FEDORA (Fedora, 1978, Bavaria Atelier, 116min) Direção: Billy Wilder.
Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond, estória de Thomas Tryon.
Fotografia: Gerry Fisher. Montagem: Stefan Arnsten, Fredric Steinkamp.
Música: Miklos Rozsa. Figurino: Charlotte Fleming. Direção de
arte/cenários: Alexandre Trauner/Robert André. Produção: Billy Wilder.
Elenco: William Holden, Marthe Keller, Hildegard Knef, José Ferrer,
Frances Sternhagen, Henry Fonda, Michael York. Estreia: 30/5/78
(Festival de Cannes)
Em 1950, o filme "Crepúsculo dos deuses" retratava, de forma poética e um tanto cruel, o fim de um período de glamour dentro da indústria de cinema de Hollywood. Através da personagem Norma Desmond, vivida com propriedade pela extraordinária Gloria Swanson, o diretor e roteirista Billy Wilder criticava com ferocidade o tratamento dado pela nova geração aos ídolos do passado, normalmente relegados a um mero arremedo de existência quando longe dos holofotes. Vinte e oito anos mais tarde, em seu penúltimo filme, Wilder voltaria ao tema, porém sem o mesmo sucesso e o mesmo tom de ironia. "Fedora", inspirado em um conto de Thomas Tryon, não convenceu a crítica como tantos de seus trabalhos anteriores e acabou ficando conhecido como um filme menor na carreira do brilhante cineasta. De fato, é uma produção menos empolgante, mas ainda assim um filme acima da média, com uma história com reviravoltas o suficiente para manter a atenção até seu minuto final.
Pensado inicialmente como um telefilme a ser lançado na CBS, "Fedora" foi resgatado de tal destino pela United Artists, que, com o nome de Billy Wilder em vista, achou que o filme merecia uma estreia em grande estilo. A oportunidade perfeita surgiu com a retrospectiva da carreira do cineasta, no Festival de Cannes de 1978, mas a morna recepção ao resultado final foi responsável pelo descaso da distribuição do filme no mercado tanto doméstico quanto internacional. Para desgosto do próprio Wilder, até mesmo as exibições-teste foram um tanto desastrosas, com a plateia reagindo de forma inadequada ao desenvolvimento da trama, adaptada para as telas por ele mesmo e seu fiel colaborador I.A.L. Diamond. Recusando-se a editar ainda mais sua obra - já mutilada em 12 minutos pela UA - o diretor, cujo último filme havia sido o também pouco louvado "Avanti!... Amantes à italiana" (72), teve de contentar-se em vê-la passar quase em branco pelos cinemas, de forma melancólica e um tanto quanto injusta que nem mesmo sua apresentação no Festival de Cinema de Chicago deu conta de apagar. Ainda assim, é um filme que merece ser descoberto, nem que seja a título de curiosidade.
William Holden - por coincidência ou não o protagonista também de "Crepúsculo dos deuses" - trabalha novamente sob o comando de Wilder, na pele de Barry Detweiler, um produtor de cinema em crise financeira que, com uma adaptação de "Anna Karenina" em mãos, resolve oferecer o papel principal à reclusa atriz Fedora (Marthe Keller), aposentada das telas e moradora em uma escondida ilha mediterrânea, ao lado de uma condessa idosa e temperamental, um médico misterioso e uma governanta hostil. Em suas tentativas de convencer a atriz a voltar às telas, Barry não hesita em relembrá-la de um encontro de sua juventude, mas esbarra não apenas no perceptível desequilíbrio mental da antiga estrela mas também na resistência de todos que a rodeiam - um grupo de pessoas que parece esconder um grande segredo em relação a ela. Tal segredo acaba vindo à tona depois de uma tragédia inesperada - e Detweiler ficará sabendo, então, que a busca pela eterna juventude pode atingir patamares jamais imaginados.
Contando sua história com ares sombrios e repletos de surpresas mirabolantes, Billy Wilder deixa de lado (um pouco) sua habitual ironia, preferindo dedicar-se a enfatizar o lado doentio e claustrofóbico do mundo do cinema - e das celebridades em geral. Ao mudar completamente o rumo de sua narrativa em seu ato final, o cineasta convida o público a adentrar em uma nova história, digna dos melhores contos de horror de Edgar Allan Poe e dotada de uma melancolia surpreendente, em especial vinda de um homem que conseguiu falar de alcoolismo sem cair no sentimentalismo - em "Farrapo humano" (45) - e do sensacionalismo da imprensa sem apelar para o panfletarismo - em "A montanha dos sete abutres" (51). Como percebendo que também ele estava com sua carreira na reta final, Wilder dá seu recado de forma elegante mas contundente, utilizando-se de um gênero (o suspense) para iluminar uma forma quase patológica de vida, com elementos que lembram bastante "A pele que habito" (2011), de Pedro Almodóvar. Com participações especiais de Henry Fonda e Michael York como eles mesmos, "Fedora" é um Billy Wilder atípico, mas jamais menor. É apenas menos óbvio e requer mais atenção e dedicação.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade. Afinal, a sétima arte não tem esse nome à toa.
quinta-feira
quarta-feira
A GAIOLA DAS LOUCAS
A GAIOLA DAS LOUCAS (La cage aux folles, 1978, Da Ma Produzione,
103min) Direção: Édouard Molinaro. Roteiro: Francis Veber, Édouard
Molinaro, Marcello Danon, Jean Poiret, peça teatral de Jean Poiret.
Fotografia: Armando Nannuzzi. Montagem: Monique Isnardon, Robert
Isnardon. Música: Ennio Morricone. Figurino: Ambra Danon. Direção de
arte/cenários: Marco Garbuglia/Carlo Gervasi. Produção: Marcello Danon.
Elenco: Ugo Tognazzi, Michel Serrault, Claire Maurier, Rémi Laurent,
Carmen Scarpitta, Benny Luke, Luísa Maneri. Estreia: 25/10/78
3 indicações ao Oscar: Diretor (Édouard Molinaro), Roteiro Adaptado, Figurino
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro
Levando-se em consideração o quanto a plateia norte-americana é avesso a filmes legendados e seu alto grau de conservadorismo, não deixa de ser surpreendente que "A gaiola das loucas", produção italo-francesa dirigida por Édouard Molinaro em 1978 tenha se tornado, à época de seu lançamento, o filme estrangeiro de maior bilheteria nos EUA. Adaptação da peça teatral de Jean Poiret que ficou em cartaz em Paris ininterruptamente entre 1973 e 1978, o filme de Molinaro é uma comédia rasgada, quase histérica e que consegue, quase por milagre, tratar de um assunto delicado - homossexualidade - sem ofender a comunidade gay ou sofrer rejeição do público médio. Assumindo sem medo o histrionismo como forma narrativa e o exagero como forma de atingir a gargalhada, o cineasta mergulha o espectador em um universo recheado de excessos e que conquista justamente por apresentar personagens que, mesmo a um passo do estereótipo, se mostram falíveis e inseguros como boa parte de quem está do lado de fora da tela. Prova maior da sucessão de acertos de Molinaro é o fato de a Academia de Hollywood (normalmente avessa a comédias em suas cerimônias de premiação) ter aberto uma considerável exceção ao lhe indicar a três Oscar, incluindo melhor diretor e roteiro adaptado - além de uma tardia refilmagem feita em 1996 pelo veterano Mike Nichols, também sucesso de bilheteria.
A Gaiola das Loucas do título é a boate parisiense de propriedade do casal Renato Baldi (Ugo Tognazzi) e Albin Mougeotte (Michel Serrault) - que também se apresenta no local, sempre travestido e com shows de grande êxito. Vivendo juntos há mais de vinte anos, eles são surpreendidos com a notícia de que Laurent (Rémi Laurent), fruto da única experiência heterossexual de Renato, irá se casar com a namorada da faculdade. O problema é que a garota é filha de Simon Charrier (Michel Galabru), um político conservador e que zela pela moral e bons costumes da família francesa. Sabendo que contar a verdadeira natureza de seu relacionamento com Albin poderia colocar por água abaixo os planos amorosos do filho, Renato resolve afastar o amante de casa durante o jantar oferecido para que as famílias se apresentem. Ofendido com a ideia, Albin decide comparecer à reunião vestido como a mãe de Laurent - e o que já seria uma atitude temerária fica ainda mais perigosa quando a verdadeira progenitora do rapaz, Simone (Claire Maurier) também surge no apartamento devidamente redecorado para não ferir as suscetibilidades do venerável político.
Trabalhando em ritmo e estrutura de farsa, o roteiro de "A gaiola das loucas" brinca com todos os clichês e estereótipos da homossexualidade masculina, porém o faz com inteligência e respeito. Fica claro, conforme a história anda, que o filme é mais simpático à causa gay - e ao injustiçado Albin, dramático e espalhafatoso - do que à hipocrisia da direita representada por Simon Charrier. Para isso, é claro, o filme conta com a atuação espetacular de Michel Serrault, premiado com o César (o Oscar francês) por seu desempenho nunca aquém de hilariante. Se Ugo Tognazzi sai-se muito bem como a parte racional do casal, sempre tentando manter a paz doméstica mesmo nas crises do parceiro, é Serrault quem tem as cenas e diálogos mais apetitosos, em especial quando, na pele da mãe de Laurent, emplaca uma conversa surreal com o futuro sogro do rapaz. Some-se à essa situação bizarra o interesse da imprensa pelo político depois da morte do presidente em circunstâncias pouco e um empregado insatisfeito com sua obrigação de viver uma farsa e a confusão está formada em todas as frentes.
Sem perder o ritmo de sua narrativa em nenhum momento, sempre acrescentando informações e novidades à trama, Édouard Molinaro faz de "A gaiola das loucas" uma comédia absolutamente bem-sucedida, ao fugir do nicho de produção com temática gay - o que fatalmente o condenaria ao fracasso de bilheteria, haja visto que na década de 70 o assunto era um tabu ainda maior, mesmo no cinema europeu. Sem precisar disfarçar ou amenizar o enfoque na sexualidade de seus protagonistas - ainda que não exiba momentos de intimidade entre eles - o filme simplesmente conta sua história sem preocupar-se em desagradar os setores mais conservadores da plateia. Fazendo rir sem ridicularizar seus personagens (por mais que muitas vezes eles quase implorem por isso), o roteiro entrega à plateia um entretenimento divertido e inofensivo, capaz de fazer rir até ao mais sério dos espectadores. Não à toa, rendeu duas continuações inferiores - em 1980 e 1985 - e permanece vivo na memória do público há mais de trinta anos. Proeza de poucos!
3 indicações ao Oscar: Diretor (Édouard Molinaro), Roteiro Adaptado, Figurino
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro
Levando-se em consideração o quanto a plateia norte-americana é avesso a filmes legendados e seu alto grau de conservadorismo, não deixa de ser surpreendente que "A gaiola das loucas", produção italo-francesa dirigida por Édouard Molinaro em 1978 tenha se tornado, à época de seu lançamento, o filme estrangeiro de maior bilheteria nos EUA. Adaptação da peça teatral de Jean Poiret que ficou em cartaz em Paris ininterruptamente entre 1973 e 1978, o filme de Molinaro é uma comédia rasgada, quase histérica e que consegue, quase por milagre, tratar de um assunto delicado - homossexualidade - sem ofender a comunidade gay ou sofrer rejeição do público médio. Assumindo sem medo o histrionismo como forma narrativa e o exagero como forma de atingir a gargalhada, o cineasta mergulha o espectador em um universo recheado de excessos e que conquista justamente por apresentar personagens que, mesmo a um passo do estereótipo, se mostram falíveis e inseguros como boa parte de quem está do lado de fora da tela. Prova maior da sucessão de acertos de Molinaro é o fato de a Academia de Hollywood (normalmente avessa a comédias em suas cerimônias de premiação) ter aberto uma considerável exceção ao lhe indicar a três Oscar, incluindo melhor diretor e roteiro adaptado - além de uma tardia refilmagem feita em 1996 pelo veterano Mike Nichols, também sucesso de bilheteria.
A Gaiola das Loucas do título é a boate parisiense de propriedade do casal Renato Baldi (Ugo Tognazzi) e Albin Mougeotte (Michel Serrault) - que também se apresenta no local, sempre travestido e com shows de grande êxito. Vivendo juntos há mais de vinte anos, eles são surpreendidos com a notícia de que Laurent (Rémi Laurent), fruto da única experiência heterossexual de Renato, irá se casar com a namorada da faculdade. O problema é que a garota é filha de Simon Charrier (Michel Galabru), um político conservador e que zela pela moral e bons costumes da família francesa. Sabendo que contar a verdadeira natureza de seu relacionamento com Albin poderia colocar por água abaixo os planos amorosos do filho, Renato resolve afastar o amante de casa durante o jantar oferecido para que as famílias se apresentem. Ofendido com a ideia, Albin decide comparecer à reunião vestido como a mãe de Laurent - e o que já seria uma atitude temerária fica ainda mais perigosa quando a verdadeira progenitora do rapaz, Simone (Claire Maurier) também surge no apartamento devidamente redecorado para não ferir as suscetibilidades do venerável político.
Trabalhando em ritmo e estrutura de farsa, o roteiro de "A gaiola das loucas" brinca com todos os clichês e estereótipos da homossexualidade masculina, porém o faz com inteligência e respeito. Fica claro, conforme a história anda, que o filme é mais simpático à causa gay - e ao injustiçado Albin, dramático e espalhafatoso - do que à hipocrisia da direita representada por Simon Charrier. Para isso, é claro, o filme conta com a atuação espetacular de Michel Serrault, premiado com o César (o Oscar francês) por seu desempenho nunca aquém de hilariante. Se Ugo Tognazzi sai-se muito bem como a parte racional do casal, sempre tentando manter a paz doméstica mesmo nas crises do parceiro, é Serrault quem tem as cenas e diálogos mais apetitosos, em especial quando, na pele da mãe de Laurent, emplaca uma conversa surreal com o futuro sogro do rapaz. Some-se à essa situação bizarra o interesse da imprensa pelo político depois da morte do presidente em circunstâncias pouco e um empregado insatisfeito com sua obrigação de viver uma farsa e a confusão está formada em todas as frentes.
Sem perder o ritmo de sua narrativa em nenhum momento, sempre acrescentando informações e novidades à trama, Édouard Molinaro faz de "A gaiola das loucas" uma comédia absolutamente bem-sucedida, ao fugir do nicho de produção com temática gay - o que fatalmente o condenaria ao fracasso de bilheteria, haja visto que na década de 70 o assunto era um tabu ainda maior, mesmo no cinema europeu. Sem precisar disfarçar ou amenizar o enfoque na sexualidade de seus protagonistas - ainda que não exiba momentos de intimidade entre eles - o filme simplesmente conta sua história sem preocupar-se em desagradar os setores mais conservadores da plateia. Fazendo rir sem ridicularizar seus personagens (por mais que muitas vezes eles quase implorem por isso), o roteiro entrega à plateia um entretenimento divertido e inofensivo, capaz de fazer rir até ao mais sério dos espectadores. Não à toa, rendeu duas continuações inferiores - em 1980 e 1985 - e permanece vivo na memória do público há mais de trinta anos. Proeza de poucos!
terça-feira
CALIFORNIA SUITE
CALIFORNIA SUITE (California Suite, 1978, Columbia Pictures,
103min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Neil Simon. Fotografia: David M.
Walsh. Montagem: Michael A. Stevenson. Música: Claude Bolling.
Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Albert
Brenner/Marvin March. P: Produção: Ray Stark. Elenco: Jane Fonda, Alan
Alda, Maggie Smith, Michael Caine, Walter Matthau, Elaine May, Richard
Pryor, Bill Cosby. Estreia: 18/12/78
3 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Maggie Smith), Roteiro Adaptado, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Maggie Smith)
Vencedor do Golden Globe de Atriz/Comédia ou Musical (Maggie Smith)
Em abril de 1976, a peça teatral "California Suite", escrita pelo dramaturgo Neil Simon, estreou em Los Angeles: no espetáculo em quatro atos, quatro atores interpretavam diversos personagens que viviam situações dramáticas e cômicas em um hotel da cidade. Um dos autores mais requisitados por Hollywood na década de 70, não demorou para que Simon transferisse seu texto ácido dos palcos para as telas. Com a direção de Herbert Ross - cineasta em alta na época graças às indicações ao Oscar por dois filmes no mesmo ano, "Momento de decisão" e "A garota do adeus", escrito pelo mesmo Neil Simon - e um elenco com nomes populares e de prestígio, a adaptação foi recebida com entusiasmo pela crítica, mas é bastante óbvio que seu resultado final carece da espontaneidade do palco e da criatividade de sua montagem teatral. Com os personagens interpretados por atores variados, o filme não passa de uma agradável sessão da tarde que sofre do mal da maioria dos filmes episódicos: a irregularidade.
A estrutura da peça - quatro histórias separadas tendo em comum apenas o cenário do hotel de luxo - se mantém na adaptação, mas dessa vez as tramas são claramente distintas em tom e elenco. Quem surge primeiro - em um dos melhores episódios - é a atriz britânica Diana Barrie (Maggie Smith, sensacional), que está em Los Angeles para comparecer à entrega do Oscar, para o qual foi indicada por uma comédia que ela mesma despreza. Como intérprete dramática de clássicos do teatro, ela desdenha do cinema comercial e, em sua presença na cidade, é acompanhada do marido, Sidney Cochran (Michael Caine), que abandonou a carreira de ator e guarda um segredo a sete chaves do grande público. No mesmo hotel em que Diana se prepara para a grande noite, está a jornalista Hannah Warren (Jane Fonda), que deixou Nova York para trás com o objetivo de encontrar o ex-marido, Bill (Alan Alda), e resolver problemas pendentes em relação à filha adolescente e rebelde. O relacionamento falido dos dois ainda tem arestas a aparar - e elas vêm à tona na tarde em que eles passam juntos, relembrando o passado. É o segmento menos interessante do filme, apesar dos intérpretes afiados e do talento superlativo de Fonda.
A terceira história - apesar do fato de todas acontecerem concomitantemente - traz à cidade dois casais de Chicago dispostos a um fim-de-semana de diversão, mas que acaba se tornando um pequeno pesadelo. Os médicos Willi Panama (Bill Cosby) e Chauncey Gump (Richard Pryor) chegam à Los Angeles com suas respectivas esposas, mas o fato de apenas um deles conseguir um quarto decente (por um erro do sistema) é suficiente para que tenha início uma série de pequenas competições internas que culminará em uma confusão sem precedentes dentro do lastimável quarto onde o menos afortunado é obrigado a dormir. É a trama com humor mais físico das quatro, valorizada pela ótima química entre Cosby e Pryor, dois dos maiores nomes do cinema negro norte-americano dos anos 70. A última história é também cômica, e só a presença de Walter Matthau já é mais do que suficiente para arrancar gargalhadas. Ele vive Marvin Michaels, que, enquanto aguarda a chegada da mulher, Millie (a também escritora Elaine May), para o bar mitzvah de um sobrinho, acaba cedendo à tentação de dormir com uma garota de programa - que, para seu desespero, acaba desabando em sua cama no hotel momentos antes do reencontro com a esposa. O timing cômico perfeito de Matthau, aliado ao eterno ar de desligada de May dão o tom exato da farsa criada por Simon - que nem mesmo a direção um tanto engessada de Ross consegue atrapalhar.
No final das contas, "California Suite" é apenas isso: um entretenimento simples, realizado por gente competente e sem ambições maiores do que divertir enquanto dura. Maggie Smith se deu bem por seu desempenho, ganhando o Oscar de atriz coadjuvante (sorte que sua personagem acaba por não ter) e o Golden Globe em um ano em que as cerimônias de premiação estavam com os olhos voltados para dramas mais sérios e relevantes politicamente (foi o ano de "O franco-atirador" e "Amargo regresso", que tratavam do retorno dos americanos da Guerra do Vietnã). Despretensioso e simples, é um filme que comprova o prestígio de Neil Simon na Hollywood da época, mas que resiste ao tempo única e exclusivamente graças a seu elenco impecável. Sem maiores expectativas pode render um bom passatempo.
3 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Maggie Smith), Roteiro Adaptado, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Maggie Smith)
Vencedor do Golden Globe de Atriz/Comédia ou Musical (Maggie Smith)
Em abril de 1976, a peça teatral "California Suite", escrita pelo dramaturgo Neil Simon, estreou em Los Angeles: no espetáculo em quatro atos, quatro atores interpretavam diversos personagens que viviam situações dramáticas e cômicas em um hotel da cidade. Um dos autores mais requisitados por Hollywood na década de 70, não demorou para que Simon transferisse seu texto ácido dos palcos para as telas. Com a direção de Herbert Ross - cineasta em alta na época graças às indicações ao Oscar por dois filmes no mesmo ano, "Momento de decisão" e "A garota do adeus", escrito pelo mesmo Neil Simon - e um elenco com nomes populares e de prestígio, a adaptação foi recebida com entusiasmo pela crítica, mas é bastante óbvio que seu resultado final carece da espontaneidade do palco e da criatividade de sua montagem teatral. Com os personagens interpretados por atores variados, o filme não passa de uma agradável sessão da tarde que sofre do mal da maioria dos filmes episódicos: a irregularidade.
A estrutura da peça - quatro histórias separadas tendo em comum apenas o cenário do hotel de luxo - se mantém na adaptação, mas dessa vez as tramas são claramente distintas em tom e elenco. Quem surge primeiro - em um dos melhores episódios - é a atriz britânica Diana Barrie (Maggie Smith, sensacional), que está em Los Angeles para comparecer à entrega do Oscar, para o qual foi indicada por uma comédia que ela mesma despreza. Como intérprete dramática de clássicos do teatro, ela desdenha do cinema comercial e, em sua presença na cidade, é acompanhada do marido, Sidney Cochran (Michael Caine), que abandonou a carreira de ator e guarda um segredo a sete chaves do grande público. No mesmo hotel em que Diana se prepara para a grande noite, está a jornalista Hannah Warren (Jane Fonda), que deixou Nova York para trás com o objetivo de encontrar o ex-marido, Bill (Alan Alda), e resolver problemas pendentes em relação à filha adolescente e rebelde. O relacionamento falido dos dois ainda tem arestas a aparar - e elas vêm à tona na tarde em que eles passam juntos, relembrando o passado. É o segmento menos interessante do filme, apesar dos intérpretes afiados e do talento superlativo de Fonda.
A terceira história - apesar do fato de todas acontecerem concomitantemente - traz à cidade dois casais de Chicago dispostos a um fim-de-semana de diversão, mas que acaba se tornando um pequeno pesadelo. Os médicos Willi Panama (Bill Cosby) e Chauncey Gump (Richard Pryor) chegam à Los Angeles com suas respectivas esposas, mas o fato de apenas um deles conseguir um quarto decente (por um erro do sistema) é suficiente para que tenha início uma série de pequenas competições internas que culminará em uma confusão sem precedentes dentro do lastimável quarto onde o menos afortunado é obrigado a dormir. É a trama com humor mais físico das quatro, valorizada pela ótima química entre Cosby e Pryor, dois dos maiores nomes do cinema negro norte-americano dos anos 70. A última história é também cômica, e só a presença de Walter Matthau já é mais do que suficiente para arrancar gargalhadas. Ele vive Marvin Michaels, que, enquanto aguarda a chegada da mulher, Millie (a também escritora Elaine May), para o bar mitzvah de um sobrinho, acaba cedendo à tentação de dormir com uma garota de programa - que, para seu desespero, acaba desabando em sua cama no hotel momentos antes do reencontro com a esposa. O timing cômico perfeito de Matthau, aliado ao eterno ar de desligada de May dão o tom exato da farsa criada por Simon - que nem mesmo a direção um tanto engessada de Ross consegue atrapalhar.
No final das contas, "California Suite" é apenas isso: um entretenimento simples, realizado por gente competente e sem ambições maiores do que divertir enquanto dura. Maggie Smith se deu bem por seu desempenho, ganhando o Oscar de atriz coadjuvante (sorte que sua personagem acaba por não ter) e o Golden Globe em um ano em que as cerimônias de premiação estavam com os olhos voltados para dramas mais sérios e relevantes politicamente (foi o ano de "O franco-atirador" e "Amargo regresso", que tratavam do retorno dos americanos da Guerra do Vietnã). Despretensioso e simples, é um filme que comprova o prestígio de Neil Simon na Hollywood da época, mas que resiste ao tempo única e exclusivamente graças a seu elenco impecável. Sem maiores expectativas pode render um bom passatempo.
segunda-feira
MENINOS DO BRASIL
MENINOS DO BRASIL (The boys from Brazil, 1978, Paramount Pictures, 125min) Direção: Franklin J. Schaffner. Roteiro: Heywood Gould, romance de Ira Levin. Fotografa: Henri Decae. Montagem: Robert E. Swink. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Anthony Mendleson. Direção de arte/cenários: Gil Parrondo/Vernon Dixon. Produção executiva: Robert Fryer. Produção: Stanley O'Toole, Martin Richards. Elenco: Gregory Peck, Laurence Olivier, James Mason, Lilli Palmer, Rosemary Harris, Steve Guttenberg, Bruno Ganz, Uta Hagen, Denholm Elliott. Estreia: 04/10/78
3 indicações ao Oscar: Ator (Laurence Olivier), Montagem, Trilha Sonora Original
Hoje em dia, com o cinema de posse de um dos temas mais fascinantes da ciência - e que algumas décadas atrás soava apenas como uma delirante trama de ficção científica - a clonagem humana já não tem o mesmo impacto junto às plateias que se acostumaram a efeitos visuais acachapantes e uma realidade ainda mais assustadora. Nos anos 70, porém, a ideia de criar um ser humano idêntico a outro através de experiências genéticas era um assunto novo e praticamente inexplorado pela sétima arte. Lançado em 1976, o romance "Meninos do Brasil", do escritor Ira Levin - autor também de "O bebê de Rosemary", que Roman Polanski levou às telas em 1968 - não apenas lançava mão de tal artifício quase inédito, mas o ligava a outro argumento igualmente atraente ao público de cinema: os crimes de guerra cometidos pelo nazismo durante e após a II Guerra Mundial. Usando como protagonista o temível e infame Josef Mengele - conhecido também como "Anjo da Morte" - a trama de seu livro logo interessou à Hollywood, que em cerca de um ano estreava sua adaptação com uma equipe de tirar o chapéu.
Na direção, Franklin J. Schaffner, já premiado com um Oscar pelo comando de "Patton - rebelde ou herói?" (70). Na trilha sonora, o também já oscarizado - por "A profecia" (76) - Jerry Goldsmith. No elenco, Gregory Peck e Laurence Olivier - homenageados pela Academia por "A luz é para todos" (47) e "Hamlet" (48), respectivamente. E como coadjuvantes, o sempre preciso James Mason (indicado três vezes ao Oscar) e os futuramente respeitados Denholm Elliot e Rosemary Harris. Com tanta gente boa em cena e uma história intrigante em mãos, não tinha como dar errado. E não deu. Bem recebido pela crítica, "Meninos do Brasil" acabou por ser indicado em três categorias do Oscar, incluindo melhor ator para Laurence Olivier - que também concorreu ao Golden Globe e foi eleito o melhor ator do ano pelo National Board of Review, empatado com Jon Voight, por "Amargo regresso". Um suspense adulto e sem medo de ir até as últimas consequências em seu desejo de alertar para os perigos da ciência quando em mãos erradas, o filme de Schaffner cria uma atmosfera sombria e um tom de thriller para conquistar a plateia desde seus minutos iniciais e, ao contrário de "Maratona da morte" (76) - que também tinha um nazista foragido e Laurence Olivier na receita - não exige da plateia a paciência de esperar até o ato final para esclarecer todas as questões levantadas pelo roteiro bem amarrado de Heywood Gould.
Se em "Maratona da morte" o veterano Laurence Olivier vivia um criminoso de guerra atrás de um tesouro roubado dos judeus mortos nos campos de concentração, em "Meninos do Brasil" ele muda de lado, na pele de Ezra Lieberman, um conhecido caçador de nazistas que é procurado pelo jovem Barry Kohler (Steve Guttenberg em início de carreira) com a informação de que um grupo de oficiais da SS está mantendo reuniões em uma cidade do Paraguai, com objetivos ainda não descobertos. Colocando escutas em tais reuniões, Kohler descobre que os criminosos - liderados pelo infame Josef Mengele (Gregory Peck) - tem planos de assassinar 94 homens com a idade de 65 anos, moradores de diferentes países do planeta. Intrigado com o projeto, Lieberman assume a investigação do caso e passa a visitar os familiares das primeiras vítimas. Para sua surpresa e choque, ele descobre que todos os mortos tinham em comum filhos adotivos da mesma idade e impressionante semelhança física e de personalidade. Quando a extensão dos planos nazistas ficam claros - para seu choque e desespero - resta a ele tentar impedir sua realização, que pode mergulhar a humanidade novamente em um pesadelo genocida.
A princípio um filme alarmista e pouco verossímil, "Meninos do Brasil" conquista principalmente por não ter medo em assumir seu lado sensacionalista, mas o cobrindo com uma bem-vinda dose de seriedade. A interpretação de Gregory Peck como Mengele pode não ser a melhor de sua carreira - apesar dele mesmo considerá-la um de seus pontos altos - mas Laurence Olivier mostra, com seu Ezra Lieberman, porque era um dos grandes atores de sua geração. Com a saúde frágil durante as filmagens, ele entrega mais uma performance memorável, oferecendo sua credibilidade à uma trama que, em mãos menos competentes, poderia facilmente descambar para uma produção B. O cuidado de Schaffner em tratar a história com um suspense que não subestima a inteligência da plateia é louvável, assim como sua opção em revelar os desdobramentos da trama de forma a encaminhar tudo para um clímax envolvente e digno, que não decepciona nem apela a incoerências patéticas. Os "meninos do Brasil" do título são realmente apavorantes - e seu objetivo é de arrepiar, mesmo que tudo não passe de uma (brilhante) ficção. Inteligente, sério, assustador. "Meninos do Brasil" é um filme que se mantém atual apesar da idade - especialmente em um mundo tão chocantemente fascista que começa a se (re)desenhar.
3 indicações ao Oscar: Ator (Laurence Olivier), Montagem, Trilha Sonora Original
Hoje em dia, com o cinema de posse de um dos temas mais fascinantes da ciência - e que algumas décadas atrás soava apenas como uma delirante trama de ficção científica - a clonagem humana já não tem o mesmo impacto junto às plateias que se acostumaram a efeitos visuais acachapantes e uma realidade ainda mais assustadora. Nos anos 70, porém, a ideia de criar um ser humano idêntico a outro através de experiências genéticas era um assunto novo e praticamente inexplorado pela sétima arte. Lançado em 1976, o romance "Meninos do Brasil", do escritor Ira Levin - autor também de "O bebê de Rosemary", que Roman Polanski levou às telas em 1968 - não apenas lançava mão de tal artifício quase inédito, mas o ligava a outro argumento igualmente atraente ao público de cinema: os crimes de guerra cometidos pelo nazismo durante e após a II Guerra Mundial. Usando como protagonista o temível e infame Josef Mengele - conhecido também como "Anjo da Morte" - a trama de seu livro logo interessou à Hollywood, que em cerca de um ano estreava sua adaptação com uma equipe de tirar o chapéu.
Na direção, Franklin J. Schaffner, já premiado com um Oscar pelo comando de "Patton - rebelde ou herói?" (70). Na trilha sonora, o também já oscarizado - por "A profecia" (76) - Jerry Goldsmith. No elenco, Gregory Peck e Laurence Olivier - homenageados pela Academia por "A luz é para todos" (47) e "Hamlet" (48), respectivamente. E como coadjuvantes, o sempre preciso James Mason (indicado três vezes ao Oscar) e os futuramente respeitados Denholm Elliot e Rosemary Harris. Com tanta gente boa em cena e uma história intrigante em mãos, não tinha como dar errado. E não deu. Bem recebido pela crítica, "Meninos do Brasil" acabou por ser indicado em três categorias do Oscar, incluindo melhor ator para Laurence Olivier - que também concorreu ao Golden Globe e foi eleito o melhor ator do ano pelo National Board of Review, empatado com Jon Voight, por "Amargo regresso". Um suspense adulto e sem medo de ir até as últimas consequências em seu desejo de alertar para os perigos da ciência quando em mãos erradas, o filme de Schaffner cria uma atmosfera sombria e um tom de thriller para conquistar a plateia desde seus minutos iniciais e, ao contrário de "Maratona da morte" (76) - que também tinha um nazista foragido e Laurence Olivier na receita - não exige da plateia a paciência de esperar até o ato final para esclarecer todas as questões levantadas pelo roteiro bem amarrado de Heywood Gould.
Se em "Maratona da morte" o veterano Laurence Olivier vivia um criminoso de guerra atrás de um tesouro roubado dos judeus mortos nos campos de concentração, em "Meninos do Brasil" ele muda de lado, na pele de Ezra Lieberman, um conhecido caçador de nazistas que é procurado pelo jovem Barry Kohler (Steve Guttenberg em início de carreira) com a informação de que um grupo de oficiais da SS está mantendo reuniões em uma cidade do Paraguai, com objetivos ainda não descobertos. Colocando escutas em tais reuniões, Kohler descobre que os criminosos - liderados pelo infame Josef Mengele (Gregory Peck) - tem planos de assassinar 94 homens com a idade de 65 anos, moradores de diferentes países do planeta. Intrigado com o projeto, Lieberman assume a investigação do caso e passa a visitar os familiares das primeiras vítimas. Para sua surpresa e choque, ele descobre que todos os mortos tinham em comum filhos adotivos da mesma idade e impressionante semelhança física e de personalidade. Quando a extensão dos planos nazistas ficam claros - para seu choque e desespero - resta a ele tentar impedir sua realização, que pode mergulhar a humanidade novamente em um pesadelo genocida.
A princípio um filme alarmista e pouco verossímil, "Meninos do Brasil" conquista principalmente por não ter medo em assumir seu lado sensacionalista, mas o cobrindo com uma bem-vinda dose de seriedade. A interpretação de Gregory Peck como Mengele pode não ser a melhor de sua carreira - apesar dele mesmo considerá-la um de seus pontos altos - mas Laurence Olivier mostra, com seu Ezra Lieberman, porque era um dos grandes atores de sua geração. Com a saúde frágil durante as filmagens, ele entrega mais uma performance memorável, oferecendo sua credibilidade à uma trama que, em mãos menos competentes, poderia facilmente descambar para uma produção B. O cuidado de Schaffner em tratar a história com um suspense que não subestima a inteligência da plateia é louvável, assim como sua opção em revelar os desdobramentos da trama de forma a encaminhar tudo para um clímax envolvente e digno, que não decepciona nem apela a incoerências patéticas. Os "meninos do Brasil" do título são realmente apavorantes - e seu objetivo é de arrepiar, mesmo que tudo não passe de uma (brilhante) ficção. Inteligente, sério, assustador. "Meninos do Brasil" é um filme que se mantém atual apesar da idade - especialmente em um mundo tão chocantemente fascista que começa a se (re)desenhar.
domingo
UM DIA MUITO ESPECIAL
UM DIA MUITO ESPECIAL (Una giornata particolare, 1977, Compagnia
Cinematografica Champion, 106min) Direção: Ettore Scola. Roteiro: Ettore
Scola, Ruggero Maccari. Fotografia: Pasqualino De Santis. Montagem:
Raimondo Crociani. Música: Armando Trovaioli. Figurino: Enrico
Sabbatini. Direção de arte/cenários: Luciano Ricceri. Produção: Carlo
Ponti. Elenco: Marcello Mastroianni, Sophia Loren, John Vernon,
Françoise Berd. Estreia: 19/5/77 (Festival de Cannes)
2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Ator (Marcello Mastroianni)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro
Menos celebrado que Federico Fellini e menos polêmico que Pier Paolo Pasolini e menos radical que Roberto Rossellini, o cineasta Ettore Scola pode ser considerado o mais poético dentre os diretores que colocaram a Itália no mapa do cinema internacional a partir dos anos 40. Sem abrir mão da crítica social que marcou o neorrealismo e buscando sempre o enfoque humanista em suas histórias, Scola acabou por assinar alguns dos mais brilhantes filmes realizados na Europa a partir de sua estreia, em 1964, com "Fala-se de mulheres". Da lista de suas realizações mais respeitadas, fazem parte de sua obra produções como "Nós que nos amávamos tanto" (74), "Feios, sujos e malvados" (75), "Casanova e a Revolução" (82), "O baile" (83) e "A viagem do Capitão Tornado" (90). Por melhores que todos sejam, no entanto, poucos conseguiram atingir o equilíbrio perfeito entre o drama intimista e a preocupação histórica de "Um dia muito especial", que lhe deu o Golden Globe de melhor filme estrangeiro de 1977, uma indicação ao Oscar na mesma categoria (e de quebra uma para Marcello Mastroianni) e um César (o Oscar francês). Centrando seu foco em um par de protagonistas em dias iluminados, Scola faz de um prédio de apartamentos da classe operária da Roma de 1938, um microcosmo de seu país - e quiçá do mundo, prestes a entrar em uma sangrenta guerra.
Com uma estrutura teatral mas jamais cansativa ou verborrágica em excesso, "Um dia muito especial" se passa no dia em que Adolf Hitler chegou à Roma, com o objetivo de encontrar-se com o presidente de então, Benito Mussolini. A guerra ainda não era uma certeza, mas a sombra do nazismo já começava a se espalhar pela Europa. Um dos entusiastas das ideias do ditador alemão é Emanuele (John Vernon), que aproveita sua visita ao país para, junto com milhares de conterrâneos, saudá-lo nas ruas da capital. Emanuele é casado com a dona-de-casa Antonietta (Sophia Loren), que aproveita a ausência do marido e dos seis filhos para alguns momentos de solidão que é incapaz de manter em sua apressada rotina. O que poderia ser apenas um dia normal, porém, se revela bastante atípico quando ela vai parar no apartamento de um vizinho, Gabriele (Marcello Mastroianni), em busca de seu passarinho de estimação. Gabriele é um locutor de rádio intelectual e discreto que não demora a fazer amizade com a bela matriarca, com quem consegue, surpreendentemente, encontrar uma conexão emocional e profunda. A verdade é que a solitária e carente Antonietta sente-se atraída pelos modos educados e gentis de Gabriele, que tem motivos de sobra para estar precisando de um ombro amigo: homossexual, ele acaba de ser demitido e está esperando pelos guardas que irão levá-lo para um campo de prisioneiros.
Apresentando seus personagens e dramas aos poucos, com elegância e sutileza, Ettore Scola - também coautor do roteiro, ao lado de Ruggero Maccari - apresenta também, de forma inteligente, alguns outros moradores do edifício onde moram Antonietta e Gabriele, pessoas aparentemente comuns mas dotadas de uma mesquinharia atroz que explica, em boa parte, os rumos tomados pela Itália nos anos seguintes, quando o país aliou-se com a Alemanha. O cineasta não faz a menor questão de esconder sua simpatia pelos protagonistas, imbuindo-os de um certo tom de resiliência que imediatamente os coloca no patamar de heróis silenciosos. Antonietta encara a falta de sensibilidade do marido e dos filhos e não encontra tempo nem ao menos de ler um livro - sem falar na ausência absoluta de romantismo e cavalheirismo de seu relacionamento. Gabriele, por sua vez, está vendo sua vida ser completamente destruída pela arbitrariedade do preconceito em relação à sua orientação sexual. São dois seres perdidos, tristes e necessitados de compaixão e carinho, que se encontram em um período curto mas forte o bastante para fortalecer seu senso de sobrevivência em dias difíceis que virão.
Amparando-se basicamente no trabalho de extrema sensibilidade de seus atores - a indicação de Mastroianni ao Oscar não foi mera homenagem da Academia - e em seu texto conciso e delicado, Scola apresenta um trabalho que foge dos clichês românticos ou do tratamento dado pelo cinema à homossexualidade, tratando do assunto com respeito e naturalidade. O romance entre seus personagens - mais do que simplesmente físico ou emocional - é fruto de sua extrema necessidade de afeto e compreensão, não de desejos vulgares ou lascívia adolescente. Antonietta vê em Gabriele a antítese de seu marido brutal, quase cruel. Gabriele vê na vizinha uma válvula de escape, um bote salva-vidas que pode lhe fazer respirar antes da tragédia iminente que bate à sua porta. São personagens tristes, mas carregados de uma humanidade de que somente o cinema europeu - Scola à frente - é capaz de retratar sem apelar para sentimentalismos ou estilizações. Seu cinema fascina justamente por tratar de pessoas de carne e osso, com sentimentos à flor da pele, e "Um dia muito especial" talvez seja a síntese mais terna de sua filmografia. Um belo filme, valorizado pela fotografia árida de Pasqualino De Santis e por seus intérpretes espetaculares.
2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Ator (Marcello Mastroianni)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro
Menos celebrado que Federico Fellini e menos polêmico que Pier Paolo Pasolini e menos radical que Roberto Rossellini, o cineasta Ettore Scola pode ser considerado o mais poético dentre os diretores que colocaram a Itália no mapa do cinema internacional a partir dos anos 40. Sem abrir mão da crítica social que marcou o neorrealismo e buscando sempre o enfoque humanista em suas histórias, Scola acabou por assinar alguns dos mais brilhantes filmes realizados na Europa a partir de sua estreia, em 1964, com "Fala-se de mulheres". Da lista de suas realizações mais respeitadas, fazem parte de sua obra produções como "Nós que nos amávamos tanto" (74), "Feios, sujos e malvados" (75), "Casanova e a Revolução" (82), "O baile" (83) e "A viagem do Capitão Tornado" (90). Por melhores que todos sejam, no entanto, poucos conseguiram atingir o equilíbrio perfeito entre o drama intimista e a preocupação histórica de "Um dia muito especial", que lhe deu o Golden Globe de melhor filme estrangeiro de 1977, uma indicação ao Oscar na mesma categoria (e de quebra uma para Marcello Mastroianni) e um César (o Oscar francês). Centrando seu foco em um par de protagonistas em dias iluminados, Scola faz de um prédio de apartamentos da classe operária da Roma de 1938, um microcosmo de seu país - e quiçá do mundo, prestes a entrar em uma sangrenta guerra.
Com uma estrutura teatral mas jamais cansativa ou verborrágica em excesso, "Um dia muito especial" se passa no dia em que Adolf Hitler chegou à Roma, com o objetivo de encontrar-se com o presidente de então, Benito Mussolini. A guerra ainda não era uma certeza, mas a sombra do nazismo já começava a se espalhar pela Europa. Um dos entusiastas das ideias do ditador alemão é Emanuele (John Vernon), que aproveita sua visita ao país para, junto com milhares de conterrâneos, saudá-lo nas ruas da capital. Emanuele é casado com a dona-de-casa Antonietta (Sophia Loren), que aproveita a ausência do marido e dos seis filhos para alguns momentos de solidão que é incapaz de manter em sua apressada rotina. O que poderia ser apenas um dia normal, porém, se revela bastante atípico quando ela vai parar no apartamento de um vizinho, Gabriele (Marcello Mastroianni), em busca de seu passarinho de estimação. Gabriele é um locutor de rádio intelectual e discreto que não demora a fazer amizade com a bela matriarca, com quem consegue, surpreendentemente, encontrar uma conexão emocional e profunda. A verdade é que a solitária e carente Antonietta sente-se atraída pelos modos educados e gentis de Gabriele, que tem motivos de sobra para estar precisando de um ombro amigo: homossexual, ele acaba de ser demitido e está esperando pelos guardas que irão levá-lo para um campo de prisioneiros.
Apresentando seus personagens e dramas aos poucos, com elegância e sutileza, Ettore Scola - também coautor do roteiro, ao lado de Ruggero Maccari - apresenta também, de forma inteligente, alguns outros moradores do edifício onde moram Antonietta e Gabriele, pessoas aparentemente comuns mas dotadas de uma mesquinharia atroz que explica, em boa parte, os rumos tomados pela Itália nos anos seguintes, quando o país aliou-se com a Alemanha. O cineasta não faz a menor questão de esconder sua simpatia pelos protagonistas, imbuindo-os de um certo tom de resiliência que imediatamente os coloca no patamar de heróis silenciosos. Antonietta encara a falta de sensibilidade do marido e dos filhos e não encontra tempo nem ao menos de ler um livro - sem falar na ausência absoluta de romantismo e cavalheirismo de seu relacionamento. Gabriele, por sua vez, está vendo sua vida ser completamente destruída pela arbitrariedade do preconceito em relação à sua orientação sexual. São dois seres perdidos, tristes e necessitados de compaixão e carinho, que se encontram em um período curto mas forte o bastante para fortalecer seu senso de sobrevivência em dias difíceis que virão.
Amparando-se basicamente no trabalho de extrema sensibilidade de seus atores - a indicação de Mastroianni ao Oscar não foi mera homenagem da Academia - e em seu texto conciso e delicado, Scola apresenta um trabalho que foge dos clichês românticos ou do tratamento dado pelo cinema à homossexualidade, tratando do assunto com respeito e naturalidade. O romance entre seus personagens - mais do que simplesmente físico ou emocional - é fruto de sua extrema necessidade de afeto e compreensão, não de desejos vulgares ou lascívia adolescente. Antonietta vê em Gabriele a antítese de seu marido brutal, quase cruel. Gabriele vê na vizinha uma válvula de escape, um bote salva-vidas que pode lhe fazer respirar antes da tragédia iminente que bate à sua porta. São personagens tristes, mas carregados de uma humanidade de que somente o cinema europeu - Scola à frente - é capaz de retratar sem apelar para sentimentalismos ou estilizações. Seu cinema fascina justamente por tratar de pessoas de carne e osso, com sentimentos à flor da pele, e "Um dia muito especial" talvez seja a síntese mais terna de sua filmografia. Um belo filme, valorizado pela fotografia árida de Pasqualino De Santis e por seus intérpretes espetaculares.
sábado
NEW YORK, NEW YORK
NEW YORK, NEW YORK (New York, New York, 1977, United Artists, 155min)
Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Earl Mac Rauch, Mardik Martin,
estória de Earl Mac Rauch. Fotografia: Lászlo Kovács. Montagem: B.
Lovitt, David Ramirez, Tom Rolf. Figurino: Theadora Van Runkle. Direção
de arte/cenários: Boris Leven/Robert DeVestel, Ruby R. Levitt. Produção:
Robert Chartoff, Irwin Winkler. Elenco: Liza Minnelli, Robert De Niro,
Lionel Stander, Barry Primus, Mary Kay Place. Estreia: 21/6/77
No final dos anos 60 e início dos 70, um grupo de jovens cineastas - dentre os quais nomes que se tornariam consagrados, como Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg - invadiram Hollywood com um jeito novo de fazer cinema, moderno, arrojado e conectado aos anseios de um público também jovem e disposto a ver nas telas um retrato mais apurado de suas próprias vidas. Como detalhado no livro "Como a geração sexo, drogas e rock'n'roll salvou Hollywood: Easy Riders Raging Bulls", de Peter Biskind (Ed. Intrinseca, tradução de Ana Maria Bahiana), filmes como "Bonny & Clyde: uma rajada de balas" (68), de Arthur Penn, e "Sem destino" (67), de Dennis Hooper, deixaram para trás um estilo considerado ultrapassado pelas plateias adeptas da contracultura e abriram as portas para atores com menos glamour e mais talento para tipos comuns, como Al Pacino, Robert DeNiro e Dustin Hoffman. A velha Hollywood, com suas grandes produções, estúdios poderosos e astros maiores que a vida, estava morrendo e deixando espaço para a jovem guarda. Não deixou de ser um interessante paradoxo, no entanto, quando, em 1976, um dos mais destacados membros dessa nova realeza, Martin Scorsese, decidiu que seu novo filme - depois dos sucessos de crítica "Alice não mora mais aqui" (74) e "Taxi driver" (76) - não apenas homenagearia o modo "antigo" de fazer cinema como dialogaria com ele em termos visuais, dramáticos e temáticos. Um choque entre dois mundos aparentemente irreconciliáveis, "New York, New York" estreou no verão de 1977 sob uma saraivada de críticas negativas e saiu de cena com uma bilheteria tão decepcionante que empurrou seu diretor a uma depressão severa do qual só recuperou-se com o prestígio e os Oscar de "Touro indomável" (80). Mas, afinal de contas, tal fracasso foi merecido ou se faz necessária uma revisão, quarenta anos depois de seu lançamento?
Em primeiro lugar é preciso que se diga que Martin Scorsese é um cineasta de talento superlativo, capaz de transformar qualquer material em algo digno de ser filmado e assistido. Fã incondicional e assumido da velha Hollywood, além de um estudioso dedicado e protetor aguerrido de sua história, Scorsese assumiu sem medo o risco de recriá-la nas telas mesmo diante de um panorama cultural que seguia um caminho inverso. Sua ideia de recriar em estúdio uma Nova York dos anos 40 e contar uma história de amor através de um gênero em agonia - o musical - acabou se provando uma luta inglória. O excesso de estilização, tanto no visual quanto na atuação dos atores, não encontrou resposta junto ao público (que preferiu lotar os cinemas para assistir "Star Wars", de George Lucas) e confundiu a crítica. Nem todo mundo encontrou no filme do diretor as referências explícitas à era de ouro dos estúdios e, quem encontrou preferiu dar de ombros. Nem tudo funciona no filme. Porém, quando funciona, o curioso encontro entre duas gerações distintas - com o belo colorido da fotografia de Lászlo Kovács e a direção de arte milagrosa como moldura da trama central - é o perfeito exemplo do quão talentoso Scorsese é, ao regurgitar, com elegância e inteligência, todos os ingredientes que fizeram a fama de gente como Vincent Minnelli. A conexão entre "New York, New York" e Minnelli é tamanha que, em uma jogada quase metalinguística, Scorsese ofereceu o principal papel feminino do filme, o da talentosa Francine Evans, à filha do diretor com Judy Garland. Em uma interpretação que remete à de sua mãe no célebre "Nasce uma estrela", Liza Minelli - a essa altura já premiada com um Oscar que Garland nunca recebeu - é mais um elo de ligação entre o antigo e o moderno, entre o passado e o presente, entre o naturalismo anos 70 e a estilização dos anos 40. Liza está soberba, assim como seu parceiro de cena Robert DeNiro, mas é inegável que lhes falta o essencial em uma trama romântica: química.
Usando e abusando daquela que seria uma das maiores características de sua filmografia - a improvisação de seus atores - Martin Scorsese deixou nas mãos de seus editores um pesadelo em forma de celulóide. Ao contrário do que aconteceria depois em sua carreira, onde o improviso seria uma qualidade orgânica, em "New York, New York" tal orientação tornou-se um dos problemas mais graves do resultado final: com um roteiro apenas esboçado, o filme acaba muitas vezes ficando repetitivo, intercalando discussões intermináveis entre seus protagonistas com números musicais que emulam com categoria e sofisticação os maiores clássicos do gênero. Realizado nos mesmos estúdios da MGM onde Judy Garland reinou na década de 40, o filme de Scorsese contou com antigos colaboradores da atriz, o que certamente ajudou na ambientação e na caracterização da personagem, uma talentosa cantora que se envolve com um igualmente talentoso saxofonista e vê sua história de amor ameaçada pela competição e pelos altos e baixos da carreira. Minnelli exala carisma por toda a projeção e encontra em Robert DeNiro um parceiro à altura, mas, como o próprio cineasta reconhece, em nenhum momento existe a fagulha necessária para tornar suas cenas tão grandes como poderiam ser. Talvez culpa do exagero na estilização, talvez culpa da confiança demasiada na dupla de astros. O fato, porém, é que falta em "New York, New York" o toque de mestre de seu diretor, ainda relativamente iniciante.
Cortado em vários minutos para seu lançamento - de quatro horas para 153 minutos e depois para 136, sempre sem o sucesso esperado - "New York, New York" alcançou sua edição final com 163 minutos, com a sequência "Happy endings" (talvez a mais claramente inspirada no cinemão clássico americano) completa. É um filme que precisa ser apreciado mais por suas intenções do que exatamente por seu resultado final, irregular e desnecessariamente longo. Por mais que seja sempre um prazer ver DeNiro e Liza Minnelli em cena e que tenha lançado a clássica canção-título que ficou imortal na voz de Frank Sinatra, é um espetáculo que nem sempre atinge os tons desejados - mas que quando alcança, mostra o melhor de dois mundos do cinema hollywoodiano. Em outras palavras, um Scorsese menor ainda é um grande Scorsese.
No final dos anos 60 e início dos 70, um grupo de jovens cineastas - dentre os quais nomes que se tornariam consagrados, como Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg - invadiram Hollywood com um jeito novo de fazer cinema, moderno, arrojado e conectado aos anseios de um público também jovem e disposto a ver nas telas um retrato mais apurado de suas próprias vidas. Como detalhado no livro "Como a geração sexo, drogas e rock'n'roll salvou Hollywood: Easy Riders Raging Bulls", de Peter Biskind (Ed. Intrinseca, tradução de Ana Maria Bahiana), filmes como "Bonny & Clyde: uma rajada de balas" (68), de Arthur Penn, e "Sem destino" (67), de Dennis Hooper, deixaram para trás um estilo considerado ultrapassado pelas plateias adeptas da contracultura e abriram as portas para atores com menos glamour e mais talento para tipos comuns, como Al Pacino, Robert DeNiro e Dustin Hoffman. A velha Hollywood, com suas grandes produções, estúdios poderosos e astros maiores que a vida, estava morrendo e deixando espaço para a jovem guarda. Não deixou de ser um interessante paradoxo, no entanto, quando, em 1976, um dos mais destacados membros dessa nova realeza, Martin Scorsese, decidiu que seu novo filme - depois dos sucessos de crítica "Alice não mora mais aqui" (74) e "Taxi driver" (76) - não apenas homenagearia o modo "antigo" de fazer cinema como dialogaria com ele em termos visuais, dramáticos e temáticos. Um choque entre dois mundos aparentemente irreconciliáveis, "New York, New York" estreou no verão de 1977 sob uma saraivada de críticas negativas e saiu de cena com uma bilheteria tão decepcionante que empurrou seu diretor a uma depressão severa do qual só recuperou-se com o prestígio e os Oscar de "Touro indomável" (80). Mas, afinal de contas, tal fracasso foi merecido ou se faz necessária uma revisão, quarenta anos depois de seu lançamento?
Em primeiro lugar é preciso que se diga que Martin Scorsese é um cineasta de talento superlativo, capaz de transformar qualquer material em algo digno de ser filmado e assistido. Fã incondicional e assumido da velha Hollywood, além de um estudioso dedicado e protetor aguerrido de sua história, Scorsese assumiu sem medo o risco de recriá-la nas telas mesmo diante de um panorama cultural que seguia um caminho inverso. Sua ideia de recriar em estúdio uma Nova York dos anos 40 e contar uma história de amor através de um gênero em agonia - o musical - acabou se provando uma luta inglória. O excesso de estilização, tanto no visual quanto na atuação dos atores, não encontrou resposta junto ao público (que preferiu lotar os cinemas para assistir "Star Wars", de George Lucas) e confundiu a crítica. Nem todo mundo encontrou no filme do diretor as referências explícitas à era de ouro dos estúdios e, quem encontrou preferiu dar de ombros. Nem tudo funciona no filme. Porém, quando funciona, o curioso encontro entre duas gerações distintas - com o belo colorido da fotografia de Lászlo Kovács e a direção de arte milagrosa como moldura da trama central - é o perfeito exemplo do quão talentoso Scorsese é, ao regurgitar, com elegância e inteligência, todos os ingredientes que fizeram a fama de gente como Vincent Minnelli. A conexão entre "New York, New York" e Minnelli é tamanha que, em uma jogada quase metalinguística, Scorsese ofereceu o principal papel feminino do filme, o da talentosa Francine Evans, à filha do diretor com Judy Garland. Em uma interpretação que remete à de sua mãe no célebre "Nasce uma estrela", Liza Minelli - a essa altura já premiada com um Oscar que Garland nunca recebeu - é mais um elo de ligação entre o antigo e o moderno, entre o passado e o presente, entre o naturalismo anos 70 e a estilização dos anos 40. Liza está soberba, assim como seu parceiro de cena Robert DeNiro, mas é inegável que lhes falta o essencial em uma trama romântica: química.
Usando e abusando daquela que seria uma das maiores características de sua filmografia - a improvisação de seus atores - Martin Scorsese deixou nas mãos de seus editores um pesadelo em forma de celulóide. Ao contrário do que aconteceria depois em sua carreira, onde o improviso seria uma qualidade orgânica, em "New York, New York" tal orientação tornou-se um dos problemas mais graves do resultado final: com um roteiro apenas esboçado, o filme acaba muitas vezes ficando repetitivo, intercalando discussões intermináveis entre seus protagonistas com números musicais que emulam com categoria e sofisticação os maiores clássicos do gênero. Realizado nos mesmos estúdios da MGM onde Judy Garland reinou na década de 40, o filme de Scorsese contou com antigos colaboradores da atriz, o que certamente ajudou na ambientação e na caracterização da personagem, uma talentosa cantora que se envolve com um igualmente talentoso saxofonista e vê sua história de amor ameaçada pela competição e pelos altos e baixos da carreira. Minnelli exala carisma por toda a projeção e encontra em Robert DeNiro um parceiro à altura, mas, como o próprio cineasta reconhece, em nenhum momento existe a fagulha necessária para tornar suas cenas tão grandes como poderiam ser. Talvez culpa do exagero na estilização, talvez culpa da confiança demasiada na dupla de astros. O fato, porém, é que falta em "New York, New York" o toque de mestre de seu diretor, ainda relativamente iniciante.
Cortado em vários minutos para seu lançamento - de quatro horas para 153 minutos e depois para 136, sempre sem o sucesso esperado - "New York, New York" alcançou sua edição final com 163 minutos, com a sequência "Happy endings" (talvez a mais claramente inspirada no cinemão clássico americano) completa. É um filme que precisa ser apreciado mais por suas intenções do que exatamente por seu resultado final, irregular e desnecessariamente longo. Por mais que seja sempre um prazer ver DeNiro e Liza Minnelli em cena e que tenha lançado a clássica canção-título que ficou imortal na voz de Frank Sinatra, é um espetáculo que nem sempre atinge os tons desejados - mas que quando alcança, mostra o melhor de dois mundos do cinema hollywoodiano. Em outras palavras, um Scorsese menor ainda é um grande Scorsese.
quarta-feira
AMARGO REGRESSO
AMARGO REGRESSO (Coming home, 1977, Jerome Hellman Productions,
127min) Direção: Hal Asbhy. Roteiro: Waldo Salt, Robert C. Jones,
estória de Nancy Dowd. Fotografia: Haskell Wexler. Montagem: Don
Zimmerman. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Michael
Haller/George Gaines. Produção: Jerome Hellman. Elenco: Jane Fonda, Jon
Voight, Bruce Dern, Penelope Milford, Robert Carradine. Estreia:
15/02/78
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Hal Asbhy), Ator (Jon Voight), Atriz (Jane Fonda), Ator Coadjuvante (Bruce Dern), Atriz Coadjuvante (Penelope Milford), Roteiro Original, Montagem
Vencedor de 3 Oscar: Ator (Jon Voight), Atriz (Jane Fonda), Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Jon Voight), Atriz/Drama (Jane Fonda)
Aguerrida militante contra a Guerra do Vietnã - o que lhe causou sérios problemas com o FBI, como ela mesma conta em sua autobiografia "Minha vida até agora" (Ed. Record) - a atriz Jane Fonda não apenas visitou o país como forma de entender os detalhes do sangrento conflito como empenhou-se em uma campanha para divulgar a maneira desumana com que os veteranos eram tratados pelo governo norte-americano. De inúmeras conversas com homens que voltaram aos EUA mutilados, paraplégicos e com sérios problemas psicológicos, surgiu a ideia de um filme que atingisse o público não através de discursos, mas de uma história dramática sobre pessoas comuns, que poderiam morar na casa ao lado do espectador. Sua tentativa de conscientizar a plateia - que contou com a ajuda de um ex-soldado chamado Ron Kovic, que estava tentando levar suas experiências para as telas em um filme chamado "Nascido em 4 de julho" - deu muito mais certo do que ela poderia imaginar. No mesmo ano em que outro filme sobre o Vietnã, "O franco-atirador", com uma visão mais conservadora da guerra, arrebatou os principais Oscar (filme e diretor para Michael Cimino), "Amargo regresso" saiu da festa da Academia com três estatuetas bastante importantes: ator, atriz e roteiro original. Era a prova inconteste de que o público americano estava mais do que disposto a ouvir e questionar um de seus maiores fracassos.
A ideia original de Fonda era contar com a direção do britânico John Schlesinger, que declinou do convite por considerar (acertadamente) que somente um cineasta norte-americano poderia contar a história explorando todas as suas nuances críticas e sentimentais. Entra em cena, então, Hal Ashby, dono de uma sensibilidade única, capaz de iluminar temas sombrios - como "Ensina-me a viver" (71), bizarra história de amor entre um adolescente e uma idosa - e criticar as instituições tradicionais - como visto em "A última missão" (73), estrelado por Jack Nicholson e que mirava a Marinha americana. Ciente das intenções sociopolíticas do roteiro desenvolvido por Waldo Salt e Robert C. Jones, Ashby abdicou da ironia característica de seus filmes anteriores para contar uma história de amor intensa e delicada, sem medo de expor com crueza e realismo todos os ângulos possíveis da trama, desde seu pacifismo explícito até seu foco na sexualidade de veteranos da guerra, algo até então nunca mostrado no cinema hollywoodiano. De forma poética e adulta, "Amargo regresso" conseguiu romper paradigmas e se tornou, com justiça, um dos filmes mais aclamados sobre o assunto, mostrando que Jane Fonda, mais do que uma militante de plantão, como a acusavam alguns detratores da época, ainda era uma atriz capaz de atrair público para as salas de cinema, mesmo em filmes com assuntos indigestos.
Em um grande momento da carreira, Fonda interpreta Sally Hyde, a esposa de um capitão do Exército americano que, sozinha em casa depois que o marido volta ao Vietnã, inicia um trabalho como voluntária em um hospital de veteranos. Chocada com a forma como muitos deles são tratados - praticamente ignorados pelo governo que os havia mandado para o conflito - ela reencontra, dentre os pacientes, um antigo colega de escola, Luke Martin (Jon Voight), paralisado da cintura para baixo e revoltado com sua situação. Convivendo com a jovem Violet (Penelope Milford, em papel oferecido à Meryl Streep e indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) - namorada de um soldado e irmã de um rapaz com sérios problemas psicológicos depois de ter voltado da Ásia - e tomando consciência de uma realidade que conhecia apenas pelos olhos miltaristas do marido (Bruce Dern, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), Sally acaba se apaixonando por Luke, iniciando um romance a que ela sente-se incapaz de resistir.
Em um papel oferecido a Sylvester Stallone, Jack Nicholson e Al Pacino, o ator Jon Voight tem o grande momento de sua carreira, com uma interpretação onde mescla indignação e doçura com uma maestria poucas vezes vista. Sua transformação no decorrer da trama - de veterano furioso a homem apaixonado e consciente de sua importância para evitar que seu drama se repita com outros jovens - é fascinante, e encontra eco em um desempenho tocante de Jane Fonda. Com uma atuação discreta e eficiente, ela faz jus a seu segundo Oscar - o primeiro foi consequência de seu trabalho em "Klute, o passado condena" (71) - sem precisar apelar para a lágrima fácil. Assim como acontece com o personagem de Voight, sua Sally Hyde passa por profundas mudanças do início ao fim do filme, e poucas intérpretes seriam capazes de apresentar tantas alterações de maneira tão sutil quanto Fonda, que transmite em cada cena a importância da mensagem pacifista da história contada. Quando estão juntos em cena, Fonda e Voight soltam faíscas - e sua cena de sexo, bem dirigida e de extremo bom-gosto, é daquelas de ficar para sempre na memória do espectador. Bonito, relevante e sensível, "Amargo regresso" é mais um marco na brilhante trajetória de Jane e um dos filmes mais importantes de sua época.
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Hal Asbhy), Ator (Jon Voight), Atriz (Jane Fonda), Ator Coadjuvante (Bruce Dern), Atriz Coadjuvante (Penelope Milford), Roteiro Original, Montagem
Vencedor de 3 Oscar: Ator (Jon Voight), Atriz (Jane Fonda), Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Jon Voight), Atriz/Drama (Jane Fonda)
Aguerrida militante contra a Guerra do Vietnã - o que lhe causou sérios problemas com o FBI, como ela mesma conta em sua autobiografia "Minha vida até agora" (Ed. Record) - a atriz Jane Fonda não apenas visitou o país como forma de entender os detalhes do sangrento conflito como empenhou-se em uma campanha para divulgar a maneira desumana com que os veteranos eram tratados pelo governo norte-americano. De inúmeras conversas com homens que voltaram aos EUA mutilados, paraplégicos e com sérios problemas psicológicos, surgiu a ideia de um filme que atingisse o público não através de discursos, mas de uma história dramática sobre pessoas comuns, que poderiam morar na casa ao lado do espectador. Sua tentativa de conscientizar a plateia - que contou com a ajuda de um ex-soldado chamado Ron Kovic, que estava tentando levar suas experiências para as telas em um filme chamado "Nascido em 4 de julho" - deu muito mais certo do que ela poderia imaginar. No mesmo ano em que outro filme sobre o Vietnã, "O franco-atirador", com uma visão mais conservadora da guerra, arrebatou os principais Oscar (filme e diretor para Michael Cimino), "Amargo regresso" saiu da festa da Academia com três estatuetas bastante importantes: ator, atriz e roteiro original. Era a prova inconteste de que o público americano estava mais do que disposto a ouvir e questionar um de seus maiores fracassos.
A ideia original de Fonda era contar com a direção do britânico John Schlesinger, que declinou do convite por considerar (acertadamente) que somente um cineasta norte-americano poderia contar a história explorando todas as suas nuances críticas e sentimentais. Entra em cena, então, Hal Ashby, dono de uma sensibilidade única, capaz de iluminar temas sombrios - como "Ensina-me a viver" (71), bizarra história de amor entre um adolescente e uma idosa - e criticar as instituições tradicionais - como visto em "A última missão" (73), estrelado por Jack Nicholson e que mirava a Marinha americana. Ciente das intenções sociopolíticas do roteiro desenvolvido por Waldo Salt e Robert C. Jones, Ashby abdicou da ironia característica de seus filmes anteriores para contar uma história de amor intensa e delicada, sem medo de expor com crueza e realismo todos os ângulos possíveis da trama, desde seu pacifismo explícito até seu foco na sexualidade de veteranos da guerra, algo até então nunca mostrado no cinema hollywoodiano. De forma poética e adulta, "Amargo regresso" conseguiu romper paradigmas e se tornou, com justiça, um dos filmes mais aclamados sobre o assunto, mostrando que Jane Fonda, mais do que uma militante de plantão, como a acusavam alguns detratores da época, ainda era uma atriz capaz de atrair público para as salas de cinema, mesmo em filmes com assuntos indigestos.
Em um grande momento da carreira, Fonda interpreta Sally Hyde, a esposa de um capitão do Exército americano que, sozinha em casa depois que o marido volta ao Vietnã, inicia um trabalho como voluntária em um hospital de veteranos. Chocada com a forma como muitos deles são tratados - praticamente ignorados pelo governo que os havia mandado para o conflito - ela reencontra, dentre os pacientes, um antigo colega de escola, Luke Martin (Jon Voight), paralisado da cintura para baixo e revoltado com sua situação. Convivendo com a jovem Violet (Penelope Milford, em papel oferecido à Meryl Streep e indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) - namorada de um soldado e irmã de um rapaz com sérios problemas psicológicos depois de ter voltado da Ásia - e tomando consciência de uma realidade que conhecia apenas pelos olhos miltaristas do marido (Bruce Dern, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), Sally acaba se apaixonando por Luke, iniciando um romance a que ela sente-se incapaz de resistir.
Em um papel oferecido a Sylvester Stallone, Jack Nicholson e Al Pacino, o ator Jon Voight tem o grande momento de sua carreira, com uma interpretação onde mescla indignação e doçura com uma maestria poucas vezes vista. Sua transformação no decorrer da trama - de veterano furioso a homem apaixonado e consciente de sua importância para evitar que seu drama se repita com outros jovens - é fascinante, e encontra eco em um desempenho tocante de Jane Fonda. Com uma atuação discreta e eficiente, ela faz jus a seu segundo Oscar - o primeiro foi consequência de seu trabalho em "Klute, o passado condena" (71) - sem precisar apelar para a lágrima fácil. Assim como acontece com o personagem de Voight, sua Sally Hyde passa por profundas mudanças do início ao fim do filme, e poucas intérpretes seriam capazes de apresentar tantas alterações de maneira tão sutil quanto Fonda, que transmite em cada cena a importância da mensagem pacifista da história contada. Quando estão juntos em cena, Fonda e Voight soltam faíscas - e sua cena de sexo, bem dirigida e de extremo bom-gosto, é daquelas de ficar para sempre na memória do espectador. Bonito, relevante e sensível, "Amargo regresso" é mais um marco na brilhante trajetória de Jane e um dos filmes mais importantes de sua época.
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