialmente) adaptação de um dos romances policiais mais populares dos últimos anos. Imprimindo seu bom-gosto e sua obsessão perfeccionista em cada minuto de projeção, o diretor conseguiu o que parece cada dia mais difícil no cinemão americano: unir popularidade à qualidade artística. “Garota exemplar” é um triunfo em ambos os quesitos.
           
O romance de Gillian Flynn – também autora do roteiro conciso e inteligente – vendeu mais de seis milhões de exemplares pelo mundo, e era questão de tempo até que seus direitos fossem adquiridos para uma adaptação para o cinema. Foi a atriz Reese Witherspoon quem primeiro viu as possibilidades da trama e, creditada como produtora, quase assumiu também o papel principal. Mudou de ideia quanto ao trabalho diante das câmeras, foi fazer “Livre”, com Jean-Marc Valée (filme que lhe rendeu uma indicação ao Oscar) e deixou o caminho livre para que Fincher optasse pela inglesa Rosamund Pike – uma ilustre quase desconhecida que agarrou com unhas e dentes sua maior oportunidade até então. Foi um gol de placa. Não apenas Pike angariou calorosos elogios da crítica como acabou disputando a estatueta dourada justamente com Witherspoon – única indicação do filme, o que de imediato o coloca como um dos injustiçados da cerimônia de 2015. Não importa que o Oscar de melhor atriz tenha ficado com Julianne Moore em “Para sempre Alice” – um belo desempenho de uma atriz extraordinária: a atuação de Pike como Amy Dunne, a protagonista feminina de “Garota exemplar” teve o impacto de uma epifania, um sopro de novidade dentro de uma indústria como Hollywood, pródiga em criar estrelas pouco brilhantes. Descrever o porquê de tantos aplausos ao trabalho de Pike sem estragar as boas surpresas da trama do filme é tarefa inglória, mas pode-se dizer, sem medo de atrapalhar a delícia que é desvendar a história criada por Flynn, que a jovem atriz constrói não apenas uma Amy Dunne, e sim várias, de acordo com os ângulos variados que vão sendo mostrados pela câmera sempre esperta e surpreendente de Fincher e seu diretor de fotografia preferido, Jeff Cronenweth.



O filme em si começa na manhã do dia 05 de julho de 2010, em uma pequena cidade do Missouri, onde mora o jovem e atraente casal Nick e Amy Dunne – vividos por Ben Affleck e Rosamund Pike. O que era para ser um dia mais ou menos comum em suas vidas (o mais ou menos refere-se ao fato de ser o dia de seu aniversário de casamento) aos poucos torna-se o pesadelo de Nick: procurado no bar que mantém ao lado da irmã gêmea Margo (Connie Cun), ele chega em sua confortável e espaçosa casa para descobrir que Amy desapareceu misteriosamente – e os móveis revirados na sala não são um bom motivo para otimismo. O desaparecimento de Amy logo torna-se notícia na cidade, no estado e aos poucos no país, já que a jovem – linda, loura, gentil e saudável – é uma espécie de ídolo nacional através de uma série de livros infantis escritos por sua mãe e inspirados em sua vida. Como sempre acontece nesses casos, Nick torna-se o suspeito número 1 da polícia – representada principalmente pelos detetives Rhonda Boney (Kim Dickens) e Jim Gilpin (Patrick Fugit) – e tenta desesperadamente ajudar nas buscas e nas investigações, que incluem seu pai doente mental, vagabundos drogados que resultaram da decadência financeira da cidade e até mesmo antigos admiradores de Amy, que, segundo consta, sempre atraiu homens perigosos para sua volta.
            
O grande lance de inteligência de “Garota exemplar” – o livro e o filme em iguais medidas – é deixar que o espectador se envolva com a trama policial seguindo o raciocínio lógico do gênero, com suas regras e paradigmas, para depois, exatamente em sua metade, virar a mesa e expor um outro lado da questão, revelando então tudo aquilo que estava escondido na manga. As viradas no rumo da história se sucedem com parcimônia e naturalidade, levando o público a questionar-se continuamente: Nick é inocente ou culpado? Amy está realmente morta? Se não foi Nick quem cometeu o crime, quem foi? Houve, afinal, um crime? E a mais importante das questões, levantada mais explicitamente no romance e mais sutilmente em sua versão para as telas: qual o papel da verdade em um casamento? O quanto precisamos fingir para que possamos manter um relacionamento?
            
Essa questão crucial exposta por Gillian Flynn percorre todo o filme de David Fincher, que se recusa a tratar Nick Dunne como um homem errado hitchcockiano – afinal, ele também tem esqueletos no armário, mesmo que talvez seja inocente do crime pelo qual está sendo acusado – ou como um marido frio e calculista capaz de tramar a morte da mulher que aparentemente ama – e cuja morte lhe traria benefícios financeiros e a liberdade que ele vem ansiando. Sutilmente, o diretor vai mostrando todas as faces de seu protagonista, revelando aos poucos as camadas que revestem seu matrimônio. Para isso, ele conta com um recurso desprezado por roteiristas em geral mas que aqui funciona à perfeição: o diário de Amy, onde ela conta (através de narração em off e flashbacks) toda a sua história de amor com o marido, desde o encantamento inicial até a crise iniciada com problemas de dinheiro e a mudança de Nova York para a pequena cidade onde tem início a trama policial. Com uma edição absurdamente precisa (a cargo do mesmo Kirk Baxter que levou o Oscar por “A rede social” e “Os homens que não amavam as mulheres”, ambos de Fincher), as memórias de Amy, as investigações da polícia e as tentativas de Nick em provar sua inocência mesmo quando tudo aponta para sua culpa se entrelaçam em uma narrativa coesa, forte e visualmente dinâmica, em que se destaca a fotografia requintada e a trilha sonora discreta, quase minimalista, que surge apenas nos momentos em que se torna imprescindível.
            
Conseguindo manter a plateia sem fôlego até o minuto final da projeção – até mesmo daqueles que conhecem a história através das páginas do livro – David Fincher mostra, mais uma vez, que é um mestre na arte narrativa audiovisual. Não apenas arrancou de Ben Affleck uma atuação competente – o rosto quase impassível do ator acaba servindo muito bem ao propósito de manter a dúvida a respeito da real personalidade de seu personagem – como foi feliz em subverter algumas das regras básicas do gênero policial, ousando fazer do espectador o cúmplice silencioso e surpreso de uma das mais criativas mentes criminosas da literatura (e do cinema) dos últimos anos. Mesmo com algumas pequenas ressalvas – Neil Patrick Harris não convence muito como um antigo amor de Amy, que tem importância fundamental no desfecho da história, por exemplo – “Garota exemplar” é um filme extraordinário (mais um) na carreira brilhante de seu diretor. Sem ele tudo poderia ter sido bem menos feliz – como outra adaptação de livro de Gillian Flynn, o fraquíssimo “Lugares escuros”, mostra sem espaço para discussões.

A CADELA (1931)

A CADELA (La chienne, 1931, Les Étbalissements Braunberger-Richebé, 91min) Direção: Jean Renoir. Roteiro: Jean Renoir, baseado no romance ...