O LEOPARDO (Il gattopardo, 1963, Titanus, 187min) Direção: Luchino
Visconti. Roteiro: Suso Cecchi D'Amico, Pasquale Festa Campanile,
Enrico Medioli, Massimo Franciosa, Luchino Visconti, romance de Giuseppe
Tomasi di Lampedusa. Fotografia: Giuseppe Rottuno. Montagem: Mario
Serandrei. Música: Nino Rota. Figurino: Piero Tosi. Direção de
arte/cenários: Mario Garbuglia/Laudomia Herculani, Giorgio Pes. Produção
executiva: Pietro Notarianni. Produção: Goffredo Lombardo. Elenco: Burt
Lancaster, Claudia Cardinale, Alain Delon, Paolo Stoppa, Giuliano Gemma. Estreia:
27/3/63
Indicado ao Oscar de Figurino
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes
O filme preferido do cineasta Martin Scorsese é, hoje, um dos clássicos mais cultuados do cinema, graças principalmente a seu cuidado com o visual - uma das características mais marcantes de seu diretor Luchino Visconti - e à atenção dada à fidelidade da adaptação do romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, uma crônica tão ácida quanto poética da decadência da aristocracia italiana no século XIX através da figura de seu protagonista, o Príncipe Fabrizio di Salina, em uma aplaudida interpretação do americano Burt Lancaster. Fotografado brilhantemente por Giuseppe Rottuno e com uma minuciosa reconstituição de época que rendeu a Piero Tosi uma indicação ao Oscar de figurino, "O Leopardo" é, sem dúvida, um filme que encanta os olhos do espectador. Mas, é preciso que se diga, é necessária uma paciência maior do que a normal para encarar a narrativa construída por Visconti e poder se deliciar com suas belas imagens: em mais de três horas de duração, os acontecimentos se sucedem de forma lenta e contemplativa, sob o olhar ora atônito ora compreensivo de seu protagonista. Definitivamente é um filme que nem de longe irá agradar ao público médio acostumado com o ritmo do cinema hollywoodiano.
E nem mesmo Hollywood conseguiu digerir apropriadamente o filme de Visconti - ele mesmo um aristocrata com simpatias claras e explícitas com o comunismo. Distribuído pela Fox no mercado de língua inglesa, "O Leopardo" foi um fracasso de bilheteria quase previsível, apesar das críticas positivas e do elenco internacional que incluía, além de Lancaster, o francês Alain Delon (amigo pessoal do diretor e que foi escalado apesar das tentativas de Warren Beatty em participar do projeto) e a italiana Claudia Cardinale. O nome de Lancaster - a essa altura já premiado com o Oscar de melhor ator por "Entre Deus e o pecado" (60) - foi sugerido à Visconti pelos produtores, que tentavam, assim, incluir um nome conhecido mundialmente e que pudesse despertar a atenção das plateias que não conheciam a trajetória do cineasta italiano, mais prestigiado entre a crítica e os festivais de cinema do que exatamente por êxitos comerciais. Visconti queria Laurence Olivier no papel principal, e até Marlon Brando e Gregory Peck foram considerados (já que a Fox financiaria parte do orçamento caso um astro americano estrelasse o filme), mas foi o ator de "A um passo da eternidade" (53) que acabou conquistando o veterano diretor, convencido finalmente após vê-lo em cena no clássico "Julgamento em Nuremberg" (61). A relação entre diretor e astro, no entanto, não foi feita apenas de flores: demorou até que Lancaster mostrasse à Visconti sua imersão e dedicação ao papel - algo que aconteceu e foi reiterado com uma nova colaboração em 1974, no filme "Violência e paixão".
"O Leopardo" não tem uma história envolvente e repleta de acontecimentos dramáticos, podendo ser classificado mais como uma crônica dos costumes sicilianos do século XIX e suas transformações sociais do que exatamente como um drama romântico ou algo parecido. Ao adaptar fielmente o livro de Lampedusa em imagens e atmosfera, Visconti - que em sua vitoriosa carreira ainda assinaria a difícil adaptação de "Morte em Veneza", de Thomas Mann - opta por um viés mais bucólico e sentimental, que reflete o tom de nostalgia que perpassa toda a sua narrativa. Em seus quarenta minutos finais - um espetacular baile que sublinha visualmente todas as questões da trama - um dos mais elegantes cineastas da história apresenta à plateia um retrato quase melancólico de uma metamorfose inevitável, que, segundo diz o personagem central, mostra que, às vezes, "é preciso mudar tudo para que as coisas permaneçam como estão.". E é esse o pensamento central do filme e do Príncipe Fabrizio, vivido com maestria por um Burt Lancaster diferente de tudo que havia feito até então, com um ar de sobriedade e elegância dos mais intensos do cinema.
A trama - simples, minimalista, quase inexistente - gira em torno do Príncipe Fabrizio Di Salina, um aristocrata italiano que, depois de hesitar por um algum tempo, finalmente passa a aceitar a união entre seu mundo de luxo, pompa e circunstância com a burguesia que tanto serve de chacota junto a seus semelhantes. Percebendo que a única forma de manter-se no topo da cadeia alimentar social é a aliança com o prefeito da cidade, o exuberante Calogero Sedara (Paolo Stoppa), representante do novo dinheiro, ele não apenas concorda como incentiva o casamento de seu sobrinho, Tancredi (Alain Delon), com a filha do mal-afamado vizinho, a jovem e bela Angelica (Claudia Cardinale). Contando sua história com detalhes, discrição rítmica e sutileza, Visconti não apela para cenas de grande impacto dramático, preferindo revelar ao espectador as nuances de uma sociedade unicamente por meio de cenas milimetricamente arquitetadas de modo a encantar os olhos antes de qualquer outro nível de racionalização. Funciona: plasticamente, "O Leopardo" é impecável, ainda que prescinda de um ritmo um tanto menos letárgico. Ainda assim, para quem procura cinema de alto padrão estético, é um desbunde.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade. Afinal, a sétima arte não tem esse nome à toa.
sexta-feira
quinta-feira
IRMA LA DOUCE
IRMA LA DOUCE (Irma La Douce, 1963, The Mirisch Corporation,
147min) Direção: Billy Wilder Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond,
peça teatral de Alexandre Breffort. Fotografia: Joseph LaShelle.
Montagem: Daniel Mandell. Música: André Previn. Figurino: Orry-Kelly.
Direção de arte/cenários: Alexander Trauner/Maurice Barnathan, Edward G.
Boyle. Produção: Edward L. Alperson, Billy Wilder. Elenco: Jack Lemmon,
Shirley MacLaine, Lou Jacobi, Bruce Yarnell, Herschel Bernardi.
Estreia: 05/6/63
3 indicações ao Oscar: Atriz (Shirley MacLaine), Fotografia em Cores, Trilha Sonora Adaptada
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Adaptada
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Shirley MacLaine)
O primeiro encontro entre Billy Wilder, Jack Lemmon e Shirley MacLaine, em 1960, foi "Se meu apartamento falasse", que rendeu, entre outros prêmios, os Oscar de melhor filme, direção e roteiro original. Nada mais natural, portanto, que MacLaine, ao ser convidada para viver o papel-título da comédia "Irma La Douce" - dirigida por Wilder e coestrelada por Lemmon - tenha assinado o contrato sem ao menos ler o roteiro, adaptado de um musical de sucesso da Broadway. Para sua surpresa, porém, na transposição do palco para as telas, a obra de Alexandre Breffort perdeu todas as canções originais, transformando-se, nas mãos do cineasta austríaco, em uma comédia sem o menor vestígio de sua peculiar origem teatral. Sabendo-se incapaz de comandar coreografias ou números cantados, Wilder preferiu manter a trama central - com pequenas alterações, como a profissão do personagem de Lemmon - e injetar nela seu delicioso cinismo irônico. Deu certo, apesar das reservas de MacLaine, que não via o filme como o sucesso que foi - para sua surpresa, ela ganhou o Globo de Ouro e recebeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz por seu desempenho.
O que MacLaine talvez não soubesse quando aceitou entrar no projeto de Wilder é que ela não era a primeira opção para o papel principal. O próprio diretor declarou, mais tarde, que sua primeira escolha era ninguém menos que Elizabeth Taylor - o convite nem chegou a ser feito, no entanto, porque o austríaco disse que não saberia lidar com a conturbada vida afetiva da atriz, então envolvida em um rumoroso caso de amor com Richard Burton, seu colega de cena no complicadíssimo "Cleópatra" (63). A segunda escolhida por ele tampouco mostrou-se possível, mas por motivos bem mais insolúveis: mesmo ainda traumatizado com os problemas demonstrados por Marilyn Monroe nos sets de "Quanto mais quente melhor" (59), Wilder estava muito disposto a reuní-la com Jack Lemmon, mas a inesperada morte do maior símbolo sexual da história do cinema, em agosto de 1962, antes mesmo do início da produção, abriu caminho para MacLaine. Mesmo fisicamente bastante diferente do que Monroe poderia oferecer ao papel, a irmã de Warren Beatty entregou ao filme um tom de ironia e sarcasmo ingênuo que valoriza o roteiro escrito por Wilder e seu colaborador habitual I.A.L. Diamond. Atriz de grande inteligência e sensibilidade, ela faz de seu reencontro com Lemmon um espetáculo à parte.
Na trama criada por Alexandre Breffort, ela vive Irma La Douce, uma prostituta que vive de vender seu corpo em um bairro distante dos cartões-postais de Paris. Rodeada de corrupção por todos os lados - as autoridades fazem vista grossa às dezenas de contravenções praticadas no local, já que são bem pagos para isso - ela tem sua rotina transformada quando conhece o incorruptível Nestor Patou (Jack Lemmon), um novo e incorruptível policial que, para sua surpresa, se vê demitido ao desafiar as regras não-escritas de convivência pacífica entre criminosos e moradores locais. Perdidamente apaixonado por Irma, ele acaba defendendo-a de seu violento cafetão e, percebendo que ela não tem a menor intenção de abandonar a chamada vida fácil, aceita empresariá-la. O ciúme, porém, lança sua flecha preta, e logo Nestor se vê torturado com a possibilidade da amada estar nos braços de outros homens. Com a ajuda de Moustache (Lou Jacobi) - o dono do bar onde eles passam boa parte de seu tempo e que tem uma profusão de experiências profissionais em seu passado, mesmo que elas não dialoguem exatamente entre si - Nestor cria, então, um cliente falso para Irma. Disfarçado com bigode, cavanhaque, tapa-olho e sotaque inglês, ele assume a personalidade de Lord X, um homem com problemas sexuais que se oferece para ser cliente fixo da inocente garota de programa. O problema é que, para pagá-la, ele precisa se desdobrar em vários trabalhos - e seu cansaço faz com que ela passe a desconfiar de uma outra mulher em sua vida.
Levando a trama em tom de farsa, com direito a um toque de nonsense e romance, Billy Wilder mostra porque seus filmes mantem, ainda hoje, um frescor raro e delicioso. Recheando o roteiro com uma acidez que lhe é característica - e que está presente tanto em tramas românticas como "Sabrina" (54) como em tragédias como "A montanha dos sete abutres" (51) - o cineasta evita o excesso de açúcar que poderia surgir na história de amor entre os protagonistas e ainda dá um jeito de fazer rir da hipocrisia em relação ao sexo e da corrupção das autoridades. Com diálogos brilhantes - especialmente aqueles com a presença do ótimo Lou Jacobi, substituindo Charles Laughton, morto antes das filmagens, no papel de Moustache - "Irma La Douce" pode não chegar ao nível de qualidade dos melhores trabalhos de Wilder, mas é uma prova a mais de seu absurdo talento em inserir sua personalidade genial até mesmo em criações alheias. Difícil é sentir falta de qualquer número musical quando se está diante da química perfeita entre Jack Lemmon e Shirley MacLaine.
3 indicações ao Oscar: Atriz (Shirley MacLaine), Fotografia em Cores, Trilha Sonora Adaptada
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Adaptada
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Shirley MacLaine)
O primeiro encontro entre Billy Wilder, Jack Lemmon e Shirley MacLaine, em 1960, foi "Se meu apartamento falasse", que rendeu, entre outros prêmios, os Oscar de melhor filme, direção e roteiro original. Nada mais natural, portanto, que MacLaine, ao ser convidada para viver o papel-título da comédia "Irma La Douce" - dirigida por Wilder e coestrelada por Lemmon - tenha assinado o contrato sem ao menos ler o roteiro, adaptado de um musical de sucesso da Broadway. Para sua surpresa, porém, na transposição do palco para as telas, a obra de Alexandre Breffort perdeu todas as canções originais, transformando-se, nas mãos do cineasta austríaco, em uma comédia sem o menor vestígio de sua peculiar origem teatral. Sabendo-se incapaz de comandar coreografias ou números cantados, Wilder preferiu manter a trama central - com pequenas alterações, como a profissão do personagem de Lemmon - e injetar nela seu delicioso cinismo irônico. Deu certo, apesar das reservas de MacLaine, que não via o filme como o sucesso que foi - para sua surpresa, ela ganhou o Globo de Ouro e recebeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz por seu desempenho.
O que MacLaine talvez não soubesse quando aceitou entrar no projeto de Wilder é que ela não era a primeira opção para o papel principal. O próprio diretor declarou, mais tarde, que sua primeira escolha era ninguém menos que Elizabeth Taylor - o convite nem chegou a ser feito, no entanto, porque o austríaco disse que não saberia lidar com a conturbada vida afetiva da atriz, então envolvida em um rumoroso caso de amor com Richard Burton, seu colega de cena no complicadíssimo "Cleópatra" (63). A segunda escolhida por ele tampouco mostrou-se possível, mas por motivos bem mais insolúveis: mesmo ainda traumatizado com os problemas demonstrados por Marilyn Monroe nos sets de "Quanto mais quente melhor" (59), Wilder estava muito disposto a reuní-la com Jack Lemmon, mas a inesperada morte do maior símbolo sexual da história do cinema, em agosto de 1962, antes mesmo do início da produção, abriu caminho para MacLaine. Mesmo fisicamente bastante diferente do que Monroe poderia oferecer ao papel, a irmã de Warren Beatty entregou ao filme um tom de ironia e sarcasmo ingênuo que valoriza o roteiro escrito por Wilder e seu colaborador habitual I.A.L. Diamond. Atriz de grande inteligência e sensibilidade, ela faz de seu reencontro com Lemmon um espetáculo à parte.
Na trama criada por Alexandre Breffort, ela vive Irma La Douce, uma prostituta que vive de vender seu corpo em um bairro distante dos cartões-postais de Paris. Rodeada de corrupção por todos os lados - as autoridades fazem vista grossa às dezenas de contravenções praticadas no local, já que são bem pagos para isso - ela tem sua rotina transformada quando conhece o incorruptível Nestor Patou (Jack Lemmon), um novo e incorruptível policial que, para sua surpresa, se vê demitido ao desafiar as regras não-escritas de convivência pacífica entre criminosos e moradores locais. Perdidamente apaixonado por Irma, ele acaba defendendo-a de seu violento cafetão e, percebendo que ela não tem a menor intenção de abandonar a chamada vida fácil, aceita empresariá-la. O ciúme, porém, lança sua flecha preta, e logo Nestor se vê torturado com a possibilidade da amada estar nos braços de outros homens. Com a ajuda de Moustache (Lou Jacobi) - o dono do bar onde eles passam boa parte de seu tempo e que tem uma profusão de experiências profissionais em seu passado, mesmo que elas não dialoguem exatamente entre si - Nestor cria, então, um cliente falso para Irma. Disfarçado com bigode, cavanhaque, tapa-olho e sotaque inglês, ele assume a personalidade de Lord X, um homem com problemas sexuais que se oferece para ser cliente fixo da inocente garota de programa. O problema é que, para pagá-la, ele precisa se desdobrar em vários trabalhos - e seu cansaço faz com que ela passe a desconfiar de uma outra mulher em sua vida.
Levando a trama em tom de farsa, com direito a um toque de nonsense e romance, Billy Wilder mostra porque seus filmes mantem, ainda hoje, um frescor raro e delicioso. Recheando o roteiro com uma acidez que lhe é característica - e que está presente tanto em tramas românticas como "Sabrina" (54) como em tragédias como "A montanha dos sete abutres" (51) - o cineasta evita o excesso de açúcar que poderia surgir na história de amor entre os protagonistas e ainda dá um jeito de fazer rir da hipocrisia em relação ao sexo e da corrupção das autoridades. Com diálogos brilhantes - especialmente aqueles com a presença do ótimo Lou Jacobi, substituindo Charles Laughton, morto antes das filmagens, no papel de Moustache - "Irma La Douce" pode não chegar ao nível de qualidade dos melhores trabalhos de Wilder, mas é uma prova a mais de seu absurdo talento em inserir sua personalidade genial até mesmo em criações alheias. Difícil é sentir falta de qualquer número musical quando se está diante da química perfeita entre Jack Lemmon e Shirley MacLaine.
quarta-feira
DESAFIO DO ALÉM
DESAFIO DO ALÉM (The haunting, 1963, Argyle Enterprises, 112min)
Direção: Robert Wise. Roteiro: Nelson Gidding, romance "The haunting of
Hill House", de Shirley Jackson. Fotografia: Davis Boulton. Montagem:
Ernest Walter. Música: Humphrey Searle. Direção de arte/cenários: Elliot
Scott/John Jarvis. Produção: Robert Wise. Elenco: Julie Harris, Claire
Bloom, Richard Johnson, Russ Tamblyn, Fay Compton. Estreia: 18/9/63
Em 1999, acreditando que a tecnologia que tornava qualquer efeito visual imaginado possível de ser mostrado nas telas de cinema, os produtores de Hollywood resolveram que era uma boa ideia realizar um remake do clássico "Desafio do além", um dos mais assustadores filmes de terror da década de 60 e um dos preferidos de ninguém menos que Martin Scorsese. Com o título alterado para "A casa amaldiçoada", um elenco que incluía Liam Neeson, Catherine Zeta-Jones e Lily Taylor e a direção de Jan De Bont - vindo dos sucessos "Velocidade máxima" (94) e "Twister" (96) e do fracasso de "Velocidade máxima 2" (97) - o filme acabou naufragando nas bilheterias e foi massacrado pela crítica. Merecido! Ao substituir o poder de sugestão do original, que buscava o medo através de ruídos fora de lugar e ameaças invisíveis, a refilmagem acabou por perder em inteligência e sobriedade - elementos que fizeram do primeiro filme uma obra obrigatória aos fãs de filmes de terror.
A trajetória de "Desafio do além" até transformar-se em um clássico indiscutível do gênero começou quando o cineasta Robert Wise, ainda na fase de pós-produção de seu "Amor, sublime amor" (que lhe daria o Oscar de melhor direção), leu, na revista Time, a resenha de um livro escrito por Shirley Jackson, chamado "The haunting of Hill House". Intrigado com a trama criada pela autora, Wise imediatamente recomendou-a para o roteirista Nelson Gidding - com quem já havia trabalhado em "Quero viver" (58) - e decidiu que sua adaptação seria o filme que ele ainda devia, por contrato, à MGM. O estúdio concordou com a ideia, mas foi na Inglaterra que Wise obteve melhor receptividade ao projeto - leia-se um orçamento um pouquinho maior - e tal situação acabou levando a produção para Londres e para a escalação de dois de seus atores, Claire Bloom e Richard Johnson. A eles uniram-se Julie Harris (que aceitou o papel principal, a da atormentada Eleanor Lance, por ter interesse em parapsicologia) e Russ Tamblyng (obrigado pelo estúdio a cumprir contrato) e, surpreendendo a quem esperava dele algo mais ambicioso depois de sua versão musical e moderna de "Romeu e Julieta" - um dos filmes mais premiados da história da Academia - Wise entregou uma produção simples e intimista, mais preocupada com a construção delicada do suspense do que com os efeitos mirabolantes que fariam a desgraça do filme de três décadas depois.
A história de "Desafio do além" segue à risca os elementos mais clássicos das tramas de casas mal-assombradas e fantasmas mal-intencionados: para buscar provas para seus experimentos sobre paranormalidade, o dr. Markway (Richard Johnson) decide reunir, em uma mansão dita assombrada, um grupo de pessoas estranhas entre si e que podem lhe ajudar em seus objetivos. Sobrinho de um dos herdeiros da propriedade, o jovem Luke Sanderson (Russ Tamblyn) serve como a voz da razão; modernosa, médium e lésbica, Theodora (Claire Bloom) é a mais favorável a acreditar na força do além; e Eleanor (Julie Harris, que usou a própria depressão como elemento em sua interpretação) é uma mulher sem rumo na vida desde a morte da mãe e que aceita o desafio como forma de encontrar uma razão para a vida. Aos poucos, enquanto Theodora tenta aproximar-se de Eleanor - que se mantém violentamente afetada pelo passado trágico da casa, que já fez quatro vítimas mulheres em oitenta anos de existência - fatos inexplicáveis começam a tomar conta do ambiente, levando todos à certeza de que há uma forte conexão entre Eleanor e o local (ou seus fantasmas).
Fugindo do óbvio e apostando na sutileza da trama, Robert Wise criou um espetáculo que sugere muito mais do que mostra, para sorte de todos que preferem o medo oriundo da mente mais do que de sangue escorrendo pela tela - e até mesmo a opção do diretor em filmar em preto-e-branco colabora para tal sensação de claustrofobia. A direção de arte primorosa, que faz da casa um personagem a mais, é um dos pontos altos do filme, em especial uma tétrica escada em caracol que serve de cenário para o clímax. Abrindo mão de sua ideia inicial - a de localizar a narrativa inteira dentro da cabeça de Eleanor - o roteiro de Nelson Gidding se ampara basicamente na força da história, na direção firme de Wise e na atuação de seu elenco, levando a sério uma trama para a qual é imprescindível uma dose generosa de imaginação e dedicação - justamente o que faltou em sua versão moderna, que apoiou-se no visual e deixou de lado o que há de humano e mais assustador no enredo: o que existe além do que os olhos podem ver.
Em 1999, acreditando que a tecnologia que tornava qualquer efeito visual imaginado possível de ser mostrado nas telas de cinema, os produtores de Hollywood resolveram que era uma boa ideia realizar um remake do clássico "Desafio do além", um dos mais assustadores filmes de terror da década de 60 e um dos preferidos de ninguém menos que Martin Scorsese. Com o título alterado para "A casa amaldiçoada", um elenco que incluía Liam Neeson, Catherine Zeta-Jones e Lily Taylor e a direção de Jan De Bont - vindo dos sucessos "Velocidade máxima" (94) e "Twister" (96) e do fracasso de "Velocidade máxima 2" (97) - o filme acabou naufragando nas bilheterias e foi massacrado pela crítica. Merecido! Ao substituir o poder de sugestão do original, que buscava o medo através de ruídos fora de lugar e ameaças invisíveis, a refilmagem acabou por perder em inteligência e sobriedade - elementos que fizeram do primeiro filme uma obra obrigatória aos fãs de filmes de terror.
A trajetória de "Desafio do além" até transformar-se em um clássico indiscutível do gênero começou quando o cineasta Robert Wise, ainda na fase de pós-produção de seu "Amor, sublime amor" (que lhe daria o Oscar de melhor direção), leu, na revista Time, a resenha de um livro escrito por Shirley Jackson, chamado "The haunting of Hill House". Intrigado com a trama criada pela autora, Wise imediatamente recomendou-a para o roteirista Nelson Gidding - com quem já havia trabalhado em "Quero viver" (58) - e decidiu que sua adaptação seria o filme que ele ainda devia, por contrato, à MGM. O estúdio concordou com a ideia, mas foi na Inglaterra que Wise obteve melhor receptividade ao projeto - leia-se um orçamento um pouquinho maior - e tal situação acabou levando a produção para Londres e para a escalação de dois de seus atores, Claire Bloom e Richard Johnson. A eles uniram-se Julie Harris (que aceitou o papel principal, a da atormentada Eleanor Lance, por ter interesse em parapsicologia) e Russ Tamblyng (obrigado pelo estúdio a cumprir contrato) e, surpreendendo a quem esperava dele algo mais ambicioso depois de sua versão musical e moderna de "Romeu e Julieta" - um dos filmes mais premiados da história da Academia - Wise entregou uma produção simples e intimista, mais preocupada com a construção delicada do suspense do que com os efeitos mirabolantes que fariam a desgraça do filme de três décadas depois.
A história de "Desafio do além" segue à risca os elementos mais clássicos das tramas de casas mal-assombradas e fantasmas mal-intencionados: para buscar provas para seus experimentos sobre paranormalidade, o dr. Markway (Richard Johnson) decide reunir, em uma mansão dita assombrada, um grupo de pessoas estranhas entre si e que podem lhe ajudar em seus objetivos. Sobrinho de um dos herdeiros da propriedade, o jovem Luke Sanderson (Russ Tamblyn) serve como a voz da razão; modernosa, médium e lésbica, Theodora (Claire Bloom) é a mais favorável a acreditar na força do além; e Eleanor (Julie Harris, que usou a própria depressão como elemento em sua interpretação) é uma mulher sem rumo na vida desde a morte da mãe e que aceita o desafio como forma de encontrar uma razão para a vida. Aos poucos, enquanto Theodora tenta aproximar-se de Eleanor - que se mantém violentamente afetada pelo passado trágico da casa, que já fez quatro vítimas mulheres em oitenta anos de existência - fatos inexplicáveis começam a tomar conta do ambiente, levando todos à certeza de que há uma forte conexão entre Eleanor e o local (ou seus fantasmas).
Fugindo do óbvio e apostando na sutileza da trama, Robert Wise criou um espetáculo que sugere muito mais do que mostra, para sorte de todos que preferem o medo oriundo da mente mais do que de sangue escorrendo pela tela - e até mesmo a opção do diretor em filmar em preto-e-branco colabora para tal sensação de claustrofobia. A direção de arte primorosa, que faz da casa um personagem a mais, é um dos pontos altos do filme, em especial uma tétrica escada em caracol que serve de cenário para o clímax. Abrindo mão de sua ideia inicial - a de localizar a narrativa inteira dentro da cabeça de Eleanor - o roteiro de Nelson Gidding se ampara basicamente na força da história, na direção firme de Wise e na atuação de seu elenco, levando a sério uma trama para a qual é imprescindível uma dose generosa de imaginação e dedicação - justamente o que faltou em sua versão moderna, que apoiou-se no visual e deixou de lado o que há de humano e mais assustador no enredo: o que existe além do que os olhos podem ver.
terça-feira
DUAS MULHERES
DUAS MULHERES (La ciociara, 1960, Compagnia Cinematografica
Champion, 100min) Direção: Vittorio De Sica. Roteiro: Vittorio De Sica,
romance de Alberto Moravia, adaptação de Cesare Zavattini. Fotografia:
Gabor Pogany. Montagem: Adriana Novelli. Música: Armando Trovajoli.
Figurino: Elio Constanzi. Direção de arte/cenários: Gastone Medin/Elio
Constanzi. Produção: Carlo Ponti. Elenco: Sophia Loren, Jean-Paul
Belmondo, Eleonora Brown, Carlo Ninchi. Estreia: 22/12/60
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Sophia Loren)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Atriz (Sophia Loren)
Demorou quase três décadas até que a Academia de Hollywood finalmente percebesse que fora do alcance da língua inglesa também existia cinema de qualidade - a categoria de Melhor Filme Estrangeiro, por exemplo, só começou a ser oficialmente competitiva em 1956, quando "A estrada da vida", de Federico Fellini, levou a estatueta. Foi somente na cerimônia de 1961, no entanto - a de número 34 - que uma atriz conseguiu finalmente romper a barreira do idioma e sagrar-se vencedora do Oscar na categoria principal. E engana-se que para isso foi preciso que tivesse uma longa e vitoriosa carreira que justificasse um prêmio de consolação: a italiana Sophia Loren tinha apenas 27 anos de idade quando foi eleita pelos membros da Academia, batendo nomes como Audrey Hepburn ("Bonequinha de luxo") e Natalie Wood ("Clamor do sexo"). Além de jovem e no auge da sensualidade, Loren deixava claro, com sua interpretação visceral em "Duas mulheres", que talento não tinha idade, nacionalidade ou aparência física - e devolvia à Academia um pouco da credibilidade abalada com a vitória de Elizabeth Taylor no ano anterior por pura e simples piedade (ela ganhou por "Disque Butterfield 8" mais pelos sérios problemas de saúde pelos quais passava do que propriamente por mérito artístico).
A escalação de Loren para o papel principal de "Duas mulheres" foi um tanto problemática, apesar do produtor do filme ser seu marido, Carlo Ponti: quando surgiu a ideia de adaptar o romance de Alberto Moravia, publicado em 1958, o filme seria dirigido por George Cukor e produzido pela Paramount, com toda a estrutura de um grande estúdio hollywoodiano. A protagonista seria vivida por outra italiana, Anna Magnani, com quem Cukor havia trabalho em "A fúria da carne" (57) e que havia sido indicada ao Oscar pelo papel. Loren estaria no elenco, mas como a filha adolescente de Magnani, e então a história oferece duas versões: em uma delas, a estrela de "Roma, cidade aberta" abriu mão do filme por motivos de saúde e recomendou Sophia para o seu papel, certa de que ela não se importaria em interpretar uma mulher mais velha. Em outra, menos favorável à Magnani, ela recusou-se a dividir a cena com a jovem atriz por temer que sua aparência roubasse a cena e se tornasse o principal atrativo do filme. Seja como for, Cukor abandonou o projeto e o filme acabou sendo realizado no país natal de Moravia, em seu idioma original e filmado em cenários naturais - o que, de certa forma, aproximava o resultado final das raízes neorrealistas de seu novo diretor, Vittorio De Sica. Premiado no Festival de Cannes e com o Golden Globe de melhor filme estrangeiro, "Duas mulheres" terminou por beneficiar-se de suas dificuldades iniciais e ficar para a história.
A trama se passa em 1943, em meio ao auge da II Guerra Mundial. Em Roma, a viúva Cesira (Sophia Loren) vive como comerciante, mas, temerosa diante dos constantes bombardeios na capital italiana, decide abandoná-la e esconder-se em sua região natal, no interior do país, deixando sua propriedade aos cuidados de um antigo amante, Giovanni (Raf Vallone). Acompanhada da única filha, a adolescente Rosetta (Eleanora Brown), sua maior razão de viver e preocupação constante, Cesira atravessa cidades a pé, de mula e de trem, sofrendo com a possibilidade de ser atingida por algum dos aviões que fazem voos rasantes ou soldados perdidos pela região. Quando finalmente chega a seu destino, encontra um grupo de moradores que vivem à margem do conflito, ainda que cientes de sua importância no dia-a-dia. Desse grupo faz parte Michele (Jean-Paul Belmondo), um professor com tendências esquerdistas que não demora a encantar-se com a nova integrante do grupo - e que acaba por interessar a jovem Rosetta. A tranquilidade do lugar, porém, é maculada quando um grupo de soldados alemães obriga Michele a guiá-los pelas montanhas - com medo da aproximação da guerra, Cesira resolve voltar para Roma com Rosetta. Mas, para seu desespero, o que as espera é ainda pior que a fome e a miséria.
Restaurado em 2002, "Duas mulheres" é um dos filmes mais importantes da carreira do cineasta Vittorio De Sica - autor do emblemático "Ladrões de bicicleta" - e certamente a produção que atestou a maturidade do talento de Sophia Loren, que entrega uma atuação desesperada e sensual na medida certa. Inspirado em relatos verdadeiros ocorridos durante a II Guerra Mundial na região de Monte Cassino - onde mais de 60 mil mulheres sofreram violência sexual por soldados marroquinos - o romance de Alberto Moravia serviu de base para um filme de guerra onde ela surge apenas como uma sombra perigosa e nefasta, que faz vítimas tanto no campo de batalha quanto fora dele. Mesmo que o roteiro escrito pelo próprio diretor sofra de quedas de ritmo, algumas imagens são fortes o bastante para permanecer na memória do espectador e atestar seu talento em falar tão diretamente à emoção sem apelar para o piegas. Loren, linda e carismática, entrega uma performance arrebatadora - em um papel que repetiu no remake televisivo do filme, realizado em 1988 - e eleva o filme a um patamar acima dos dramas de guerra americanos, normalmente com um nível de patriotismo exagerado. Um filme para quem procura pela verdade humana mais do que por artifícios emocionais.
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Sophia Loren)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Atriz (Sophia Loren)
Demorou quase três décadas até que a Academia de Hollywood finalmente percebesse que fora do alcance da língua inglesa também existia cinema de qualidade - a categoria de Melhor Filme Estrangeiro, por exemplo, só começou a ser oficialmente competitiva em 1956, quando "A estrada da vida", de Federico Fellini, levou a estatueta. Foi somente na cerimônia de 1961, no entanto - a de número 34 - que uma atriz conseguiu finalmente romper a barreira do idioma e sagrar-se vencedora do Oscar na categoria principal. E engana-se que para isso foi preciso que tivesse uma longa e vitoriosa carreira que justificasse um prêmio de consolação: a italiana Sophia Loren tinha apenas 27 anos de idade quando foi eleita pelos membros da Academia, batendo nomes como Audrey Hepburn ("Bonequinha de luxo") e Natalie Wood ("Clamor do sexo"). Além de jovem e no auge da sensualidade, Loren deixava claro, com sua interpretação visceral em "Duas mulheres", que talento não tinha idade, nacionalidade ou aparência física - e devolvia à Academia um pouco da credibilidade abalada com a vitória de Elizabeth Taylor no ano anterior por pura e simples piedade (ela ganhou por "Disque Butterfield 8" mais pelos sérios problemas de saúde pelos quais passava do que propriamente por mérito artístico).
A escalação de Loren para o papel principal de "Duas mulheres" foi um tanto problemática, apesar do produtor do filme ser seu marido, Carlo Ponti: quando surgiu a ideia de adaptar o romance de Alberto Moravia, publicado em 1958, o filme seria dirigido por George Cukor e produzido pela Paramount, com toda a estrutura de um grande estúdio hollywoodiano. A protagonista seria vivida por outra italiana, Anna Magnani, com quem Cukor havia trabalho em "A fúria da carne" (57) e que havia sido indicada ao Oscar pelo papel. Loren estaria no elenco, mas como a filha adolescente de Magnani, e então a história oferece duas versões: em uma delas, a estrela de "Roma, cidade aberta" abriu mão do filme por motivos de saúde e recomendou Sophia para o seu papel, certa de que ela não se importaria em interpretar uma mulher mais velha. Em outra, menos favorável à Magnani, ela recusou-se a dividir a cena com a jovem atriz por temer que sua aparência roubasse a cena e se tornasse o principal atrativo do filme. Seja como for, Cukor abandonou o projeto e o filme acabou sendo realizado no país natal de Moravia, em seu idioma original e filmado em cenários naturais - o que, de certa forma, aproximava o resultado final das raízes neorrealistas de seu novo diretor, Vittorio De Sica. Premiado no Festival de Cannes e com o Golden Globe de melhor filme estrangeiro, "Duas mulheres" terminou por beneficiar-se de suas dificuldades iniciais e ficar para a história.
A trama se passa em 1943, em meio ao auge da II Guerra Mundial. Em Roma, a viúva Cesira (Sophia Loren) vive como comerciante, mas, temerosa diante dos constantes bombardeios na capital italiana, decide abandoná-la e esconder-se em sua região natal, no interior do país, deixando sua propriedade aos cuidados de um antigo amante, Giovanni (Raf Vallone). Acompanhada da única filha, a adolescente Rosetta (Eleanora Brown), sua maior razão de viver e preocupação constante, Cesira atravessa cidades a pé, de mula e de trem, sofrendo com a possibilidade de ser atingida por algum dos aviões que fazem voos rasantes ou soldados perdidos pela região. Quando finalmente chega a seu destino, encontra um grupo de moradores que vivem à margem do conflito, ainda que cientes de sua importância no dia-a-dia. Desse grupo faz parte Michele (Jean-Paul Belmondo), um professor com tendências esquerdistas que não demora a encantar-se com a nova integrante do grupo - e que acaba por interessar a jovem Rosetta. A tranquilidade do lugar, porém, é maculada quando um grupo de soldados alemães obriga Michele a guiá-los pelas montanhas - com medo da aproximação da guerra, Cesira resolve voltar para Roma com Rosetta. Mas, para seu desespero, o que as espera é ainda pior que a fome e a miséria.
Restaurado em 2002, "Duas mulheres" é um dos filmes mais importantes da carreira do cineasta Vittorio De Sica - autor do emblemático "Ladrões de bicicleta" - e certamente a produção que atestou a maturidade do talento de Sophia Loren, que entrega uma atuação desesperada e sensual na medida certa. Inspirado em relatos verdadeiros ocorridos durante a II Guerra Mundial na região de Monte Cassino - onde mais de 60 mil mulheres sofreram violência sexual por soldados marroquinos - o romance de Alberto Moravia serviu de base para um filme de guerra onde ela surge apenas como uma sombra perigosa e nefasta, que faz vítimas tanto no campo de batalha quanto fora dele. Mesmo que o roteiro escrito pelo próprio diretor sofra de quedas de ritmo, algumas imagens são fortes o bastante para permanecer na memória do espectador e atestar seu talento em falar tão diretamente à emoção sem apelar para o piegas. Loren, linda e carismática, entrega uma performance arrebatadora - em um papel que repetiu no remake televisivo do filme, realizado em 1988 - e eleva o filme a um patamar acima dos dramas de guerra americanos, normalmente com um nível de patriotismo exagerado. Um filme para quem procura pela verdade humana mais do que por artifícios emocionais.
segunda-feira
VÍCIO MALDITO
VÍCIO MALDITO (Days of wine and rose, 1962, Jalem Productions,
117min) Direção: Blake Edwards. Roteiro: JP Miller. Fotografia: Phillip
H. Lathrop. Montagem: Patrick McCormack. Música: Henry Mancini.
Figurino: Donfeld. Direção de arte/cenários: Joseph Wright/George James
Hopkins. Produção: Martin Manulis. Elenco: Jack Lemmon, Lee Remick,
Charles Bickford, Jack Klugman, Alan Hewitt. Estreia: 26/12/62
5 indicações ao Oscar: Ator (Jack Lemmon), Atriz (Lee Remick), Canção Original ("Days of wine and roses"), Figurino em P&B, Direção de Arte em P&B
Vencedor do Oscar de Canção Original ("Days of wine and roses")
As primeiras cenas e o nome do diretor Blake Edwards, o mesmo de "Bonequinha de luxo" (61), nos créditos de abertura dão a impressão de que, apesar do título em português já entregar o jogo, o filme "Vício maldito" seguirá o caminho dos dramas românticos adocicados de que Hollywood é pródiga desde tempos imemoriais: o relações públicas Joe Clay (Jack Lemmon), cuja maior parte do trabalho consiste em arrumar acompanhantes de luxo para seus clientes, se apaixona perdidamente pela bela e jovem secretária Kirsten Amesen (Lee Remick) e, depois de um tempo, os dois acabam se casando mesmo com a relutância do pai da moça, Ellis (Charles Bickford). Porém, já nessas primeiras sequências pode-se perceber que Joe tem um problema sério com o álcool, apesar de nem mesmo ele notar tal dependência, mas Kirsten é uma doce e ingênua abstêmia cujo único vício é em chocolate. A forma com que essa história de amor se transforma em pesadelo é, no entanto, o que faz do filme de Edwards mais um contundente retrato de uma chaga social das mais dilacerantes, o alcoolismo. Ao contrário do que fez Billy Wilder em 1945, com seu "Farrapo humano" - vencedor dos Oscar de filme, diretor, roteiro e ator para Ray Milland - e seu mergulho nos dramas de um escritor que convivia com a doença como se ela fosse uma amiga insidiosa, "Vício maldito" insere a tragédia em um universo bem mais prosaico: a classe média americana, ilusoriamente protegida de tais desvios de conduta e moral.
Quando a segunda fase do filme chega, Joe e Kirsten já estão casados e são pais de uma menina. Ele está com problemas no trabalho - e não percebe que, apesar de parecer, não é isso que o empurra para a garrafa, e sim o contrário: sua crise profissional é consequência de sua doença e, como desgraça pouca é bobagem, sua esposa, para lhe fazer companhia, começa também a beber "socialmente". Não é preciso muita imaginação para saber que tal ideia não é das mais brilhantes, e logo em seguida, Kirsten e Joe estão juntos em farras etílicas, desabando financeiramente e entrando em uma espiral de desespero que não tem como acabar bem. Nem mesmo quando ele finalmente percebe o estado lastimável em que se encontra - ao ver sua imagem refletida na vitrine de uma loja - e recorre à ajuda do AA, as coisas não parecem ser simples: cada vez mais entregue à bebida, Kirsten passa a afastar-se do marido, que não consegue administrar sua vontade cada vez maior de manter-se sóbrio ao lado da mulher que ama - e que iniciou sua autodestruição a seu lado.
Baseado em um texto escrito para a televisão por J.P. Miller em 1958 - então dirigido por John Frankenheimer e estrelado por Cliff Robertson - "Vício maldito" é praticamente um corpo estranho na filmografia de Blake Edwards, conhecido como o criador do Inspetor Closeau da série de filmes "A pantera cor-de-rosa", iniciada no ano seguinte. Sem espaço para nenhum tipo de humor, o roteiro vai escorregando, a cada cena, mais para o fundo do poço, sem melindres ao mostrar a forma triste com que o casamento e a vida do casal central se transforma, pouco a pouco, gole a gole, em um imenso turbilhão emocional, capaz de destruir o amor-próprio, a felicidade conjugal, a família e a carreira em uma sombra indefinível e dolorosa. Jack Lemmon, recém saído do extraordinário "Se meu apartamento falasse" - outro filme de Billy Wilder a sair consagrado da cerimônia do Oscar - entrega uma performance arrebatadora, comprovando seu talento sem igual em viver tipos tão díspares quanto o músico travestido de "Quanto mais quente melhor" (59, sintomaticamente também assinado por Billy Wilder) e um atormentado alcoólatra. Sua atuação rendeu-lhe mais uma indicação ao prêmio da Academia, assim como à sua parceira de cena, Lee Remick, que entrega uma interpretação também bastante forte e contundente. Enquanto Remick brilha principalmente no terço final do filme, quando sua personagem submerge na doença, Lemmon entrega ao público algumas cenas de cortar o coração - em uma delas, destroi a estufa de flores do sogro em busca de uma garrafa que possa lhe tirar o desespero por um gole.
E talvez a força de "Vício maldito" - além de seu tema e de sua qualidade dramática - venha de uma equipe que sabia do que estava falando. Não apenas o roteirista J.P. Miller sofria de alcoolismo, o que confere uma veracidade dolorosa a cada diálogo, mas também Blake Edwards teve um passado difícil em relação à bebida, e Jack Lemmon, que teve uma mãe alcoólatra, confessou que antes de tornar-se astro flertou com o perigo em forma de garrafa. Como se isso não bastasse, Johnny Mercer, o compositor da canção-tema do filme - que ganhou o Oscar da categoria - morreu sem ter se recuperado da doença, assim como o poeta inglês Ernest Dowson, que escreveu o belo "Vitae suma brevis", cujos versos "São curtos os dias de vinhos e de rosas. Por um instante, emergimos de um sonho de névoas. Mas o caminho logo se fecha, dentro do mesmo sonho." servem de ilustração para a trágica história de amor contada no filme. Dowson morreu aos 33 anos, em 1900, vítima de complicações decorrentes do alcoolismo. Assim como Joe e Kirsten, ele aprendeu da pior maneira possível a tragédia dos paraísos artificiais.
5 indicações ao Oscar: Ator (Jack Lemmon), Atriz (Lee Remick), Canção Original ("Days of wine and roses"), Figurino em P&B, Direção de Arte em P&B
Vencedor do Oscar de Canção Original ("Days of wine and roses")
As primeiras cenas e o nome do diretor Blake Edwards, o mesmo de "Bonequinha de luxo" (61), nos créditos de abertura dão a impressão de que, apesar do título em português já entregar o jogo, o filme "Vício maldito" seguirá o caminho dos dramas românticos adocicados de que Hollywood é pródiga desde tempos imemoriais: o relações públicas Joe Clay (Jack Lemmon), cuja maior parte do trabalho consiste em arrumar acompanhantes de luxo para seus clientes, se apaixona perdidamente pela bela e jovem secretária Kirsten Amesen (Lee Remick) e, depois de um tempo, os dois acabam se casando mesmo com a relutância do pai da moça, Ellis (Charles Bickford). Porém, já nessas primeiras sequências pode-se perceber que Joe tem um problema sério com o álcool, apesar de nem mesmo ele notar tal dependência, mas Kirsten é uma doce e ingênua abstêmia cujo único vício é em chocolate. A forma com que essa história de amor se transforma em pesadelo é, no entanto, o que faz do filme de Edwards mais um contundente retrato de uma chaga social das mais dilacerantes, o alcoolismo. Ao contrário do que fez Billy Wilder em 1945, com seu "Farrapo humano" - vencedor dos Oscar de filme, diretor, roteiro e ator para Ray Milland - e seu mergulho nos dramas de um escritor que convivia com a doença como se ela fosse uma amiga insidiosa, "Vício maldito" insere a tragédia em um universo bem mais prosaico: a classe média americana, ilusoriamente protegida de tais desvios de conduta e moral.
Quando a segunda fase do filme chega, Joe e Kirsten já estão casados e são pais de uma menina. Ele está com problemas no trabalho - e não percebe que, apesar de parecer, não é isso que o empurra para a garrafa, e sim o contrário: sua crise profissional é consequência de sua doença e, como desgraça pouca é bobagem, sua esposa, para lhe fazer companhia, começa também a beber "socialmente". Não é preciso muita imaginação para saber que tal ideia não é das mais brilhantes, e logo em seguida, Kirsten e Joe estão juntos em farras etílicas, desabando financeiramente e entrando em uma espiral de desespero que não tem como acabar bem. Nem mesmo quando ele finalmente percebe o estado lastimável em que se encontra - ao ver sua imagem refletida na vitrine de uma loja - e recorre à ajuda do AA, as coisas não parecem ser simples: cada vez mais entregue à bebida, Kirsten passa a afastar-se do marido, que não consegue administrar sua vontade cada vez maior de manter-se sóbrio ao lado da mulher que ama - e que iniciou sua autodestruição a seu lado.
Baseado em um texto escrito para a televisão por J.P. Miller em 1958 - então dirigido por John Frankenheimer e estrelado por Cliff Robertson - "Vício maldito" é praticamente um corpo estranho na filmografia de Blake Edwards, conhecido como o criador do Inspetor Closeau da série de filmes "A pantera cor-de-rosa", iniciada no ano seguinte. Sem espaço para nenhum tipo de humor, o roteiro vai escorregando, a cada cena, mais para o fundo do poço, sem melindres ao mostrar a forma triste com que o casamento e a vida do casal central se transforma, pouco a pouco, gole a gole, em um imenso turbilhão emocional, capaz de destruir o amor-próprio, a felicidade conjugal, a família e a carreira em uma sombra indefinível e dolorosa. Jack Lemmon, recém saído do extraordinário "Se meu apartamento falasse" - outro filme de Billy Wilder a sair consagrado da cerimônia do Oscar - entrega uma performance arrebatadora, comprovando seu talento sem igual em viver tipos tão díspares quanto o músico travestido de "Quanto mais quente melhor" (59, sintomaticamente também assinado por Billy Wilder) e um atormentado alcoólatra. Sua atuação rendeu-lhe mais uma indicação ao prêmio da Academia, assim como à sua parceira de cena, Lee Remick, que entrega uma interpretação também bastante forte e contundente. Enquanto Remick brilha principalmente no terço final do filme, quando sua personagem submerge na doença, Lemmon entrega ao público algumas cenas de cortar o coração - em uma delas, destroi a estufa de flores do sogro em busca de uma garrafa que possa lhe tirar o desespero por um gole.
E talvez a força de "Vício maldito" - além de seu tema e de sua qualidade dramática - venha de uma equipe que sabia do que estava falando. Não apenas o roteirista J.P. Miller sofria de alcoolismo, o que confere uma veracidade dolorosa a cada diálogo, mas também Blake Edwards teve um passado difícil em relação à bebida, e Jack Lemmon, que teve uma mãe alcoólatra, confessou que antes de tornar-se astro flertou com o perigo em forma de garrafa. Como se isso não bastasse, Johnny Mercer, o compositor da canção-tema do filme - que ganhou o Oscar da categoria - morreu sem ter se recuperado da doença, assim como o poeta inglês Ernest Dowson, que escreveu o belo "Vitae suma brevis", cujos versos "São curtos os dias de vinhos e de rosas. Por um instante, emergimos de um sonho de névoas. Mas o caminho logo se fecha, dentro do mesmo sonho." servem de ilustração para a trágica história de amor contada no filme. Dowson morreu aos 33 anos, em 1900, vítima de complicações decorrentes do alcoolismo. Assim como Joe e Kirsten, ele aprendeu da pior maneira possível a tragédia dos paraísos artificiais.
domingo
O VENTO SERÁ TUA HERANÇA
O VENTO SERÁ TUA HERANÇA (Inherit the wind, 1960, Stanley Kramer
Productions, 128min) Direção: Stanley Kramer. Roteiro: Nedrig Young (como Nathan E.
Douglas), Harold Jacob Smith, peça teatral de Jerome Lawrence, Robert E.
Lee. Fotografia: Ernest Laszlo. Montagem: Frederic Knutdson. Música:
Ernest Gold. Direção de arte: Rudolph Sternad. Produção: Stanley Kramer.
Elenco: Spencer Tracy, Fredric March, Gene Kelly, Dick York, Donna
Anderson, Harry Morgan. Estreia: 25/6/60 (Festival de Berlim)
4 indicações ao Oscar: Ator (Spencer Tracy), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem
Tudo começou em 1925, em uma pequena cidade do Tennessee chamada Dayton, quando um professor do ensino médio chamado John Thomas Scopes foi preso, acusado de violar uma lei estadual que proibia o ensino da Teoria da Evolução, do cientista Charles Darwin. Levado à julgamento, o caso passou a ser conhecido nacionalmente como o "Julgamento do Macaco" e dividiu furiosamente os moradores da cidade (a maioria deles fundamentalistas religiosos). Trinta anos mais tarde, o caso chegou à Broadway, em uma peça teatral escrita por Jerome Lawrence e Robert E. Lee que ganhou dois Tony Awards no ano seguinte. Foi apenas questão de tempo até que Hollywood se interessasse - através do diretor e produtor Stanley Kramer - pelo tema e pela adaptação da peça. Com um elenco liderado por dois vencedores do Oscar (Spencer Tracy e Fredric March) e um astro de musicais se arriscando em um filme dramático (Gene Kelly), Kramer acabou por fazer, com "O vento será tua herança" uma espécie de ensaio para aquele que se tornaria sua maior obra-prima, "Julgamento em Nuremberg", lançado em 1961 também com a participação de Tracy. Porém, se "Julgamento em Nuremberg" se tornaria um clássico absoluto no subgênero "filmes de tribunal", a transposição da história de John Scopes para as telas não conseguiu fugir de uma pequena cota de problemas.
O primeiro deles surgiu logo na pré-produção, quando Kramer contratou o roteirista Nedrick Young para ser um dos autores da adaptação do texto teatral, ao lado de Harold Jacob Smith: encrencado com a justiça americana devido a suas tendências comunistas e consideradas subversivas, Young foi uma escolha ousada do cineasta, que de cara conseguiu a antipatia dos mais conservadores. Apesar de tal atitude ser compatível com as ideias da própria essência do filme - o desafio a regras arbitrárias que fomentam o preconceito e a discriminação - a reclamação de parte da comunidade hollywoodiana foi tanta que até mesmo Moss Hart, o então presidente da Liga dos Autores da América, se viu obrigado a um posicionamento, que chegou à Kramer através de um telegrama louvando sua coragem em não impedir um artista de trabalhar apenas por suas questões políticas. Munido de ainda mais ousadia, Kramer passou então a escalar seu elenco - e surpreendeu a todo mundo quando escolheu Gene Kelly para um papel sério, sem espaço para acrobacias musicais. Diante da recusa inicial do ator, Kramer arriscou-se ainda mais: acenou com a chance de colocar o astro de "Cantando na chuva" ao lado de nomes respeitados, como Spencer Tracy e Fredric March. Era uma tentação grande demais, e Kelly voltou atrás na recusa - sem desconfiar que o diretor ainda nem oferecera o projeto aos atores que haviam lhe servido de isca.
Porém, a confiança de Kramer no material era tanta que acabou justificada. Tanto Tracy quanto March - ambos duplamente já premiados com o Oscar na ocasião - embarcaram no projeto com entusiasmo de iniciantes e entregaram performances que mesmo nas filmagens já empolgavam os técnicos e colegas de elenco: muita gente, ouvindo falar de seus desempenhos, iriam conferir os trabalhos como se estivessem no teatro, chegando a aplaudir em cena aberta (e, obviamente, estragando os takes). Mas o fato é que, além do tema interessante e ainda relevante nos dias cada vez mais obscurantistas de hoje, o elenco de "O vento será tua herança" é sua maior qualidade - Spencer Tracy chegou a concorrer ao Oscar de melhor ator, mas perdeu para Burt Lancaster, em "Entre Deus e o pecado". Com sua postura ao mesmo tempo afável e venerável, o veterano astro nem parece precisar fazer muito esforço para convencer no papel de Henry Drummond, o advogado famoso que chega à pequena Hillsboro (substituindo a original, Dayton) para defender o jovem professor Bertram Cates (Dick York) contra a possibilidade de uma condenação por pura ideologia. Contando com o apoio do ambicioso jornalista E.K. Hornbeck (Gene Kelly, ótimo), ele não precisa enfrentar apenas o tribunal, e sim quase uma cidade inteira - seus únicos aliados são os jovens alunos de Cates.
Do outro lado do ringue, Fredric March dá vida ao promotor Matthew Harrison Brady, advogado cristão que prega uma conduta mais rígida e religiosa - o que lhe deu estofo suficiente para concorrer três vezes à presidência dos EUA. Velho amigo de Drummond, o eloquente promotor acaba por usar o tribunal como púlpito, inflamando os já fanáticos moradores da cidade - e usando até mesmo a filha do pastor, Rachel Brown (Donna Anderson), namorada de Cates, para atingir seu objetivo de condenar o rapaz. É óbvio que o roteiro é muito mais simpático à causa de Drummond - Brady é quase tratado de forma caricata em alguns momentos - mas a elegância da direção de Kramer impede que o filme resvale na crítica moralizadora e/ou rasa. Os diálogos inteligentes superam qualquer tipo de doutrinação e o elenco faz sua parte em dar credibilidade e consistência a questões cada vez mais importantes em um mundo dividido pela religião. "O vento será tua herança" é um filme imperdível para qualquer fã de cinema inteligente e relevante.
4 indicações ao Oscar: Ator (Spencer Tracy), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem
Tudo começou em 1925, em uma pequena cidade do Tennessee chamada Dayton, quando um professor do ensino médio chamado John Thomas Scopes foi preso, acusado de violar uma lei estadual que proibia o ensino da Teoria da Evolução, do cientista Charles Darwin. Levado à julgamento, o caso passou a ser conhecido nacionalmente como o "Julgamento do Macaco" e dividiu furiosamente os moradores da cidade (a maioria deles fundamentalistas religiosos). Trinta anos mais tarde, o caso chegou à Broadway, em uma peça teatral escrita por Jerome Lawrence e Robert E. Lee que ganhou dois Tony Awards no ano seguinte. Foi apenas questão de tempo até que Hollywood se interessasse - através do diretor e produtor Stanley Kramer - pelo tema e pela adaptação da peça. Com um elenco liderado por dois vencedores do Oscar (Spencer Tracy e Fredric March) e um astro de musicais se arriscando em um filme dramático (Gene Kelly), Kramer acabou por fazer, com "O vento será tua herança" uma espécie de ensaio para aquele que se tornaria sua maior obra-prima, "Julgamento em Nuremberg", lançado em 1961 também com a participação de Tracy. Porém, se "Julgamento em Nuremberg" se tornaria um clássico absoluto no subgênero "filmes de tribunal", a transposição da história de John Scopes para as telas não conseguiu fugir de uma pequena cota de problemas.
O primeiro deles surgiu logo na pré-produção, quando Kramer contratou o roteirista Nedrick Young para ser um dos autores da adaptação do texto teatral, ao lado de Harold Jacob Smith: encrencado com a justiça americana devido a suas tendências comunistas e consideradas subversivas, Young foi uma escolha ousada do cineasta, que de cara conseguiu a antipatia dos mais conservadores. Apesar de tal atitude ser compatível com as ideias da própria essência do filme - o desafio a regras arbitrárias que fomentam o preconceito e a discriminação - a reclamação de parte da comunidade hollywoodiana foi tanta que até mesmo Moss Hart, o então presidente da Liga dos Autores da América, se viu obrigado a um posicionamento, que chegou à Kramer através de um telegrama louvando sua coragem em não impedir um artista de trabalhar apenas por suas questões políticas. Munido de ainda mais ousadia, Kramer passou então a escalar seu elenco - e surpreendeu a todo mundo quando escolheu Gene Kelly para um papel sério, sem espaço para acrobacias musicais. Diante da recusa inicial do ator, Kramer arriscou-se ainda mais: acenou com a chance de colocar o astro de "Cantando na chuva" ao lado de nomes respeitados, como Spencer Tracy e Fredric March. Era uma tentação grande demais, e Kelly voltou atrás na recusa - sem desconfiar que o diretor ainda nem oferecera o projeto aos atores que haviam lhe servido de isca.
Porém, a confiança de Kramer no material era tanta que acabou justificada. Tanto Tracy quanto March - ambos duplamente já premiados com o Oscar na ocasião - embarcaram no projeto com entusiasmo de iniciantes e entregaram performances que mesmo nas filmagens já empolgavam os técnicos e colegas de elenco: muita gente, ouvindo falar de seus desempenhos, iriam conferir os trabalhos como se estivessem no teatro, chegando a aplaudir em cena aberta (e, obviamente, estragando os takes). Mas o fato é que, além do tema interessante e ainda relevante nos dias cada vez mais obscurantistas de hoje, o elenco de "O vento será tua herança" é sua maior qualidade - Spencer Tracy chegou a concorrer ao Oscar de melhor ator, mas perdeu para Burt Lancaster, em "Entre Deus e o pecado". Com sua postura ao mesmo tempo afável e venerável, o veterano astro nem parece precisar fazer muito esforço para convencer no papel de Henry Drummond, o advogado famoso que chega à pequena Hillsboro (substituindo a original, Dayton) para defender o jovem professor Bertram Cates (Dick York) contra a possibilidade de uma condenação por pura ideologia. Contando com o apoio do ambicioso jornalista E.K. Hornbeck (Gene Kelly, ótimo), ele não precisa enfrentar apenas o tribunal, e sim quase uma cidade inteira - seus únicos aliados são os jovens alunos de Cates.
Do outro lado do ringue, Fredric March dá vida ao promotor Matthew Harrison Brady, advogado cristão que prega uma conduta mais rígida e religiosa - o que lhe deu estofo suficiente para concorrer três vezes à presidência dos EUA. Velho amigo de Drummond, o eloquente promotor acaba por usar o tribunal como púlpito, inflamando os já fanáticos moradores da cidade - e usando até mesmo a filha do pastor, Rachel Brown (Donna Anderson), namorada de Cates, para atingir seu objetivo de condenar o rapaz. É óbvio que o roteiro é muito mais simpático à causa de Drummond - Brady é quase tratado de forma caricata em alguns momentos - mas a elegância da direção de Kramer impede que o filme resvale na crítica moralizadora e/ou rasa. Os diálogos inteligentes superam qualquer tipo de doutrinação e o elenco faz sua parte em dar credibilidade e consistência a questões cada vez mais importantes em um mundo dividido pela religião. "O vento será tua herança" é um filme imperdível para qualquer fã de cinema inteligente e relevante.
sábado
SPARTACUS
SPARTACUS (Spartacus, 1960, Universal Pictures, 197min) Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Dalton Trumbo, romance de Howard Fast. Fotografia: Russell Metty. Montagem: Robert Lawrence. Música: Alex North. Figurino: Valles. Direção de arte/cenários: Alexander Golitzen/Russell A. Gausman, Julia Heron. Produção: Edward Lewis. Elenco: Kirk Douglas, Laurence Olivier, Jean Simmons, Charles Laughton, Peter Ustinov, John Gavin, Nina Foch, Tony Curtis, John Ireland. Estreia: 06/10/60
6 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Peter Ustinov), Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino em Cores, Direção de Arte/Cenários em Cores
Vencedor de 4 Oscar: Ator Coadjuvante (Peter Ustinov), Fotografia em Cores, Figurino em Cores, Direção de Arte/Cenários em Cores
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama
Quando o diretor inglês Stanley Kubrick foi chamado para substituir Anthony Mann no comando do épico "Spartacus", em 1960, ele ainda não havia realizado aquele filme que lhe consagraria e marcaria para sempre seu estilo detalhista ao ponto da obsessão: a ficção científica existencial "2001: uma odisseia no espaço", que só estrearia em 1962. Isso explica porque a história do escravo que se rebela contra o Império Romano quase um século antes de Cristo tem bem menos a ver com sua obra posterior e bem mais com os questionamentos políticos de um roteiro assinado pelo ex-renegado de Hollywood Dalton Trumbo - acusado de colaborar com os comunistas perseguidos pelo governo americano, Trumbo finalmente pode ver nome estampado nos créditos de um filme sem submeter-se a artimanhas intelectuais como a que quase lhe impediu de ganhar o Oscar pela comédia "A princesa e o plebeu". Aproveitando-se da trama criada pelo escritor Howard Fast em seu livro homônimo - por sua vez inspirado em uma história real - Trumbo explorou-lhe ao máximo as nuances políticas, para desgosto do próprio Kubrick, que não concordava com tal viés, e de alguns nomes de Hollywood que não viam com bons olhos a volta do roteirista à atividade normal - caso do ator John Wayne e da colunista Hedda Hopper, que começaram uma campanha contra o filme mesmo antes de sua estreia, com a alegação de que ele era "propaganda marxista". Um problema a mais para seu astro, Kirk Douglas, que via sua tentativa de mostrar à indústria que poderia realizar um épico à altura de "Ben-hur" (59) - papel que ele havia disputado com fervor - mostrar-se bem mais complicada do que parecera em um primeiro olhar.
A deserção de Anthony Mann da cadeira de diretor não foi o único problema da pré-produção. Ainda antes de Mann entrar no projeto outros cineastas já haviam declinado do convite de Douglas. Enquanto Joseph L. Mankiewicz e David Lean simplesmente recusaram a proposta, Laurence Olivier preferiu não misturar duas funções - ele já estava escalado como o grande vilão da história, Marcus Crassus. Mann, no entanto, não permaneceu muito tempo ligado ao filme: apesar de já ter filmado algumas cenas iniciais, logo foi afastado por Douglas, que percebeu nele uma afabilidade excessiva que prejudicava sua forma de lidar com o elenco repleto de grandes atores (e seus respectivos egos). A contratação de Stanley Kubrick, no entanto, acabou por revelar-se não uma solução, mas um problema a mais a ser driblado: dono de uma personalidade forte, o inglês bateu de frente com o diretor de fotografia Russell Metty - que reclamava constantemente das interferências do cineasta em seu trabalho e chegou até a pedir para ter seu nome retirado dos créditos, antes de ser premiado com o Oscar - e com Dalton Trumbo, de quem discordava a respeito da personalidade do protagonista, que considerava puro e sem defeitos demais para ser real. Somados a isso, havia a falta de afinidade entre Laurence Olivier e Charles Laughton - conhecidos desafetos - e os ataques de estrelismo de Laughton, que ameaçava constantemente processar os produtores, já preocupados com o medo da Universal com o teor considerado "subversivo" da história sob o olhar de Trumbo.
De certa forma, os temores da Universal tinham certo fundamento: desafiando o poderoso senador Joseph McCarthy ao recusar-se a delatar colegas com ligações comunistas e impedido de trabalhar em Hollywood por mais de uma década, Dalton Trumbo aproveitou a chance de ouro oferecida por Kirk Douglas para não apenas fazer um retorno triunfal - que coincidiu também com seu trabalho em "Exodus", de Otto Preminger - mas também para fazê-lo com um filme cujo tema combinava perfeitamente com sua ideologia. Porém, enquanto Kirk Douglas via a luta de Spartacus como uma metáfora para a fuga dos judeus do Egito, Trumbo via a ação como um símbolo da Guerra Fria. Não chegou a ser uma questão problemática: de qualquer modo que se veja "Spartacus", o filme de Kubrick é um poderoso drama de ação, repleto de cenas de grande impacto visual e personagens construídos com esmero, que servem facilmente a qualquer leitura ideológica que contraponha opressores e oprimidos.
A história é simples e direta: Spartacus (interpretado com vigor por Kirk Douglas) é um escravo rebelde, que não se conforma com o tratamento que recebe de seus senhores, na Roma pré-era cristã. Quando é vendido e passa a treinar para ser um gladiador, ele se apaixona por outra cativa, Varínia (Jean Simmons, em papel oferecido à Ingrid Bergman e para o qual Kubrick queria Audrey Hepburn) e, depois de matar um dos treinadores, começa a liderar um exército de amotinados que desafia o poder romano - em especial o cruel Marcus Crassus (Laurence Olivier). Perseguido e cada vez mais idolatrado pelos companheiros, ele se torna uma lenda, enquanto não se cansa de bradar contra as injustiças e os desmandos do governo. Indicado a seis Oscar - e premiado em quatro categorias, inclusive ator coadjuvante para Peter Ustinov como o diretor da escola de gladiadores - "Spartacus" fez grande sucesso de bilheteria, mas acabou rejeitado por Stanley Kubrick, famoso posteriormente pelo controle total sobre seus filmes. Em 1991, ocasião em que foi restaurado digitalmente, teve cenas cortadas à época de seu lançamento finalmente incorporadas à metragem original (Laurence Olivier foi dublado por Anthony Hopkins, uma vez que a trilha sonora havia sido perdida), dando novas nuances à relação entre Crassus e seu escravo Antoninus (Tony Curtis), eliminada então por seu teor homoerótico, uma subtrama que enriquece ainda mais o belo trabalho conjunto de Douglas, Kubrick e Trumbo. Um épico legítimo e inquestionável!
6 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Peter Ustinov), Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino em Cores, Direção de Arte/Cenários em Cores
Vencedor de 4 Oscar: Ator Coadjuvante (Peter Ustinov), Fotografia em Cores, Figurino em Cores, Direção de Arte/Cenários em Cores
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama
Quando o diretor inglês Stanley Kubrick foi chamado para substituir Anthony Mann no comando do épico "Spartacus", em 1960, ele ainda não havia realizado aquele filme que lhe consagraria e marcaria para sempre seu estilo detalhista ao ponto da obsessão: a ficção científica existencial "2001: uma odisseia no espaço", que só estrearia em 1962. Isso explica porque a história do escravo que se rebela contra o Império Romano quase um século antes de Cristo tem bem menos a ver com sua obra posterior e bem mais com os questionamentos políticos de um roteiro assinado pelo ex-renegado de Hollywood Dalton Trumbo - acusado de colaborar com os comunistas perseguidos pelo governo americano, Trumbo finalmente pode ver nome estampado nos créditos de um filme sem submeter-se a artimanhas intelectuais como a que quase lhe impediu de ganhar o Oscar pela comédia "A princesa e o plebeu". Aproveitando-se da trama criada pelo escritor Howard Fast em seu livro homônimo - por sua vez inspirado em uma história real - Trumbo explorou-lhe ao máximo as nuances políticas, para desgosto do próprio Kubrick, que não concordava com tal viés, e de alguns nomes de Hollywood que não viam com bons olhos a volta do roteirista à atividade normal - caso do ator John Wayne e da colunista Hedda Hopper, que começaram uma campanha contra o filme mesmo antes de sua estreia, com a alegação de que ele era "propaganda marxista". Um problema a mais para seu astro, Kirk Douglas, que via sua tentativa de mostrar à indústria que poderia realizar um épico à altura de "Ben-hur" (59) - papel que ele havia disputado com fervor - mostrar-se bem mais complicada do que parecera em um primeiro olhar.
A deserção de Anthony Mann da cadeira de diretor não foi o único problema da pré-produção. Ainda antes de Mann entrar no projeto outros cineastas já haviam declinado do convite de Douglas. Enquanto Joseph L. Mankiewicz e David Lean simplesmente recusaram a proposta, Laurence Olivier preferiu não misturar duas funções - ele já estava escalado como o grande vilão da história, Marcus Crassus. Mann, no entanto, não permaneceu muito tempo ligado ao filme: apesar de já ter filmado algumas cenas iniciais, logo foi afastado por Douglas, que percebeu nele uma afabilidade excessiva que prejudicava sua forma de lidar com o elenco repleto de grandes atores (e seus respectivos egos). A contratação de Stanley Kubrick, no entanto, acabou por revelar-se não uma solução, mas um problema a mais a ser driblado: dono de uma personalidade forte, o inglês bateu de frente com o diretor de fotografia Russell Metty - que reclamava constantemente das interferências do cineasta em seu trabalho e chegou até a pedir para ter seu nome retirado dos créditos, antes de ser premiado com o Oscar - e com Dalton Trumbo, de quem discordava a respeito da personalidade do protagonista, que considerava puro e sem defeitos demais para ser real. Somados a isso, havia a falta de afinidade entre Laurence Olivier e Charles Laughton - conhecidos desafetos - e os ataques de estrelismo de Laughton, que ameaçava constantemente processar os produtores, já preocupados com o medo da Universal com o teor considerado "subversivo" da história sob o olhar de Trumbo.
De certa forma, os temores da Universal tinham certo fundamento: desafiando o poderoso senador Joseph McCarthy ao recusar-se a delatar colegas com ligações comunistas e impedido de trabalhar em Hollywood por mais de uma década, Dalton Trumbo aproveitou a chance de ouro oferecida por Kirk Douglas para não apenas fazer um retorno triunfal - que coincidiu também com seu trabalho em "Exodus", de Otto Preminger - mas também para fazê-lo com um filme cujo tema combinava perfeitamente com sua ideologia. Porém, enquanto Kirk Douglas via a luta de Spartacus como uma metáfora para a fuga dos judeus do Egito, Trumbo via a ação como um símbolo da Guerra Fria. Não chegou a ser uma questão problemática: de qualquer modo que se veja "Spartacus", o filme de Kubrick é um poderoso drama de ação, repleto de cenas de grande impacto visual e personagens construídos com esmero, que servem facilmente a qualquer leitura ideológica que contraponha opressores e oprimidos.
A história é simples e direta: Spartacus (interpretado com vigor por Kirk Douglas) é um escravo rebelde, que não se conforma com o tratamento que recebe de seus senhores, na Roma pré-era cristã. Quando é vendido e passa a treinar para ser um gladiador, ele se apaixona por outra cativa, Varínia (Jean Simmons, em papel oferecido à Ingrid Bergman e para o qual Kubrick queria Audrey Hepburn) e, depois de matar um dos treinadores, começa a liderar um exército de amotinados que desafia o poder romano - em especial o cruel Marcus Crassus (Laurence Olivier). Perseguido e cada vez mais idolatrado pelos companheiros, ele se torna uma lenda, enquanto não se cansa de bradar contra as injustiças e os desmandos do governo. Indicado a seis Oscar - e premiado em quatro categorias, inclusive ator coadjuvante para Peter Ustinov como o diretor da escola de gladiadores - "Spartacus" fez grande sucesso de bilheteria, mas acabou rejeitado por Stanley Kubrick, famoso posteriormente pelo controle total sobre seus filmes. Em 1991, ocasião em que foi restaurado digitalmente, teve cenas cortadas à época de seu lançamento finalmente incorporadas à metragem original (Laurence Olivier foi dublado por Anthony Hopkins, uma vez que a trilha sonora havia sido perdida), dando novas nuances à relação entre Crassus e seu escravo Antoninus (Tony Curtis), eliminada então por seu teor homoerótico, uma subtrama que enriquece ainda mais o belo trabalho conjunto de Douglas, Kubrick e Trumbo. Um épico legítimo e inquestionável!
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