segunda-feira

STROMBOLI

STROMBOLI (Stromboli, 1949, Berit Films/RKO Radio Pictures, 107min) Direção: Roberto Rosselini. Roteiro: Félix Morlión, estória de Roberto Rosselini, colaboração de Sergio Amedei, G.P. Callegari, Art Cohn, Renzo Cesana. Fotografia: Otello Martelli. Montagem: Roland Gross. Música: Renzo Rossellini. Produção: Roberto Rossellini. Elenco: Ingrid Bergman, Mario Vitale, Renzo Cesana, Mario Sponzo. Estreia: 15/02/49


Reza a lenda que, depois de assistir ao magnífico “Roma, cidade aberta”, de Roberto Rossellini, a sueca Ingrid Bergman declarou a quem quisesse ouvir que tinha intenções de trabalhar com o diretor. Logicamente, essa afirmação tinha mais a ver com os dotes de Rossellini como cineasta – e um dos criadores do neorrealismo italiano – do que com qualquer outra coisa, mas nem mesmo a bela atriz poderia imaginar que, a partir dessa inocente vontade profissional, surgiria um dos mais badalados escândalos que Hollywood já viu em sua história. É certo que o resultado de tal polêmica – o pungente filme “Stromboli”, lançado em 1949 – é mais um trabalho de mestre do diretor italiano e um dos pontos altos da carreira de Bergman, mas muita gente lembra dele menos por suas (muitas) qualidades e mais pelas consequências que acarretou na carreira de uma das estrelas preferidas de Alfred Hitchcock.

Depois de anunciar sua vontade de ser dirigida por Rossellini, Ingrid Bergman teve seus desejos atendidos. Foi de mala e cuia para a Itália e assumiu o papel principal de um filme que já estava em produção, substituindo a atriz original, Anna Magnani – não por coincidência, a estrela de “Roma, cidade aberta”. Os produtores do filme se opuseram às mudanças e, como resposta a Rossellini e sua nova contratada, resolveram filmar uma trama semelhante em cenários similares e próximos (com Magnani como protagonista, obviamente). O filme, “Volcano”, não teve a mesma repercussão por motivos óbvios, mas já era uma pista que as coisas não seriam fáceis para Bergman, então casada com outro homem. Durante as filmagens, em uma localidade inóspita e com vários extras selecionados no próprio local (uma das características do neorrealismo), o inesperado aconteceu: Bergman e Rossellini se apaixonaram, iniciaram um romance passional e ficaram grávidos. Foi o que bastou para que, antes mesmo de sua estreia, “Stromboli” chegasse às manchetes mundiais. Os puritanos norte-americanos de então (não muito diferentes dos de hoje em dia) deixaram claro sua repulsa ao comportamento da atriz e, com o apoio de políticos, autoridades religiosas e da própria Hollywood, viraram as costas para uma de suas maiores estrelas. Bergman foi banida do cinema americano por quase uma década – até retornar em grande estilo, ganhando seu segundo Oscar de melhor atriz, pelo filme “Anastasia, a princesa esquecida”, em 1956.


De certa forma, a história de amor entre Ingrid e seu diretor refletia, fora das telas, o que acontecia diante delas – fato que Howard Hughes, que distribuiu o filme nos EUA, logo percebeu, para seu deleite financeiro: a controvérsia em torno do filme, envolvendo Igreja, política e os setores mais conservadores do país serviu para que a obra rendesse perto de 1 milhão de dólares somente em seu primeiro dia de exibição. No filme de Rossellini, realizado sem um roteiro no sentido estrito da palavra (o cineasta trabalhava com anotações e incentivava a improvisação de seus atores), a personagem de Bergman também era vítima da hipocrisia alheia graças a seu comportamento anti-convencional, e assim como na tela, seu destino também é traçado pela coragem de romper com as instituições e as regras pré-estabelecidas. A diferença é que, em Hollywood, é fácil perdoar o passado e os “erros”, mas em Stromboli – a pequena cidade onde Karen, a protagonista do filme, vai parar – as coisas são bem mais complicadas.

Karen, interpretada com alma e angústia por Bergman, é uma lituana que chegou à Itália foragida depois da morte do pai e da invasão alemã a seu país. Vivendo em um alojamento para refugiados, ela vê negado seu pedido de exílio em Buenos Aires e, para sobreviver, aceita o pedido de casamento feito pelo jovem soldado Antonio´(Mario Vitale), que descreve sua cidade natal como um pedaço de paraíso na Terra. A realidade logo mostra as caras à Karen, que chega à minúscula Stromboli e encontra um vilarejo em ruínas pela ação de um vulcão em constante atividade e um elenco de moradores (em especial as mulheres) pouco hospitaleiros. Desesperada com a diferença cruel entre suas esperanças e a vida difícil e monótona que se abre à sua frente, ela encontra suporte nos braços do rapaz que cuida do farol da cidade. É o que basta para que o estigma de ser uma estrangeira seja deflagrado, e ela passa a ser perseguida pelos conterrâneos do marido.

Como era costume do neorrealismo italiano, Roberto Rossellini explora ao máximo os cenários naturais que cercam seus personagens, imprimindo ao filme um tom semidocumental ampliado pela participação de não-atores e pela ênfase em rotinas locais, como a pesca e as serenatas. O ritmo quase modorrento e claustrofóbico que ele apresenta – em contraste com a vastidão do mar que cerca a cidade litorânea de Stromboli – sublinha o sentimento de desespero de Karen, presa em uma existência sem sentido e perspectivas que ela tenta, sem sucesso, modificar para seu prazer. Quando seu marido despreza as mudanças feitas por ela em sua casa e faz com que tudo volte a ser como era antes (feio, brutal e sem graça), é difícil não compreender a sensação de sufocamento da personagem, potencializada pela atuação exemplar de Bergman, uma atriz superlativa que valoriza cada momento da trama. Portanto, quando ela vê em ... uma chance de escapar de um destino infeliz, não há quem possa julgá-la. E é aí que a vida começou a imitar a arte.

Por mais que tente se assistir a “Stromboli” sem fazer paralelos com o que se desenrolava em seus bastidores, é impossível não perceber nos dramas da protagonista ecos do que ainda iria acontecer com sua intérprete. Assim como no filme de Rossellini a bela Karen procura ajuda no líder religioso local, o padre interpretado por Mario Sponzo , e acaba tendo as portas fechadas, também Ingrid Bergman sofreu com a intolerância da Igreja Católica, que deixou clara sua posição contra seu romance e influenciou no desfecho da história em território americano. Mas se Karen vê em sua gravidez um agravante à sua situação caótica, ao menos Bergman teve mais sorte na vida real, com o nascimento de três filhos frutos de seu relacionamento com o diretor italiano – incluindo a futura atriz Isabella Rossellini. Se o preço de um período de felicidade e realização foi o desprezo da comunidade cinematográfica norte-americana (e de parte do público), ela parece ter passado por isso com a elegância de sempre. O filme que deu origem a tal situação é um excelente exemplo do cinema italiano de sua época e menos de dez anos depois ela mostrava que seu talento era maior do que qualquer polêmica – o que um terceiro Oscar, dessa vez como coadjuvante por “Assassinato no Expresso do Oriente” (74), deixou ainda mais claro e evidente. Não é para qualquer uma.

domingo

COISAS QUE VOCÊ PODE DIZER SÓ DE OLHAR PARA ELA

COISAS QUE VOCÊ PODE DIZER SÓ DE OLHAR PARA ELA (Things you can tell just by looking at her, 2000, Franchise Pictures, 109min) Direção e roteiro: Rodrigo Garcia. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Amy E. Duddleston. Música: Edward Shearmur. Figurino: George L. Little. Direção de arte/cenários: Jerry Fleming/Betty Berberian. Produção executiva: Elie Samaha, Andrew Stevens. Produção: Jon Avnet, Lisa Lindstrom, Marsha Oglesby. Elenco: Glenn Close, Cameron Diaz, Holly Hunter, Calista Flockhart, Kathy Baker, Ammy Brenneman, Valeria Golino, Gregory Hines, Matt Craven. Estreia: 22/01/00 (Festival de Sundance)

Filmes que tratam de mulheres interessantes e complexas são artigo raro em uma Hollywood cujos olhos estão sempre voltados para as caixas registradoras - e os dólares que as enchem com produções anabolizadas e repletas de efeitos visuais e machões dispostos a salvar o mundo de ameaças alienígenas ou terroristas. Por essa razão é um oásis encontrar uma produção como "Coisas que você pode dizer só de olhar para ela", um drama de visão essencialmente feminina que, é, surpreendentemente, escrita e dirigida por um homem, Rodrigo Garcia. Filho do grande romancista colombiano Gabriel Garcia Marquez e dono de uma sensibilidade única quando se trata da compreensão de um universo oposto ao seu, Garcia - que posteriormente exercitaria tal característica em episódios da série "A sete palmos" e no subestimado "Passageiros" (2008) - constrói, em seu primeiro filme, uma narrativa doce e compassiva que substitui o tradicional roteiro com início, meio e fim por uma composição de histórias simples e discretas que, juntas, formam uma bela paisagem, capaz de emocionar e fazer pensar.

O filme começa quando uma equipe da polícia, liderada pela detetive Kathy Faber (Amy Brenneman), encontra o corpo de uma mulher, aparentemente suicida, em uma casa do subúrbio de Los Angeles. Em seguida, o roteiro dá um pulo para apresentar a dra. Elaine Keener (Glenn Close), uma médica solteira que mora com a mãe idosa e doente e que está apaixonada - sem muitas esperanças - por um colega de trabalho. Para acalmar sua tensão quanto ao assunto, ela chama uma cartomante, a jovem Christine (Calista Flockhart), que não lhe dá as notícias que ela esperava. A história seguinte acompanha o drama de Rebecca Waynon (Holly Hunter), gerente de um banco que se descobre grávida do amante casado, Robert (Gregory Hines) e passa a questionar suas escolhas em conversas com Nancy (Penelope Allen), uma mendiga com quem encontra constantemente - dúvidas essas que a levam aos braços de Walter (Matt Craven), um colega de trabalho. Logo em seguida, o público é apresentado à Rose (Kathy Baker), uma escritora de livros infantis, separada e mãe de um adolescente, que se sente irresistivelmente atraida pelo novo vizinho, o anão Albert (Danny Woodburn), e redescobre a sensação de estar apaixonada. A cartomante do primeiro episódio, Christine, volta a aparecer quando torna-se protagonista de uma triste história de amor, que acompanha seus cuidados com a namorada, Lilly (Valeria Golino), que está em fase terminal de câncer. Elas são vizinhas de Walter, o amante ocasional de Rebecca, que, pai de uma menina cega, se envolve também com a professora dela, Carol (Cameron Diaz), que, mesmo sem enxergar, é capaz de perceber com extrema clareza a vida como ela é, dividindo suas conclusões com a irmã, a detetive Kathy da primeira cena, uma mulher que dedicou sua vida a cuidar da irmã e da carreira e que somente depois dos trinta anos começa a sentir falta de uma vida só para si.


Mesmo que distingua claramente as histórias entre si, inclusive com títulos separando-as, o roteiro de "Coisas" não se furta a continuamente fundí-las, de forma sutil ou mais explícita - caso da presença da cartomante Christine na casa da dra. Keener logo no começo do filme. Tais ligações, longe de soarem forçadas ou criadas exclusivamente para incluírem a produção na linhagem de "filmes-coral" que pipocavam à sua época - no qual o mais bem-sucedido foi o potente "Magnólia", de Paul Thomas Anderson - dão a ele uma consistência de unidade dramática bastante sólida, principalmente por sua opção em não dar necessariamente a cada um dos segmentos uma estrutura engessada que mutile do espectador a possibilidade de completar as lacunas com sua própria sensibilidade. Desse modo, é o público que, de posse das informações essenciais à cada personagem, preenche suas histórias, dando a elas o desfecho (ou até mesmo o início) mais apropriado a cada uma. Mostrando de cada uma dessas (valentes) mulheres apenas um recorte de suas vidas muitas vezes solitárias e melancólicas, o roteiro de Garcia - que homenageia o pai citando nominalmente sua obra-prima "Cem anos de solidão" em uma cena com Carol - dá a suas atrizes presentes inestimáveis, com sequências de uma beleza dolorosa e pungente onde o silêncio muitas vezes fala mais do que os diálogos.

E para defender tais mulheres - frágeis, corajosas, românticas, estoicas e assustadoramente reais - o diretor conta com um elenco em dias inspirados. Se Glenn Close e Holly Hunter não precisam provar nada para ninguém há um bom tempo - e Hunter se destaca magistralmente com uma personagem tão rica em nuances que merecia um filme só para si - é uma surpresa ver atrizes como Calista Flockhart e Cameron Diaz se distanciando tanto (e com tanto desapego) das personas que marcaram suas carreiras: Flockhart deixa de lado o jeitão moleque de sua "Ally McBeal" televisiva para criar uma jovem sofrida e apaixonada - às vésperas de perder a mulher que ama - sem os trejeitos que lhe deram notoriedade; e Diaz, famosa por suas comédias românticas e/ou pastelão, interpreta com delicadeza uma jovem cega que, a despeito do senso de humor e do defeito físico, consegue enxergar nitidamente todos os recônditos da alma humana (como deixa claro em seu discurso final, de uma poesia rara no cinema americano).

E se não bastasse tantas qualidades (o roteiro poético, a direção segura, o elenco impecável), "Coisas que você pode dizer só de olhar para ela" ainda tem um golpe de mestre quase invisível, mas intrigante e devastador, na figura da misteriosa suicida da primeira sequência: vivida sem uma linha sequer de diálogo por Elpidia Carrilo, ela atravessa todo o filme em silêncio, cruzando com as protagonistas em momentos aparentemente banais, sempre com uma atmosfera de tristeza e dor a seu redor, como que prenunciando seu triste destino. É ela, em sua mais absoluta quietude, que dá unidade ao filme, como uma espécie de aviso sobre o que pode acontecer com qualquer uma daquelas mulheres tão intensas e que escondem tal turbilhão sob um manto de placidez.

Um filme pouco conhecido e comentado, "Coisas que você pode dizer só de olhar para ela" - um título apropriado e sugestivo, ainda que pouco comercial - é uma das produções mais interessantes do final dos anos 90, e uma das investigações mais sensíveis sobre a alma feminina até o advento de "As horas", dois anos depois. Uma pérola a ser descoberta.

NO SILÊNCIO DA NOITE

NO SILÊNCIO DA NOITE (In a lonely place, 1950, Columbia Pictures, 94min) Direção: Nicholas Ray. Roteiro: Andrew Solt, adaptação de Edmund H. North, estória de Dorothy B. Hughes. Fotografia: Burnett Guffey. Montagem: Viola Lawrence. Música: George Antheil. Figurino: Jean Louis. Direção de arte/cenários: Robert Peterson/William Kiernan. Produção: Robert Lord. Elenco: Humphrey Bogart, Gloria Grahame, Frank Lovejoy, Martha Stewart, Carl Benton Reid. Estreia: 17/5/50


Quem teve a oportunidade de trabalhar com o cineasta Nicholas Ray – mais conhecido por ser o autor do icônico “Juventude transviada” (55) e do faroeste iconoclasta “Johnny Guitar” (54) – sabia que ele era capaz de mudar os roteiros dos filmes que dirigia a seu bel-prazer, sem consultar produtores ou quem quer que estivesse com a mão no dinheiro. Foi isso ele que fez, por exemplo, em “No silêncio da noite”, seu segundo trabalho consecutivo com o ator Humphrey Bogart, novamente por sua produtora, a Santana – o filme anterior havia sido o contundente “O crime não compensa” (49). Baseado livremente em um romance de Dorothy B. Hughes, Ray simplesmente resolveu mudar o final do roteiro (do qual ele não era um dos autores) e, acompanhado apenas de Bogart, da estrela Gloria Grahame (com o qual ele começou as filmagens casado) e de membros essenciais da equipe, rodou um desfecho bem menos romântico do que o original. A autora do livro, Hughes, que também era uma das roteiristas, não se importou com a mudança sutil da última cena: se ela se importasse com coisas do tipo provavelmente nem teria deixado seu nome nos créditos do filme.

Não que o filme de Ray seja ruim, muito pelo contrário. Acontece que, a pedido do próprio Ray, o protagonista do livro de Hughes foi substancialmente modificado em sua transição para as telas, já que o diretor tinha mais interesse em falar sobre “o mal que existe dentro de todos nós” do que contar apenas mais uma história policial. O resultado de mudança tão drástica em um ponto tão crucial fala por si: “No silêncio da noite” não é um filme noir aos moldes do que fazia Humphrey Bogart um dos maiores astros da década de 40, mas sim um estudo sobre o controle (ou falta dele) de um estado de ânimo que beira a violência e a agressão. Utilizando como pano de fundo a indústria de cinema – coisa que o sensacional “Crepúsculo dos deuses” faria no mesmo ano, sob a batuta de Billy Wilder – Ray conseguiu, ao mesmo tempo, realizar um thriller dramático e uma crítica velada aos bastidores de uma Hollywood que nunca soube exatamente como lidar com seu talento e sua subversão.


O protagonista do filme é Dix Steele (Humphrey Bogart), um roteirista de sucesso que é convocado para escrever a adaptação de um romance pouco inspirado mas que pode vir a tornar-se um grande êxito. Na mesma noite em que recebe a incumbência, ele recebe em sua casa a jovem Mildred, que trabalha na chapelaria do bar a que o roteirista frequenta e, como fã do livro a ser adaptado, aceita contar a história a ele – que não está disposto a lê-lo. Algumas horas mais tarde, os dois se despedem, a moça vai embora e é assassinada algum tempo depois, estrangulada e jogada de um carro em movimento. Sabendo de sua visita a Dix, a polícia o procura como um dos suspeitos – mesmo sendo ele amigo de um dos policiais, . Uma das testemunhas que podem livrá-lo da suspeita é sua vizinha, Laurel Gray (Gloria Grahame), com quem ele acaba se envolvendo em um romance tenso e passional. Conforme as investigações a respeito da morte de Mildred avançam, porém, Laurel começa a ter dúvidas a respeito da inocência de Dix, que se mostra dono de uma personalidade brutal e explosiva, chegando inclusive a espancar um jovem depois de uma rixa de trânsito. Tal possibilidade começa a afastá-la do amante, mesmo que o medo que tenha de uma reação desproporcional a uma tentativa de separação a mantenha paralisada.

Jogando com as chances de Dix ser ou não o assassino de Mildred – elemento que aos poucos vai perdendo a importância no roteiro, que se dedica a mostrar aos poucos todas as facetas do personagem para Laurel e a plateia – Nicholas Ray constrói um brilhante exercício de tensão, valorizado pela interpretação inspirada de Bogart e pela constante sensação de dubiedade enfatizada pelo roteiro. Driblando as complicações dos bastidores – sua separação de Gloria Grahame, por exemplo, que se casou com seu filho de outro casamento algum tempo depois, obrigou o produtor Robert Lord a fazê-los assinar um termo de compromisso em que se obrigavam a deixar os problemas fora das filmagens – Ray assinou um filme incomum, que poderia ter sido muito diferente caso outras escolhas tivessem se mantido. Enquanto o cineasta conseguiu convencer o produtor a escalar sua então esposa Grahame para o papel principal – cotado para Lauren Bacall ou Ginger Rogers – o ator John Derek, um dos astros de “O crime não compensa”, foi afastado do projeto quando o roteiro mudou a faixa etária do protagonista (mais jovem no romance que em sua versão para as telas). Com Bogart e Grahame nos papéis centrais e a direção inteligente e sofisticada de Ray, “No silêncio da noite” foge das obviedades e acaba por ser uma experiência bastante interessante – ainda que talvez decepcione a quem espera um policial convencional.

sábado

ECOS DO ALÉM

ECOS DO ALÉM (Stir of echoes, 1999, Artisan Entertainment, 99min) Direção: David Koepp. Roteiro: David Koepp, romance de Richard Matheson. Fotografia: Fred Murphy. Montagem: Jill Savitt. Música: James Newton Howard. Figurino: Leesa Evans. Direção de arte/cenários: Nelson Coates/David Krummel. Produção executiva: Michele Weisler. Produção: Judy Hofflund, Gavin Polone. Elenco: Kevin Bacon, Illeana Douglas, Kathryn Erbe, Zachary David Cope, Kevin Dunn. Estreia: 28/7/99

Em 1999, um filme estrelado por um astro dos anos 80 voltando a chamar a atenção da crítica e um menino com o poder de ver e falar com fantasmas chegou às telas de cinema para assustar às plateias e deixá-la grudada na poltrona. Não, não estamos falando de "O sexto sentido", que, com Bruce Willis à frente dos créditos e um roteiro pra lá de bem amarrado seduziu o público do mundo todo, transformando-se em um dos maiores sucessos de bilheteria da história, e sim de "Ecos do além", que, com trazendo alguns elementos semelhantes, teve o azar de estrear poucos meses depois, quando todos ainda estavam encantados e/ou assombrados pela trama de M. Night Shyamalan e mal perceberam suas qualidades. Baseado em um livro de Richard Matheson, autor de clássicos sobrenaturais com o romântico "Em algum lugar do passado", o filme de David Koepp - cuja estreia como diretor foi o subestimado "Efeito dominó", de 1996, não fez feio nas bilheterias, mas foi eclipsado sem pena pela obra do cineasta indiano. Merece, depois de mais de uma década, ser descoberto pela audiência.

Kevin Bacon - um ator de extrema competência, que sai-se bem tanto como herois quanto como vilões - interpreta o personagem principal, Tom Witzky, um músico frustrado que vive do emprego na companhia telefônica para manter a família, a esposa Maggie (Kathryn Erbe) e o filho pequeno, Jake (Zachary David Cope). Na mesma noite em que fica sabendo que será pai pela segunda vez - fato que o afunda ainda mais na mediocridade de um cotidiano que não o faz feliz - ele aceita ser hipnotizado pela cunhada, Lisa (Illeana Douglas), em uma festa da vizinhança. Sem lembranças do que aconteceu durante o período em que esteve desacordado, ele tenta seguir sua vida normal, mas começa a ser assombrado por visões de uma jovem fantasmagórica e flashes incompreensíveis de um crime cujos detalhes ele não consegue discernir. Ao mesmo tempo, seu filho também mantém contato com a garota, que ele descobre chamar-se Samantha Kozac (Jennifer Morrison) e ter desaparecido há algum tempo, antes mesmo de sua mudança para o bairro. Aos poucos, Tom vai perdendo o equilíbrio emocional, envolvendo toda a família em sua loucura.


Com um tom bastante diferente daquele mostrado em "O sexto sentido" - que equilibrava o suspense com toques emocionais sofisticados e sutis - "Ecos do além" mescla os sustos de um filme de fantasmas com uma trama policial consistente e verossímil, apesar de resvalar em um clímax desnecessariamente barulhento e lugar-comum, que substitui a tensão construída com cuidado até então por um desfecho quase preguiçoso. Sustentada por uma trilha sonora adequada de James Newton Howard - coincidentemente ou não também o autor da música do filme de Shyamalan - e um clima de angústia crescente proposto pela fotografia de Fred Murphy, que utiliza com precisão a luz noturna para sublinhar a escuridão cada vez mais profunda em que Tom vai penetrando, a trama de Matheson ganha contornos bem reais quando se percebe que, por trás de ectoplasmas misteriosos e hipnoses profundas, é a maldade humana quem está por trás de todo o drama. Esse pé fincado na realidade é a maior qualidade do filme, valorizado pela presença forte e contundente de Kevin Bacon.

Não fosse a presença de Bacon em seu papel central, "Ecos do além" estaria fadado a ser confundido com apenas mais um suspense feijão-com-arroz, daqueles que abarrotam as prateleiras das videolocadoras. Sua presença, porém, confere autenticidade e credibilidade ao filme, transformando-o em uma produção bem acima da média do gênero. Pode não ser um "O sexto sentido", mas quantos filmes o são??

TARDE DEMAIS

TARDE DEMAIS (The heiress, 1949, Paramount Pictures, 115min) Direção: William Wyler. Roteiro: Ruth Goetz, Augustus Goetz, peça teatral de sua autoria, inspirada no romance "Washington Square", de Henry James. Fotografia: Leo Tover. Montagem: William Hornbeck. Música: Aaron Copland. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Harry Horner/Emile Kuri. Produçã: William Wyler. Elenco: Olivia de Havilland, Montgomery Clift, Ralph Richardson, Miriam Hopkins, Vanessa Brown. Estreia: 06/10/49

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Wyler), Atriz (Olivia de Havilland), Ator Coadjuvante (Ralph Richardson), Fotografia em P&B, Trilha Sonora Original, Figurino em P&B, Direção de Arte/Cenários em P&B
Vencedor de 4 Oscar: Atriz (Olivia de Havilland), Trilha Sonora Original, Figurino em P&B, Direção de Arte/Cenários em P&B
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz (Olivia de Havilland) 


Dez anos antes de promover um arrastão na Academia com seu épico religioso “Ben-hur” – que arrebatou onze Oscar, inclusive de melhor filme e direção – o cineasta William Wyler já dava mostras de que era capaz de seduzir público e crítica, ainda que no comando de uma obra com escopo bem menos ambicioso. Baseado no romance “Washington Square”, de Henry James – ou melhor dizendo, na peça teatral escrita pelo casal Augustus e Ruth Goetz e inspirada no livro – o filme “Tarde demais” foi indicado a oito estatuetas e saiu da cerimônia de premiação com quatro láureas: figurino, direção de arte (na subcategoria preto-e-branco), trilha sonora original e atriz, entregue à Olivia de Havilland, a eterna Melanie Wilkes de “.... E o vento levou” (39). Nessa dramática história de amor e interesse contada por Wyler, a atriz – que já tinha um troféu em casa pelo melodrama “Só resta uma lágrima”, feito três anos antes – entrega uma de suas mais fortes composições, buscando na plateia a empatia para uma personagem nada heroica, cujo drama romântico é acentuado pela decepção e pela dor.

Na Nova York da metade do século XIX – época em que também se situa, não por acaso, o belo “A época da inocência”, de Edith Wharton, levado às telas por Martin Scorsese em 1993 – a sociedade é dividida em classes bem definidas e rígidas. Respeitado e dono de uma pequena fortuna, o dr. Austin Slope (Ralph Richardson) tenta encontrar um marido digno e apropriado para a única filha, Catherine (Olivia de Havilland), uma moça tímida e quase insossa, avessa aos encontros sociais e incapaz de acostumar-se às regras de seu círculo. Viúvo, o dr. Slope sabe que a jovem não tem atrativos o bastante para ser disputada pelos melhores partidos da cidade e, por esse motivo, não fica muito satisfeito quando ela passa a ser cortejada por Morris Towsend (Montgomery Clift), um rapaz bonito, de boa família e educado – mas que desperdiçou toda sua herança em viagens e gastos supérfluos. Considerando Townsend um aproveitador barato que está de olho no dinheiro a ser herdado por Catherine – que também tem direito aos bens da falecida mãe – o médico se opõe ferozmente ao relacionamento, o que acaba por coloca-lo contra a própria filha.



Depois de uma viagem de seis meses pela Europa – que ele acredita ser a solução para o afastamento dos dois enamorados – o dr. Slope retorna à Nova York apenas para perceber que a decisão de ambos em casar-se não foi alterada. Seu rompimento com a filha, sua doença e a afirmação em alto e bom som de sua opinião sobre sua personalidade – que ele acha medíocre e ingênua demais – obrigam Catherine a tomar uma decisão cruel: manter-se ao lado do pai ou assumir definitivamente o amor que sente por Townsend, que mantém-se fiel a seu romance e tem a torcida de uma tia de Catherine, também viúva (Miriam Hopkins). Será que o rapaz realmente a ama ou está interessado apenas em seu dinheiro? E realmente ela é tão desinteressante quando seu pai diz ou apenas esconde uma força interna prestes a mostrar seu tamanho? Essas questões, levantadas com inteligência pelo roteiro e sublinhadas pela direção elegante e discreta de Wyler – um cineasta sempre interessado em arrancar o melhor de seus atores – fazem de “Tarde demais” um drama romântico que se assiste como ao melhor suspense de Alfred Hitchcock.

Montgomery Clift – assumindo um papel oferecido a Cary Grant – não gostava do seu desempenho como Morris Towsend, chegando inclusive a faltar à estreia do filme em Hollywood como forma de demonstrar seu desagrado. O inglês Ralph Richardson, no entanto, fez de seu primeiro filme em Hollywood um trabalho de mestre, ganhando o prêmio de melhor ator pelo National Board of Review e uma indicação ao Oscar de coadjuvante por sua performance como o aflito doutor Austin Sloper, dividido entre o amor e a preocupação que sente pela filha e o temor de vê-la sofrer nas mãos de quem ele julga não merecê-la. A bela trilha sonora de Aaron Copeland, também premiada pela Academia, enfatiza tanto o lado dramático quanto o tom soturno de alguns momentos da trama, transitando entre o idílio da protagonista e seu inferno pessoal – uma tênue mudança de tom magistralmente dominada pela atuação de Olivia de Havilland, que se utiliza de sua falta de glamour para criar uma Catherine Slope inesquecível, capaz de convencer em todas as etapas de sua personagem – de mulher simples e romântica até alguém capaz de enfrentar o mundo que a rodeia e os sentimentos contraditórios que inundam seu coração e sua alma. Na melhor atuação de sua carreira, de Havilland brinda a plateia com um trabalho irretocável, valorizado pelo talento de Wyler e pela história forte e contundente. Um filme digno de ser chamado de clássico.

A CADELA (1931)

A CADELA (La chienne, 1931, Les Étbalissements Braunberger-Richebé, 91min) Direção: Jean Renoir. Roteiro: Jean Renoir, baseado no romance ...