terça-feira

SPOTLIGHT: SEGREDOS REVELADOS

SPOTLIGHT: SEGREDOS REVELADOS (Spotlight, 2015, Participant Media/First Look Media/Anonymous Content, 128min) Direção: Tom McCarthy. Roteiro: Tom McCarthy, Josh Singer. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: Tom McArdle. Música: Howard Shore. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Stephen H. Carter/Vanessa Knoll, Shane Vieau. Produção executiva: Michael Bederman, Bard Dorros, Jonathan King, Peter Lawson, Xavier Marchand, Pierre Omidyar, Tom Ortenberg, Josh Singer, Jeff Skoll. Produção: Blye Pagon Faust, Steve Golin, Nicole Rocklin, Michael Sugar. Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery, Stanley Tucci, Billy Crudup, Brian D'Arcy James. Estreia: 03/9/15 (Festival de Veneza)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Tom McCarthy), Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Atriz Coadjuvante (Rachel McAdams), Roteiro Original, Montagem
Vencedor de 2 Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original

O jornalismo é uma das carreiras mais retratadas por Hollywood, e já inspirou clássicos absolutos, como "A montanha dos sete abutres" (51), de Billy Wilder, "Rede de intrigas" (76), de Sidney Lumet, e "Todos os homens do presidente" (76), de Alan J. Pakula. Não por acaso, esses três exemplos da relação entre o cinema e a imprensa foram algumas das inspirações do diretor Tom McCarthy na realização de seu "Spotlight: segredos revelados", um dos mais contundentes e sérios ataques já realizados pela sétima arte contra a instituição da Igreja católica. Uma das mais premiadas produções da temporada 2015 - incluindo o cobiçado Oscar de melhor filme - a obra de McCarthy (também um ator e com o delicado "O visitante", de 2008, no currículo) é um soco no estômago do espectador, contando uma história que vai ao âmago de um dos maiores escândalos religiosos do século XX, mas em momento algum apela para o sensacionalismo. Narrado em um acertado tom semi-documental que evita qualquer tipo de espetacularização da dor, é o sóbrio e seco retrato de uma investigação jornalística responsável e relevante, que ganhou o Pulitzer em 2003 e revelou, sem medo de represálias, um esquema de acobertamento de centenas de crimes de abuso sexual infantil cometidos por padres durante décadas - e que mostrou-se de dimensão internacional quando atingiu também diversos outros países, incluindo o Brasil.

Talvez o principal acerto do roteiro, escrito por Josh Singer e o próprio diretor, tenha sido o de ater-se fielmente aos fatos, resistindo à tentação de eleger um protagonista com ares de herói para buscar a adesão da plateia. Confiando na força de sua história, McCarthy se propõe unicamente a explorar os meandros da investigação liderada pelo veterano Walter Robinson (Michael Keaton em grande fase na carreira): apoiado e incentivado pelo novo editor, Mark Baron (Liev Schreiber), ele reúne seu grupo de repórteres para aprofundar o caso de uma série de estupros cometidos por padres e tratados com condescendência por bispos e cardeais na região de Boston. Dedicados e inteligentes, os jornalistas partem, então, em busca da verdade, mesmo que isso possa abalar uma instituição respeitada e secular. Sasha Pfeiffer (Rachel McAdams), por exemplo, frequenta a missa ao lado da avó e compreende as implicações da publicação da matéria. O eficiente Mike Rezendes (Mark Ruffalo) é incansável em sua batalha pelas informações do advogado Mitchell Garabedian (Stanley Tucci). E Matt Carroll (Brian D'Arcy James), pai de família, sente-se ameaçado pela presença de possíveis abusadores próximo a seus filhos pequenos.


Desviando a câmera sempre que o drama ameaça ultrapassar os limites do bom-gosto e da discrição, Tom McCarthy aproxima o espectador através mais do cérebro do que do coração - ainda que não evite que a emoção tome conta em alguns momentos realmente tocantes. A edição precisa de Tom McArdle serve como sinalizador de tal sutileza: apesar dos diálogos fortes, "Spotlight" prefere o foco mais humanista da questão, apontando seu olhar para os braços marcados pelas seringas que uma das vítimas apresenta sem alarde, ou para a tensão constante de outra, que transfere para a comida uma vida inteira de depressão e angústia. A câmera quase voyeur chega a surpreender personagem e público quando testemunha um dos acusados, um aparentemente inofensivo senhor religioso, assumindo seus crimes e afirmando, tranquilamente, que também já foi estuprado. O roteiro de "Spotlight" tenta não sublinhar o que já é suficientemente brutal, e essa honestidade é um de seus maiores acertos: não há aquela trilha sonora crescente quando uma revelação é feita, não há lágrimas rolando diante de lembranças doloridas, não há heroísmo individual. Tudo bem que algumas cenas parecem feitas para apresentação no Oscar (como um discurso de Rezendes pertinho do final), mas são pecados insignificantes diante da grandeza de "Spotlight" como cinema.

Criticado por alguns justamente por seu estilo quase minimalista de contar uma história tão bombástica, Tom McCarthy fez uma sucessão de escolhas brilhantes para seu filme. É discreto, é honesto e é sério, o que falta para muitos filmes que se pretendem relevantes. Tem um elenco coeso e homogêneo (vencedor do prêmio máximo do Sindicato de Atores). E jamais tenta chamar mais a atenção do que a história que conta: ao eleger sua trama como principal elemento em uma época em que grandes orçamentos e personagens já consagrados formam o menu básico da programação, o diretor/ator/roteirista já merece ser aplaudido, e sua indicação ao Oscar ao lado de Alejandro Gonzalez Iñarrítu (por seu belo mas exibicionista "O regresso") demonstra que, mesmo quando cai na armadilha do previsível, a Academia sabe reconhecer quando alguém tenta ser verdadeiro e original. Uma pena que, diante das estatuetas técnicas de "Mad Max: Estrada da Fúria", "Spotlight" tenha ficado com apenas dois prêmios (filme e roteiro). Merecia mais.

segunda-feira

SICÁRIO: TERRA DE NINGUÉM

SICÁRIO: TERRA DE NINGUÉM (Sicario, 2015, Black Label Media/Lionsgate, 121min) Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Taylor Sheridan. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Joe Walker. Música: Johann Johansson. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Jan Pascale. Produção executiva: Erica Lee, Ellen H. Schwartz, John H. Starke. Produção: Basil Iwanyk, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill, Molly Smith. Elenco: Emily Blunt, Benicio Del Toro, Josh Brolin, Victor Garber, Jon Bernthal, Daniel Kaluuya, Jeffrey Donovan. Estreia: 19/5/15 (Festival de Cannes)

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original, Edição de Som

O cineasta Denis Villeneuve surpreendeu muita gente quando, depois de ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro pelo devastador "Incêndios" (2011) e realizar dois filmes estrelados por Jake Gyllenhaal - o suspense "Os suspeitos" (2013) e o estranho "O homem duplicado" (2013), baseado no romance de José Saramago - decidiu dar sua contribuição à polêmica questão do tráfico de drogas entre EUA e México. Optando por uma narrativa seca e semi-documental, ele explora o roteiro do também ator Taylor Sheridan como mapa para um mundo violento e com regras próprias, sem espaço para sentimentalismos ou delicadezas. Fotografado em tons secos por Roger Deakins (que arrebatou uma indicação ao Oscar por seu trabalho) e editado com precisão cirúrgica, "Sicário: terra de ninguém" estreou no Festival de Cannes 2015 e não demorou em coletar elogios da crítica mundo afora. Mesmo com uma bilheteria tímida e o fracasso em conquistar estatuetas na temporada de premiações, Villeneuve marcou mais um gol em sua carreira ainda impecável, com um thriller impactante e relevante que prende o espectador na poltrona do início ao fim sem apelar para a violência gratuita.

O tom sério de "Sicário" já fica claro em sua sequência de abertura, onde um grupo de agentes do FBI especializados em sequestros - e liderado pela corajosa Kate Macer (Emily Blunt) - invade uma casa no estado do Arizona e descobre dezenas de corpos escondidos nas paredes, em estado de decomposição. A missão acaba em tragédia, mas Macer chama a atenção de Matt Graver (Josh Brolin), que a convida a juntar-se a seu time na caça por Manuel Diaz (Bernardo P. Sacarino), líder de um cartel de tráfico de drogas - e dono da propriedade onde ela localizou os cadáveres. Com a promessa de colocar na cadeia o responsável pelos crimes, a jovem agente aceita o desafio de unir-se à equipe de Graver, que inclui o misterioso policial federal Alejandro (Benicio Del Toro), um mexicano calado e cujos métodos pouco ortodoxos irão chocar-se com seu rígido código de conduta. Conforme vai se envolvendo mais e mais com a incansável busca de seus colegas, porém, Macer descobre que está em um terreno minado, onde as leis são mutáveis e tudo que aprendeu em sua carreira até então pode ser posto de lado em situações consideradas extremas.


Depois de dois filmes contando com protagonistas masculinos, em "Sicário" Denis Villeneuve volta a investir na força da mulher, elegendo como personagem principal alguém com cujos valores morais e éticos a plateia pode facilmente se identificar. Kate Macer é uma agente do FBI, acostumada com a violência e a criminalidade, mas ainda mantém dentro de si uma rigorosa ordem moral que a impede de compactuar com as barbaridades que testemunha conforme vai avançando na chaga social que é o tráfico de drogas na fronteira EUA/México. Ao lado do colega Reggie (Daniel Kaluuya), ela começa a perder uma espécie de inocência que ainda lhe resta ao ser obrigada a compactuar com atitudes jamais pensadas e torna-se, ao mesmo tempo, caça e caçadora, virando alvo dos criminosos a que persegue e até mesmo de alguns colegas que veem nela uma ameaça à continuidade da operação. É aí que entra em cena o silencioso Alejandro, um homem com um passado dramático a ponto de deixar público e protagonista em constante dúvida sobre suas reais motivações. Fazendo alterações fundamentais no roteiro original de Taylor Sheridan - que explicitava as intenções do personagem logo de cara - o ator Benício Del Toro transforma Alejandro em um enigma até o terço final, criando um suspense que dá ao filme uma textura a mais e justifica sua indicação ao BAFTA de ator coadjuvante (assim como diversas outras homenagens dos críticos). Juntos em cena, Del Toro e Emily Blunt - que já haviam estrelado "O lobisomem" (2010) - são fascinantes e elevam "Sicário" a um nível bem acima do tradicional thriller: o filme de Villeneuve é, também, um poderoso drama sobre escolhas e a impotência diante de algo maior que a própria lei.

Um cineasta preocupado com a complexidade dos personagens que retrata, Denis Villeneuve encontra, em "Sicário", uma excelente plataforma para demonstrar suas qualidades como diretor. Não apenas apresenta um domínio técnico invejável - com fotografia, edição e desenho de som espetaculares - como também explora com inteligência o grande talento de seus atores. Como em seus trabalhos anteriores, Villeneuve oferece ao público um filme que fica na memória mesmo após os créditos finais, graças a um roteiro forte e um cuidadoso trabalho de direção e interpretação. É uma produção que tem muito mais a dizer do que simplesmente entreter o público por duas horas: é um belo exemplo de como fazer um filme de ação inteligente e cerebral mesmo sem tornar-se chato e enfadonho. Bravo, Villeneuve!

domingo

RUTH & ALEX

RUTH & ALEX (5 flights up, 2014, Lascaux Films/Latitude Productions, 88min) Direção: Richard Loncraine. Roteiro: Charlie Peters, romance de Jill Ciment. Fotografia: Jonathan Freeman. Música: David Newman. Figurino: Arjun Bhasin. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Alexandra Mazur. Produção executiva: Gary Ellis, Bob Gass, Judy Burch Gass, Sam Hoffman, Richard Toussaint. Produção: Curtis Burch, Morgan Freeman, Lori McCreary, Tracy Mercer, Charlie Peters. Elenco: Morgan Freeman, Diane Keaton, Cynthia Nixon, Carrie Preston, Claire van der Boom, Korey Jackson. Estreia: 05/9/14 (Festival de Toronto)

Alguns atores tem um carisma e uma personalidade tão fortes que basta sua presença em cena para justificar o interesse por um filme. Morgan Freeman é um desses atores. Diane Keaton idem. Capazes de dar dignidade a filmes como "O apanhador de sonhos" (no caso dele) e "O casamento do ano" (coestrelado por ela), eles podem não salvar filmes ruins do desastre, mas ao menos são capazes de garantir um mínimo de qualidade dramática a qualquer um deles. Se não fosse por sua presença, por exemplo, o razoável  "Ruth & Alex" seria apenas mais um drama simpático destinado a preencher a programação da tv a cabo. Sem uma trama forte onde se sustentar e apostando todas as suas fichas no talento da dupla de protagonistas, o cineasta Richard Loncraine - cujo trabalho de maior destaque até então era a adaptação de "Ricardo III", de Shakespeare, estrelado por Ian McKellen em 1995 - entrega uma sessão da tarde inofensiva, mas por isso mesmo facilmente esquecível.

Toda a trama do filme gira em torno do casal de protagonistas e sua tentativa de encontrar um comprador para o apartamento do Brooklin em que moram há quarenta anos. Mesmo apaixonados pela vizinhança e dividindo memórias afetivas com o lugar, eles sabem que morar em um prédio sem elevador e em um bairro cuja segurança não vive dias de glória não será uma opção viável em poucos anos. Com a ajuda da sobrinha de Ruth, Lily (Cynthia Nixon, da série "Sex and the city"), eles abrem a casa para a visitação de interessados no imóvel, enquanto também procuram outro lugar para onde transferirem sua vida. Nesse meio-tempo, travam contato com uma série de coadjuvantes nem sempre interessantes e sofrem com a possibilidade de perderem também a pequena Dorothy, sua cachorrinha de estimação, que sofre de um problema na coluna.


Adaptado de um romance escrito por Jill Ciment, "Ruth & Alex" fala de inúmeras questões relevantes à sociedade atual, mas não chega a aprofundar-se em nenhuma delas. Pelo roteiro de Charlie Peters desfilam diálogos sobre a forma como a juventude percebe a terceira idade, sobre as mudanças na concepção de arte, sobre o preconceito contra imigrantes (em uma subtrama inteligente sobre um rapaz caçado como terrorista na vizinhança do prédio dos protagonistas), sobre especulação imobiliária e até sobre racismo (quando flashbacks iluminam o início da história de amor do casal central, em pleno começo dos anos 70). O problema é que, por não querer pesar a mão, Peters deixa tudo tão leve que impede o espectador de realmente se importar com os personagens e seus dramas. É difícil se emocionar com as angústias de pessoas cuja maior angústia é sair de um apartamento de quase um milhão de dólares para comprar outro no mesmo valor - e para isso nem mesmo a competência de Freeman e Keaton é remédio. Para sorte do público, porém, eles estão luminosos até quando o roteiro fraquinho não lhes dá muito material para isso.

Um dos produtores do filme, Morgan Freeman surpreende ao viver um personagem radicalmente diferente dos homens poderosos e/ou misteriosos a que se acostumou a interpretar em sua longa carreira: na pele de Alex Carver, ele demonstra um lado doce e carinhoso que se revela em suas amenas discussões com a apaixonada esposa e com os diálogos que trava com a pequena filha de uma das interessadas em seu apartamento - que encontra também em outras ocasiões no decorrer da narrativa. Diane Keaton, por sua vez, esbanja a simpatia de sempre, com seu sorriso aberto e estilo despojado que lhe renderam fama - e o Oscar de melhor atriz, por "Noivo neurótico, noiva nervosa" (77). São os dois, exclusivamente, os motivos para dar uma espiada em "Ruth & Alex". Não muda a vida de ninguém, mas é um entretenimento agradável e rápido para uma tarde de chuva.

sábado

ROCK'N'ROLLA: A GRANDE ROUBADA

ROCK'N'ROLLA: A GRANDE ROUBADA (RocknRolla, 2008, Warner Bros/Dark Castle Entertainment, 114min) Direção e roteiro: Guy Ritchie. Fotografia: David Higgs. Montagem: James Herbert. Música: Steve Isles. Figurino: Suzie Harman. Direção de arte/cenários: Richard Bridgland/Debbie Moles. Produção executiva: Navid McIlhargey, Steve Richards. Produção: Steve Clark-Hall, Susan Downey, Guy Ritchie, Joel Silver. Elenco: Gerard Butler, Tom Wilkinson, Thandie Newton, Idris Elba, Tom Hardy, Mark Strong, Karel Roden, Tobby Kebbell, Ludacris, Jimi Mistry. Estreia: 04/9/98 (Festival de Toronto)

Um grupo de marginais pés-de-chinelo. Um mafioso que manda e desmanda no mercado imobiliário de Londres. Um roqueiro viciado em drogas que odeia o padrasto. Uma contadora sexy disposta a qualquer coisa para subir na vida. Um empresário russo com planos de construir um estádio na capital inglesa. Um capanga leal e dedicado. E uma dupla de empresários musicais tentando evitar o fechamento de suas casas noturnas. Com esses personagens falastrões, excêntricos e propensos a equilibrar o cérebro e as armas, o cineasta Guy Ritchie voltou às graças da crítica, depois do fracasso sucessivo de "Destino insólito", de 2002 (estrelado pela então esposa Madonna) e "Revólver", de 2005, que tentou arrancar uma atuação decente de Jason Statham. "Rock'n'Rolla: A grande roubada" não apenas lhe devolveu o prestígio perdido como lhe deu cacife suficiente para comandar uma nova versão de "Sherlock Holmes" (2009), com um orçamento milionário e grandes astros - Robert Downey Jr. e Jude Law - no elenco. Voltando a explorar o submundo criminoso londrino que lhe deu fama em seu filme de estreia, "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes" (99), Ritchie atinge um equilíbrio admirável entre diversos gêneros (ação, policial, comédia) e confirma um estilo marcante de fazer cinema, influenciado pelo tom quase histérico de Quentin Tarantino mas dono de identidade própria.

Como é normal em sua filmografia, a trama de "Rock'n'Rolla" é complexa e com uma profusão de personagens que exige da plateia atenção absoluta: o centro do enredo é Lenny Cole (Tom Wilkinson), que fez fortuna intermediando negociações, muitas vezes de forma ilegal. Protetor de um grupo de bandidos intitulado Quadrilha Selvagem - liderada pelo carismático One Two (Gérard Butler) - e padrasto do roqueiro Johnny Quid (Toby Kebbell), Cole resolve ajudar o russo Uri Omovich (Karel Roden) a construir um estádio de futebol, utilizando, para isso, a influência de um vereador (Jimi Mistry) também chegado a uma propina. A partir daí, dois fatos independentes acabam por unir todos os personagens: o desaparecimento de um valioso quadro - emprestado por Uri à Cole e furtado por seu enteado - e o roubo dos sete milhões de euros destinados ao pagamento da construção do estádio. O roubo do dinheiro é responsabilidade de One Two e seus dois colegas mais fiéis - Mumbles (Idris Elba) e Bob (Tom Hardy) - e tem a cumplicidade da ambiciosa Stella (Thandie Newton), contadora e amante de Uri que acaba se deixando seduzir por One Two. Em volta de todas essas questões, existe também a dúvida dos integrantes da Quadrilha Selvagem a respeito de um informante que vem jogando seus integrantes na cadeia.


Recheando seu roteiro com diálogos espirituosos e situações surreais, Guy Ritchie oferece a seu público um desfile de sequências primorosas, editadas com inteligência e dotadas de um senso de humor admirável. A química entre Gérard Butler e Thandie Newton é explosiva, e a cena em que eles combinam seu segundo golpe em Uri é uma pérola de criatividade e tensão sexual. Tom Wilkinson mais uma vez demonstra porque é escolha certeira quando se trata de interpretar personagens arrogantes, e Tom Hardy rouba a cena na pele de um gângster homossexual apaixonado pelo melhor amigo e disposto a seduzir um advogado para descobrir quem lhe mandou para a cadeia - seu desempenho é tão incrível que foi a partir dele que Hardy cavou seu caminho em direção à glória do cinemão, sendo dirigido por Christopher Nolan em "A origem" (2010) e "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge" (12). Dono de um humor singular, Ritchie não hesita em colocar na boca de seus personagens falas quase constrangedoras, mas que soam verossímeis e imprescindíveis ao desenvolvimento da complexa trama, que corre diante dos olhos do espectador com um ritmo alucinante e com um visual caprichado, que mostra sua evolução como cineasta. Brincando com os clichês do gênero ao mesmo tempo em que os reverencia, ele consegue resultado superior a outro de seus bem-sucedidos produtos, "Snatch: porcos e diamantes" (2001), estrelado por Brad Pitt e Benicio Del Toro.

"Rock'n'Rolla" é entretenimento de primeira, mas é bom que se avise que talvez sua trama exale testosterona demais para que seja apreciado pelo público feminino com o mesmo ardor do masculino. As piadas a um passo do preconceito, a grosseria incurável dos personagens e o excesso de palavrões podem afastar aos mais sensíveis, mas no fundo o filme de Guy Ritchie é uma grande brincadeira com os elementos do cinema policial - em especial dos anos 70. Extremamente à vontade como galã bagaceiro, Gérard Butler está em um de seus melhores desempenhos e sublinha com ironia e deboche todas as nuances da trama - que apesar da promessa da última cena, ainda não rendeu uma continuação. Infelizmente.

sexta-feira

O PRIMEIRO QUE DISSE

O PRIMEIRO QUE DISSE (Mine vaganti, 2010, Fandango/Rai Cinema, 110min) Direção: Ferzan Ozpetek. Roteiro: Ferzan Ozpetek, Ivan Cotroneo. Fotografia: Maurizio Calvesi. Montagem: Patrizio Marone. Música: Pasquale Catalano. Figurino: Alessandro Lai. Direção de arte/cenários: Andrea Crisanti/Lily Pungitore. Produção: Domenico Procacci. Elenco: Riccardo Scamarcio, Nicole Gramaudo, Alessandro Preziosi, Ennio Fantastichini, Lunetta Savino. Estreia: 13/02/10 (Festival de Berlim)

Quem já assistiu ao belo "Um amor quase perfeito" (2001) - em que a médica interpretada por Margherita Buy descobre a vida dupla do marido depois que ele morre atropelado - e ao melancólico "A janela da frente" (2003) - que mostra Giovanna Mezzogiorno e seu charmoso vizinho Raul Bova investigando o passado de um desmemoriado senhor de idade encontrado vagando pelas ruas de Roma - sabem que o cineasta Ferzan Ozpetek sempre encontra um jeito de retratar de forma poética e respeitosa a homossexualidade, além de colocá-la frequentemente como ponto de suma importância em seus roteiros. Às vezes mais discretamente e em outras explicitamente, o assunto é peça fundamental de suas narrativas, e em "O primeiro que disse" é o ponto de partida para uma história que fala de hipocrisia, preconceito e da necessidade de se lutar pelos próprios sonhos. Um tanto melancólico mas com pitadas saudáveis de humor, seu filme é um libelo a favor da liberdade individual - ainda que para conquistá-la seja obrigatório romper padrões e expectativas alheias.

Tommaso Cantone (Riccardo Scamarcio) é o filho caçula de uma tradicional família proprietária de uma bem-sucedida fábrica de massas no interior da Itália. Vivendo há anos em Roma, ele sente-se livre para ir contra todos os planos dos pais, fazendo o curso de Letras, tentando a carreira de escritor e vivendo um romance com Marco (Carmine Recano). Em uma visita à casa paterna, ele decide contar a verdade sobre sua vida na capital e, assim, fugir da responsabilidade de comandar uma empresa com a qual não tem a menor afinidade. Para sua surpresa, porém, seu irmão mais velho, Antonio (Alessandro Preziosi) sai do armário antes dele, confessando seu amor por um antigo empregado da fábrica. Com o irmão expulso de casa pelo pai - que tem um enfarte logo em seguida - Tommaso se vê impedido de dar seguimento a seus planos e é obrigado a continuar morando na cidade e sendo a ligação entre a família e a empresa. Suas tentativas de esconder sua vida alternativa sofrem um duro golpe, no entanto, quando Marco resolve visitá-lo em busca de notícias - e chega acompanhado de um grupo de amigos nada discretos.


Assim como em "Um amor quase perfeito", Ozepetek cria, em seu filme, uma galeria de personagens coadjuvantes que emolduram a trama principal com graça e inteligência. Enquanto no primeiro filme eram os amigos de Michele (Stefano Accorsi) - um grupo de homossexuais que se tratavam como uma família alternativa - que roubavam a cena, em "O primeiro que disse" essa missão cabe aos familiares de Tommaso, um conjunto de personalidades que varia do patético (como a tia solteirona que alega ter ladrões invadindo constantemente seu quarto) ao hipócrita (o pai preconceituoso e cioso dos valores familiares mas que tem uma amante à vista de todos). Sob o olhar prescrutador da matriarca da família (Ilaria Occhini) - cujo passado tem um drama que a faz perceber o mundo com um ponto de vista mais benevolente e carinhoso - todo o clã vive sua rotina tentando encontrar maneiras de lidar com seus próprios problemas, retratados com sensibilidade e humor. Evitando a todo custo pesar a mão seja na questão da sexualidade ou na dos preconceitos arraigados do interior da Itália - onde meninas são obrigadas desde crianças a se comportarem como pequenas damas e a fofoca é quase um esporte nacional - o cineasta (um turco que vive na Itália desde os anos 70) trata seus personagens como um pai compreensivo, nem sempre concordando com eles, mas respeitando seus pontos de vista por piores que possam ser. Essa generosidade é uma das maiores qualidades de seu texto, que, além disso, injeta um bem-vindo senso de humor na hora mais do que apropriada.

Justamente quando "O primeiro que disse" está se levando a sério demais e as dúvidas de Tommaso a respeito de suas decisões estão a ponto de tornar o filme um dramalhão, Ozpetek surge com a brilhante ideia de jogar um bocado de sol na trama. A chegada de Marco e seus amigos - três gays espalhafatosos tentando disfarçar sua sexualidade para não chocar a conservadora família Cantone - dá um choque de humor na trama e a direciona para sua reta final, quando decisões terão de ser tomadas e/ou repensadas. Sem deixar seu roteiro cair na mesmice ou no didatismo, o cineasta encerra sua trama com uma bela e onírica sequência que mais faz pensar do que determina desfechos. Pode não ser uma opção que agrade a todos, mas ao menos é corajosa e coerente com a proposta de sacudir o status quo. "O primeiro que disse" é um filme que não apenas entretém: como toda a filmografia de Ferzan Ozpetek, é uma obra aberta a discussões que em momento algum perde sua qualidade de entretenimento. Louvável!

quinta-feira

O PRESENTE

O PRESENTE (The gift, 2015, Blumhouse Productions, 108min) Direção e roteiro: Joel Edgerton. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Luke Doolan. Música: Danny Bensi, Saunder Jurriaans, Figurino: Terry Anderson. Direção de arte/cenários: Richard Sherman/Matthew Flood Ferguson. Produção executiva: Jeanette Brill, Luc Etienne, Couper Samuelson, Donald Tang. Produção: Jason Blum, Joel Edgerton, Rebecca Yeldham. Elenco: Jason Bateman, Rebecca Hall, Joel Edgerton, Allison Tolman, Tim Griffin, Busy Phillips. Estreia: 30/7/15

Mais conhecido como o irmão de Tom Hardy - professor e lutador nas horas vagas - em "Guerreiro" (2011), o rival de Leonardo DiCaprio em "O grande Gatsby" (2013) e Ramsés na versão de Ridley Scott da história de Moisés em "Êxodo: Deuses e Reis" (2015), o australiano Joel Edgerton surpreendeu em sua estreia atrás das câmeras. Nadando contra a corrente de atores tornado diretores em superproduções mirando o Oscar, ele preferiu contar uma história simples e minimalista em um gênero considerado pouco nobre pela crítica: o suspense. Longe da pressão de um grande estúdio e sem pretensão de criar uma obra-prima, ele lançou "O presente", uma gratíssima surpresa aos fãs de thrillers psicológicos que substituem o sangue pela tensão. Sem apelar para sustos constantes (conta-se uns dois, em momentos apropriados), o ator/diretor/roteirista/produtor demonstra total domínio das ferramentas do gênero, oferecendo muito mais à plateia do que se poderia imaginar vindo de um estreante.

Ciente das dificuldades e armadilhas de atuar como diretor e ator no mesmo filme, Edgerton fez a opção correta em deixar o protagonista nas mãos de Jason Bateman, surpreeendente em um papel dramático. Bateman vive Simon Callum, um bem-sucedido executivo que chega à Califórnia junto com a esposa, Robyn (Rebecca Hall), com a intenção de conquistar uma sonhada promoção e para construir uma família - algo que vem sendo extremamente difícil para o casal. Assim que chegam em sua nova cidade (onde Simon morou até a juventude, quando mudou-se para a universidade em Chicago) eles encontram com Gordon Mosely (Edgerton, em um papel que não lhe exigiu mais de duas semanas de filmagens). Amigo de infância de Simon, Gordon é um homem estranho, reservado e aparentemente solitário, mas que se mostra disponível e generoso na adaptação do amigo e da esposa na nova realidade. Sua presença constante começa a parecer ameaçadora quando ele descobre ser alvo de uma espécie de deboche e desprezo por parte de Simon, e aos poucos Robyn passa a desconfiar de que algo mais grave se esconde por trás de sua gentileza. Investigando por conta própria, ela descobre um passado que explicará muitas das atitudes do novo amigo - e do marido.


Com uma trama envolvente, que vai sendo revelada aos poucos, conforme Robyn vai chegando à verdade sobre quem é o real vilão da história - e as cartas se embaralham constantemente em suas mãos - o roteiro de "O presente" vai conduzindo o espectador por um exercício de constante aflição, uma vez que, desde as primeiras cenas, existe uma atmosfera sombria que contrasta com a delicadeza de Gordon e a felicidade conjugal de Simon e Robyn. Um diretor inteligente e sensível, Edgerton jamais se deixa optar pelo caminho mais fácil, obrigando o público a compreender junto com os personagens todos os desdobramentos do enredo, que vão muito além de um joguinho de gato e rato. Com os dois pés fincados na realidade, o filme torna-se mais assustador na medida em que todas as ações cometidas por seus protagonistas sofrem reações cada vez mais perigosas - e sempre bastante
verossímeis. Edgerton constrói um Gordon Mosely desconfortável, sinistramente tranquilo e generoso, com requintes de um grande ator físico: de lentes de contato castanhas que disfarçam seus olhos azuis e o cabelo tingido de um tom mais escuro que seu louro natural, ele impressiona pela sinceridade que imprime no personagem, enquanto Jason Bateman, conhecido por seu trabalho em comédias, funciona à perfeição como um homem aparentemente comum que vê seus esqueletos saírem do armário justamente quando deveriam ficar escondidos. Rebecca Hall às vezes exagera na atuação, mas está tão bem amparada pelos colegas que seus escorregões são facilmente perdoáveis.

Dirigido por destreza, com sua câmera invadindo discretamente a bela casa do casal Callum com um voyeur, "O presente" satisfaz justamente por não prometer mais do que pode cumprir. Joel Edgerton entrega, em sua estreia, exatamente o que se poderia esperar de um suspense de carpintaria dramática simples mas eficiente: uma boa dose de tensão, personagens bem construídos, alguns sustos nos momentos certos e um desfecho angustiante, que reflete a extensão que os traumas do passado deixam em seres mais sensíveis. Só por fugir do batido clímax de confronto armado entre os dois protagonistas já merece aplausos entusiasmados, mas é muito mais do que isso. "O presente" é um pequeno grande filme que aponta para voos maiores na carreira de Edgerton como diretor. Bravo!

quarta-feira

PERDIDO EM MARTE

PERDIDO EM MARTE (The martian, 2015, 20th Century Fox, 144min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Drew Goddard, romance de Andy Weir. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Pietro Scalia. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Celia Bobak, Zoltán Horváth. Produção executiva: Drew Goddard. Produção: Mark Huffman, Simon Kinberg, Michael Schaefer, Ridley Scott, Aditya Sood. Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Kristen Wiig, Jeff Daniels, Michael Peña, Sean Bean, Kate Mara, Chiwetel Ejiofor, Sebastian Stan, Aksel Hennie. Estreia: 11/9/15 (Festival de Toronto)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Matt Damon), Roteiro Adaptado, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Ator Comédia/Musical (Matt Damon) 

Uma das maiores polêmicas na ocasião de entrega dos Golden Globes 2016 ocorreu com a vitória dupla de "Perdido em Marte", de Ridley Scott, premiado como melhor filme e ator (Matt Damon) na subcategoria comédia ou musical. Não que o filme não tivesse méritos para isso, já que é um dos melhores trabalhos do cineasta inglês desde o megasucesso "Gladiador" (2000): o problema é que a adaptação do romance de Andy Weir NÃO é uma comédia, apesar de alguns momentos menos pesados e um certo tom de ironia no protagonista. Uma ficção científica à moda antiga, mas com todo o requinte visual que a tecnologia moderna pode oferecer, "Perdido em Marte" acabou sendo inscrito para as premiações para não enfrentar uma concorrência maior com os dramas lançados na temporada - e dos quais saiu vencedor o controverso "Spotlight: segredos revelados" - e se deu muito bem. Além das estatuetas do Golden Globe (de resto merecidas), arrebatou sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, ator e roteiro adaptado. Ridley Scott, inexplicavelmente, ficou de fora.

Um dos grandes cineastas de sua época a ainda não terem um Oscar em casa, Ridley Scott tem familiaridade com a ficção científica, gênero que deu à sua carreira alguns de seus maiores êxitos (comerciais ou de crítica). São dele filmes essenciais, como "Alien: o oitavo passageiro" (79) e "Blade Runner: o caçador de androides" (82), e nem mesmo seu "Prometheus" (2012), que dividiu opiniões, é um filme menor. Confortável em lidar com os paradigmas do gênero e com as dificuldades de comandar orçamentos generosos - mais de 100 milhões de dólares no caso de "Perdido em Marte" - Scott tirou de letra orquestrar as aventuras e desventuras de Mark Watney, o protagonista de uma história que, apesar de carregar todos os elementos clássicos, conhecidos e amados pelos fãs da ficção científica, agrada também à plateia um tanto avessa a eles. Leve, divertido e emocionante na medida certa, é um filme com tudo de melhor que Hollywood tem a oferecer, embrulhado em um atraente pacote visual e dramático.


O filme não demora a começar, impondo o ritmo desde suas primeiras cenas, que mostram uma equipe de astronautas da NASA sendo obrigada a abortar sua missão em Marte devido a uma violenta e inesperada tempestade que praticamente os expulsa do planeta. Além do fracasso de sua viagem, o grupo liderado pela Comandante Melissa Lewis (Jessica Chastain) ainda precisa lidar com a morte de um de seus integrantes, o botânico Mark Watney (Matt Damon), atingido pelos destroços da tormenta. O que eles não sabem, porém, é que Watney não apenas sobreviveu - graças a um incrível golpe de sorte - como, ciente de sua situação desesperadora, começou a fazer planos para manter-se vivo enquanto não é resgatado. Utilizando-se de sua experiência e seus conhecimentos de física e matemática, ele calcula milimetricamente cada porção de comida, cada fração de oxigênio e cada possibilidade de ser descoberto pelos cientistas na Terra. O que ele não sabe é que, mesmo depois de ter sua sobrevivência descoberta (por acaso), os planos da agência não são tão favoráveis assim em relação a seu resgate. É somente quando as forças do governo, de cientistas estrangeiros e de sua própria equipe são reunidas que um mirabolante e arriscado plano é posto em prática - mesmo sem a certeza de que dará certo.

Com um roteiro surpreendente, que versa sobre teorias complexas mas nunca deixa o público alienado, "Perdido em Marte" tem duas linhas narrativas empolgantes, cada uma com seu próprio ritmo e tom. Enquanto Watney inventa e reinventa modos de comunicação com a Terra e meios de sobreviver com a escassez de comida e oxigênio, membros de diversas agências científicas tentam encontrar soluções para o problema - a essa altura já compartilhado pelo mundo inteiro. Matt Damon dá um show na pele do perseverante protagonista, injetando um senso de humor inesperado a uma espécie de Robinson Crusoé da era moderna. É ele quem comanda o espetáculo - e sua indicação ao Oscar foi extremamente justa, uma vez que ele praticamente atua sozinho por mais de duas horas de sessão. Dividindo a atenção com sua odisseia, as manobras científicas para resgatá-lo igualmente seguram a plateia na poltrona, equilibrando com maestria momentos de pura tensão com cenas brilhantemente executadas, onde se destacam a edição de som e os efeitos visuais (também indicados ao Oscar). É mérito do roteiro e da direção costurar com tanta precisão o drama e a ação, levando o espectador a uma experiência divertida e altamente competente. Com uma trilha sonora onde se destacam sucessos conhecidos do público - "I will survive", de Gloria Gaynor e "Starman", de David Bowie surgem em momentos exatos - e um tom de esperança louvável, "Perdido em Marte" consegue também a façanha de ser o primeiro filme ambientado em Marte a se dar bem na bilheteria e na opinião dos críticos - depois que os execráveis "Planeta Vermelho" e "Missão: Marte", ambos de 2000, praticamente estragaram o planeta por mais de uma década com seus roteiros tenebrosos. É um êxito merecido, de um cineasta ainda não devidamente reconhecido pela Academia.

O CAMINHO DAS NUVENS

O CAMINHO DAS NUVENS (O caminho das nuvens, 2003, Luiz Carlos Barreto Produções Cinematográficas, 85min) Direção: Vicente Amorim. Roteiro:...