quinta-feira

O MÁGICO DE OZ

O MÁGICO DE OZ (The wizard of Oz, 1939, MGM, 102min) Direção: Victor Fleming. Roteiro: Noel Langley, Florence Ryerson, Edgar Allan Woolf, adaptação de Noel Langley, romance de L. Frank Baum. Fotografia: Harold Rosson. Montagem: Blanche Sewell. Figurino: Adrian. Direção de arte/cenários: Cedric Gibbons/Edwin B. Willis. Produção: Mervyn LeRoy. Elenco: Judy Garland, Frank Morgan, Ray Bolger, Bert Lahr, Jack Haley, Billie Burke, Margaret Hamilton. Estreia: 15/8/39

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Fotografia (Cores), Trilha Sonora Original, Canção Original ("Over the rainbow"), Direção de Arte, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Canção ("Over the rainbow") 

Se existe um filme que pode ser considerado parte do imaginário coletivo da humanidade, esse filme é "O mágico de Oz". Mesmo quem nunca assistiu às aventuras de Dorothy em busca do caminho de volta ao lar depois de ser afastada da família em consequência de um tornado conhece sua história, tem noção de seus personagens icônicos (Homem de Lata, Espantalho, Leão Covarde, Bruxa Má do Oeste) e já ouviu a clássica canção "Over the rainbow", imortalizada na voz de sua atriz principal Judy Garland. Lançado em 1939 - ano de ouro que também marcou a estreia de "...E o vento levou", "O morro dos ventos uivantes", "Ninotchka" e "No tempo das diligências" - o filme de Victor Fleming tornou-se eterno no coração dos cinéfilos a despeito de sua temática aparentemente infantil justamente por sua alta dose de inocência e sensibilidade. Não à toa, em um aviso logo no início da projeção, os produtores dedicam à história a todos aqueles que se mantém jovens de coração - um toque que certamente agradaria ao autor do romance que deu origem ao roteiro, L. Frank Baum.

Publicado em 1900 e seguido por nada menos que dezesseis continuações, "O mágico de Oz" chegou às telas de cinema depois de exaustivas filmagens que duraram cinco meses de árdua labuta e muitas dúvidas acerca de suas possibilidades comerciais. Apesar de já ser um sucesso no teatro, o livro de Baum - cujos direitos foram comprados pela então astronômica quantia de 75 mil dólares - demandou um trabalho hercúleo de quatorze (!!) roteiristas e cinco diretores, até que o resultado final (escrito por Noel Langley, Florence Ryerson e Edgar Allan Woolf sob uma adaptação bem menos sombria do material original) agradasse à MGM e Victor Fleming (que também assinou "...E o vento levou", no mesmo ano, e levou um Oscar por isso). Situações pouco palatáveis à plateia infantojuvenil foram limadas do texto final e um tom menos sinistro foi providenciado, com a inclusão de algumas canções (como a tão falada "Over the rainbow", que por pouco não foi eliminada do corte final) e um visual colorido realizado em Technicolor quase a ponto de ferir a retina. Possíveis implicações sociopolíticas também foram disfarçadas - segundo alguns críticos tudo na história tinha viés de crítica à sociedade capitalista, desde o americano médio (representado pela garota típica do meio-oeste) até a tecnologia (através do mágico), passando pelos fazendeiros da época (o espantalho sem cérebro), a indústria (o homem de lata sem coração) e os políticos (na figura do leão covarde) - e, com a impossibilidade de contar com a maior estrela-mirim da época, Shirley Temple, o estúdio do leão acabou contratando a adolescente Judy Garland para o papel principal, torcendo para que seus 16 anos de idade parecessem bem menos na tela. Talvez mérito da conjunção astral, talvez pelo talento dos envolvidos ou talvez por ser o filme certo na hora certa, "O mágico de Oz" tornou-se, quase imediatamente, um clássico dos mais amados, idolatrado por fãs de diversas gerações.


Sua estreia na televisão americana, por exemplo, em 1956, foi assistida por 44 milhões de telespectadores, o que demonstrou, sem margem para qualquer dúvida, a perenidade do filme, já então com quase 20 anos de idade. A canção "Over the rainbow" acompanhou Judy Garland por toda a sua carreira, tornando-se um clássico absoluto que sobreviveu até mesmo à sua morte - coincidência ou não, no dia em que isso aconteceu, em 1969, um tornado pegou o Kansas de surpresa, como uma última (e nada sutil) homenagem àquela que seria lembrada eternamente como a doce Dorothy, a despeito de uma respeitável carreira posterior, como cantora e atriz. Nada mal para quem pegou o papel mesmo sendo considerada velha demais e sobreviveu à constante troca de diretores que tomou conta das filmagens. Se Victor Fleming foi quem recebeu crédito como o diretor oficial, outros quatro nomes também estiveram ligados ao filme, em maior ou menor nível. Fleming realmente comandou a maior parte da missão antes de dedicar-se a "... E o vento levou", mas dividiu o trabalho com Richard Thorpe (cujas cenas ficaram totalmente de fora da versão final), o admirado George Cukor (que não filmou nenhuma sequência, mas foi responsável por mudanças no visual de Judy Garland), King Vidor (responsável pelas cenas em preto-e-branco na fazenda do Kansas, incluindo a famosa aparição da canção-tema) e o produtor Melvin LeRoy, que assinou algumas pequenas cenas de transição. Apesar de tantas mãos, no entanto, em nenhum momento "O mágico de Oz" parece um filme sem personalidade: ao contrário, é uma obra com uma surpreendente unidade visual e um brilhantismo técnico e dramático que o mantém como um dos mais adorados e queridos filmes de todos os tempos - algo que nem mesmo aberrações como "O mágico inesquecível", com Michael Jackson e Diana Ross, conseguiram estragar.

A história, para quem não conhece (se é que alguém não conhece) é simples, delicada e lúdica. Dorothy (Judy Garland) é uma menina doce e sonhadora que vive com os pais em uma fazenda do interior do Kansas. Um dia, um tornado a leva para a desconhecida Terra de Oz, acompanhada de seu fiel cãozinho Totó. Mesmo encantada com o colorido do lugar e seus habitantes exóticos, ela sonha em voltar para casa, mas para isso precisa pedir o auxílio do misterioso mágico do lugar, que vive isolado em uma casa localizada no final de uma estrada de ladrilhos amarelos, a famosa Cidade das Esmeraldas. Para chegar lá, ela conta com a companhia de três novos amigos, todos com um desejo a ser realizado pelo mágico: um leão covarde (Bert Lahr) que precisa de coragem, um homem de lata (Jack Haley) que ambiciona ser dono de um coração, e um espantalho (Ray Bolger) que busca um cérebro. Além disso, Dorothy precisa também se livrar da perseguição da Bruxa Má do Oeste (Margaret Hamilton), que deseja vingar a morte da irmã, causada pela queda da casa da menina sobre ela. No final do caminho fica claro, mais uma vez, que a viagem importa mais do que o destino, e a garota acaba por aprender uma valiosa lição de vida, resumida da famosa "Não há lugar como nossa casa!".

Um clássico na mais ampla acepção do termo, "O mágico de Oz" é, sem dúvida, um dos filmes imprescindíveis realizados pela era dourada de Hollywood, uma obra que resiste ao tempo de forma admirável e continua a encantar crianças e adultos. Não à toa, inspirou até mesmo discos de rock progressivo - o álbum "The dark side of the moon", da banda Pink Floyd, tem seu ritmo totalmente ditado pelas cenas do filme, em uma das homenagens mais criativas já feitas à uma produção cinematográfica da história. Não é para qualquer um, mas definitivamente, "O mágico de Oz" não é um filme qualquer.

quarta-feira

NERVE: UM JOGO SEM REGRAS

NERVE: UM JOGO SEM REGRAS (Nerve, 2016, Lionsgate, 96min) Direção: Henry Joost, Ariel Schulman. Roteiro: Jessica Sharzer, romance de Jeanne Ryan. Fotografia: Michael Simmonds. Montagem: Madeleine Gavin, Jeff McEvoy. Música: Rob Simonsen. Figurino: Melissa Vargas. Direção de arte/cenários: Chris Trujillo/Kara Zeigon. Produção executiva: Qiuyun Long, Jeanne Ryan. Produção: Anthony Katagas, Allison Shearmur. Elenco: Emma Roberts, Dave Franco, Emilu Meade, Miles Heizer, Juliette Lewis, Kimiko Glen, Marc John Jefferies. Estreia: 12/7/16

Uma sociedade consumida pelo desejo ávido de fama, dinheiro e bajulação não tem como evitar que seus jovens acabem por buscar todos esses objetivos da maneira mais fácil e/ou rápida. Retratos de gerações vazias e desesperadas por algum sentido (qualquer um) já foram mostrados pelo cinema por diversas vezes, desde os rebeldes sem causa de "O selvagem" (53), com Marlon Brando e "Juventude transviada" (54), com James Dean, até os niilistas viciados em heroína de um dos maiores cults dos anos 90, "Trainspotting: sem limites", com Ewan McGregor e dirigido pelo oscarizado Danny Boyle. Unindo essa angústia existencial com a irresponsabilidade de uma geração escravizada pela Internet e pelas redes sociais - e suas consequências frequentemente trágicas - surgiu "Nerve: um jogo sem regras", um romance escrito por Jeanne Ryan que, assim como a bem-sucedida tetralogia "Jogos vorazes" parte de uma fictícia e quase macabra série de regras para criticar, sob forma de entretenimento ligeiro, a falta de perspectivas e limites dos viciados em tecnologia e popularidade instantânea. Sua versão para as telas de cinema, dirigida pela dupla Henry Joost e Ariel Schulman - também por trás dos capítulos 3 e 4 da franquia "Atividade paranormal" - pode não ter a contundência de um novo clássico, mas consegue uma façanha e tanto: diverte enquanto faz pensar.

Rápido e eficiente, "Nerve" é um filme adolescente, juvenil, que beira a superficialidade em seus questionamentos e soluções dramáticas, mas por incrível que pareça, funciona muito bem, desde que a expectativa do espectador não seja muito elevada. Com um visual modernoso, uma trilha sonora adequada e uma edição ágil na medida certa para quem não tem paciência com sequências muito longas - ou seja, a maior parte de seu público-alvo - o filme de Joost e Schulman é o típico exemplo de produção que, sem campanhas milionárias de marketing ou orçamentos gigantescos, acaba por conquistar uma bilheteria respeitável graças unicamente à propaganda boca-a-boca: mesmo sem grandes astros no elenco e sem a chancela de materiais já consagrados em outras mídias, atingiu uma bilheteria mundial de mais de 80 milhões de dólares - quatro vezes mais do que seu custo estimado (que, por sua vez, é o equivalente ao salário POR FILME de Julia Roberts, a tia de sua atriz principal, Emma). Na pele da protagonista Vee, a jovem Emma pela primeira vez demonstra carisma e talento suficientes para segurar um papel principal - e com uma ótima química com seu parceiro de cena, Dave Franco (irmão de James), é um dos destaques da produção, disfarçando algumas improbabilidades do roteiro e facilitando a identificação da plateia com a personagem.


Vee é uma jovem estudante do ensino médio que precisa ganhar dinheiro se quiser frequentar a faculdade de Artes da qual sonha fazer parte. Tímida e romântica, ela mora com a mãe, Nancy (Juliette Lewis) e é incapaz até mesmo de declarar-se para o rapaz por quem é apaixonada, o jogador de futebol J.P. (Brian Marc). Fotógrafa por vocação, ela se contenta em ser amiga da extravagante Sydney (Emily Meade), que não mede esforços para chamar a atenção e ser considerada a garota mais popular da turma. Seu esforço é tanto que ela é uma das mais famosas participantes de um jogo online chamado Nerve, em que aqueles que estão inscritos são desafiados a praticarem atos cada vez mais ousados diante das câmeras com o objetivo de acumularem dinheiro e seguidores. De bobagens como cantar diante de estranhos até ações mais pesadas como pendurar-se a centenas de metros do chão, os candidatos ao prêmio final do jogo vão sendo eliminados conforme não conseguem cumprir o que foi ordenado ou desistem de continuar. Abalada com seu status de espectadora passiva do mundo a seu redor, Vee resolve então entrar no jogo, mesmo contra os conselhos de seu melhor amigo, Tommy (Miles Heizer). Sua entrada no arriscado universo de Nerve coincide com sua parceria com Ian (Dave Franco), que também faz parte da brincadeira e com quem ela passa a desempenhar uma sucessão de tarefas que ao mesmo tempo lhe tornam famosa e admirada pelos espectadores e em constante possibilidade de falhar - especialmente quando Tommy descobre que Ian pode não ser quem eles acham.

Mesmo que seu desfecho seja abrupto, inverossímil e até anti-climático, é inegável que "Nerve" é um filme que sabe como entreter sua audiência. Tem um ritmo ágil, personagens carismáticos e sabe manter o interesse da plateia até o final, quando opta por uma saída fácil, que esvazia a força que a narrativa vinha imprimindo até então. Desperdiçando a presença de Juliette Lewis - que pouco aparece e é subaproveitada em um papel ingrato - e abraçando o óbvio final feliz, o roteiro ameniza a potência de sua denúncia, transformando o que poderia ser um belo discurso sobre os perigos da celebridade fácil em apenas mais uma (boa) aventura, perfeita para passar o tempo, mas sem muitas chances de fixar-se na memória do público logo após seus créditos de encerramento. É divertido, é atual e tem personalidade visual, mas não ultrapassa os limites que se autoimpõe como entretenimento despretensioso. Vale uma sessão, desde que não se tenham grandes expectativas a seu respeito.

terça-feira

NOCAUTE

NOCAUTE (Southpaw, 2015, Escape Artists/Fuqua Films, 124min) Direção: Antoine Fuqua. Roteiro: Kurt Sutter. Fotografia: Mauro Fiore. Montagem: John Refoua. Música: James Horner. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Derek R. Hill/Melissa Lombardo. Produção executiva: David Bloomfield, Cary Cheng, Jonathan Garrison, Stuart Parr, David Ranes, Paul Rosenberg, David Schiff, Dylan Sellers, Kurt Sutter, Ezra Swerdlow, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Gillian Zhao. Produção: Todd Black, Jason Blumenthal, Antoine Fuqua, Alan Riche, Peter Riche, Steve Tisch, Jerry Ye. Elenco: Jake Gyllenhaal, Forest Whitaker, Rachel McAdams, Oona Laurence, 50 Cent, Skylan Brooks, Naomie Harris, Victor Ortiz. Estreia: 15/6/15 (Festival de Xangai)

A princípio, a ideia era fazer uma espécie de continuação de "8 mile: rua das ilusões" (2002), com o cantor Eminem reprisando seu papel, dessa vez com uma trama centrada no universo das lutas de boxe. Com o tempo - e a desistência do rapper, que preferiu dedicar-se à carreira musical e abandonar parcialmente o projeto, assinando apenas como produtor executivo da trilha sonora - a história foi sendo modificada, de acordo com as regras de Hollywood e o interesse de atores com razoável poder de atrair as plateias. Antes que Jake Gyllenhaal assumisse a protagonização sob a direção de Antoine Fuqua, por exemplo, nomes como Ryan Gosling, Bradley Cooper e Jeremy Renner (todos potencialmente interessantes sob o ponto de vista comercial e com indicações ao Oscar para comprovar seus méritos artísticos) foram cogitados para enfeitar o cartaz, em uma tentativa em conciliar uma bilheteria polpuda e possíveis indicações à estatueta dourada. Quando finalmente o filme saiu, com Gyllenhaal no papel central, o primeiro objetivo foi atingido em parte, com uma renda de pouco mais de 50 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico (EUA e Canadá) e quase 90 ao redor do mundo. Já o segundo foi uma decepção: apesar dos rumores que davam como bastante provável a lembrança de Gyllenhaal entre os candidatos ao Oscar, a Academia simplesmente ignorou seu belo trabalho, frustrando fãs e produtores.

A esnobada em Gyllenhaal - indicado ao prêmio de coadjuvante em 2006, por "O segredo de Brokeback Mountain" - não deixou de ser injusta. Ator dedicado e minucioso em suas composições, ele é o pilar de um filme que, apesar da sinceridade impressa em cada cena, jamais consegue escapar das armadilhas de um roteiro clichê e bastante previsível. Antoine Fuqua, o diretor, tem no currículo filmes corretos mas nunca brilhantes - como "Dia de treinamento" (2001), que deu o Oscar a Denzel Washington - e novamente entrega um produto bem embalado, visualmente atraente e de fácil comunicação com a plateia, mas sem personalidade. Da fotografia à edição, passando pela trilha sonora pesada e pela caracterização que deixa Gyllenhaal irreconhecível em determinados momentos, tudo funciona como um relógio. Porém, é inegável que todo o esforço esbarra em uma trama simplista, que, se consegue emocionar, é mérito do talento de seus intérpretes, excelentes atores dando vida a personagens que apenas ocasionalmente ultrapassam a esfera do superficial. Com apenas uma grande surpresa na narrativa - ainda em seu primeiro ato - e uma sucessão de sequências que apesar de bem realizadas não acrescentam nada ao gênero, "Nocaute" é um entretenimento competente e tecnicamente impecável, mas está longe de ser o novo clássico que talvez almejasse ser.


Um esporte querido pelo cinema, o boxe foi responsável por alguns dos mais premiados e queridos filmes realizados por Hollywood, como "Rocky, um lutador", Oscar de filme e direção em 1977, "Touro indomável" (80) - estatueta de melhor ator para Robert DeNiro - e "Menina de ouro" (2004), que deu o segundo Oscar tanto a Clint Eastwood (direção) quanto à Hillary Swank (atriz), além de faturado o prêmio de melhor filme do ano em cima de "O aviador", de Martin Scorsese. O roteiro de "Nocaute" se utiliza de elementos de todos eles (e de vários outros de temática semelhante) para costurar uma história de amor, vingança e superação, sendo o esporte a moldura perfeita para tal, com sua mistura de decadência e glamour mescladas em doses exatas pelo cineasta, que não hesita em fazer sua câmera transitar pelos eventos milionários das redes esportivas de televisão e por academias baratas, refúgio dos menos favorecidos pela sorte. O protagonista, Billy Hope, é um daqueles que tem a possibilidade de experimentar os dois mundos - e sua jornada, graças ao talento de Jake Gyllenhaal, se torna interessante a despeito da falta de novidade que ela apresenta.

Quando o filme começa, Hope é um lutador que está no auge da carreira, vencendo lutas, sendo adulado por imprensa e amigos de ocasião e vivendo um casamento feliz com a bela Maureen (Rachel McAdams), a quem conheceu em um abrigo para crianças sem lar e que hoje administra sua carreira com um misto de rigidez e carinho. O romance deles foi abençoado com uma filha inteligente e amorosa, Leila (Oona Laurence), e o que parecia um sonho dourado torna-se bruscamente um pesadelo quando uma tragédia inesperada se abate sobre a família e faz com que o corajoso e bem-sucedido atleta se veja diante de um desafio cruel e mais pesado que poderia imaginar: juntar os cacos do que ainda restou e tentar uma volta por cima, com a ajuda do veterano Tick Wills (Forest Whitaker fazendo o possível para extrair algo de novo de um personagem dos mais batidos). É admirável como Antoine Fuqua consegue contar sua história (direta, simples, quase banal) sem perder o interesse da plateia diante de uma série de lugares-comuns: com uma edição ágil, momentos dramáticos estrategicamente distribuídos pela narrativa e atuações poderosas, ele consegue facilmente enganar que seu filme tem mais substância do que na verdade tem. É um mérito, mas questionável, uma vez que, assim que a sessão acaba, é bem provável que o espectador esqueça boa parte do que viu. Para alguns sua falta de personalidade como cineasta - e do filme em si como obra de arte - talvez não incomode, já que é entretenimento de qualidade. Mas não resta dúvidas de que um bocado de ousadia e criatividade teria sido providencial para um sucesso maior. Em todo caso, é um passatempo honesto e apresenta uma atuação monstruosa (no bom sentido) de Jake Gyllenhaal, o que é mais do que muitos outros filmes bem mais ambiciosos conseguem.

segunda-feira

ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE

ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE (Murder on the Orient Express, 1974, Paramount Pictures, 128min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Paul Dehn, romance de Agatha Christie. Fotografia: Geoffrey Unsworth. Montagem: Anne V. Coates. Música: Richard Rodney Bennett. Figurino: Tony Walton. Direção de arte/cenários: Tony Walton/Jack Stephens. Produção: John Brabourne, Richard Goodwin. Elenco: Albert Finney, Lauren Bacall, Martin Balsam, Ingrid Bergman, Sean Connery, Jacqueline Bissett, Jean-Pierre Cassel, John Gielgud, Wendy Hiller, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Rachel Roberts, Richard Widmark, Michael York. Estreia: 21/11/74

 6 indicações ao Oscar: Ator (Albert Finney), Atriz Coadjuvante (Ingrid Bergman), Roteiro Adaptado, Fotografia, Figurino, Trilha Sonora Original (Drama)
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Ingrid Bergman)

Não é sem motivos que a inglesa Agatha Christie é considerada a "rainha do crime": a autora policial mais lida e vendida de todos os tempos tem em seu currículo no mínimo uma meia-dúzia de obras-primas, que sobrevivem ao tempo como perfeitos exemplos de tramas bem construídas, personagens psicologicamente críveis e resoluções intrincadas e criativas. De todas as suas histórias, é bastante provável que a melhor e mais genial seja a criada para "Assassinato no Expresso Oriente", lançado em 1934 e ainda hoje capaz de surpreender até mesmo ao mais atento e experiente leitor. Quarenta anos depois de chegar às prateleiras das livrarias, sob a direção do elogiado Sidney Lumet - já então com uma indicação ao Oscar, por "12 homens e uma sentença" (57) - e com um elenco internacional  liderado por Albert Finney na pele do indefectível detetive belga Hercule Poirot, a história de um brutal assassinato cometido em um dos meios de transporte mais famosos do mundo alcançou também as telas de cinema... e agradou não apenas a crítica e a Academia de Hollywood (que lhe deu seis indicações ao Oscar e uma estatueta), mas também à mais impiedosa espectadora: a própria autora do romance.

Feliz com a interpretação de Albert Finney (então com apenas 37 anos de idade e se utilizando de uma pesada maquiagem para personificar um dos detetives mais famosos da literatura policial), Agatha Christie não poupou elogios ao filme, que estreou pouco mais de um ano antes de sua morte, em janeiro de 1976. Mesmo que tenha ficado bastante satisfeita com a adaptação de Billy Wilder para sua peça teatral "Testemunha de acusação", em 1957, a escritora não escondia de ninguém que considerava o filme de Lumet o mais fiel à sua obra até então - um elogio e tanto que reflete o cuidado da produção em recriar não apenas a ambientação charmosa e realista do cenário principal mas também o clima de suspense que perpassa todas as páginas do livro. Ainda que o roteiro indicado ao Oscar não consiga evitar a armadilha comum de atropelar os acontecimentos e apressar o desfecho - tudo soa muito rápido, ao contrário do livro, que dá tempo ao leitor de administrar cada pista e evidência que vai sendo oferecida - é inegável que a elegância que Lumet imprime à narrativa torna o espetáculo um entretenimento de primeira, avalizado por um elenco estelar que se dá ao luxo de ter como coadjuvantes nomes como Sean Connery, Jacqueline Bissett, Anthony Perkins, John Gielgud e Ingrid Bergman (que acabou faturando um inesperado Oscar da categoria, batendo a então favorita Valentina Cortese, do aclamado "A noite americana", de François Truffaut).


Enquanto o romance de Agatha Christie já começa em plena ação, com a chegada dos passageiros ao trem que dá nome à história - partindo de Istambul, na Turquia - o filme de Lumet já ilumina, sutilmente, através de uma introdução silenciosa nos créditos de abertura, os atos que levarão, alguns anos mais tarde, ao crime que impulsiona a narrativa. Se de certa forma tal opção tira parte do suspense (por que mataram esse desconhecido dentro do trem?), ela ajuda de forma inteligente a expor, sem longos e didáticos discursos, o motivo do homicídio. A partir daí, resta apresentar a fauna de personagens exóticos criados por Christie e interpretados por atores de primeira linha - em uma constelação tão fascinante que disfarça até mesmo o pouco espaço dado a cada um deles em cena. Finney é quem tem mais sorte, com um Hercule Poirot um tanto caricato mas perfeitamente adequado às caracterizações comandadas por Lumet. Indicado ao Oscar de melhor ator, ele perdeu a estatueta para Art Carney ("Harry, o amigo de Tonto"), mas é o maestro de uma orquestra impecável, conduzida sem sobressaltos e/ou maiores destaques justamente por sua natureza coletiva.

A trama se passa em dezembro de 1935, durante uma viagem estranhamente lotada no Expresso Oriente: em uma parada devido a uma nevasca, um dos passageiros é assassinado com uma série de punhaladas, enquanto dormia. Assumindo a investigação antes que o trem prossiga seu curso, o famoso e excêntrico Hercule Poirot logo descobre que a vítima, de nome Ratchett (Richard Widmark), na verdade se escondia sob falsa identidade, por ser o responsável pelo sequestro e assassinato de uma criança alguns anos antes - fato que acarretou uma série de outras tragédias na família e tornou-se manchete internacional. Certo de que sua morte é resultado do crime cometido no passado, Poirot tenta encontrar, dentre seus companheiros de viagem, quem poderia ter ligações com o caso - e se depara com inúmeras surpresas, que o levam a questionar sua própria noção de justiça. Por mais inocentes que pareçam, todos os passageiros são suspeitos, desde a idosa Princesa Dragomiroff (Wendy Hiller) até a religiosa Greta (Ingrid Bergman) - passando pela bela Condessa Andrenyi (Jacqueline Bissett) e seu marido (Michael York) e o respeitável Coronel Arbuthnot (Sean Connery), que esconde uma ligação com a jovem Mary Debenham (Vanessa Redgrave).

Valorizado principalmente pelo elenco e pela produção caprichada, "Assassinato no Expresso Oriente" não chega aos pés do livro que o originou - uma obra-prima policial cujo desenvolvimento prende o leitor até a página final com uma sucessão de reviravoltas inteligentes e verossímeis. Porém, é, ao mesmo tempo, uma adaptação que se mantém fiel a seu espírito elegante e sutil, que ameniza a violência física necessária a uma história do gênero com toques de um fino humor e a destreza de uma especialista em surpreender e cativar seu público. Se não é mais empolgante é justamente porque o roteiro lhe tirou algumas das maiores qualidades - o desenrolar gradual da investigação é apressado até o discurso final que não chega a ser tão emocionante quanto poderia - e não explora com a devida força as incoerências e mistérios dos personagens. É uma boa adaptação, mas longe de ser a obra-prima que poderia (e deveria) ser.

domingo

MÚSICA E LÁGRIMAS

MÚSICA E LÁGRIMAS (The Glenn Miller story, 1954, Universal Studios, 115min) Direção: Anthony Mann. Roteiro: Valentine Davies, Oscar Brodney. Fotografia: William Daniels. Montagem: Russell Schoengarth. Figurino: Jay Morley Jr.. Direção de arte/cenários: Alexander Golitzen, Bernard Herzbrun/Russell A. Gausman, Julia Heron. Produção: Aaron Rosenberg. Elenco: James Stewart, June Allyson, Harry Morgan, Charles Drake, George Tobias. Estreia: 17/02/54

3 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Trilha Sonora Original (Musical), Som
Vencedor do Oscar de Melhor Som

No período compreendido entre 1939 e 1942, não existia no mundo orquestra mais famosa do que a liderada por Glenn Miller: campeão de vendas de discos e com uma agenda de apresentações quase desumana, o músico norte-americano que mudou a forma como o público ouvia (e reagia) às músicas que embalavam bailes por todo o planeta. Dono de um estilo único e moderno, Miller surpreendeu aos fãs quando, no auge do sucesso, em 1941, resolveu deixar tudo de lado e alistar-se para lutar pelos EUA na II Guerra Mundial. Seus planos não eram pouco ambiciosos: ele sabia que, dentre os jovens soldados norte-americanos, havia muitos talentos à espera de serem descobertos e que dariam qualquer coisa para trocar suas baionetas por instrumentos musicais. Depois de convencer o Exército a lhe conferir a patente de Capitão apesar de nunca ter tido contato com qualquer serviço militar, Miller passou a recrutar os novos membros de sua orquestra de pelotão em pelotão, até formar um grupo de quase cinquenta profissionais - que iam de soldados a sargentos - em uma orquestra que tinha por objetivo entreter as tropas aliadas pela Europa. Já como major, ele levou diversão à milhares de conterrâneos pelos anos em que esteve à frente de seu novo grupo, mas em dezembro de 1944, embarcou em um voo de Londres a Paris - e simplesmente desapareceu. Seu monomotor simplesmente parece ter-se dissipado no ar, em um dos maiores mistérios da história da aviação - nem mesmo várias versões surgidas nas décadas seguintes deram conta de por um ponto final na questão.

Mas se a trágica e inexplicada morte de Miller ainda hoje intriga fãs e historiadores, ela é apenas um detalhe em "Música e lágrimas", lançado pouco menos de dez anos após seu desaparecimento e que se dedica, com quase veneração e sem espaço para polêmicas, a contar sua trajetória como músico e pai de família. Com aprovação da viúva do músico, Helen, o roteiro do filme de Anthony Mann ignora o gênio difícil de Miller e, na pele do dócil e respeitabilíssimo James Stewart, o protagonista chega ao público com uma imagem intocada e bem mais apropriada ao que desejava a plateia dos anos 50, ainda traumatizada com seu destino inesperado. Dirigida por Anthony Mann ( que ficaria conhecido pelo épico "El Cid", realizado quase uma década mais tarde), a cinebiografia de Glenn Miller foi muito bem recebida pela crítica e pelo público justamente por resgatar a memória afetiva de um de seus maiores ídolos, mas à luz do tempo, pode-se dizer que, apesar de correto, o filme de Mann não resiste tão bem ao tempo: é açucarado em excesso, e não oferece mais do que uma visão simplista e unilateral de seu personagem principal.


Premiado com o Oscar de melhor som - nada mais apropriado para um filme que tem a música como sua base e principal ingrediente - "Música e lágrimas" acompanha a história de Miller a partir do momento em que ele ingressa na banda de Ben Pollack, impressionado com um de seus arranjos, e de seu reencontro com uma uma antiga namorada, Helen Berger (June Allyson) - com quem virá a se casar depois de dois anos tentando encontrar o ritmo perfeito para a criação de sua própria orquestra. O roteiro (também indicado ao Oscar) não faz questão de aprofundar o desenho de seus protagonistas, optando, ao invés disso, em acompanhar a escalada do compositor rumo ao topo das paradas de sucesso e da aclamação popular. Emoldurando suas cenas com uma trilha sonora recheada de hits de Miller (é lógico), Mann constrói uma narrativa sem sobressaltos, mas tampouco sem maiores emoções: sua obra é morna, ainda que agradável; elegante, ainda que sem brilho; didática, ainda que superficial. Stewart está bem como Glenn Miller, mesmo que sua visão do personagem esteja um tanto distante da real personalidade do músico (culpa do roteiro chapa branca e sem ousadias). June Allyson, por sua vez, faz o que pode com uma personagem que pouco faz em cena a não ser apoiar o marido incondicionalmente e lhe servir de inspiração ocasional - o poder da verdadeira Helen era tanto sobre o projeto que até mesmo o mais popular e importante membro da orquestra de seu marido, Tex Beneke, ficou de fora de sua versão da história, porque eles estavam brigados na ocasião da realização do filme.

"Música e lágrimas" é um filme para fãs. Fãs de Glenn Miller, de James Stewart, de boa música e de filmes clássicos. Está longe de ser uma obra-prima ou até mesmo um filme imperdível, mas agrada a quem não se cansa de ouvir "In the mood" ou "Moonlight serenade" como forma de sublinhar um romantismo nostálgico e há muito perdido. E o fato de que a história de Miller ter acabado de forma tão intrigante - a teoria de que seu monomotor foi abatido por engano por um avião aliado que estava se livrando de bombas não utilizadas, para pousar mais leve, acabou sendo jogada por terra logo que surgiu - apenas torna seu caminho ainda mais interessante. Pena que faltou coragem e mais criatividade (algo que nunca lhe faltou) ao filme que lhe fez uma justa homenagem.

sábado

MELHORES AMIGOS

MELHORES AMIGOS (Little men, 2016, Charlie Guidance Productions, 85min) Direção: Ira Sachs. Roteiro: Ira Sachs, Mauricio Zacharias. Fotografia: Óscar Durán. Montagem: Mollie Goldstein, Affonso Gonçalves. Música: Dickon Hinchliffe. Figurino: Eden Miller. Direção de arte/cenários: Alexandra Schaller/Emily Deason. Produção executiva: Tom Dolby, Dom Genest, Matthew Helderman, Daniella Kahane, Lars Knudsen, David Kyle, Sophie Mas, Melissa Pinsly, Blythe Robertson, Lourenço Sant'Anna, Hugh Schulze, Luke Dylan Taylor, Rodrigo Teixeira, Jay Van Hoy, Franklin S. Zitter. Produção: Lucas Joaquin, Christos V. Konstantakopoulos, Jim Lande, Ira Sachs, L.A. Teodosio. Elenco: Greg Kinnear, Paulina García, Jennifer Ehle, Alfred Molina, Theo Taplitz, Michael Barbieri, Talia Balsam. Estreia: 25/01/16 (Festival de Sundance)

Em 2014, o cineasta Ira Sachs conquistou a crítica com "O amor é estranho", uma agridoce história de amor homossexual na terceira idade, estrelada por John Lithgow e Alfred Molina. Três anos depois, ele volta a falar de pessoas comuns em momentos extraordinários da vida em "Melhores amigos", indicado ao Independent Spirit Award de melhor roteiro e atriz coadjuvante. Ao contrário de seu filme anterior, porém, ele foca seu olhar em outra direção etária, ao examinar, com delicadeza e sensibilidade, o despertar da amizade entre dois pré-adolescentes que se descobrem no meio do fogo cruzado entre suas famílias, surgido por dificuldades financeiras e profissionais. Sem maiores lances dramáticos e com um tom discreto e minimalista, Sachs consegue contar uma história simples e humana centrando-se basicamente em personagens críveis e uma narrativa honesta, que jamais ambiciona ir além do que promete. Com dois promissores atores jovens nos papéis centrais e um elenco coadjuvante generoso, "Melhores amigos" é o tipo de filme capaz de encantar aos espectadores que procuram produções simples e emocionantes.

Tudo começa quando o pai de Brian Jardine (Greg Kinnear) morre e lhe deixa de herança um pequeno prédio no Brooklyn nova-iorquino. Não exatamente bem-sucedido na profissão de ator e vivendo de pequenas produções teatrais que não pagam o sustento da família - o que acaba sendo função da esposa, Kathy (Jennifer Ehle), uma psicoterapeuta tanto compreensiva quanto dedicada - o rapaz se muda para o novo bairro com a mulher e o filho pré-adolescente, Jake (Theo Taplitz), e não demora para se adaptar à nova vida, facilitada também com o apoio de Leonor Calvelli (Paulina García), inquilina do andar de baixo do prédio de seu pai e amiga do falecido. Dona de uma loja de roupas costuradas à mão e de origem latina, Leonor também tem um filho, Tony (Michael Barbieri), que imediatamente se torna amigo de Jake. Os dois jovens tem sonhos em comum - Jake quer ser artista plástico, Tony ambiciona ser ator - e passam a conviver como irmãos. Acontece que a vida adulta nem sempre reflete a inocência da juventude e problemas de dinheiro acabam por intrometer-se na relação entre as duas famílias. Pagando um aluguel irrisório graças à sua amizade com o proprietário, Leonor se vê repentinamente cobrada a pagar um preço muito maior por sua loja - afinal, Brian não apenas precisa de dinheiro como também se vê cobrado por sua irmã, que também tem direito ao valor do aluguel. Vendo tudo do lado de fora, os dois meninos tentam impedir que o conflito os atinja e à sua amizade.


Assim como já havia feito em "O amor é estranho", Ira Sachs utiliza como principal matéria-prima de seu filme o dia-a-dia de pessoas normais, lutando para manter uma vida digna e harmoniosa, mesmo que para isso seja preciso que se faça alguns sacrifícios ou que conflitos se façam inevitáveis. Sem marcar nenhum de seus personagens com definições fáceis ou maniqueístas, o roteiro flui com a delicadeza de uma crônica, valorizado pelos desempenhos ricos em nuances de Greg Kinnear e Paulina García. O primeiro mostra-se um ator cada vez mais engajado no universo do cinema independente - dentro do qual saiu um de seus maiores sucessos de bilheteria e crítica, o merecidamente incensado "Pequena Miss Sunshine" (2006) - e García, aplaudida mundialmente por seu trabalho em "Gloria" (2013), mais uma vez surpreende, com uma atuação rica em pequenos gestos e subtextos. Mesmo que boa parte do foco esteja nos meninos que tentam isentar-se da batalha travada pelos pais, são os adultos que refletem a dura realidade que os cerca e dão o peso necessário à narrativa e à trama, e os atores veteranos conquistam justamente por equilibrar com tanta destreza todos os desvãos da história sem apelar para o sentimentalismo ou a crueza pura e simples.

E, logicamente, é preciso louvar a escalação dos dois jovens atores que interpretam os melhores amigos do título nacional - ou os pequenos homens do batismo original. Se Theo Taplitz encontra o meio-tom ideal para seu Jake (um menino tímido e quase deslocado que encontra na arte e na amizade do novo vizinho um canal para desenvolver-se como adulto), é Michael Barbieri quem se destaca mais, na pele do corajoso e questionador Tony. Sem medo de contracenar com atores mais experientes e encarando de frente o desafio de liderar o elenco de um filme tão centrado em diálogos e cenas de emoções complexas, os dois iniciantes demonstram também uma química que se mostra imprescindível para o desenvolvimento da trama - e que conduz ao final melancólico e realista. Ainda não são grandes intérpretes, mas dão uma boa pista de que, bem dirigidos, podem se tornar nomes respeitados em um futuro breve. Seu primeiro filme, ao menos, aponta para esse caminho. "Melhores amigos" pode não surpreender ou ser inesquecível, mas é honesto e bem-intencionado.

sexta-feira

MULHERES DO SÉCULO XX

MULHERES DO SÉCULO XX (20th Century women, 2016, A24/Annapurna Pictures, 119min) Direção e roteiro: Mike Mills. Fotografia: Sean Porter. Montagem: Leslie Jones. Música: Roger Neill. Figurino: Jennifer Johnson. Direção de arte/cenários: Chris Jones/Aimee Athnos. Produção executiva: Chelsea Barnard. Produção: Anne Carey, Megan Ellison, Youree Henley. Elenco: Annette Bening, Elle Fanning, Greta Gerwig, Billy Crudup, Lucas Jade Zumann, Allison Elliot, Thea Gill. Estreia: 08/10/16 (Festival de Nova York)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Em uma Hollywood cujas constantes reclamações a respeito da falta de bons papéis femininos acima dos 50 anos, a atriz Anette Bening vem mantendo uma constância interessante em sua carreira: volta e meia surge com uma personagem forte e bem-escrita, que lhe dá a oportunidade de demonstrar todas as nuances de seu talento. Foi assim em "Beleza americana" (1999), "Adorável Julia" (2005), "Minhas mães e meu pai" (2010) e "Correndo com tesouras" (2006) - não por coincidência, os três primeiros lhe deram indicações ao Oscar. Em "Mulheres do século XX" ela voltou a encantar à crítica, mas, apesar de ter sido lembrada pelos eleitores do Golden Globe, foi esnobada pela Academia e ficou de fora da lista das candidatas à estatueta. Melhor sorte teve o roteiro do também diretor Mike Mills, que, com uma protagonista inspirada em sua própria mãe, chegou à reta final da premiação ao lado dos badalados "La La Land: cantando estações" e "Manchester à beira-mar". Com uma prosa poética e recheada de nostalgia, ele mergulha o espectador em uma trama que, a despeito de parecer excessivamente simples, discute com bom-humor e sem exageros, um tema sempre caro e relevante: o feminismo.

Porém, apesar do título e do tema que percorre com maior ou menor destaque toda a sua narrativa, "Mulheres do século XX" é, principalmente, um filme sobre o amor familiar, mesmo que em um núcleo menos ortodoxo. Assim como em "Toda forma de amor" (2011) o cineasta Mike Mills se utiliza da memória afetiva para criar personagens quase inacreditáveis: no filme anterior, Christopher Plummer deu vida (e ganhou um Oscar de coadjuvante por isso) a um homem de 80 anos que, viúvo, resolve assumir a homossexualidade para o filho e viver uma história de amor outonal - um acontecimento baseado na vida de seu próprio pai. Em sua nova obra, é sua mãe quem ressurge, com cores carinhosas e quase melancólicas, na figura de Dorothea, uma mulher forte e estoica que, divorciada, tenta criar o filho adolescente na efervescente cultura da Califórnia do final dos anos 70. Sentindo-se incapaz de lhe transmitir tudo que acredita ser necessário para que sobreviva em um mundo em constante mudança, ela pede socorro a quem lhe parece mais correto: suas duas jovens inquilinas, que irão, então, iniciar o ingênuo Jamie (Lucas Jade Zumann) nas dores e delícias de um universo de liberdade, sexo, drogas e maturidade.


Concentrando-se nas dúvidas de Dorothea em relação à forma de criar o filho em um lar cuja mais constante figura masculina é William (Billy Crudup) - um faz-tudo que faz reparos em sua deteriorada casa e em sua ocasional solidão - o filme de Mills volta seu olhar também para duas fascinantes coadjuvantes femininas que completam o panorama informal sobre a situação da mulher nas décadas finais do século XX. A mais velha, Abbie (Greta Gerwig, ótima), sonha em ser fotógrafa, acaba de passar por uma séria doença e apresenta ao rapaz o mundo da vida noturna de Nova York, com suas bandas de punk rock, atitudes rebeldes e a luta pelos direitos das mulheres. A mais jovem, Julie (Elle Fanning), de apenas 17 anos, está experimentando o sexo, com todas as complicações inerentes a tal período - incluindo o medo de uma gravidez indesejada - e, a despeito de despertar sentimentos fortes em Jamie, não pretende envolver-se romanticamente com ninguém depois de uma série de experiências traumáticas. Cada uma a seu modo, Abbie e Julie serão fundamentais na transição do rapaz para a vida adulta e, ao som de uma caprichada trilha sonora, emolduram uma época de transformações culturais e sociais que ecoariam por muito tempo.

Mike Mills é inteligente em justapor essas duas camadas narrativas - pessoais e históricas - sem que uma atropele a outra e ambas sutilmente se completem. O amadurecimento de Jamie é mostrado com delicadeza e o tom certo de melancolia/nostalgia/bom humor, em um roteiro que privilegia momentos simples e cotidianos ao invés de elaborar grandiosas sequências catárticas. Com uma edição que intercala informações a respeito dos personagens através de imagens de arquivo e uma narração em off que revela ao público alguns de seus dramas e segredos, "Mulheres do século XX" deve muito de seu sucesso junto à crítica à força de seu elenco. Se Annette Bening novamente dá mostras de que é uma das grandes atrizes de sua geração, sempre arrancando o máximo de suas personagens e entregando ao público interpretações sensíveis e realistas, suas coadjuvantes não ficam atrás: Elle Fanning cresce a cada filme, sempre cativando com a intensidade de seus desempenhos, e Greta Gerwig (de "Frances Ha") rouba o filme com sua corajosa Abbie - são dela as melhores cenas e os melhores diálogos, e é difícil não se apaixonar por sua personagem. O único senão do filme é a presença quase apática do protagonista masculino, o iniciante Lucas Jade Zumann, que não chega a comprometer o resultado final, mas impede o filme de atingir todo o seu potencial. Um pequeno senão em um filme simpático, agradável e antenado com seu tempo, que reitera o talento de seu diretor em transformar memórias afetivas em pequenos e delicados filmes.

O CAMINHO DAS NUVENS

O CAMINHO DAS NUVENS (O caminho das nuvens, 2003, Luiz Carlos Barreto Produções Cinematográficas, 85min) Direção: Vicente Amorim. Roteiro:...