quarta-feira

PEGANDO FOGO

PEGANDO FOGO (Burnt, 2015, The Weinstein Company, 101min) Direção: John Wells. Roteiro: Steven Knight, estória de Michael Kalesniko. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Nick Moore. Música: Rob Simonsen. Figurino: Lyn Elizabeth Paolo. Direção de arte/cenários: David Gropman/Tina Jones. Produção executiva: David Glasser, Claire Rudnick Polstein, Gordon Ramsay, Dylan Sellers, Michael Shamberg, Kris Thykier, Harvey Weinstein, Bob Weinstein, Negeen Yazdi. Produção: Stacey Sher, Erwin Stoff, John Wells. Elenco: Bradley Cooper, Siena Miller, Daniel Bruhl, Omar Sy, Uma Thurman, Matthew Rhys, Alicia Vikander, Riccardo Scamarcio, Sam Keeley, Emma Thompson. Estreia: 18/10/15

 Em cinema, definitivamente há males que vem para o bem. Senão vejamos: em 2008, um roteiro escrito por Steven Knight - indicado ao Oscar por "Coisas belas e sujas", de 2004 - chegou às mãos do cineasta David Fincher, um dos mais inventivos e consistentes cineastas de sua geração. A notícia seria ótima se o ator escalado por Fincher para estrelar o projeto não fosse Keanu Reeves, não exatamente um exemplo de talento dramático (e que estava com a carreira em franca decadência). Como as coisas em Hollywood não andam em um ritmo muito ágil, o projeto estagnou e Fincher pulou fora - e Reeves também não foi adiante. Foi somente em 2012 que Bradley Cooper foi anunciado no papel principal - antes que começasse a ser respeitado pela crítica e pela Academia, que lhe indicou por três anos consecutivos ao Oscar -, comandado por Derek Cianfrance. Cianfrance, elogiado pela direção de "Namorados para sempre" (2010), porém, também não durou muito no posto e foi substituído por John Wells, um nome pouco conhecido do grande público mas com anos de experiência no leme de episódios de séries consagradas, como "Plantão médico" e "West Wing" e em vias de lançar "Álbum de família", que colocaria novamente Meryl Streep e Julia Roberts no páreo por uma estatueta dourada. No final das contas, a desistência de Fincher e Cianfrance acabaram por fazer bem ao filme: "Pegando fogo" é uma obra que não se encaixaria em nenhuma das duas filmografias, mas é um ponto de sofisticação e versatilidade na carreira de Wells - e uma prova de que Cooper é realmente bem mais que um simples galã.

Na verdade, Cooper, no auge do carisma, é o ponto alto de "Pegando fogo", não apenas por conseguir a simpatia do público mesmo com um personagem repleto de defeitos, como pelo fato de não se deixar eclipsar por atores de talento comprovado, como Uma Thurman, Emma Thompson e Daniel Bruhl. Completamente à vontade em cena, ele deita e rola na pele de Adam Jones, um chef de cozinha ao mesmo tempo sedutor e arrogante, obcecado pela profissão e por seu objetivo de reconquistar o autorrespeito e a admiração dos colegas - principalmente daqueles com quem tem um relacionamento marcado por desavenças e supostas traições. Na medida certa entre o cinismo e uma escondida autopiedade, ele conquista a plateia justamente por ser tão falível (e por vezes quase desagradável), um desafio do qual seu intérprete consegue se desvencilhar com segurança ímpar. Cooper só não vai ainda mais longe porque o roteiro, mesmo ágil, esperto e sem espaço para lágrimas fáceis, não se aprofunda o bastante para lhe dar um material mais forte. Mesmo assim, Adam Jones e Bradley Cooper formam um par perfeito.


Jones é um chef de cozinha autodestrutivo e prepotente que, depois de praticamente acabar com sua brilhante e ascendente carreira, resolve recomeçar a vida. Deixando para trás seu vício em drogas - e uma dívida com traficantes franceses - ele volta à Londres com o objetivo claro de comandar um restaurante e alcançar as ambicionadas três estrelas Michelin (o santo graal da gastronomia mundial). O restaurante que ele escolhe para ser o palco de sua redenção é comandado por um antigo conhecido, Tony (Daniel Bruhl) - que aceita, a contragosto, ajudá-lo, mais por ser apaixonado por ele e saber de seu talento do que por confiar em sua sobriedade. Adam começa, então, uma jornada para montar o time perfeito, e para isso, reúne dois antigos colegas: Max (o galã italiano Riccardo Scamarcio) - que está saindo da cadeia - e Michel (Omar Sy, do sucesso francês "Intocáveis"), que perdeu tudo o que tinha graças a uma situação armada pelo próprio Adam. A eles juntam-se o jovem David (Sam Keeley) e a promissora Helene (Siena Miller), uma mãe solteira se torna sua maior pedra no sapato dentro da cozinha. Juntos, eles tentarão alcançar a almejada cotação máxima para o restaurante - enquanto o chef briga com seus demônios particulares e a atração que sente por Helene.

Editado com agilidade e elegância, "Pegando fogo" é um filme de visual deslumbrante - todas as cenas em que aparecem os pratos sendo montados e degustados é de dar água na boca - e ritmo agradável. Ao mesmo tempo em que se utiliza da gastronomia como pano de fundo para uma história de reconquista da autoestima, ela é peça fundamental para a narrativa, fornecendo os elementos dramáticos da trama e se mostrando em todo o seu glamour e suas misérias. Buscando o máximo de realismo para as cenas que se passam na cozinha, Wells apresenta sequências apetitosas com outras de grande tensão, que refletem tanto o desafio profissional dos personagens (sempre em constante pressão) quanto o mundo interior do protagonista, a um passo de um ataque de nervos. Bom diretor de atores, Wells comanda o espetáculo com leveza, mas extrai atuações inspiradas de todo o seu elenco - e ainda dá espaço para uma química excelente entre Cooper e Siena Miller, que ficou com um papel para o qual foram cogitadas Michelle Williams e Marion Cottilard. O casal de atores - que já foram um casal também em "Sniper americano" (2014) - valoriza cada momento juntos, e acrescenta um tom romântico a uma história de redenção e amadurecimento. Não é um filme inesquecível, mas é um passatempo acima da média, tornado ainda melhor graças a um elenco impecável e uma direção discreta e eficaz. Um bom entretenimento!

terça-feira

MARLEY E EU

MARLEY E EU (Marley & Me, 2008, Fox 2000 Pictures, 115min) Direção: David Frankel. Roteiro: Scott Frank, Don Roos, livro de John Grogan. Fotografia: Florian Ballhaus. Montagem: Mark Livolsi. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Hilton Rosemarin. Produção executiva: Joe Caracciolo Jr., Arnon Milchan, Ani Williams. Produção: Gil Netter, Karen Rosenfelt. Elenco: Owen Wilson, Jennifer Aniston, Eric Dane, Kathleen Turner, Alan Arkin, Nathan Gamble, Haley Bennett, Ann Dowd. Estreia: 25/12/08
 
Quando compraram os direitos de adaptação para o cinema do livro "Marley e eu", do jornalista John Grogan, os executivos da Fox 2000 Pictures sabiam que tinham em mão um potencial sucesso: com mais de 1 milhão de exemplares vendidos apenas nos EUA, a história da relação entre uma família e seu cão labrador por 13 anos já havia encharcado lenços de papel também pelo mundo, com uma prosa leve e emocional que atingia em cheio o coração de todos aqueles apaixonados por animais. Quando o filme finalmente estreou, no Natal de 2008, ninguém se surpreendeu com a bilheteria animadora de mais de 140 milhões de dólares no mercado doméstico (e outros 100 milhões no mercado externo). Não era pra menos: com uma história que fala direto aos sentimentos, uma mistura certeira de humor e drama, um diretor acostumado a agradar ao público médio (David Frankel, de "O diabo veste Prada") e um elenco liderado por nomes conhecidos como Owen Wilson e Jennifer Aniston, o êxito era, mais do que esperado, praticamente certo. Tudo bem que o filme não é uma obra-prima (é longo demais, por vezes soa repetitivo e chega no limite do piegas), mas merece ser aplaudido por suas qualidades: é simpático, agradável e - milagre dos milagres! - consegue conquistar todas as fatias de público sem precisar apelar para efeitos especiais milionários ou super-heróis invencíveis. Ao falar de gente como a gente - com sentimentos reais e vívidos - é um perfeito "filme-família", que faz sorrir e chorar na mesma medida (ou talvez chorar mais do que sorrir, em especial em seus últimos minutos).

Apesar de concentrar boa parte de sua narrativa na relação entre Marley, o labrador batizado em homenagem ao cantor jamaicano Bob Marley e adotado ainda pequeno, e seus donos, o roteiro de "Marley e eu" também detalha a história de amor entre seus pais humanos - o casal de jornalistas John (Owen Wilson) e Jenny (Jennifer Aniston) - a partir de seu casamento. John sonha em seguir uma carreira de repórter sério, assim como seu melhor amigo, Sebastian (Eric Dane), mas o máximo que consegue é uma coluna no jornal onde trabalha, em que acaba se tornando popular justamente pelo tom leve e descompromissado de suas crônicas - grande parte delas citando as aventuras e desventuras de seu cão de estimação, um companheiro leal mas pouco afeito a regras de convivência tais como não comer tudo que encontra pela frente (de livros a aparelhos eletrônicos) ou pular em cima de estranhos. Jenny não tem tantas ambições profissionais quanto domésticas, e resolve cuidar apenas da família quando começa a ter os filhos que sempre sonhou - e depois de um traumático aborto espontâneo. Conforme a família vai crescendo, Marley vai se tornando parte cada vez mais indissociável do clã - para o bem e para o mal, já que seus hábitos pouco comuns tanto encantam quanto enlouquecem a todos.


Por dois terços de narrativa, "Marley e eu" mantém seu tom ameno e divertido de crônica familiar, com algum espaço para as crises no casamento entre John e Jenny - todas resolvidas em poucos minutos, de forma a não aprofundar um tema apenas secundário da trama. Quando a família Grogan sai da ensolarada Miami para a distante Filadélfia, porém, o tom começa lentamente a ficar mais sombrio. É aos poucos que Marley começa a dar sinais de cansaço, velhice e dor, o que aponta para um final previsível mas nem por isso menos melancólico. Essa transição entre gêneros é conduzida com sutileza por Frankel, que se aproveita de um roteiro sensível e bem-humorado (cortesia da dupla de veteranos Scott Frank e Don Roos) e do ótimo timing de seu casal de atores principais, que se desvencilha com facilidade das armadilhas dramáticas mesmo quando não resta muito a fazer exceto entregar-se à catarse final - orquestrada milimetricamente para levar qualquer um às lágrimas, mas felizmente executada com elegância e respeito. Qualquer um da plateia que tenha - ou tenha tido - um animal de estimação é tocado pela emoção pungente e verdadeira que emana da história, talvez justamente por ela ser real e honesta.

Essa honestidade que percorre todo o filme é que faz de "Marley e eu" uma produção tão bem-sucedida. Não há reviravoltas gigantescas ou sequências de humor inspiradíssimas, de fazer o público gargalhar: há somente a descrição da vida de uma família apaixonada uns pelos outros e por seu cachorro de estimação, e de como essa relação, construída através de anos de paciência e amor incondicional, é capaz de substituir qualquer ambição profissional ou financeira sem prejuízos  à busca pela felicidade. Uma narrativa simples - quase simplória - mas que funciona às mil maravilhas e faz lembrar de como o menos às vezes é mais quando se quer tocar o coração da plateia. É um filme que cumpre exatamente o que promete - e é irresistível justamente por isso!

segunda-feira

MOONLIGHT: SOB A LUZ DO LUAR

MOONLIGHT: SOB A LUZ DO LUAR (Moonlight, 2016, A24/Plan B Entertainment, 111min) Direção: Barry Jenkins. Roteiro: Barry Jenkins, estória de Tarrell Alvin McCraney. Fotografia: James Laxton. Montagem: Joi McMillon, Nat Sanders. Música: Nicholas Britell. Figurino: Caroline Eselin-Schaefer. Direção de arte/cenários: Hannah Beachler/Regina McLarney Crowley. Produção executiva: Sarah Esberg, Tarrell Alvin McCraney, Brad Pitt. Produção: Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Adele Romanski. Elenco: Ashton Sanders, Mahershala Ali, Naomie Harris, Alex R. Hibbert, Janelle Monaé, Duan Sanderson. Estreia: 02/9/16 (Festival de Teluride)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Barry Jenkins), Ator Coadjuvante (Mahershala Ali), Atriz Coadjuvante (Naomie Harris), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Mahershala Ali), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama 

Um filme com um elenco predominantemente negro, que falava de assuntos delicados como racismo, bullying, drogas e homossexualidade dificilmente poderia ser considerado material atraente para os conservadores membros da Academia de Hollywood. Mas "Moonlight: sob a luz do luar" rompeu todas essas barreiras (e o fato de ter sido realizado com um orçamento irrisório de 1,5 milhão de dólares) e tornou-se o grande campeão do Oscar 2017, tirando a principal estatueta das mãos dos produtores do franco-favorito "La La Land: cantando estações" - em um episódio sem precedentes, que constrangeu espectadores e apresentadores com o anúncio errado do nome do vencedor. Sua vitória, que pegou todo mundo de surpresa apesar da coleção de elogios e prêmios na temporada (incluindo o Golden Globe de melhor drama e o reconhecimento do American Film Institute), pode ser explicada por três caminhos: o racional, o emocional e o artístico (que não deixa de ser uma mistura dos dois primeiros).


Primeiro racionalmente: "Moonlight" surgiu como o pretexto mais que perfeito para que a Academia, violentamente atacada no ano anterior pela falta de diversidade em suas indicações, mostrasse que o preconceito de que era acusada não existia. Parte de uma temporada repleta de homenagens a atores de diferentes raças - e filmes que celebravam a diferença, como "Estrelas além do tempo", "Um limite entre nós" e "Lion: de volta para casa" - e com uma equipe formada em sua maioria esmagadora por negros, o filme de Barry Jenkins preenchia todos os requisitos necessários para passar a impressão de que a pressão da comunidade afro-americana havia funcionado. Lhe oferecendo oito indicações e três estatuetas - além de melhor filme, ficou com os prêmios de roteiro adaptado e ator coadjuvante - a Academia poderia voltar a dormir sossegada, sem polêmicas a assombrar-lhe o sono. Além disso, uma das produtoras do filme (Plan B Entertainment) tinha entre seus donos ninguém menos do que Brad Pitt - e já havia levado "12 anos de escravidão" ao pódio, na cerimônia de 2014. Ao contrário do filme de Steve McQueen, no entanto, "Moonlight" tem uma visão contemporânea do que é ser negro nos EUA no século XXI e nenhum de seus personagens é branco - algo admirável, especialmente quando se percebe que não existe, no roteiro, nenhuma tentativa de maniqueísmo sentimental.



E é aí que entra o segundo caminho que pode ter levado "Moonlight" ao Oscar: adaptado da peça teatral "In the moonlight black boys look blue", inédita nos palcos, o roteiro do diretor Barry Jenkins jamais tenta buscar a simpatia do público através de artifícios sentimentais. Mesmo que o protagonista passe por situações bastante pesadas em sua trajetória rumo à maturidade, sua cor nunca é mencionada como problema: cercado por outros personagens igualmente negros, ele tem à sua volta exemplos dos mais variados, desde um traficante de drogas sensível e paternal até sua mãe, viciada em drogas e que, em seus raros momentos de sobriedade, também é capaz de lhe dar carinho. Com personagens multidimensionais - como Kevin, o melhor amigo que lhe faz descobrir tanto o amor quanto a decepção - e sentimentos reais que afloram em cada cena de forma sutil e delicada (a fotografia de James Laxton também foi merecidamente indicada ao Oscar, com sua paleta de cores que refletem as mudanças de personalidade do personagem central e o ambiente ao seu redor), o filme não subestima a inteligência do espectador e, mesmo que não fuja daquilo que é impossível negar (a realidade negra na periferia de Miami, repleta de violência e pobreza), evita fazer disso seu ponto principal. Aliás, é admirável como Jenkins consegue falar de tanta coisa ao mesmo tempo sem soar pretensioso ou confuso (e sem forçar a mão em nenhum dos temas, conduzindo com elegância e fluidez uma história de perda da inocência que deixa no ar uma sensação de ternura e esperança poucas vezes vista no gênero.


A trama de "Moonlight" é dividida em três atos, em que o protagonista é interpretado por três atores diferentes, de acordo com sua faixa etária. Quando o filme começa, ele é uma criança inocente, tímida e reprimida pelos colegas valentões, que é resgatado de uma possível surra por Juan (Mahershala Ali, da série "House of Cards", premiado com o Oscar de ator coadjuvante). Traficante de drogas cubano, Juan consegue conquistar a confiança do menino, que se apresenta como Little (na pele de Alex Hibbert) e encontra em seu lar e em sua namorada, Teresa (a cantora Janelle Monáe), um arremedo de família que não tem em casa, já que sua mãe, Paula (Naomie Harris, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), está perigosamente indo em direção ao vício em crack. É Juan que acaba por lhe servir de imagem paterna, apesar da desconfiança de Paula. No segundo ato, já se apresentando como Chiron (e vivido por Ashton Sanders), ele vive um grave conflito com sua sexualidade e com a forma como ela é percebida por seus colegas, que ainda o mantém sob constante ameaça - inclusive seu amigo Kevin (Jharrell Jerome), que se deixa levar pela violência dos companheiros apesar de sua amizade com ele. O final trágico deste ato conduz à terceira e última parte da narrativa: adulto e entregue ao tráfico de drogas, com o codinome de Black (Trevante Rhodes), ele vive em Atlanta, tentando esquecer o passado traumático - até que recebe um telefonema de Kevin (André Holland) e resolve visitá-lo e passar a limpo seu afastamento.


Humano, tocante e sensível, "Moonlight" é um belíssimo filme, realizado com alma e coração. Mesmo com suas inúmeras qualidades artísticas - a fotografia inspirada, a edição fluente, a trilha sonora que inclui até Caetano Veloso cantando "Cucurucucu Paloma" - é sua aposta na emoção e nos sentimentos primais que ele encontra sua conexão com a audiência. Apresentando três jovens atores que cumprem com perfeição seu papel de protagonista e coadjuvantes impecáveis, a obra de Barry Jenkins é um marco não apenas por suas conquistas artísticas e sociais, mas também por mostrar que talento não tem cor ou raça. À parte as motivações políticas que podem ter empurrado os eleitores em sua direção na hora de votar - e talvez até mesmo o desgosto com a eleição de Donald Trump à presidência - seus méritos são imensos e dignos dos maiores elogios. "La La Land" pode ficar tranquilo: perder o Oscar principal para "Moonlight" não deixa de ser uma honra!

domingo

LA LAND: CANTANDO ESTAÇÕES

LA LA LAND: CANTANDO ESTAÇÕES (La La Land, 2016, Summit Entertainment/Black Label Media, 128min) Direção e roteiro: Damien Chazelle. Fotografia: Linus Sandgren. Montagem: Tom Cross. Música: Justin Hurwitz. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Michael Beugg, Mike Jackson, John Legend, Qiuyun Long, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill, Jasmine McGlade, Molly Smith, Ty Stiklorius. Produção: Fred Berger, Gary Gilbert, Jordan Horowitz, Marc Platt. Elenco: Ryan Gosling, Emma Stone, John Legend, J.K. Simmons, Tom Everett Scott, Rosemarie DeWitt, Finn Wittrock. Estreia: 31/8/16 (Festival de Veneza)

14 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Damien Chazelle), Ator (Ryan Gosling), Atriz (Emma Stone), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Audition", "City of stars"), Figurino, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 6 Oscar: Diretor (Damien Chazelle), Atriz (Emma Stone), Fotografia, Trilha Sonora Original, Canção ("City of stars"), Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 7 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia ou Musical), Diretor (Damien Chazelle), Ator Comédia/Musical (Ryan Gosling), Atriz Comédia/Musical (Emma Stone), Roteiro, Trilha Sonora Original, Canção ("City of stars")

 Poético! Encantador! Irresistível! Fascinante! Em um período em que filmes retratam uma realidade dolorosa, cruel e por vezes realista ao extremo, quantas produções nascidas no berço de ouro de Hollywood podem ostentar tantos adjetivos quanto "La La Land: cantando estações"? Realizado como uma homenagem do jovem cineasta Damien Chazelle à era de ouro dos musicais americanos, e com um custo quase irrisório de 30 milhões de dólares, a doce e apaixonante história de amor entre um fã obcecado de jazz e uma aspirante à atriz acabou por conquistar o mundo, principalmente graças a seu perfeito equilíbrio entre gêneros (romance, musical, comédia, drama), à química inquestionável de seu par de atores centrais e ao visual deslumbrante, milimetricamente calculado para causar um efeito hipnotizante entre os fãs de cinema. Recordista de Golden Globes (levou sete para casa, arrebatando prêmios em todas as categorias a que foi indicado) e em indicações ao Oscar (14, empatando com "A malvada", de 1950, e "Titanic", de 1997), acabou, no entanto, frustrando seus admiradores quando perdeu a principal estatueta (melhor filme) para "Moonlight: sob a luz do luar" - em uma situação sem precedentes na história da Academia, quando foi anunciado vencedor para depois descobrir que os apresentadores Warren Beatty e Faye Dunaway haviam lido o nome errado. Tal situação, no entanto, não apaga seu brilho, suas seis vitórias (incluindo direção e atriz) e a sensação de já ter nascido clássico. Sucesso de público e de crítica, amado por fãs e admirado por amantes de música, é uma obra-prima indiscutível - capaz de abrir sorrisos no mais cínico espectador e provocar lágrimas nos mais sensíveis. Enfim, um filme que redescobre o prazer que apenas o cinema pode proporcionar.

Influenciado por dezenas de produções clássicas - percebe-se referências nítidas no desenrolar da narrativa, sejam diretas ou implícitas - e ainda assim dotado de personalidade própria, "La La Land" é um gigantesco passo à frente na carreira de seu diretor, já devidamente aplaudido em seu filme anterior, o premiado "Whiplash: em busca da perfeição" (2014). Com uma segurança de veterano, Chazelle constrói um universo particular, uma visão romantizada e colorida de sua cidade natal, Los Angeles, e de um mundo que parece radicalmente distante da realidade. Tudo em seu filme é reflexo de uma ótica visualmente deslumbrante e emocionalmente passional: da fotografia impecável de Linus Sandgren, de encher os olhos com sua paleta de cores delicadas em alguns momentos e gritantes em outros à direção de arte, que acompanha o imaginário onírico do cineasta ao criar cenários que parecem ter saído direto do mais apaixonado sonho. Da primeira sequência, em um engarrafamento monstruoso que se transforma magicamente em um número musical animado e empolgante, até os minutos finais (de partir o coração com suas implicações a respeito do destino e de como os sonhos tem seu lado bom e ruim), tudo que é visto na tela tem a clara intenção de encantar o público e transportá-lo para um lugar distante da realidade. As coreografias delicadas e complexas, as canções melancólicas de melodia discreta, as visitas a cenários conhecidos do público - o planetário de "Juventude transviada", os estúdios da Warner, as colinas de Hollywood - e a beleza artificial de uma cidade que já faz parte do inconsciente coletivo formam um impressionante painel narrativo, onde cada peça se encaixa perfeitamente na outra e, juntas, conduzem a audiência a uma experiência cada vez mais rara no quadradinho panorama do cinema americano.


A trama, como convém, é simples e pouco ambiciosa: a jovem Mia (Emma Stone, uma delícia de se assistir) trabalha como garçonete em uma lanchonete de Los Angeles enquanto espera sua grande chance como atriz. Sebastian (Ryan Gosling, versátil como nunca) é um pianista de bares que sonha abrir seu próprio estabelecimento, onde poderá finalmente valorizar a arte do jazz, pela qual é apaixonado. Os caminhos dos dois se cruzam e, depois de alguma relutância, Mia se entrega a um idílico romance com o rapaz, que lhe dá apoio e incentivo a perseguir seus objetivos. Conforme o tempo passa (dividido na tela nas quatro estações do ano, daí o subtítulo em português), os dois sentem que as coisas não serão assim tão fáceis: para juntar dinheiro, ele aceita fazer parte de um grupo musical pop liderado por um antigo desafeto (o cantor John Legend), e ela, motivada por ele, escreve um monólogo para lhe servir de escada para o sucesso. O que deveria unir o casal, porém, começa a afastá-los: será que é impossível a realização profissional e sentimental ao mesmo tempo? A resposta virá no devido tempo - e a música inspirada de Justin Hurwitz irá sublinhá-la de maneira a não deixar um único olho seco na plateia.

Com uma química já comprovada em outras duas ocasiões - nos filmes "Amor à toda prova" (2011) e "Caça aos gângsteres" (2014) - e novamente testada com sucesso, Ryan Gosling e Emma Stone estão fabulosos, e nem é possível imaginar que não foram os primeiros atores escalados para seus papéis. Se os planos de Damien Chazelle corressem conforme o esperado, Emma Watson e Miles Teller estariam na pele de Mia e Sebastian, mas por uma providencial mudança de planos, voltaram a contracenar e tiveram sua mais bem-sucedida parceria: Emma, escolhida pelo diretor depois de ele confirmar seus dotes musicais em uma montagem de "Cabaret", chegou a ganhar o Oscar de melhor atriz com seu misto de ingenuidade e determinação - impossível não se emocionar com a bela "Audition (The fools who dream"), indicada à estatueta de melhor canção - e se mostra uma das maiores promessas de Hollywood, enquanto Gosling se apresenta como um dos atores mais consistentes de sua geração, capaz de atuar, cantar e dançar com desenvoltura e carisma. Plenamente aptos a transmitir a mensagem apaixonante do diretor, eles são o corpo e alma de "La La Land", um filme inesquecível e que renova, de forma emocionante, o status de sétima arte ao cinema. É de se esperar o que mais Chazelle tem guardado na manga para seus próximos filmes: poucos cineastas conseguem ser tão brilhantes tão cedo!

sexta-feira

KINGSMAN: SERVIÇO SECRETO

KINGSMAN: SERVIÇO SECRETO (Kingsman: The Secret Service, 2014, 20th Century Fox, 129min) Direção: Matthew Vaughn. Roteiro: Jane Goldman, Matthw Vaughn, comic book de Mark Millar, Dave Gibbons. Fotografia: George Richmond. Montagem: Eddie Hamilton, Jon Harris. Música: Henry Jackman, Matthew Margeson. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Paul Kirby/David Morison, Jennifer Williams. Produção executiva: Dave Gibbons, Pierre Lagrange, Stephen Marks, Mark Millar, Claudia Vaughn. Produção: Adam Bohling, David Reid, Matthew Vaughn. Elenco: Colin Firth, Taron Egerton, Samuel L. Jackson, Mark Strong, Michael Caine, Mark Hamill, Jack Davenport. Estreia: 13/12/14 

Em uma determinada cena de "Kingsman: Serviço Secreto", o agente Harry Hart (Colin Firth), em um diálogo com o vilão, Valentine (Samuel L. Jackson), lhe responde à pergunta sobre gostar de filmes de espionagem: "Hoje em dia eles estão um pouco sérios demais para o meu gosto. Mas os antigos... eram maravilhosos!" E completa: "Eu sempre senti que os filmes antigos de James Bond eram tão bons quanto seus vilões. Enquanto criança eu sempre preferi me ver, no futuro, como um grande megalomaníaco!". Esse tom de homenagem/reverência/ironia do filme, mais do que simplesmente parte do estilo do diretor (inglês, é claro) Matthew Vaughn, é fator fundamental para que o filme, baseado em um comic book lançado em 2012 (dois anos antes da estreia do filme, o que não deixa de ser um feito e tanto em uma indústria que às vezes leva décadas desenvolvendo seus projetos) tenha sido tão bem-sucedido, tanto em termos de crítica quanto de bilheteria. Com uma renda de mais de 400 milhões de dólares arrecadados pelo mundo, a comédia de ação de Vaughn - produtor dos primeiros filmes de Guy Ritchie e diretor do igualmente divertido "Kick-ass: quebrando tudo" (2010) - é tudo que um filme do gênero precisa ser: engraçado, movimentado, absurdo e muito, muito bem dirigido.

Indo ainda mais longe em sua criatividade em criar sequências de ação alucinantes que jamais perdem o bom-humor, Vaughn não decepciona em "Kingsman": da primeira cena (com a participação especial de Mark Hamill, o Luke Skywalker em pessoa) até o final explosivo - passando por no mínimo duas cenas geniais, em um pub e em uma igreja lotada - o cineasta parece não ter medo de coisas mundanas, como classificação etária ou a gravidade. Em uma época em que poucas coisas realmente chamam a atenção pela novidade, ele alcança um nível de frescor admirável, principalmente por inserir em suas lutas um ator respeitado por seus dotes dramáticos e vencedor de um Oscar, o britânico Colin Firth. Perceptivelmente se divertindo como nunca na carreira, Firth protagoniza momentos de puro nonsense sem nunca perder a classe, se reinventando e mostrando ser capaz de pular de papéis sérios para deliciosas bobagens sem deixar de lado sua tradicional fleuma. Com uma química impecável com o jovem Taron Egerton, ele surge como o mais improvável herói de filmes de ação - e tira de letra o desafio.


Criado como forma de homenagear as histórias de espionagem que encantavam Vaughn e Mark Millar - um dos autores do comic book que deu origem ao filme - e surgido durante as filmagens de "Kick-ass", o enredo de "Kingsman" explora todos os clichês do gênero, sempre lhe oferecendo altas doses extras de sarcasmo e modernidade. É assim que, sem desrespeitar os cânones já consagrados, conquista também uma audiência mais acostumada a efeitos visuais do que sutilezas - e, ignorando as diferenças de faixa etária, agrada tanto ao público mais adulto quanto àqueles que buscam apenas um entretenimento descompromissado para passar o tempo. Boa parte desse sucesso vem da escalação mais do que certeira do jovem Taron Egerton, que ganhou o papel depois da recusa de Aaron Taylor-Johnson e de ter concorrido com cerca de sessenta atores - incluindo o promissor Jack O'Connell. Carismático, talentoso e dotado de um senso de humor que é imprescindível ao projeto como um todo, Egerton - que depois voltaria a roubar a cena em "Voando alto", ao lado de Hugh Jackman - tem uma química impecável com Colin Firth e não parece incomodado de atuar com gente como Michael Caine e Samuel L. Jackson. Jackson, por sua vez, igualmente parece extremamente à vontade como o grande vilão do filme, Richmond Valentine - que foi oferecido a Tom Cruise, Leonardo DiCaprio e Idris Elba antes de cair em seu colo.

Seguindo a coerência de sua ideia em criar um vilão tão megalomaníaco que beira a caricatura, o roteiro de "Kingsman" apresenta Valentine como um gênio da tecnologia, cujos planos de salvar a Terra do aquecimento global envolve sacrificar parte da população e contar com líderes de todo o mundo. É ele a quem uma organização secreta inglesa chamada Kingsman precisa deter antes que seja tarde demais - e quem lidera a missão é Harry Hart, mais conhecido como Galahad (Colin Firth), que recruta para fazer do grupo o jovem delinquente Gary Enwim, ou simplesmente "Egsy" (Taron Egerton). Filho de um agente morto em ação há alguns anos, Egsy aceita concorrer a uma vaga no disputado time - e o treinamento árduo o revela como um talentoso e audacioso cavalheiro, que irá lutar em pé de igualdade contra o mal representado por Valentine. O treinamento de Egsy, sua transformação gradual de adolescente problemático em um homem de honra, sua relação filial com Harry... tudo está presente no roteiro, de forma orgânica e surpreendentemente moderna e agradável. Mas nada se compara à maneira com que Matthew Vaughn comanda as cenas de luta em seu filme: é impossível ficar impassível diante da adrenalina impressa em cada ângulo, em cada movimento de câmera, que simplesmente joga o espectador no meio de coreografias elaboradas para criar a sensação do mais absoluto (porém organizado) caos. São cenas brilhantes, editadas com maestria e corajosamente violentas, ainda que sua violência seja embalada por um visual colorido e quase irreal - uma prova da excelência do conjunto de fotografia, edição e trilha sonora. Uma conquista em todos os aspectos, "Kingsman: Serviço Secreto" é uma pequena obra-prima do gênero, um filme que, assim como "Kick-ass" subverte as regras para reapresentá-las de forma atraente e irresistível. Vaugh, que desistiu de assinar "X-Men: dias de um futuro esquecido" para comandar essa releitura dos filmes de espionagem, mais uma vez acertou em cheio. Imperdível!

quinta-feira

GUARDIÕES DA GALÁXIA

GUARDIÕES DA GALÁXIA (Guardians of the Galaxy, 2014, Marvel Studios/Marvel Enterprises, 121min) Direção: James Gunn. Roteiro: James Gunn, Nicole Perlman, comic books de Dan Abnett, Andy Lanning, personagens de Bill Mantlo, Keith Giffen, Jim Starlin, Steve Englehart, Steve Gan, Steve Gerber, Val Mayerik. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Fred Raskin, Hughes Winborne, Craig Wood. Música: Tyler Bates. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Charles Wood/Richard Roberts. Produção executiva: Victoria Alonso, Louis D'Esposito, Alan Fine, Nik Korda, Jeremy Latcham, Stan Lee. Produção: Kevin Feige. Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Bradley Cooper, Vin Diesel, Lee Pace, Michael Rooker, Djimon Houson, John C. Reilly, Karen Gillan, Glenn Close, Benicio Del Toro. Estreia: 21/7/14

2 indicações ao Oscar: Maquiagem, Efeitos Visuais

Quem disse que apenas de super-heróis conhecidos e consagrados vive a Marvel? Em 2014, um filme que não tinha um personagem adorado pelo público (como Homem-Aranha, Thor, Capitão América ou Homem de Ferro) nem um astro capaz de arrastar multidões apenas por sua causa (o maior sucesso de seu ator central havia sido "Jurassic World", de 2013, que tinha nos dinossauros seu principal ponto de venda e interesse) surpreendeu a todos com uma bilheteria mundial de mais de 770 milhões de dólares. Confirmação absoluta do poder da marca Marvel, "Guardiões da galáxia" faz parte do mesmo universo dos Vingadores - do qual fazem parte os personagens citados acima - mas suas ligações com ele são apenas circunstanciais, perceptíveis apenas aos fãs mais antenados, que percebem cada detalhe que une todas as histórias em uma só. Àqueles que não tem o mesmo encantamento ou interesse pelo mundo de super-heróis que vem povoando as telas de cinema há quase uma década - os primeiros filmes dessa nova concepção foram "Homem de Ferro" e "O incrível Hulk", ambos de 2008 - o filme de James Gunn serve perfeitamente como uma divertida, agitada e descompromissada comédia de ação, comandada por um espetacular Chris Pratt e recheada de efeitos visuais caprichados e personagens coadjuvantes carismáticos e interessantes. Não à toa, apesar da incerteza acerca de sua bilheteria antes da estreia, o final já deixa claro que a aposta não era tão às cegas assim. Cinema de verão, afinal, é exatamente como "Guardiões da galáxia".

Visualmente impecável, o filme de James Gunn é quase infantil em seu humor fácil e personagens que prescindem de todo tipo de realismo, mas ainda assim consegue cativar todos os tipos de público. O roteiro - coescrito pelo diretor e por Nicole Perlman, primeira mulher a ter seu nome nos créditos de um roteiro da Marvel - usa e abusa do bom-humor, inserindo piadas nas horas exatas e fazendo de seu protagonista um personagem de quem é impossível desgostar. Sem levar-se demais a sério, a história é quase uma desculpa para uma sequência de bons momentos de ação e comédia, embalados em uma direção de arte de um colorido quase kitsch e uma trilha sonora deliciosa - uma seleção de hits da década de 80 que chegou ao número 1 da revista Billboard e foi indicada ao Grammy. Ilustrando espirituosamente uma trama recheada de efeitos visuais, explosões e personagens de aparência excêntrica (o filme concorreu ao Oscar de maquiagem, mas perdeu para "O Grande Hotel Budapeste"), as músicas escolhidas pelo diretor transformam o que já era entretenimento de primeira em uma viagem de montanha-russa na companhia de um grupo de adoráveis defensores da galáxia (ainda que alguns com intenções bem menos nobres do que simplesmente colocar a vida em risco por puro altruísmo).





A história começa na Terra, em 1988, quando o adolescente Peter Quill é abduzido por uma nave espacial logo depois da morte de sua mãe. Sem saber nem mesmo quem é seu pai, o rapaz leva consigo apenas uma fita cassete gravada por sua mãe com sucessos musicais da época e um pacote de presente ainda não aberto. Vinte e seis anos mais tarde, Quill trabalha como mercenário das galáxias, vendendo sua mão-de-obra e seu jogo de cintura em lidar com os mais variados tipos de alienígenas para resolver pequenos problemas interplanetários. Bem-humorado e feliz com sua atividade profissional (além de reconhecido e prestigiado por ela), Quill subitamente vê sua cabeça à prêmio quando, depois de roubar uma misteriosa esfera com o poder de destruir o mundo, passa a ser caçado pelo perigoso Ronan (Lee Pace) e seus violentos asseclas. Para defender-se (e ao mundo), ele se une então a um grupo no mínimo excêntrico, formado pelo ambicioso guaxinim Rocket (voz de Bradley Cooper), a árvore mutante Groot (voz de Vin Diesel), o agressivo Drax (Dauve Batista) e a vingativa Gamora (Zoe Saldana). Juntos, eles são a última esperança de impedir a destruição do universo.


A partir daí, dá-lhe cenas de ação que equilibram com destreza efeitos especiais caprichadíssimos (que perderam o Oscar para "Interestelar", de Christopher Nolan) e piadas realmente engraçadas e que surgem organicamente no roteiro - não como artifício narrativo, mas sim como parte essencial de um conjunto de extrema coesão. Agarrando com unhas e dentes o papel principal, Chris Pratt parece ter nascido para interpretar Peter Quill, com um misto de heroísmo, sarcasmo e pureza que o torna irresistível. Sua química com o restante da equipe é admirável, conduzida com leveza por James Gunn, um cineasta sem vasta experiência mas com inteligência o suficiente para explorar as maiores qualidades da trama (o humor, os personagens carismáticos, a despretensão) sem tentar impor um estilo próprio ou ousadias desnecessárias. Um excelente meio-termo entre entretenimento rápido e eficaz e um produto comercial gigantesco (por menores que fossem as expectativas trata-se de um filme da Marvel, afinal de contas), "Guardiões da galáxia" não conquistou às exigentes plateias mundiais à toa: é uma das mais gratificantes experiências do universo dos gibis, entregando mais do que prometia e apresentando ao público uma gama de personagens encantadores e simpáticos. Uma pérola do gênero!

quarta-feira

THE BEACH BOYS: UMA HISTÓRIA DE SUCESSO

THE BEACH BOYS: UMA HISTÓRIA DE SUCESSO (Love & Mercy, 2014, River Road Entertainment, 121min) Direção: Bill Pohlad. Roteiro: Oren Moverman, Michael Alan Lerner. Fotografia: Robert Yeoman. Montagem: Dino Jonsater. Música: Atticus Ross. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Keith Cunningham/Maggie Martin. Produção executiva: Jim Lefkowitz, Oren Moverman, Ann Ruark. Produção: Bill Pohlad, Claire Rudnick Polstein, John Wells. Elenco: Paul Dano, John Cusack, Paul Giamatti, Elizabeth Banks, Jake Abel, Kenny Wormald, Brett Davern. Estreia: 07/9/14 (Festival de Toronto)

Quando foi atender aquele homem excêntrico e gentil que procurava um carro novo naquele dia de 1986, a jovem Melinda Leadbetter jamais imaginaria que sua vida seria profundamente alterada: aquele homem era Brian Wilson, ex-integrante de um dos grupos musicais de maior sucesso dos anos 60, e sua relação com ele revelaria não apenas uma mente brilhante e à frente de seu tempo, mas também perturbada e controlada por um médico inescrupuloso que o impedia de levar uma vida normal. A relação entre Melinda e Brian - e o retrato do começo do desequilíbrio mental do artista - são o tema de "The Beach Boys: uma história de sucesso", uma cinebiografia quase convencional mas, acima de tudo, fiel aos fatos e dotada de uma alma que a torna irresistível aos fãs do grupo, que tem a oportunidade de conhecer um lado pouco glamouroso de um ídolo que substituiu os palcos e a fama por clínicas e paranoia. Com um roteiro inteligente que intercala fases distintas da vida de Wilson com (bons) atores se dividindo no papel, o filme de Bill Pohlad não deixa de ser um sopro de criatividade dentro de seu subgênero, optando por um foco narrativo específico ao invés de debruçar-se sobre uma vida inteira - o que fatalmente acabaria  na superficialidade.

Uma história repleta de acontecimentos dramáticos irresistíveis ao cinema, a trajetória de Brian Wilson através de seus problemas psicológicos já tinha flertado com as telas em duas ocasiões: na década de 80, com William Hurt na pele do músico e Richard Dreyfuss como seu médico particular, Eugene Landy, e nos anos 90, com Jeff Bridges no papel central. Nenhuma das duas tentativas conseguiu ultrapassar os limites das possibilidades - o que não deixa de ser um alívio, em especial se for considerado que o filme com Hurt e Dreyfuss teria o dedo do próprio Landy na produção, o que fatalmente alteraria profundamente a veracidade dos fatos narrados. Landy, afinal de contas, pode facilmente ser considerado o vilão da história: mantendo Wilson sob seu rígido comando, ele se aproveitava da fragilidade do paciente para manipulá-lo e afastá-lo de quem quer que pudesse realmente ajudar em sua recuperação. Foi assim, por exemplo, com a própria Melinda, que se viu no meio do fogo cruzado entre os dois assim que entrou na vida de Brian: fascinado por ela, o autor de algumas das canções mais amadas da história da música americana comprou uma briga com seu psicólogo para agarrar-se a uma espécie de último fiapo de esperança de manter-se são. Esse confronto entre Melinda e Landy se alterna, no roteiro escrito por Oren Moverman (indicado ao Oscar por "O mensageiro", de 2009) e Michael Alan Lerner, com a criação do mais radical álbum dos Beach Boys, o mal-compreendido "Pet Sounds" - surgido em meio aos demônios pessoais de seu compositor.


Na juventude - e em fase de total ebulição criativa - Brian Wilson é interpretado por Paul Dano, vencedor do prêmio de melhor ator pelos críticos de Nova York e indicado ao Golden Globe por seu desempenho hipnótico. Totalmente imerso no personagem, Dano entrega a melhor atuação de sua carreira, mesclando momentos de bravata com outros de puro desespero e angústia - fustigados por seu pai, um homem mais afeito ao lucro do que à arte e incapaz de uma palavra de afeto. Torturado por pensamentos aflitivos, o rapaz vai contra o óbvio e se afasta dos palcos para conceber um disco revolucionário em música e conceito - algo que nem todo mundo se esforçava para compreender em sua importância cultural. Vinte anos mais tarde, Wilson ganha a forma de John Cusack e, maltratado pelo tempo e por uma vida de excessos e remédios fortíssimos, é quase incapaz de dar um passo sem consultar seu médico/guru/guarda-costas Eugene Landy (interpretado com gosto por um excelente Paul Giamatti). Uma sombra do que poderia ter sido, Wilson vê em Melinda uma luz no fim do túnel, e mesmo com a saúde mental debilitada, se envolve em uma história de amor improvável e que pode lhe salvar a vida. Cusack está bem no papel, mas é quase eclipsado por Giamatti - que rouba todas as cenas em que aparece, como um parasita detestável e ameaçador (sua interpretação é tão admirável que o próprio Brian Wilson ficou pouco à vontade ao vê-lo em cena). No meio de tantos talentos, Elizabeth Banks surpreende em um papel sério e discreto - um porto seguro dentre tantas tormentas.

Pontuado por uma sutil trilha sonora de Atticus Ross - colaborador habitual de David Fincher - e editado de forma a manter o espectador interessado no desenrolar dos acontecimentos, "The Beach Boys: uma história de sucesso" é um conjunto de acertos. A direção de Bill Pohlad não tenta chamar mais a atenção do que a história ou os personagens, servindo como um fio condutor eficiente mas nunca maior do que a trama. Bem-sucedido produtor - de filmes oscarizados, como "O segredo de Brokeback Mountain" (2005) e "12 anos de escravidão" (2014) - e estreante como cineasta, Pohlad faz um primeiro trabalho primoroso em sua sutileza e delicadeza em tratar de assuntos desagradáveis sem afastar o público. Oferecendo uma cinebiografia que foge das narrativas convencionais, ele entrega um filme que consegue agradar aos fãs da banda e apresentá-la (ou ao menos introduzir sua música) a neófitos e/ou admiradores ocasionais. Um belo drama musical, embalado por canções das mais agradáveis já gravadas e com um elenco em dias inspirados. O que mais se pode esperar?

O CAMINHO DAS NUVENS

O CAMINHO DAS NUVENS (O caminho das nuvens, 2003, Luiz Carlos Barreto Produções Cinematográficas, 85min) Direção: Vicente Amorim. Roteiro:...