O FILHO ETERNO (O filho eterno, 2016, RT Features, 82min) Direção: Paulo Machline. Roteiro: Leonardo Levis, livro de Cristóvão Tezza. Fotografia: Carlos Firmino. Montagem: Olivia Brenga. Música: Guilherme Garbato, Gustavo Garbato. Figurino: Maria Barbalho. Direção de arte: Rodrigo Alonso, Isabelle Bittencourt. Produção executiva: Ana Kormanski, Marisa Merlo, Raphael Mesquita, Daniel Pech. Produção: Rodrigo Teixeira. Elenco: Marcos Veras, Débora Falabella, Pedro Vinícius. Estreia: 11/10/16
Sucesso de vendas nas livrarias e êxito de público com sua adaptação teatral, "O filho eterno", do escritor catarinense Cristóvão Tezza apresenta uma história difícil, triste e sofrida. Mas, acima de tudo, encontra na redenção, no amor incondicional entre pai e filho e no amadurecimento pessoal, uma luz brilhante e reconfortante diante de um cenário de angústia e desesperança. Dirigida pelo mesmo Paulo Machline que levou às telas a trajetória do carnavalesco mais conhecido do país, em "Trinta", a versão para o cinema do livro de Tezza mantém, graças ao roteiro de Leonardo Levis, a essência da obra original: sua sobriedade e falta de sentimentalismo ao tratar de um assunto que poderia facilmente render um legítimo arranca-lágrimas. Sob o ponto de vista de Roberto, um escritor que precisa lidar com a notícia de que seu filho recém-nascido é portador da Síndrome de Down, a narrativa de Levis e Machline jamais escorrega no piegas, em boa parte graças à inusitada escolha de Marcos Veras para o papel principal.
Mais conhecido por seus trabalhos no terreno do humor, Veras surpreende em um papel dramático que exige mais do que simplesmente imprimir seriedade a uma trama suficientemente comovente. Sem exagerar nas tintas - com a possível exceção do clichê visual da fumaça de cigarro envolvendo invariavelmente seus momentos profissionais - e com a ingrata missão de não deixar que seu personagem soe um tanto monstruoso, o ator entrega um desempenho admirável e desprovido de quaisquer vícios. Melhor ainda, ele consegue tornar humanas e compreensíveis suas atitudes, por mais chocantes que pareçam a princípio - e elas são realmente inacreditáveis: assim que sabe que seu bebê é portador da deficiência, por exemplo, Roberto encontra alívio na expectativa de que se cumpra um vaticínio médico que encontra em suas pesquisas pessoais, que diz que crianças nascidas com esse problema "morrem cedo". Seu misto de decepção e revolta com o destino que lhe é imputado com a inesperada condição de seu filho - nascido em meio à euforia da Copa do Mundo de 1982, uma metáfora esportiva interessante mas que acaba por perder-se no decorrer da história - é o pilar de sustentação do filme, e Veras não hesita em emprestar toda a sua garra em honrar o material que tem em mãos.
Com algumas modificações pontuais em relação ao livro, "O filho eterno" talvez tenha na presença de Débora Falabella a principal delas: enquanto nas páginas a mãe do pequeno Fabrício é praticamente esquecida pelas digressões do escritor/narrador/protagonista, no filme de Machline ela não apenas ganha um nome (Cláudia) como serve como uma âncora ao turbilhão emocional de Roberto. Ainda que praticamente esteja em cena como contraponto aos sentimentos negativos do marido - é tranquila, amorosa, paciente e dedicada - a personagem oferece à Falabella um de seus melhores momentos no cinema, principalmente por conseguir expandir as limitações de coadjuvante e ser dona de uma das mais emocionantes cenas do longa, em uma dolorosa conversa em que revela seu amor incondicional ao filho. É um dos raros momentos em que o filme se permite, ainda que rapidamente, mostrar um lado menos racional - e é onde, de certa forma, começa uma transformação radical no relacionamento entre pai e filho.
Sucinto e infelizmente superficial em alguns momentos, "O filho eterno" sofre pela pressa do roteiro em resolver suas questões, privando o espectador de mergulhar mais a fundo na emoção de uma história que poderia render uma obra inesquecível. A própria transformação de Roberto - que passa de revoltado e desgostoso a um pai amoroso e apaixonado - surge de forma pouco orgânica na tela, quase repentina e sem maior verossimilhança, apesar dos esforços do elenco. Sua relação extra-conjugal tampouco oferece respiro à sufocante trama central, servindo apenas como uma espécie de desvio da rota principal e que, apesar das consequências, não chega a atingir todo o seu potencial dramático. Essa ansiedade do roteiro em solucionar seus problemas sem examiná-los a fundo é o grande calcanhar de Aquiles do filme, de resto dono de qualidades admiráveis. Do elenco bem escalado - o encantador Pedro Vinícius sai-se muito bem como o pequeno Fabrício - à produção caprichada, com direito à reconstituição de época sutil mas detalhista, "O filho eterno" é mais uma prova de que é possível fazer bom cinema no Brasil mesmo nadando contra a corrente do que é considerado comercialmente eficaz. Uma boa polida no roteiro e uma construção mais firme dos personagens e seria um grande filme. Como está, é louvável, mas não excepcional.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade. Afinal, a sétima arte não tem esse nome à toa.
segunda-feira
domingo
OS 3
OS 3 (Os 3, 2011, Warner Bros/Teleimage/Cinema SportClub, 80min) Direção: Nando Olival. Roteiro: Thiago Dottori, Nando Olival. Fotografia: Ricardo Della Rosa. Montagem: Daniel Rezende. Figurino: Pamela Tomioka. Direção de arte: Clô Azevedo. Produção executiva: Claudia Buschel, Wellington Pingo. Produção: Nando Olival, Ricardo Della Rosa. Elenco: Gabriel Godoy, Victor Mendes, Juliana Schalch, Sophia Reis. Estreia: 07/10/11
Cazé, Camila e Rafael são jovens universitários recém-chegados à São Paulo, com sonhos e objetivos bem definidos, mas sem muitas condições financeiras para sustentá-los além do básico. Em uma festa, se conhecem, se conectam imediatamente, tornam-se amigos e resolvem dividir um amplo apartamento em um prédio pouco atraente da capital. Para evitar quaisquer complicações futuras, combinam evitar qualquer envolvimento emocional ou sexual entre eles, que passam a ser conhecidos na faculdade como "Os 3", tamanho o grau de sua proximidade. No final do período de faculdade, quando a separação parece inevitável - e o trato de manterem-se imunes a tentações da carne já foi rompido e revelado - eles recebem uma proposta irrecusável: participarem de um reality show cujo tema é suas próprias vidas. O objetivo, além de atingir um público que acompanharia seus passos 24 horas por dia através da Internet, é vender os objetos consumidos em seu dia-a-dia. Porém, o que parecia uma ideia simples se torna cada vez mais complicada quando os amigos percebem que, para manterem suas personalidades, serão obrigados (por eles mesmos) a criar personagens e situações que prendam o interesse dos espectadores. Aos poucos, nem mesmo eles passam a discernir o que é real e o que é encenação.
Com essa premissa atual, instigante e por vezes surreal, o cineasta Nando Olival fez sua estreia como diretor-solo, depois de dividir a direção de "Domésticas" (2001) com Fernando Meirelles. Em "Os 3" ele faz uso de uma estética contemporânea e uma edição ágil para enfatizar o tom de urgência e efemeridade de uma geração cujo comportamento está intimamente ligado à tecnologia e às redes sociais e são exemplos claros da famosa "modernidade líquida" de que falava o filósofo polonês Zygmunt Bauman. Sem soar panfletário ou didático, Olival conta uma história universal sem abandonar as raízes brasileiras, utilizando São Paulo e seu ambiente muitas vezes opressivo como um quarto protagonista: mesmo que a trama pudesse se passar em qualquer outra metrópole, a terra da garoa serve como moldura perfeita para uma narrativa que frequentemente esbarra em uma quase claustrofobia emocional e física e que, conforme vai se desenvolvendo, substitui a leveza inicial por um minimalista pesadelo orwelliano. Ainda assim, apesar da seriedade do tema e de levantar uma série de questionamentos pertinentes, o filme não deixa de ser, em momento algum, o que pretende ser: entretenimento.
Com um trio de protagonistas bastante talentosos, "Os 3" demonstra, em pouco menos de uma hora e meia, que não é preciso um elenco repleto de astros globais para contar uma história interessante - ainda que Gabriel Godoy, que vive Cazé, tenha posteriormente entrado no elenco de duas novelas, em papel de destaque. Com uma química que é essencial para o bom funcionamento do roteiro (sucinto e que acertadamente muda de tom quando a trajetória dos personagens desvia do rumo inicial), Godoy e seus parceiros de cena, Victor Mendes (como Rafael) e Juliana Schalch (no papel de Camila) convencem plenamente em todas as fases de sua aventura fraternal/amorosa/profissional, exalando juventude e sentimento em cada cena e transmitindo todas as sensações que surgem de sua bizarra situação com segurança de veteranos. Mesmo que às vezes o roteiro demonstre certa pressa em resolver questões que poderiam render muito mais, esse é um pecado quase insignificante diante de sua coragem em romper com a ditadura das comédias populares ou filmes de favela que dominam o cinema brasileiro e com a qualidade de seu acabamento - a fotografia de Ricardo Della Rosa e a montagem de Daniel Rezende (indicado ao Oscar por "Cidade de Deus") são primorosas e é impossível não reparar no cuidado com a seleção de atores, desde os principais até os coadjuvantes.
À época de seu lançamento nos cinemas, "Os 3" foi comparado à "Os sonhadores", do italiano Bernardo Bertolucci. As semelhanças, porém, ficam restritas ao fato de ambos os filmes centrarem suas tramas em um trio de protagonistas vivendo em proximidade irrestrita. Enquanto a obra de Bertolucci tem pretensões artísticas que beiram o pedantismo, o filme de Nando Olival assume um tom bem menos ambicioso, com raízes mais naturalistas e uma identificação orgânica com a plateia, especialmente a mais jovem. Ao temperar sua trama com intervenções cada vez mais frequentes dos patrocinadores do programa - o que acaba por atormentar gradualmente a mente dos protagonistas - Olival torna imprevisível os rumos de sua narrativa e tem a inteligência de não estendê-la em demasia. Essa opção de encerrar seu filme quase abruptamente é o único senão de uma obra agradável, inteligente e com muito mais a dizer do que pode parecer a princípio. Um filme para ser descoberto!
Cazé, Camila e Rafael são jovens universitários recém-chegados à São Paulo, com sonhos e objetivos bem definidos, mas sem muitas condições financeiras para sustentá-los além do básico. Em uma festa, se conhecem, se conectam imediatamente, tornam-se amigos e resolvem dividir um amplo apartamento em um prédio pouco atraente da capital. Para evitar quaisquer complicações futuras, combinam evitar qualquer envolvimento emocional ou sexual entre eles, que passam a ser conhecidos na faculdade como "Os 3", tamanho o grau de sua proximidade. No final do período de faculdade, quando a separação parece inevitável - e o trato de manterem-se imunes a tentações da carne já foi rompido e revelado - eles recebem uma proposta irrecusável: participarem de um reality show cujo tema é suas próprias vidas. O objetivo, além de atingir um público que acompanharia seus passos 24 horas por dia através da Internet, é vender os objetos consumidos em seu dia-a-dia. Porém, o que parecia uma ideia simples se torna cada vez mais complicada quando os amigos percebem que, para manterem suas personalidades, serão obrigados (por eles mesmos) a criar personagens e situações que prendam o interesse dos espectadores. Aos poucos, nem mesmo eles passam a discernir o que é real e o que é encenação.
Com essa premissa atual, instigante e por vezes surreal, o cineasta Nando Olival fez sua estreia como diretor-solo, depois de dividir a direção de "Domésticas" (2001) com Fernando Meirelles. Em "Os 3" ele faz uso de uma estética contemporânea e uma edição ágil para enfatizar o tom de urgência e efemeridade de uma geração cujo comportamento está intimamente ligado à tecnologia e às redes sociais e são exemplos claros da famosa "modernidade líquida" de que falava o filósofo polonês Zygmunt Bauman. Sem soar panfletário ou didático, Olival conta uma história universal sem abandonar as raízes brasileiras, utilizando São Paulo e seu ambiente muitas vezes opressivo como um quarto protagonista: mesmo que a trama pudesse se passar em qualquer outra metrópole, a terra da garoa serve como moldura perfeita para uma narrativa que frequentemente esbarra em uma quase claustrofobia emocional e física e que, conforme vai se desenvolvendo, substitui a leveza inicial por um minimalista pesadelo orwelliano. Ainda assim, apesar da seriedade do tema e de levantar uma série de questionamentos pertinentes, o filme não deixa de ser, em momento algum, o que pretende ser: entretenimento.
Com um trio de protagonistas bastante talentosos, "Os 3" demonstra, em pouco menos de uma hora e meia, que não é preciso um elenco repleto de astros globais para contar uma história interessante - ainda que Gabriel Godoy, que vive Cazé, tenha posteriormente entrado no elenco de duas novelas, em papel de destaque. Com uma química que é essencial para o bom funcionamento do roteiro (sucinto e que acertadamente muda de tom quando a trajetória dos personagens desvia do rumo inicial), Godoy e seus parceiros de cena, Victor Mendes (como Rafael) e Juliana Schalch (no papel de Camila) convencem plenamente em todas as fases de sua aventura fraternal/amorosa/profissional, exalando juventude e sentimento em cada cena e transmitindo todas as sensações que surgem de sua bizarra situação com segurança de veteranos. Mesmo que às vezes o roteiro demonstre certa pressa em resolver questões que poderiam render muito mais, esse é um pecado quase insignificante diante de sua coragem em romper com a ditadura das comédias populares ou filmes de favela que dominam o cinema brasileiro e com a qualidade de seu acabamento - a fotografia de Ricardo Della Rosa e a montagem de Daniel Rezende (indicado ao Oscar por "Cidade de Deus") são primorosas e é impossível não reparar no cuidado com a seleção de atores, desde os principais até os coadjuvantes.
À época de seu lançamento nos cinemas, "Os 3" foi comparado à "Os sonhadores", do italiano Bernardo Bertolucci. As semelhanças, porém, ficam restritas ao fato de ambos os filmes centrarem suas tramas em um trio de protagonistas vivendo em proximidade irrestrita. Enquanto a obra de Bertolucci tem pretensões artísticas que beiram o pedantismo, o filme de Nando Olival assume um tom bem menos ambicioso, com raízes mais naturalistas e uma identificação orgânica com a plateia, especialmente a mais jovem. Ao temperar sua trama com intervenções cada vez mais frequentes dos patrocinadores do programa - o que acaba por atormentar gradualmente a mente dos protagonistas - Olival torna imprevisível os rumos de sua narrativa e tem a inteligência de não estendê-la em demasia. Essa opção de encerrar seu filme quase abruptamente é o único senão de uma obra agradável, inteligente e com muito mais a dizer do que pode parecer a princípio. Um filme para ser descoberto!
sexta-feira
TIROS EM COLUMBINE
TIROS EM COLUMBINE (Bowling for Columbine, 2002, United Artists, 120min) Direção e roteiro: Michael Moore. Montagem: Kurt Engfehr. Música: Jeff Gibbs. Produção executiva: Wolfram Tichy. Produção: Charles Bishop, Jim Czarnecki, Michael Donovan, Kahtleen Glynn, Michael Moore. Estreia: 16/5/02 (Festival de Cannes)
Vencedor do Oscar de Melhor Documentário
Foi ao receber seu Oscar de melhor documentário, por este "Tiros em Columbine", que Michael Moore tornou-se mundialmente conhecido: diante de milhões de telespectadores que assistiam à cerimônia, o rotundo cineasta vociferou contundentemente contra George W. Bush, seu mandato - segundo ele, resultado de eleições fictícias - e a guerra do Iraque que, conforme se soube mais adiante, começou com o falso pretexto de que o país tinha um arsenal de armas de destruição em massa. Vaiado por uns, aplaudido por outros e criticado por muitos, Moore aproveitou, sem dúvida, para dar um belo empurrão em seu filme seguinte, "Fahrenheit 11/9" (2004), que tornou-se, já em sua estreia, o documentário de maior bilheteria da história, além de ganhar a Palma de Ouro em Cannes - e que falava, para surpresa de ninguém, sobre as sujeiras escondidas do presidente norte-americano. "Tiros em Columbine", no entanto, não centra seu fogo unicamente em um alvo - ainda que acuse, sem papas na língua, o governo dos EUA de colaborar com os países que posteriormente apelaram para atos terroristas - e, com extrema contundência e um mordaz senso de humor, faz uma séria análise da fascinação do povo ianque por armas de fogo a partir do massacre cometido por dois alunos adolescentes de uma escola de ensino médio chamada Columbine, no estado do Colorado, em 1999.
Sem medo de causar polêmica - e certamente procurando por uma boa dose dela - Michael Moore estende sua reflexão social e política nas mais variadas direções, confirmando sua tendência para o autopromoção, uma característica que sempre lhe causa pesadas críticas mas que invariavelmente funciona à perfeição para atingir seus objetivos. Confiante em seus argumentos e movido por uma admirável cara-de-pau, Moore faz o espectador testemunhar situações que vão do constrangedor - a já clássica entrevista com Charlton Heston, defensor ferrenho do armamento da população e presidente da malfadada NRA (National Rifle Association) - ao surpreendente - como a visita do cineasta e dois jovens sobreviventes da tragédia em Columbine (um deles preso a uma cadeira de rodas) a uma rede de lojas que vende indiscriminadamente munição para armas de fogo. Conversando com pessoas envolvidas diretamente com as consequências de uma legislação francamente favorável (e até mesmo incentivadora) ao acesso quase irrestrito do público ao municiamento, o documentarista também faz questão de mostrar absurdos inimagináveis, como um banco que oferece uma arma de brinde aos novos clientes e não vê nada de errado com isso. Assim como acontece com Charlton Heston - que fica sem argumentos diante de questões pontuais e lógicas de Moore - outros entrevistados acabam por deixar que o diretor derrube suas convicções equivocadas mesmo sem precisar empurrar muito: argumentos como o histórico de violência na história da construção do país e a influência dos meios de comunicação são jogados por terra a cada nova conversa com explicações quase didáticas e fatos inquestionáveis.
Para cada tentativa de justificar a obsessão americana por armas, Michael Moore oferece estatísticas, contradições e muita história. Como forma de não tornar seu documentário algo tedioso, ele brinca com várias linguagens, como animação e videoclipes, que esclarecem ao espectador a forma como o governo dos EUA fomentou sem clemência um estado de constante paranoia para sustentar sua indústria armamentista. É sintomático que celebridades como Marilyn Manson se defendam com tanta inteligência e lucidez: vendo suas músicas e seu visual pouco normal sendo responsabilizados pela tragédia em Columbine, ele questiona o porquê de Bill Clinton e sua política de guerra não foram tão demonizados quanto, e continua sua defesa acusando comerciais de tv e a cultura do medo pelos desastres. Moore não deixa passar a oportunidade e apresenta, logo em seguida, números que mostram que nem mesmo os mais violentos filmes produzidos em Hollywood são capazes de incentivar algo que já não está radicalmente encravado em uma mentalidade quase doentia que vem de gerações. Em uma visita ao Canadá - uma região também muito mais armada do que a média - ele mostra ao surpreendido público que, apesar de igualmente armado além do normal, o país tem uma número de crimes muito abaixo do registrado nos EUA. Por que? É a grande questão do filme.
"Tiros em Columbine" lança diversas perguntas à plateia durante suas duas horas de duração. A maior parte delas o próprio Michael Moore responde, à sua maneira - às vezes exagerada, às vezes quase agressiva, quase sempre de forma contundente e assertiva. Outras ele apenas deixa no ar, oferecendo subsídios o suficiente para que os espectadores as respondam. Muito criticado por colocar-se como estrela de seus filmes, sobressaindo-se ao tema retratado, Moore realmente é uma figura marcante e não faz a menor questão de delicadezas ou sutilezas. No entanto, bem ou mal, é isso que faz de seus filmes grandes obras de não-ficção, tão empolgantes quanto qualquer suspense ou thriller político. "Tiros em Columbine" informa, indigna, choca e emociona em doses iguais - além de mostrar em um até então respeitável astro da era clássica de Hollywood um lado fascista jamais imaginado em alguém que fez o papel de Moisés. Um clássico contemporâneo, imprescindível e fascinante!
Vencedor do Oscar de Melhor Documentário
Foi ao receber seu Oscar de melhor documentário, por este "Tiros em Columbine", que Michael Moore tornou-se mundialmente conhecido: diante de milhões de telespectadores que assistiam à cerimônia, o rotundo cineasta vociferou contundentemente contra George W. Bush, seu mandato - segundo ele, resultado de eleições fictícias - e a guerra do Iraque que, conforme se soube mais adiante, começou com o falso pretexto de que o país tinha um arsenal de armas de destruição em massa. Vaiado por uns, aplaudido por outros e criticado por muitos, Moore aproveitou, sem dúvida, para dar um belo empurrão em seu filme seguinte, "Fahrenheit 11/9" (2004), que tornou-se, já em sua estreia, o documentário de maior bilheteria da história, além de ganhar a Palma de Ouro em Cannes - e que falava, para surpresa de ninguém, sobre as sujeiras escondidas do presidente norte-americano. "Tiros em Columbine", no entanto, não centra seu fogo unicamente em um alvo - ainda que acuse, sem papas na língua, o governo dos EUA de colaborar com os países que posteriormente apelaram para atos terroristas - e, com extrema contundência e um mordaz senso de humor, faz uma séria análise da fascinação do povo ianque por armas de fogo a partir do massacre cometido por dois alunos adolescentes de uma escola de ensino médio chamada Columbine, no estado do Colorado, em 1999.
Sem medo de causar polêmica - e certamente procurando por uma boa dose dela - Michael Moore estende sua reflexão social e política nas mais variadas direções, confirmando sua tendência para o autopromoção, uma característica que sempre lhe causa pesadas críticas mas que invariavelmente funciona à perfeição para atingir seus objetivos. Confiante em seus argumentos e movido por uma admirável cara-de-pau, Moore faz o espectador testemunhar situações que vão do constrangedor - a já clássica entrevista com Charlton Heston, defensor ferrenho do armamento da população e presidente da malfadada NRA (National Rifle Association) - ao surpreendente - como a visita do cineasta e dois jovens sobreviventes da tragédia em Columbine (um deles preso a uma cadeira de rodas) a uma rede de lojas que vende indiscriminadamente munição para armas de fogo. Conversando com pessoas envolvidas diretamente com as consequências de uma legislação francamente favorável (e até mesmo incentivadora) ao acesso quase irrestrito do público ao municiamento, o documentarista também faz questão de mostrar absurdos inimagináveis, como um banco que oferece uma arma de brinde aos novos clientes e não vê nada de errado com isso. Assim como acontece com Charlton Heston - que fica sem argumentos diante de questões pontuais e lógicas de Moore - outros entrevistados acabam por deixar que o diretor derrube suas convicções equivocadas mesmo sem precisar empurrar muito: argumentos como o histórico de violência na história da construção do país e a influência dos meios de comunicação são jogados por terra a cada nova conversa com explicações quase didáticas e fatos inquestionáveis.
Para cada tentativa de justificar a obsessão americana por armas, Michael Moore oferece estatísticas, contradições e muita história. Como forma de não tornar seu documentário algo tedioso, ele brinca com várias linguagens, como animação e videoclipes, que esclarecem ao espectador a forma como o governo dos EUA fomentou sem clemência um estado de constante paranoia para sustentar sua indústria armamentista. É sintomático que celebridades como Marilyn Manson se defendam com tanta inteligência e lucidez: vendo suas músicas e seu visual pouco normal sendo responsabilizados pela tragédia em Columbine, ele questiona o porquê de Bill Clinton e sua política de guerra não foram tão demonizados quanto, e continua sua defesa acusando comerciais de tv e a cultura do medo pelos desastres. Moore não deixa passar a oportunidade e apresenta, logo em seguida, números que mostram que nem mesmo os mais violentos filmes produzidos em Hollywood são capazes de incentivar algo que já não está radicalmente encravado em uma mentalidade quase doentia que vem de gerações. Em uma visita ao Canadá - uma região também muito mais armada do que a média - ele mostra ao surpreendido público que, apesar de igualmente armado além do normal, o país tem uma número de crimes muito abaixo do registrado nos EUA. Por que? É a grande questão do filme.
"Tiros em Columbine" lança diversas perguntas à plateia durante suas duas horas de duração. A maior parte delas o próprio Michael Moore responde, à sua maneira - às vezes exagerada, às vezes quase agressiva, quase sempre de forma contundente e assertiva. Outras ele apenas deixa no ar, oferecendo subsídios o suficiente para que os espectadores as respondam. Muito criticado por colocar-se como estrela de seus filmes, sobressaindo-se ao tema retratado, Moore realmente é uma figura marcante e não faz a menor questão de delicadezas ou sutilezas. No entanto, bem ou mal, é isso que faz de seus filmes grandes obras de não-ficção, tão empolgantes quanto qualquer suspense ou thriller político. "Tiros em Columbine" informa, indigna, choca e emociona em doses iguais - além de mostrar em um até então respeitável astro da era clássica de Hollywood um lado fascista jamais imaginado em alguém que fez o papel de Moisés. Um clássico contemporâneo, imprescindível e fascinante!
quinta-feira
GREY GARDENS
GREY GARDENS (Grey Gardens, 2009, HBO Films, 104min) Direção: Michael Sucsy. Roteiro: Michael Sucsky, Patricia Rozema, estória de Michael Sucsy. Fotografia: Mike Eley. Montagem: Alan Heim, Lee Percy. Música: Rachel Portman. Figurino: Catherine Marie Thomas. Direção de arte/cenários: Kalina Ivanov/Norma Jean Sanders. Produção executiva: Lucy Barzun Donnelly, Rachel Horovitz, Michael Sucsy. Produção: David Coatsworth. Elenco: Jessica Lange, Drew Barrymore, Daniel Baldwin, Jeanne Tripplehorne, Ken Howard, Kenneth Welsh, Arye Gross, Justin Louis. Estreia: 18/4/09
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Minissérie ou Filme para Televisão, Atriz em Minissérie ou Filme para Televisão (Drew Barrymore)
Milionárias falidas, parentes próximas de Jacqueline Kennedy Onassis, beldades decadentes, mulheres presas a um passado glamoroso e personagens de nada menos que duas produções retratando sua vida, as protagonistas de "Grey Gardens", realizado pela HBO em 2009, parecem obra da mais tresloucada ficção. Mas não são. Objetos de um documentário lançado em 1979 e posteriormente personagens de um telefilme dirigido por Michael Sucsy que retratava sua produção, Edith Bouvier Beale e sua filha, Edie, são figuras únicas, que encontraram nas telas a forma indelével de passar à história após sua derrocada financeira e sua decadência psicológica. Interpretadas com genialidade por Jessica Lange e Drew Barrymore - de longe no melhor desempenho de sua carreira, premiado merecidamente com o Golden Globe e o Emmy - as duas fascinantes personagens encontram respaldo na direção sensível de Michael Sucsy (que mais tarde faria o romântico "Para sempre", com Channing Tatum e Rachel McAdams) e emocionam o público com uma história de cortar o coração que jamais apela para o sentimentalismo.
O roteiro, coescrito pelo diretor e Patricia Rozema, aproveita-se do documentário por David e Albert Maysles como ponto de partida para contar sua história. Primeiramente pensando em focar seu filme na trajetória de Jackie, os dois irmãos acabam fascinados por um outro lado da família da ex-primeira dama quando conhecem sua tia, Edith (Jessica Lange), e sua prima, Edie (Drew Barrymore), que vivem isoladas em uma mansão caindo aos pedaços e dominada pela sujeira feita pelos gatos e por sua absoluta falta de capacidade de manter a salubridade do local. Excêntrica e extrovertida, Edie é quem se torna a estrela do documentário, enquanto à sua mãe resta apenas pontuar a narrativa com suas lembranças de tempos mais fartos. O filme de Sucsy conta a trajetória de mãe e filha através de flashbacks, que começam em 1936 e se estendem até os anos 70, mostrando como a promissora Edie, que sonhava com uma carreira de atriz, e sua mãe - que levava uma vida de luxo e conforto, cercada por gente da alta sociedade e demonstrava talento como cantora - acabaram por tornar-se duas mulheres praticamente enterradas vivas em sua propriedade, outrora motivo de orgulho da família.
Apesar da excentricidade das protagonistas parecer quase exagerada, "Grey Gardens" jamais cai na armadilha de fazer delas motivos de caricatura ou humor proposital. Tratando com respeito e quase carinho de suas personagens, Michael Sucsy apresenta ao público uma história a respeito de sonhos despedaçados, ambições destruídas e uma relação no limite da codependência. Sufocada pela super-proteção familiar - disfarçada de amor e carinho - a jovem Edie se vê impedida de realizar todo o potencial que acredita ter e acaba se deixando envolver pela solidão da mãe, que, infeliz, consegue até mesmo interferir em seu romance (malfadado, é verdade, mas ainda assim um romance) com um homem casado por quem ela se apaixona e que acredita poder lhe fazer feliz. Drew Barrymore brilha tanto na pele da jovem e esperançosa Edie quanto em sua versão mais velha, a um passo do colapso mental e tão crente em seus talentos artísticos que vê no documentário a chance de ser descoberta pelo mundo. Seus embates com Jessica Lange - fantástica em um papel de mãe dominadora que aos poucos vai murchando, conforme percebe os rumos que sua vida vai tomando - são excepcionais, sofrendo alterações com o passar do tempo até chegar a um misto de ressentimento velado e afeto genuíno (ou dependência psicológica). Com a preciosa ajuda da maquiagem - que as envelhece com perfeição - as duas atrizes estão em um momento especial de suas trajetórias, com uma invejável química e trejeitos que lembram em detalhes as verdadeiras protagonistas (quem duvida pode procurar o documentário e conferir: a semelhança é impressionante!).
Comprovando a excelência da HBO na produção de telefilmes que fogem das limitações do gênero, "Grey Gardens" funciona em todos os níveis imagináveis: é dirigido com sutileza, escrito com respeito às personagens e interpretado com extrema inspiração. É impossível não se deixar conquistar pelas duas protagonistas e seus dramas pessoais e familiares - com direito até a uma intervenção de Jackie Kennedy em pessoa, na pele da atriz Jeanne Tripplehorne. Imprimindo um tom leve a uma história que poderia facilmente descambar para o soturno ou o trágico, Michael Sucsy acerta em cheio, evitando tanto o dramalhão rasgado quanto a comédia de humor negro que poderiam diluir a força do roteiro e das personagens, tão incríveis que chega a ser difícil de acreditar que não saíram da mente de um escritor mais criativo. No fim das contas, "Grey Gardens" é um belo filme, com grandes atuações e uma história fabulosa. Imperdível!
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Minissérie ou Filme para Televisão, Atriz em Minissérie ou Filme para Televisão (Drew Barrymore)
Milionárias falidas, parentes próximas de Jacqueline Kennedy Onassis, beldades decadentes, mulheres presas a um passado glamoroso e personagens de nada menos que duas produções retratando sua vida, as protagonistas de "Grey Gardens", realizado pela HBO em 2009, parecem obra da mais tresloucada ficção. Mas não são. Objetos de um documentário lançado em 1979 e posteriormente personagens de um telefilme dirigido por Michael Sucsy que retratava sua produção, Edith Bouvier Beale e sua filha, Edie, são figuras únicas, que encontraram nas telas a forma indelével de passar à história após sua derrocada financeira e sua decadência psicológica. Interpretadas com genialidade por Jessica Lange e Drew Barrymore - de longe no melhor desempenho de sua carreira, premiado merecidamente com o Golden Globe e o Emmy - as duas fascinantes personagens encontram respaldo na direção sensível de Michael Sucsy (que mais tarde faria o romântico "Para sempre", com Channing Tatum e Rachel McAdams) e emocionam o público com uma história de cortar o coração que jamais apela para o sentimentalismo.
O roteiro, coescrito pelo diretor e Patricia Rozema, aproveita-se do documentário por David e Albert Maysles como ponto de partida para contar sua história. Primeiramente pensando em focar seu filme na trajetória de Jackie, os dois irmãos acabam fascinados por um outro lado da família da ex-primeira dama quando conhecem sua tia, Edith (Jessica Lange), e sua prima, Edie (Drew Barrymore), que vivem isoladas em uma mansão caindo aos pedaços e dominada pela sujeira feita pelos gatos e por sua absoluta falta de capacidade de manter a salubridade do local. Excêntrica e extrovertida, Edie é quem se torna a estrela do documentário, enquanto à sua mãe resta apenas pontuar a narrativa com suas lembranças de tempos mais fartos. O filme de Sucsy conta a trajetória de mãe e filha através de flashbacks, que começam em 1936 e se estendem até os anos 70, mostrando como a promissora Edie, que sonhava com uma carreira de atriz, e sua mãe - que levava uma vida de luxo e conforto, cercada por gente da alta sociedade e demonstrava talento como cantora - acabaram por tornar-se duas mulheres praticamente enterradas vivas em sua propriedade, outrora motivo de orgulho da família.
Apesar da excentricidade das protagonistas parecer quase exagerada, "Grey Gardens" jamais cai na armadilha de fazer delas motivos de caricatura ou humor proposital. Tratando com respeito e quase carinho de suas personagens, Michael Sucsy apresenta ao público uma história a respeito de sonhos despedaçados, ambições destruídas e uma relação no limite da codependência. Sufocada pela super-proteção familiar - disfarçada de amor e carinho - a jovem Edie se vê impedida de realizar todo o potencial que acredita ter e acaba se deixando envolver pela solidão da mãe, que, infeliz, consegue até mesmo interferir em seu romance (malfadado, é verdade, mas ainda assim um romance) com um homem casado por quem ela se apaixona e que acredita poder lhe fazer feliz. Drew Barrymore brilha tanto na pele da jovem e esperançosa Edie quanto em sua versão mais velha, a um passo do colapso mental e tão crente em seus talentos artísticos que vê no documentário a chance de ser descoberta pelo mundo. Seus embates com Jessica Lange - fantástica em um papel de mãe dominadora que aos poucos vai murchando, conforme percebe os rumos que sua vida vai tomando - são excepcionais, sofrendo alterações com o passar do tempo até chegar a um misto de ressentimento velado e afeto genuíno (ou dependência psicológica). Com a preciosa ajuda da maquiagem - que as envelhece com perfeição - as duas atrizes estão em um momento especial de suas trajetórias, com uma invejável química e trejeitos que lembram em detalhes as verdadeiras protagonistas (quem duvida pode procurar o documentário e conferir: a semelhança é impressionante!).
Comprovando a excelência da HBO na produção de telefilmes que fogem das limitações do gênero, "Grey Gardens" funciona em todos os níveis imagináveis: é dirigido com sutileza, escrito com respeito às personagens e interpretado com extrema inspiração. É impossível não se deixar conquistar pelas duas protagonistas e seus dramas pessoais e familiares - com direito até a uma intervenção de Jackie Kennedy em pessoa, na pele da atriz Jeanne Tripplehorne. Imprimindo um tom leve a uma história que poderia facilmente descambar para o soturno ou o trágico, Michael Sucsy acerta em cheio, evitando tanto o dramalhão rasgado quanto a comédia de humor negro que poderiam diluir a força do roteiro e das personagens, tão incríveis que chega a ser difícil de acreditar que não saíram da mente de um escritor mais criativo. No fim das contas, "Grey Gardens" é um belo filme, com grandes atuações e uma história fabulosa. Imperdível!
quarta-feira
O FRANCO-ATIRADOR (2015)
O FRANCO-ATIRADOR (The gunman, 2015, StudioCanal/Silver Pictures, 115min) Direção: Pierre Morel. Roteiro: Don MacPherson, Pete Travis, Sean Penn, romance de Jean-Patrick Manchette. Fotografia: Flavio Martinez Labiano. Montagem: Frédéric Thoraval. Música: Marco Beltrami. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Andrew Laws/Anneke Botha. Produção executiva: Aaron Auch, Olivier Courson, Adrian Guerra, Peter McAleese, Steve Richard. Produção: Ron Halpern, Sean Penn, Andrew Rona. Elenco: Sean Penn, Javier Bardem, Jasmine Trinca, Mark Rylance, Ray Winstone, Idris Elba. Estreia: 16/02/15
Lançado em 1978, o drama de guerra "O franco-atirador" tornou-se a primeira produção norte-americana a lidar de frente com o conflito do Vietnã e se dar bem nas bilheterias e junto à crítica, chegando a sagrar-se o grande vencedor do Oscar nas categorias mais importantes (filme e direção). O mesmo, porém, não pode ser dito de seu homônimo, comandado pelo francês Pierre Morel e adaptado do livro de Jean-Patrick Manchette: mesmo estrelado por nomes consagrados como Sean Penn (também produtor), Javier Bardem e o recém-oscarizado Mark Rylance (de "Ponte dos espiões"), o filme jamais consegue atingir o equilíbrio entre filme de ação e drama político que almeja, tornando-se um híbrido sem personalidade e, o que é ainda pior, confuso e com personagens pouco carismáticos ou interessantes. Não por acaso, fracassou comercialmente e foi ignorado pela crítica, apesar do elenco e do potencial da trama.
A história começa no Congo, país africano mergulhado em profunda convulsão social. É lá que o assassino de aluguel Terrier (Sean Penn, competente, mas um pouco além da idade para o personagem) assume a missão de matar o Ministro das Minas local, o que complica ainda mais a situação caótica da nação. Depois do crime, para autoproteção, ele se vê obrigado a abandonar qualquer ligação com seus companheiros de equipe e a própria namorada, Annie (Jasmine Trinca), cortando totalmente seus laços com todos eles. Algum tempo depois, no entanto, ele está de volta ao Congo, trabalhando em uma ONG e tentando, à sua maneira, reparar os danos de sua ação passada. Essa vida relativamente tranquila é virada do avesso quando ele é alvo de um violento atentado, do qual escapa graças a suas habilidades profissionais, e descobre que o fato tem ligações com a morte do ministro. Isso faz com que ele volte a procurar seus antigos amigos, Terrance Cox (Mark Rylance), agora um poderoso empresário, e Felix (Javier Bardem), que leva uma vida confortável casado justamente com Annie. Todos eles se descobrem ameaçados, mas Terrier desconfia de todos até que finalmente se vê diante de uma verdade pouco conveniente.
É difícil acreditar que o diretor de "O franco-atirador" seja Pierre Morel, um cineasta pouco brilhante, é verdade, mas com experiência em filmes de ação, como "Busca implacável" (2008) e "Dupla implacável "(2010), que não são exatamente obras-primas mas se sustentam como entretenimento descompromissado. Em seu novo filme, Morel tenta atingir níveis maiores de relevância à trama, lhe adicionando temas sociopolíticos, mas acaba derrapando em uma superficialidade constrangedora. O roteiro - com participação de Sean Penn - é confuso quando tenta ser surpreendente e todas as cenas dramáticas, a despeito do talento dos atores envolvidos, carecem de verossimilhança e sensibilidade. Penn faz o que pode com seu personagem, mas é atrapalhado por uma história pouco crível e tratada com quase desleixo. As cenas de ação até são competentes, especialmente no terço final da narrativa, mas é muito pouco para cativar o espectador que, até então, lutou para acompanhar as investigações do protagonista - e tentou entender o que, afinal, as cenas do início do filme tem a ver com seu desfecho. Também não ajuda a presença da italiana Jasmine Trinca, sem o carisma necessário para segurar o principal papel feminino do filme, especialmente diante de gigantes como Sean Penn e Javier Bardem - outro que se esforça em tirar algo de um personagem raso e sem grandes possibilidades.
No final das contas, "O franco-atirador" não passa de um filme de ação genérico, com um pouco mais (bem pouco) de substância do que seus congêneres e um elenco de primeira linha tentando disfarçar suas falhas de roteiro e sua incapacidade de se aprofundar em qualquer discussão política que porventura poderia surgir de sua situação inicial. Para os menos exigentes pode ser uma diversão descompromissada para uma madrugada insone, mas levando-se em consideração o quão bom poderia ser é uma tremenda decepção, um grande passo em falso nas carreiras de Sean Penn e Javier Bardem. Nem mesmo alguns momentos isolados de violência e ação são suficientes para evitar a sensação de tédio.
Lançado em 1978, o drama de guerra "O franco-atirador" tornou-se a primeira produção norte-americana a lidar de frente com o conflito do Vietnã e se dar bem nas bilheterias e junto à crítica, chegando a sagrar-se o grande vencedor do Oscar nas categorias mais importantes (filme e direção). O mesmo, porém, não pode ser dito de seu homônimo, comandado pelo francês Pierre Morel e adaptado do livro de Jean-Patrick Manchette: mesmo estrelado por nomes consagrados como Sean Penn (também produtor), Javier Bardem e o recém-oscarizado Mark Rylance (de "Ponte dos espiões"), o filme jamais consegue atingir o equilíbrio entre filme de ação e drama político que almeja, tornando-se um híbrido sem personalidade e, o que é ainda pior, confuso e com personagens pouco carismáticos ou interessantes. Não por acaso, fracassou comercialmente e foi ignorado pela crítica, apesar do elenco e do potencial da trama.
A história começa no Congo, país africano mergulhado em profunda convulsão social. É lá que o assassino de aluguel Terrier (Sean Penn, competente, mas um pouco além da idade para o personagem) assume a missão de matar o Ministro das Minas local, o que complica ainda mais a situação caótica da nação. Depois do crime, para autoproteção, ele se vê obrigado a abandonar qualquer ligação com seus companheiros de equipe e a própria namorada, Annie (Jasmine Trinca), cortando totalmente seus laços com todos eles. Algum tempo depois, no entanto, ele está de volta ao Congo, trabalhando em uma ONG e tentando, à sua maneira, reparar os danos de sua ação passada. Essa vida relativamente tranquila é virada do avesso quando ele é alvo de um violento atentado, do qual escapa graças a suas habilidades profissionais, e descobre que o fato tem ligações com a morte do ministro. Isso faz com que ele volte a procurar seus antigos amigos, Terrance Cox (Mark Rylance), agora um poderoso empresário, e Felix (Javier Bardem), que leva uma vida confortável casado justamente com Annie. Todos eles se descobrem ameaçados, mas Terrier desconfia de todos até que finalmente se vê diante de uma verdade pouco conveniente.
É difícil acreditar que o diretor de "O franco-atirador" seja Pierre Morel, um cineasta pouco brilhante, é verdade, mas com experiência em filmes de ação, como "Busca implacável" (2008) e "Dupla implacável "(2010), que não são exatamente obras-primas mas se sustentam como entretenimento descompromissado. Em seu novo filme, Morel tenta atingir níveis maiores de relevância à trama, lhe adicionando temas sociopolíticos, mas acaba derrapando em uma superficialidade constrangedora. O roteiro - com participação de Sean Penn - é confuso quando tenta ser surpreendente e todas as cenas dramáticas, a despeito do talento dos atores envolvidos, carecem de verossimilhança e sensibilidade. Penn faz o que pode com seu personagem, mas é atrapalhado por uma história pouco crível e tratada com quase desleixo. As cenas de ação até são competentes, especialmente no terço final da narrativa, mas é muito pouco para cativar o espectador que, até então, lutou para acompanhar as investigações do protagonista - e tentou entender o que, afinal, as cenas do início do filme tem a ver com seu desfecho. Também não ajuda a presença da italiana Jasmine Trinca, sem o carisma necessário para segurar o principal papel feminino do filme, especialmente diante de gigantes como Sean Penn e Javier Bardem - outro que se esforça em tirar algo de um personagem raso e sem grandes possibilidades.
No final das contas, "O franco-atirador" não passa de um filme de ação genérico, com um pouco mais (bem pouco) de substância do que seus congêneres e um elenco de primeira linha tentando disfarçar suas falhas de roteiro e sua incapacidade de se aprofundar em qualquer discussão política que porventura poderia surgir de sua situação inicial. Para os menos exigentes pode ser uma diversão descompromissada para uma madrugada insone, mas levando-se em consideração o quão bom poderia ser é uma tremenda decepção, um grande passo em falso nas carreiras de Sean Penn e Javier Bardem. Nem mesmo alguns momentos isolados de violência e ação são suficientes para evitar a sensação de tédio.
terça-feira
FEMME FATALE
FEMME FATALE (Femme fatale, 2002, Quinta Communications, 114min) Direção e roteiro: Brian De Palma. Fotografia: Thierry Arbogast. Montagem: Bill Pankow. Música: Ryuichi Sakamoto Figurino: Olivier Beriot. Direção de arte/cenários: Anne Pritchard/Françoise Benoit-Fresco. Produção executiva: Mark Lombardo. Produção: Tarak Ben Ammar, Marina Gefter. Elenco: Rebecca Rojmin-Stamos, Antonio Banderas, Peter Coyote. Estreia: 30/4/02
Dizer que Brian De Palma é o maior discípulo de Alfred Hitchcock produzido por Hollywood é limitar e diminuir a carreira de um dos mais interessantes cineastas norte-americanos contemporâneos, capaz tanto de obras impecáveis, como "Os intocáveis" (87), quanto de desastres monumentais - como bem podem testemunhar aqueles que tiveram de encarar a tenebrosa adaptação de "A fogueira das vaidades" (90), do romance de TomWolfe. Nem sempre feliz na escolha de seus projetos, De Palma foi obrigado a encarar um período bastante complicado em sua trajetória quando, depois do grande sucesso comercial de "Missão: impossível" (96), passou a acumular fracassos críticos e de bilheteria que minaram sua credibilidade junto ao público e aos estúdios - foi nessa época que ele enfileirou os horrorosos "Olhos de serpente" (98) e "Missão Marte" (2000), dois fiascos retumbantes. Renegado pela indústria, o diretor acabou encontrando consolo em terras estrangeiras, mais precisamente na França: recuperando-se da má fase profissional em Paris, o diretor teve a ideia daquele que se tornaria seu próximo filme, um suspense recheado de erotismo e com uma protagonista feminina das mais fortes de sua filmografia, a ousada, corajosa e sexy Laurie Ash, interpretada com nítida satisfação pela bela Rebecca Romijn-Stamos (a Mística dos filmes "X-Men").
Depois de considerar Jennifer Lopez e Uma Thurman para o papel central -Thurman abandonou o projeto por causa da gravidez - e convencer Antonio Banderas a assumir o principal papel masculino (com a ajuda da então esposa do ator, Melanie Griffith, com quem havia trabalhado em "Dublé de corpo" e "A fogueira das vaidades"), De Palma entregou à plateia do Festival de Cannes 2002 um de seus filmes mais pessoais, recheado de algumas de suas mais marcantes características como cineasta. Em pouco menos de duas horas de duração, o espectador vê diante de si longas sequências silenciosas, movimentos de câmera criativos e surpreendentes, personagens amorais, uma edição inteligente e umas duas boas reviravoltas capazes de pegar de surpresa até o mais atento fã de cinema. Homenageando a sétima arte desde sua abertura - cenas do clássico "Pacto de sangue", de Billy Wilder, dando o tom da trama - até de forma mais explícita - com o início da história acontecendo em pleno Festival de Cannes (com direito até mesmo a participações especiais do cineasta Régis Wargnier e da atriz Sandrine Bonnnaire) - "Femme fatale" é um filme que brinca com as aparências e com as expectativas do público, emendando uma história na outra de maneira quase imperceptível, até um desfecho inesperado que comprova o talento de seu criador em romper com o trivial quando se trata de contar uma história que envolva o público.
E é impossível não se deixar envolver pelo roteiro criado por De Palma, que já começa mostrando a que veio: em suas primeiras cenas, a belíssima Laurie Ash, se aproveitando de seu status de fotógrafa credenciada pelo Festival de Cannes, seduz a acompanhante de um dos candidatos à Palma de Ouro e, com a ajuda de um grupo de comparsas, supostamente rouba as joias da atraente modelo. Supostamente. A partir do momento em que as coisas saem do controle dos mentores do golpe, o filme inicia sua jornada em conduzir o público por caminhos que trafegam sem medo pela violência, pelo erotismo e pela absoluta falta de regras. Em poucos minutos Laurie se transforma em outra mulher, mais sofisticada e ainda mais misteriosa, que vê seu passado criminoso ameaçar vir à tona pelas mãos do paparazzo Nicolas Bardo (Antonio Banderas) - um homem dividido entre a ambição de ser reconhecido profissionalmente e a atração irresistível que sente pelo alvo de sua câmera. Ele busca o sucesso e o dinheiro; ela procura salvar a pele de revelações aterradoras que podem destruir seu casamento com um homem poderoso (Peter Coyote): juntos, eles irão, despudoradamente, tentar alcançar seus objetivos, mesmo que tais sejam potencialmente contrários um ao outro. No meio desse caminho, o roteiro dá conta de esfregar na cara da plateia cenas de grande tensão sexual (Rojmin nunca esteve tão sensual e desejável) e alguns momentos puramente cinematográficos que são sua assinatura (com direito a tela repartida e ângulos inusitados).
Se existe uma falha no desenho dos personagens de "Femme fatale" - que se comportam mais como personagens do que gente de verdade, o que de certa forma é coerente com a proposta do filme - ela é plenamente compensada com a técnica empregada por Brian De Palma para grudar o espectador na cadeira até os minutos finais da sessão. Econômico na hora de dar detalhes a respeito de seus protagonistas, ele os contorna com tons fortes e simplesmente os utiliza como matéria-prima de uma profusão de sequências muito interessantes visualmente, que mantém o suspense em constante ritmo enquanto prepara um final provocativo e que deixa no ar a sensação quase tangível de desconforto. Pode não ser o melhor Brian De Palma, mas só o fato de tirar a plateia da zona de conforto já faz de "Femme fatale" um programa acima da média - um programa valorizado pela beleza e o talento fascinante de Rebecca Rojmin (ainda Stamos à época), que mostra que pode ir muito além de uma violenta mutante.
Dizer que Brian De Palma é o maior discípulo de Alfred Hitchcock produzido por Hollywood é limitar e diminuir a carreira de um dos mais interessantes cineastas norte-americanos contemporâneos, capaz tanto de obras impecáveis, como "Os intocáveis" (87), quanto de desastres monumentais - como bem podem testemunhar aqueles que tiveram de encarar a tenebrosa adaptação de "A fogueira das vaidades" (90), do romance de TomWolfe. Nem sempre feliz na escolha de seus projetos, De Palma foi obrigado a encarar um período bastante complicado em sua trajetória quando, depois do grande sucesso comercial de "Missão: impossível" (96), passou a acumular fracassos críticos e de bilheteria que minaram sua credibilidade junto ao público e aos estúdios - foi nessa época que ele enfileirou os horrorosos "Olhos de serpente" (98) e "Missão Marte" (2000), dois fiascos retumbantes. Renegado pela indústria, o diretor acabou encontrando consolo em terras estrangeiras, mais precisamente na França: recuperando-se da má fase profissional em Paris, o diretor teve a ideia daquele que se tornaria seu próximo filme, um suspense recheado de erotismo e com uma protagonista feminina das mais fortes de sua filmografia, a ousada, corajosa e sexy Laurie Ash, interpretada com nítida satisfação pela bela Rebecca Romijn-Stamos (a Mística dos filmes "X-Men").
Depois de considerar Jennifer Lopez e Uma Thurman para o papel central -Thurman abandonou o projeto por causa da gravidez - e convencer Antonio Banderas a assumir o principal papel masculino (com a ajuda da então esposa do ator, Melanie Griffith, com quem havia trabalhado em "Dublé de corpo" e "A fogueira das vaidades"), De Palma entregou à plateia do Festival de Cannes 2002 um de seus filmes mais pessoais, recheado de algumas de suas mais marcantes características como cineasta. Em pouco menos de duas horas de duração, o espectador vê diante de si longas sequências silenciosas, movimentos de câmera criativos e surpreendentes, personagens amorais, uma edição inteligente e umas duas boas reviravoltas capazes de pegar de surpresa até o mais atento fã de cinema. Homenageando a sétima arte desde sua abertura - cenas do clássico "Pacto de sangue", de Billy Wilder, dando o tom da trama - até de forma mais explícita - com o início da história acontecendo em pleno Festival de Cannes (com direito até mesmo a participações especiais do cineasta Régis Wargnier e da atriz Sandrine Bonnnaire) - "Femme fatale" é um filme que brinca com as aparências e com as expectativas do público, emendando uma história na outra de maneira quase imperceptível, até um desfecho inesperado que comprova o talento de seu criador em romper com o trivial quando se trata de contar uma história que envolva o público.
E é impossível não se deixar envolver pelo roteiro criado por De Palma, que já começa mostrando a que veio: em suas primeiras cenas, a belíssima Laurie Ash, se aproveitando de seu status de fotógrafa credenciada pelo Festival de Cannes, seduz a acompanhante de um dos candidatos à Palma de Ouro e, com a ajuda de um grupo de comparsas, supostamente rouba as joias da atraente modelo. Supostamente. A partir do momento em que as coisas saem do controle dos mentores do golpe, o filme inicia sua jornada em conduzir o público por caminhos que trafegam sem medo pela violência, pelo erotismo e pela absoluta falta de regras. Em poucos minutos Laurie se transforma em outra mulher, mais sofisticada e ainda mais misteriosa, que vê seu passado criminoso ameaçar vir à tona pelas mãos do paparazzo Nicolas Bardo (Antonio Banderas) - um homem dividido entre a ambição de ser reconhecido profissionalmente e a atração irresistível que sente pelo alvo de sua câmera. Ele busca o sucesso e o dinheiro; ela procura salvar a pele de revelações aterradoras que podem destruir seu casamento com um homem poderoso (Peter Coyote): juntos, eles irão, despudoradamente, tentar alcançar seus objetivos, mesmo que tais sejam potencialmente contrários um ao outro. No meio desse caminho, o roteiro dá conta de esfregar na cara da plateia cenas de grande tensão sexual (Rojmin nunca esteve tão sensual e desejável) e alguns momentos puramente cinematográficos que são sua assinatura (com direito a tela repartida e ângulos inusitados).
Se existe uma falha no desenho dos personagens de "Femme fatale" - que se comportam mais como personagens do que gente de verdade, o que de certa forma é coerente com a proposta do filme - ela é plenamente compensada com a técnica empregada por Brian De Palma para grudar o espectador na cadeira até os minutos finais da sessão. Econômico na hora de dar detalhes a respeito de seus protagonistas, ele os contorna com tons fortes e simplesmente os utiliza como matéria-prima de uma profusão de sequências muito interessantes visualmente, que mantém o suspense em constante ritmo enquanto prepara um final provocativo e que deixa no ar a sensação quase tangível de desconforto. Pode não ser o melhor Brian De Palma, mas só o fato de tirar a plateia da zona de conforto já faz de "Femme fatale" um programa acima da média - um programa valorizado pela beleza e o talento fascinante de Rebecca Rojmin (ainda Stamos à época), que mostra que pode ir muito além de uma violenta mutante.
segunda-feira
EVIL: RAÍZES DO MAL
EVIL: RAÍZES DO MAL (Ondskan, 2003, Moviola Film, 113min) Direção: Mikael Hafstrom. Roteiro: Hans Gunnarsson, Mikael Hafstrom, Klas Ostergren, romance de Jan Guillou. Fotografia: Peter Mokrosinski. Montagem: Darek Hodor. Música: Francis Shaw. Direção de arte: Anna Asp. Produção executiva: Kim Magnusson. Produção: Ingemar Leijonborg, Hans Lonnerheden. Elenco: Andreas Wilson, Henrik Lundstrom, Gustaf Skarsgard, Linda Zilliacus. Estreia: 16/5/03 (Festival de Cannes)
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Como normalmente acontece, o título em português de "Evil: raízes do mal" dá a impressão errada a respeito desse drama sueco indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Ao contrário do que pode parecer, a produção dirigida por Mikael Hafstrom não é um filme de terror sobre a existência do demônio e tampouco uma obra de suspense que investiga as origens da violência na alma humana. Baseado em um romance de Jan Guillou inspirado em suas próprias experiências dentro de um colégio interno masculino na Suécia, "Evil" é apenas o retrato (mais um) do ritual de passagem da adolescência para a fase adulta, centrado basicamente na luta de um jovem contra a agressividade que o cerca e frequentemente o domina. Sem maiores novidades no roteiro ou na direção, o filme de Hafstrom sustenta-se principalmente no carisma de seu ator central, Andreas Wilson, que bateu 120 concorrentes para ficar com o papel principal, o angustiado Erik Ponti.
Expulso de sua escola depois de uma briga com outro aluno, Erik - que é constantemente espancado pelo padrasto (Johan Rabaeus), com a complacência da mãe (Marie Richardson) - é matriculado em um tradicional internato masculino, cujos alunos vem de famílias abastadas ou importantes. Disposto a terminar seus estudos sem envolver-se em confusões desnecessárias, ele faz amizade com seu colega de quarto, Pierre (Henrik Lundstrom), e entra para o time de natação da escola, destacando-se rapidamente. Porém, conforme o aviso de Pierre - filho de pais ricos mas pouco popular entre os colegas - seu sucesso chama a atenção de Otto Silverhielm (Gustaf Skarsgard), um dos alunos mais antigos e líder de um grupo que determina certas regras de conduta que, mesmo abusivas, são tratadas com condescendência pelos diretores. Com inveja do sucesso de Erik, Otto começa a tentar, de todas as maneiras, forçar situações de violência que o façam romper sua carapaça pacífica - usando, inclusive, de seu conhecimento a respeito do romance entre o rapaz e Maria (Linda Zilliacus), uma das funcionárias da instituição.
Com uma narrativa linear e discreta que vai construindo gradualmente sua tensão até o clímax final - que abdica da violência pura e simples para ser coerente com sua proposta - "Evil" é um filme que tem na simplicidade um de seus maiores méritos. Ao centrar seu foco quase exclusivamente na vida escolar de Erik - com raros momentos fora do ambiente educacional - o diretor Mikael Hafstrom cria uma atmosfera claustrofóbica que permite ao espectador acompanhar, passo a passo, a trajetória do personagem rumo à maturidade emocional. Para isso, recorre tanto ao clichê mais básico (a amizade do protagonista com alguém mais frágil fisicamente) quanto a referências culturais, como a menção ao filme "Juventude transviada" (54), cuja temática de gangues adolescentes dialoga diretamente com sua trama. Discreto e inteligente, Hafstrom não exagera nem mesmo na dose de violência das brigas juvenis, apesar de serem elementos cruciais para o desenvolvimento da trama, e apresenta a relação entre Erik e Pierre com a sensibilidade adequada, sem forçar nenhuma dubiedade sobre sua natureza fraternal, como um diretor menos seguro poderia ser tentado a fazer. Erik e Pierre são amigos e parceiros leais que se veem diante de uma força que parece maior que ambos - a crueldade pura e simples - e tentam derrotá-la com suas próprias armas, mesmo que isso talvez lhes destrua a pureza ou a integridade física. E esse detalhe é que faz de "Evil" um filme acima da média.
Ao contrário do que normalmente ocorreria se fosse uma produção realizada nas entranhas da indústria hollywoodiana, "Evil" não recorre a epifanias miraculosas ou tragédias anunciadas para conquistar a simpatia da plateia para seu protagonista. Na pele de Andreas Wilson - um ator capaz de ir da tormenta à calmaria apenas com o olhar - o protagonista Erik Ponti é o reflexo perfeito de uma juventude perdida, que tenta encontrar seu eixo, mas se vê constantemente ameaçada pelo mundo que a cerca. Mikael Hafstrom trata seus personagens com o perfeito equilíbrio entre a delicadeza e o realismo, evitando interferir na dinâmica entre eles e deixando sua câmera apenas como testemunha do embate inevitável - que acontece como uma espécie de catarse, no momento certo e da maneira menos óbvia possível. Até mesmo o final (feliz?) é dúbio, agridoce e quase melancólico, uma prova de que, apesar da vitória, sempre há cicatrizes que insistem em permanecer no corpo e na alma. Não se pode deixar enganar pelo subtítulo de "Evil: raízes do mal": eis aqui um belo drama europeu sobre os conflitos da juventude, e não um subproduto de terror.
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Como normalmente acontece, o título em português de "Evil: raízes do mal" dá a impressão errada a respeito desse drama sueco indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Ao contrário do que pode parecer, a produção dirigida por Mikael Hafstrom não é um filme de terror sobre a existência do demônio e tampouco uma obra de suspense que investiga as origens da violência na alma humana. Baseado em um romance de Jan Guillou inspirado em suas próprias experiências dentro de um colégio interno masculino na Suécia, "Evil" é apenas o retrato (mais um) do ritual de passagem da adolescência para a fase adulta, centrado basicamente na luta de um jovem contra a agressividade que o cerca e frequentemente o domina. Sem maiores novidades no roteiro ou na direção, o filme de Hafstrom sustenta-se principalmente no carisma de seu ator central, Andreas Wilson, que bateu 120 concorrentes para ficar com o papel principal, o angustiado Erik Ponti.
Expulso de sua escola depois de uma briga com outro aluno, Erik - que é constantemente espancado pelo padrasto (Johan Rabaeus), com a complacência da mãe (Marie Richardson) - é matriculado em um tradicional internato masculino, cujos alunos vem de famílias abastadas ou importantes. Disposto a terminar seus estudos sem envolver-se em confusões desnecessárias, ele faz amizade com seu colega de quarto, Pierre (Henrik Lundstrom), e entra para o time de natação da escola, destacando-se rapidamente. Porém, conforme o aviso de Pierre - filho de pais ricos mas pouco popular entre os colegas - seu sucesso chama a atenção de Otto Silverhielm (Gustaf Skarsgard), um dos alunos mais antigos e líder de um grupo que determina certas regras de conduta que, mesmo abusivas, são tratadas com condescendência pelos diretores. Com inveja do sucesso de Erik, Otto começa a tentar, de todas as maneiras, forçar situações de violência que o façam romper sua carapaça pacífica - usando, inclusive, de seu conhecimento a respeito do romance entre o rapaz e Maria (Linda Zilliacus), uma das funcionárias da instituição.
Com uma narrativa linear e discreta que vai construindo gradualmente sua tensão até o clímax final - que abdica da violência pura e simples para ser coerente com sua proposta - "Evil" é um filme que tem na simplicidade um de seus maiores méritos. Ao centrar seu foco quase exclusivamente na vida escolar de Erik - com raros momentos fora do ambiente educacional - o diretor Mikael Hafstrom cria uma atmosfera claustrofóbica que permite ao espectador acompanhar, passo a passo, a trajetória do personagem rumo à maturidade emocional. Para isso, recorre tanto ao clichê mais básico (a amizade do protagonista com alguém mais frágil fisicamente) quanto a referências culturais, como a menção ao filme "Juventude transviada" (54), cuja temática de gangues adolescentes dialoga diretamente com sua trama. Discreto e inteligente, Hafstrom não exagera nem mesmo na dose de violência das brigas juvenis, apesar de serem elementos cruciais para o desenvolvimento da trama, e apresenta a relação entre Erik e Pierre com a sensibilidade adequada, sem forçar nenhuma dubiedade sobre sua natureza fraternal, como um diretor menos seguro poderia ser tentado a fazer. Erik e Pierre são amigos e parceiros leais que se veem diante de uma força que parece maior que ambos - a crueldade pura e simples - e tentam derrotá-la com suas próprias armas, mesmo que isso talvez lhes destrua a pureza ou a integridade física. E esse detalhe é que faz de "Evil" um filme acima da média.
Ao contrário do que normalmente ocorreria se fosse uma produção realizada nas entranhas da indústria hollywoodiana, "Evil" não recorre a epifanias miraculosas ou tragédias anunciadas para conquistar a simpatia da plateia para seu protagonista. Na pele de Andreas Wilson - um ator capaz de ir da tormenta à calmaria apenas com o olhar - o protagonista Erik Ponti é o reflexo perfeito de uma juventude perdida, que tenta encontrar seu eixo, mas se vê constantemente ameaçada pelo mundo que a cerca. Mikael Hafstrom trata seus personagens com o perfeito equilíbrio entre a delicadeza e o realismo, evitando interferir na dinâmica entre eles e deixando sua câmera apenas como testemunha do embate inevitável - que acontece como uma espécie de catarse, no momento certo e da maneira menos óbvia possível. Até mesmo o final (feliz?) é dúbio, agridoce e quase melancólico, uma prova de que, apesar da vitória, sempre há cicatrizes que insistem em permanecer no corpo e na alma. Não se pode deixar enganar pelo subtítulo de "Evil: raízes do mal": eis aqui um belo drama europeu sobre os conflitos da juventude, e não um subproduto de terror.
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TUDO POR AMOR (Dying young, 1991, 20th Century Fox, 111min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Richard Friedenberg, romance de Marti Leimb...
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PROPOSTA INDECENTE (Indecent proposal, 1993, Paramount Pictures, 117min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Amy Holden Jones, romance de Jack ...
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