UM DIA MUITO LOUCO (Freaky friday, 1976, Walt Disney Productions, 95min) Direção: Gary Nelson. Roteiro: Mary Rodgers, romance de sua autoria. Fotografia: Charles F. Wheeler. Montagem: Cotton Warburton. Música: Johnny Mandel. Direção de arte/cenários: John B. Mansbridge, Jack Senter/Robert Benton. Produção: Ron Miller. Elenco: Barbara Harris, Jodie Foster, John Astin, Patsy Kelly, Dick Van Patten, Marc McClure. Estreia: 17/12/76
O ano de 1976 foi, no mínimo, bastante estranho para Jodie Foster, então uma atriz-mirim se encaminhando para tornar-se uma intérprete adulta: não apenas perdeu a chance de estrelar o que seria uma das maiores bilheterias da história ("Star Wars", onde faria o papel da Princesa Leia) por problemas de contrato com a Disney, como confirmou-se uma das mais talentosas promessas de sua geração ao mostrar duas facetas completamente opostas de seu trabalho. No início do ano viveu a jovem prostituta Iris no cultuado "Taxi driver", de Martin Scorsese - que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante - e no final do ano estava nas telas do cinema em mais uma comédia inconsequente do estúdio do Mickey: em "Um dia muito louco", ela provou que também sabia fazer rir, tirando de letra o desafio de viver não apenas uma pré-adolescente rebelde mas também sua mãe certinha, que toma seu corpo devido a uma troca inexplicável e que torna seu dia um pandemônio de que somente o cinema comercial americano é capaz de imaginar. Na verdade, nem ele: o roteiro de Nancy Rodgers é baseado em seu romance, publicado em 1972 e que rendeu, posteriormente, duas refilmagens: uma em 1995 (com Shelley Long e Gaby Hoffman) e outra, bem-sucedida, estrelada por Jamie Lee Curtis e Lindsay Lohan. Leve, despretensiosa e um clássico absoluto da Sessão da Tarde, "Um dia muito louco" é um filme de sabor nostálgico, em que até seus "defeitos" especiais contribuem para a sensação de voltar à infância.
Do visual cafona à configuração social que contrasta com as conquistas femininas das últimas décadas, tudo em "Um dia muito louco" remete imediatamente aos anos 70, um período de ouro para as produções familiares da Disney - estúdio pelo qual Jodie Foster fez vários filmes em sua infância e pré-adolescência. Uma produção nitidamente com ambições de conquistar as plateias infanto-juvenis, a comédia dirigida por Gary Nelson - veterano de telefilmes e episódios de séries de TV - é um primor de entretenimento descompromissado e bem-humorado. Contando com atuações inspiradas de Foster e Barbara Harris, ambas indicadas ao Golden Globe de melhor atriz em comédia ou musical (perderam a estatueta para Barbra Streisand, por "Nasce uma estrela"), o filme conquista pelo ritmo ágil, pela simpatia do elenco e pelas situações criadas pelo roteiro, que brincam não apenas com as percepções equivocadas de mãe e filha sobre suas rotinas mas também sobre como o mundo feminino (ou ao menos aquele dos EUA do final da década) se comportava diante de situações domésticas e profissionais. Mesmo que pareça estender-se demais em seu ato final - um clímax repleto de ação e cenas do mais puro pastelão (um deleite para as crianças) - e sofra com um tanto de superficialidade no desenvolvimento de suas personagens, o filme de Nelson entrega exatamente o que promete: diversão.
A trama é simples e conhecida: em uma sexta-feira 13 aparentemente normal, uma dona-de-casa dedicada ao lar, ao marido e ao casal de filhos (Barbara Harris) se vê com a personalidade da filha pré-adolescente, Annabel (Jodie Foster) - uma jovem ligeiramente desleixada e rebelde que também percebe estar vivendo sob a perspectiva de sua mãe. A princípio se divertindo com a situação, aos poucos as duas notam que estão diante de um grande problema, já que justamente nesse dia o pai da família (John Astin) conta com a presença de ambas em uma recepção que pode lhe dar uma promoção no trabalho. A confusão, então, está armada: na pele de sua mãe, Annabel precisa lidar com a administração de uma casa (com eletrodomésticos que não sabe utilizar e problemas com fornecedores e uma empregada doméstica pouco afável) e sua mãe, chocada com o dia-a-dia da jovem, tenta disfarçar o caos que se instala quando ela precisa fazer parte do time da escola em uma partida importante de beisebol. Não bastasse isso, Annabel aproveita que está com o visual de sua mãe para tentar convencer o jovem vizinho, Boris (Marc McClure), de que é a namorada perfeita para ele apesar de seu jeito descuidado.
De posse de uma história surreal e que em nenhum momento tenta explicar-se além do superficial (o que, de certa forma, é melhor do que explicações rasteiras), o roteiro de "Um dia muito louco" leva o espectador a noventa minutos de um humor pueril e recheado de sequências que remetem diretamente a um cinema sem neuroses e totalmente desprovido de pretensões - um contraponto interessante ao que começava a acontecer junto a cineastas como Francis Ford Coppola, Sidney Lumet e Martin Scorsese. O fato de Jodie Foster ser a ponte entre esses dois estilos opostos de cinema não deixa de ser curioso - e uma prova do talento incrível da então jovem atriz, que se tornaria uma das mais respeitadas e inteligentes da Hollywood dos anos 90 em diante. Sua criação como a intrépida Annabel Andrews (em papel para o qual também foi testada Debra Winger) é definitivamente a prova de sua versatilidade e carisma. "Um dia muito louco" é diversão simples e descompromissada - com o selo de qualidade da Disney.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade. Afinal, a sétima arte não tem esse nome à toa.
domingo
sábado
INSTINTO FATAL
INSTINTO FATAL (Monkey shines, 1988, Orion Pictures, 113min) Direção: George A. Romero. Roteiro: George A. Romero, romance de Michael Stewart. Fotografia: James A. Contner. Montagem: Pasquale Buba. Música: David Shire. Figurino: Barbara Anderson. Direção de arte/cenários: Cletus Anderson/Diana Stoughton. Produção executiva: Gerald S. Pasonessa. Produção: Charles Evans. Elenco: Jason Beghe, John Pankow, Kate McNeil, Stanley Tucci, Joyce Van Patten, Christine Forrest, Stephen Roote, Janine Turner. Estreia: 29/7/88
Alçado ao posto de rei dos filmes B graças a seu seminal "A noite dos mortos-vivos" (68), o cineasta Roger A. Romero fez sua carreira investindo em produções quase indigentes, que conquistavam o público justamente pela falta de sofisticação e pelo tom apocalíptico. Diretor, roteirista e produtor respeitado e admirado, Romero finalmente rendeu-se ao poder dos estúdios de Hollywood no final da década de 80, quando assinou contrato com a Orion Pictures para adaptar o romance "Monkey shines", de Michael Stewart. Com um orçamento (generoso para seus padrões) de 7 milhões de dólares, ele experimentou, pela primeira vez, a sensação de ter que dar satisfação de cada centavo gasto - além de ter de brigar para fazer o filme da maneira que havia imaginado. O resultado desse conflito - o meio-termo entre o produto comercial desejado pelo estúdio e o filme concebido pela imaginação criativa e um tanto doentia de seu diretor - é "Instinto fatal", um suspense intrigante e violento que une o talento de Romero em criar sequências aterrorizantes às regras do cinema mainstream. Por uma fina ironia, porém, o público deu a entender nas bilheterias que prefere a versão menos refinada de seu ídolo: com menos de 5 milhões de dólares arrecadados nos cinemas americanos, o filme traumatizou Romero - que só voltou a realizar um filme dentro dos padrões hollywoodianos cinco anos mais tarde (com a adaptação de "A metade negra", de Stephen King).
Na verdade, "Instinto fatal" tem todos os ingredientes para agradar aos fãs da filmografia trash de Romero e ao público em geral - seu fracasso comercial foi absolutamente injusto. Mesmo que a trama seja menos tosca do que a média (o livro de Stewart se aproveita de uma base científica para criar uma história repleta de surpresas quase críveis), Romero mantém intocada a aura rude de seus filmes mais conhecidos, evitando ao máximo o polimento excessivo que fatalmente limitaria sua assinatura tão reconhecida. No papel principal, por exemplo, não há um astro com apelo popular, e sim o (bom) ator Jason Beghe, que dá conta muito bem de todas as armadilhas do roteiro e de quebra tem o porte físico ideal para interpretar o protagonista - ator que dedicou grande parte da carreira a participações em séries de TV, ele cai como uma luva na pele do anti-heroi de Romero, um homem torturado por suas emoções e sentimentos de mágoa e raiva. Com direito até mesmo a cenas de sexo - fato raro quando se trata de personagens fisicamente limitados -, Beghe só não rouba o filme inteiro para si porque contracena com a grande estrela do projeto: a macaquinha Ella, "interpretada" pela expressiva (sim, expressiva) Boo.
Logo nas primeiras cenas o espectador é apresentado à rotina do jovem atleta Allan Mann: dedicado e esforçado, ele tem um futuro promissor pela frente, até que, ainda nos créditos de abertura tal futuro é abortado violentamente com um atropelamento. Tetraplégico e relegado a uma cadeira de rodas, o talentoso corredor se vê abandonado até pela namorada, Linda (Janine Turner), e conta apenas com o apoio da mãe, Dorothy (Joyce Van Patten), e do melhor amigo, o cientista Geoffrey Fisher (John Pankow). E é justamente Geoffrey que será o responsável por uma importante reviravolta na vida do amigo, ao apresentar-lhe à Ella, uma simpática e prestativa macaquinha treinada exatamente para servir de companhia e enfermeira. Porém, o que Allan não sabe é que a aparente inteligência de Ella faz parte de uma série de experiências científicas de Geoffrey - experiências estas ainda não totalmente encerradas e que podem ter consequências desastrosas. Com o passar dos dias, Ella não apenas se torna indispensável para Allan - para desgosto de sua enfermeira - como parece adivinhar seus pensamentos e compartilhar de seus sentimentos mais profundos. Quando desafetos do rapaz começam a ser violentamente atacados, a única (apesar de bizarra) explicação tem a ver com o fato do animalzinho servir como instrumento para castigar a todos que tiveram alguma participação no destino triste do jovem atleta.
Apesar da premissa um tanto fantasiosa, o roteiro de Romero não subestima a inteligência da plateia, estabelecendo com cuidado todas as regras do jogo para então partir para a violência explícita. O terço final da narrativa, quando toda a sutileza é deixada de lado em nome de um clímax o mais violento possível - e nisso está clara a influência de seu diretor - o filme até descamba para o exagero, com cenas longas e desnecessariamente sangrentas, mas mesmo assim não deixa de ser coerente com a filmografia anterior de Romero. Equilibrado com as pretensões de um estúdio cioso de suas finanças, "Instinto fatal" é um filme que não chega a ser completamente característico do cineasta, mas tampouco é um produto típico do cinemão comercial americano. É um saudável meio-termo, capaz de agradar aos fãs do gênero e não decepcionar o séquito de admiradores do conjunto da obra de um dos mais ousados criadores do terror moderno. Um filme digno de seu diretor e que consegue atingir também até àqueles que nunca ouviram falar de suas travessuras independentes.
Alçado ao posto de rei dos filmes B graças a seu seminal "A noite dos mortos-vivos" (68), o cineasta Roger A. Romero fez sua carreira investindo em produções quase indigentes, que conquistavam o público justamente pela falta de sofisticação e pelo tom apocalíptico. Diretor, roteirista e produtor respeitado e admirado, Romero finalmente rendeu-se ao poder dos estúdios de Hollywood no final da década de 80, quando assinou contrato com a Orion Pictures para adaptar o romance "Monkey shines", de Michael Stewart. Com um orçamento (generoso para seus padrões) de 7 milhões de dólares, ele experimentou, pela primeira vez, a sensação de ter que dar satisfação de cada centavo gasto - além de ter de brigar para fazer o filme da maneira que havia imaginado. O resultado desse conflito - o meio-termo entre o produto comercial desejado pelo estúdio e o filme concebido pela imaginação criativa e um tanto doentia de seu diretor - é "Instinto fatal", um suspense intrigante e violento que une o talento de Romero em criar sequências aterrorizantes às regras do cinema mainstream. Por uma fina ironia, porém, o público deu a entender nas bilheterias que prefere a versão menos refinada de seu ídolo: com menos de 5 milhões de dólares arrecadados nos cinemas americanos, o filme traumatizou Romero - que só voltou a realizar um filme dentro dos padrões hollywoodianos cinco anos mais tarde (com a adaptação de "A metade negra", de Stephen King).
Na verdade, "Instinto fatal" tem todos os ingredientes para agradar aos fãs da filmografia trash de Romero e ao público em geral - seu fracasso comercial foi absolutamente injusto. Mesmo que a trama seja menos tosca do que a média (o livro de Stewart se aproveita de uma base científica para criar uma história repleta de surpresas quase críveis), Romero mantém intocada a aura rude de seus filmes mais conhecidos, evitando ao máximo o polimento excessivo que fatalmente limitaria sua assinatura tão reconhecida. No papel principal, por exemplo, não há um astro com apelo popular, e sim o (bom) ator Jason Beghe, que dá conta muito bem de todas as armadilhas do roteiro e de quebra tem o porte físico ideal para interpretar o protagonista - ator que dedicou grande parte da carreira a participações em séries de TV, ele cai como uma luva na pele do anti-heroi de Romero, um homem torturado por suas emoções e sentimentos de mágoa e raiva. Com direito até mesmo a cenas de sexo - fato raro quando se trata de personagens fisicamente limitados -, Beghe só não rouba o filme inteiro para si porque contracena com a grande estrela do projeto: a macaquinha Ella, "interpretada" pela expressiva (sim, expressiva) Boo.
Logo nas primeiras cenas o espectador é apresentado à rotina do jovem atleta Allan Mann: dedicado e esforçado, ele tem um futuro promissor pela frente, até que, ainda nos créditos de abertura tal futuro é abortado violentamente com um atropelamento. Tetraplégico e relegado a uma cadeira de rodas, o talentoso corredor se vê abandonado até pela namorada, Linda (Janine Turner), e conta apenas com o apoio da mãe, Dorothy (Joyce Van Patten), e do melhor amigo, o cientista Geoffrey Fisher (John Pankow). E é justamente Geoffrey que será o responsável por uma importante reviravolta na vida do amigo, ao apresentar-lhe à Ella, uma simpática e prestativa macaquinha treinada exatamente para servir de companhia e enfermeira. Porém, o que Allan não sabe é que a aparente inteligência de Ella faz parte de uma série de experiências científicas de Geoffrey - experiências estas ainda não totalmente encerradas e que podem ter consequências desastrosas. Com o passar dos dias, Ella não apenas se torna indispensável para Allan - para desgosto de sua enfermeira - como parece adivinhar seus pensamentos e compartilhar de seus sentimentos mais profundos. Quando desafetos do rapaz começam a ser violentamente atacados, a única (apesar de bizarra) explicação tem a ver com o fato do animalzinho servir como instrumento para castigar a todos que tiveram alguma participação no destino triste do jovem atleta.
Apesar da premissa um tanto fantasiosa, o roteiro de Romero não subestima a inteligência da plateia, estabelecendo com cuidado todas as regras do jogo para então partir para a violência explícita. O terço final da narrativa, quando toda a sutileza é deixada de lado em nome de um clímax o mais violento possível - e nisso está clara a influência de seu diretor - o filme até descamba para o exagero, com cenas longas e desnecessariamente sangrentas, mas mesmo assim não deixa de ser coerente com a filmografia anterior de Romero. Equilibrado com as pretensões de um estúdio cioso de suas finanças, "Instinto fatal" é um filme que não chega a ser completamente característico do cineasta, mas tampouco é um produto típico do cinemão comercial americano. É um saudável meio-termo, capaz de agradar aos fãs do gênero e não decepcionar o séquito de admiradores do conjunto da obra de um dos mais ousados criadores do terror moderno. Um filme digno de seu diretor e que consegue atingir também até àqueles que nunca ouviram falar de suas travessuras independentes.
sexta-feira
RUTH EM QUESTÃO
RUTH EM QUESTÃO (Citizen Ruth, 1996, Miramax, 106min) Direção: Alexander Payne. Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor. Fotografia: James Glennon. Montagem: Kevin Tent. Música: Rolfe Kent. Figurino: Tom McKinley. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Lisa Denker. Produção: Cathy Conrad, Cary Woods. Elenco: Laura Dern, Swoosie Kurtz, Burt Reynolds, Tippi Hedren, Kurtwood Smith, Mary Kay Place, Kelly Preston. Estreia: Janeiro de 1996 (Festival de Sundance)
Um professor frustrado em luta contra uma estudante obcecada pela perfeição. Um viúvo tentando se reconectar com a família ao sentir o gostinho da solidão. Dois amigos praticamente desencantados com a vida buscando o prazer através do vinho. Um homem que descobre a traição da esposa quando ela está em coma. Um idoso já com problemas mentais que acredita ter ganho um prêmio na loteria. Quem conhece a obra de Alexander Payne sabe muito bem que o cineasta tem especial predileção pelos pobre-diabos, por aqueles que, por uma razão ou outra, estão em situações-limite de suas existências frequentemente medíocres. Por isso, não chega a ser surpresa que seu filme de estreia, "Ruth em questão", seja uma pequena amostra do que viria pela frente: cínica, cáustica e iconoclasta, sua comédia de humor negro, lançada no Festival de Sundance de 1996 e premiada no Festival de Montreal na categoria de melhor atriz (Laura Dern) é um tapa na cara no american way of life e um desafio ao politicamente correto. Escrito com extremo sarcasmo e dirigido sem medo de chocar aos mais sensíveis, "Ruth em questão" é um delicioso cartão de visitas de um diretor que já demonstrava, de cara, seu talento para encontrar qualidades até mesmo no pior dos seres humanos.
Inspirado na história real de Martina Greywind - uma mulher de 28 anos com muitas das características da protagonista do filme -, o roteiro, coescrito por Payne e aquele que se tornaria seu colaborador habitual, Jim Taylor, é um primor de humor negro e deboche. A personagem do título é Ruth Stoops (em uma genial atuação de Laura Dern), uma irresponsável e indigente usuária de drogas que se vê grávida pela quinta vez - depois de ter dado todos os outros bebês à adoção. Com sua nova gravidez descoberta na prisão, ela imediatamente se torna alvo de disputa desesperada entre dois lados opostos na questão do aborto. Enquanto Gail Stoney (Mary Kay Place) a chama para seu grupo de mulheres pró-vida, Ruth e sua história também são cobiçadas por Diane Siegler (Swoozie Kurtz), uma militante dos direitos da mulher à escolha. Não exatamente uma mulher brilhante intelectualmente, Ruth se torna um joguete nas mãos de ambos os grupos - cada um com táticas de persuasão pouco ortodoxas, que incluem até dinheiro e espaço na mídia. Mesmo pouco esperta, não demora à Ruth descobrir que ela é peça dispensável na situação - e resolve aproveitar ao máximo todas as vantagens que isso pode lhe oferecer.
Evitando o maniqueísmo e direcionando sua metralhadora de ironia para todos os lados, o roteiro esperto de Payne e Taylor brinca sem pena com os exageros politicamente corretos e o radicalismo que ronda o sempre polêmico tema do aborto. Sem tomar partido algum, o filme mostra, sem espaço para dúvidas, que até mesmo atitudes aparentemente altruístas podem estar recheadas de interesses pessoais e escusos. Praticamente se engalfinhando diante das câmeras de televisão, partidários de grupos rivais são ridicularizados em uma narrativa que utiliza o humor negro como forma de crítica social - e conta com veteranos como Burt Reynolds e Tippi Hedren oferecendo um ar sério e respeitável ao projeto. Realizado com um custo irrisório de estimados 3 milhões de dólares - valor que hoje em dia não paga nem o marketing de um filme relativamente barato - e lançado sem muito alarde, "Ruth em questão" fez de Alexander Payne um queridinho imediato junto ao público de cinema independente, graças a sua união perfeita entre roteiro, direção e elenco. Sua visão mordaz e impiedosa pode até soar incômoda a alguns espectadores, mas é inegável que sua ousadia é uma de suas maiores qualidades - a ponto de encerrar sua fábula sobre a hipocrisia com um desfecho irônico e coerente com o tom da trama.
Escorado em uma atuação brilhante de Laura Dern - equilibrando todos os tons e nuances de sua personagem sem escorregar na caricatura - e acertando em cheio no meio-termo entre o deboche e a seriedade, "Ruth em questão" é uma comédia esperta e relevante. Com personagens bem construídos e situações imprevisíveis, conquista o espectador por não tratá-lo com condescendência ou subestimar sua inteligência. Não é um filme para qualquer um - o cineasta se tornaria visualmente mais sofisticado com o passar dos anos e orçamentos mais generosos - mas se destaca principalmente por sua inventividade e coragem em bater de frente com a correção política e a hipocrisia típica da população norte-americana. Um filme a ser descoberto e discutido como um dos mais interessantes de sua temporada.
Um professor frustrado em luta contra uma estudante obcecada pela perfeição. Um viúvo tentando se reconectar com a família ao sentir o gostinho da solidão. Dois amigos praticamente desencantados com a vida buscando o prazer através do vinho. Um homem que descobre a traição da esposa quando ela está em coma. Um idoso já com problemas mentais que acredita ter ganho um prêmio na loteria. Quem conhece a obra de Alexander Payne sabe muito bem que o cineasta tem especial predileção pelos pobre-diabos, por aqueles que, por uma razão ou outra, estão em situações-limite de suas existências frequentemente medíocres. Por isso, não chega a ser surpresa que seu filme de estreia, "Ruth em questão", seja uma pequena amostra do que viria pela frente: cínica, cáustica e iconoclasta, sua comédia de humor negro, lançada no Festival de Sundance de 1996 e premiada no Festival de Montreal na categoria de melhor atriz (Laura Dern) é um tapa na cara no american way of life e um desafio ao politicamente correto. Escrito com extremo sarcasmo e dirigido sem medo de chocar aos mais sensíveis, "Ruth em questão" é um delicioso cartão de visitas de um diretor que já demonstrava, de cara, seu talento para encontrar qualidades até mesmo no pior dos seres humanos.
Inspirado na história real de Martina Greywind - uma mulher de 28 anos com muitas das características da protagonista do filme -, o roteiro, coescrito por Payne e aquele que se tornaria seu colaborador habitual, Jim Taylor, é um primor de humor negro e deboche. A personagem do título é Ruth Stoops (em uma genial atuação de Laura Dern), uma irresponsável e indigente usuária de drogas que se vê grávida pela quinta vez - depois de ter dado todos os outros bebês à adoção. Com sua nova gravidez descoberta na prisão, ela imediatamente se torna alvo de disputa desesperada entre dois lados opostos na questão do aborto. Enquanto Gail Stoney (Mary Kay Place) a chama para seu grupo de mulheres pró-vida, Ruth e sua história também são cobiçadas por Diane Siegler (Swoozie Kurtz), uma militante dos direitos da mulher à escolha. Não exatamente uma mulher brilhante intelectualmente, Ruth se torna um joguete nas mãos de ambos os grupos - cada um com táticas de persuasão pouco ortodoxas, que incluem até dinheiro e espaço na mídia. Mesmo pouco esperta, não demora à Ruth descobrir que ela é peça dispensável na situação - e resolve aproveitar ao máximo todas as vantagens que isso pode lhe oferecer.
Evitando o maniqueísmo e direcionando sua metralhadora de ironia para todos os lados, o roteiro esperto de Payne e Taylor brinca sem pena com os exageros politicamente corretos e o radicalismo que ronda o sempre polêmico tema do aborto. Sem tomar partido algum, o filme mostra, sem espaço para dúvidas, que até mesmo atitudes aparentemente altruístas podem estar recheadas de interesses pessoais e escusos. Praticamente se engalfinhando diante das câmeras de televisão, partidários de grupos rivais são ridicularizados em uma narrativa que utiliza o humor negro como forma de crítica social - e conta com veteranos como Burt Reynolds e Tippi Hedren oferecendo um ar sério e respeitável ao projeto. Realizado com um custo irrisório de estimados 3 milhões de dólares - valor que hoje em dia não paga nem o marketing de um filme relativamente barato - e lançado sem muito alarde, "Ruth em questão" fez de Alexander Payne um queridinho imediato junto ao público de cinema independente, graças a sua união perfeita entre roteiro, direção e elenco. Sua visão mordaz e impiedosa pode até soar incômoda a alguns espectadores, mas é inegável que sua ousadia é uma de suas maiores qualidades - a ponto de encerrar sua fábula sobre a hipocrisia com um desfecho irônico e coerente com o tom da trama.
Escorado em uma atuação brilhante de Laura Dern - equilibrando todos os tons e nuances de sua personagem sem escorregar na caricatura - e acertando em cheio no meio-termo entre o deboche e a seriedade, "Ruth em questão" é uma comédia esperta e relevante. Com personagens bem construídos e situações imprevisíveis, conquista o espectador por não tratá-lo com condescendência ou subestimar sua inteligência. Não é um filme para qualquer um - o cineasta se tornaria visualmente mais sofisticado com o passar dos anos e orçamentos mais generosos - mas se destaca principalmente por sua inventividade e coragem em bater de frente com a correção política e a hipocrisia típica da população norte-americana. Um filme a ser descoberto e discutido como um dos mais interessantes de sua temporada.
quinta-feira
SERPICO
SERPICO (Serpico, 1973, Paramount Pictures, 130min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Wado Salt, Norman Wexler, livro de Peter Maas. Fotografia: Arthur J. Ornitz. Montagem: Dede Allen. Música: Mikis Theodorakis. Figurino: Anna Hill Johnstone. Direção de arte/cenários: Charles Bailey/Thomas H. Wright. Produção executiva: Roger M. Rothstein. Produção: Martin Bregman. Elenco: Al Pacino, John Randolph, Jack Kehoe, Biff McGuire, Barbara Eda-Young, Cornelia Sharpe. Estreia: 05/12/73
2 indicações ao Oscar: Ator (Al Pacino), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Al Pacino)
Um período de ouro para cineastas e jovens atores dispostos a tratar com realismo as mazelas da sociedade norte-americana, a década de 70 foi também uma época bastante fértil para todos aqueles que não tinham medo de ousar dentro da indústria frequentemente rígida de Hollywood. Uma das duplas mais interessantes de então foi formada por Sidney Lumet e Al Pacino. Dois anos antes de lançarem sua obra-prima "Um dia de cão" (75) e logo depois de Pacino tornar-se astro com "O poderoso chefão" (72), diretor e astro foram os pilares de um grande sucesso de crítica, uma história real que apontava sua tendência em provocar polêmica e discussões: "Serpico" estreou em dezembro de 1973 nos cinemas dos EUA e tornou-se um clássico imediato. Elogiado unanimemente pela crítica, premiado no National Board of Reviwe e no Golden Globe (ambos escolheram Al Pacino como melhor ator do ano) e até hoje considerado pelo consagrado intérprete um de seus melhores desempenhos, o filme de Lumet é um soco no estômago de uma das instituições mais controversas do país: a polícia nova-iorquina.
Narrado em tom semi-documental e propositalmente seco e direto, o filme acompanha a inglória luta do policial Frank Serpico, que, entre o final dos anos 60 e o começo dos 70, bateu de frente com seus colegas por recusar-se a participar dos mais variados esquemas de corrupção policial. Visto como uma aberração - tanto por seus princípios, considerados pouco inteligentes, quanto por seu visual quase hippie - e isolado por todos aqueles que percebiam nele uma ameaça real a um estilo de vida quase banal dentro da corporação, Serpico acaba por ter sua própria vida ameaçada quando passa da indignação passiva e resolve denunciar a prática de suborno para autoridades superiores: não apenas rejeitado em todas as tentativas de promoção, ele se torna persona non grata, chegando a ser vítima de um atentado. Idealista acima de tudo, ele resiste, contando com o apoio da namorada, Laurie (Barbara eda-young).
Realizado por Sidney Lumet de forma pouco comum - as filmagens começaram pelo fim da história e aconteceram em ordem reversa, por exemplo - e com um elenco sem astros - Pacino ainda estava começando a ser conhecido, graças a "O poderoso chefão" (72) -, "Serpico" pode ser quase considerado um precursor dos filmes independentes de Hollywood: com um custo de apenas 3 milhões de dólares, rendeu quase dez vezes esse valor somente no mercado doméstico, mostrando que o público do começo da década de 70 era muito mais aberto a produções sérias e maduras do que o que veio a partir do sucesso estrondoso de "Tubarão" (75), que marcou, de certa forma, a maneira com que a indústria passaria a perceber as bilheterias e as estratégias de marketing. Lançado pouco tempo depois que a história real aconteceu, o filme de Lumet ganhou pontos pelo frescor - e nem precisou contar com Paul Newman e Robert Redford para isso: concebido como um veículo para os dois astros de "Butch Cassidy e Sundance Kid", "Serpico" mudou completamente de formato e chegou às telas como um produto adulto e politicamente relevante - a ponto de receber duas indicações ao Oscar: melhor ator e roteiro adaptado.
Repleto de detalhes inteligentes - como o primeiro encontro entre o protagonista e Laurie, ao som da ópera "Tosca", de Puccini, que fala, entre outras coisas, de corrupção e abuso de poder - e editado com uma crueza que combina perfeitamente com seu tema, "Serpico" é um dos filmes mais importantes de sua época, um retrato poderoso e corajoso de um dos mais preocupantes problemas urbanos dos EUA. Para viver o personagem principal, Pacino não apenas conviveu com o verdadeiro Frank Serpico como visitou alguns lugares barra-pesada de Nova York, já caracterizado e tentando mergulhar no universo de um filme dirigido com firmeza e extrema sobriedade. Pode não ser seu melhor trabalho com Lumet - "Um dia de cão" consegue atingir níveis mais altos de qualidade final - mas é um desempenho digno de nota e aplausos. Não à toa, tornou-se um clássico contemporâneo.
2 indicações ao Oscar: Ator (Al Pacino), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Al Pacino)
Um período de ouro para cineastas e jovens atores dispostos a tratar com realismo as mazelas da sociedade norte-americana, a década de 70 foi também uma época bastante fértil para todos aqueles que não tinham medo de ousar dentro da indústria frequentemente rígida de Hollywood. Uma das duplas mais interessantes de então foi formada por Sidney Lumet e Al Pacino. Dois anos antes de lançarem sua obra-prima "Um dia de cão" (75) e logo depois de Pacino tornar-se astro com "O poderoso chefão" (72), diretor e astro foram os pilares de um grande sucesso de crítica, uma história real que apontava sua tendência em provocar polêmica e discussões: "Serpico" estreou em dezembro de 1973 nos cinemas dos EUA e tornou-se um clássico imediato. Elogiado unanimemente pela crítica, premiado no National Board of Reviwe e no Golden Globe (ambos escolheram Al Pacino como melhor ator do ano) e até hoje considerado pelo consagrado intérprete um de seus melhores desempenhos, o filme de Lumet é um soco no estômago de uma das instituições mais controversas do país: a polícia nova-iorquina.
Narrado em tom semi-documental e propositalmente seco e direto, o filme acompanha a inglória luta do policial Frank Serpico, que, entre o final dos anos 60 e o começo dos 70, bateu de frente com seus colegas por recusar-se a participar dos mais variados esquemas de corrupção policial. Visto como uma aberração - tanto por seus princípios, considerados pouco inteligentes, quanto por seu visual quase hippie - e isolado por todos aqueles que percebiam nele uma ameaça real a um estilo de vida quase banal dentro da corporação, Serpico acaba por ter sua própria vida ameaçada quando passa da indignação passiva e resolve denunciar a prática de suborno para autoridades superiores: não apenas rejeitado em todas as tentativas de promoção, ele se torna persona non grata, chegando a ser vítima de um atentado. Idealista acima de tudo, ele resiste, contando com o apoio da namorada, Laurie (Barbara eda-young).
Realizado por Sidney Lumet de forma pouco comum - as filmagens começaram pelo fim da história e aconteceram em ordem reversa, por exemplo - e com um elenco sem astros - Pacino ainda estava começando a ser conhecido, graças a "O poderoso chefão" (72) -, "Serpico" pode ser quase considerado um precursor dos filmes independentes de Hollywood: com um custo de apenas 3 milhões de dólares, rendeu quase dez vezes esse valor somente no mercado doméstico, mostrando que o público do começo da década de 70 era muito mais aberto a produções sérias e maduras do que o que veio a partir do sucesso estrondoso de "Tubarão" (75), que marcou, de certa forma, a maneira com que a indústria passaria a perceber as bilheterias e as estratégias de marketing. Lançado pouco tempo depois que a história real aconteceu, o filme de Lumet ganhou pontos pelo frescor - e nem precisou contar com Paul Newman e Robert Redford para isso: concebido como um veículo para os dois astros de "Butch Cassidy e Sundance Kid", "Serpico" mudou completamente de formato e chegou às telas como um produto adulto e politicamente relevante - a ponto de receber duas indicações ao Oscar: melhor ator e roteiro adaptado.
Repleto de detalhes inteligentes - como o primeiro encontro entre o protagonista e Laurie, ao som da ópera "Tosca", de Puccini, que fala, entre outras coisas, de corrupção e abuso de poder - e editado com uma crueza que combina perfeitamente com seu tema, "Serpico" é um dos filmes mais importantes de sua época, um retrato poderoso e corajoso de um dos mais preocupantes problemas urbanos dos EUA. Para viver o personagem principal, Pacino não apenas conviveu com o verdadeiro Frank Serpico como visitou alguns lugares barra-pesada de Nova York, já caracterizado e tentando mergulhar no universo de um filme dirigido com firmeza e extrema sobriedade. Pode não ser seu melhor trabalho com Lumet - "Um dia de cão" consegue atingir níveis mais altos de qualidade final - mas é um desempenho digno de nota e aplausos. Não à toa, tornou-se um clássico contemporâneo.
quarta-feira
DARKMAN: VINGANÇA SEM ROSTO
DARKMAN: VINGANÇA SEM ROSTO (Darkman, 1990, Universal Pictures, 96min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: Sam Raimi, Chuck Pfarrer, Ivan Raimi, Daniel Goldin, Joshua Goldin, estória de Sam Raimi. Fotografia: Bill Pope. Montagem: Bud S. Smith, David Stiven. Música: Danny Elfman. Figurino: Grania Preston. Direção de arte/cenários: Randy Ser/Julie Kay Fanton. Produção: Robert Tapert. Elenco: Liam Neeson, Frances McDormand, Colin Friels, Larry Drake. Estreia: 24/8/90
Aqueles que se surpreenderam, em 2002, com o talento do diretor Sam Raimi em recriar nas telas de cinema as aventuras de Peter Parker em "Homem-aranha" - tornadas ainda mais empolgantes no segundo capítulo, de 2004 - provavelmente ainda tinham na memória apenas sua experiência como o criador dos criativos e sanguinolentos "Uma noite alucinante: a morte do demônio" (1981) e sua continuação, "Uma noite alucinante 2" (1987). Talvez esses mesmos espectadores tivessem esquecido (ou simplesmente ignorado) um filme que, lançado em 1990, já dava pistas sobre o talento de Raimi em contar histórias de super-heróis: "Darkman: vingança sem rosto" pode não ter sido um estouro de bilheteria - rendeu pouco menos de 50 milhões de dólares pelo mundo afora - mas deixava explícito o carinho do cineasta pelo visual de HQ e sua vocação em abraçar antiherois e seus dilemas existenciais. Inspirada em maior ou menor nível por obras como "O fantasma da Ópera", "O corcunda de Notre Dame" e "O homem elefante" - além dos clássicos de horror da Universal Pictures e personagens populares como Batman e O Sombra -, a trama criada por Raimi (e desenvolvida por um time de roteiristas que incluía, sem créditos, os irmãos Coen, amigos do diretor) é uma colcha de retalhos divertida, despretensiosa e ligeira, o passatempo perfeito para uma tarde chuvosa de sábado.
Produzido por um grande estúdio mas com alma de filme independente, "Darkman" nasceu do desejo de Raimi em fazer um filme protagonizado por algum dos heróis de quadrinhos que moldaram sua infância e adolescência. Sem conseguir os direitos de nenhum, ele criou então a história adotada pela Universal Pictures - e sentiu na carne o abismo que separa o mundo do cinema realizado por trocados por aquele comandado por uma corporação hollywoodiana. Mesmo com um orçamento pequeno (de estimados 16 milhões de dólares), ele se viu lutando para manter sua visão artística, constantemente questionada pelos executivos do estúdio - além de um período difícil dirigindo a atriz principal, Frances McDormand, que, a despeito de ser casada com um amigo de Raimi (o também cineasta Joel Coen), mostrou-se tão dedicada a fazer o melhor para o filme que frequentemente batia de frente com o diretor). Assumindo um papel que por pouco não ficou com Julia Roberts (que pulou do projeto para conhecer o estrelato e a fama com "Uma linda mulher"), McDormand tampouco parecia a escolha ideal para protagonizar um filme de pretensões comerciais - até mesmo Demi Moore e Bridget Fonda foram testadas antes que ela finalmente assinasse o contrato. Da mesma forma, o papel principal masculino também não ficou com um ator popular à época: futuramente indicado ao Oscar por "A lista de Schindler" (93) e herói de filmes de ação, Liam Neeson ainda era um ilustre quase desconhecido em 1990, mas conquistou o respeito e a admiração de Sam Raimi graças a seu carisma - e ficou com o papel que quase esteve nas mãos de Bill Paxton e Gary Oldman (já que a opção inicial do criador da história, Bruce Campbell, foi recusada pelos produtores).
O que parecia um fracasso anunciado - as primeiras exibições-teste foram desastrosas - acabou se tornando, porém, um filme que conquistou a crítica e o público (que não fez dele um blockbuster mas que, graças ao marketing da Universal, correu às salas de exibição em busca de um novo "Batman" (89), de Tim Burton, ou "Dick Tracy" (90), de Warren Beatty). Mereceu o sucesso (relativo) que fez. A história é simples e mera desculpa para apresentar um dos personagens mais interessantes da carreira de Raimi: o brilhante cientista Peyton Westlake. Dedicado e inteligente, Peyton está em vias de atingir a perfeição de seu maior objetivo profissional - a criação de pele sintética. Antes disso, porém, ele acaba sendo deixado para morrer em seu laboratório pelos capangas de Louis Strack Jr. (Colin Friels, em papel oferecido a Richard Dreyfuss e James Caan) - de posse involuntária de documentos procurados pelo criminoso, ele vê todo seu trabalho destruído e, tido como morto, ressurge como o misterioso Darkman, que, em busca de vingança para seu rosto destruído, assume identidades alheias, com direito a máscaras impecáveis (mas que duram apenas 100 minutos). Durante sua jornada, ele conta com a ajuda da namorada, a advogada Julie Hastings (Frances McDormand) - a responsável indireta pela tragédia que quase acabou com a vida de seu amado.
Em ritmo ágil e quase juvenil, "Darkman" envolve o espectador especialmente por seu espírito quase mambembe. Mesmo se tratando de um filme produzido por um estúdio tradicional de Hollywood o que ele passa ao público é um desejo de ser quase trash, barato, como uma justa homenagem aos tempos clássicos do cinemão americano, com o bem e o mal nitidamente definidos, efeitos visuais quase capengas e cenas de ação no limite do inverossímil. Como sinal dos tempos, a protagonista feminina não fica apenas gritando e correndo perigo - algo que a personalidade forte de Frances McDormand jamais deixaria transparecer - e o herói tem uma angústia existencial que os distancia de galãs românticos de caráter estoico e nulidade dramática. O trunfo de Sam Raimi (a escalação de atores de verdade e não apenas símbolos sexuais pouco talentosos para os papéis centrais) é também o trunfo do filme como um todo: é uma entretenimento escapista dos mais divertidos, capaz de levar qualquer um de volta à adolescência. Despretensioso, quase deu origem a uma série de televisão - e não é que ela poderia ter sido muito legal?
Aqueles que se surpreenderam, em 2002, com o talento do diretor Sam Raimi em recriar nas telas de cinema as aventuras de Peter Parker em "Homem-aranha" - tornadas ainda mais empolgantes no segundo capítulo, de 2004 - provavelmente ainda tinham na memória apenas sua experiência como o criador dos criativos e sanguinolentos "Uma noite alucinante: a morte do demônio" (1981) e sua continuação, "Uma noite alucinante 2" (1987). Talvez esses mesmos espectadores tivessem esquecido (ou simplesmente ignorado) um filme que, lançado em 1990, já dava pistas sobre o talento de Raimi em contar histórias de super-heróis: "Darkman: vingança sem rosto" pode não ter sido um estouro de bilheteria - rendeu pouco menos de 50 milhões de dólares pelo mundo afora - mas deixava explícito o carinho do cineasta pelo visual de HQ e sua vocação em abraçar antiherois e seus dilemas existenciais. Inspirada em maior ou menor nível por obras como "O fantasma da Ópera", "O corcunda de Notre Dame" e "O homem elefante" - além dos clássicos de horror da Universal Pictures e personagens populares como Batman e O Sombra -, a trama criada por Raimi (e desenvolvida por um time de roteiristas que incluía, sem créditos, os irmãos Coen, amigos do diretor) é uma colcha de retalhos divertida, despretensiosa e ligeira, o passatempo perfeito para uma tarde chuvosa de sábado.
Produzido por um grande estúdio mas com alma de filme independente, "Darkman" nasceu do desejo de Raimi em fazer um filme protagonizado por algum dos heróis de quadrinhos que moldaram sua infância e adolescência. Sem conseguir os direitos de nenhum, ele criou então a história adotada pela Universal Pictures - e sentiu na carne o abismo que separa o mundo do cinema realizado por trocados por aquele comandado por uma corporação hollywoodiana. Mesmo com um orçamento pequeno (de estimados 16 milhões de dólares), ele se viu lutando para manter sua visão artística, constantemente questionada pelos executivos do estúdio - além de um período difícil dirigindo a atriz principal, Frances McDormand, que, a despeito de ser casada com um amigo de Raimi (o também cineasta Joel Coen), mostrou-se tão dedicada a fazer o melhor para o filme que frequentemente batia de frente com o diretor). Assumindo um papel que por pouco não ficou com Julia Roberts (que pulou do projeto para conhecer o estrelato e a fama com "Uma linda mulher"), McDormand tampouco parecia a escolha ideal para protagonizar um filme de pretensões comerciais - até mesmo Demi Moore e Bridget Fonda foram testadas antes que ela finalmente assinasse o contrato. Da mesma forma, o papel principal masculino também não ficou com um ator popular à época: futuramente indicado ao Oscar por "A lista de Schindler" (93) e herói de filmes de ação, Liam Neeson ainda era um ilustre quase desconhecido em 1990, mas conquistou o respeito e a admiração de Sam Raimi graças a seu carisma - e ficou com o papel que quase esteve nas mãos de Bill Paxton e Gary Oldman (já que a opção inicial do criador da história, Bruce Campbell, foi recusada pelos produtores).
O que parecia um fracasso anunciado - as primeiras exibições-teste foram desastrosas - acabou se tornando, porém, um filme que conquistou a crítica e o público (que não fez dele um blockbuster mas que, graças ao marketing da Universal, correu às salas de exibição em busca de um novo "Batman" (89), de Tim Burton, ou "Dick Tracy" (90), de Warren Beatty). Mereceu o sucesso (relativo) que fez. A história é simples e mera desculpa para apresentar um dos personagens mais interessantes da carreira de Raimi: o brilhante cientista Peyton Westlake. Dedicado e inteligente, Peyton está em vias de atingir a perfeição de seu maior objetivo profissional - a criação de pele sintética. Antes disso, porém, ele acaba sendo deixado para morrer em seu laboratório pelos capangas de Louis Strack Jr. (Colin Friels, em papel oferecido a Richard Dreyfuss e James Caan) - de posse involuntária de documentos procurados pelo criminoso, ele vê todo seu trabalho destruído e, tido como morto, ressurge como o misterioso Darkman, que, em busca de vingança para seu rosto destruído, assume identidades alheias, com direito a máscaras impecáveis (mas que duram apenas 100 minutos). Durante sua jornada, ele conta com a ajuda da namorada, a advogada Julie Hastings (Frances McDormand) - a responsável indireta pela tragédia que quase acabou com a vida de seu amado.
Em ritmo ágil e quase juvenil, "Darkman" envolve o espectador especialmente por seu espírito quase mambembe. Mesmo se tratando de um filme produzido por um estúdio tradicional de Hollywood o que ele passa ao público é um desejo de ser quase trash, barato, como uma justa homenagem aos tempos clássicos do cinemão americano, com o bem e o mal nitidamente definidos, efeitos visuais quase capengas e cenas de ação no limite do inverossímil. Como sinal dos tempos, a protagonista feminina não fica apenas gritando e correndo perigo - algo que a personalidade forte de Frances McDormand jamais deixaria transparecer - e o herói tem uma angústia existencial que os distancia de galãs românticos de caráter estoico e nulidade dramática. O trunfo de Sam Raimi (a escalação de atores de verdade e não apenas símbolos sexuais pouco talentosos para os papéis centrais) é também o trunfo do filme como um todo: é uma entretenimento escapista dos mais divertidos, capaz de levar qualquer um de volta à adolescência. Despretensioso, quase deu origem a uma série de televisão - e não é que ela poderia ter sido muito legal?
terça-feira
DESAPARECIDO: UM GRANDE MISTÉRIO
DESAPARECIDO: UM GRANDE MISTÉRIO (Missing, 1982, Universal Pictures, 122min) Direção: Costa-Gavras. Roteiro: Costa-Gavras, Donald Stewart, livro de Thomas Hauser. Fotografia: Ricardo Aronovich. Montagem: Françoise Bonnott. Música: Vangelis. Figurino: Joe I. Tompkins. Direção de arte/cenários: Peter Jamison/Linda Spheeris. Produção executiva: Peter Guber, Jon Peters. Produção: Edward Lewis, Mildred Lewis. Elenco: Jack Lemmon, Sissy Spacek, Melanie Mayron, John Shea, Jerry Hardin. Estreia: 12/02/82
4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Jack Lemmon), Atriz (Sissy Spacek), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado
Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Filme, Melhor Ator (Jack Lemmon)
Se há uma qualidade que jamais poderá ser negada ao cineasta grego Costa-Gavras é coragem! Em 1969, ele sacudiu o mundo com seu polêmico "Z" - e ganhou um Oscar de melhor filme estrangeiro por isso; em 1972, voltou a mexer no vespeiro político com "Estado de sítio". E em 1982, com o apoio de um grande estúdio de Hollywood (a Paramount) e com dois grandes atores americanos à frente de seu elenco (Jack Lemmon e Sissy Spacek), teve a suprema ousadia de apontar o dedo para a colaboração da CIA no golpe de estado ocorrido no Chile em 1973. Mesmo não citando nominalmente o país governado por Salvador Allende até sua deposição - para proteger inocentes e o filme em si, conforme os créditos de abertura -, o filme "Desaparecido: um grande mistério", baseado no livro de Thomas Hauser tampouco esconde sua origem (a ponto de mostrar um caixão com o nome da capital do país, Santiago, em uma de suas cenas mais cruciais) e toca sem medo em um assunto que tanto o governo norte-americano quanto os espectadores certamente prefeririam esquecer (ou sequer conhecer). Premiado com a Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes (que também deu a Jack Lemmon sua láurea de melhor ator) e indicado a quatro Oscar (incluindo melhor filme mas não de melhor diretor), o longa de Costa-Gavras é a confirmação de seu talento em buscar temas controversos - e transformá-los em grandes e relevantes produções cinematográficas.
O golpe de mestre de "Desaparecidos" talvez seja aproximar o público médio de um tema difícil através de personagens menos distantes de sua realidade. O casal norte-americano que vive no Chile e é pego de surpresa com um golpe militar que transforma radicalmente sua rotina está muito longe de ser uma dupla de heróis - ele, Charles Horman (John Shea) é um jornalista e tradutor, e ela, Beth (Sissy Spacek, indicada ao Oscar de melhor atriz), dona de casa. Sua escolha em viver no país tem a ver apenas com seus pontos de vista menos conservadores, que batem de frente, por exemplo, com aqueles do pai de Charles, Ed (Jack Lemmon), um homem religioso que vê a aventura do filho e da nora com olhos pouco simpáticos. Quando Charles desaparece e Beth ouve dos vizinhos que ele foi levado por soldados, começa uma busca desesperada por seu paradeiro - um caminho repleto de meias-verdades, opressão e ameaças veladas, que a faz aceitar sem reservas a ajuda do sogro, que chega de Nova York com o objetivo claro de localizar o filho. A princípio contando com o apoio da embaixada norte-americana, aos poucos a dupla começa a compreender o horror da ditadura - e descobrem que o sumiço de Charles pode ter a ver com o fato de ele saber mais do que deveria a respeito da participação dos EUA no golpe.
Narrado em ritmo de thriller - um gênero no qual o cineasta exercita todo o seu poder de persuasão - e explorando com perfeição a trilha sonora de Vangelis e a edição caprichada de Françoise Bonnot, "Desaparecido" envolve o público gradualmente, construindo seu suspense com maestria e sensibilidade. A partir do desaparecimento de Charles e do começo da procura incansável de Beth e Ed, o filme mergulha o espectador em um labirinto de mentiras e decepções, enquanto aproxima lentamente sogro e nora antes incompatíveis. Essa artimanha, ao contrário de enfraquecer a denúncia política, a torna universal, e se torna ainda mais potente graças às atuações na medida certa de Jack Lemmon e Sissy Spacek: conforme a barra vai ficando mais e mais pesada, seus desempenhos exemplares vão demonstrando uma série de nuances até então reprimidas. O roteiro vencedor do Oscar de Costa-Gavras e Donald Stewart também acerta ao ir revelando paulatinamente as pistas sobre o paradeiro de Charles - até chegar a um clímax incômodo e doloroso que abalou tanto o governo do Chile (que o proibiu durante a ditadura de Pinochet) quanto o norte-americano (que lançou uma declaração poucos dias antes da estreia do filme negando terminantemente as acusações feitas pela trama).
Elogiado unanimemente pela crítica - o National Board of Review o escolheu como um dos melhores filmes de 1982 - e a estreia de Costa-Gavras no cinema americano, "Desaparecido: um grande mistério" é um filme político que não exige do público um conhecimento prévio do assunto. Escrito com inteligência e dirigido com extremo senso de respeito pela história contada, é uma obra que conquista pela seriedade e pela sobriedade: mesmo diante de acontecimentos trágicos, seus personagens não apelam para o piegas, evitando ao máximo catarses emocionais exageradas: esplêndidos em seus papéis, Lemmon e Spacek comunicam ao máximo com o mínimo de recursos, sublinhando cada linha de diálogo (ou cada momento de silêncio devastador) com seu grande talento. Uma obra adulta, séria, relevante e infelizmente cada vez mais atual, "Desaparecidos" é um filme que precisa ser redescoberto e louvado como um dos mais importantes da década de 1980.
4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Jack Lemmon), Atriz (Sissy Spacek), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado
Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Filme, Melhor Ator (Jack Lemmon)
Se há uma qualidade que jamais poderá ser negada ao cineasta grego Costa-Gavras é coragem! Em 1969, ele sacudiu o mundo com seu polêmico "Z" - e ganhou um Oscar de melhor filme estrangeiro por isso; em 1972, voltou a mexer no vespeiro político com "Estado de sítio". E em 1982, com o apoio de um grande estúdio de Hollywood (a Paramount) e com dois grandes atores americanos à frente de seu elenco (Jack Lemmon e Sissy Spacek), teve a suprema ousadia de apontar o dedo para a colaboração da CIA no golpe de estado ocorrido no Chile em 1973. Mesmo não citando nominalmente o país governado por Salvador Allende até sua deposição - para proteger inocentes e o filme em si, conforme os créditos de abertura -, o filme "Desaparecido: um grande mistério", baseado no livro de Thomas Hauser tampouco esconde sua origem (a ponto de mostrar um caixão com o nome da capital do país, Santiago, em uma de suas cenas mais cruciais) e toca sem medo em um assunto que tanto o governo norte-americano quanto os espectadores certamente prefeririam esquecer (ou sequer conhecer). Premiado com a Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes (que também deu a Jack Lemmon sua láurea de melhor ator) e indicado a quatro Oscar (incluindo melhor filme mas não de melhor diretor), o longa de Costa-Gavras é a confirmação de seu talento em buscar temas controversos - e transformá-los em grandes e relevantes produções cinematográficas.
O golpe de mestre de "Desaparecidos" talvez seja aproximar o público médio de um tema difícil através de personagens menos distantes de sua realidade. O casal norte-americano que vive no Chile e é pego de surpresa com um golpe militar que transforma radicalmente sua rotina está muito longe de ser uma dupla de heróis - ele, Charles Horman (John Shea) é um jornalista e tradutor, e ela, Beth (Sissy Spacek, indicada ao Oscar de melhor atriz), dona de casa. Sua escolha em viver no país tem a ver apenas com seus pontos de vista menos conservadores, que batem de frente, por exemplo, com aqueles do pai de Charles, Ed (Jack Lemmon), um homem religioso que vê a aventura do filho e da nora com olhos pouco simpáticos. Quando Charles desaparece e Beth ouve dos vizinhos que ele foi levado por soldados, começa uma busca desesperada por seu paradeiro - um caminho repleto de meias-verdades, opressão e ameaças veladas, que a faz aceitar sem reservas a ajuda do sogro, que chega de Nova York com o objetivo claro de localizar o filho. A princípio contando com o apoio da embaixada norte-americana, aos poucos a dupla começa a compreender o horror da ditadura - e descobrem que o sumiço de Charles pode ter a ver com o fato de ele saber mais do que deveria a respeito da participação dos EUA no golpe.
Narrado em ritmo de thriller - um gênero no qual o cineasta exercita todo o seu poder de persuasão - e explorando com perfeição a trilha sonora de Vangelis e a edição caprichada de Françoise Bonnot, "Desaparecido" envolve o público gradualmente, construindo seu suspense com maestria e sensibilidade. A partir do desaparecimento de Charles e do começo da procura incansável de Beth e Ed, o filme mergulha o espectador em um labirinto de mentiras e decepções, enquanto aproxima lentamente sogro e nora antes incompatíveis. Essa artimanha, ao contrário de enfraquecer a denúncia política, a torna universal, e se torna ainda mais potente graças às atuações na medida certa de Jack Lemmon e Sissy Spacek: conforme a barra vai ficando mais e mais pesada, seus desempenhos exemplares vão demonstrando uma série de nuances até então reprimidas. O roteiro vencedor do Oscar de Costa-Gavras e Donald Stewart também acerta ao ir revelando paulatinamente as pistas sobre o paradeiro de Charles - até chegar a um clímax incômodo e doloroso que abalou tanto o governo do Chile (que o proibiu durante a ditadura de Pinochet) quanto o norte-americano (que lançou uma declaração poucos dias antes da estreia do filme negando terminantemente as acusações feitas pela trama).
Elogiado unanimemente pela crítica - o National Board of Review o escolheu como um dos melhores filmes de 1982 - e a estreia de Costa-Gavras no cinema americano, "Desaparecido: um grande mistério" é um filme político que não exige do público um conhecimento prévio do assunto. Escrito com inteligência e dirigido com extremo senso de respeito pela história contada, é uma obra que conquista pela seriedade e pela sobriedade: mesmo diante de acontecimentos trágicos, seus personagens não apelam para o piegas, evitando ao máximo catarses emocionais exageradas: esplêndidos em seus papéis, Lemmon e Spacek comunicam ao máximo com o mínimo de recursos, sublinhando cada linha de diálogo (ou cada momento de silêncio devastador) com seu grande talento. Uma obra adulta, séria, relevante e infelizmente cada vez mais atual, "Desaparecidos" é um filme que precisa ser redescoberto e louvado como um dos mais importantes da década de 1980.
segunda-feira
PUNHOS DE AÇO
PUNHOS DE AÇO (Hands of stone, 2016, Fuego Films/Epicentral Studios/La Piedra Films, 111min) Direção e roteiro: Jonathan Jakubowicz. Fotografia: Miguel Ioann Littin Menz. Montagem: Ethan Maniquis. Música: Angelo Milli. Figurino: Bina Daigeler. Direção de arte/cenários: Tomas Voth/Denise Camargo, Amy Williams. Produção executiva: Ricardo Del Rio, Robin Duran, George Edde, David Glasser, Bill Johnson, Max Keller, Kamel Krifa, Jim Seibel, Benjamin Silverman, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Sammy Weisleder. Produção: Carlos Garcia de Paredes, Claudine Jakubowicz, Jonathan Jakubowicz, Jay Weisleder. Elenco: Edgar Ramírez, Robert DeNiro, Usher Raymond IV, Ruben Blades, Ellen Barkin, John Turturro, Ana de Armas. Estreia: 16/5/16 (Festival de Cannes)
Em 1980, o ator Robert DeNiro conquistou as melhores críticas de sua carreira (além de muitos e cobiçados prêmios, incluindo o Oscar) por seu desempenho inesquecível do lutador Jake LaMota, em "Touro indomável", dirigido por Martin Scorsese. Trinta e seis anos mais tarde, já consagrado como intérprete mas constantemente subaproveitado pela indústria hollywoodiana, ele mudou de lado: em "Punhos de aço" De Niro vive Ray Arcel, um dos mais notáveis treinadores de boxe da história do esporte, e o primeiro a ser homenageado no Hall da Fama do Boxe, em 1991. Substituindo a primeira escolha para o papel - seu colega de geração e admiração dos fãs de cinema, Al Pacino - e aceitando modestamente ficar em segundo plano em um roteiro que retrata Arcel como coadjuvante, o veterano ator quase rouba a cena no filme do venezuelano Jonathan Jakubowicz - só não o faz porque quem lidera o elenco, na pele do boxeador Roberto Duran, é o excelente Edgar Ramírez (que, por sua vez, também foi a segunda escolha do cineasta, depois da desistência de Gael García Bernal).
Já conhecido pelo público dos festivais de cinema graças a seu desempenho em "De coração aberto" (de 2012, atuando ao lado de Juliette Binoche) e na elogiada minissérie "Carlos, o Chacal" (2010), Ramírez mostra que tem talento o suficiente para não se deixar intimidar pela presença de DeNiro e entrega uma performance fascinante. Mesmo que o roteiro de Jakubowicz não seja exatamente um primor de criatividade e ousadia, o trabalho de seu protagonista consegue transformar leite em pedra: em boa parte devido à história emocionante e surpreendente de Roberto Duran (um ídolo do esporte panamenho) e sua improvável trajetória, Ramírez dribla com competência os clichês do gênero e as armadilhas melodramáticas e entrega uma atuação memorável, valorizada pela direção discreta e pela edição ágil. Dividindo sua narrativa em duas partes bem definidas - que valorizam qualidades diferentes de seu personagem principal - e sem tentar esconder sua admiração pelo protagonista, "Punhos de aço" consegue ser, ao mesmo tempo, um belo drama sobre esportes e uma interessante e imprevisível lição de vida (sem nunca escorregar no açúcar).
Um ídolo do Panamá (onde sempre foi visto como uma espécie de Robin Hood, distribuindo dinheiro e ajuda para a população mais carente), Roberto Duran é o protagonista ideal para uma história de superação: começando a lutar com apenas 16 anos de idade para fugir de uma vida de criminalidade, tornou-se um campeão por esforço próprio, desafiando seus oponentes com a mesma ironia e desembaraço que apresentava nos ringues. O filme de Jakubowicz centra sua história (com exceção de alguns flashbacks) na relação entre Duran e Ray Arcel (DeNiro), um dos mais respeitados treinadores de boxe de sua geração, que entra na vida do ousado lutador para conduzí-lo à vitória contra o famoso Sugar Ray Leonard (o cantor Usher, assinando como Usher Raymond IV). O resultado da disputa é surpreendente - e o que vem depois disso é ainda mais inacreditável. Mesmo sendo uma história real (e de certa forma razoavelmente conhecida, especialmente pelos fãs do esporte), a luta de Duran para voltar aos ringues é emocionante na medida certa: não apela para lágrimas fáceis nem tampouco minimiza os acontecimentos. Edgar Ramírez está impecável em todas as transições que seu personagem exige - e elas são muitas - e convence sem aparentar muito esforço: é difícil não acreditar que ele "é" Roberto Duran, desde seus ataques de arrogância até suas crises de insegurança; de seus momentos em família e de sua relação quente com aquela que seria sua esposa, Felicidad (Ana de Armas).
Um filme honesto e realizado com o coração, "Punhos de aço" acabou por ser praticamente ignorado nas bilheterias americanas, onde mal passou dos sete milhões de dólares de arrecadação (contra um custo estimado de vinte). Mais um sinal do lançamento sem grande pompa do que reflexo de suas qualidades, a falta de sucesso comercial apenas impediu que o público tivesse acesso a uma produção simpática e que conta uma história que merece ser conhecida, tanto por sua força dramática quanto por seus personagens fortes e carismáticos. Uma pequena pérola a ser devidamente reconhecida - talvez não como um grande filme, mas ao menos como um filme bem-intencionado que consegue o que é cada vez mais raro: comunicar-se com a plateia, seja ela qual for.
Em 1980, o ator Robert DeNiro conquistou as melhores críticas de sua carreira (além de muitos e cobiçados prêmios, incluindo o Oscar) por seu desempenho inesquecível do lutador Jake LaMota, em "Touro indomável", dirigido por Martin Scorsese. Trinta e seis anos mais tarde, já consagrado como intérprete mas constantemente subaproveitado pela indústria hollywoodiana, ele mudou de lado: em "Punhos de aço" De Niro vive Ray Arcel, um dos mais notáveis treinadores de boxe da história do esporte, e o primeiro a ser homenageado no Hall da Fama do Boxe, em 1991. Substituindo a primeira escolha para o papel - seu colega de geração e admiração dos fãs de cinema, Al Pacino - e aceitando modestamente ficar em segundo plano em um roteiro que retrata Arcel como coadjuvante, o veterano ator quase rouba a cena no filme do venezuelano Jonathan Jakubowicz - só não o faz porque quem lidera o elenco, na pele do boxeador Roberto Duran, é o excelente Edgar Ramírez (que, por sua vez, também foi a segunda escolha do cineasta, depois da desistência de Gael García Bernal).
Já conhecido pelo público dos festivais de cinema graças a seu desempenho em "De coração aberto" (de 2012, atuando ao lado de Juliette Binoche) e na elogiada minissérie "Carlos, o Chacal" (2010), Ramírez mostra que tem talento o suficiente para não se deixar intimidar pela presença de DeNiro e entrega uma performance fascinante. Mesmo que o roteiro de Jakubowicz não seja exatamente um primor de criatividade e ousadia, o trabalho de seu protagonista consegue transformar leite em pedra: em boa parte devido à história emocionante e surpreendente de Roberto Duran (um ídolo do esporte panamenho) e sua improvável trajetória, Ramírez dribla com competência os clichês do gênero e as armadilhas melodramáticas e entrega uma atuação memorável, valorizada pela direção discreta e pela edição ágil. Dividindo sua narrativa em duas partes bem definidas - que valorizam qualidades diferentes de seu personagem principal - e sem tentar esconder sua admiração pelo protagonista, "Punhos de aço" consegue ser, ao mesmo tempo, um belo drama sobre esportes e uma interessante e imprevisível lição de vida (sem nunca escorregar no açúcar).
Um ídolo do Panamá (onde sempre foi visto como uma espécie de Robin Hood, distribuindo dinheiro e ajuda para a população mais carente), Roberto Duran é o protagonista ideal para uma história de superação: começando a lutar com apenas 16 anos de idade para fugir de uma vida de criminalidade, tornou-se um campeão por esforço próprio, desafiando seus oponentes com a mesma ironia e desembaraço que apresentava nos ringues. O filme de Jakubowicz centra sua história (com exceção de alguns flashbacks) na relação entre Duran e Ray Arcel (DeNiro), um dos mais respeitados treinadores de boxe de sua geração, que entra na vida do ousado lutador para conduzí-lo à vitória contra o famoso Sugar Ray Leonard (o cantor Usher, assinando como Usher Raymond IV). O resultado da disputa é surpreendente - e o que vem depois disso é ainda mais inacreditável. Mesmo sendo uma história real (e de certa forma razoavelmente conhecida, especialmente pelos fãs do esporte), a luta de Duran para voltar aos ringues é emocionante na medida certa: não apela para lágrimas fáceis nem tampouco minimiza os acontecimentos. Edgar Ramírez está impecável em todas as transições que seu personagem exige - e elas são muitas - e convence sem aparentar muito esforço: é difícil não acreditar que ele "é" Roberto Duran, desde seus ataques de arrogância até suas crises de insegurança; de seus momentos em família e de sua relação quente com aquela que seria sua esposa, Felicidad (Ana de Armas).
Um filme honesto e realizado com o coração, "Punhos de aço" acabou por ser praticamente ignorado nas bilheterias americanas, onde mal passou dos sete milhões de dólares de arrecadação (contra um custo estimado de vinte). Mais um sinal do lançamento sem grande pompa do que reflexo de suas qualidades, a falta de sucesso comercial apenas impediu que o público tivesse acesso a uma produção simpática e que conta uma história que merece ser conhecida, tanto por sua força dramática quanto por seus personagens fortes e carismáticos. Uma pequena pérola a ser devidamente reconhecida - talvez não como um grande filme, mas ao menos como um filme bem-intencionado que consegue o que é cada vez mais raro: comunicar-se com a plateia, seja ela qual for.
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