quarta-feira

SETE HOMENS E UM DESTINO

SETE HOMENS E UM DESTINO (The magnificent seven, 2016, MGM/Columbia Pictures, 132min) Direção: Antoine Fuqua. Roteiro: Nic Pizzolatto, Richard Wenk, roteiro original de Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto, Hideo Oguni. Fotografia: Mauro Fiore. Montagem: John Refoua. Música: James Horner. Figurino: Sharen Davis. Direção de arte/cenários: Derek R. Hill/Bradford Johnson, Melissa Lombardo. Produção executiva: Bruce Berman, Antoine Fuqua, Walter Mirisch, Ben Waisbren. Produção: Roger Birnbaum, Todd Black. Elenco: Denzel Washington, Chris Pratt, Ethan Hawke, Haley Bennett, Vincent D'Onofrio, Peter Sarsgaard, Matt Bomer, Byung Hu-Lee, Manuel Garcia-Rulfo, Martin Seinsmeier, Luke Grimes, Cam Gigandet. Estreia: 08/9/16 (Festival de Toronto)

Não deixou de ser irônica a gritaria em torno da refilmagem de "Sete homens e um destino", quando ela foi anunciada pelo cineasta Antoine Fuqua. Primeiro porque o filme de 1960, dirigido por John Sturges, foi uma decepção de bilheteria quando estreou nos EUA, tornando-se cult somente anos mais tarde, depois do sucesso comercial na Europa. E segundo porque ele mesmo não era uma ideia original, e sim o remake americano do japonês "Os sete samurais" (54), de Akira Kurosawa, este sim um êxito internacional incontestável e atemporal. Estrelado por um elenco de astros do gabarito de Yul Brinner, Steve McQueen e Charles Bronson, a versão de Sturges acabou se transformando em um clássico do western americano, uma espécie de patrimônio intocável - o que resultou na série de questionamentos a respeito dos motivos que levariam Fuqua (um diretor apenas razoável, cujo maior cartão de visita é "Dia de treinamento", que deu o Oscar de melhor ator a Denzel Washington em 2002) a mexer com tal vespeiro. A boa notícia é que, apesar das alterações em pequenos detalhes da trama (ou talvez justamente por causa delas), a versão século XXI de "Sete homens e um destino" - politicamente correta, representativa e multicultural - é um faroeste à moda antiga filmado com os recursos da moderna Hollywood. Em resumo, o melhor dos dois mundos em um resultado final que agrada aos neófitos (aqueles que jamais assistiram a nenhum dos originais) e não ofende aos fãs dos clássicos.

Como não poderia deixar de ser ao tratar-se de um filme dirigido por um cineasta afro-americano engajado e militante, a principal mudança de "Sete homens e um destino" em relação à versão de Sturges foi eleger como protagonista um ator negro (algo impensável em uma Hollywood que somente no final da década de 60 começaria a dar os primeiros e tímidos passos em direção ao assunto, com a presença de Sidney Poitier em sucessos de bilheteria e crítica). Na pele do destemido oficial de justiça Sam Chilsom - que anda pelo país à caça de bandidos procurados pela polícia - está Denzel Washington, um dos mais representativos astros negros dos EUA, respeitado e admirado tanto pelo público quanto pela indústria. Sua imponência física e seu ar de autoconfiança cai como uma luva na história, reescrita por Nic Pizzolatto e Richard Wenk de acordo com os tempos modernos: não apenas o grupo de protagonistas é liderado por um negro, mas conta também com um oriental, um indígena, um mexicano e, surpresa das surpresas, tem até mesmo uma forte presença feminina na figura de Emma Cullen (Haley Bennett), a responsável por pedir ajuda a Chilsom na sua batalha para livrar sua pequena cidade, Rose Creek, dos desmandos do implacável e truculento Bartholomew Bogue (Peter Sarsgaard, assustadoramente magro e cruel). É Emma, que acaba de perder o marido pelas mãos sanguinárias de Bogue, quem contrata os serviços de Chilsom - mas, como manda o figurino do cinema do século XXI, não se faz de rogada e não foge à luta, encarando em pé de igualdade (ou quase) o batalhão de capangas que aceita o desafio de invadir a cidade e tomá-la a custo de sangue.


A primeira parte do filme, como não poderia deixar de ser, serve para que Fuqua apresente seus personagens e mostre como cada um dos sete homens do título é recrutado. Assim, surge em cena o falastrão e carismático Josh Faraday (Chris Pratt em papel sob medida para seu talento em roubar cenas), o traumatizado e famoso atirador Goodnight Robicheaux (Ethan Hawke) - junto com seu associado Billy Rocks (Byung-hun Lee) - e o veterano e excêntrico Jack Horner (Vincent D'Onofrio). O grupo é completo pelo mexicano fora-da-lei Vasquez (Manuel Garcia-Rulfo em papel que quase ficou com o brasileiro Wagner Moura) e o indígena Red Harvest (Martin Seinsmeier), que partem em direção à Rose Creek com o objetivo de resolver a questão definitivamente. Além deles, estão Emma e seu amigo Teddy Q (Luke Grimes), que tem razões mais do que suficientes para odiar Bogue e o que ele representa - algo que os une à Chilsom, que também tem questões mal-resolvidas com o ambicioso latifundiário. Depois de um tiroteio que anuncia sua chegada à cidade, o bando de Chilsom então marca o duelo com seu antagonista - e é aí que Fuqua surpreende positivamente.

Dirigindo com firmeza longas sequências de ação, o cineasta não apenas consegue o feito de não soar tedioso ou repetitivo como ainda vai mais longe, orquestrando uma coreografia milimetricamente criada para manter o público de olhos grudados na tela. Para isso, colabora a edição de John Refoua - que mantém mais de uma linha narrativa ao mesmo tempo - e o trabalho de sonorização, impecável e eficiente. Se até então o maior mérito do filme era desenvolver os personagens com a maior clareza possível em tão pouco tempo (a duração mal passa de duas horas, um milagre em tempos de obras que chegam a 180 minutos sem necessidade), a partir do começo da briga entre mocinhos e bandidos ,"Sete homens e um destino" se apresenta como um legítimo representante do western moderno - sem complexidades existenciais ou autoparódia, mas como um filme que deixa bem claro a linha que separa o bem do mal, a luz das trevas, a honra da traição. Seus protagonistas - por mais falíveis que sejam -, carregam a aura de heróis, uma aura que forjou um dos gêneros mais queridos e influentes da indústria hollywoodiana. Ao respeitar os cânones de tal gênero e filtrá-lo sob uma luz moderna, Fuqua criou seu melhor trabalho, um filme que encanta pelos valores de produção - como a bela fotografia de Mauro Fiore e a trilha sonora de James Horner, que homenageia a clássica composição de Elmer Bernstein para a produção de 1960 nos letreiros finais - e pela capacidade de contar uma velha e conhecida história lhe dando ares de novidade e inteligência. Um belo filme, uma bela surpresa e um dos raros remakes dignos já feitos em Hollywood!

terça-feira

VOCÊ NÃO CONHECE O JACK

VOCÊ NÃO CONHECE O JACK (You don't know Jack, 2010, HBO Films, 134min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Adam Mazer. Fotografia: Eigil Bryld. Montagem: Aaron Yanes. Música: Marcelo Zarvos. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Rena DeAngelo. Produção executiva: Lydia Dean Pilcher, Tom Fontana, Steve Lee Jones, Barry Levinson, Glenn Rigberg. Produção: Scott Ferguson. Elenco: Al Pacino, Brenda Vaccaro, Susan Sarandon, John Goodman, Danny Huston, Deirdre O'Connell, Todd Susman. Estreia: 14/4/10

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator em Minissérie ou Filme Para TV (Al Pacino)

Tivesse sido realizado para o cinema, como foi planejado a princípio, "Você não conhece o Jack" certamente teria alcançado a cerimônia do Oscar: dirigido por Barry Levinson (vencedor da estatueta por "Rain Man", de 1988) e estrelado por Al Pacino (premiado por "Perfume de mulher", em 1993, depois de várias outras infrutíferas indicações) e Susan Sarandon (a melhor atriz de 1995 por "Os últimos passos de um homem"), o filme que narra a luta real de um médico pelo direito dos pacientes ao suicídio assistido é uma empolgante demonstração do talento de seu realizador em contar uma história com todas as ferramentas de que dispõe - sem soar didático ou polêmico em excesso. Mesmo sendo perceptivelmente simpático à causa de seu protagonista, Levinson constrói seu filme de forma sóbria e responsável, amparado por uma atuação avassaladora de Pacino e um roteiro inteligente de Adam Mazer, que equilibra com maestria as batalhas jurídicas travadas nos tribunais e momentos de grande emoção, em boa parte oferecidos por imagens reais de pacientes que procuraram aliviar seu sofrimento pelas mãos daquele que ficou conhecido como "Doutor Morte". Com uma atuação avassaladora de Pacino (que acabou ganhando o Golden Globe, o Emmy e o SAG Award), o filme é também o melhor filme de Levinson desde "Mera coincidência" (97) - e um dos mais fascinantes sobre o tema já realizados.

Jack Kevorkian, o protagonista, era um médico, filho de armênios, que, nos anos 90, tornou-se conhecido mundialmente não apenas por defender a eutanásia como forma de permitir uma morte digna como desfecho de doenças terminais, mas também por colaborar, através de uma máquina criada por ele, para que tais pacientes tivessem seu desejo atendido. Suas ações o levaram a capas de revistas, a programas de entrevistas no rádio e na televisão, e principalmente aos tribunais: acusado de homicídio em alguns casos, Kevorkian contava com a ajuda de seu advogado, Geoffrey Fieger (Danny Huston, com uma horrenda peruca loura), sua irmã, Margo (Brenda Vaccaro), seu fornecedor de medicamentos, Neal Nicol (John Goodman), e a militante pró-direito de escolha Janet Good (Susan Sarandon). Acreditando piamente em seus princípios, o grupo acaba por enfrentar a ira de religiosos e a gana de advogados ambiciosos, que veem na figura do médico a chance de alavancar suas carreiras. Cada golpe, porém, faz de Kevorkian um homem mais forte e decidido a levar a discussão até o mais alto grau de justiça dos EUA: a Suprema Corte.


Magistralmente editado - com cenas reais, onde Pacino substitui, por computação gráfica, o verdadeiro Kevorkian em entrevistas com possíveis pacientes - e centrado basicamente em discutir o assunto de forma racional e honesta, "Você não conhece o Jack" apresenta uma abordagem séria, que não esconde a visão benevolente que tem de seu protagonista, mas ao mesmo tempo respeita a visão negativa de certos setores mais conservadores da sociedade norte-americana. Ao construir um Jack Kevorkian humano, falível e fatalmente solitário em suas questões éticas, o roteiro de Adam Mazer o retrata quase como um mártir, mas o trabalho impecável de Al Pacino evita que essa luz demasiado positiva o transforme em um santo irretocável. Dotando seu personagem de nuances, o veterano ator mostra que, mesmo depois dos 70 anos, ainda pode surpreender a plateia - há muito tempo não se via Pacino tão à vontade em cena, em um papel que lhe oferece mil oportunidades de brilho e aplausos. Mesmo que contracene com nomes de peso, é ele a alma do filme - e seu principal sustentáculo em mais de duas horas de duração.

Apesar da longa duração, no entanto, "Você não conhece o Jack" jamais se torna cansativo ou repetitivo - algo admirável, em especial quando se percebe que grande parte da história é restrita aos atendimentos de Jack e suas consequências jurídicas. Por incrível que pareça, o vai-e-volta de tribunais, os longos diálogos e o tom melancólico, ao contrário de atrapalhar o ritmo, parecem dar coesão e consistência a uma trama que, apesar de densa e dramática, apela igualmente para a razão e a emoção. Como testemunhas privilegiadas, o público tem a oportunidade de conhecer os ideais e os métodos de um dos homens mais polêmicos de sua época de forma clara e inteligente, sem manipulações piegas ou sensacionalistas. É um trabalho maduro e honesto, assinado por um diretor de talento inquestionável - apesar de alguns tropeços constrangedores na carreira - e estrelado por um dos maiores atores dos EUA. É, por seu tema e por seu resultado final, um filme imprescindível!

segunda-feira

COMO ELIMINAR SEU CHEFE

COMO ELIMINAR SEU CHEFE (Nine to five, 1980, 20th Century Fox, 109min) Direção: Colin Higgins. Roteiro: Colin Higgins, Patricia Resnick, estória de Patricia Resnick. Fotografia: Reynaldo Villalobos. Montagem: Pembroke J. Herring. Música: Charles Fox. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Dean Mitzner/Anne McCulley. Produção: Bruce Gilbert. Elenco: Jane Fonda, Lily Tomlin, Dolly Parton, Dabney Coleman, Sterling Hayden, Elizabeth Wilson, Henry Jones, Lawrence Pressman. Estreia: 19/12/80

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Nine to Five")

Depois de uma série de filmes densos, com temáticas relevantes, como "Julia" (77), "Amargo regresso" (78) - que lhe rendeu o segundo Oscar de melhor atriz - e "Síndrome da China" (79), não deixou de ser uma surpresa ver o nome de Jane Fonda encabeçando os créditos de uma comédia aparentemente tão despretensiosa quanto "Como eliminar seu chefe". Produzido pela companhia de Fonda e Bruce Gilbert, a IPC Films, o filme dirigido por Colin Higgins foi um inesperado sucesso de bilheteria - foi o segundo filme mais rentável do ano nos EUA e Canadá - e provou que, além de uma atriz de prestígio e consciência social, Fonda era também extremamente popular, ainda capaz (ao contrário do que diziam seus detratores à época) de levar público às salas de cinema. Mesmo que parte do êxito possa também ser creditada à presença da sensacional Lily Tomlin e da cantora country Dolly Parton (estreando como atriz), é inegável que boa parte do interesse das plateias vinha de sua participação - em papel atípico, mas nem tão distante como parecia de seus interesses políticos. Aparentemente uma comédia inofensiva, "Como eliminar seu chefe" mantém, em seu íntimo, uma óbvia alma feminista.

Desprovida de glamour e vaidade, Fonda interpreta Judy Bernly, uma mulher recém-divorciada que, sem nunca ter trabalhado fora, conquista um emprego de secretária em uma grande empresa de Nova York. Tão logo chega a seu local de trabalho, ansiosa e insegura, ela se depara com um mundo que parece funcionar com regras próprias, criadas pelo chefe, Franklin Hart Jr. (Dabney Coleman, em papel oferecido a Gregory Peck e Charlton Heston): machista, misógino, egocêntrico, hipócrita e mentiroso, ele domina o escritório de modo despótico e cruel, sem hesitar em humilhar e assediar todas as mulheres que trabalham com ele. Mesmo casado, insiste em tentar conquistar a ingênua Doralee (Dolly Parton) e trata a experiente Violet (Lily Tomlin) como escrava - além de ter roubado dela uma promoção há muito desejada. Depois de um expediente particularmente pesado (em que as três se descobrem mutuamente revoltadas com os desmandos do patrão), elas fantasiam sobre diferentes formas de livrar-se de seus domínios, aliviando sua tensão. Acontece, porém, que logo em seguida uma de suas fantasias dá a impressão de ter-se tornado realidade - e, julgando Hart morto, as colegas se unem para despistar a polícia e manter a rotina inabalada.


Apesar do primeiro terço um tanto bobo e quase pueril - com direito a citações à Branca de Neve e outros desenhos animados -, "Como eliminar seu chefe" vai se tornando, aos poucos, em uma envolvente comédia de erros, repleta de um humor que mescla crítica social, ironia e até pastelão. Dotadas de notável timing cômico, as três protagonistas carregam nas costas a responsabilidade de fazer uma comédia adulta sem apelar para a vulgaridade ou excesso de erudição. Com um roteiro que agrada tanto àqueles que procuram sequências de gargalhar como àqueles dispostos a um humor mais sofisticado, o filme de Colin Higgins acerta em apostar todas as suas fichas no talento de suas atrizes em conseguir arrancar risadas até mesmo em situações bizarras - todas as sequências no hospital, envolvendo o sequestro de um cadáver e sua posterior reposição, são absolutamente geniais, graças ao desempenho do elenco. Famoso pelo cultuado "Ensina-me a viver" (71), Higgins brinca novamente com temas sérios sem perder a leveza e a sensibilidade.

Por trás de sua aparência histriônica, "Como eliminar seu chefe" é um filme absolutamente importante em termos sociais. Quando de seu lançamento, no final de 1980, a discussão sobre os direitos femininos estava no auge - e filmes como "Norma Rae" e "Kramer vs Kramer", ambos de 1979 e ambos premiados com o Oscar, apontavam uma direção para a qual Hollywood estava disposta a olhar com atenção. Ao conectar o espírito de seu tempo com um gênero popular - e levantar conversas sobre o assunto sem parecer didático ou panfletário - o filme de Higgins é um triunfo: mesmo que no cômputo final é pouco provável que sua mensagem vá sobrepor-se à sua trama na lembrança do espectador, uma semente foi lançada, e mais uma vez Jane Fonda teve sua parcela de responsabilidade. Afinal, mesmo brincando ela sabia muito bem o que estava fazendo!

domingo

PENSAMENTOS MORTAIS

PENSAMENTOS MORTAIS (Mortal thoughts, 1991, Columbia Pictures, 102min) Direção: Alan Rudolph. Roteiro: William Reilly, Claude Kerven. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Tom Walls. Música: Mark Isham. Figurino: Hope Hanafin. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Beth Kushnick. Produção executiva: Stuart Benjamin, Taylor Hackford. Produção: John Fiedler, Mark Tarlov. Elenco: Demi Moore, Bruce Willis, Glenne Headly, Harvey Keitel, John Pankow. Estreia: 19/4/91

Louvado desde sua estreia por sua sofisticação visual e pelo não convencionalismo de sua narrativa, exemplificados em filmes como "Choose me" (84) e "Moderns" (88), o cineasta Alan Rudolph, que começou a carreira como assistente de Robert Altman sempre foi considerado um estranho no ninho dentro da indústria de Hollywood. Por isso, não deixa de ser uma surpresa ver seu nome nos créditos de "Pensamentos mortais", um produto puramente comercial que, lançado em 1991, surfava na onda do sucesso e do prestígio de Demi Moore - recém saída do estrondoso sucesso de "Ghost: do outro lado da vida" (90). Um policial acadêmico e sem maiores arroubos de criatividade - ainda que contado de maneira razoavelmente envolvente -, o filme de Rudolph carece da personalidade própria de seu diretor, mas merece aplausos por tirar tanto Demi quanto seu então marido Bruce Willis de sua zona de conforto, apresentando personagens pouco simpáticos e desprovidos de glamour ou empatia. Com um custo irrisório de apenas 8 milhões de dólares, "Pensamentos mortais" não fez o sucesso esperado - rendeu menos de 20 milhões no mercado doméstico - e tampouco agradou à crítica. É um filme que fica em um incômodo meio-termo entre suas pretensões comerciais e seu desejo de sobressair-se artisticamente de outras produções do gênero.

Na verdade, Rudolph assumiu o comando depois que o diretor escolhido, Claude Kerven, um dos roteiristas, foi demitido, às vésperas do começo das filmagens. A essa altura do campeonato, outras mudanças já haviam sido efetuadas no projeto, como a entrada de Demi Moore como co-produtora e a subsequente escalação de Bruce Willis para o papel crucial - mas no primeiro tratamento de roteiro bastante pequeno - de James Urbanski, o pivô de toda a trama. Ficando com o papel que foi cogitado para Robin Wright, Demi não foi a única substituição do elenco: devido ao atraso no início dos trabalhos, Peter Gallagher pulou do barco e deu lugar a John Pankow para interpretar Arthur, o outro personagem masculino da história. Para viver a melhor amiga de Demi, foi escolhida Glenne Headly - recém-vinda do sucesso "Dick Tracy" - e na pele do detetive de polícia John Woods, ficou o veterano Harvey Keitel (em vias de embarcar no imenso êxito de "Thelma & Louise", de Ridley Scott). Equipe (bem) escolhida e uma corajosa escolha de tema - bem distante dos romances açucarados estrelados por Demi ou dos filmes de ação com Willis. Mas algo não deu certo na combinação de ingredientes.


Não que "Pensamentos mortais" seja um filme irremediavelmente ruim. Pelo contrário, tem algumas ideias muito boas, ainda que não necessariamente novas, como a utilização de flashbacks como forma principal de narrativa. Tal recurso, utilizado com razoável competência (em parte graças à edição de Tom Walls), é que serve de base para o desenvolvimento de um roteiro cujos personagens não são, a princípio, exatamente o que parecem ser. A ciranda de acontecimentos trágicos e inesperados que se sucedem conforme a trama vai se desenrolando é apresentada com um tom seco, apropriado à história, e mantém o interesse do espectador até os últimos minutos, quando finalmente toda a verdade vem à tona. É um enredo simples, tornado complexo pelas constantes reviravoltas. É um filme que cairia como uma luva nas mãos de um cineasta menos sutil, mais afeito ao roteiro do que ao estilo. Talvez Alan Rudolph seja cool demais para uma história tão sórdida, com personagens tão pequenos e rotinas tão mundanas. A impressão que se tem é que o diretor tenta enfeitar a crueldade e a aridez da trama com uma aura de cinema europeu - o que não apenas não funciona como acaba por estragar a maior qualidade do texto.

Tudo bem, Demi Moore tampouco funciona no papel principal, ainda que se esforce. Mas é louvável que tenta tentado fugir do estereótipo de símbolo sexual para viver Cynthia Kellogg, uma cabeleireira que é chamada à delegacia para dar seu depoimento a respeito de um violento homicídio. Não demora a ser revelado que a vítima é James Urbanski (Bruce Willis), o detestável marido de Joyce (Glenne Headly), sua sócia e melhor amiga. Aos poucos o detetive John Woods (Harvey Keitel) vai arrancando de Cynthia todos os detalhes da rotina doméstica do casal, recheada de brigas violentas, e chega até o dia do crime. Quem matou James? Por que? Em que circunstâncias? E o que Arthur (John Pankow), o marido de Cynthia, tem a ver com a história? Tentando responder a essas perguntas clássicas de um filme policial, o roteiro joga pistas e informações sem muita criatividade, seguindo apenas a estrutura clássica de gato e rato há muito consagrada pela literatura e pelo cinema. Bruce Willis é o grande destaque do elenco, excelente como o odioso James Urbanski, e é uma pena que sua participação seja tão curta. Mas ainda assim, a beleza de Demi e o final (mais ou menos) surpreendente fazem do resultado final um produto a que se assiste com facilidade - o problema é que, além de facilmente assistível, é também facilmente esquecível. Um Supercine de luxo!

sábado

MATADOR EM CONFLITO

MATADOR EM CONFLITO (Grosse Pointe Blank, 1997, Hollywood Pictures/Caravan Pictures, 107min) Direção: George Armitage. Roteiro: Tom Jankiewicz, D.V. DeVincentis, Steve Pink, John Cusack, estória de Tom Jankiewicz. Fotografia: Jamie Anderson. Montagem: Brian Berdan. Figurino: Eugenie Bafaloukos. Direção de arte/cenários: Stephen Altman/Chris Spellman. Produção executiva: Jonathan Glickman, Lata Ryan. Produção: Susan Arnold, Roger Birnbaum, Donna Arkoff Roth. Elenco: John Cusack, Minnie Driver, Alan Arkin, Dan Aykroyd, Joan Cusack, Hank Azaria, Jeremy Piven. Estreia: 11/4/97

Em 1991, Tom Jankiewicz recebeu o convite de sua antiga turma de escola para uma reunião, comemorando os dez anos de formatura do ensino médio. Como bom aspirante a roteirista, logo surgiu em sua mente uma ideia mirabolante: e se um de seus colegas aparecesse na festa e, ao contrário dos antigos companheiros - então bancários, médicos, advogados e outras profissões mais tradicionais - se revelasse um bem-sucedido matador de aluguel? Essa foi a gênese de "Matador em conflito", um dos mais elogiados filmes da temporada 1997, que, a despeito de seu desempenho medíocre nas bilheterias, tornou-se cult instantâneo - em boa parte devido à presença do ator John Cusack, então um dos queridinhos do público fã de cinema alternativo de Hollywood. Dirigido por George Armitage - também cultuado, por seu "O anjo assassino" (90) - e recheado de humor negro e referências culturais pop, "Matador em conflito" é um antídoto perfeito para as fórmulas engessadas do cinemão americano, misturando gêneros e não se levando a sério nem mesmo diante de sequências surpreendentemente violentas.

Sua mistura de gêneros, aliás, quase foi um problema para sua realização: por volta de 1993, quando o conceito do filme já era cobiçado por vários produtores, Kiefer Sutherland mostrou-se realmente interessado em levá-lo às telas. O projeto esbarrou justamente na dificuldade que seria encontrar financiamento para um filme tão atípico, que fazia rir ao mesmo tempo em que mostrava pessoas sendo assassinadas, e que, de forma amoral, tinha como protagonista (e portanto, segundo as regras não escritas, o herói com quem o público deveria se identificar) um matador profissional - e o que é pior, um matador profissional simpático e carismático. Projeto cancelado, foi somente em 1996 que finalmente as coisas começaram a realmente andar, quando John Cusack entrou em cena e assumiu as rédeas da situação: juntamente com os amigos D.V. DeVincentis e Steve Pink (com quem também trabalharia na adaptação do livro "Alta fidelidade", de Nick Hornby), Cusack se aproximou de Jankiewicz e criou o roteiro daquele que seria um de seus trabalhos preferidos: uma absurda comédia de humor negro, violência e, por incrível que pareça, uma história de amor.


O próprio Cusack assumiu também o papel principal do filme, um assassino profissional que está passando por uma crise existencial. Descontente com sua rotina de violência, Martin Blank tenta acalmá-la com sessões de terapia com o dr. Oatman (Alan Arkin) - que só o atende por medo de também virar uma vítima sua. Recusando trabalhos e com pretensões de abandonar a vida criminosa, ele confia apenas em sua secretária, Marcella (Joan Cusack), para organizar sua confusa vida. Sua situação pouco invejável se torna ainda mais complicada quando ele aceita a missão de cometer um assassinato na pequena Grosse Point, nos subúrbios de Detroit: não apenas se trata de sua cidade natal como também o trabalho coincide com uma festa de reencontro com seus ex-colegas de classe, dez anos depois do baile de formatura em que ele deixou sozinha sua então namorada Debi (Minnie Driver). O reencontro com Debi e a ideia de ter de dar de cara com todos os seus amigos e desafetos do passado se combinam com a pressão de ter de cumprir seu objetivo profissional, escapar de dois agentes federais, um outro assassino que está em seu encalço, e, pior ainda, ter de livrar-se de Groce (Dan Aykroyd), que tenta convencê-lo a participar de um sindicato de matadores de aluguel.

O roteiro de "Matador em conflito" é um festival de citações pop: filmes de 007, Quentin Tarantino, games, música dos anos 80 (a trilha sonora é fantástica, com direito a Queen, Guns'n'Roses, Johnny Nash, The Clash, The Cure e A-ha, entre dezenas de outros) e até citações internas (Jenna Elffman faz sua estreia no cinema com uma homenagem à Joan Cusack no clássico "Gatinhas e gatões", de 1986) são facilmente detectáveis por toda a curiosa narrativa de Armitage. Sem espaço para a previsibilidade, o roteiro se transforma imperceptivelmente de cena para cena, pulando de uma comédia quase surreal para um romance nostálgico e então para um filme de ação com direito a tiroteios e explosões. John Cusack é o ator ideal para o papel principal, com sua aparência carente, e Minnie Driver demonstra um ótimo timing cômico, servindo também de equilíbrio entre todos os gêneros apresentados por Armitage e companhia, que não tem medo de ousar e fugir do lugar-comum. Desconcertante e surpreendente, "Matador em conflito" não é um filme para qualquer tipo de público - e tampouco escapa de um ritmo irregular em determinados momentos -, mas é uma refrescante opção para quem deseja fugir da mesmice hollywoodiana. Uma sessão da tarde apimentada e movimentada que é a cara de sua época.

sexta-feira

LUA DE PAPEL

LUA DE PAPEL (Paper moon, 1973, Paramount Pictures, 102min) Direção: Peter Bogdanovich. Roteiro: Alvin Sargent, romance de Joe David Brown. Fotografia: László Kovácks. Montagem: Verna Fields. Figurino: Polly Platt. Direção de arte/cenários: Polly Platt/John Austin. Produção: Francis Ford Coppola. Elenco: Ryan O'Neal, Tatum O'Neal, Madeline Kahn, John Hillerman, P.J. Johnson, Jessie Lee Fulton. Estreia: 09/4/73

4 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Madeline Kahn), Atriz Coadjuvante (Tatum O'Neal), Roteiro Adaptado, Som
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Tatum O'Neal)

Os créditos de abertura já anunciam com precisão o tom saudosista e leve que virá pela frente: "Lua de papel", filme seguinte de Peter Bogdanovich à escrachada comédia "Essa pequena é uma parada" (72), estrelada por Barbra Streisand e Ryan O'Neal. No auge da carreira, é O'Neal também quem lidera o elenco dessa adaptação charmosa e lírica do romance de Joe David Brown, um olhar carinhoso sobre os EUA pós-Grande Depressão - que, por coincidência ou acesso de nostalgia por parte de Hollywood, era também o cenário do vencedor do Oscar do mesmo ano, "Golpe de mestre". Pensado inicialmente como um veículo para Paul Newman e sua filha Nell Potts sob a direção do veterano John Huston, "Lua de papel" acabou chegando às telas com outra dupla de pai e filha: Ryan - tentando apagar a imagem de mocinho romântico conquistado em "Love story: uma história de amor" (70) - e sua filha Tatum, estreando em cinema por sugestão da então esposa de Bogdanovich, a desenhista de produção Polly Platt. O resultado não poderia ter sido mais favorável: aos dez anos de idade, Tatum tornou-se a mais jovem vencedora do Oscar de atriz coadjuvante, recorde mantido ainda hoje, mais de quatro décadas depois - uma vitória que, diga-se de passagem, causou muita polêmica.

Primeiro foi a acusação, de parte de alguns membros da indústria, de que a atuação vivaz e inspirada da pequena Tatum, então com apenas oito anos, havia sido completamente fabricada por Bogdanovich na sala de edição - e que o cineasta havia realizado dezenas e mais dezenas de takes até dar-se por satisfeito com a menina (como se inúmeros outros diretores não fizessem o mesmo com atores bem mais experientes). Não bastasse essa controvérsia (que acabou por apagar-se com tempo e curiosamente não se repetiu com outra competidora juvenil da mesma categoria e do mesmo ano, Linda Blair, por "O exorcista"), anos mais tarde a própria Tatum O'Neal pôs lenha na fogueira a respeito de sua vitória, declarando em sua biografia, "Paper life", que Ryan, humilhado por ver a filha receber um Oscar ainda na infância enquanto ele sequer havia sido indicado, a espancou depois da premiação. Apesar da revelação contradizer as palavras do ator em uma entrevista de 1973 - em que afirmava ter aceito fazer o filme com a filha como forma de fortalecer seus laços familiares e que, se não fosse com ela, não teria sido convencido por Bogdanovich a ficar com o papel -, o fato é que as duras lembranças de Tatum provavelmente justificaram seus posteriores problemas com drogas e no relacionamento com os próprios filhos, de seu casamento com o tenista John McEnroe, encerrado em 1994.


Problemas de bastidores à parte, "Lua de papel" é uma delícia. Com algumas alterações em relação ao livro de Brown (como a idade da protagonista mirim, tornada mais jovem, o cenário - do Alabama para Kansas e Missouri - e o terço final, suprimido completamente), o roteiro de Alvin Sargent conquista o público sem dificuldade, graças principalmente ao carisma irresistível da pequena Tatum e do cinismo sedutor de Ryan, ambos excelentes e com uma química que somente a relação entre pai e filha de verdade conseguiria alcançar. A trama se passa nos anos 30, e começa quando Moses Pray chega ao funeral de uma antiga conhecida e é convencido pelos parentes da falecida a levar sua única filha, Addie, até a casa de uma tia, no Missouri. Acontece que Moses é um golpista contumaz, que se faz passar por vendedor de Bíblias para arrancar dinheiro de famílias enlutadas, e apesar de desconfiar que a menina pode ser sua filha (coisa que ela sabe que pode ser verdade), não tem a menor intenção de aproximar-se dela. No caminho, porém, a relação entre os dois sofre uma reviravolta quando a garota demonstra ser tão astuta quanto seu veterano companheiro - e os dois resolvem formar uma lucrativa parceria em golpes até o fim da jornada a caminho de casa.

Fotografado por László Kóvacs em um belo preto-e-branco (sugerido a Bogdanovich pelo cineasta Orson Welles) e dotado de uma reconstituição de época impecável, "Lua de papel" tem o ritmo de uma comédia clássica, mas é dotado de um coração e uma alma que, vez ou outra, se deixam entrever através do quase cinismo de seus personagens. São emocionantes os momentos em que a pequena Addie se lembra da mãe ou tenta conquistar o carinho daquele que tem certeza que é seu pai; é surpreendente quando Trixie Delight (Madeline Kahn, indicada ao Oscar de coadjuvante), que se prostitui para sobreviver em um país assolado pela pobreza, se permite ser honesta em relação à sua vida com a pequena rival pelas atenções de Moses; e são particularmente felizes as cenas em que a cumplicidade dos protagonistas se torna evidente mesmo diante de situações pouco felizes. No auge de sua carreira como cineasta - havia apenas dois anos que havia lançado o elogiadíssimo "A última sessão de cinema" -, Peter Bogdanovich oferece em seu filme um equilíbrio notável entre humor e emoção, sem deixar nunca de afirmar, ainda que sem palavras, que até mesmo os brutos também amam. Um filme delicioso e de aquecer o coração!

quinta-feira

VOANDO ALTO

VOANDO ALTO (Eddie the Eagle, 2016, Hurwitz Creative/Marv Films/Saville Productions, 106min) Direção: Dexter Fletcher. Roteiro: Sean Macaulay, Simon Kelton, estória de Simon Kelton. Fotografia: George Richmond. Montagem: Martin Walsh. Música: Matthew Margeson. Direção de arte/cenários: Mike Gunn/Naomi Moore. Produção executiva: Zygi Kamasa, Pierre Lagrange, Stephen Marks, Peter Morton, Claudia Vaughn. Produção: Adam Bohling, Rupert Maconick, David Reid, Valerie Van Galder, Matthew Vaughn. Elenco: Hugh Jackman, Taron Egerton, Tom Costello, Jim Broadbent, Christopher Walken. Estreia: 26/01/16 (Festival de Sundance)

As Olimpíadas de Inverno de 1988, em Calgary, Canadá, tornaram-se famosas no cinema graças ao filme "Jamaica abaixo de zero" (93), que contava a história da primeira equipe de trenó do país através de uma comédia em tom familiar. Mas na mesma competição, em outra categoria - salto de esqui - um outro atleta chamava a atenção, não por medalhas ou excelência, mas sim por sua paixão pelo esporte e pela persistência em ser o primeiro britânico a disputar os jogos em um esporte sem tradição em sua nação. Ao cativar o público torcedor, Eddie "The Eagle" Edwards tornou-se uma figura icônica a tal ponto de ser convidado para carregar a tocha olímpica dos jogos de 2010, em uma demonstração de sua importância para o espírito esportivo declarado pelo criador das Olimpíadas modernas, Pierre de Coubertin: "O mais importante nos Jogos Olímpicos não é ganhar, mas participar. O importante na vida não é o triunfo, e sim a luta." Desde então - ou mais precisamente desde 1999, projetos cinematográficos sobre a trajetória de Edwards começaram a surgir, a despeito de sua relutância em permitir uma adaptação. O fracasso de uma tentativa com o ator Steve Coogan - que tencionava realizar uma comédia rasgada sobre o assunto - deixou o campo livre, então, para o diretor e produtor Matthew Vaugh, de "Kingsman: Serviço Secreto" (2014) reconectar-se com o roteiro que havia lido alguns anos antes e que havia deixado de lado. Surgia "Voando alto", uma terna, divertida e emocionante comédia capaz de arrancar sorrisos do mais cético dos espectadores.

Por uma dessas circunstâncias do destino, Vaughn decidiu produzir o filme sobre Edwards depois de assistir, junto com os filhos, a uma exibição na televisão de "Jamaica abaixo de zero". Com o firme propósito de realizar uma obra de tom familiar, sem a violência - repleta de ironia, mas ainda assim violência - de seu "Kingsman", o cineasta preferiu deixar de lado a direção e oferecer o projeto a seu amigo de longa data Dexter Fletcher, ator de seu primeiro filme como produtor, "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes", lançado quase vinte anos antes. Tornado diretor com o passar do tempo, Fletcher aceitou o desafio e, com a aprovação de Edwards, "Voando alto" começava finalmente a tomar forma. Não da maneira tradicional, mas com um toque de leveza e humor que faria do filme não uma cinebiografia convencional, mas antes disso, uma releitura em tom cômico de sua trajetória rumo à realização de seu sonho de ser um atleta olímpico. Para isso, não apenas muitos fatos foram alterados - com a anuência do próprio biografado - como personagens foram simplesmente inventados, como forma de impulsionar a narrativa em uma direção mais facilmente palatável ao gosto das plateias. Nascia, assim, a figura de Bronson Peary, um ex-atleta que se torna o hesitante treinador de Edwards e seu maior aliado na luta contra os céticos - e cínicos - burocratas do esporte britânico.


Segundo o roteiro de Simon Kelt e Sean Macaulay - que Edwards diz ser apenas dez ou quinze por centro baseado na verdade - o protagonista, filho único de um gesseiro e de uma dona-de-casa britânicos, sempre sonhou em ser um atleta olímpico, mesmo diante das dificuldades impostas por um problema físico na perna esquerda, que praticamente o impedia de andar direito. Livre do aparelho que o acompanhou na infância, Eddie passa a treinar obsessivamente com o objetivo de participar dos jogos, sempre desencorajado pelo pai, que deseja que ele siga sua profissão. Contrariando até mesmo o Comitê Técnico da Grã-Bretanha - que não deseja um amador tão destreinado junto com seus talentosos atletas - e contando apenas com o apoio da mãe, Edwards resolve ir treinar na Alemanha (na verdade, Eddie foi para os EUA), e lá conhece Bronson Peary (Hugh Jackman), que anos antes, devido a seu comportamento arrogante, deixou de ser um astro do esporte para trabalhar limpando os campos de treino. Depois de muito insistir, Eddie convence Peary a treiná-lo, talvez não para ganhar medalhas, mas para estabelecer um recorde para seu país e provar a todos que a perseverança e a paixão pelo esporte são maiores que a fama e o dinheiro.

Com esse subtexto familiar e politicamente correto, seria fácil para "Voando alto" esbarrar em clichês e sentimentalismos. Porém, em um toque de gênio, Vaughn e Fletcher fazem do filme uma homenagem carinhosa e empolgante a todos aqueles que um dia já tiveram um sonho. Acompanhado por uma trilha sonora caprichada, uma edição ágil, senso de humor inteligente e interpretações impecáveis, o que poderia ser um aborrecido e previsível amontoado de lugares-comuns cede espaço ao divertido retrato de uma paixão quase proibida que se torna, aos poucos, plenamente tangível. Para isso, é imprescindível a atuação exemplar do jovem Taron Egerton, descoberto por Vaughan em "Kingsman": dos maneirismos físicos à linguagem corporal, do visual à voz e à postura, Egerton incorpora Eddie Edwards com extrema perfeição, aliando um carisma impressionante à já facilmente adorável personalidade do protagonista. Sua química com Hugh Jackman é um dos pontos altos de um filme repleto deles. Despretensioso, inspirador e muito, mas muito divertido, "Voando alto" é uma pequena obra-prima, que mesmo quando apela aos clichês, o faz com sinceridade e respeito. Imperdível!

quarta-feira

VIDA

VIDA (Life, 2017, Columbia Pictures/Skydance Pictures, 104min) Direção: Daniel Espinosa. Roteiro: Rheet Reese, Paul Wernick. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Mary Jo Markey, Frances Parker. Música: Jon Ekstrand. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Nigel Phelps/Celia Boback. Produção executiva: Vicki Dee Rock, Don Granger. Produção: Bonnie Curtis, David Ellison, Dana Goldberg, Julie Lynn. Elenco: Jake Gyllenhaal, Ryan Reynolds, Rebecca Ferguson, Hiroyuki Sanada, Olga Dykhovichnaya, Ariyon Bakare. Estreia: 18/3/17

A cenografia lembra "2001: uma odisséia no espaço" (68), de Stanley Kubrick. A trama é nitidamente inspirada em "Alien, o oitavo passageiro" (79), de Ridley Scott. Mas "Vida", do sueco Daniel Espinosa, apesar das referências clássicas e da aparência derivativa, tem muito mais qualidades que sua bilheteria doméstica (pouco mais de 30 milhões de dólares, contra um orçamento de estimados 58) pode fazer crer. Mesmo que não acrescente muito aos elementos já consagrados de um gênero sempre em constante busca de novidade, o filme de Espinosa não faz feio em provocar suspense, em imprimir um constante ar de tensão e, principalmente, em criar um vilão que foge do já tradicional visual forjado na obra de Scott - já utilizado à exaustão em suas continuações. Apostando em efeitos visuais de primeira linha, "Vida" pode até ser mais do mesmo, mas assume sem medo o desafio de conquistar os fãs de ficção científica - e o faz com dignidade e elegância.

A trama - que também não é um primor de originalidade, mas ao menos tem um senso de lógica e verossimilhança mínimos para um filme do gênero - se passa dentro de uma estação espacial internacional que está retornando de uma expedição à Marte, onde foi tentar encontrar provas de vida alienígena. A tripulação, formada por seis passageiros, inclui médicos e cientistas encantados com a descoberta de um organismo que, divulgado à população da Terra, recebe o carinhoso apelido de Calvin. Fascinado com seu novo bichinho de estimação, um dos tripulantes, Hugh Derry (Ariyon Bakare) - que sofre de paralisia dos membros inferiores -, acaba por dedicar-se quase integralmente a seu estudo. Porém, curioso em descobrir como suas células funcionam quando acordadas, ele acidentalmente desperta um ser de inteligência acima da média e com o poder de crescer de forma acelerada - além de defender-se de forma violenta, atacando a todos a quem considera uma ameaça. Nesse ambiente de tensão, os demais viajantes tentam encontrar uma maneira de mantê-lo preso em uma compartição segura da nave - mas talvez nem mesmo isso seja o suficiente para poupar suas vidas.


O roteiro de "Vida", escrito por Rheet Reese e Paul Wernick - a dupla responsável pelo texto de "Zumbilândia" (2009) e "Deadpool" (2016) - não tem nada de seus trabalhos mais conhecidos, filmes de ação construídos sobre um humor quase juvenil. Sério e com um desenvolvimento claustrofóbico, o filme de Espinosa se equilibra entre o suspense visual (com uma bela fotografia em tons azulados, de Seamus McGarvey) e o drama que surge em consequência dos trágicos desdobramentos do encontro entre terráqueos e a misteriosa forma de vida marciana. São esses momentos emocionalmente mais densos que abrem espaço para as atuações inspiradas de Jake Gyllenhaal e da sueca Rebecca Ferguson - um rosto que começou a ser conhecido das plateias graças a suas participações em "Missão: impossível: Nação Secreta" (2015) e "A garota no trem" (2016). Ele vive o médico David Jordan, que está atingindo o recorde de permanência no espaço (por não saber exatamente como conviver com as pessoas em seu planeta natal), e ela interpreta a líder da missão, Miranda North, a quem caberá tomar as decisões mais importantes a respeito da reviravolta na viagem. As cenas em que Gyllenhaal e Ferguson reagem à situação em que estão vivendo são bem escritas, bem dirigidas e oferecem um tom pessoal que evita que o filme acabe sendo apenas mais uma produção caprichada de efeitos visuais de última geração.

Conciso e eficiente, ainda que careça de uma força maior em seu clímax e soe perigosamente parecido com suas fontes de inspiração, "Vida" é um filme inteligente, que discute com sobriedade o limite a que pode chegar a interferência do seres humanos a ecossistemas alheios - e por consequência, as fontes de vida que os habitam. Ao mostrar Calvin não como um vilão cruel e sanguinário, mas como uma criatura lutando por sua própria defesa, o roteiro encontra seu maior diferencial - assim como o final, uma aula de edição que pega o espectador de surpresa e dilacera o heroísmo individual tão caro ao cinemão mainstream. Contando com a participação especial de Ryan Reynolds - o Deadpool em pessoa, que não pode aceitar o papel de David Jordan por falta de tempo - e um diretor que parece ter aprendido direitinho sua lição de como comandar uma ficção científica de suspense, "Vida" é um filme acima da média, que pode não agradar aos fãs do "Alien" original pelo excesso de similaridades mas que cumpre exatamente o que promete: assusta, entretém e surpreende.

terça-feira

TUCKER: UM HOMEM E SEU SONHO

TUCKER: UM HOMEM E SEU SONHO (Tucker: The man and his dream, 1988, Paramount Pctures/Lucasfilm, 110min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Arnold Schulman, David Seidler. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Priscilla Nedd-Friendly. Música: Joe Jackson. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Armin Ganz. Produção executiva: George Lucas. Produção: Fred Fuchs, Fred Roos. Elenco: Jeff Bridges, Joan Allen, Martin Landau, Frederic Forrest, Mako, Elias Koteas, Christian Slater, Jay O. Sanders, Peter Donat. Estreia: 12/8/88

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Martin Landau), Figurino, Direção de Arte/Cenários

Os homens e seus sonhos: em 1945, logo depois da II Guerra Mundial, Preston Tucker tinha o sonho de construir um carro popular, eficiente, seguro e econômico - mas não conseguiu ir muito longe em seu objetivo, atropelado que foi pelos gigantes da indústria automobilística que não viam com bons olhos sua intrusão em seu meio. Em 1974, o cineasta Francis Ford Coppola, apaixonado pelo carro criado por Tucker, sonhava em realizar um filme contando a história de seu empreendimento e sua batalha judicial para manter-se no mercado. Tucker foi acusado de fraude e levado a julgamento, vendo seu sonho despedaçar-se tão logo tornou-se realidade. Coppola também penou para levar adiante seu projeto - em 1974, queria Marlon Brando no papel principal, mas o filme não foi adiante e ele foi realizar o problemático "Apocalipse now". Tão logo acabou o suplício das pós-produção, chamou Burt Reynolds para protagonizar sua história e mais uma vez o sonho não se tornou realidade. Foi somente em 1988, mais de uma década depois da primeira vez em que pensou no filme é que finalmente "Tucker: o homem e seu sonho" viu a luz dos refletores. No papel central, nem Brando, nem Reynolds nem Jack Nicholson (a quem também foi oferecido), e sim um Jeff Bridges vibrante, entusiasmado e bom ator como nunca. O sonho estava realizado, mas assim como o heroi visionário de Bridges, Coppola também sentiu o sabor agridoce da vitória parcial.

Enquanto Tucker se viu obrigado a encerrar a produção de seus carros depois de apenas 51 exemplares, Coppola não obteve, com seu filme, o reconhecimento esperado e devido, tanto da crítica quanto do público. Com uma renda doméstica insuficiente até mesmo para cobrir o orçamento modesto de 23 milhões de dólares e aplausos apenas mornos da imprensa e das cerimônias de premiação - recebeu tímidas 3 indicações ao Oscar e não converteu nenhuma em estatueta - a história de Preston Tucker acabou por refletir, como em um espelho, as batalhas do cineasta por manter seus princípios artísticos em uma indústria tão impiedosa quanto Hollywood. Dono de dois exemplares do carro de Tucker (outros dois são de propriedade do produtor do filme, George Lucas), Coppola tem uma trajetória de perdas e ganhos tão intensa que não é de espantar sua admiração pelo destemido empresário, que, como ele, era capaz de arriscar qualquer coisa para realizar o que considerava certo. Ele também uma vítima das corporações que ditam as regras de seu negócio, Coppola parece dizer que ele é o Preston Tucker do cinema: um homem de visão, talento e entusiasmo, mas que, como um Davi, infelizmente não tem a força necessária para derrotar poderosos Golias.


Fascinante enquanto reflexo de seu realizador, como cinema "Tucker: um homem e seu sonho" não chega a ser tão admirável quanto os melhores filmes de Francis Ford Coppola. Apesar da paixão que sente por seu biografado, o cineasta parece preso a uma narrativa convencional em excesso, mesmo que o roteiro tente inserir um pouco de humor no tom documental que abre o filme - uma referência aos documentários cinematográficos da época em que se passa a história. Visualmente requintado (a direção de arte e o figurino foram indicados ao Oscar e perderam para "Ligações perigosas", de Stephen Frears), o filme apresenta tudo o que se pode esperar de um cineasta do porte de Coppola: uma direção sensível, atores em composições admiráveis (Martin Landau também concorreu ao Oscar), uma fotografia deslumbrante do veterano Vittorio Storaro e uma edição ágil e criativa. Apenas o roteiro - construído sobre informações coletadas pelo diretor através da Justiça americana, que mantinha confidencialidade sobre o processo - carece de maior força, raramente atingindo todas as inúmeras possibilidades que oferece em um primeiro momento. Entre o início promissor e o final climático - onde a força do talento de Jeff Bridges ilumina tudo a seu redor - há um exagero de cenas redundantes, que parece reiterar, sem necessidade, a batalha de Tucker contra seus algozes.

A trama é simples: com o fim da II Guerra, Preston Tucker (Jeff Bridges) convence a família, os amigos e o público (através de anúncios em revistas), de que será o responsável por criar um carro capaz de concorrer com aqueles fabricados pelas grandes montadoras do país (GM, Ford e Chrysler). Obtendo financiamento com a ajuda do esperto e experiente Abe (Martin Landau) e contando com o apoio logístico do jovem engenheiro Alex Tremulis (Elias Koteas), ele consegue finalmente chegar ao protótipo de seu veículo - mas esbarra, então, nos todo-poderosos da indústria, que passam, então, a lutar contra ele até o ponto de acusá-lo criminalmente e levá-lo a julgamento. Coppola conduz com adequadas serenidade e leveza uma história que, apesar dos dramas, é fundamentada basicamente em esperança e paixão - paixão essa que era também a de Gian-Carlo, filho do diretor, morto aos 22 anos de idade e a quem o filme é dedicado. Emocionante sem ser piegas, "Tucker: um homem e seu sonho" é um sonho de Francis Ford Coppola a respeito do sonho de Preston Tucker. Pode não ser uma obra-prima, mas é movido a sentimentos positivos e uma bela nostalgia - o que já é bem mais do que se pode dizer de muitos filmes mais ambiciosos, mais elogiados e bem menos competentes.

domingo

A TRAIÇÃO DO FALCÃO

A TRAIÇÃO DO FALCÃO (The falcon and the snowman, 1985, Hemdale, 131min) Direção: John Schlesinger. Roteiro: Steven Zaillian, livro de Robert Lindsey. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Richard Marden. Música: Lyle Mays, Pat Metheny. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: James D. Bissell/Linda De Scenna. Produção executiva: John Daly. Produção: Gabriel Katzka, John Schlesinger. Elenco: Timothy Hutton, Sean Penn, Pat Hingle, Joyce Van Patten, Jerry Hardin, Lori Singer, Michael Ironside. Estreia: 19/01/85 (Festival de Sundance)

Um dos atores mais respeitados e premiados de sua geração, Sean Penn ganhou seu primeiro Oscar apenas em 2004, pelo filme "Sobre meninos e lobos", de Clint Eastwood. Seu talento, porém, já existia desde muito antes, ainda que escondido sob uma persona problemática e em constante conflito com a imprensa e a indústria - e com todos que o rodeavam, como bem sabem Madonna, sua ex-mulher, constante vítima de seus ataques de fúria, e paparazzi, que, agredidos, o levaram a passar uma temporada na cadeia. Seu temperamento volátil, no entanto, apenas não deixava transparecer as qualidades dramáticas que ele mais tarde viria a explorar com mais maturidade. Um exemplo disso é "A traição do falcão": quando foi lançado, em janeiro de 1985, Penn tinha apenas 24 anos de idade e já demonstrava uma dedicação rara em construir um personagem. Para viver o jovem Andrew Daulton Lee - acusado de espionagem contra o governo dos EUA e um dos protagonistas de um livro publicado em 1979 -, o ator não apenas fez um complicado laboratório invadindo a embaixada dos EUA no México (como forma de compreender seu personagem) como sofreu uma transformação física que incluiu ganho de peso, uso de lentes de contato e prótese dentária e uma maquiagem especial para modificar seu nariz. Além disso, entregou uma performance energética que já deixava bem claro aos mais atentos que estava em vias de se transformar em um dos grandes atores americanos de sua geração.

Na verdade, Penn é apenas um dos dois protagonistas de "A traição de falcão", história real levada às telas pelo cineasta John Schlesinger depois de um longo (quatro anos) processo de desenvolvimento, iniciado com o lançamento do livro "The falcon and the snowman: a true story of friendship and espionage", escrito por Robert Lindsey. Primeiro roteiro de Steven Zaillian - oscarizado por "A lista de Schindler" (93) - a ser produzido, o filme de Schlesinger centra sua trama em dois personagens fascinantes e defendidos com igual garra por Penn e Timothy Hutton, que ganhou do Oscar de coadjuvante por "Gente como a gente" (80) com apenas vinte anos. Hutton vive Christopher Boyce, um ex-coroinha que, ao abandonar o seminário, volta para a casa dos pais e arruma emprego em uma empresa responsável por comunicações secretas para várias instituições do país, incluindo a CIA. Inteligente e idealista, Boyce não demora a perceber em tais comunicações a interferência dos EUA na política de vários outros países, como Austrália e Chile (que acaba por sofrer um golpe de estado). Desiludido com o que descobre, ele procura o amigo de infância Andrew Lee (Sean Penn), que, apesar de jovem, já tem uma vasta ficha criminal, por porte e tráfico de drogas. Juntos, eles formam um time que vende informações confidenciais para a União Soviética (o ano é 1974) - enquanto Boyce tem objetivos idealistas, Lee deseja apenas se beneficiar do dinheiro que pode conseguir. Mas as coisas, obviamente, se complicam e lhes coloca diretamente no caminho das leis americanas de espionagem.


Imprimindo em seu filme um ritmo de thriller político, valorizado pela entrega de seus dois atores centrais, Schlesinger constrói aos poucos um senso de paranoia, que vai se acentuando conforme o cerco se fecha ao redor de seus protagonistas. Ao público, mesmo ciente de que está diante de dois anti-herois, cabe grudar os olhos em uma narrativa elegante e sóbria, com ecos do cinema policial dos anos 70 - em especial aqueles dirigidos por Sidney Lumet e estrelados por Al Pacino: com economia de recursos estilísticos, o cineasta se ampara em uma edição inteligente para estabelecer os contrastes nas vidas e trajetórias de cada um de seus personagens centrais, que na vida real acabaram por realizar uma interessante mudança de rumos após o desfecho da trama mostrada no filme: Boyce participou de um assalto e Lee, o mais propenso à vida criminal, nunca mais se envolveu com a lei e chegou a trabalhar como assistente de Sean Penn. O roteiro de Zaillian até demora um pouco a engrenar, ao detalhar a rotina de Boyce e os problemas de Lee, mas apresenta um ato final poderoso e tão instigante que é difícil não se deixar envolver - em boa parte, mais uma vez é bom dizer, graças às interpretações impecáveis de Timothy Hutton e Sean Penn.

Ilustrado com a bela "This is not America", na voz de David Bowie, "A traição do falcão" é uma produção típica de sua época, em que a Guerra Fria estava no auge e a União Soviética parecia a maior das ameaças ao american way of life. Como uma espécie de crônica de uma juventude desiludida e perdida, o filme de Schlesinger é preciso em sua forma de mostrar como o governo Nixon e seu escândalo Watergate fez desmoronar, para muitos americanos, a ideia de um país democrático e justo. O tom político da trama - na verdade apenas um pano de fundo para uma história empolgante de espionagem - é um tempero a mais em uma produção que traduz, como poucas outras, o fim do sonho americano e sua metamorfose no cinismo e no individualismo que se tornariam marcas registradas dos anos 80 e do mandato de Ronald Reagan. Um filme não apenas competente como cinema, mas também como documento de um período crucial na história política dos EUA.

TERRAS PERDIDAS

TERRAS PERDIDAS (A thousand acres, 1997, Touchstone Pictures, 104min) Direção: Jocelyn Moorhouse. Roteiro: Laura Jones, romance de Jane Smiley. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Maryann Brandon. Música: Richard Hartley. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Dan Davis/Andrea Fenton. Produção executiva: Armyan Bernstein, Thomas A. Bliss. Produção: Marc Abraham, Lynn Arost, Steve Golin, Kate Guinzburg, Sigurjon Sighvatsson. Elenco: Jessica Lange, Michelle Pfeiffer, Jennifer Jason Leigh, Jason Robards, Colin Firth, Keith Carradine, Kevin Anderson, Pat Hingle, John Carroll Lynch, Michelle Williams, Elizabeth Moss, Beth Grant, Bob Gunton. Estreia: 19/9/97

Um rei idoso e poderoso, sentido a morte se aproximar, resolve dividir seu reino entre as três filhas, deflagrando assim um confronto épico de decepções e traições. Escrita por William Shakespeare por volta de 1605, a peça "Rei Lear" serviu de inspiração, desde então, para inúmeros autores dispostos a examinar as raízes da ambição e dos conflitos familiares advindos dela. Um dos livros inspirados na tragédia shakespeareana foi "A thousand acres", escrito por Jane Smiley e vencedor do prestigiado Pulitzer de literatura. Com os direitos vendidos para Hollywood, era apenas questão de tempo para que sua trama chegasse às telas e conquistasse o público - afinal, não tinha como dar errado. Mas deu. Com uma produção problemática que se estendeu por cinco anos, constantes reedições, a rejeição do produto final por sua diretora e um fracasso de crítica e bilheteria, "Terras perdidas" tornou-se mais um na vasta lista de filmes que poderiam ter sido um grande sucesso mas que não passaram de promessa. Uma pena, já que seus ingredientes são excepcionais.

A diretora de "Terras perdidas" é a australiana Jocelyn Moorhouse, cujo filme anterior, "Colcha de retalhos" (95), também tinha uma apurada visão feminina da vida. Suas estrelas, Michelle Pfeiffer e Jessica Lange, são ótimas atrizes, populares e velhas conhecidas da Academia. O elenco coadjuvante conta com Jason Robards, Jennifer Jason Leigh e um então iniciante Colin Firth - sem contar as adolescentes Michelle Williams e Elizabeth Moss, que mal aparecem em cena, como as filhas de Pfeiffer. A trama - como já dito, inspirada em Shakespeare - inclui na receita traumas do passado, doenças incuráveis e um leve viés feminista, mas o roteiro, escrito por Laura Jones, mal consegue alinhavar todos os conflitos propostos pela história original: não fosse a força das atuações de Lange e Pfeiffer - tirando leite de pedra -, o filme de Moorhouse seria um desastre completo (e isso que a própria cineasta pediu para seu nome ser retirado dos créditos depois de assistir à sua primeira versão).


Transferindo a ação de Lear para o interior do Iowa, com suas belas fazendas e cenários de tirar o fôlego, "Terras perdidas" começa justamente quando o fazendeiro Larry Cook (Jason Robards em papel recusado por Paul Newman), viúvo há muitos anos, resolve, como o protagonista shakespereano, dividir as terras de sua fazenda entre suas três filhas. A mais velha, Ginny (Jessica Lange), é quem cuida da rotina do pai, e divide seu tempo entre ele e o marido, Ty (Keith Carradine). A filha do meio, Rose (Michelle Pfeiffer), se recupera de um câncer no seio e leva uma vida doméstica aparentemente tranquila com Peter (Kevin Anderson) e as duas filhas adolescentes. A caçula, Caroline (Jennifer Jason Leigh) é a única que não compartilha do dia-a-dia agrícola da família: estudando para ser advogada e morando longe, é ela quem questiona a decisão do pai - e é ela também que desencadeia o processo de conflito familiar, ao recusar a proposta paterna. A briga entre os dois passa a ser o pano de fundo para uma sucessão de dramas que afloram no seio dos Cook, o que inclui a chegada de um antigo conhecido, Jess Taylor (Colin Firth), que desequilibra a união entre Ginny e Rose.

Michelle Pfeiffer - que lutou para levar o livro de Smiley às telas - está fascinante como Rose, uma mulher amargurada por traumas do passado e que tenta, através da compensação financeira, recompor uma vida de sofrimento. Jessica Lange tem mais trabalho como Ginny, que se transforma de uma mulher frustrada pela falta de filhos no para-raios de uma família altamente disfuncional - e que encontra forças para viver a própria vida justamente quando já se encontrava acomodada em um casamento morno. São as duas que movimentam a trama do filme - a ótima Jennifer Jason Leigh é subaproveitada como Caroline, e Jason Robards, apesar de sempre excelente como déspota, sofre com um personagem maniqueísta, sem nuances ou qualidades redentoras. O resultado é uma obra morna, que desperdiça uma história forte e bons atores em uma trama de telenovela, rasa e desprovida de maior emoção. Para os fãs das atrizes é um show à parte, mas como cinema é, infelizmente, bem medíocre.

sábado

TEMPO DE GLÓRIA

TEMPO DE GLÓRIA (Glory, 1989, TriStar Pictures, 122min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Kevin Jarre, livros de Lincoln Kirstein e Peter Burchard, cartas de Robert Gould Shaw. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Horner. Figurino: Francine Jamison-Tanchuck. Direção de arte/cenários: Norman Garwood/Garrett Lewis. Produção: Freddie Fields. Elenco: Matthew Broderick, Denzel Washington, Cary Elwes, Morgan Freeman, Andre Braugher, Bob Gunton, Jay O. Sanders. Estreia: 15/12/89

5 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Denzel Washington), Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (Denzel Washington), Fotografia, Som 
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Denzel Washington) 

Segundo palavras dele mesmo, Edward Zwick estava apreensivo quando começou as filmagens de "Tempo de glória": o cineasta não sabia como o elenco de seu filme se sentia a respeito de ter um diretor branco, judeu e jovem (36 anos à época) contando a história do primeiro regimento de soldados negros da Guerra de Secessão americana, que contrapôs o Norte abolicionista contra o Sul escravagista. Sabendo que o evento tinha uma importância crucial no sentimento de autoestima dos afro-americanos (ainda que fosse pouco conhecido do público em geral), Zwick temia não ser capaz de honrá-lo. Por fim, todos os seus temores se mostraram infundados: não apenas os atores receberam com simpatia e profissionalismo seu trabalho, como a Academia de Hollywood também se rendeu ao resultado final: indicado a 5 Oscar, "Tempo de glória" recebeu 3 estatuetas (ator coadjuvante, fotografia e som) e se tornou o segundo filme mais premiado da temporada 1989, perdendo em números apenas para o grande vencedor, "Conduzindo Miss Daisy" (que saiu da cerimônia com um troféu a mais). Nem mesmo o grande favorito do ano, "Nascido de 4 de julho", de Oliver Stone, foi tão bem-sucedido.

Não é difícil entender os motivos que levaram o filme de Zwick a agradar tanto aos conservadores membros da Academia. Mais até que o tom épico - acentuado pela bela trilha sonora de James Horner, inexplicavelmente deixada de fora das indicações - e a produção caprichada, é a forma sincera e carinhosa do olhar do cineasta que fazem de "Tempo de glória" um filme de guerra que foge da estrutura óbvia de treinamento/batalha climática/final apoteótico. Justamente pelo background que o fazia temer por sua capacidade em comandar o filme, Zwick acabou por ser a escolha mais apropriada: com distanciamento emocional para equilibrar cenas grandiosas e momentos intimistas, ele criou uma pequena obra-prima, uma homenagem justa e sóbria não apenas a um homem - o Coronel Robert Gould Shaw, líder do pelotão -, mas também a um grupo de soldados que, contrariando um destino de subserviência, honrou o exército de seu país apesar do preconceito profundamente enraizado que os considerava indignos da luta.


Fisicamente semelhante ao verdadeiro Shaw, o ator Matthew Broderick encara pela primeira vez um protagonista adulto, com responsabilidades e angústias que vão além dos personagens que o fizeram conhecido do grande público. Nem sempre convence, especialmente em cenas dramaticamente mais potentes, mas não compromete o filme com um todo e tem carisma o bastante para disfarçar suas limitações. Seu personagem é um jovem de 25 anos, filho de uma influente família de Boston, a quem é dado, mesmo sem experiência sólida, o comando do primeiro batalhão formado exclusivamente formado por negros na Guerra de Secessão. O ano é 1863, e acompanhado do velho amigo Cabot Forbes (Cary Elwes), Shaw aceita o desafio, mesmo sabendo que seu sucesso na empreitada dependerá quase exclusivamente da relação que criará com seus subordinados. Vendo seu batalhão desacreditado e frequentemente tratado com desprezo por seus superiores - que enxergam neles apenas o talento para a mão-de-obra e não para batalhas reais -, o jovem coronel passa a comprar brigas com quem for preciso para exigir tratamento justo e provisões básicas (como sapatos, uniformes e pagamento igualitário). A princípio bastante imponente como forma de impor respeito, aos poucos ele vai se deixando conquistar pelos soldados - em especial o veterano John Rawlins (Morgan Freeman), a quem confia um cargo de confiança, e o rebelde Trip (Denzel Washington).

Se Broderick não vai muito além do básico, com uma interpretação contida e pouco inspirada (talvez culpa de um personagem que não se permite demonstrar muita emoção), o elenco coadjuvante de "Tempo de glória" é um de seus maiores trunfos. Denzel Washington levou seu primeiro Oscar para casa (como coadjuvante, batendo nomes como Marlon Brando e Martin Landau) por seu desempenho exemplar como o petulante Trip, dono de algumas das cenas mais memoráveis do filme. Morgan Freeman empresta seu semblante sereno ao equilibrado John Rawlins, ponto de acesso entre Shaw e seus subordinados, e tem pelo menos um grande momento (junto a Washington). E Andre Braugher, como Thomas Searles, amigo de infância do coronel, e Jihmi Kennedy, como o gago e inseguro Jupiter Sharts, completam o elenco de apoio impecável selecionado por Zwick. Um filme que fala ao mesmo tempo aos fãs do gênero e àqueles que procuram histórias humanistas, "Tempo de glória" precisa ser redescoberto como um dos melhores filmes do final da década de 80 - e um dos mais importantes quando se trata de combate ao preconceito.

sexta-feira

SNOWDEN: HERÓI OU TRAIDOR

SNOWDEN: HERÓI OU TRAIDOR (Snowden, 2016, Endgame Entertainment/Vendian Entertainment/KrautPack Entertainment, 134min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Kieran Fitzgerald, livro de Anatoly Kucherena e Luke Harding. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Alex Marquez, Lee Percy. Música: Craig Armstrong. Figurino: Bina Daigegler. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Véronique Melery. Produção executiva: Max Averlaiz, Michael Bassick, Olivier Cottet-Puinel, Douglas Hansen, José Ibañez, Peter Lawson, Romain Le Grand, Bahman Naraghi, Tom Ortenberg, Jérôme Seydoux, James Stern, Christopher Woodrow. Produção: Moritz Borman, Eric Kopeloff, Philip Schulz-Deyle, Fernando Sulichin. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Melissa Leo, Zachary Quinto, Shailene Woodley, Nicolas Cage, Rhys Ifans, Tom Wilkinson, Joely Richardson, Logan Marshall-Green, Timothy Olyphant, Ben Chaplin, Scott Eastwood. Estreia: 21/7/16

Se existe um cineasta certo para contar a história de Edward Snowden nas telas de cinema, esse cineasta é Oliver Stone. Politicamente ativo e pouco dado a sutilezas, Stone ganhou dois Oscar de direção por cutucar o governo americano a respeito da guerra do Vietnã (por "Platoon", de 1986, e "Nascido em 4 de julho", de 1989) e nunca mediu palavras - ou imagens - para deixar bem claras suas posições liberais e democratas. Há muito tempo sem um grande sucesso de bilheteria - seu último trabalho a fazer barulho comercialmente foi "JFK", em 1991 - e massacrado impiedosamente pela crítica por seus trabalhos mais recentes, como "As Torres Gêmeas" (2006) e "Selvagens" (2012), Stone encontrou na trajetória arriscada e corajosa do jovem informante a matéria-prima para uma produção não apenas contundente e atual, mas extremamente necessária. Como era de se esperar, o filme fracassou comercialmente - nos EUA rendeu pouco mais da metade de seu orçamento, estimado em 40 milhões de dólares - e dividiu a crítica, mas é inegável que é o melhor Stone desde "Assassinos por natureza" (94), o que é ainda mais admirável quando se percebe que é também um dos filmes de narrativa mais acessível da carreira do diretor.

Dispensando os cacoetes visuais e artifícios narrativos que vem marcando sua carreira desde a década de 90, Oliver Stone faz de "Snowden: herói ou traidor" uma obra linear e quase convencional, que aposta muito mais no roteiro quase didático do que no visual exuberante - é a primeira vez que o cineasta se utiliza de câmeras digitais sem que seja em um documentário. Apesar da edição continuar sendo um dos destaques (aqui a cargo de Alex Marquez e Lee Percy), Stone abre mão de suas manias de despejar diante da audiência imagens em ritmo alucinante e quase esquizofrênico: a história é, sim, contada em duas linhas de tempo distintas, mas sem que uma atropele a outra e sem que o público perca o fio da meada diante do excesso de informações. O roteiro, baseado no livro "Time of the Octopus" do advogado russo Anatoly Kucherena - tratado como ficção mas amplamente baseado em entrevistas com Snowden -, é a força motriz do filme, a base sobre a qual o diretor constrói uma severa crítica ao modo como os governos Bush e Obama lidaram com espionagem em grande escala e nas graves consequências de tais atos. Com imagens reais de governos atingidos pelo escândalo - incluindo o Brasil - e sem medo de apontar dedos, "Snowden" é surpreendentemente sóbrio e honesto. Stone parece dizer, com sua direção discreta, que a história (forte, assustadora, chocante) é maior do que qualquer tentativa de manipulação artística.


O filme começa em junho de 2013, quando o jovem Edward Snowden (Joseph Gordon-Levitt) se encontra com o jornalista Glenn Greenwald (Zachary Quinto) e a documentarista Laura Poitras (Melissa Leo) em um hotel de Hong Kong - Greenwald mais tarde seria um dos mais ferrenhos opositores ao golpe parlamentar que destitui a presidente Dilma Roussef, e Proitas ganharia o Oscar de documentário por "Cidadãoquatro" (2014), justamente sobre o escândalo denunciado por Snowden. O encontro entre os três tem uma razão muito simples, ainda que potencialmente explosiva: o rapaz, ex-funcionário da CIA e da NSA, tem documentos que comprovam sem espaço para quaisquer dúvidas, de que o governo norte-americano, em nome da defesa nacional, tem acesso irrestrito a informações pessoais e confidenciais de todo o planeta - e que as utiliza sem nenhum critério ético ou moral. A partir daí, o roteiro intercala as reuniões do grupo (que contam ainda com o repórter do jornal "The Guardian", Ewen MacAskill (Tom Wilkinson)) com a trajetória do rapaz dentro das agências de segurança do país. Com inteligência acima da média e digno da confiança de seus colegas e superiores, Snowden aos poucos vai tomando conhecimento do absurdo que é a rede de espionagem que ele mesmo criou (com objetivos outros, menos invasivos). Ao lado da namorada, Lindsay (Shailene Woodley), ele entra em uma severa crise de consciência até que resolve expor toda a verdade ao mundo.

Um thriller político da mais alta qualidade - que consegue equilibrar com maestria tanto o suspense quanto a crítica ao governo -, "Snowden" comprova que Oliver Stone é, apesar de alguns exageros de sua carreira, um dos cineastas mais instigantes de Hollywood. Destemido e feroz em suas declarações cinematográficas, é também um contador de histórias nato, convincente e quase diabólico em suas tentativas de vender seu peixe. Além do mais, é um excelente diretor de atores: se todo o elenco de "Snowden" é homogeneamente competente (incluindo uma pequena participação de Nicolas Cage), a composição de Joseph Gordon-Levitt é impressionante. Mesmo sem ter semelhanças físicas com o protagonista, quando está em cena o jovem ator simplesmente se transforma no personagem: a voz, o gestual e a forma de falar engolem Levitt e fazem surgir um Edward Snowden irretocável, capaz de confundir aos desavisados - tal similaridade física fica evidente na última cena, em que o verdadeiro Snowden faz uma aparição rápida e marcante. Injustamente esquecido pelo Oscar - que desde "Nixon", de 1995, nunca mais indicou filmes de Stone em nenhuma categoria - e por outras cerimônias de premiação (apenas o Satellite Awards lhe deu uma indicação), Gordon-Levitt comprova ser um dos mais talentosos e versáteis atores de sua geração, capaz de encarar desafios sem medo e sem se repetir. Se "Snowden: herói ou traidor" é tão bom, pode-se dizer que é devido à união perfeita entre diretor, tema, roteiro e ator principal. Um dos grandes filmes de 2016.

quinta-feira

SÍNDROME DA CHINA

SÍNDROME DA CHINA (The China Syndrome, 1979, Columbia Pictures, 122min) Direção: James Bridges. Roteiro: Mike Gray, T.S. Cook, James Bridges. Fotografia: James Crabe. Montagem: David Rawlins. Figurino: Donfeld. Direção de arte/cenários: George Jenkins/Arthur Jeph Parker. Produção executiva: Bruce Gilbert. Produção: Michael Douglas. Elenco: Jane Fonda, Jack Lemmon, Michael Douglas, Scott Brady, James Hampton, Peter Donat. Estreia: 16/3/79

4 indicações ao Oscar: Ator (Jack Lemmon), Atriz (Jane Fonda), Roteiro Original, Direção de Arte/Cenários
Palma de Ouro de Melhor Ator (Jack Lemmon) no Festival de Cannes 

Se é verdade que a vida imita a arte uma prova disso ficou bem evidente em 28 de março de 1979, quando um acidente nuclear em Dauphin County, Pensilvânia deixou em maus lençóis os executivos das usinas nucleares americanos, que, apenas doze dias antes, haviam rechaçado violentamente a estreia do filme "Síndrome da China", taxando-o de alarmista e mentiroso. A questão era que a produção estrelada por Jane Fonda, Jack Lemmon e Michael Douglas tratava, de forma clara e incisiva, sobre um grupo de cientistas nucleares tentando desesperadamente esconder da mídia a verdade sobre um perigoso vazamento em um de seus reatores. O oportunismo do lançamento (ou sua clarividência) não passou em branco, é claro, e detratores chegaram a sugerir que a Columbia Pictures (produtora do filme), havia forjado a notícia do acidente como forma de divulgá-lo. Perda de tempo: apesar do acidente na Pensilvânia ter acontecido no calor de seu lançamento, a origem da trama de "Síndrome da China" remetia a 1975, quando outro incidente, dessa vez no Alabama, chamou a atenção do roteirista Mike Gray - também engenheiro e produtor do polêmico documentário "The murder of Fred Hampton" (71), sobre a morte do famoso membro dos Panteras Negras. Com um roteiro pronto e repleto de dados técnicos que fortaleciam o tom documental da narrativa, Gray viu sua obra chegar até as mãos da atriz Jane Fonda, que, junto com seu parceiro Bruce Gilbert, procurava um filme que refletisse uma das preocupações de sua recém-fundada produtora, a IPC Films: frustrada em conseguir os direitos sobre a vida de Karen Silkwood, que morreu misteriosamente depois de descobrir falhas em uma usina (e que ganhou o rosto de Meryl Streep em 1983, em um filme de Mike Nichols), Fonda encontrou em "Síndrome da China" o que precisava. Com a ajuda de Michael Douglas (premiado com o Oscar por "Um estranho no ninho", de 1975) na produção e alguns ajustes pontuais no roteiro, o filme estava pronto para sair do papel e ganhar as telas.

Mas então começaram os problemas: a Columbia não acreditava que Mike Gray tinha potencial o bastante para comandar uma produção tão ambiciosa e o substituiu por James Bridges (já testado e aprovado por "O homem que eu escolhi", que deu o Oscar de coadjuvante a John Houseman em 1973); Richard Dreyfuss, escalado para viver o cinegrafista Richard Adams, desistiu do projeto antes do começo das filmagens; e Jack Nicholson, a quem tinha sido oferecido o papel do cientista Jack Godell, já estava comprometido com a produção de "O iluminado" (80). Como há males que vem pra bem, porém, tudo foi resolvido a tempo (e de forma mais que perfeita): Michael Douglas acumulou os papéis de produtor e ator, ficando com a vaga deixada por Dreyfuss, e Jack Lemmon - apaixonado pelo roteiro desde que o leu pela primeira vez, em 1976 - não hesitou em viver um personagem que lhe rendeu mais uma indicação ao Oscar e sua primeira Palma de Ouro de Melhor Ator no Festival de Cannes. Sucesso de público e crítica, "Síndrome da China" ainda arrebatou o prêmio do Sindicato de Roteiristas e foi eleito pelo National Board of Review como um dos melhores filmes da temporada 1979 - dominada por "Kramer vs Kramer", de Robert Benton.


A protagonista do filme é Kimberly Wells (em mais uma atuação exemplar de Jane Fonda, cuja entrada no projeto alterou tanto o sexo do personagem como inseriu na trama uma relevante discussão feminista), uma repórter talentosa mas sempre relegada a matérias de importância quase nulas, Wells deseja ser levada a sério como profissional. Sua grande chance de provar seu valor lhe cai do céu quase por acaso: durante uma reportagem banal em uma usina nuclear - onde estava apenas para mostrar aos telespectadores como funciona o dia-a-dia do local -, um acidente em um dos reatores (cujo nível de água atinge níveis alarmantes) é filmado às escondidas pelo cinegrafista Richard Adams (Michael Douglas). Excitados (depois que o incidente fica sob controle), os dois colegas percebem que tem em mãos uma explosiva reportagem-denúncia, mas são impedidos pela direção da emissora em divulgar o conteúdo das imagens, obtidos de forma ilegal. Sua indignação acaba indo ao encontro de Jack Godell (Jack Lemmon), o supervisor da usina, que, depois de investigar por conta própria, descobre que a segurança do local é falha e resolve dar uma declaração oficial a respeito dos perigos que a população corre por causa do descaso dos construtores.

Narrado em tom de urgência e sobriedade - sem uma trilha sonora original e uma edição seca e direta -, "Síndrome da China" é uma aula de concisão. Mesmo que chegue a duas horas de duração, não há cenas dispersivas ou tramas paralelas que trunquem a narrativa - até mesmo a vida pessoal de Kimberly é citada apenas de passagem, em uma cena rápida, e não há espaço para romance entre ela e Richard (apesar de algumas pistas discretas). Até mesmo a aura didática de certos momentos - imprescindível quando se trata de um assunto então sem muita divulgação pela mídia - é inteligente e ágil, impedindo que a plateia se aborreça com longas explicações ou detalhes desnecessários. E o trabalho do elenco é crucial para que o conjunto soe ainda mais homogêneo. Jack Lemmon e Jane Fonda foram indicados ao Oscar, e Michael Douglas segura bem seu personagem coadjuvante, sem  vaidade de querer aparecer mais do que a história ou a denúncia. Um filme típico dos anos 70 - com intenções sociais e políticas bem definidas e um ritmo particular, "Síndrome da China" é essencial para o público fã de thrillers bem realizados e sérios - e um dos motivos pelos quais Jane Fonda pode ser considerada uma das estrelas mais politizadas da história de Hollywood.

quarta-feira

SEXO, ROCK E CONFUSÃO

SEXO, ROCK E CONFUSÃO (Empire Records, 1995, Warner Bros, 90min) Direção: Allan Moyle. Roteiro: Carol Heikkinen. Fotografia: Walt Lloyd. Montagem: Michael Chandler. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Peter Jamison/Linda Spheeris. Produção: Tony Ludwig, Arnon Milchan, Michael Nathanson, Alan Riche. Elenco: Anthony LaPaglia, Maxwell Caulfield, Debi Mazar, Rory Cochrane, Johnny Whitworth, Robin Tunney, Liv Tyler, Renée Zellweger, Ethan Embry, Brendan Sexton III. Estreia: 22/9/95

Nem só de escritores consagrados e adaptações literárias vive o cinema americano. Vez ou outra, uma voz nova e solitária surge com alguma ideia interessante o suficiente para despertar a cobiça de algum estúdio, sedento por alguns milhares de dólares a mais no cofre (ou um produto com potencial a cult). Foi assim, por exemplo, com Carol Heikkinen, ex-funcionária da Tower Records de Phoenix, Arizona, e autora do roteiro da comédia "Sexo, rock e confusão", lançada pela Warner em 1995 com um elenco jovem que incluía as então iniciantes Renée Zellweger e Liv Tyler. Tudo bem que Heikkinen já havia assinado o script de "Um sonho, dois amores" (93), dirigido por Peter Boganovich e estrelado por River Phoenix (um fracasso de bilheteria e crítica), mas foi sua coletânea de memórias afetivas de seu tempo em uma das lojas de discos mais famosas dos EUA que a colocou no radar de Hollywood: com uma mistura quase anárquica de música, humor adolescente e despretensão, sua trama (simples e superficial) chegou às telas sob a direção de Allan Moyle - que já tinha no currículo outra comédia musical jovem, "Um som diferente" (90), com Christian Slater - e, se não arrebentou nas bilheterias, ao menos consegue divertir seu público-alvo mesmo passando longe de apresentar alguma novidade.

A estrutura central de "Sexo, rock e confusão" lembra a do clássico juvenil "Clube dos cinco" (85), de John Hughes, mas sem a profundidade emocional deste. Sua ambientação pode lembrar aos cinéfilos o genial "Alta fidelidade" (99), de Stephen Frears - mesmo que ele tenha sido lançado anos depois. Mas o filme de Moyle não parece querer ser mais do que um passatempo leve e simpático, embalado por uma trilha sonora pop-rock e enfeitado por um elenco fotogênico. Todo o roteiro gira em torno da Empire Records do título original, uma loja independente de discos que está a um passo de ser absorvida por uma cadeia de empreendimentos semelhantes. Seu gerente, Joe (Anthony LaPaglia) ainda não quer revelar aos funcionários tal situação, mas este parece ser o menor dos problemas da equipe, toda ela envolvida em algum problema pessoal. Lucas (Rory Cochrane), o único que sabe da verdade, tentou reverter o quadro roubando a féria do dia anterior e perdendo no jogo em Atlantic City; A. J. (Johnny Withworth) planeja declarar seu amor à colega Corey (Liv Tyler) - que está mais interessada em perder a virgindade com o astro popular Rex Manning (Maxwell Caulfield), que irá autografar seu novo disco nas dependências da loja; Debra (Robin Tunney) acaba de tentar o suicídio depois do fim do namoro com outro vendedor, Berko (Coyote Shivers); Mark (Ethan Embry) sonha em ser roqueiro; e Gina (Renée Zellweger) administra seu jeito liberal de ser enquanto aconselha Corey a manter seu objetivo de entregar-se à Manning. Nesse meio-tempo, até mesmo um ladrãozinho de meia-tigela, Warren (Brendan Sexton) entra na jogada, tornando-se uma espécie de refém dos jovens funcionários que esperam a chegada de Rex Manning e sua assessora Jane (Debi Mazar).


Uma série de anedotas ligadas tenuamente por um roteiro ligeiro e inconsequente, "Sexo, rock e confusão" se beneficia principalmente por seu elenco, formado por jovens atores então em ascensão. Robin Tunney logo estaria no elenco de "Jovens bruxas" (96) e futuramente participaria da série "O mentalista". Liv Tyler - então recém reconhecida como filha do roqueiro Steven Tyler e musa do clipe "Crazy" ao lado de Alicia Silverstone - se tornaria símbolo sexual instantâneo graças aos filmes "Beleza roubada" (96) e "Armageddon" (98). E Renée Zellweger iria ainda mais longe, conquistando a crítica e o público com filmes como "Jerry Maguire: a grande virada" (96) e "O diário de Bridget Jones" (01), além de ganhar um Oscar de coadjuvante por "Cold Mountain" (03) depois de duas infrutíferas indicações. Jovens, belas e talentosas, elas disfarçam a falta de novidades do roteiro e até a falta de consistência do filme como um todo - não há, a rigor, nenhum personagem que realmente crie empatia com o espectador médio, que assiste a tudo facilmente, é verdade, mas sempre à espera de alguma cena, algum momento que acabe com a nítida impressão de que ele é, na verdade, um produto feito especificamente para a geração MTV.

E nesse ponto, justiça seja feita, o filme não deixa de ser uma delícia. Não tão inteligente quanto outros realizados pela mesma época, como "As patricinhas de Beverly Hills" ou "Pânico" - que não apenas retratavam uma geração, mas o faziam com um grau de ironia carinhosamente único - mas agradável e bem-humorado. Sem pesar a mão nem mesmo quando trata de assuntos um tanto polêmicos como suicídio e virgindade, "Sexo, rock e confusão" é pontuado por uma trilha sonora que inclui The Cranberries, AC/DC, Dire Straits e Better Than Ezra, além de outros nomes do rock anos 90, o que imprime imediatamente um ar nostálgico e irreverente a uma trama facilmente esquecível, mas que não faz mal a ninguém. Uma sessão da tarde para aqueles que cultuam a década de 90 - e suas musas.

TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME

TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME (Three billboards outside Ebbing, Missouri, 2017, Fox Searchligth Pictures/Film4, 155min) Direção e roteiro: M...