quarta-feira

O PROFETA


O PROFETA (Un prophète, 2009, Why Not Productions, 155min) Direção: Jacques Audiard. Roteiro: Thomas Bidegain, Jacques Audiard, roteiro original de Abdel Raouf Dafri, Nicolas Peufaillit. Fotografia: Stéphane Fontaine. Montagem: Juliette Wellfling. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Virginie Montel. Direção de arte/cenários: Michel Barthélémy/Boris Piot. Produção: Lauranne Bourrachot, Martine Cassinelli, Pascal Caucheteux, Marco Cherqui. Elenco: Tahar Rahim, Niels Arestrup, Adel Bencherif, Reda Kateb. Estreia: 16/5/09 (Festival de Cannes)


Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2009

A expressão "obra-prima" não costuma ser muito usada quando se refere ao cinema dos últimos anos, onde a criatividade e a ousadia parecem ingredientes cada vez mais raros. Sintomaticamente, são produções off-Hollywood - ou que pelo menos fogem do padrão idiotizado que o cinema americano vem adotando como regra há um bom tempo - que vem merecendo com mais entusiasmo o cobiçado adjetivo. Uma dessas pérolas é "O profeta", filme que representou a França na luta pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2010, ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes e faturou nada menos que 9 Cesar (o Oscar francês), além de ter concorrido em outras 4 categorias. Poucas vezes o cinema recente foi capaz de mostrar um filme tão consistente e surpreendente quanto ele, que, a despeito de suas duas horas e meia mantém o interesse da plateia aceso do seu início avassalador até seu final sutil e extremamente inteligente.

O claustrofóbico roteiro co-escrito pelo diretor Jacques Audiard se passa em sua maioria esmagadora dentro de um presidío francês, onde vai parar o jovem Malik El Djebena (Tahar Rahim). Com 19 anos e semi-analfabeto, o rapaz é condenado a seis anos de prisão por agredir um policial. Dentro da cadeia, ele não tarda a perceber que as coisas são bastante parecidas com o que acontece nos reformatórios onde passou boa parte da vida. Procurado pelo italiano Cesar Luciani (Neils Arestrup), ele se vê obrigado a assassinar um desafeto do poderoso manda-chuva do presídio, para assim ficar sob sua proteção. No entanto, devido a sua origem árabe, nunca é visto como mais que um empregadinho, que realiza as tarefas mais insignificantes do grupo de carcamanos. Tudo começa a mudar quando, ao perceber a solidão de Luciani, ele espertamente passa a ser seu braço-direito, utilizando inclusive seu direito à saídas do aprisionamento para resolver os problemas do chefe. Aos poucos, depois de estudar e observar o que acontece à sua volta, Malik começa a fazer suas próprias jogadas, ambicionando um poder que a vida honesta não é capaz de proporcionar-lhe.


O que mais surpreende em "O profeta" é sua total falta de medo em ser violento e amoral. Mesmo sabendo que Malik não é um homem honesto - pelo menos na concepção mais convencional do termo - é impossível à plateia deixar de torcer por ele, talvez porque de certa forma ele é uma espécie de vira-lata, um Davi tentando se impor contra um Golias truculento e impiedoso (que tanto pode ser o italiano quanto a própria sociedade preconceituosa e racista que ele conhece). Há pelo menos duas sequências impressionantes de uma violência quase inacreditável para aqueles acostumados com a sanguinolência de papel que Hollywood oferece a cada semana: o primeiro assassinato cometido por Malik com uma gilete e a quase chacina - perto do final - onde tiros são realmente ouvidos e sentidos como tiros por uma audiência boquiaberta e silenciosa. É mérito do diretor, inclusive, fazer com que Malik não se torne uma máquina assassina fria e sem compaixão no decorrer do filme. Mesmo com toda a violência que o cerca, ele sabe ser carinhoso, leal e amoroso, além de nunca deixar pra trás a lembrança traumática de seu primeiro homicídio.

Mas a genialidade do roteiro, da direção e da edição primorosa seriam inúteis sem a atuação do protagonista Tahar Rahim. Em uma interpretação desconcertante, ele consegue transmitir toda a vasta gama de emoções de sua complexa personagem com uma segurança admirável, dizendo com o olhar muito mais do que dezenas de Bens Afflecks tentam dizer com horas de discursos verborrágicos. Sem medo de entregar-se a cenas angustiantes e chocantes, ele mostra que seu Cesar de melhor ator não foi absolutamente imerecido. Um filme imperdível!

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