SETE
MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE (A monster calls, 2016, Apaches
Entertainment, 108min) Direção: J.A. Bayona. Roteiro: Patrick Ness,
romance homônimo de sua autoria, ideia de Siobhan Dowd. Fotografia:
Oscar Faura. Montagem: Jaume Martí, Bernat Vilaplana. Música: Fernando
Velázquez. Figurino: Steven Noble. Direção de arte/cenários: Eugenio
Caballero/Pilar Revuelta. Produção executiva: Álvaro Augustin, Ghislain
Barrois, Sandra Hermida, Jonathan King, Enrique López Lavigne, Patrick
Ness, Bill Pohlad, Jeff Skoll, Patrick Wachsberger. Produção: Belén
Atienza. Elenco: Lewis MacDougall, Felicity Jones, Sigourney Weaver,
Liam Neeson, Toby Kebell, Geraldine Chaplin. Estreia: 09/9/16 (Festival
de Toronto)
Aplaudido pelo mundo já em seu primeiro longa-metragem - o assustador "O orfanato" (2007) - e posteriormente
taxado de "o Steven Spielberg espanhol" por causa do sucesso de "O
impossível" (2012), que deu uma indicação ao Oscar de melhor atriz à
Naomi Watts, J.A. Bayona volta a mostrar sensibilidade na manipulação
das emoções humanas (e principalmente infantis) em "Sete minutos depois
da meia-noite", um impressionante e comovente drama de fantasia que,
assim como "O labirinto do fauno" (2006), do mexicano Guillermo Del
Toro, é uma ode à força da imaginação contra as tragédias do dia-a-dia.
Ao contrário do premiado filme de Del Toro, porém, o filme de Bayona não
fez tanto barulho nas bilheterias (cobriu seu orçamento apenas com a
ajuda da arrecadação mundial) e foi solenemente ignorado pelo Oscar. Tal
descaso, no entanto, não reflete nem de longe sua imensa qualidade:
"Sete minutos depois da meia-noite" é um dos mais inteligentes e
criativos filmes dos últimos anos, um devastador drama sobre
amadurecimento disfarçado de aventura juvenil.
Inspirado
em um livro infantil iniciado por Siobhan Dowd e finalizado por Patrick
Ness após a morte do autor original, "Sete minutos depois da
meia-noite" é um espetáculo visual de primeira linha à serviço de uma
história fascinante e avassaladora, que trata de assuntos espinhosos com
o verniz da fantasia e da imaginação pueril. O protagonista é Connor
O'Malley (Lewis MacDougall), um menino irlandês de doze anos que está
passando pelo pior período de sua curta existência: sua mãe (Felicity
Jones, de "A teoria de tudo") está enfrentando um câncer terminal que a
impede de conviver com ele de modo ideal; seu pai (Toby Kebell, de
"Black Mirror") mora nos EUA com a nova família e não tem planos de
incluí-lo em sua vida; sua avó (Sigourney Weaver), com quem não tem a
melhor das relações, quer obrigá-lo a morar com ela; e na escola, ele
sofre constante bullying por parte dos colegas mais fortes. Em uma
noite, exatamente às 12:07, Connor recebe a visita de um monstro
gigantesco em formato de árvore que avisa que irá visitá-lo sempre no
mesmo horário para lhe contar três histórias que poderão lhe ajudar
nessa fase da vida. O monstro completa o aviso informando-o também de
que a última história será de sua autoria - e deverá explicar os motivos
de seus pesadelos.
De
forma brilhante e surpreendente, Bayona transforma um conto de solidão e
trauma em um show de efeitos especiais que, ao invés de eclipsar a
força da história, sublinha seu tom lúdico e fantástico. As narrativas
do monstro são apresentadas em formato de animação, mas nada de esperar a
estética Pixar ou Disney: o cineasta utiliza de cada uma das fábulas da
apavorante criatura (com a voz de Liam Neeson e feições que vão se
tornando mais humanas conforme a trama avança) para analisar, de maneira
poética mas bastante contundente, todos os medos e sentimentos de
Connor (e, por conseguinte, de boa parte da plateia, adulta ou não). Ao
questionar fundamentos essenciais, como a bondade, a compaixão e a
raiva, o roteiro do mesmo Patrick Ness que terminou o livro vai
fortalecendo o caráter de seu protagonista e preparando-o para enfrentar
o maior desafio de sua vida, que é encarar a morte da mãe e a
maturidade precoce. É admirável os meios encontrados por Bayona e sua
equipe em equilibrar tão organicamente a vida real de Connor e sua
imaginação sem deixar que nenhuma das linhas narrativas sobreponha-se à
outra - e mais importante ainda, que consiga fazer com que ambas se
conectem tão naturalmente até o final, de uma tristeza profunda, mas
dono de uma beleza incontestável.
Contando com um
excepcional ator juvenil no papel principal - Lewis McDougall, que
também participou do exótico "Peter Pan" (2015), de Joe Wright - e
veteranos competentes entre os coadjuvantes - como Sigourney Weaver como
sua irascível avó e Geraldine Chaplin, uma espécie de amuleto de sorte
do diretor, tendo feito pontas em seus três trabalhos até aqui - "Sete
minutos depois da meia-noite" surge como um dos melhores filmes de sua
temporada. Com um roteiro de ritmo preciso e equilibrado, um visual
acachapante e o tom emocional acertadamente adequado a uma história que
mira em vários tipos de plateia, o filme de Bayona é um triunfo em todos
os aspectos, capaz de cativar qualquer espectador disposto a mergulhar
em uma narrativa repleta de simbolismos e metáforas que, longe de
aborrecer ou confundir, apenas valorizam a beleza de suas intenções e de
sua realização. Imperdível!
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade. Afinal, a sétima arte não tem esse nome à toa.
quinta-feira
quarta-feira
O QUE VIER
O
QUE ESTÁ POR VIR (L'avenir, 2016, Les Films du Losange, 102min) Direção
e roteiro: Mia Hansen-Love. Fotografia: Denis Lenoir. Montagem: Marion
Monnier. Figurino: Rachel Raoult. Direção de arte: Anna Falguères.
Produção: Charles Gillibert. Elenco: Isabelle Huppert, André Marcon,
Roman Kolinka, Edith Scob. Estreia: 13/02/16 (Festival de Berlim)
Que Isabelle Huppert é uma das maiores atrizes francesas de sua geração não é segredo para nenhum fã de cinema que acompanha os festivais internacionais desde o final dos anos 70, quando ganhou sua primeira Palma de Ouro no Festival de Cannes pelo filme "Violette" (78). Indicada dezesseis vezes ao César (o Oscar francês) e premiada com a estatueta em 1996, por "Mulheres diabólicas", ela teve seu enorme talento finalmente revelado ao grande público em 2016, quando arrebatou um Golden Globe e uma merecida indicação ao Oscar por seu irretocável desempenho em "Elle". Por mais que seu trabalho no filme de Paul Verhoeven seja sensacional, no entanto, ele foi apenas parte de um ano glorioso, que também mostrou às plateias outra atuação digna de prêmios. Em "O que está por vir", escrito e dirigido por Mia Hansen-Love, ela também encantou a crítica e causou um arrastão de prêmios - em Los Angeles, Nova York e Londres ela saiu vitoriosa, por sua capacidade de dar vida tanto à vítima de abuso sexual do filme homenageado pela Academia quanto à professora que tem sua vida comum transformada por uma série de pequenos dramas familiares.
Inspirada pela vida de sua própria mãe, Hansen-Love constrói um filme tipicamente francês, com tudo que isso tem de bom e de ruim. Da profissão da protagonista - professora de filosofia - até a forma com que ela encara os desafios que são postos diante de si - com muita conversa e poucas lágrimas - tudo em "O que está por vir" trai sua origem. Por esse motivo, é difícil imaginar outra atriz mais adequada ao papel principal do que Huppert, que não hesita em explorar todas as suas nuances dramáticas para retratar o desespero e a melancolia de uma mulher que percebe que todas as coisas que pensava estar sob controle estão desmoronando à sua volta. Com simples olhares e entonações de voz, ela comanda uma orquestra de emoções internas, como um espetáculo minimalista cuja principal matéria-prima é a vida como ela é, sem maiores sobressaltos ou reviravoltas mirabolantes.
A protagonista é Nathalie Chazeaux, uma dedicada e experiente professora de filosofia, que encanta aos alunos com sua inteligência e carisma. Bem-casada e mãe de dois filhos universitários, ela passa os dias lidando com as exigências da carreira docente e os cuidados com a mãe, Yvette (Edith Scob), que recusa a ideia de ser internada em um abrigo para idosos doentes mesmo estando com a saúde bastante debilitada. Admirada e referência para antigos alunos, como o jovem Fabien (Roman Kolinka), Nathalie subitamente começa a ver seu mundo aparentemente perfeito ruir diante de seus olhos: seu marido, Heinz (André Marcon), lhe comunica que tem uma amante e que está apaixonado por ela. Sua mãe tem o estado de saúde agravado. E seu último refúgio, o trabalho, passa a ser ameaçado por novas propostas educacionais - que lhe consideram obsoleta e ultrapassada diante das novas formas de pensar a filosofia. Depois que sua mãe morre, ela redescobre a liberdade, mas não sabe exatamente o que fazer com ela.
Em ritmo contemplativo, suave e delicado como sua protagonista, "O que vier" é, ao mesmo tempo, uma ode ao futuro e um olhar melancólico para o passado. Mia Hansen-Love imprime em cada cena um tom de tranquilidade que se aproveita das belas paisagens de Paris e do interior da França como moldura para as transformações pelas quais passa Nathalie. Antiga defensora de ideias libertárias e de esquerda e na meia-idade uma mulher mais acomodada com a vida burguesa (ou apenas mais madura e consciente de suas escolhas de vida), ela encontra confronto mais com as discussões idealistas com o ex-aluno Fabien do que com o ex-marido adúltero - uma forma nítida da cineasta em mostrar que, para Nathalie, importa mais a força e a vitalidade da juventude do que os esqueletos de um passado que não volta mais. Uma personagem forte e determinada, Nathalie é uma das mais leves criações da carreira de Isabelle Huppert - um gol feito em parceria com a direção discreta de Hansen-Love, que jamais descamba para o dramalhão lacrimoso mesmo quando tudo aponta para soluções melodramáticas e excessivas. "O que vier" é um filme para quem gosta do bom cinema francês - aqueles que não conseguem encantar-se com seu ritmo próprio, portanto, devem evitá-lo. Ainda que Huppert valha qualquer sacrifício.
Que Isabelle Huppert é uma das maiores atrizes francesas de sua geração não é segredo para nenhum fã de cinema que acompanha os festivais internacionais desde o final dos anos 70, quando ganhou sua primeira Palma de Ouro no Festival de Cannes pelo filme "Violette" (78). Indicada dezesseis vezes ao César (o Oscar francês) e premiada com a estatueta em 1996, por "Mulheres diabólicas", ela teve seu enorme talento finalmente revelado ao grande público em 2016, quando arrebatou um Golden Globe e uma merecida indicação ao Oscar por seu irretocável desempenho em "Elle". Por mais que seu trabalho no filme de Paul Verhoeven seja sensacional, no entanto, ele foi apenas parte de um ano glorioso, que também mostrou às plateias outra atuação digna de prêmios. Em "O que está por vir", escrito e dirigido por Mia Hansen-Love, ela também encantou a crítica e causou um arrastão de prêmios - em Los Angeles, Nova York e Londres ela saiu vitoriosa, por sua capacidade de dar vida tanto à vítima de abuso sexual do filme homenageado pela Academia quanto à professora que tem sua vida comum transformada por uma série de pequenos dramas familiares.
Inspirada pela vida de sua própria mãe, Hansen-Love constrói um filme tipicamente francês, com tudo que isso tem de bom e de ruim. Da profissão da protagonista - professora de filosofia - até a forma com que ela encara os desafios que são postos diante de si - com muita conversa e poucas lágrimas - tudo em "O que está por vir" trai sua origem. Por esse motivo, é difícil imaginar outra atriz mais adequada ao papel principal do que Huppert, que não hesita em explorar todas as suas nuances dramáticas para retratar o desespero e a melancolia de uma mulher que percebe que todas as coisas que pensava estar sob controle estão desmoronando à sua volta. Com simples olhares e entonações de voz, ela comanda uma orquestra de emoções internas, como um espetáculo minimalista cuja principal matéria-prima é a vida como ela é, sem maiores sobressaltos ou reviravoltas mirabolantes.
A protagonista é Nathalie Chazeaux, uma dedicada e experiente professora de filosofia, que encanta aos alunos com sua inteligência e carisma. Bem-casada e mãe de dois filhos universitários, ela passa os dias lidando com as exigências da carreira docente e os cuidados com a mãe, Yvette (Edith Scob), que recusa a ideia de ser internada em um abrigo para idosos doentes mesmo estando com a saúde bastante debilitada. Admirada e referência para antigos alunos, como o jovem Fabien (Roman Kolinka), Nathalie subitamente começa a ver seu mundo aparentemente perfeito ruir diante de seus olhos: seu marido, Heinz (André Marcon), lhe comunica que tem uma amante e que está apaixonado por ela. Sua mãe tem o estado de saúde agravado. E seu último refúgio, o trabalho, passa a ser ameaçado por novas propostas educacionais - que lhe consideram obsoleta e ultrapassada diante das novas formas de pensar a filosofia. Depois que sua mãe morre, ela redescobre a liberdade, mas não sabe exatamente o que fazer com ela.
Em ritmo contemplativo, suave e delicado como sua protagonista, "O que vier" é, ao mesmo tempo, uma ode ao futuro e um olhar melancólico para o passado. Mia Hansen-Love imprime em cada cena um tom de tranquilidade que se aproveita das belas paisagens de Paris e do interior da França como moldura para as transformações pelas quais passa Nathalie. Antiga defensora de ideias libertárias e de esquerda e na meia-idade uma mulher mais acomodada com a vida burguesa (ou apenas mais madura e consciente de suas escolhas de vida), ela encontra confronto mais com as discussões idealistas com o ex-aluno Fabien do que com o ex-marido adúltero - uma forma nítida da cineasta em mostrar que, para Nathalie, importa mais a força e a vitalidade da juventude do que os esqueletos de um passado que não volta mais. Uma personagem forte e determinada, Nathalie é uma das mais leves criações da carreira de Isabelle Huppert - um gol feito em parceria com a direção discreta de Hansen-Love, que jamais descamba para o dramalhão lacrimoso mesmo quando tudo aponta para soluções melodramáticas e excessivas. "O que vier" é um filme para quem gosta do bom cinema francês - aqueles que não conseguem encantar-se com seu ritmo próprio, portanto, devem evitá-lo. Ainda que Huppert valha qualquer sacrifício.
terça-feira
AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL
Sempre que um livro ou filme tenta "definir" uma geração ou descrevê-la com intenções sociológicas corre o sério risco de uma generalização oca e simplista. A sorte é que, apesar da desvantagem numérica, para cada dezena de bombas metidas a profundas surge uma pérola capaz de devolver aos cinéfilos a esperança e o sorriso. É o que acontece com "As vantagens de ser invisível", a delicada, terna e sensível adaptação de um romance... delicado, terno e sensível, que narra as aventuras de um adolescente desajustado quando finalmente encontra em uma dupla de meio-irmãos a turma pela qual sempre ansiou. Escrito e dirigido pelo mesmo Stephen Chbosky que escreveu o livro que lhe deu origem, o filme conquista o espectador principalmente por jamais tentar parecer mais do que é: um simples entretenimento de qualidade - ainda que justamente essa sua discrição o eleve acima da média do gênero e o faça ser interessante até mesmo por quem já saiu da faixa etária de seu público-alvo há um bom tempo.
O protagonista do filme é o tímido Charlie (interpretado com sutileza e talento por Logan Lerman), um rapaz de 16 anos com um pesado histórico de problemas psicológicos, que carrega consigo o trauma da morte de uma tia querida (Melanie Linskey, a paixão de Kate Winslet em "Almas gêmeas") e um profundo desajuste ao mundo que o cerca. Inteligente e dedicado, ele chega em uma escola nova e logo faz amizade com o professor de Inglês (Paul Rudd), que se comunica com ele através de alguns livros clássicos que o fazem perceber o mundo à sua volta. Mas o que acaba sendo mais importante que tudo é seu encontro com Sam (Emma Watson, deixando a Hermione da série "Harry Potter" pra trás) e Patrick (Ezra Miller, de "Precisamos falar sobre o Kevin"), dois jovens que não se importam em seguir as regras pré-estabelecidas e, por consequência, não chegam a ser os mais populares da escola: ela vem de uma série de fofocas a respeito de seu comportamento promíscuo e ele vive um relacionamento escondido com o esportista Brad (Johnny Simmons) e não faz questão de esconder sua sexualidade. Ao lado dos novos amigos - em especial Sam, por quem se apaixona - Charlie passa a ter uma nova visão da vida e de si mesmo.
Apesar de sua trama não parecer exatamente empolgante - e chegar perigosamente perto de todos os clichês que sufocam o gênero - "As vantagens de ser invisível" tem a seu favor a delicadeza com que Chbosky trata suas personagens e a maneira com que jamais as julga. Mesmo que as atitudes de Sam e Patrick (e até mesmo algumas de Charlie) não sejam exemplares, elas não soam artificiais nem tampouco forçadas, boa parte devido à sensibilidade com que o escritor/cineasta conduz as interpretações de seu elenco juvenil. Enquanto Emma Watson demonstra uma segurança de veterana a despeito de sua pouca idade e Ezra Miller exercita novamente sua veia rebelde, o novato Logan Lerman seduz a audiência com uma aura de inocência convincente como poucas vezes o cinema registrou. É difícil ficar imune ao charme e à beleza de suas cenas com Watson, que transmitem a sensação exata do primeiro amor e das descobertas a respeito da vida e das relações - o que a bela trilha sonora ainda reitera com precisão, em especial quando David Bowie solta a voz na bela "Heroes", que ilustra com perfeição os sentimentos dos protagonistas e sintomaticamente comenta uma das mais belas sequências do filme.
Tratando de assuntos polêmicos - drogas, homossexualidade, rebeldia juvenil - com respeito e nunca ultrapassando os limites do bom-gosto e da discrição, Chbosky faz um gol de placa já em sua segunda incursão às telas, e demonstra habilidade em dirigir seus atores - vale lembrar que o elenco ainda inclui Joan Cusack e Dylan McDermott, que, mesmo em papéis pequenos, se saem bastante bem. Feito com o objetivo de não decepcionar os (muitos) fãs do livro, "As vantagens de ser invisível" acaba por se tornar independente de sua origem literária: é um dos grandes pequenos filmes de 2012.
segunda-feira
O FILHO ETERNO
O FILHO ETERNO (O filho eterno, 2016, RT Features, 82min) Direção: Paulo Machline. Roteiro: Leonardo Levis, livro de Cristóvão Tezza. Fotografia: Carlos Firmino. Montagem: Olivia Brenga. Música: Guilherme Garbato, Gustavo Garbato. Figurino: Maria Barbalho. Direção de arte: Rodrigo Alonso, Isabelle Bittencourt. Produção executiva: Ana Kormanski, Marisa Merlo, Raphael Mesquita, Daniel Pech. Produção: Rodrigo Teixeira. Elenco: Marcos Veras, Débora Falabella, Pedro Vinícius. Estreia: 11/10/16
Sucesso de vendas nas livrarias e êxito de público com sua adaptação teatral, "O filho eterno", do escritor catarinense Cristóvão Tezza apresenta uma história difícil, triste e sofrida. Mas, acima de tudo, encontra na redenção, no amor incondicional entre pai e filho e no amadurecimento pessoal, uma luz brilhante e reconfortante diante de um cenário de angústia e desesperança. Dirigida pelo mesmo Paulo Machline que levou às telas a trajetória do carnavalesco mais conhecido do país, em "Trinta", a versão para o cinema do livro de Tezza mantém, graças ao roteiro de Leonardo Levis, a essência da obra original: sua sobriedade e falta de sentimentalismo ao tratar de um assunto que poderia facilmente render um legítimo arranca-lágrimas. Sob o ponto de vista de Roberto, um escritor que precisa lidar com a notícia de que seu filho recém-nascido é portador da Síndrome de Down, a narrativa de Levis e Machline jamais escorrega no piegas, em boa parte graças à inusitada escolha de Marcos Veras para o papel principal.
Mais conhecido por seus trabalhos no terreno do humor, Veras surpreende em um papel dramático que exige mais do que simplesmente imprimir seriedade a uma trama suficientemente comovente. Sem exagerar nas tintas - com a possível exceção do clichê visual da fumaça de cigarro envolvendo invariavelmente seus momentos profissionais - e com a ingrata missão de não deixar que seu personagem soe um tanto monstruoso, o ator entrega um desempenho admirável e desprovido de quaisquer vícios. Melhor ainda, ele consegue tornar humanas e compreensíveis suas atitudes, por mais chocantes que pareçam a princípio - e elas são realmente inacreditáveis: assim que sabe que seu bebê é portador da deficiência, por exemplo, Roberto encontra alívio na expectativa de que se cumpra um vaticínio médico que encontra em suas pesquisas pessoais, que diz que crianças nascidas com esse problema "morrem cedo". Seu misto de decepção e revolta com o destino que lhe é imputado com a inesperada condição de seu filho - nascido em meio à euforia da Copa do Mundo de 1982, uma metáfora esportiva interessante mas que acaba por perder-se no decorrer da história - é o pilar de sustentação do filme, e Veras não hesita em emprestar toda a sua garra em honrar o material que tem em mãos.
Com algumas modificações pontuais em relação ao livro, "O filho eterno" talvez tenha na presença de Débora Falabella a principal delas: enquanto nas páginas a mãe do pequeno Fabrício é praticamente esquecida pelas digressões do escritor/narrador/protagonista, no filme de Machline ela não apenas ganha um nome (Cláudia) como serve como uma âncora ao turbilhão emocional de Roberto. Ainda que praticamente esteja em cena como contraponto aos sentimentos negativos do marido - é tranquila, amorosa, paciente e dedicada - a personagem oferece à Falabella um de seus melhores momentos no cinema, principalmente por conseguir expandir as limitações de coadjuvante e ser dona de uma das mais emocionantes cenas do longa, em uma dolorosa conversa em que revela seu amor incondicional ao filho. É um dos raros momentos em que o filme se permite, ainda que rapidamente, mostrar um lado menos racional - e é onde, de certa forma, começa uma transformação radical no relacionamento entre pai e filho.
Sucinto e infelizmente superficial em alguns momentos, "O filho eterno" sofre pela pressa do roteiro em resolver suas questões, privando o espectador de mergulhar mais a fundo na emoção de uma história que poderia render uma obra inesquecível. A própria transformação de Roberto - que passa de revoltado e desgostoso a um pai amoroso e apaixonado - surge de forma pouco orgânica na tela, quase repentina e sem maior verossimilhança, apesar dos esforços do elenco. Sua relação extra-conjugal tampouco oferece respiro à sufocante trama central, servindo apenas como uma espécie de desvio da rota principal e que, apesar das consequências, não chega a atingir todo o seu potencial dramático. Essa ansiedade do roteiro em solucionar seus problemas sem examiná-los a fundo é o grande calcanhar de Aquiles do filme, de resto dono de qualidades admiráveis. Do elenco bem escalado - o encantador Pedro Vinícius sai-se muito bem como o pequeno Fabrício - à produção caprichada, com direito à reconstituição de época sutil mas detalhista, "O filho eterno" é mais uma prova de que é possível fazer bom cinema no Brasil mesmo nadando contra a corrente do que é considerado comercialmente eficaz. Uma boa polida no roteiro e uma construção mais firme dos personagens e seria um grande filme. Como está, é louvável, mas não excepcional.
Sucesso de vendas nas livrarias e êxito de público com sua adaptação teatral, "O filho eterno", do escritor catarinense Cristóvão Tezza apresenta uma história difícil, triste e sofrida. Mas, acima de tudo, encontra na redenção, no amor incondicional entre pai e filho e no amadurecimento pessoal, uma luz brilhante e reconfortante diante de um cenário de angústia e desesperança. Dirigida pelo mesmo Paulo Machline que levou às telas a trajetória do carnavalesco mais conhecido do país, em "Trinta", a versão para o cinema do livro de Tezza mantém, graças ao roteiro de Leonardo Levis, a essência da obra original: sua sobriedade e falta de sentimentalismo ao tratar de um assunto que poderia facilmente render um legítimo arranca-lágrimas. Sob o ponto de vista de Roberto, um escritor que precisa lidar com a notícia de que seu filho recém-nascido é portador da Síndrome de Down, a narrativa de Levis e Machline jamais escorrega no piegas, em boa parte graças à inusitada escolha de Marcos Veras para o papel principal.
Mais conhecido por seus trabalhos no terreno do humor, Veras surpreende em um papel dramático que exige mais do que simplesmente imprimir seriedade a uma trama suficientemente comovente. Sem exagerar nas tintas - com a possível exceção do clichê visual da fumaça de cigarro envolvendo invariavelmente seus momentos profissionais - e com a ingrata missão de não deixar que seu personagem soe um tanto monstruoso, o ator entrega um desempenho admirável e desprovido de quaisquer vícios. Melhor ainda, ele consegue tornar humanas e compreensíveis suas atitudes, por mais chocantes que pareçam a princípio - e elas são realmente inacreditáveis: assim que sabe que seu bebê é portador da deficiência, por exemplo, Roberto encontra alívio na expectativa de que se cumpra um vaticínio médico que encontra em suas pesquisas pessoais, que diz que crianças nascidas com esse problema "morrem cedo". Seu misto de decepção e revolta com o destino que lhe é imputado com a inesperada condição de seu filho - nascido em meio à euforia da Copa do Mundo de 1982, uma metáfora esportiva interessante mas que acaba por perder-se no decorrer da história - é o pilar de sustentação do filme, e Veras não hesita em emprestar toda a sua garra em honrar o material que tem em mãos.
Com algumas modificações pontuais em relação ao livro, "O filho eterno" talvez tenha na presença de Débora Falabella a principal delas: enquanto nas páginas a mãe do pequeno Fabrício é praticamente esquecida pelas digressões do escritor/narrador/protagonista, no filme de Machline ela não apenas ganha um nome (Cláudia) como serve como uma âncora ao turbilhão emocional de Roberto. Ainda que praticamente esteja em cena como contraponto aos sentimentos negativos do marido - é tranquila, amorosa, paciente e dedicada - a personagem oferece à Falabella um de seus melhores momentos no cinema, principalmente por conseguir expandir as limitações de coadjuvante e ser dona de uma das mais emocionantes cenas do longa, em uma dolorosa conversa em que revela seu amor incondicional ao filho. É um dos raros momentos em que o filme se permite, ainda que rapidamente, mostrar um lado menos racional - e é onde, de certa forma, começa uma transformação radical no relacionamento entre pai e filho.
Sucinto e infelizmente superficial em alguns momentos, "O filho eterno" sofre pela pressa do roteiro em resolver suas questões, privando o espectador de mergulhar mais a fundo na emoção de uma história que poderia render uma obra inesquecível. A própria transformação de Roberto - que passa de revoltado e desgostoso a um pai amoroso e apaixonado - surge de forma pouco orgânica na tela, quase repentina e sem maior verossimilhança, apesar dos esforços do elenco. Sua relação extra-conjugal tampouco oferece respiro à sufocante trama central, servindo apenas como uma espécie de desvio da rota principal e que, apesar das consequências, não chega a atingir todo o seu potencial dramático. Essa ansiedade do roteiro em solucionar seus problemas sem examiná-los a fundo é o grande calcanhar de Aquiles do filme, de resto dono de qualidades admiráveis. Do elenco bem escalado - o encantador Pedro Vinícius sai-se muito bem como o pequeno Fabrício - à produção caprichada, com direito à reconstituição de época sutil mas detalhista, "O filho eterno" é mais uma prova de que é possível fazer bom cinema no Brasil mesmo nadando contra a corrente do que é considerado comercialmente eficaz. Uma boa polida no roteiro e uma construção mais firme dos personagens e seria um grande filme. Como está, é louvável, mas não excepcional.
domingo
OS 3
OS 3 (Os 3, 2011, Warner Bros/Teleimage/Cinema SportClub, 80min) Direção: Nando Olival. Roteiro: Thiago Dottori, Nando Olival. Fotografia: Ricardo Della Rosa. Montagem: Daniel Rezende. Figurino: Pamela Tomioka. Direção de arte: Clô Azevedo. Produção executiva: Claudia Buschel, Wellington Pingo. Produção: Nando Olival, Ricardo Della Rosa. Elenco: Gabriel Godoy, Victor Mendes, Juliana Schalch, Sophia Reis. Estreia: 07/10/11
Cazé, Camila e Rafael são jovens universitários recém-chegados à São Paulo, com sonhos e objetivos bem definidos, mas sem muitas condições financeiras para sustentá-los além do básico. Em uma festa, se conhecem, se conectam imediatamente, tornam-se amigos e resolvem dividir um amplo apartamento em um prédio pouco atraente da capital. Para evitar quaisquer complicações futuras, combinam evitar qualquer envolvimento emocional ou sexual entre eles, que passam a ser conhecidos na faculdade como "Os 3", tamanho o grau de sua proximidade. No final do período de faculdade, quando a separação parece inevitável - e o trato de manterem-se imunes a tentações da carne já foi rompido e revelado - eles recebem uma proposta irrecusável: participarem de um reality show cujo tema é suas próprias vidas. O objetivo, além de atingir um público que acompanharia seus passos 24 horas por dia através da Internet, é vender os objetos consumidos em seu dia-a-dia. Porém, o que parecia uma ideia simples se torna cada vez mais complicada quando os amigos percebem que, para manterem suas personalidades, serão obrigados (por eles mesmos) a criar personagens e situações que prendam o interesse dos espectadores. Aos poucos, nem mesmo eles passam a discernir o que é real e o que é encenação.
Com essa premissa atual, instigante e por vezes surreal, o cineasta Nando Olival fez sua estreia como diretor-solo, depois de dividir a direção de "Domésticas" (2001) com Fernando Meirelles. Em "Os 3" ele faz uso de uma estética contemporânea e uma edição ágil para enfatizar o tom de urgência e efemeridade de uma geração cujo comportamento está intimamente ligado à tecnologia e às redes sociais e são exemplos claros da famosa "modernidade líquida" de que falava o filósofo polonês Zygmunt Bauman. Sem soar panfletário ou didático, Olival conta uma história universal sem abandonar as raízes brasileiras, utilizando São Paulo e seu ambiente muitas vezes opressivo como um quarto protagonista: mesmo que a trama pudesse se passar em qualquer outra metrópole, a terra da garoa serve como moldura perfeita para uma narrativa que frequentemente esbarra em uma quase claustrofobia emocional e física e que, conforme vai se desenvolvendo, substitui a leveza inicial por um minimalista pesadelo orwelliano. Ainda assim, apesar da seriedade do tema e de levantar uma série de questionamentos pertinentes, o filme não deixa de ser, em momento algum, o que pretende ser: entretenimento.
Com um trio de protagonistas bastante talentosos, "Os 3" demonstra, em pouco menos de uma hora e meia, que não é preciso um elenco repleto de astros globais para contar uma história interessante - ainda que Gabriel Godoy, que vive Cazé, tenha posteriormente entrado no elenco de duas novelas, em papel de destaque. Com uma química que é essencial para o bom funcionamento do roteiro (sucinto e que acertadamente muda de tom quando a trajetória dos personagens desvia do rumo inicial), Godoy e seus parceiros de cena, Victor Mendes (como Rafael) e Juliana Schalch (no papel de Camila) convencem plenamente em todas as fases de sua aventura fraternal/amorosa/profissional, exalando juventude e sentimento em cada cena e transmitindo todas as sensações que surgem de sua bizarra situação com segurança de veteranos. Mesmo que às vezes o roteiro demonstre certa pressa em resolver questões que poderiam render muito mais, esse é um pecado quase insignificante diante de sua coragem em romper com a ditadura das comédias populares ou filmes de favela que dominam o cinema brasileiro e com a qualidade de seu acabamento - a fotografia de Ricardo Della Rosa e a montagem de Daniel Rezende (indicado ao Oscar por "Cidade de Deus") são primorosas e é impossível não reparar no cuidado com a seleção de atores, desde os principais até os coadjuvantes.
À época de seu lançamento nos cinemas, "Os 3" foi comparado à "Os sonhadores", do italiano Bernardo Bertolucci. As semelhanças, porém, ficam restritas ao fato de ambos os filmes centrarem suas tramas em um trio de protagonistas vivendo em proximidade irrestrita. Enquanto a obra de Bertolucci tem pretensões artísticas que beiram o pedantismo, o filme de Nando Olival assume um tom bem menos ambicioso, com raízes mais naturalistas e uma identificação orgânica com a plateia, especialmente a mais jovem. Ao temperar sua trama com intervenções cada vez mais frequentes dos patrocinadores do programa - o que acaba por atormentar gradualmente a mente dos protagonistas - Olival torna imprevisível os rumos de sua narrativa e tem a inteligência de não estendê-la em demasia. Essa opção de encerrar seu filme quase abruptamente é o único senão de uma obra agradável, inteligente e com muito mais a dizer do que pode parecer a princípio. Um filme para ser descoberto!
Cazé, Camila e Rafael são jovens universitários recém-chegados à São Paulo, com sonhos e objetivos bem definidos, mas sem muitas condições financeiras para sustentá-los além do básico. Em uma festa, se conhecem, se conectam imediatamente, tornam-se amigos e resolvem dividir um amplo apartamento em um prédio pouco atraente da capital. Para evitar quaisquer complicações futuras, combinam evitar qualquer envolvimento emocional ou sexual entre eles, que passam a ser conhecidos na faculdade como "Os 3", tamanho o grau de sua proximidade. No final do período de faculdade, quando a separação parece inevitável - e o trato de manterem-se imunes a tentações da carne já foi rompido e revelado - eles recebem uma proposta irrecusável: participarem de um reality show cujo tema é suas próprias vidas. O objetivo, além de atingir um público que acompanharia seus passos 24 horas por dia através da Internet, é vender os objetos consumidos em seu dia-a-dia. Porém, o que parecia uma ideia simples se torna cada vez mais complicada quando os amigos percebem que, para manterem suas personalidades, serão obrigados (por eles mesmos) a criar personagens e situações que prendam o interesse dos espectadores. Aos poucos, nem mesmo eles passam a discernir o que é real e o que é encenação.
Com essa premissa atual, instigante e por vezes surreal, o cineasta Nando Olival fez sua estreia como diretor-solo, depois de dividir a direção de "Domésticas" (2001) com Fernando Meirelles. Em "Os 3" ele faz uso de uma estética contemporânea e uma edição ágil para enfatizar o tom de urgência e efemeridade de uma geração cujo comportamento está intimamente ligado à tecnologia e às redes sociais e são exemplos claros da famosa "modernidade líquida" de que falava o filósofo polonês Zygmunt Bauman. Sem soar panfletário ou didático, Olival conta uma história universal sem abandonar as raízes brasileiras, utilizando São Paulo e seu ambiente muitas vezes opressivo como um quarto protagonista: mesmo que a trama pudesse se passar em qualquer outra metrópole, a terra da garoa serve como moldura perfeita para uma narrativa que frequentemente esbarra em uma quase claustrofobia emocional e física e que, conforme vai se desenvolvendo, substitui a leveza inicial por um minimalista pesadelo orwelliano. Ainda assim, apesar da seriedade do tema e de levantar uma série de questionamentos pertinentes, o filme não deixa de ser, em momento algum, o que pretende ser: entretenimento.
Com um trio de protagonistas bastante talentosos, "Os 3" demonstra, em pouco menos de uma hora e meia, que não é preciso um elenco repleto de astros globais para contar uma história interessante - ainda que Gabriel Godoy, que vive Cazé, tenha posteriormente entrado no elenco de duas novelas, em papel de destaque. Com uma química que é essencial para o bom funcionamento do roteiro (sucinto e que acertadamente muda de tom quando a trajetória dos personagens desvia do rumo inicial), Godoy e seus parceiros de cena, Victor Mendes (como Rafael) e Juliana Schalch (no papel de Camila) convencem plenamente em todas as fases de sua aventura fraternal/amorosa/profissional, exalando juventude e sentimento em cada cena e transmitindo todas as sensações que surgem de sua bizarra situação com segurança de veteranos. Mesmo que às vezes o roteiro demonstre certa pressa em resolver questões que poderiam render muito mais, esse é um pecado quase insignificante diante de sua coragem em romper com a ditadura das comédias populares ou filmes de favela que dominam o cinema brasileiro e com a qualidade de seu acabamento - a fotografia de Ricardo Della Rosa e a montagem de Daniel Rezende (indicado ao Oscar por "Cidade de Deus") são primorosas e é impossível não reparar no cuidado com a seleção de atores, desde os principais até os coadjuvantes.
À época de seu lançamento nos cinemas, "Os 3" foi comparado à "Os sonhadores", do italiano Bernardo Bertolucci. As semelhanças, porém, ficam restritas ao fato de ambos os filmes centrarem suas tramas em um trio de protagonistas vivendo em proximidade irrestrita. Enquanto a obra de Bertolucci tem pretensões artísticas que beiram o pedantismo, o filme de Nando Olival assume um tom bem menos ambicioso, com raízes mais naturalistas e uma identificação orgânica com a plateia, especialmente a mais jovem. Ao temperar sua trama com intervenções cada vez mais frequentes dos patrocinadores do programa - o que acaba por atormentar gradualmente a mente dos protagonistas - Olival torna imprevisível os rumos de sua narrativa e tem a inteligência de não estendê-la em demasia. Essa opção de encerrar seu filme quase abruptamente é o único senão de uma obra agradável, inteligente e com muito mais a dizer do que pode parecer a princípio. Um filme para ser descoberto!
sexta-feira
TIROS EM COLUMBINE
TIROS EM COLUMBINE (Bowling for Columbine, 2002, United Artists, 120min) Direção e roteiro: Michael Moore. Montagem: Kurt Engfehr. Música: Jeff Gibbs. Produção executiva: Wolfram Tichy. Produção: Charles Bishop, Jim Czarnecki, Michael Donovan, Kahtleen Glynn, Michael Moore. Estreia: 16/5/02 (Festival de Cannes)
Vencedor do Oscar de Melhor Documentário
Foi ao receber seu Oscar de melhor documentário, por este "Tiros em Columbine", que Michael Moore tornou-se mundialmente conhecido: diante de milhões de telespectadores que assistiam à cerimônia, o rotundo cineasta vociferou contundentemente contra George W. Bush, seu mandato - segundo ele, resultado de eleições fictícias - e a guerra do Iraque que, conforme se soube mais adiante, começou com o falso pretexto de que o país tinha um arsenal de armas de destruição em massa. Vaiado por uns, aplaudido por outros e criticado por muitos, Moore aproveitou, sem dúvida, para dar um belo empurrão em seu filme seguinte, "Fahrenheit 11/9" (2004), que tornou-se, já em sua estreia, o documentário de maior bilheteria da história, além de ganhar a Palma de Ouro em Cannes - e que falava, para surpresa de ninguém, sobre as sujeiras escondidas do presidente norte-americano. "Tiros em Columbine", no entanto, não centra seu fogo unicamente em um alvo - ainda que acuse, sem papas na língua, o governo dos EUA de colaborar com os países que posteriormente apelaram para atos terroristas - e, com extrema contundência e um mordaz senso de humor, faz uma séria análise da fascinação do povo ianque por armas de fogo a partir do massacre cometido por dois alunos adolescentes de uma escola de ensino médio chamada Columbine, no estado do Colorado, em 1999.
Sem medo de causar polêmica - e certamente procurando por uma boa dose dela - Michael Moore estende sua reflexão social e política nas mais variadas direções, confirmando sua tendência para o autopromoção, uma característica que sempre lhe causa pesadas críticas mas que invariavelmente funciona à perfeição para atingir seus objetivos. Confiante em seus argumentos e movido por uma admirável cara-de-pau, Moore faz o espectador testemunhar situações que vão do constrangedor - a já clássica entrevista com Charlton Heston, defensor ferrenho do armamento da população e presidente da malfadada NRA (National Rifle Association) - ao surpreendente - como a visita do cineasta e dois jovens sobreviventes da tragédia em Columbine (um deles preso a uma cadeira de rodas) a uma rede de lojas que vende indiscriminadamente munição para armas de fogo. Conversando com pessoas envolvidas diretamente com as consequências de uma legislação francamente favorável (e até mesmo incentivadora) ao acesso quase irrestrito do público ao municiamento, o documentarista também faz questão de mostrar absurdos inimagináveis, como um banco que oferece uma arma de brinde aos novos clientes e não vê nada de errado com isso. Assim como acontece com Charlton Heston - que fica sem argumentos diante de questões pontuais e lógicas de Moore - outros entrevistados acabam por deixar que o diretor derrube suas convicções equivocadas mesmo sem precisar empurrar muito: argumentos como o histórico de violência na história da construção do país e a influência dos meios de comunicação são jogados por terra a cada nova conversa com explicações quase didáticas e fatos inquestionáveis.
Para cada tentativa de justificar a obsessão americana por armas, Michael Moore oferece estatísticas, contradições e muita história. Como forma de não tornar seu documentário algo tedioso, ele brinca com várias linguagens, como animação e videoclipes, que esclarecem ao espectador a forma como o governo dos EUA fomentou sem clemência um estado de constante paranoia para sustentar sua indústria armamentista. É sintomático que celebridades como Marilyn Manson se defendam com tanta inteligência e lucidez: vendo suas músicas e seu visual pouco normal sendo responsabilizados pela tragédia em Columbine, ele questiona o porquê de Bill Clinton e sua política de guerra não foram tão demonizados quanto, e continua sua defesa acusando comerciais de tv e a cultura do medo pelos desastres. Moore não deixa passar a oportunidade e apresenta, logo em seguida, números que mostram que nem mesmo os mais violentos filmes produzidos em Hollywood são capazes de incentivar algo que já não está radicalmente encravado em uma mentalidade quase doentia que vem de gerações. Em uma visita ao Canadá - uma região também muito mais armada do que a média - ele mostra ao surpreendido público que, apesar de igualmente armado além do normal, o país tem uma número de crimes muito abaixo do registrado nos EUA. Por que? É a grande questão do filme.
"Tiros em Columbine" lança diversas perguntas à plateia durante suas duas horas de duração. A maior parte delas o próprio Michael Moore responde, à sua maneira - às vezes exagerada, às vezes quase agressiva, quase sempre de forma contundente e assertiva. Outras ele apenas deixa no ar, oferecendo subsídios o suficiente para que os espectadores as respondam. Muito criticado por colocar-se como estrela de seus filmes, sobressaindo-se ao tema retratado, Moore realmente é uma figura marcante e não faz a menor questão de delicadezas ou sutilezas. No entanto, bem ou mal, é isso que faz de seus filmes grandes obras de não-ficção, tão empolgantes quanto qualquer suspense ou thriller político. "Tiros em Columbine" informa, indigna, choca e emociona em doses iguais - além de mostrar em um até então respeitável astro da era clássica de Hollywood um lado fascista jamais imaginado em alguém que fez o papel de Moisés. Um clássico contemporâneo, imprescindível e fascinante!
Vencedor do Oscar de Melhor Documentário
Foi ao receber seu Oscar de melhor documentário, por este "Tiros em Columbine", que Michael Moore tornou-se mundialmente conhecido: diante de milhões de telespectadores que assistiam à cerimônia, o rotundo cineasta vociferou contundentemente contra George W. Bush, seu mandato - segundo ele, resultado de eleições fictícias - e a guerra do Iraque que, conforme se soube mais adiante, começou com o falso pretexto de que o país tinha um arsenal de armas de destruição em massa. Vaiado por uns, aplaudido por outros e criticado por muitos, Moore aproveitou, sem dúvida, para dar um belo empurrão em seu filme seguinte, "Fahrenheit 11/9" (2004), que tornou-se, já em sua estreia, o documentário de maior bilheteria da história, além de ganhar a Palma de Ouro em Cannes - e que falava, para surpresa de ninguém, sobre as sujeiras escondidas do presidente norte-americano. "Tiros em Columbine", no entanto, não centra seu fogo unicamente em um alvo - ainda que acuse, sem papas na língua, o governo dos EUA de colaborar com os países que posteriormente apelaram para atos terroristas - e, com extrema contundência e um mordaz senso de humor, faz uma séria análise da fascinação do povo ianque por armas de fogo a partir do massacre cometido por dois alunos adolescentes de uma escola de ensino médio chamada Columbine, no estado do Colorado, em 1999.
Sem medo de causar polêmica - e certamente procurando por uma boa dose dela - Michael Moore estende sua reflexão social e política nas mais variadas direções, confirmando sua tendência para o autopromoção, uma característica que sempre lhe causa pesadas críticas mas que invariavelmente funciona à perfeição para atingir seus objetivos. Confiante em seus argumentos e movido por uma admirável cara-de-pau, Moore faz o espectador testemunhar situações que vão do constrangedor - a já clássica entrevista com Charlton Heston, defensor ferrenho do armamento da população e presidente da malfadada NRA (National Rifle Association) - ao surpreendente - como a visita do cineasta e dois jovens sobreviventes da tragédia em Columbine (um deles preso a uma cadeira de rodas) a uma rede de lojas que vende indiscriminadamente munição para armas de fogo. Conversando com pessoas envolvidas diretamente com as consequências de uma legislação francamente favorável (e até mesmo incentivadora) ao acesso quase irrestrito do público ao municiamento, o documentarista também faz questão de mostrar absurdos inimagináveis, como um banco que oferece uma arma de brinde aos novos clientes e não vê nada de errado com isso. Assim como acontece com Charlton Heston - que fica sem argumentos diante de questões pontuais e lógicas de Moore - outros entrevistados acabam por deixar que o diretor derrube suas convicções equivocadas mesmo sem precisar empurrar muito: argumentos como o histórico de violência na história da construção do país e a influência dos meios de comunicação são jogados por terra a cada nova conversa com explicações quase didáticas e fatos inquestionáveis.
Para cada tentativa de justificar a obsessão americana por armas, Michael Moore oferece estatísticas, contradições e muita história. Como forma de não tornar seu documentário algo tedioso, ele brinca com várias linguagens, como animação e videoclipes, que esclarecem ao espectador a forma como o governo dos EUA fomentou sem clemência um estado de constante paranoia para sustentar sua indústria armamentista. É sintomático que celebridades como Marilyn Manson se defendam com tanta inteligência e lucidez: vendo suas músicas e seu visual pouco normal sendo responsabilizados pela tragédia em Columbine, ele questiona o porquê de Bill Clinton e sua política de guerra não foram tão demonizados quanto, e continua sua defesa acusando comerciais de tv e a cultura do medo pelos desastres. Moore não deixa passar a oportunidade e apresenta, logo em seguida, números que mostram que nem mesmo os mais violentos filmes produzidos em Hollywood são capazes de incentivar algo que já não está radicalmente encravado em uma mentalidade quase doentia que vem de gerações. Em uma visita ao Canadá - uma região também muito mais armada do que a média - ele mostra ao surpreendido público que, apesar de igualmente armado além do normal, o país tem uma número de crimes muito abaixo do registrado nos EUA. Por que? É a grande questão do filme.
"Tiros em Columbine" lança diversas perguntas à plateia durante suas duas horas de duração. A maior parte delas o próprio Michael Moore responde, à sua maneira - às vezes exagerada, às vezes quase agressiva, quase sempre de forma contundente e assertiva. Outras ele apenas deixa no ar, oferecendo subsídios o suficiente para que os espectadores as respondam. Muito criticado por colocar-se como estrela de seus filmes, sobressaindo-se ao tema retratado, Moore realmente é uma figura marcante e não faz a menor questão de delicadezas ou sutilezas. No entanto, bem ou mal, é isso que faz de seus filmes grandes obras de não-ficção, tão empolgantes quanto qualquer suspense ou thriller político. "Tiros em Columbine" informa, indigna, choca e emociona em doses iguais - além de mostrar em um até então respeitável astro da era clássica de Hollywood um lado fascista jamais imaginado em alguém que fez o papel de Moisés. Um clássico contemporâneo, imprescindível e fascinante!
quinta-feira
GREY GARDENS
GREY GARDENS (Grey Gardens, 2009, HBO Films, 104min) Direção: Michael Sucsy. Roteiro: Michael Sucsky, Patricia Rozema, estória de Michael Sucsy. Fotografia: Mike Eley. Montagem: Alan Heim, Lee Percy. Música: Rachel Portman. Figurino: Catherine Marie Thomas. Direção de arte/cenários: Kalina Ivanov/Norma Jean Sanders. Produção executiva: Lucy Barzun Donnelly, Rachel Horovitz, Michael Sucsy. Produção: David Coatsworth. Elenco: Jessica Lange, Drew Barrymore, Daniel Baldwin, Jeanne Tripplehorne, Ken Howard, Kenneth Welsh, Arye Gross, Justin Louis. Estreia: 18/4/09
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Minissérie ou Filme para Televisão, Atriz em Minissérie ou Filme para Televisão (Drew Barrymore)
Milionárias falidas, parentes próximas de Jacqueline Kennedy Onassis, beldades decadentes, mulheres presas a um passado glamoroso e personagens de nada menos que duas produções retratando sua vida, as protagonistas de "Grey Gardens", realizado pela HBO em 2009, parecem obra da mais tresloucada ficção. Mas não são. Objetos de um documentário lançado em 1979 e posteriormente personagens de um telefilme dirigido por Michael Sucsy que retratava sua produção, Edith Bouvier Beale e sua filha, Edie, são figuras únicas, que encontraram nas telas a forma indelével de passar à história após sua derrocada financeira e sua decadência psicológica. Interpretadas com genialidade por Jessica Lange e Drew Barrymore - de longe no melhor desempenho de sua carreira, premiado merecidamente com o Golden Globe e o Emmy - as duas fascinantes personagens encontram respaldo na direção sensível de Michael Sucsy (que mais tarde faria o romântico "Para sempre", com Channing Tatum e Rachel McAdams) e emocionam o público com uma história de cortar o coração que jamais apela para o sentimentalismo.
O roteiro, coescrito pelo diretor e Patricia Rozema, aproveita-se do documentário por David e Albert Maysles como ponto de partida para contar sua história. Primeiramente pensando em focar seu filme na trajetória de Jackie, os dois irmãos acabam fascinados por um outro lado da família da ex-primeira dama quando conhecem sua tia, Edith (Jessica Lange), e sua prima, Edie (Drew Barrymore), que vivem isoladas em uma mansão caindo aos pedaços e dominada pela sujeira feita pelos gatos e por sua absoluta falta de capacidade de manter a salubridade do local. Excêntrica e extrovertida, Edie é quem se torna a estrela do documentário, enquanto à sua mãe resta apenas pontuar a narrativa com suas lembranças de tempos mais fartos. O filme de Sucsy conta a trajetória de mãe e filha através de flashbacks, que começam em 1936 e se estendem até os anos 70, mostrando como a promissora Edie, que sonhava com uma carreira de atriz, e sua mãe - que levava uma vida de luxo e conforto, cercada por gente da alta sociedade e demonstrava talento como cantora - acabaram por tornar-se duas mulheres praticamente enterradas vivas em sua propriedade, outrora motivo de orgulho da família.
Apesar da excentricidade das protagonistas parecer quase exagerada, "Grey Gardens" jamais cai na armadilha de fazer delas motivos de caricatura ou humor proposital. Tratando com respeito e quase carinho de suas personagens, Michael Sucsy apresenta ao público uma história a respeito de sonhos despedaçados, ambições destruídas e uma relação no limite da codependência. Sufocada pela super-proteção familiar - disfarçada de amor e carinho - a jovem Edie se vê impedida de realizar todo o potencial que acredita ter e acaba se deixando envolver pela solidão da mãe, que, infeliz, consegue até mesmo interferir em seu romance (malfadado, é verdade, mas ainda assim um romance) com um homem casado por quem ela se apaixona e que acredita poder lhe fazer feliz. Drew Barrymore brilha tanto na pele da jovem e esperançosa Edie quanto em sua versão mais velha, a um passo do colapso mental e tão crente em seus talentos artísticos que vê no documentário a chance de ser descoberta pelo mundo. Seus embates com Jessica Lange - fantástica em um papel de mãe dominadora que aos poucos vai murchando, conforme percebe os rumos que sua vida vai tomando - são excepcionais, sofrendo alterações com o passar do tempo até chegar a um misto de ressentimento velado e afeto genuíno (ou dependência psicológica). Com a preciosa ajuda da maquiagem - que as envelhece com perfeição - as duas atrizes estão em um momento especial de suas trajetórias, com uma invejável química e trejeitos que lembram em detalhes as verdadeiras protagonistas (quem duvida pode procurar o documentário e conferir: a semelhança é impressionante!).
Comprovando a excelência da HBO na produção de telefilmes que fogem das limitações do gênero, "Grey Gardens" funciona em todos os níveis imagináveis: é dirigido com sutileza, escrito com respeito às personagens e interpretado com extrema inspiração. É impossível não se deixar conquistar pelas duas protagonistas e seus dramas pessoais e familiares - com direito até a uma intervenção de Jackie Kennedy em pessoa, na pele da atriz Jeanne Tripplehorne. Imprimindo um tom leve a uma história que poderia facilmente descambar para o soturno ou o trágico, Michael Sucsy acerta em cheio, evitando tanto o dramalhão rasgado quanto a comédia de humor negro que poderiam diluir a força do roteiro e das personagens, tão incríveis que chega a ser difícil de acreditar que não saíram da mente de um escritor mais criativo. No fim das contas, "Grey Gardens" é um belo filme, com grandes atuações e uma história fabulosa. Imperdível!
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Minissérie ou Filme para Televisão, Atriz em Minissérie ou Filme para Televisão (Drew Barrymore)
Milionárias falidas, parentes próximas de Jacqueline Kennedy Onassis, beldades decadentes, mulheres presas a um passado glamoroso e personagens de nada menos que duas produções retratando sua vida, as protagonistas de "Grey Gardens", realizado pela HBO em 2009, parecem obra da mais tresloucada ficção. Mas não são. Objetos de um documentário lançado em 1979 e posteriormente personagens de um telefilme dirigido por Michael Sucsy que retratava sua produção, Edith Bouvier Beale e sua filha, Edie, são figuras únicas, que encontraram nas telas a forma indelével de passar à história após sua derrocada financeira e sua decadência psicológica. Interpretadas com genialidade por Jessica Lange e Drew Barrymore - de longe no melhor desempenho de sua carreira, premiado merecidamente com o Golden Globe e o Emmy - as duas fascinantes personagens encontram respaldo na direção sensível de Michael Sucsy (que mais tarde faria o romântico "Para sempre", com Channing Tatum e Rachel McAdams) e emocionam o público com uma história de cortar o coração que jamais apela para o sentimentalismo.
O roteiro, coescrito pelo diretor e Patricia Rozema, aproveita-se do documentário por David e Albert Maysles como ponto de partida para contar sua história. Primeiramente pensando em focar seu filme na trajetória de Jackie, os dois irmãos acabam fascinados por um outro lado da família da ex-primeira dama quando conhecem sua tia, Edith (Jessica Lange), e sua prima, Edie (Drew Barrymore), que vivem isoladas em uma mansão caindo aos pedaços e dominada pela sujeira feita pelos gatos e por sua absoluta falta de capacidade de manter a salubridade do local. Excêntrica e extrovertida, Edie é quem se torna a estrela do documentário, enquanto à sua mãe resta apenas pontuar a narrativa com suas lembranças de tempos mais fartos. O filme de Sucsy conta a trajetória de mãe e filha através de flashbacks, que começam em 1936 e se estendem até os anos 70, mostrando como a promissora Edie, que sonhava com uma carreira de atriz, e sua mãe - que levava uma vida de luxo e conforto, cercada por gente da alta sociedade e demonstrava talento como cantora - acabaram por tornar-se duas mulheres praticamente enterradas vivas em sua propriedade, outrora motivo de orgulho da família.
Apesar da excentricidade das protagonistas parecer quase exagerada, "Grey Gardens" jamais cai na armadilha de fazer delas motivos de caricatura ou humor proposital. Tratando com respeito e quase carinho de suas personagens, Michael Sucsy apresenta ao público uma história a respeito de sonhos despedaçados, ambições destruídas e uma relação no limite da codependência. Sufocada pela super-proteção familiar - disfarçada de amor e carinho - a jovem Edie se vê impedida de realizar todo o potencial que acredita ter e acaba se deixando envolver pela solidão da mãe, que, infeliz, consegue até mesmo interferir em seu romance (malfadado, é verdade, mas ainda assim um romance) com um homem casado por quem ela se apaixona e que acredita poder lhe fazer feliz. Drew Barrymore brilha tanto na pele da jovem e esperançosa Edie quanto em sua versão mais velha, a um passo do colapso mental e tão crente em seus talentos artísticos que vê no documentário a chance de ser descoberta pelo mundo. Seus embates com Jessica Lange - fantástica em um papel de mãe dominadora que aos poucos vai murchando, conforme percebe os rumos que sua vida vai tomando - são excepcionais, sofrendo alterações com o passar do tempo até chegar a um misto de ressentimento velado e afeto genuíno (ou dependência psicológica). Com a preciosa ajuda da maquiagem - que as envelhece com perfeição - as duas atrizes estão em um momento especial de suas trajetórias, com uma invejável química e trejeitos que lembram em detalhes as verdadeiras protagonistas (quem duvida pode procurar o documentário e conferir: a semelhança é impressionante!).
Comprovando a excelência da HBO na produção de telefilmes que fogem das limitações do gênero, "Grey Gardens" funciona em todos os níveis imagináveis: é dirigido com sutileza, escrito com respeito às personagens e interpretado com extrema inspiração. É impossível não se deixar conquistar pelas duas protagonistas e seus dramas pessoais e familiares - com direito até a uma intervenção de Jackie Kennedy em pessoa, na pele da atriz Jeanne Tripplehorne. Imprimindo um tom leve a uma história que poderia facilmente descambar para o soturno ou o trágico, Michael Sucsy acerta em cheio, evitando tanto o dramalhão rasgado quanto a comédia de humor negro que poderiam diluir a força do roteiro e das personagens, tão incríveis que chega a ser difícil de acreditar que não saíram da mente de um escritor mais criativo. No fim das contas, "Grey Gardens" é um belo filme, com grandes atuações e uma história fabulosa. Imperdível!
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