PERDIDO EM MARTE (The martian, 2015, 20th Century Fox, 144min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Drew Goddard, romance de Andy Weir. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Pietro Scalia. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Celia Bobak, Zoltán Horváth. Produção executiva: Drew Goddard. Produção: Mark Huffman, Simon Kinberg, Michael Schaefer, Ridley Scott, Aditya Sood. Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Kristen Wiig, Jeff Daniels, Michael Peña, Sean Bean, Kate Mara, Chiwetel Ejiofor, Sebastian Stan, Aksel Hennie. Estreia: 11/9/15 (Festival de Toronto)
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Matt Damon), Roteiro Adaptado, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Ator Comédia/Musical (Matt Damon)
Uma das maiores polêmicas na ocasião de entrega dos Golden Globes 2016 ocorreu com a vitória dupla de "Perdido em Marte", de Ridley Scott, premiado como melhor filme e ator (Matt Damon) na subcategoria comédia ou musical. Não que o filme não tivesse méritos para isso, já que é um dos melhores trabalhos do cineasta inglês desde o megasucesso "Gladiador" (2000): o problema é que a adaptação do romance de Andy Weir NÃO é uma comédia, apesar de alguns momentos menos pesados e um certo tom de ironia no protagonista. Uma ficção científica à moda antiga, mas com todo o requinte visual que a tecnologia moderna pode oferecer, "Perdido em Marte" acabou sendo inscrito para as premiações para não enfrentar uma concorrência maior com os dramas lançados na temporada - e dos quais saiu vencedor o controverso "Spotlight: segredos revelados" - e se deu muito bem. Além das estatuetas do Golden Globe (de resto merecidas), arrebatou sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, ator e roteiro adaptado. Ridley Scott, inexplicavelmente, ficou de fora.
Um dos grandes cineastas de sua época a ainda não terem um Oscar em casa, Ridley Scott tem familiaridade com a ficção científica, gênero que deu à sua carreira alguns de seus maiores êxitos (comerciais ou de crítica). São dele filmes essenciais, como "Alien: o oitavo passageiro" (79) e "Blade Runner: o caçador de androides" (82), e nem mesmo seu "Prometheus" (2012), que dividiu opiniões, é um filme menor. Confortável em lidar com os paradigmas do gênero e com as dificuldades de comandar orçamentos generosos - mais de 100 milhões de dólares no caso de "Perdido em Marte" - Scott tirou de letra orquestrar as aventuras e desventuras de Mark Watney, o protagonista de uma história que, apesar de carregar todos os elementos clássicos, conhecidos e amados pelos fãs da ficção científica, agrada também à plateia um tanto avessa a eles. Leve, divertido e emocionante na medida certa, é um filme com tudo de melhor que Hollywood tem a oferecer, embrulhado em um atraente pacote visual e dramático.
O filme não demora a começar, impondo o ritmo desde suas primeiras cenas, que mostram uma equipe de astronautas da NASA sendo obrigada a abortar sua missão em Marte devido a uma violenta e inesperada tempestade que praticamente os expulsa do planeta. Além do fracasso de sua viagem, o grupo liderado pela Comandante Melissa Lewis (Jessica Chastain) ainda precisa lidar com a morte de um de seus integrantes, o botânico Mark Watney (Matt Damon), atingido pelos destroços da tormenta. O que eles não sabem, porém, é que Watney não apenas sobreviveu - graças a um incrível golpe de sorte - como, ciente de sua situação desesperadora, começou a fazer planos para manter-se vivo enquanto não é resgatado. Utilizando-se de sua experiência e seus conhecimentos de física e matemática, ele calcula milimetricamente cada porção de comida, cada fração de oxigênio e cada possibilidade de ser descoberto pelos cientistas na Terra. O que ele não sabe é que, mesmo depois de ter sua sobrevivência descoberta (por acaso), os planos da agência não são tão favoráveis assim em relação a seu resgate. É somente quando as forças do governo, de cientistas estrangeiros e de sua própria equipe são reunidas que um mirabolante e arriscado plano é posto em prática - mesmo sem a certeza de que dará certo.
Com um roteiro surpreendente, que versa sobre teorias complexas mas nunca deixa o público alienado, "Perdido em Marte" tem duas linhas narrativas empolgantes, cada uma com seu próprio ritmo e tom. Enquanto Watney inventa e reinventa modos de comunicação com a Terra e meios de sobreviver com a escassez de comida e oxigênio, membros de diversas agências científicas tentam encontrar soluções para o problema - a essa altura já compartilhado pelo mundo inteiro. Matt Damon dá um show na pele do perseverante protagonista, injetando um senso de humor inesperado a uma espécie de Robinson Crusoé da era moderna. É ele quem comanda o espetáculo - e sua indicação ao Oscar foi extremamente justa, uma vez que ele praticamente atua sozinho por mais de duas horas de sessão. Dividindo a atenção com sua odisseia, as manobras científicas para resgatá-lo igualmente seguram a plateia na poltrona, equilibrando com maestria momentos de pura tensão com cenas brilhantemente executadas, onde se destacam a edição de som e os efeitos visuais (também indicados ao Oscar). É mérito do roteiro e da direção costurar com tanta precisão o drama e a ação, levando o espectador a uma experiência divertida e altamente competente. Com uma trilha sonora onde se destacam sucessos conhecidos do público - "I will survive", de Gloria Gaynor e "Starman", de David Bowie surgem em momentos exatos - e um tom de esperança louvável, "Perdido em Marte" consegue também a façanha de ser o primeiro filme ambientado em Marte a se dar bem na bilheteria e na opinião dos críticos - depois que os execráveis "Planeta Vermelho" e "Missão: Marte", ambos de 2000, praticamente estragaram o planeta por mais de uma década com seus roteiros tenebrosos. É um êxito merecido, de um cineasta ainda não devidamente reconhecido pela Academia.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade. Afinal, a sétima arte não tem esse nome à toa.
quarta-feira
terça-feira
JFK: A HISTÓRIA NÃO CONTADA
JFK: A HISTÓRIA NÃO CONTADA (Parkland, 2013, The American Film Company, 93min) Direção: Peter Landesman. Roteiro: Peter Landesman, livro de Vincent Bugliosi. Fotografia: Barry Ackroyd. Montagem: Markus Czyzewski, Leo Trombetta. Música: James Newton Howard. Figurino: Kari Perkins. Direção de arte/cenários: Bruce Curtis/Rodney Becker. Produção executiva: Tobin Armbrust, Guy East, Brian Falk, Joe Ricketts, Ginger Sledge. Produção: Gary Goetzman, Tom Hanks, Matt Jackson, Bill Paxton, Nigel Sinclair. Elenco: Marcia Gay Harden, Zac Efron, Paul Giamatti, Ron Livingston, James Badge Dale, Billy Bob Thornton, Jacki Weaver, Gil Bellows, Tom Welling, Mark Duplass, Colin Hanks, Jackie Earle Haley, Rory Cochrane. Estreia: 01/9/13 (Festival de Veneza)
Em 22 de novembro de 1963, a cidade de Dallas, Texas, foi cenário do mais traumático e devastador espetáculo que os EUA testemunhou até o atentado ao World Trade Center, quase quarenta anos mais tarde: o assassinato do então presidente John Fitzgerald Kennedy não apenas mostrou aos americanos a fragilidade de sua segurança como também abalou os alicerces da política mundial de forma indelével e ainda hoje ressoante. Em 1991, Oliver Stone abordou a morte de Kennedy no fenomenal "JFK: A pergunta que não quer calar", que, em tom semi-documental, expunha teorias da conspiração de modo tão contundente que era impossível não acabar a sessão totalmente convencido de que o presidente havia sido morto por culpa da CIA, do FBI, da KGB e da própria Casa Branca. O trabalho de Stone concorreu ao Oscar de filme, direção e roteiro - e ganhou as estatuetas de fotografia e edição - e passou à história como um dos maiores thrillers políticos dos anos 90. Com um olhar completamente oposto ao espetáculo grandioso estrelado por Kevin Costner, o discreto e pouco conhecido "JFK: A história não contada" volta sua atenção não para a investigação do crime, mas para suas consequências imediatas junto às pessoas que atenderam o presidente no Parkland Memorial Hospital, seus seguranças e um lado da questão sempre esquecida por todos: a família daquele que é considerado o autor dos tiros, Lee Harvey Oswald.
Baseado no livro "Four days in November: The assassination of John F. Kennedy", escrito pelo promotor Vincent Bugliosi - tornado famoso graças ao julgamento de Charles Manson e seus seguidores - o filme de estreia do roteirista Peter Landesman renega as teorias propostas por Oliver Stone em seu trabalho e abraça a história oficial do atirador solitário. Assim como Emilio Estevez fez em "Bobby" (2006) - que apresentava uma dúzia de personagens presentes ao Hotel onde Robert Kennedy foi assassinado, em 1968 - a obra de Landesman se debruça sobre pequenas histórias paralelas (mas todas reais) que envolveram o homicídio, mas pouco se interessa em invadir as entranhas das investigações e das incoerências que cercavam o caso. Seu interesse humano é maior que o político - o que torna o resultado final um tanto irregular, ainda que fascinante para quem se interessa pelo assunto. Produzido por Tom Hanks e Bill Pullman - que primeiro pretendiam adaptar o livro de Bugliosi como minissérie de televisão - e com um elenco de rostos conhecidos do grande público, o filme custou meros 10 milhões de dólares, mas naufragou nas bilheterias e foi ignorado nas cerimônias de premiação, mesmo tendo estreado no concorrido Festival de Veneza e lançado comercialmente no aniversário de 50 anos da tragédia.
A morte de John Kennedy - na frente de centenas de pessoas, em uma via pública e de forma a abalar toda uma nação - é o ponto de partida de "JKF: A história não contada". A partir do momento em que o presidente chega à Dallas, os personagens da trama vão sendo apresentados aos poucos: surge Abraham Zapruder (Paul Giamatti), o homem que, com sua filmadora, irá registrar um dos momentos mais estudados do século. Aparecem os jovens médicos Charles Carrico (Zac Efron) e Malcolm Perry (Colin Hanks), que irão tentar salvar a vida do presidente, ao lado da enfermeira-chefe Doris Nelson (Marcia Gay Harden). São iluminados pela tela alguns dos homens do Serviço Secreto, dispostos a descobrir qualquer detalhe sobre a tragédia, como Forrest Sorells (Billy Bob Thornton) e Roy Kellerman (Tom Welling), assim como agentes do FBI encarregados de cuidar da segurança do presidente, como James Hosty (Ron Livingston) e Gordon Shanklin (David Harbour) - o primeiro sentindo-se culpado pelo fato de não ter dado a devida atenção a um homem que estava investigando, chamado Lee Harvey Oswald. A família de Oswald, inclusive, também é lembrada pelo roteiro, nas figuras marcantes de seu atônito irmão Robert (James Badge Dale, ótimo) e sua interesseira mãe Marguerite (Jacki Weaver).
Enquanto vai contando a história desses personagens - e outros menos marcantes mas igualmente importantes no processo que tirou o corpo de Kennedy do hospital de Dallas mesmo contra a vontade do médico legista Earl Rose (Rory Cochrane) - o filme de Landesman vai mostrando os efeitos do fatídico evento na vida de cada um deles, mas sem aprofundar-se satisfatoriamente em nenhum dos casos. Mesmo que sua intenção seja exatamente um recorte específico na trajetória dos personagens, é impossível não ficar com a sensação de que algo ficou faltando. É como se o filme todo fosse uma introdução - forte, interessante, realista - de uma obra que, no fim, não existe. Bom diretor de atores, Landesman consegue extrair atuações convincentes até de Zac Efron e Tom Welling - mais conhecidos como galãs do que como intérpretes sérios - e explora com deleite o trabalho fascinante de medalhões como Paul Giamatti, Billy Bob Thornton e Jacki Weaver, a melhor em cena, com uma atuação monstruosa da igualmente monstruosa mãe de Lee Harvey Oswald - que passou o resto da vida insistindo que o filme era um agente do governo americano, o que, consequentemente, ratifica as ideias de Oliver Stone e vai contra as conclusões de Vincent Bugliosi. Em todo caso, "JFK: A história não contada" não se propõe a investigar um caso de assassinato, mas sim em como essa morte afetou diretamente alguns personagens à margem da história. Um bom filme, ainda que aquém de todo o seu potencial.
Em 22 de novembro de 1963, a cidade de Dallas, Texas, foi cenário do mais traumático e devastador espetáculo que os EUA testemunhou até o atentado ao World Trade Center, quase quarenta anos mais tarde: o assassinato do então presidente John Fitzgerald Kennedy não apenas mostrou aos americanos a fragilidade de sua segurança como também abalou os alicerces da política mundial de forma indelével e ainda hoje ressoante. Em 1991, Oliver Stone abordou a morte de Kennedy no fenomenal "JFK: A pergunta que não quer calar", que, em tom semi-documental, expunha teorias da conspiração de modo tão contundente que era impossível não acabar a sessão totalmente convencido de que o presidente havia sido morto por culpa da CIA, do FBI, da KGB e da própria Casa Branca. O trabalho de Stone concorreu ao Oscar de filme, direção e roteiro - e ganhou as estatuetas de fotografia e edição - e passou à história como um dos maiores thrillers políticos dos anos 90. Com um olhar completamente oposto ao espetáculo grandioso estrelado por Kevin Costner, o discreto e pouco conhecido "JFK: A história não contada" volta sua atenção não para a investigação do crime, mas para suas consequências imediatas junto às pessoas que atenderam o presidente no Parkland Memorial Hospital, seus seguranças e um lado da questão sempre esquecida por todos: a família daquele que é considerado o autor dos tiros, Lee Harvey Oswald.
Baseado no livro "Four days in November: The assassination of John F. Kennedy", escrito pelo promotor Vincent Bugliosi - tornado famoso graças ao julgamento de Charles Manson e seus seguidores - o filme de estreia do roteirista Peter Landesman renega as teorias propostas por Oliver Stone em seu trabalho e abraça a história oficial do atirador solitário. Assim como Emilio Estevez fez em "Bobby" (2006) - que apresentava uma dúzia de personagens presentes ao Hotel onde Robert Kennedy foi assassinado, em 1968 - a obra de Landesman se debruça sobre pequenas histórias paralelas (mas todas reais) que envolveram o homicídio, mas pouco se interessa em invadir as entranhas das investigações e das incoerências que cercavam o caso. Seu interesse humano é maior que o político - o que torna o resultado final um tanto irregular, ainda que fascinante para quem se interessa pelo assunto. Produzido por Tom Hanks e Bill Pullman - que primeiro pretendiam adaptar o livro de Bugliosi como minissérie de televisão - e com um elenco de rostos conhecidos do grande público, o filme custou meros 10 milhões de dólares, mas naufragou nas bilheterias e foi ignorado nas cerimônias de premiação, mesmo tendo estreado no concorrido Festival de Veneza e lançado comercialmente no aniversário de 50 anos da tragédia.
A morte de John Kennedy - na frente de centenas de pessoas, em uma via pública e de forma a abalar toda uma nação - é o ponto de partida de "JKF: A história não contada". A partir do momento em que o presidente chega à Dallas, os personagens da trama vão sendo apresentados aos poucos: surge Abraham Zapruder (Paul Giamatti), o homem que, com sua filmadora, irá registrar um dos momentos mais estudados do século. Aparecem os jovens médicos Charles Carrico (Zac Efron) e Malcolm Perry (Colin Hanks), que irão tentar salvar a vida do presidente, ao lado da enfermeira-chefe Doris Nelson (Marcia Gay Harden). São iluminados pela tela alguns dos homens do Serviço Secreto, dispostos a descobrir qualquer detalhe sobre a tragédia, como Forrest Sorells (Billy Bob Thornton) e Roy Kellerman (Tom Welling), assim como agentes do FBI encarregados de cuidar da segurança do presidente, como James Hosty (Ron Livingston) e Gordon Shanklin (David Harbour) - o primeiro sentindo-se culpado pelo fato de não ter dado a devida atenção a um homem que estava investigando, chamado Lee Harvey Oswald. A família de Oswald, inclusive, também é lembrada pelo roteiro, nas figuras marcantes de seu atônito irmão Robert (James Badge Dale, ótimo) e sua interesseira mãe Marguerite (Jacki Weaver).
Enquanto vai contando a história desses personagens - e outros menos marcantes mas igualmente importantes no processo que tirou o corpo de Kennedy do hospital de Dallas mesmo contra a vontade do médico legista Earl Rose (Rory Cochrane) - o filme de Landesman vai mostrando os efeitos do fatídico evento na vida de cada um deles, mas sem aprofundar-se satisfatoriamente em nenhum dos casos. Mesmo que sua intenção seja exatamente um recorte específico na trajetória dos personagens, é impossível não ficar com a sensação de que algo ficou faltando. É como se o filme todo fosse uma introdução - forte, interessante, realista - de uma obra que, no fim, não existe. Bom diretor de atores, Landesman consegue extrair atuações convincentes até de Zac Efron e Tom Welling - mais conhecidos como galãs do que como intérpretes sérios - e explora com deleite o trabalho fascinante de medalhões como Paul Giamatti, Billy Bob Thornton e Jacki Weaver, a melhor em cena, com uma atuação monstruosa da igualmente monstruosa mãe de Lee Harvey Oswald - que passou o resto da vida insistindo que o filme era um agente do governo americano, o que, consequentemente, ratifica as ideias de Oliver Stone e vai contra as conclusões de Vincent Bugliosi. Em todo caso, "JFK: A história não contada" não se propõe a investigar um caso de assassinato, mas sim em como essa morte afetou diretamente alguns personagens à margem da história. Um bom filme, ainda que aquém de todo o seu potencial.
segunda-feira
PAIXÃO
PAIXÃO (Passion, 2012, SBS Productions/Integral Film/France 2 Cinéma, 102min) Direção: Brian De Palma. Roteiro: Brian De Palma, roteiro original de Natalie Carter, Alain Corneau. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: François Gedigier. Música: Pino Donaggio. Figurino: Karen Muller-Serreau. Direção de arte/cenários: Cornelia Ott/Ute Bergk. Produção: Said Ben Said. Elenco: Rachel McAdams, Noomi Rapace, Karoline Herfurth, Paul Anderson, Dominic Raacke, Rainer Block, Benjamin Sadler. Estreia: 07/9/12 (Festival de Veneza)
A carreira de Brian De Palma sempre sofreu de inconstância, tanto em termos de qualidade quanto em termos de sucesso popular. A cada "Carrie, a estranha" (76) e "Os intocáveis" (87) que fazia, surgiam atrocidades massacradas pela crítica, como "A fogueira das vaidades" (90) e "Dália negra" (2006) - sem falar naqueles que ficavam no meio-termo, como "Pecados de guerra" (89) e "O pagamento final" (94). Seu remake do filme francês "Crime de amor", estrelado por Kristin Scott Thomas em 2010, porém, conseguiu a façanha de ser imperdoavelmente fraco como cinema e ter passado em brancas nuvens pelas bilheterias, mesmo tendo estreado no prestigiado Festival de Veneza de 2012. Rebatizado como "Paixão" e com pouquíssimas alterações em relação à sua origem, o filme é uma trama de suspense cujo cenário é o competitivo mundo da publicidade, mas apesar de seu visual elegante e do enredo promissor, é uma sucessão de sequências anticlimáticas e inverossimilhanças capazes de incomodar até ao mais benevolente espectador.
Por mais talentosa que seja, Rachel McAdams não tem o jogo de cintura suficiente para herdar o papel que foi da esplêndida Scott Thomas no filme de Alain Corneau - que morreu poucos dias antes do lançamento de seu filme. Na versão de De Palma, a protagonista não apenas rejuvenesceu como ganhou também uma agressividade sexual mais explícita, a pedido da própria McAdams e de sua parceira de cena, Noomi Rapace - a Lisbeth Salander da trilogia sueca "Millenium". McAdmas deixa um pouco de lado a imagem construída em uma série de comédias e dramas românticos para investir pesado em Christine Stanford, uma publicitária ambiciosa e manipuladora que não hesita em tomar para si as ideias de sua nova assistente, Isabelle James (Rapace), com o objetivo de conquistar um lugar de mais poder na agência onde trabalha. Seu estilo arrojado e seco estende-se também a seu casamento com Dirk Harriman (Paul Anderson, em papel que seria de Dominic Cooper), repleto de fantasias sexuais bizarras. Quando, durante uma viagem a negócios o sedutor Dirk convence Isabelle a passar a noite com ele, as caras da relação entre chefe e assistente são embaralhadas e um imprevisível jogo de dominação - com o poder constantemente alternado - começa, levando as duas executivas a um perigoso caminho.
Elegantemente conduzido pelo cineasta - cuja experiência em criar climas de suspense com movimentos de câmera fluidos e quase imperceptíveis - "Paixão" é uma obra que deve muito de seu resultado final a uma coleção de fetiches elencados pelo roteiro: dominação, lesbianismo e adultério são elementos indissociáveis da trama concebida por Corneau e Natalie Carter (que colaborou com De Palma na adaptação para a refilmagem). Mantendo constantemente a dubiedade a respeito de suas duas protagonistas, De Palma confunde o público a cada momento, transferindo de uma para a outra a condução dos desvios da narrativa, em um artifício interessante mas que carece de maior força. Ao optar por não dar a nenhuma delas uma personalidade simpática - ambas sofrem de uma total falta de empatia - o veterano diretor se arrisca em não conquistar a plateia... e perde no jogo. Nem McAdams nem Rapace (ótima nas adaptações dos livros de Stieg Larsson mas péssima aqui) tem nuances o bastante para lidar com as complexidades de suas personagens, deixando tudo nas mãos da técnica de De Palma e no visual estonteante criado pelo diretor de fotografia José Luis Alcaine (que tem no currículo trabalhos com Pedro Almodóvar). A estética apurada, contudo, não basta - e o filme deixa a péssima sensação de muita beleza e pouco conteúdo.
É decepcionante ver como De Palma - que passou de célebre imitador de Hitchcock a um nome de peso dentro da indústria hollywoodiana - parece patinar dentro das armadilhas que ele mesmo criou para si, em "Paixão". Seus criativos movimentos de câmera e sua atenção em transformar a edição em peça fundamental da narrativa continuam intactos, mostrando o fabuloso cineasta que ele é. Porém, falta consistência dramática e sinceridade na forma como ele trata suas personagens: existe a nítida impressão de que elas servem unicamente para dar margem às reviravoltas do enredo, que inclui desvio de dinheiro, humilhações públicas e toda sorte de manipulação - de ambos os lados da tela. A surpresa do final, inclusive, é previsível e sem maior impacto, parte devido à falta de segurança do diretor em manter o pulso firme de sua história, parte graças às atuações um tanto mecânicas de suas atrizes centrais, em momento pouco feliz das carreiras. "Paixão" pode agradar aos menos exigentes, mas é um De Palma muito aquém do que se deve esperar dele.
A carreira de Brian De Palma sempre sofreu de inconstância, tanto em termos de qualidade quanto em termos de sucesso popular. A cada "Carrie, a estranha" (76) e "Os intocáveis" (87) que fazia, surgiam atrocidades massacradas pela crítica, como "A fogueira das vaidades" (90) e "Dália negra" (2006) - sem falar naqueles que ficavam no meio-termo, como "Pecados de guerra" (89) e "O pagamento final" (94). Seu remake do filme francês "Crime de amor", estrelado por Kristin Scott Thomas em 2010, porém, conseguiu a façanha de ser imperdoavelmente fraco como cinema e ter passado em brancas nuvens pelas bilheterias, mesmo tendo estreado no prestigiado Festival de Veneza de 2012. Rebatizado como "Paixão" e com pouquíssimas alterações em relação à sua origem, o filme é uma trama de suspense cujo cenário é o competitivo mundo da publicidade, mas apesar de seu visual elegante e do enredo promissor, é uma sucessão de sequências anticlimáticas e inverossimilhanças capazes de incomodar até ao mais benevolente espectador.
Por mais talentosa que seja, Rachel McAdams não tem o jogo de cintura suficiente para herdar o papel que foi da esplêndida Scott Thomas no filme de Alain Corneau - que morreu poucos dias antes do lançamento de seu filme. Na versão de De Palma, a protagonista não apenas rejuvenesceu como ganhou também uma agressividade sexual mais explícita, a pedido da própria McAdams e de sua parceira de cena, Noomi Rapace - a Lisbeth Salander da trilogia sueca "Millenium". McAdmas deixa um pouco de lado a imagem construída em uma série de comédias e dramas românticos para investir pesado em Christine Stanford, uma publicitária ambiciosa e manipuladora que não hesita em tomar para si as ideias de sua nova assistente, Isabelle James (Rapace), com o objetivo de conquistar um lugar de mais poder na agência onde trabalha. Seu estilo arrojado e seco estende-se também a seu casamento com Dirk Harriman (Paul Anderson, em papel que seria de Dominic Cooper), repleto de fantasias sexuais bizarras. Quando, durante uma viagem a negócios o sedutor Dirk convence Isabelle a passar a noite com ele, as caras da relação entre chefe e assistente são embaralhadas e um imprevisível jogo de dominação - com o poder constantemente alternado - começa, levando as duas executivas a um perigoso caminho.
Elegantemente conduzido pelo cineasta - cuja experiência em criar climas de suspense com movimentos de câmera fluidos e quase imperceptíveis - "Paixão" é uma obra que deve muito de seu resultado final a uma coleção de fetiches elencados pelo roteiro: dominação, lesbianismo e adultério são elementos indissociáveis da trama concebida por Corneau e Natalie Carter (que colaborou com De Palma na adaptação para a refilmagem). Mantendo constantemente a dubiedade a respeito de suas duas protagonistas, De Palma confunde o público a cada momento, transferindo de uma para a outra a condução dos desvios da narrativa, em um artifício interessante mas que carece de maior força. Ao optar por não dar a nenhuma delas uma personalidade simpática - ambas sofrem de uma total falta de empatia - o veterano diretor se arrisca em não conquistar a plateia... e perde no jogo. Nem McAdams nem Rapace (ótima nas adaptações dos livros de Stieg Larsson mas péssima aqui) tem nuances o bastante para lidar com as complexidades de suas personagens, deixando tudo nas mãos da técnica de De Palma e no visual estonteante criado pelo diretor de fotografia José Luis Alcaine (que tem no currículo trabalhos com Pedro Almodóvar). A estética apurada, contudo, não basta - e o filme deixa a péssima sensação de muita beleza e pouco conteúdo.
É decepcionante ver como De Palma - que passou de célebre imitador de Hitchcock a um nome de peso dentro da indústria hollywoodiana - parece patinar dentro das armadilhas que ele mesmo criou para si, em "Paixão". Seus criativos movimentos de câmera e sua atenção em transformar a edição em peça fundamental da narrativa continuam intactos, mostrando o fabuloso cineasta que ele é. Porém, falta consistência dramática e sinceridade na forma como ele trata suas personagens: existe a nítida impressão de que elas servem unicamente para dar margem às reviravoltas do enredo, que inclui desvio de dinheiro, humilhações públicas e toda sorte de manipulação - de ambos os lados da tela. A surpresa do final, inclusive, é previsível e sem maior impacto, parte devido à falta de segurança do diretor em manter o pulso firme de sua história, parte graças às atuações um tanto mecânicas de suas atrizes centrais, em momento pouco feliz das carreiras. "Paixão" pode agradar aos menos exigentes, mas é um De Palma muito aquém do que se deve esperar dele.
domingo
NO (No, 2012, Participant Media/Funny Balloons, 118min) Direção: Pablo Larraín. Roteiro: Pedro Peirano, peça teatral de Antonio Skármeta. Fotografia: Sergio Armstrong. Montagem: Andrea Chignoli. Música: Carlos Cabezas. Figurino: Francisca Román. Direção de arte/cenários: Estefania Larrain/María Eugenia Hederra. Produção executiva: Juan Ignacio Correa, Mariane Hartard, Rocío Jadue, Jonathan King. Produção: Daniel Marc Dreifuss, Juan de Dios Larraín, Pablo Larraín. Elenco: Gael García Bernal, Alfredo Castro, Luis Gnecco, Néstor Cantillana, Antonia Zegers, Elsa Poblete. Estreia: 18/5/12 (Festival de Cannes)
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Entre 1973 e 1988, o Chile viveu sob uma feroz ditadura militar, representada na figura do General Augusto Pinochet, que assumiu a presidência depois de derrubar, através de um golpe de estado, o eleito Salvador Allende. Sob forte pressão popular - e acreditando que jamais sairia derrotado de uma eleição depois de tanto tempo no comando - o ditador aceitou, então, a proposta de realização de um plebiscito que decidiria sua continuidade ou não como chefe do país. Como parte do processo, uma campanha televisionada no período de 27 dias, com quinze minutos de duração para cada time. Seria democrático se o governo não tivesse muito mais recursos do que a oposição - mas a luta pela justiça encontra forças na adversidade, na paixão de seus militantes e na busca constante pela liberdade. Essa é a mensagem por trás de "No", belo trabalho do cineasta Pablo Larraín, indicado ao Oscar 2012 de melhor filme estrangeiro. Baseado em uma peça teatral escrita pelo mesmo Antonio Skármeta de "O carteiro e o poeta", o filme de Larraín é centrado basicamente na batalha dos opositores ao regime, que, mesmo dispondo de pouco dinheiro e apoio oficial, conseguiram derrubar um dos mais sangrentos e vis golpes de estado da história da América Latina.
A trama centra-se em René Saavedra (o sempre ótimo Gael García Bernal), publicitário jovem e talentoso, que é convidado para participar da organização da campanha pelo "Não" - que, vitoriosa, obrigaria o governo a clamar por novas eleições diretas. Filho de exilados políticos, o rapaz hesita em aceitar a proposta mesmo sendo simpático à causa, especialmente porque seu patrão, Lucho Guzmán (Alfredo Castro), é um dos diretores da campanha oposta. Sabendo que está mexendo com um vespeiro, porém, René aceita o desafio e passa a colaborar com a criação de uma série de pequenos filmes que celebram a alegria e a liberdade - em oposição ao que muitos participantes da campanha desejam, por considerar o assunto sério demais para ser tratado com leveza. Conforme o tempo vai passando e as diferenças criativas vão sendo superadas (ou não), o governo começa a perceber que talvez tenha sido uma péssima ideia dar voz a seus inimigos, principalmente em rede nacional.
Para dar mais realismo às cenas, Larraín, em seu projeto mais acessível ao grande público - depois de sucessos de crítica mais densos e herméticos, como "Tony Manero" (2008) e "Post Mortem" (2010) - utilizou-se de câmeras utilizadas no final da década de 80, criando sequências que parecem realmente ter saído do momento histórico que retrata. Intercalando cenas do filme com imagens das campanhas reais, o cineasta insere o espectador dentro da jornada de René e seus companheiros rumo à liberdade tão sonhada. Sem disfarçar sua simpatia pelo fim da ditadura, o roteiro questiona os argumentos daqueles favoráveis ao regime sem, no entanto, apelar para o didatismo ou o panfletário, acreditando plenamente na força da história e seus desdobramentos. Ao impor a narrativa sob a ótica de Saavedra - um cidadão comum, que viveu todos os problemas da ditadura sem estar nos bastidores do poder - Larraín enfatiza o óbvio: um regime ditatorial e opressor afeta a todos, por mais que se tenha a ilusão de liberdade e progresso. Quando decide comprar a briga pelo "Não", o protagonista compra também uma série de consequências que podem destruir sua carreira e sua família, e sua coragem é que lhe transforma em herói - ao menos um herói do dia-a-dia, capaz de, com pequenos gestos, transformar seu pedaço de mundo e aqueles a seu redor. Não deixa de ser surpreendente que o diretor desse conto de esperança seja Larraín, um cineasta pouco afeito a delicadezas e finais felizes.
Empolgante como um thriller político - mas sem o peso de um Costa-Gavras ou Oliver Stone - "No" é uma produção pequena em ambição mas grandiosa em resultados. A indicação ao Oscar foi apenas consequência de um trabalho cuidadoso, apaixonado e inteligente, capaz de conquistar até mesmo àqueles avessos a qualquer tipo de filme do gênero. Com um roteiro fluido e esperto, uma direção discreta que jamais comete excessos e um elenco impecável - liderado por um inspirado Gael García Bernal, perfeito em viver tipos comuns - é uma pequena obra-prima do cinema chileno, competente em todos os aspectos e fascinante como drama humano e social. Uma mostra e tanto do novo cinema latino-americano.
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Entre 1973 e 1988, o Chile viveu sob uma feroz ditadura militar, representada na figura do General Augusto Pinochet, que assumiu a presidência depois de derrubar, através de um golpe de estado, o eleito Salvador Allende. Sob forte pressão popular - e acreditando que jamais sairia derrotado de uma eleição depois de tanto tempo no comando - o ditador aceitou, então, a proposta de realização de um plebiscito que decidiria sua continuidade ou não como chefe do país. Como parte do processo, uma campanha televisionada no período de 27 dias, com quinze minutos de duração para cada time. Seria democrático se o governo não tivesse muito mais recursos do que a oposição - mas a luta pela justiça encontra forças na adversidade, na paixão de seus militantes e na busca constante pela liberdade. Essa é a mensagem por trás de "No", belo trabalho do cineasta Pablo Larraín, indicado ao Oscar 2012 de melhor filme estrangeiro. Baseado em uma peça teatral escrita pelo mesmo Antonio Skármeta de "O carteiro e o poeta", o filme de Larraín é centrado basicamente na batalha dos opositores ao regime, que, mesmo dispondo de pouco dinheiro e apoio oficial, conseguiram derrubar um dos mais sangrentos e vis golpes de estado da história da América Latina.
A trama centra-se em René Saavedra (o sempre ótimo Gael García Bernal), publicitário jovem e talentoso, que é convidado para participar da organização da campanha pelo "Não" - que, vitoriosa, obrigaria o governo a clamar por novas eleições diretas. Filho de exilados políticos, o rapaz hesita em aceitar a proposta mesmo sendo simpático à causa, especialmente porque seu patrão, Lucho Guzmán (Alfredo Castro), é um dos diretores da campanha oposta. Sabendo que está mexendo com um vespeiro, porém, René aceita o desafio e passa a colaborar com a criação de uma série de pequenos filmes que celebram a alegria e a liberdade - em oposição ao que muitos participantes da campanha desejam, por considerar o assunto sério demais para ser tratado com leveza. Conforme o tempo vai passando e as diferenças criativas vão sendo superadas (ou não), o governo começa a perceber que talvez tenha sido uma péssima ideia dar voz a seus inimigos, principalmente em rede nacional.
Para dar mais realismo às cenas, Larraín, em seu projeto mais acessível ao grande público - depois de sucessos de crítica mais densos e herméticos, como "Tony Manero" (2008) e "Post Mortem" (2010) - utilizou-se de câmeras utilizadas no final da década de 80, criando sequências que parecem realmente ter saído do momento histórico que retrata. Intercalando cenas do filme com imagens das campanhas reais, o cineasta insere o espectador dentro da jornada de René e seus companheiros rumo à liberdade tão sonhada. Sem disfarçar sua simpatia pelo fim da ditadura, o roteiro questiona os argumentos daqueles favoráveis ao regime sem, no entanto, apelar para o didatismo ou o panfletário, acreditando plenamente na força da história e seus desdobramentos. Ao impor a narrativa sob a ótica de Saavedra - um cidadão comum, que viveu todos os problemas da ditadura sem estar nos bastidores do poder - Larraín enfatiza o óbvio: um regime ditatorial e opressor afeta a todos, por mais que se tenha a ilusão de liberdade e progresso. Quando decide comprar a briga pelo "Não", o protagonista compra também uma série de consequências que podem destruir sua carreira e sua família, e sua coragem é que lhe transforma em herói - ao menos um herói do dia-a-dia, capaz de, com pequenos gestos, transformar seu pedaço de mundo e aqueles a seu redor. Não deixa de ser surpreendente que o diretor desse conto de esperança seja Larraín, um cineasta pouco afeito a delicadezas e finais felizes.
Empolgante como um thriller político - mas sem o peso de um Costa-Gavras ou Oliver Stone - "No" é uma produção pequena em ambição mas grandiosa em resultados. A indicação ao Oscar foi apenas consequência de um trabalho cuidadoso, apaixonado e inteligente, capaz de conquistar até mesmo àqueles avessos a qualquer tipo de filme do gênero. Com um roteiro fluido e esperto, uma direção discreta que jamais comete excessos e um elenco impecável - liderado por um inspirado Gael García Bernal, perfeito em viver tipos comuns - é uma pequena obra-prima do cinema chileno, competente em todos os aspectos e fascinante como drama humano e social. Uma mostra e tanto do novo cinema latino-americano.
sábado
O MESMO AMOR, A MESMA CHUVA
O MESMO AMOR, A MESMA CHUVA (El mismo amor, la misma lluvia, 1998, JEMPSA/Warner Bros, 113min) Direção: Juan José Campanella. Roteiro: Juan José Campanella, Fernando Castets. Fotografia: Daniel Shulman. Montagem: Camilo Antolini. Música: Emilio Kauderer. Figurino: Cecilia Monti. Direção de arte: María Julia Bertotto. Produção executiva: Ricardo Freixa. Produção: Jorge Estrada Mora. Elenco: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Ulises Dumont, Eduardo Blanco, Graciela Tenenbaum. Estreia: 16/9/99
Quem ficou encantado com a química entre Ricardo Darín e Soledad Villamil em "O segredo dos seus olhos" - inesperado vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010 - pode não saber, mas seu par romântico central já havia provocado faíscas dez anos antes, em outro filme dirigido pelo mesmo Juan José Campanella. "O mesmo amor, a mesma chuva", lançado em 1998, pode não ter o mesmo nível de qualidade técnica e narrativa de sua obra mais premiada, mas demonstra, sem sombra de dúvida, que Campanella já tinha um extremo cuidado em construir personagens verossímeis e falar de assuntos extremamente humanos e de fácil identificação com o público. Com um roteiro simples e personagens cativantes, seu filme conta uma simples história de amor que atravessa duas décadas e que comenta, em suas entrelinhas, o momento político atravessado pela Argentina nos anos 80.
Contada em forma de flashback, a história de amor entre o jornalista e escritor Jorge Pellegrini (Ricardo Darín) e a bela Laura Ramallo (Soledad Villamil) começa em 1980, quando ele a vê em uma tela de cinema, em um filme inspirado em um de seus contos. Ambos estão frustrados com suas carreiras incipientes - ele é obrigado a escrever contos para uma revista que não dá valor a seu talento, frequentemente cortando suas histórias, e ela ganha a vida como garçonete enquanto espera o retorno de um namorado que não lhe dá notícias há meses. Depois de alguns meses de relutância, finalmente o romance engata, mas o casal não demora a perceber que, apesar da paixão, os problemas insistirão em encontrar brechas em seu relacionamento. Com o passar dos anos, a batalha de Jorge em finalmente ser reconhecido como escritor - sempre incentivado por Laura - vai se misturando às mudanças políticas do país, e o desgaste natural ameaça por diversas vezes a manutenção dos sentimentos entre eles.
Com um roteiro assumidamente simples e sem firulas, "O mesmo amor, a mesma chuva" conquista justamente por sua objetividade e capacidade de tornar interessante até mesmo os acontecimentos mais banais. Graças à química incandescente entre Ricardo Darín e Soledad Villamil, os diálogos co-escritos por Campanella e Fernando Castets soam como poesia, ainda que versem sobre problemas triviais e comuns à maioria dos casais da plateia. Ciúmes, monotonia e traições estão na receita criada pelo cineasta, que aproveita para criticar com contundência o período negro vivido pela Argentina durante sua ditadura militar, entre 1976 e 1983: através dos colegas de Jorge na revista, ele apresenta ao espectador uma visão inteligente dos desdobramentos do golpe militar, ressaltando as dificuldades dos jornalistas veteranos em encontrar trabalho e a ascensão de jovens despreparados profissionalmente mas dispostos a rezar pela cartilha do governo. Não é o tema central do filme, mas surge organicamente no decorrer da narrativa, graças à sensibilidade do roteiro e à leveza com mesmo os momentos mais pesados são tratados. Injetando poesia em diversas sequências, Campanella já mostrava sua capacidade de equilibrar ingredientes aparentemente tão distintos quanto política e romance. Sua direção é tão leve que chega a impedir que o filme seja maior - sua despretensão é, ao mesmo tempo, seu maior mérito e seu calcanhar de Aquiles.
Ao optar por um viés menos ambicioso de contar sua história, "O mesmo amor, a mesma chuva" deixa escapar a oportunidade de ser um filme ainda melhor. Se o roteiro aprofundasse mais os conflitos entre o casal protagonista talvez se tornasse um programa inesquecível. Da forma como está, é o belo e delicado estudo de uma relação, interpretado por grandes atores e comandado por um diretor de vasto talento, mas sem aquele algo mais que o faça sobressair no gênero. De qualquer maneira, é mais um exemplar extremamente digno do cinema argentino, que em poucos anos começaria a demonstrar toda a sua força em filmes de gêneros e enfoques bastante distintos. E além do mais, tem Ricardo Darín, um dos maiores atores de sua geração. Precisa mais?
Quem ficou encantado com a química entre Ricardo Darín e Soledad Villamil em "O segredo dos seus olhos" - inesperado vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010 - pode não saber, mas seu par romântico central já havia provocado faíscas dez anos antes, em outro filme dirigido pelo mesmo Juan José Campanella. "O mesmo amor, a mesma chuva", lançado em 1998, pode não ter o mesmo nível de qualidade técnica e narrativa de sua obra mais premiada, mas demonstra, sem sombra de dúvida, que Campanella já tinha um extremo cuidado em construir personagens verossímeis e falar de assuntos extremamente humanos e de fácil identificação com o público. Com um roteiro simples e personagens cativantes, seu filme conta uma simples história de amor que atravessa duas décadas e que comenta, em suas entrelinhas, o momento político atravessado pela Argentina nos anos 80.
Contada em forma de flashback, a história de amor entre o jornalista e escritor Jorge Pellegrini (Ricardo Darín) e a bela Laura Ramallo (Soledad Villamil) começa em 1980, quando ele a vê em uma tela de cinema, em um filme inspirado em um de seus contos. Ambos estão frustrados com suas carreiras incipientes - ele é obrigado a escrever contos para uma revista que não dá valor a seu talento, frequentemente cortando suas histórias, e ela ganha a vida como garçonete enquanto espera o retorno de um namorado que não lhe dá notícias há meses. Depois de alguns meses de relutância, finalmente o romance engata, mas o casal não demora a perceber que, apesar da paixão, os problemas insistirão em encontrar brechas em seu relacionamento. Com o passar dos anos, a batalha de Jorge em finalmente ser reconhecido como escritor - sempre incentivado por Laura - vai se misturando às mudanças políticas do país, e o desgaste natural ameaça por diversas vezes a manutenção dos sentimentos entre eles.
Com um roteiro assumidamente simples e sem firulas, "O mesmo amor, a mesma chuva" conquista justamente por sua objetividade e capacidade de tornar interessante até mesmo os acontecimentos mais banais. Graças à química incandescente entre Ricardo Darín e Soledad Villamil, os diálogos co-escritos por Campanella e Fernando Castets soam como poesia, ainda que versem sobre problemas triviais e comuns à maioria dos casais da plateia. Ciúmes, monotonia e traições estão na receita criada pelo cineasta, que aproveita para criticar com contundência o período negro vivido pela Argentina durante sua ditadura militar, entre 1976 e 1983: através dos colegas de Jorge na revista, ele apresenta ao espectador uma visão inteligente dos desdobramentos do golpe militar, ressaltando as dificuldades dos jornalistas veteranos em encontrar trabalho e a ascensão de jovens despreparados profissionalmente mas dispostos a rezar pela cartilha do governo. Não é o tema central do filme, mas surge organicamente no decorrer da narrativa, graças à sensibilidade do roteiro e à leveza com mesmo os momentos mais pesados são tratados. Injetando poesia em diversas sequências, Campanella já mostrava sua capacidade de equilibrar ingredientes aparentemente tão distintos quanto política e romance. Sua direção é tão leve que chega a impedir que o filme seja maior - sua despretensão é, ao mesmo tempo, seu maior mérito e seu calcanhar de Aquiles.
Ao optar por um viés menos ambicioso de contar sua história, "O mesmo amor, a mesma chuva" deixa escapar a oportunidade de ser um filme ainda melhor. Se o roteiro aprofundasse mais os conflitos entre o casal protagonista talvez se tornasse um programa inesquecível. Da forma como está, é o belo e delicado estudo de uma relação, interpretado por grandes atores e comandado por um diretor de vasto talento, mas sem aquele algo mais que o faça sobressair no gênero. De qualquer maneira, é mais um exemplar extremamente digno do cinema argentino, que em poucos anos começaria a demonstrar toda a sua força em filmes de gêneros e enfoques bastante distintos. E além do mais, tem Ricardo Darín, um dos maiores atores de sua geração. Precisa mais?
sexta-feira
A LUZ ENTRE OCEANOS
Que o cineasta Derek Cianfrance sabe como filmar o desespero humano diante da impotência causada pelo destino não é novidade para quem assistiu a seus dois filmes mais conhecidos, o devastador "Namorados para sempre" (2010) - que deu à Michelle Williams uma merecida indicação ao Oscar - e o surpreendente "O lugar onde tudo termina" (2012) - em que repetiu a parceria bem-sucedida com Ryan Gosling. Porém, ele jamais foi tão longe em esmiuçar o sofrimento alheio quanto em "A luz entre oceanos", sua adaptação do romance homônimo de M.L. Stedman, que estreou no Festival de Veneza de 2016 e que, apesar das inúmeras qualidades, passou em branco pelas cerimônias de premiação da temporada. Com o elenco liderado por dois nomes em alta na indústria - o casal também na vida real Michael Fassbender e Alicia Vikander (ela recém laureada com o Oscar de coadjuvante por "A garota dinamarquesa", de 2015), o filme de Cianfrance é um romance à moda antiga, repleto de reviravoltas melodramáticas e espaço para lágrimas constantes, mas dotado de uma sensibilidade rara que o impede de escorregar no piegas - especialmente graças às interpretações inspiradíssimas de seus atores centrais.
Demonstrando um senso de delicadeza poucas vezes visto em sua carreira de personagens fortes e quase brutais em suas atitudes, Michael Fassbender mostra mais uma vez porque é um dos melhores atores de sua geração, na pele de Tom Sherbourne, um homem tímido e reservado que aceita um emprego temporário para cuidar do farol de uma ilha localizada a quilômetros de distância de uma pequena cidade litorânea da Austrália, no início do século XX. Veterano da I Guerra Mundial, Tom vê na solidão da ilha um alento para sua personalidade introspectiva, mas quando ele conhece a jovem Isabel (Alicia Vikander), filha do homem que lhe ofereceu o emprego, não consegue evitar de sentir-se atraído por ela. Quando o trabalho se transforma de temporário em efetivo, ele a pede em casamento e os dois vão viver seu romance emoldurados pela belíssima costa australiana, tendo contato com o restante da civilização apenas quatro vezes por ano. A romântica história de amor entre os dois, porém, sofre um forte abalo quando Isabel perde o bebê que esperava já no final da gravidez. Algum tempo depois, novamente esperando um filho, ela sofre novo aborto espontâneo e entra em uma severa depressão. Sem saber o que fazer para ajudar a esposa, Tom acaba se deixando envolver pelas circunstâncias quando, pouco depois, encontra um bote à deriva, com um homem morto e um bebê vivo. Convencido pela mulher a assumir a criança como se fosse sua, Tom se permite manter a mentira para poupar Isabel de mais tristezas, mas quando eles retornam à cidade para o batizado, uma surpresa começa a martelar-lhe a consciência: ele encontra Hannah Roennfeldt (Rachel Weisz), a verdadeira mãe de sua filha.
A partir daí, "A luz entre oceanos" oscila entre um dramalhão romanesco sobre a culpa de Tom e suas tentativas de reparar seu erro, a busca de Hannah - filha de pai influente e com uma cota respeitável de dramas pessoais a resolver - pelo remetente de cartas anônimas falando de sua filha e os problemas de relacionamento entre o rapaz e Isabel, incapaz de lidar sequer com a possibilidade de perder novamente a criança que ama. Cianfrance, também autor do roteiro, mantém as três linhas narrativas sem perder o fio da meada, oferecendo ao público e aos atores personagens críveis e multidimensionais, repletos de qualidades heroicas e defeitos reprováveis. Tom, do alto de sua hombridade, luta para fazer o que é certo mesmo sabendo que isso pode destruir seu casamento e a mulher que ama - e que a honestidade, nesse caso, pode lhe levar à cadeia. Essa complexidade é tirada de letra por Michael Fassbender, um estupendo ator, capaz de injetar humanidade e verdade em cada papel. Alicia Vikander está no tom certo, mesmo que sua personagem pouco faça além de chorar e sofrer como uma heroína de folhetim. E Rachel Weisz, do momento em que entra em cena até suas sequências finais, segura com firmeza uma antagonista também provida de razões, ainda que possa ser vista com antipatia devido às ações que toma para recuperar sua filha. Centrado nesse trio de personagens fortes e em uma história emocionante, o filme consegue evitar a emoção fácil, equilibrando-se com maestria em um tom mais europeu de cinema, enfatizando os dramas com a trilha sonora impecável de Alexandre Desplat e o ritmo cadenciado como as marés.
Com valores de produção deslumbrantes, como a fotografia arrasadora de Adam Arkapaw e uma reconstituição de época eficiente e cuidadosa, "A luz entre oceanos" é basicamente um filme de personagens e seus dramas. Ciente de tais características - que se encaixam em sua maneira de fazer cinema - Derek Cianfrance as enfatiza de forma a hipnotizar a plateia com interpretações emotivas mas jamais exageradas. Tudo em seu filme é convincente, desde o amor nascente entre Tom e Isabel até seu final melancólico e realista - passando por todas as fases de seu trágico relacionamento - e isso se deve principalmente à química entre seus atores e à segurança que imprime em cada cena. Um diretor que acredita em atores e em sua capacidade de segurar uma história, ele transforma o que poderia ser um melodrama insustentável em uma bela e devastadora trama de amor e culpa. Um dos filmes subestimados da temporada 2016, que merece ser descoberto e louvado por suas inúmeras qualidades.
quinta-feira
LAURENCE ANYWAYS
LAURENCE ANYWAYS (Laurence anyways, 2012, Lyla Films/MK 2 Productions, 168min) Direção e roteiro: Xavier Dolan. Fotografia: Yves Bélanger. Montagem: Xavier Dolan. Música: Noia. Figurino: François Barbeau, Xavier Dolan. Direção de arte/cenários: Anne Pritchard/Louis Dandonneau, Pascale Deschênes. Produção executiva: Xavier Dolan, Gus Van Sant. Produção: Charles Gillibert, Nathanael Karmitz, Lyse Lafontaine. Elenco: Melvil Poupaud, Suzanne Clément, Nathalie Baye, Monica Chokri, Sophie Faucher, Emmanuel Schwartz. Estreia: 18/5/12 (Festival de Cannes)
O que fazer se, com apenas 22 anos de idade, você já realizou dois filmes elogiados pela crítica, premiados em festivais de prestígio como Cannes e é considerado um dos maiores talentos do cinema de seu país? Se seu nome for Xavier Dolan, a resposta óbvia é: fazer um filme ainda mais ambicioso, que trate de um assunto tabu e que enfatize ainda mais as características de sua filmografia até então. Com todos esses elementos, "Laurence anyways" faz todo o sentido dentro do universo artístico de Dolan, um menino-prodígio alçado à condição de gênio tão prematuramente que, como era de se esperar, arrumou tanto detratores ferozes quanto fãs devotos. E seu terceiro filme apenas serviu para fomentar ainda mais as discussões a respeito de seu talento: afinal, ele é um cineasta realmente dotado ou apenas um rapaz de sorte adotado por uma parcela da crítica sedenta por novidades? Para delírio de ambas as facções, "Laurence anyways" dá munição aos dois lados.
Como nos dois primeiros filmes de Dolan, em "Laurence anyways" há uma preocupação extrema com o visual: desde a fotografia deslumbrante de Yves Bélanger até os cenários e os figurinos (supervisionados pelo próprio diretor), tudo é cuidadosamente planejado para causar o máximo e impacto dramático e estético. Com uma profusão de belíssimas sequências em câmera lenta que enfatizam o universo particular de seus personagens - assim como seus estados de espírito - o cineasta cria metáforas visuais poéticas e inteligentes, mas em alguns momentos tropeça na redundância e em sua dificuldade de enxugar a narrativa, desnecessariamente longa a ponto de testar a paciência do espectador. No entanto, esse excesso de virtuosismo não impede a plateia de compreender e se envolver com o drama de seus protagonistas, complexos e dotados de dimensões raras no cinema contemporâneo, tão propenso a dedicar-se a personagens maniqueístas e simplórios. Ajuda muito, nesse ponto, que Dolan conte com dois ótimos atores principais, Melvin Poupaud (substituindo Louis Garrell, o escolhido inicial) e principalmente Suzanne Clément.
O roteiro de Dolan acompanha dez anos na vida de um casal atípico - ainda que apaixonado e em plena sintonia emocional e cultural. Laurence Alia (Melvin Poupaud em atuação brilhante em sua discrição) é um professor de literatura e Fred (Suzanne Clément) uma atriz tentando um lugar ao sol. Seu relacionamento franco e honesto sofre um duro golpe quando o rapaz resolve dar vazão a uma antiga necessidade de sua alma e passa a assumir uma identidade feminina. Apesar de chocada com a novidade, Fred tenta apoiar o marido, enfrentando o preconceito da sociedade e as próprias dúvidas em relação ao destino de seu relacionamento. Enquanto isso, Laurence gradualmente vai se tornando uma outra pessoa, dedicada à poesia e discriminada pela hipocrisia da sociedade em que antigamente vivia - o que inclui até mesmo sua mãe, Julienne (Nathalie Baye). Com o passar do tempo, Laurence e Fred chegam à conclusão de que a separação é o melhor caminho, mas o forte sentimento que nutrem um pelo outro os impede de cortar definitivamente o laço que os une - e nem mesmo novos relacionamentos parecem empecilhos para sua inegável química.
Fascinante em seu retrato de um personagem transsexual antes que o tema se tornasse comum até na televisão - em séries como "Transparent" e "Sense8" - "Laurence anyways" inova também em não discutir de forma definitiva a sexualidade de seu protagonista, preferindo deixar no ar a forma com que ele lida com o assunto. Laurence não é gay - ele é um homem com identidade feminina, uma discussão que assumiu relevância social enorme do lançamento do filme até hoje. O fato de vestir-se de mulher não significa que ele não tenha tesão em Fred, que, no entanto, sofre com a ambiguidade da situação mas mantém-se leal até onde seu coração permite. Todas as sequências que mostram suas tentativas de permanecer ao lado do homem que ama são de cortar o coração - a mostra definitiva de que Dolan, apesar da juventude e da tendência exibicionista, também sabe como falar à alma do espectador e criar personagens críveis e humanos. Afora isso, o final amargo/realista é de apertar o peito de todos aqueles que se deixarem cativar pela angústia e pela coragem dos protagonistas. Dolan não é um gênio - ainda tem muito o que aprender - mas tampouco é fogo de palha. Existe muito talento no rapaz e ele ainda vai dar muito o que falar.
O que fazer se, com apenas 22 anos de idade, você já realizou dois filmes elogiados pela crítica, premiados em festivais de prestígio como Cannes e é considerado um dos maiores talentos do cinema de seu país? Se seu nome for Xavier Dolan, a resposta óbvia é: fazer um filme ainda mais ambicioso, que trate de um assunto tabu e que enfatize ainda mais as características de sua filmografia até então. Com todos esses elementos, "Laurence anyways" faz todo o sentido dentro do universo artístico de Dolan, um menino-prodígio alçado à condição de gênio tão prematuramente que, como era de se esperar, arrumou tanto detratores ferozes quanto fãs devotos. E seu terceiro filme apenas serviu para fomentar ainda mais as discussões a respeito de seu talento: afinal, ele é um cineasta realmente dotado ou apenas um rapaz de sorte adotado por uma parcela da crítica sedenta por novidades? Para delírio de ambas as facções, "Laurence anyways" dá munição aos dois lados.
Como nos dois primeiros filmes de Dolan, em "Laurence anyways" há uma preocupação extrema com o visual: desde a fotografia deslumbrante de Yves Bélanger até os cenários e os figurinos (supervisionados pelo próprio diretor), tudo é cuidadosamente planejado para causar o máximo e impacto dramático e estético. Com uma profusão de belíssimas sequências em câmera lenta que enfatizam o universo particular de seus personagens - assim como seus estados de espírito - o cineasta cria metáforas visuais poéticas e inteligentes, mas em alguns momentos tropeça na redundância e em sua dificuldade de enxugar a narrativa, desnecessariamente longa a ponto de testar a paciência do espectador. No entanto, esse excesso de virtuosismo não impede a plateia de compreender e se envolver com o drama de seus protagonistas, complexos e dotados de dimensões raras no cinema contemporâneo, tão propenso a dedicar-se a personagens maniqueístas e simplórios. Ajuda muito, nesse ponto, que Dolan conte com dois ótimos atores principais, Melvin Poupaud (substituindo Louis Garrell, o escolhido inicial) e principalmente Suzanne Clément.
O roteiro de Dolan acompanha dez anos na vida de um casal atípico - ainda que apaixonado e em plena sintonia emocional e cultural. Laurence Alia (Melvin Poupaud em atuação brilhante em sua discrição) é um professor de literatura e Fred (Suzanne Clément) uma atriz tentando um lugar ao sol. Seu relacionamento franco e honesto sofre um duro golpe quando o rapaz resolve dar vazão a uma antiga necessidade de sua alma e passa a assumir uma identidade feminina. Apesar de chocada com a novidade, Fred tenta apoiar o marido, enfrentando o preconceito da sociedade e as próprias dúvidas em relação ao destino de seu relacionamento. Enquanto isso, Laurence gradualmente vai se tornando uma outra pessoa, dedicada à poesia e discriminada pela hipocrisia da sociedade em que antigamente vivia - o que inclui até mesmo sua mãe, Julienne (Nathalie Baye). Com o passar do tempo, Laurence e Fred chegam à conclusão de que a separação é o melhor caminho, mas o forte sentimento que nutrem um pelo outro os impede de cortar definitivamente o laço que os une - e nem mesmo novos relacionamentos parecem empecilhos para sua inegável química.
Fascinante em seu retrato de um personagem transsexual antes que o tema se tornasse comum até na televisão - em séries como "Transparent" e "Sense8" - "Laurence anyways" inova também em não discutir de forma definitiva a sexualidade de seu protagonista, preferindo deixar no ar a forma com que ele lida com o assunto. Laurence não é gay - ele é um homem com identidade feminina, uma discussão que assumiu relevância social enorme do lançamento do filme até hoje. O fato de vestir-se de mulher não significa que ele não tenha tesão em Fred, que, no entanto, sofre com a ambiguidade da situação mas mantém-se leal até onde seu coração permite. Todas as sequências que mostram suas tentativas de permanecer ao lado do homem que ama são de cortar o coração - a mostra definitiva de que Dolan, apesar da juventude e da tendência exibicionista, também sabe como falar à alma do espectador e criar personagens críveis e humanos. Afora isso, o final amargo/realista é de apertar o peito de todos aqueles que se deixarem cativar pela angústia e pela coragem dos protagonistas. Dolan não é um gênio - ainda tem muito o que aprender - mas tampouco é fogo de palha. Existe muito talento no rapaz e ele ainda vai dar muito o que falar.
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