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terça-feira

ACONTECEU EM WOODSTOCK

 


ACONTECEU EM WOODSTOCK (Taking Woodstock, 2009, Focus Features, 120min) Direção: Ang Lee. Roteiro: James Schamus, livro de Elliot Tiber, Tom Monte. Fotografia: Eric Gautier. Montagem: Tim Squyres. Música: Danny Elfman. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: David Gropman/Ellen Christiansen De Jonge. Produção executiva: Michael Hausman. Produção: Celia Costas, Ang Lee, James Schamus. Elenco: Demetri Martin, Emile Hirsch, Imelda Staunton, Henry Goodman, Jonathan Groff, Jeffrey Dean Morgan, Mamie Gummer, Eugene Levy, Dan Fogler, Andy Prosky, Skylar Astin, Paul Dano. Estreia: 16/5/2009 (Festival de Cannes)

As lendas e fatos a respeito do Festival de Woodstock todo mundo já conhece - seus números, seus artistas, seus imprevistos e principalmente seu legado à história da música e da cultura popular (sem falar nos desdobramentos sociais e políticos). O que, então, poderia haver de novo a ser explorado em um filme quarenta anos depois do evento? A resposta surgiu quando o diretor Ang Lee foi interpelado por Elliot Tiber durante a divulgação de seu "Desejo e perigo" (2007): autor de um livro sobre os bastidores da organização do festival, do qual foi parte crucial, Tiber ofereceu ao cineasta a chance de contar a história sob um novo ponto de vista - e com um viés mais humano, comum em sua obra. Com seus colaboradores de confiança (James Schamus no roteiro, Eric Gautier na direção de fotografia e Tim Squyres na edição), o já vencedor de um Oscar (por "O segredo de Brokeback Mountain") lançou, no Festival de Cannes de 2009 o esperado "Aconteceu em Woodstock". O resultado, porém, ficou aquém das expectativas - tanto em termos financeiros quanto artísticos - e acabou se tornando um dos trabalhos menos memoráveis de Lee, a despeito de suas notáveis qualidades

Elliot Tiber, o autor do livro que deu origem ao filme, é interpretado por Demetri Martin, comediante em seu primeiro trabalho no cinema - uma falta de experiência e carisma que atrapalha muito as possibilidades de conexão com o espectador. Em 1969, Tiber abandona uma carreira pouco feliz de design de interiores em Nova York e retorna para a pequena cidade de White Lake com o objetivo de ajudar seus pais (Henry Goodman e Imelda Staunton) a manter vivo seu pequeno e nada convidativo hotel. A missão é complicada, já que nenhum dos dois é exatamente competente nos negócios e nada no lugar chama a atenção dos turistas ocasionais. A salvação da lavoura surge, no entanto, quanto ele menos espera: ao saber que uma cidade vizinha voltou atrás ao permitir a realização de um festival de música para o público hippie, o jovem toma as rédeas da situação e, depois de fazer contato com os produtores, transforma seu pacato lugarejo no cenário de um dos mais importantes acontecimentos culturais da história. Para isso, porém, ele precisa lutar contra o preconceito local, os problemas logísticos que envolvem a realização de algo inesperadamente gigantesco e encarar sua própria sexualidade conflituosa.

 

Fugindo da tentação de fazer do festival seu protagonista, Ang Lee segue mantendo-se fiel à sua marcante característica de priorizar os sentimentos humanos e, com eles, criar um amplo mosaico de personagens interessantes, como a travesti interpretada por Liev Schreiber (que assume o posto de segurança informal do evento), o jovem veterano do Vietnã vivido por Emile Hirsch e a idiossincrática mãe do protagonista (em um show particular de Imelda Staunton). Woodstock, na visão do cineasta, é apenas o pano de fundo (forte) para uma jornada de autodescobrimento, pincelada de momentos clássicos reproduzidos sutilmente pelo desenho de produção caprichado e pelo figurino, que dialogam com o tom onírico impresso pelo roteiro. A opção do filme em não mostrar absolutamente nenhum número musical - o que provavelmente é motivo de frustração para os fãs mais obcecados do festival - é surpreendente, mas condiz com o tom menos documental e mais emotivo da produção, que apesar disso falha em não aprofundar a contento todas as possibilidades que apresenta ao espectador. Tal problema impede que uma de suas maiores qualidades - o belo elenco - seja aproveitado em todo o seu potencial.

Quem começar uma sessão de "Aconteceu em Woodstock" com a intenção de ver Janis Joplin, Joe Cocker ou Jimi Hendrix certamente irá se decepcionar. O filme de Ang Lee é para um público que procura obras sobre pessoas em busca de si mesmas - mesmo que para isso seja preciso fazer parte de um evento de proporções gigantescas que mudou o mundo (ou ao menos a concepção de muita gente sobre ele). Pode não ser uma obra-prima como alguns dos melhores trabalhos do cineasta, mas é simpático e honesto o bastante para não fazer feio em uma filmografia marcada pela sensibilidade e pelo carinho por seus personagens.

quarta-feira

A LONGA CAMINHADA DE BILLY LYNN

A LONGA CAMINHADA DE BILLY LYNN (Billy Lynn's long halftime walk, 2016, Bona Film Group/Film4/Ink Factory, 113min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Jean-Christophe Castelli, romance de Ben Fountain. Fotografia: John Toll. Montagem: Tim Squyres. Música: Jeff Dana, Mychael Danna. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Elizabeth Keenan. Produção executiva: Brian Bell, Guo Guangchang, Jeff Robinov, Ben Waisbren. Produção: Stephen Cornwell, Ang Lee, Marc Platt, Rhodri Thomas. Elenco: Joe Alwyn, Garrett Hedlund, Arturo Castro, Mason Lee, Astro, Vin Diesel, Steve Martin, Kirsten Stewart, Chris Tucker, Tim Blake Nelson. Estreia: 14/10/16 (Festival de Nova York)

É incrível, mas mesmo um cineasta de imenso talento, como é o caso de Ang Lee (vencedor de dois Oscar de direção e um de filme estrangeiro) pode cometer grandes equívocos. O primeiro deles foi "Cavalgada com o diabo" (99), sobre a Guerra de Secessão e estrelado por Tobey Maguire. Depois, veio "Hulk" (2003), que apesar das qualidades é mais lembrado como um fracasso do que como um êxito comercial. E então, depois do enorme sucesso e dos prêmios por "As aventuras de Pi" (2012), surge "A longa caminhada de Billy Lynn", que não apenas naufragou nas bilheterias americanas (mal ultrapassou a marca de 1 milhão de dólares de arrecadação, contra seu orçamento de 40) como também colecionou críticas nada amigáveis da imprensa, normalmente bastante gentil com os filmes do cineasta. Enfatizando seu ritmo lento em excesso, sua falha em transmitir as mensagens que deseja e a fragilidade do roteiro - baseado em romance de Ben Fountain - as resenhas negativas infelizmente tem razão: o filme de Lee é indubitavelmente chato, e na maior parte do tempo falha sensivelmente em transmitir sua principal mensagem contra a guerra no Iraque.

Ao contrário do que fez o inglês Sam Mendes, que também criticava a intervenção americana no Oriente Médio em seu "Soldado anônimo" (2005) - também fracasso de bilheteria, mas elogiado e prestigiado pela crítica - o trabalho de Ang Lee não consegue, em momento algum, conquistar a empatia da plateia para seu protagonista, interpretado pelo britânico Joe Alwyn em sua estreia no cinema. Apesar de demonstrar talento, Alwyn é inexperiente para desviar das constantes armadilhas de um roteiro confuso, sem emoção e que dá a impressão de não caminhar para lugar algum. Diretor sensível e inteligente, Lee consegue extrair bons desempenhos de seus atores mesmo quando a tarefa parece árdua, mas esbarra em uma surpreendente incapacidade de fazer com que sua história seja atraente para o público, o que não deixa de ser decepcionante quando se trata de um homem que transformou um filme de kung-fu em arte pura com "O tigre e o dragão" (2000) e emocionou o mundo com um romance entre cowboys homossexuais em "O segredo de Brokeback Mountain" (2005). Talvez focado em experimentar um formato novo - com um número de frames muito superior ao convencional - o cineasta tenha deixado escapar o que de melhor ele sempre apresentou em sua filmografia: o sentimento acima de qualquer outro elemento narrativo.


Mesmo em filmes como "As aventuras de Pi", filmado em 3D e recheado de efeitos visuais fascinantes, Ang Lee nunca abriu mão de dar extrema atenção à verdadeira alma de seus trabalhos: os personagens. Em "A longa caminhada de Billy Lynn", porém, parece que ele esqueceu de seu mandamento primordial: não apenas o protagonista como todos os coadjuvantes carecem de força e de empatia, impedindo a plateia de conectar-se a suas reações e emoções. Essa falta absoluta de identificação do público com o personagem central é imperdoável, uma vez que o centro da narrativa é justamente a trajetória emocional de Billy, iluminada através de flashbacks que nem sempre funcionam como deveriam e por vezes chegam a atrapalhar a condução da história, mais confundindo do que esclarecendo. O roteiro, por sua vez, insinua o tempo todo que algo grandioso está sendo preparado para seu clímax e quando tem a oportunidade de converter esse restinho de expectativa em algo que justifique as quase duas horas de duração do filme, entrega um desfecho tão decepcionante quanto o resto da produção - se é que alguém da audiência ainda tinha esperanças de um final menos morno.

O pior é que a sinopse do filme de Lee é até instigante: Billy Lynn, o protagonista, é um jovem de 19 anos de idade tornado uma espécie de herói de guerra depois de um ato de coragem cometido durante um confronto no Iraque. Com sua ação filmada e televisionada, ele e seu pelotão (intitulado Brave Squad) conquistam a admiração incondicional do povo norte-americano a ponto de haver interesse até mesmo de Hollywood em transformar sua trajetória em filme. Para capitalizar em cima da popularidade do grupo, o exército dos EUA programa uma espécie de turnê dos soldados, culminando com sua apresentação no show de intervalo de um jogo de futebol transmitido no Dia de Ação de Graças. Nesse meio-tempo, Lynn conhece as diferenças entre o que se fala a respeito do conflito no Oriente Médio e o que realmente acontece nos campos de batalha - enquanto relembra também sua relação com a família. Essa trama, porém, não engrena, deixando o espectador sempre esperando que a ação vá começar a qualquer momento, o que não acontece jamais. "A longa caminhada de Billy Lynn" é um grande passo em falso na carreira de Ang Lee e um dos filmes mais decepcionantes da temporada 2016.

segunda-feira

AS AVENTURAS DE PI

AS AVENTURAS DE  PI (Life of Pi, 2012, Fox 2000 Pictures, 127min) Direção: Ang Lee. Roteiro: David Magee, romance de Yann Martel. Fotografia: Claudio Miranda. Montagem: Tim Squyres. Música: Mychael Danna. Figurino: Arjun Bhasin. Direção de arte/cenários: David Gropman/Anna Pinnock. Produção executiva: Dean Georgaris. Produção: Ang Lee, Gil Netter, David Womark. Elenco: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Rafe Spall, Andrea Di Stefano, Vibish Sivakumar, Ayaan Khan. Estreia: 28/9/12 (Festival de Nova York)

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ang Lee), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção Original ("Pi's lullaby"), Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 4 Oscar: Diretor (Ang Lee), Fotografia, Trilha Sonora Original, Efeitos Visuais
Vencedor do Golden Globe de Melhor Trilha Sonora Original

Quando a mania de filmes em 3D tornou-se uma realidade - em especial depois do impressionante êxito comercial de "Avatar", de James Cameron - o público foi praticamente soterrado de produções de resultados sofríveis, que utilizavam a ferramenta apenas para ganhar mais dinheiro, em detrimento de qualquer preocupação com outros fatores que também fazem de ir ao cinema uma experiência única, como roteiro, atuações e até mesmo bom-senso. Dezenas de blockbusters erraram a mão em suas tentativas de conquistar os espectadores exigentes, concentrando-se mais nas bilheterias do que na qualidade de seus produtos. Se por um lado isso deixou bem claro que orçamentos milionários não bastam para transformar lixo cinematográfico em bons filmes, também mostrou que, aliada ao talento de cineastas realmente criativos e inteligentes, a tecnologia pode muito bem agregar emoção e encanto ao resultado final de uma obra. Martin Scorsese fez isso com perfeição em "A invenção de Hugo Cabret" - que lhe deu a oportunidade de homenagear o cinema em seus primórdios. E em seguida, Ang Lee também brincou com as possibilidades do formato com o belíssimo "As aventuras de Pi" - que lhe rendeu um merecidíssimo segundo Oscar de direção, acompanhado de outras três justas estatuetas (fotografia, trilha sonora original e efeitos visuais)

Baseado em um romance de Yann Martel - por sua vez inspirado no nacional "Max e os felinos", escrito por Moacyr Scliar - "As aventuras de Pi" é narrado de forma poética e lírica por Lee, um cineasta capaz de emocionar sem apelar para o sentimentalismo barato (que o digam as pessoas que saíram aos prantos das salas de exibição depois de "O segredo de Brokeback Mountain" ou em silêncio comovido após "Tempestade de gelo"). Com pleno domínio da arte cinematográfica, o diretor oriundo de Taiwan seduz a plateia com um visual arrebatador - a fotografia é deslumbrante e fez por merecer a estatueta dourada - e uma técnica invejável, mas jamais perde o foco da história que quer contar. Por mais que o público fique extasiado com as cenas criadas por ele - com auxílio de CGI, naturalmente, mas de forma tão sutil que parece real - em momento algum a técnica sobrepõe-se à emoção. Assim como em "O tigre e o dragão" as coreografadas lutas nunca eclipsavam os relacionamentos interpessoais entre as personagens, em "As aventuras de Pi" tudo serve à história, sem nenhum tipo de gratuidade.


Apesar de ter sido vendido como "a hístória de um rapaz indiano que sobrevive a um naufrágio e fica perdido no mar dentro de um bote, contando apenas com um tigre-de-benagala como companhia", o filme de Ang Lee é bem mais do que isso. Basta dizer que o tal naufrágio que dá o empurrão inicial para tais aventuras só acontece depois de 40 minutos de projeção. Antes disso, o roteiro faz questão de não ter pressa em contar a infância e a adolescência de seu protagonista, Piscina ou simplesmente Pi (Suraj Sharma), um jovem que mora com a família, proprietária de um zoológico na Índia. Até que todos decidam abandonar seu país de origem e embarcar para o Canadá - todos em termos, já que o rapaz não tem a menor vontade de abandonar sua vida e seu grande amor - o cineasta conta sua história de forma tranquila e encantadora. Depois da reviravolta da trama - com o acidente com o navio e a morte de todos os seus tripulantes - a magia acontece. Primeiramente tendo que dividir seu bote com o tigre, um orangotango, uma zebra e uma hiena, Pi chega à conclusão que precisa aprender a conviver com os animais - e também lutar arduamente pela sobrevivência.

Mesmo que a sinopse pareça um tanto chata e sem muitos atrativos senão o visual espetacular, "As aventuras de Pi" surpreende principalmente por manter um ritmo admirável, que impede a plateia de abandonar a surpreendente trama, ilustrada ainda com imagens impecáveis de uma natureza poucas vezes retratadas pelo cinema comercial. Narrada por Pi em sua maturidade para um jovem escritor, a trajetória do menino tornado homem pela experiência única chega a seu final com vastas possibilidades de emocionar o espectador, especialmente por tratá-lo com inteligência e sensibilidade - além de suscitar discussões a respeito de fé e resiliência. Fascinante e belo, é um dos poucos filmes indicados ao Oscar 2013 que realmente mereceram estar na lista final.

sexta-feira

O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN

O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN (Brokeback Mountain, 2005, Focus Features, 134min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Larry McMurtry, Diana Ossana, conto de Anne Proulx. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Geraldine Peroni, Dylan Tichenor. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Patricia Cuccia, Catherine Davis. Produção executiva: Michael Hausman, Larry McMurtry, William Pohlad. Produção: Diana Ossana, James Schamus. Elenco: Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Michelle Williams, Anne Hathaway, Randy Quaid, Linda Cardelini, Anna Faris, David Harbour, Kate Mara. Estreia: 02/9/05 (Festival de Veneza)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ang Lee), Ator (Heath Ledger), Ator Coadjuvante (Jake Gyllenhaal), Atriz Coadjuvante (Michelle Williams), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor de 3 Oscar: Diretor (Ang Lee), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Ang Lee), Roteiro, Canção ("A love that will never grow old")
Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza

Para meu Yodinha....

A lista de prêmios que "O segredo de Brokeback Mountain" arrebatou em todo e qualquer segmento crítico na temporada 2006 só deixa ainda mais explícito o que qualquer fã de cinema com um mínimo de discernimento enxerga de longe: não há outra explicação para que a obra-prima de Ang Lee não tenha levado também o Oscar de Melhor Filme senão puro e simples preconceito. Seria demais pedir que os veteranos membros da Academia de Hollywood - tão arraigados a valores antigos e defasados - abraçassem a causa de um filme que, mesmo falando do mais nobre dos sentimentos (o amor), o faz colocando como protagonistas não um casal considerado "apropriado" ao consumo de massa que não ameaça a tradição e sim dois homens viris, fortes e cientes de sua masculinidade que, mesmo assim, não resistem ao apelo de seus desejos e de sua paixão. Como resultado, a estatueta de melhor filme do ano foi parar nas mãos do medíocre "Crash, no limite" - que brincava de ser corajoso com sua temática anti-racismo e provavelmente virará apenas nota de rodapé da história do cinema com seu amontoado de clichês.

Ao contrário disso, "O segredo de Brokeback Mountain" é cinema em estado puro, é poesia em celulóide, é drama tão real como a vida. Independente da orientação sexual de seu espectador, é difícil não se deixar emocionar com a história do conto da escritora Anne Proulx, publicado em 1997 pela revista New Yorker. Depois de despertar o interesse de cineastas como Joel Schumacher e Gus Van Sant - ambos homossexuais assumidos, o que talvez desse um tom mais panfletário e menos sutil à narrativa - o roteiro finalmente chegou às mãos de Ang Lee, conhecido por injetar humanismo mesmo em projetos comerciais como a adaptação de "Hulk" para os cinemas (cujo fracasso talvez tenha vindo justamente dessa tendência ao drama pessoal ao invés do espetáculo). Autor de obras consagradas pela critica como "Razão e sensibilidade", "Tempestade de gelo" e "O tigre e o dragão" - que, sem exceção, tinham na força das personagens seu maior destaque - Lee deu às palavras de Proulx a profundidade que somente seu talento em vislumbrar a alma humana poderia conseguir. E para isso teve também a sorte de contar com um elenco nunca aquém de espetacular.



Vindo de filmes que oscilavam entre o bobo - "10 coisas que eu odeio em você" - e o pretensamente épico - "O patriota" - o australiano Heath Ledger deu um salto fenomenal em sua carreira na pele de Ennis Del Mar, que lhe rendeu elogios rasgados e uma indicação ao Oscar de melhor ator. Seu trabalho é intenso, forte e perturbador, como um homem que luta contra os próprios instintos por não ter a capacidade de lutar contra si mesmo - a ponto de usar da violência física como arma de autodestruição. Como Jack Twist, o jovem Jake Gyllenhaal também atingiu o auge de sua carreira - que incluía o sombrio "Donnie Darko" e o elogiado "Soldado anônimo": seu trabalho como o lado romântico e idealista do casal é delicado na medida certa, nunca escapando para o afetado ou o exagerado. Sua indicação ao Oscar na categoria de coadjuvante, porém, é questionável, uma vez que é tão protagonista quanto Ledger. E se os protagonistas são excepcionais, o mesmo pode-se dizer de suas companheiras de cena: Anne Hathaway e Michelle Williams nunca estiveram tão bem quanto em suas interpretações das esposas relegadas a um melancólico segundo plano na vida de seus maridos. Williams em especial merece aplausos por suas cenas encharcadas de tensão e tristeza - é antológico o momento em que flagra o apaixonado beijo entre seu marido e o melhor amigo.

Fotografado magistralmente e ilustrado com uma trilha sonora de deixar qualquer um arrepiado, "O segredo de Brokeback Mountain" é um filme raro, daqueles que só acontecem quando todas as estrelas estão alinhadas. Não fala apenas de um casal gay: fala de solidão, de tolerância, de preconceito, de autoaceitação. Mas fala principalmente sobre amor, mesmo que ele traga dor e angústia. É provavelmente a mais importante história de amor da década. Quem precisa de um Oscar?

O TIGRE E O DRAGÃO

O TIGRE E O DRAGÃO (Crouching tiger, hidden dragon, 2000, Sony Pictures Classic, 120min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Hui-Ling Wang, James Schamus, Kuo Jung Tsai, romance de Du Lu Wang. Fotografia: Peter Pau. Montagem: Tim Squyres. Música: Tan Dun. Figurino: Tim Yip. Direção de arte/cenários: Tim Yip/Jian-Quo Wang. Produção executiva: David Linde, James Schamus. Produção: Ang Lee. Elenco: Chow Yun-Fat, Michelle Yeoh, Ziyi Zhang, Pei-pei Cheng, Chen Chang, Sihung Lung. Estreia: 09/10/00

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro, Diretor (Ang Lee), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("A love before time"), Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme Estrangeiro, Diretor (Ang Lee)

Foi preciso um diretor de Taiwan para devolver aos fãs de cinema a magia com que a sétima arte sempre brindou seu público. Depois de bem sucedidas incursões ao cinema de Hollywood - em especial os belos "Razão e sensibilidade" e "Tempestade de gelo", que captaram com inteligência as culturas inglesa e americana, respectivamente - o cineasta Ang Lee não foi feliz com o pouco visto e muito criticado "Cavalgada com o diabo" e resolveu retornar às origens. Para isso, assumiu as rédeas da adaptação do quarto volume de uma pentalogia chamada Crane/Iron, escrita por Du Lu Wang, um conhecido mestre chinês de kung-fu. Tendo seu habitual parceiro James Schamus entre os roteiristas, Lee construiu uma fábula majestosa e emocionante que recebeu o título ocidental de "Crouching tiger, hidden dragon", ou, como conhecido no Brasil, "O tigre e o dragão".

Não é difícil compreender o porquê da comoção em torno do filme de Lee desde sua estreia, no Festival de Cannes de 2000, quando foi ovacionado por uma legião de críticos deslumbrados. Sua obra simplesmente tira o espectador de sua zona de conforto, jogando-o em um universo particular, em que personagens ignoram a lei da gravidade e onde todas as excepcionalmente bem coreografadas lutas não são apenas desnecessários desvios da ação e sim parte integrante e indispensável da narrativa, repleta de poesia visual - cortesia da magnífica fotografia de Peter Pau, vencedor do Oscar da categoria. Não foi à toa que "O tigre e o dragão" tornou-se o primeiro filme de língua não-inglesa a ultrapassar a barreira dos 100 milhões de dólares de arrecadação em território americano, além de sair vitorioso em 4 categorias na festa do Oscar de 2001. O filme de Ang Lee é uma festa para os olhos e um admirável espetáculo para todos que consideram o cinema como um refúgio.




Passado em uma China antiga, "O tigre e o dragão" começa com o retorno do famoso guerreiro Li Mui Bai (Chow Yun-Fat) à terra de seus antepassados. Aposentado, ele dá de presente a um velho amigo sua poderosa espada, a Destino Verde, que logo em seguida é roubada. Enquanto tenta recuperá-la, ele não consegue deixar de lado o desejo de vingar a morte de seu mestre pelas mãos da temida Jade Fox (Pei-pei Cheng). Contando com a ajuda da mulher que ama em segredo, Shu Lien (Michelle Yeoh), ele também encontra, em seu caminho, a bela Jiao Long Yu (Ziyi Zhang), filha de uma respeitada família e que, mesmo em vias de casar-se, mantém um amor explosivo por um cigano do deserto.

Dirigido com maestria por um Ang Lee extremamente à vontade e no auge de sua criatividade como cineasta, "O tigre e o dragão" tem a seu favor, além de tudo, uma equipe que transmite paixão a cada polegada de celulóide. O elenco é impecável - com destaque para Michelle Yeoh, cujo rosto expressivo casa com naturalidade com uma força física impressionante - e é impossível não admirar a belíssima trilha sonora (composta em apenas duas semanas por Tin Dau, que acabou com uma estatueta do Oscar), a fotografia etérea e a direção de arte caprichada. No fundo uma bela história de amor emoldurada por uma trama que envolve sentimentos como honra, lealdade e amizade à toda prova - e um discreto discurso feminista - "O tigre e o dragão" é uma obra-prima incontestável e um dos melhores filmes já produzidos fora de Hollywood.

TEMPESTADE DE GELO

TEMPESTADE DE GELO (The ice storm, 1997, Fox Searchlights Pictures, 112min) Direção: Ang Lee. Roteiro: James Schamus, romance de Rick Moody. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Tim Squyres. Música: Mychael Danna. Figurino: Carol Oditz. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção: Ted Hope, Ang Lee, James Schamus. Elenco: Kevin Kline, Joan Allen, Sigourney Weaver, Tobey Maguire, Christina Ricci, Elijah Wood, Adam Hann-Byrd, Jamey Sheridan, Henry Czerny, Allison Janey, Katie Holmes. Estreia: 27/9/97

Vencedor de Melhor Roteiro no Festival de Cannes

Em 1995, o taiwanês Ang Lee surpreendeu a crítica ao fazer de "Razão e sensibilidade" a melhor adaptação para o cinema de um livro da escritora absolutamente inglesa Jane Austen. Em "Tempestade de gelo", seu projeto seguinte, ele continua a missão de penetrar em culturas diferentes da sua: é difícil acreditar em um filme tão tipicamente americano quanto sua brilhante visão do romance de Rick Moody. Mergulhando sem medo no âmago de duas famílias do interior do país em plena efervescência cultural e sexual dos anos 70, Lee entrega ao público um estudo delicado e cortante sobre as relações familiares. É triste e melancólico, mas é também mais uma obra-prima com sua assinatura.

É véspera do dia de Ação de Graças de 1973. O escândalo Watergate está no auge e os costumes sexuais e comportamentais estão em ebulição, mesmo em uma pequena cidade do interior de Connecticut chama Nova Canaan. É para lá que Paul Hood (Tobey Maguire) está retornando, para passar o feriado com a família. Seus pais, Ben (Kevin Kline) e Elena (Joan Allen) estão passando por uma crise no casamento, agravada pelo tédio e pelo caso secreto dele com Janey Carver (Sigourney Weaver), uma amiga do casal. A irmã de Paul, Wendy (Christina Ricci), por sua vez, experimenta o início de sua sexualidade brincando com os dois filhos de Janey, o tímido Mikey (Elijah Wood) e o desajeitado Sandy (Adam Hann-Byrd). Apesar da proximidade física, porém, existe um enorme distanciamento emocional entre todos eles.

A frieza nas relações interpessoais que Rick Moody criou em seu livro - e que foi retratada com perfeição pelo roteiro de James Schamus - encontra na inteligência e na sutileza de Ang Lee seu diretor ideal. Pródigo em dar tintas leves e discretas a dramas particulares, Lee conta a história das famílias Hood e Carver sem pressa, dando atenção a pequenos detalhes, como olhares tristes, suspiros disfarçados e atos desesperados. Os silêncios entre Elena e Ben dizem muito mais sobre os escombros de seu casamento do que as escapadas sexuais que ele dá com Jayne, uma mulher insatisfeita com a própria vida e que vê no seu caso extra-conjugal uma forma de escapar da monotonia. Jayne mal presta atenção nos filhos, que por sua vez não são capazes nem ao menos de perceber que seu pai saiu em viagem. Wendy é uma jovem um tanto desajustada, com forte visão política mas que é incapaz de lidar saudavelmente com seus instintos. E Paul, como alguém à parte de seu núcleo familiar, busca seu lugar no mundo sem sequer desconfiar do caos que reina em sua casa.



O gelo é uma imagem recorrente no filme de Lee. Volta e meia cubos de gelo invadem a tela, seja nas cozinhas suburbanas das personagens, no formato da casa de Jayne e principalmente na tempestade que dá nome ao filme e que origina uma tragédia que transforma definitivamente a vida de todos. A falta de calor humano entre maridos e mulheres e entre pais e filhos é o ponto central de "Tempestade de gelo", mas sua maior qualidade é justamente evitar cenas lacrimosas ou diálogos clichês. Como já dito, os silêncios na mesa dos Hood ou no relacionamento entre os Carver são mais eloquentes do que catarses emocionais repletas de choro e gritos. E é brilhante, dentro desse universo de coisas não ditas, a cena em que Ben carrega a filha Wendy nos braços, depois de flagrá-la em uma situação comprometedora com Mikey. Mesmo sem muitas falas, Kevin Kline e Christina Ricci transmitem toda a vastidão de sentimentos que a cena exige. Emocionar-se é mandatório!

Aliás, o elenco de "Tempestade de gelo" é dos melhores que Hollywood pode oferecer. Kevin Kline e Joan Allen estão fabulosos como um casal cuja falta de emoção os empurra em direção ao afastamento gradual. Sigourney Weaver, linda e sexy, tem sua melhor atuação como uma enfastiada esposa de classe média que busca em aventuras sexuais um motivo para passar seus dias iguais. E Christina Ricci demonstra que seu talento não ficou restrito às comédias que fez na infância, construindo uma Wendy que lida com sua sexualidade nascente de forma quieta mas agressiva. Somadas à fotografia - também gélida, de Frederick Elmes - e à trilha sonora poderosa de Mychael Danna, as interpretações do elenco elevam "Tempestade de gelo" a um patamar muito acima do corriqueiro. É um filme americano, que atinge a essência das famílias americanas e dos problemas americanos... mas tem cara e qualidade de cinema europeu. Simplesmente ignorado pelo Oscar e outras premiações menos conhecidas, é um filme extraordinariamente forte e emocionante, que merece ser descoberto e louvado.

RAZÃO E SENSIBILIDADE

RAZÃO E SENSIBILIDADE (Sense and sensibility, 1995, Columbia Pictures, 136min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Emma Thompson, romance de Jane Austen. Fotografia: Michael Coulter. Montagem: Tim Squyres. Música: Patrick Doyle. Figurino: Jenny Beavan, John Bright. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção executiva. Sydney Pollack. Produção: Lindsay Doran. Elenco: Emma Thompson, Hugh Grant, Kate Winslet, Alan Rickman, Greg Wise, Gemma Jones, Tom Wilkinson, Emilie François, Imelda Staunton, Hugh Laurie, Imogen Stubbs. Estreia: 13/12/95

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Emma Thompson), Atriz Coadjuvante (Kate Winslet), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Roteiro


Exatos 184 anos separam a data da publicação do romance "Razão e sensibilidade", da inglesa Jane Austen, da estreia de sua bem-sucedida adaptação cinematográfica, lançada em 1995 e dirigida por um (pasmem!) taiuanês. Nesse meio tempo, a história de duas irmãs de personalidades opostas que buscavam a felicidade do amor teve uma versão para a televisão britância, mas somente com o filme dirigido pelo talentoso Ang Lee a trama tornou-se popular em todo o mundo, dando o pontapé inicial em uma série de vários filmes e minisséries adaptadas da obra da autora - que já havia sido lembrada por Amy Heckerling em "As patricinhas de Beverly Hills", uma mal-disfarçada adaptação de "Emma".

Escrito no longo período de quatro anos e meio, o roteiro de Thompson mantém intactos o romantismo e a ironia da obra de Austen, dando extremo valor à fidelidade ao original literário. Sarcástica como o texto que adaptou, Emma Thompson imprime leveza e modernidade a uma trama que poderia soar anacrônica ou poeirenta a uma plateia acostumada a invasões alienígenas e dinossauros em CGI. Ainda que não tenha chegado nem perto de ser um estrondoso sucesso de bilheteria - rendeu pouco menos de 43 milhões nos EUA - "Razão e sensibilidade" encontrou um lugar cativo junto aos fãs de boas histórias contadas com inteligência e delicadeza. Agradou também a crítica e os membros da Academia, que lhe deram 7 indicações ao Oscar, incluindo melhor filme. Por razões que até hoje soam absolutamente idiossincráticas - e que vitimaram Christopher Nolan em 2011 - Ang Lee ficou de fora da briga pela estatueta de Melhor Diretor. Injustiça pura, pois é Lee, com seu olhar estrangeiro, que dá ainda mais consistência ao resultado final de um filme que, utilizando elementos do mais puro folhetim, faz uma crítica ao modo de vida de uma parcela considerável de ingleses vitorianos.

A história criada por Jane Austen - escritora que foi descoberta pelo cinema no final dos anos 90 - começa quando a Sra. Dashwood (Gemma Jones) fica viúva e vê, de uma hora pra outra, seu status social sofrer uma considerável queda. Obrigada a abandonar a propriedade onde morava com as três filhas, ela vai morar em um chalé no interior, sentindo-se humilhada principalmente por Fanny (Harriet Walter), a antipática esposa de seu enteado. Quem mais sofre com essa repentina mudança de classe social são suas filhas, que vêem suas possibilidades de arrumar um bom casamento seriamente ameaçadas. A mais velha, Elinor (Emma Thompson) é uma mulher racional, de bom-senso e discreta, que se apaixona, ao seu estilo calado, por Edward Ferrars (Hugh Grant), irmão de Fanny, sem saber que ele mantém um noivado secreto há alguns anos. A filha do meio, Marianne (Kate Winslet) é o oposto da irmã: passional e calorosa, ela não esconde de ninguém o amor avassalador que sente pelo jovem Wilhougby (Greg Wise), um rapaz de ética duvidosa, e não percebe que desperta sentimentos profundos no sério Coronel Brandon (Alan Rickman).
 
Ainda que a Taiwan do século XX e a Inglaterra do século XIX sejam tão semelhantes quanto água e vinho, Ang Lee - diretor do espetacular "O banquete de casamento", indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro - conseguiu um feito e tanto. É quase impossível acreditar que por trás de "Razão e sensibilidade" não esteja um inglês rigoroso, ao estilo James Ivory, tamanho o grau de verdade e conhecimento de causa impresso em cada cena do filme. Mergulhando sem medo na cultura inglesa da época de Austen, Ang Lee demonstra um absurdo senso de observação e crítica, ainda que carinhoso, das tradições e idiossincrasias de uma sociedade muito distante de sua realidade. E o faz contando com a ajuda de uma equipe de sonhos. A bela fotografia de Michael Coulter deslumbra a plateia mostrando uma Inglaterra bucólica e romântica, com vastos campos verdejantes servindo de cenário aos espirituosos diálogos. A trilha sonora discreta de Patrick Doyle comenta a ação sem roubar a atenção da trama e a reconstituição de época é primorosa - é de chamar a atenção a forma com que Ang Lee comenta, visualmente, a diferença entre as classes sociais do período em um baile de gala. É sutil, mas brilhante, assim como o elenco, escalado com perfeição.


Ainda que não esteja excepcional como costuma estar, Emma Thompson foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz por sua atuação como Elinor, a sensata irmã mais velha - saiu premiada da cerimônia, mas devido a seu roteiro impecável. Hugh Grant e Alan Rickman estão no tom exato de suas personagens, ainda que os homens nas histórias de Austen sejam apenas coadjuvantes de luxo (ou troféus disputados sofregamente). E até mesmo atores que mais tarde se tornariam importantes peças dentro de Hollywood - Hugh Laurie, Tom Wilkinson e Imelda Staunton - dão o ar da graça, em intervenções que vão do dramático ao cômico sem nunca soar exagerado. Mas é Kate Winslet quem se sobressai, dando vida a uma Marianne passional, apaixonada pela vida e incapaz de manter em fogo brando seus sentimentos, mesmo que isso ameaçe seu bem-estar e a maneira com que é vista pela preconceituosa sociedade que a rodeia. Merecidamente indicada à estatueta de atriz coadjuvante - que perdeu para Mira Sorvino, em "Poderosa Afrodite" - Winslet já demonstrava, aos 21 anos, todo o talento que viria a transformar-lhe em uma das mais respeitadas atrizes de sua geração.

"Razão e sensibilidade" é um filme de classe, realizado com capricho e delicadeza. É provavelmente a melhor adaptação de um romance de Jane Austen feita em Hollywood até hoje.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...