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sexta-feira

UMA NOITE FORA DE SÉRIE

 


UMA NOITE FORA DE SÉRIE (Date night, 2010, 20th Century Fox, 88min) Direção: Shawn Levy. Roteiro: Josh Klausner.  Fotografia: Dean Semler. Montagem: Dean Zimmerman. Música: Christophe Beck. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: David Gropman/Jay Hart. Produção executiva: Joe Caraciollo Jr., Josh McLaglen. Produção: Shawn Levy. Elenco: Steve Carell, Tina Fey, Mark Wahlberg, Taraji P. Henson, Mark Ruffalo, Kristen Wiig, Common, James Franco, Mila Kunis, Jimmi Simpson. Estreia: 06/4/2010

A grosso modo, comédias produzidas por Hollywood se dividem entre bobagens calcadas em piadas grosseiras e ofensivas - como os filmes dos irmãos Farrelly - ou um humor sofisticado e frequentemente esnobados por plateias pouco afeita a raciocinar antes de rir - caso do cinema de Woody Allen, por exemplo. Raramente o público adulto tem a possibilidade de divertir-se sem ser tratado como mentalmente incapaz ou alguém necessitado de um vasto repertório cultural. Por isso, filmes como "Uma noite fora de série" surgem e, sem fazer muito alarde, conquistam o espectador. Com uma bilheteria internacional de mais de 150 milhões de dólares - que cobriu com folga seu orçamento -, o filme dirigido pelo experiente Shawn Levy (que já tinha no currículo o bem-sucedido "Uma noite no museu", de 2006, e sua continuação, de 2009) demonstrou-se o veículo perfeito para o encontro de dois dos mais populares nomes da comédia norte-americana da primeira década dos anos 2000, Steve Carell e Tina Fey. Carismáticos, donos de um timing perfeito para o humor e com uma química invejável, eles compensam as eventuais falhas de ritmo e enfatizam cada bom momento do roteiro - bobo, mas adequado a suas principais qualidades.

Carell - cuja trajetória no cinema já apresentava êxitos comerciais como "O virgem de 40 anos" (2005) e sucessos de crítica, como o oscarizado "Pequena Miss Sunshine" (2006) - é excepcional em papéis que exploram sua fisionomia apatetada e seu talento para o humor físico. Fey - roteirista celebrada de programas como "Saturday Night Live" e filmes como "Meninas malvadas" (2004), mas até então subaproveitada no cinema - é dona de uma rara perspicácia cômica, sempre pronta para uma tirada inteligente e sarcástica. Juntos, os dois deitam e rolam em uma história que explora cada um de seus talentos. Eles vivem Phil e Claire Foster, um típico casal de classe média americana cujas maiores preocupações são o trabalho, o lar e os filhos. Com profissões não exatamente glamorosas - ele vende seguros e ela é corretora de imóveis - e uma rotina entediante, eles tem medo de ver seu casamento sucumbir à rotina, e resolvem, em uma noite que prometia apenas um respiro em seu dia-a-dia, buscar algo excitante e divertido. Com um ousadia inesperada, eles mentem os nomes para ficarem com uma reserva em um restaurante da moda em Nova York e acabam sendo confundidos com um casal que está na mira de um misterioso criminoso chamado Joe Miletto. Os capangas de Miletto, acreditando que eles estão de posse de um pen drive com informações perigosas, saem em seu encalço, e resta aos dois uma desenfreada corrida pela noite - que envolve gente influente, o verdadeiro casal de quem roubaram o nome e até um antigo (e tentador) cliente de Claire.

 

Sem apresentar maiores novidades em seu roteiro - na verdade um palco para os talentos de seus protagonistas -, "Uma noite fora de série" acerta em cheio ao assumir os clichês do gênero e brincar com eles sem o menor pudor. Com diálogos espertos e situações absurdas que vão se acumulando de forma rocambolesca, a trama serve quase como apenas um pretexto para Carell e Fey desfilarem sua desenvoltura e talento em fazer rir em qualquer circunstância. Seja fugindo do cruel vilão (interpretado com gosto por Ray Liotta) ou encurralando o casal responsável por seus infortúnios (vividos por James Franco e Mila Kunis em participações especiais), a dupla é responsável por 90% da diversão - e tiram de letra o desafio de segurar noventa minutos de uma produção que equilibra com destreza humor físico e piadas verbais que lhes servem como uma luva. Mesmo que o elenco apresente coadjuvantes de luxo do porte de Mark Ruffalo, Taraji P. Henson e Mark Whalberg, são eles que dão o tom do espetáculo - e o fazem com maestria, comprovando seus cacifes como astros - alguns anos depois, Carell investiria também em sua carreira como ator dramático e seria indicado ao Oscar por "Foxcatcher: a história que chocou o mundo" (2014), enquanto Tina Fey se tornaria roteirista de séries e especiais de TV que lhe dariam espaço para a ironia e o sarcasmo que lhe são característicos.

Uma prova de que o humor não precisa abdicar de inteligência para atingir o grande público, "Uma noite fora de série" é um meio-termo entre o que se espera de uma comédia tipicamente hollywoodiana e um programa de televisão iconoclasta e debochado. Agrada justamente por não tentar revolucionar o gênero e respeitar as regras do jogo, ao mesmo tempo em que não se deixa nivelar por um humor apelativo e adolescente. Pode não ter mudado a história do cinema - e talvez até seja um tanto esquecível -, mas é um passatempo honesto, bem-humorado e inofensivo.

quinta-feira

DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE

DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE (The Basketball Diaries, 1995, New Line Cinema, 102min) Direção: Scott Kalvert. Roteiro: Bryan Goluboff, livro de Jim Carroll. Fotografia: David Phillips. Montagem: Dana Congdon. Música: Graeme Revell. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Christopher Nowack/Harriet Zucker. Produção executiva: Chris Blackwell, Dan Genetti. Produção: Liz Heller, John Bard Manulis. Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Wahlberg, Lorraine Bracco, Bruno Kirby, James Madio, Patrick McGaw, Juliette Lewis. Estreia: 27/01/95 (Festival de Sundance)
 
Quando "Diário de um adolescente" estreou, no Festival de Sundance de 1995, Leonardo DiCaprio já tinha no currículo uma indicação ao Oscar de coadjuvante - pelo filme "Gilbert Grape: aprendiz de sonhador" (1993) - mas ainda não era o ídolo juvenil no qual se tornou após o sucesso de "Romeu + Julieta" (1996) e "Titanic" (1997). Isso explica porque o filme de Scott Kalvert não arrebentou nas bilheterias e chamou muito mais a atenção da crítica do que do público. Baseada em um cultuado livro de Jim Carroll - adorado pelo ator River Phoenix, por exemplo, que, segundo boatos, era um nome considerado para o papel central -, a produção serviu principalmente para confirmar que DiCaprio já era, ainda bastante jovem, um ator muito acima da média. Mesmo que nem sempre ele consiga escapar do exagero em alguns momentos de sua atuação, na pele do rebelde e desajustado Jim ele se sobressai a ponto de mal dar espaço aos companheiros de cena - dentre os quais estão Juliette Lewis (em uma participação especial como uma prostituta juvenil) e Mark Wahlberg (começando na carreira de ator depois da consagração como o rapper Marky Mark e das campanhas de cuecas Calvin Klein).

Publicado em 1978 e imediatamente alçado a cult, o livro de memórias de Jim Carroll - que faz uma participação especial no filme, em uma cena com DiCaprio - virou também um símbolo da contracultura, com sua descrição corajosa e sem romantismo de uma adolescência regada a drogas, bebida, prostituição e contravenções pesadas. Sua adaptação tem o mérito de tentar manter-se fiel ao estilo iconoclasta de Carroll, mas a inexperiência do cineasta em longas-metragens faz com que sua estrutura quase episódica afaste o público de um envolvimento maior com seu protagonista, um jovem francamente pouco simpático que apenas o carisma de Leonardo DiCaprio consegue deixar menos desagradável. Jim é um rapaz que vive sozinho com a mãe (Lorraine Bracco), em um bairro barra pesada de Nova York. Apesar das dificuldades financeiras, estuda em um bom colégio, faz parte do time de basquete e leva uma vida cujos maiores sobressaltos dizem respeito a suas aventuras com um grupo de amigos que, assim como ele, passam o dia provocando autoridades (pais, professores, treinador) em busca de adrenalina. Essa busca acaba levando Jim aos braços da heroína e à decadência física e moral - tudo devidamente registrado em seus escritos pessoais, que descrevem todas as sensações de sua viagem ao inferno.





Vindo do universo dos videoclipes (vários de Marky Mark, inclusive, além de trabalhos com Cyndi Lauper, New Kids on the Block e Rod Stewart), o diretor Scott Kalvert é, como se poderia esperar, mais afeito às imagens do que às palavras, o que lhe permite criar algumas sequências bastante criativas visualmente - especialmente nos delírios do protagonista, que vão desde chacinas no ambiente escolar até alucinações causadas pela abstinência. DiCaprio se esforça em transmitir todas as nuances de seu complexo personagem, mas nem sempre a direção de Kalvert consegue atingir todas as possibilidades dramáticas do texto de Carroll. Explorando ao máximo a fotografia crua e sem glamour de David Phillips, o cineasta despe Nova York de qualquer beleza ou charme, desviando sua câmera para becos sujos, ruas mal iluminadas e paisagens pouco convidativas. Fugindo ao máximo de qualquer traço de sentimentalismo, ele só se curva à emoção nas cenas de Jim com seu melhor amigo, Bobby (Michael Imperioli), que está morrendo de leucemia no hospital: antes de seu casamento com as drogas pesadas, são os únicos momentos em que o protagonista dá mostras de ser menos do que um adolescente irascível e desagradável - uma característica que dificulta a empatia da plateia e quase prejudica o filme como um todo.

Realizado com coragem e verdade, "Diário de um adolescente" peca, apesar disso, pelo fato de não apresentar nada de novo em relação a seu tema principal. A trajetória de Jim rumo ao fundo do poço pode ter sido lançada antes dos junkies niilistas de "Trainspotting: sem limites" (1996), mas está longe de ser novidade para o público que testemunhou o pesadelo de Christiane F. no filme alemão de 1981 - este sim um petardo chocante e angustiante em sua realidade nua. Com uma direção mais firme - que explorasse o talento de DiCaprio e controlasse seus excessos de iniciante - e uma produção que soasse menos amadora, o filme seria inesquecível. Como está, é um bom cartão de visitas para o jovem ator e uma adaptação fiel de um clássico de seu tempo. Nada mal, mas aquém do que poderia ser.

quarta-feira

TODO O DINHEIRO DO MUNDO

TODO O DINHEIRO DO MUNDO (All the money in the world, 2017, TriStar Productions/Sony Pictures, 132min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: David Scarpa, livro "Painfully rich: the outrageous fortune and misfortunes of the heirs of J. Paul Getty", de John Pearson. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Claire Simpson. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Richard Roberts, Letizia Santucci, Nasser Zoubi. Produção: Chris Clark, Quentin Curtis, Dan Friedkin, Mark Huffam, Ridley Scott, Bradley Thomas, Kevin J. Walsh. Elenco: Michelle Williams, Christopher Plummer, Mark Wahlberg, Romain Duris, Timothy Hutton, Marco Leonardi, Charlie Plummer, Andrew Buchan. Estreia: 18/12/17

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Christopher Plummer)

Nunca é uma boa notícia quando os bastidores de um filme chamam mais a atenção do que a obra em si. Por mais que o resultado final seja consistente ou até mesmo admirável, o que fica na memória do público são os escândalos que atribularam sua realização. Um exemplo claro desta afirmação é "Todo o dinheiro do mundo", um filme extremamente bem realizado, dirigido por um cineasta experiente (Ridley Scott), estrelado por nomes conhecidos (Michelle Williams e Mark Wahlberg), baseado em uma história real e planejado para encabeçar as listas de indicados aos prêmios da temporada. O que parecia correr tranquilamente para os produtores e a Sony acabou se tornando um pesadelo, no entanto, quando, no começo de novembro de 2017, uma notícia caiu como uma bomba no colo de todos: acusado de estupro de menor e assédio sexual, o ator Kevin Spacey - que tinha um papel chave na trama - transformou-se, de uma hora para outra, em um problema quase insolúvel em termos comerciais. A pouco mais de um mês da data programada para a estreia do filme, o que antes soava como uma grande promessa de sucesso se transmutava em um provável desastre. Em uma decisão surpreendente - e temerária, haja visto que acrescentaria 10 milhões de dólares ao orçamento final -, o estúdio anunciou que o lançamento ocorreria, sim, conforme o previsto, mas com uma pequena (e radical) diferença no elenco: Christopher Plummer no lugar de Spacey, cortado definitivamente do filme e seu material promocional.

Como polêmica pouca é bobagem, os problemas da Sony continuaram mesmo depois de o filme estar pronto e começar sua carreira nos cinemas: chamados para refilmar as 22 cenas em que Plummer assumia o papel do milionário J. Paul Getty, os atores Michelle Williams e Mark Wahlberg se viram em meio a um novo tornado de controvérsias, quando a diferença entre seus salários alcançou as manchetes da imprensa especializada em entretenimento. A gritaria começou quando se soube que Williams recebeu um pagamento de apenas mil dólares por seu retorno ao trabalho, enquanto seu colega havia embolsado 1,5 milhão. A discrepância entre os números deu margem a discussões a respeito de sexismo na indústria e ultrapassou o interesse pelo filme em si. Resultado: Wahlberg doou seu salário (e mais 500 mil dólares) para uma fundação em defesa legal das mulheres - e o assunto, de certa forma, morreu (sem que se questionasse, por exemplo, que o número de cenas refilmadas pelo ator era bem maior e que a própria atriz havia se oferecido a trabalhar por uma fração menor do salário, já que não ficaria à vontade, como declarado mais tarde, em divulgar um filme estrelado por Spacey). A essa altura, porém, "Todo o dinheiro do mundo" já havia estreado, dividido a crítica e atraído pouca gente às salas de exibição. De pouco adiantaram os elogios à atuação de Michelle Williams, as três indicações ao Golden Globe (incluindo direção e atriz/drama) e o nome de Plummer entre os candidatos ao Oscar de ator coadjuvante: o filme já estava destinado a permanecer como uma produção maculada pela polêmica.


O pior de tudo é "Todo o dinheiro do mundo" é um belo filme. Não apenas conta sua história com inteligência e sensibilidade - sem deixar de lado a tensão e o aprofundamento dramático dos personagens, cortesia do roteiro de David Scarpa, baseado em livro de John Pearson - como é tecnicamente notável. Da fotografia de Dariusz Wolski à trilha sonora arrepiante de Daniel Pemberton, tudo funciona como um relógio, e mergulha o espectador em um pesadelo acinzentado, de tons trágicos e contornos sombrios, tudo orquestrado por um Ridley Scott em grande forma, abandonando a grandiosidade de seus épicos para concentrar-se em um drama familiar dos mais angustiantes e revoltantes. Para isso, conta com a sempre inspirada Michelle Williams - que ficou com o papel depois das desistências de Angelina Jolie e Natalie Portman - e um Christopher Plummer assustador em sua frieza. É ele, na pele do bilionário magnata do petróleo J. Paul Getty, quem dá as cartas em um jogo mórbido e perigoso que pode custar a vida de seu neto predileto - um jogo que lhe serve, ironicamente, como arma para dominar todos à sua volta.

O filme começa em Roma, no ano de 1973, quando o adolescente Paul (Charlie Plummer, que apesar do sobrenome não tem relação com Christopher) é sequestrado por um grupo de criminosos que exige, como resgate, a quantia de 17 milhões de dólares. Seria uma fortuna inalcançável, se o menino não fosse neto de um dos homens mais ricos do mundo, J. Paul Getty - cuja conta bancária só é comparável à sua frieza e calculismo. Desesperada com o rapto do filho, a ex-nora de Getty, Gail (Michelle Williams), se torna a ponte entre os bandidos e o sogro, que se recusa a pagar um centavo que seja pela volta do neto - por acreditar que, aberto um precedente, todos os outros membros da família serão igualmente abduzidos. Enquanto tenta convencer Getty a ceder, Gail conta com a ajuda do leal Fletcher Chace (Mark Wahlberg), homem de confiança do magnata, que o chama para resolver a situação por meios não oficiais. Nesse meio-tempo, o jovem Paul vive uma rotina de grande tensão, quebrada apenas por seu relacionamento com um dos sequestradores, o misterioso Cinquanta (Romain Duris) - uma relação que não impedirá, no entanto, que a violência o atinja sem piedade.

"Todo o dinheiro do mundo" é um filme que funciona em vários níveis. Pode ser um drama pungente, capaz de emocionar aos mais sensíveis; pode ser um filme de suspense aterrador e imprevisível (apesar de ser uma história real cujo desfecho pode ser descoberto sem mistério em qualquer acesso à Internet); pode ser um belo estudo sobre o poder do dinheiro e como ele pode levar à solidão mais devastadora; e é, ainda, um excelente espelho para o talento de seus atores principais, em especial Michelle Williams e Christopher Plummer, brilhando em um papel difícil e detestável - ao qual oferece uma série de nuances que o livra do maniqueísmo e da análise fácil. Um filme que merece ser visto como a pequena obra-prima que é - a despeito de todos os problemas em sua realização.

terça-feira

O DIA DO ATENTADO

O DIA DO ATENTADO (Patriots Day, 2016, Bluegrass Films/CBS Films/Closest to the Hole Productions, 133min) Direção: Peter Berg. Roteiro: Peter Berg, Matt Cook, Joshua Zetumer, estória de Peter Berg, Matt Cook, Paul Tamasy, Eric Johnson. Fotografia: Tobias A. Schliessler. Montagem: Gabriel Fleming, Colby Parker Jr.. Música: Trent Reznor, Atticus Ross. Figurino: Virginia Johnson. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Ronald R. Reiss. Produção executiva: Louis G. Friedman, Eric Johnson, Nicholas Nesbitt, John Logan Pierson, Paul Tamasy, Dan Wilson. Produção: Dorothy Aufiero, Dylan Clark, Stephen Levinson, Hutch Parker, Michael Radutzky, Scott Stuber, Mark Wahlberg. Elenco: Mark Wahlberg, Kevin Bacon, Michelle Monaghan, J.K. Simmons, John Goodman. Estreia: 17/11/16

Algo semelhante já havia acontecido em 1974, quando dois projetos diferentes com o mesmo tema - no caso um incêndio de grandes proporções em um arranha-céu - se transformaram em um único filme, o mastodôntico "Inferno na torre", dirigido por John Guillermin e estrelado por gente do naipe de Paul Newman, Steve McQueen, Faye Dunaway e Fred Astaire. "O dia do atentado" não tem o mesmo escopo milionário, mas tem uma origem semelhante: dois roteiros independentes que, com o mesmo pano de fundo, se fundem em um mesmo produto, com intenções e ritmos distintos para atingir todos os públicos possíveis. Assim, o mesmo filme se divide em um quase documentário sobre o trágico atentado na Maratona de Boston em 2013 -  com detalhes sobre a investigação que levou aos culpados e momentos de ação e suspense - e um drama a respeito das vítimas e seus familiares, assim como todos os envolvidos na busca pelos criminosos. Centrada principalmente em um personagem criado especialmente para o filme como um amálgama de vários policiais da cidade, a terceira colaboração entre o diretor Peter Berg e o ator Mark Wahlberg é um competente entretenimento, mas que peca justamente por sua falta de foco. Quando se concentra no melhor que Berg sabe fazer (uma obra tensa e eficiente de suspense) é um ótimo filme. Quando busca a emoção mais sutil acaba por perder o ritmo imposto por algumas sequências de tirar o fôlego.

Assim como no ótimo "O grande herói" (2014) e no apenas mediano "Horizonte profundo" (2016) - as colaborações anteriores do cineasta com Wahlberg - o roteiro de "O dia do atentado" tem como objetivo realçar os momentos mais valorosos de seus protagonistas, mas nem sempre o equilíbrio funciona nesse terceiro capítulo. À vontade quando dirige sequências mais tensas e tecnicamente complexas, Berg parece não ter a mesma desenvoltura em comandar momentos de maior emoção - o que acaba por fazer com que seu filme, por mais que tente fugir do rótulo, seja mais um exemplar de um gênero que tem fãs incondicionais ao redor do mundo: "O dia do atentado" até se esforça em ser mais do que um filme policial de ação, mas sua vocação para entretenimento rápido (mais do que um drama edificante e memorável) fica evidente sempre que suas câmeras passam do sofrimento nos hospitais para a adrenalina das ruas. Com uma edição competente e um desenho de som inteligente, a corrida atrás dos responsáveis por um dos mais graves atentados à bomba em território americano da história é muito mais empolgante e interessante do que os cuidados médicos a suas vítimas. Coincidência ou não, o filme "O que te faz mais forte", estrelado por Jake Gyllenhaal (e que conta a trajetória de um dos sobreviventes) foca mais no drama pessoal do protagonista - e acaba sendo um complemento à obra de Berg.


Ao contrário da maioria dos filmes norte-americanos que recriam as tragédias ocorridas em seu solo como produções de heroísmo pessoal (vide "Torres gêmeas", de Oliver Stone e o próprio "Horizonte profundo", do mesmo Peter Berg), "O dia do atentado" demora a estabelecer-se como um filme de ação, preferindo gastar seus preciosos minutos iniciais apresentando alguns dos personagens que irão conviver com o público pelas duas horas seguintes. É assim que surge o Sargento Tommy Saunders (Mark Wahlberg sem muito o que fazer e sem a importância que alguns cartazes fazem entender): casado com a bela Carol (Michelle Monaghan), ele se destaca no trabalho pelas ruas de Boston, cidade a que conhece como a palma da mão. É ele quem irá ser a peça crucial na caçada aos irmãos Tsarnaev - os culpados pela explosão de uma bomba junto aos espectadores da tradicional maratona da cidade. Antes que a caçada comece, no entanto, o roteiro faz questão de introduzir à audiência outros nomes fundamentais da história, como o casal Patrick Downes (Christopher O'Shea) e Jessica Kinsky (Rachel Brosnahan), a jovem cientista Li (Lana Condor), o estudante Dun Meng (Jimmy O. Yang) e Steve Woolfenden (Dustin Tucker) e seu filho pequeno: todos serão vítimas, em maior ou menor grau, do violento incidente, e Berg cuida para não exagerar na sacarose, tratando seus personagens com respeito e cuidado - mesmo que posteriormente os acabe deixando em segundo plano).

Depois de explosão - antecedida com sequências que mostram sua preparação pelos irmãos Tamerlan (Themo Melikidze) e Dzokhar (Alex Wolff) - a trama de "O dia do atentado" finalmente se bifurca, convidando a plateia para testemunhar a agonia das vítimas da explosão (nada de muito sofisticado emocionalmente ou tampouco inédito) e a corrida dos policiais do FBI, liderados pelo agente especial Rick Deslauriers (Kevin Bacon), atrás dos responsáveis. As longas sequências pelas ruas da cidade, em uma noite particularmente tensa e violenta, são preciosas, mostrando o cuidado do diretor em ser ao mesmo tempo realista e capaz de envolver o público com as ferramentas básicas do suspense. São momentos em que o filme cresce e atinge todo o seu potencial - algo que o mesmo diretor fez em "O grande herói", uma produção de guerra que explora todos os elementos do gênero de forma inteligente e honesta. A opção do roteiro em não fazer de Tommy Saunders um herói individual é corajosa, uma vez que o público espera algo assim de um filme de ação, mas acaba, paradoxalmente, enfraquecendo um pouco seu clímax - apesar de ele ser, ainda assim, potente o bastante para grudar a plateia na poltrona. No fim das contas, "O dia do atentado" é um bom filme de ação, com algumas doses de drama e um domínio técnico invejável de sua equipe. Não é inesquecível, mas está um patamar acima da média das produções do gênero simplesmente por não subestimar a inteligência do espectador.

segunda-feira

O GRANDE HERÓI

O GRANDE HERÓI (Lone survivor, 2013, Film 44/Emmett/Furla Films, 121min) Direção: Peter Berg. Roteiro: Peter Berg, livro de Marcus Lutrell, Patrick Robinson. Fotografia: Tobias Schliesser. Montagem: Colby Parker Jr.. Música: Explosions in the Sky, Steve Jablonsky. Figurino: Amy Stofsky. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Ron Reiss. Produção executiva: Braden Aftergood, Brandt Andersen, Remington Chase, Grant Cramer, Mark Damon, Simon Fawcett, Kerry Foster, Louis G. Friedman, George Furla, Stepan Martirosyan, Jeff Rice, Steven Saxton, Lauren Selig, Adi Shankar, Jason Shuman, Spencer Silna, Tamara Birkemoe. Produção: Sarah Aubrey, Peter Berg, Randall Emmett, Akiva Goldsman, Vitaly Grigoriants, Norton Herrick, Stephen Levinson, Barry Spikings, Mark Wahlberg. Elenco: Mark Wahlberg, Taylor Kitsch, Emile Hirsch, Ben Foster, Eric Bana, Alexander Ludwig, Rich Ting, Yousuf Azami. Estreia: 12/11/13

2 indicações ao Oscar: Edição de Som, Mixagem de Som

Alguns reclamaram que se trata de mais uma obra que exalta o patriotismo americano - como se o louvado e superestimado "Sniper americano" fosse diferente ou ufanismo alterasse a qualidade de um filme em termos cinematográficos. Mas o fato é que "O grande herói", dirigido pelo ator/cineasta Peter Berg - que já havia demonstrado seu interesse por temas polêmicos em "O reino", de 2007 e comandou o mastodôntico fracasso "Battleship, a batalha dos mares" em 2012 - passa por cima de qualquer ideologia política para criar um poderoso drama de guerra que surpreendeu nas bilheterias americanas (tradicionalmente avesso a produções do gênero, salvo raras exceções) e caindo no gosto da crítica - foi eleito um dos dez melhores filmes de 2013 pela conceituada National Board of Review.

A encenação crua e realista de Berg de uma história real, ocorrida em 2005, durante a guerra no Afeganistão - e que já estava nos planos do diretor desde 2008, quando ele leu o livro que deu origem ao roteiro - remete às duras e violentas cenas de "Falcão negro em perigo", que deu a Ridley Scott uma indicação ao Oscar de diretor em 2002. Porém, enquanto Scott aproveitou a oportunidade para explorar seu virtuosismo técnico, sem focar-se a contento nos dramas de seus inúmeros personagens, Berg segue um caminho quase inverso. Sim, as cenas de conflito físico são dirigidas com segurança invejável e não poupam a audiência de sentir-se dentro da ação - para o que colabora também a maquiagem detalhista e a edição de som (que concorreu a uma merecida estatueta do Oscar) - mas o roteiro também se dá ao trabalho de dedicar boa parte de seu segundo ato ao desenvolvimento de seus protagonistas. Logicamente não há tempo para uma maior profundidade, mas contar com um elenco coadjuvante formado por Emile Hirsch, Eric Bana e Ben Foster (especialmente o último, em mais uma atuação estupenda) já é meio caminho andado para provocar a empatia essencial a uma história que, de outra maneira, seria apenas mais um filme de guerra a preencher as sessões noturnas da televisão.


Também favorável a "O grande herói" - que conta a história de um grupo de fuzileiros americanos que veem falhar sua missão de capturar um líder da Al Qaeda nas montanhas do Afeganistão e precisam lutar pela sobrevivência - é a presença de seu ator central, Mark Wahlberg. Surgido no mundo do entretenimento como modelo de cuecas Calvin Klein e posteriormente como o rapper Marky Mark, Wahlberg se reinventou como ator respeitado, presente em filmes prestigiados como "Boogie nights", "Três reis" e "Os infiltrados", de Martin Scorsese, pelo qual chegou a ser indicado ao Oscar. Na pele de Marcus Luttrell - que lidera a missão e acaba encontrando a salvação onde menos poderia esperar (com a ajuda do grande herói do título nacional) - o ator mostra que sabe escolher boa parte dos projetos dos quais participa (deixemos de lado bobagens como "Sem dor, sem ganho") e se manter sempre em evidência na fugaz fogueira das vaidades hollywoodianas com filmes de visibilidade e qualidade dramática.

Uma das boas surpresas de sua temporada, "O grande herói" ganha o público logo nos créditos de abertura - em cenas que mostram o rígido treinamento dos fuzileiros - e mantém sua atenção durante duas horas de adrenalina nas alturas, que se encerram com uma melancólica versão da clássica "Heroes", de David Bowie, na voz de Peter Gabriel. Escapando com inteligência de ser apenas mais uma obra de patriotismo exarcebado para tornar-se um drama de guerra da melhor estirpe, é também um trabalho impecável de edição, fotografia e técnica. Enfim, um filme imperdível.

MEDO

MEDO (Fear, 1996, Imagine Entertainment/Universal Pictures, 97min) Direção: James Foley. Roteiro: Christopher Crowe. Fotografia: Thomas Kloss. Montagem: David Brenner. Música: Carter Burwell. Figurino: Kirsten Everberg. Direção de arte/cenários: Alex McDowell/D. Fauquet-Lemaitre. Produção executiva: Karen Kehela. Produção: Brian Grazer, Ric Kidney, Karen Snow. Elenco: Mark Wahlberg, Reese Witherspoon, William Petersen, Ammy Brenneman, Alyssa Milano, Christopher Gray, Todd Caldecott. Estreia: 12/4/96

Há ecos nítidos de "Cabo do medo", de Martin Scorsese, na maneira como o protagonista masculino de "Medo" - refilmagem americana livre de um filme indiano chamado "Darr", lançado em 1993 - persegue obsessivamente a jovem por quem se diz apaixonado. Também há citações de "Sob o domínio do medo", de Sam Peckinpah, no clímax do filme de James Foley - que já tinha no currículo filmes respeitados como "Caminhos violentos" (86) e "O sucesso a qualquer preço" (92) e produções comerciais menos elogiadas, como "Quem é essa garota?" (87), estrelado por Madonna. Tais referências, no entanto, não impedem que seu filme, uma história banal de suspense, ultrapasse as armadilhas que o roteiro repleto de clichês espalha em seu caminho. Com aparência de telefilme e contando com dois jovens atores ainda em busca de um lugar ao sol em Hollywood, a obra de Foley surpreende apenas por conseguir manter uma tensão constante mesmo com todos os furos do roteiro, que trata seus personagens sem muita profundidade.

Ainda antes de tornar-se famosa como a patricinha de "Legalmente loira" e a oscarizada atriz de "Johnny & June", uma jovem Reese Witherspoon lidera o elenco como Nicole Walker, uma adolescente órfã de mãe que vai morar com o pai, Steve (William Petersen), a madrasta Laura (Amy Brenneman) e o irmão caçula Toby (Christopher Gray) em uma segura casa nos arredores de Seattle. Rebelde como é comum na sua idade, ela cai de amores pela pessoa mais errada possível, o misterioso e sedutor David McCall (Mark Wahlberg, dois anos antes do estouro de "Boogie nights" e já conhecido como modelo de cuecas Calvin Klein e cantor de rap). Evasivo a respeito de suas origens, David aparenta ser um rapaz perfeito e romântico, seduzindo a garota sem maiores esforços. O romance dos sonhos, porém, logo mostra alguns problemas quando o rapaz se mostra extremamente possessivo e violento. Percebendo o tamanho da encrenca, Steve tenta afastar a filha de David, o que provoca ainda mais sua fúria descontrolada: em pouco tempo a família toda vira alvo do psicótico e raivoso príncipe tornado sapo, que se une a seus amigos do submundo para aterrorizar a todos.


Sem preocupar-se em dar profundidade a seus personagens, o roteiro de Christopher Crowe opta por acentuar o clima de suspense e violência da trama, enfatizando a psique obsessiva e cruel de David a cada cena - e mesmo assim não conseguindo fugir da superficialidade de suas escolhas. As intrigas de David para jogar Nicole contra o pai, por exemplo, são de uma simplicidade franciscana e suas consequências nunca são utilizadas com todas as possibilidades que poderiam. A própria personalidade doentia do rapaz jamais é explorada a contento, tornando-o apenas mais um vilão cuja única finalidade é ameaçar a paz da soberania familiar de um núcelo já problematizado. Mark Wahlberg funciona no papel apesar de suas limitações como ator, conseguindo transmitir (ao menos dentro do possível) a tensão requerida em seus momentos de ira, especialmente no terço final, quando deixa a máscara de bom moço cair definitivamente - e mostrar o corpo em boa parte do filme ajuda a disfarçar a fragilidade de seu desempenho nas cenas que exigem maior dramaticidade. O mesmo não pode ser dito de Reese Witherspoon, que mesmo com uma personagem que poderia facilmente despertar a antipatia do espectador - sua rebeldia sem causa e sua ingenuidade exagerada podem irritar aos menos pacientes - é capaz de convencê-lo da veracidade de suas atitudes, mesmo as erradas. Em pouco tempo ela estaria em filmes mais interessantes e mostraria a excelente atriz que é.

Para quem procura um filme de suspense e não se importa com alguns furos de roteiro e uma certa previsibilidade, "Medo" é uma opção bastante decente. Nunca ultrapassa seus limites puramente comerciais nem tenta ser mais do que é, e essa despretensão acaba por ajudá-lo. Mergulhado nos clichês - os vilões usam drogas e ouvem rock pesado, além de se vestirem de preto, a madrasta com quem a protagonista tinha problemas acaba se tornando sua melhor amiga, gente inocente morre violentamente em prol de um bom drama - o filme de James Foley até pode ofeneder aos mais exigentes, mas segura tranquilamente uma sessão descompromissada num sábado chuvoso.

sábado

O VENCEDOR

O VENCEDOR (The fighter, 2010, Closest to the bone Productions, 116min) Direção: David O. Russell. Roteiro: Scott Silver, Paul Tamasy, Eric Johnson, estória de Paul Tamasy, Eric Johnson, Keith Dorrington. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Pamela Martin. Música: Michael Brook. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Gene Serdena. Produção executiva: Darren Aronofsky, Keith Dorrington, Eric Johnson, Tucker Tooley, Leslie Varrelman, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Dorothy Aufiero, David Hoberman, Ryan Kavanaugh, Todd Lieberman, Paul Tamasy, Mark Wahlberg. Elenco: Mark Wahlberg, Christian Bale, Amy Adams, Melissa Leo. Estreia: 10/12/10

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David O. Russell), Roteiro Original, Ator Coadjuvante (Christian Bale), Atriz Coadjuvante (Amy Adams/Melissa Leo), Montagem
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Christian Bale), Atriz Coadjuvante (Melissa Leo)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Christian Bale), Atriz Coadjuvante (Melissa Leo)

“O vencedor” não é apenas o primeiro da série de três filmes do cineasta David O. Russell que conquistou a Academia de Hollywood a ponto de chegarem a concorrer aos Oscar de filme, direção e roteiro: é, também, o que melhor soube se aproveitar do estilo despojado e espontâneo do diretor, depois tornado regra e, consequentemente, diluído nos bastante inferiores “O lado bom da vida” (12) e “Trapaça” (13). Baseado no drama real do lutador de boxe Dicky Ecklund – uma lenda em sua comunidade e que viu sua carreira escorrer pelo ralo graças ao vício em heroína – o filme de Russell faz uso inteligente das atuações viscerais e orgânicas de seu elenco principal (seu principal destaque) ao contar uma história onde o esporte divide espaço com as relações familiares de um clã tão disfuncional e problemático quanto interesseiro. Deixando sua câmera circular por um ambiente suburbano quase palpável em sua decadência, o cineasta acerta no registro que beira o documental, mas peca em deixar que tanta liberdade atrapalhe o ritmo da narrativa. No fim das contas, “O vencedor” é um filme acima da média, mas bastante irregular.
 Um diretor adepto do naturalismo – o que contraria a condução de seu trabalho mais conhecido até então, a comédia de guerra “Três reis” (00), realizada dentro dos padrões mais tradicionais do gênero – Russell frequentemente deixa que o trabalho de seus atores comande a dinâmica das cenas de seus filmes, e tal tendência fica extremamente clara em “O vencedor”, uma obra totalmente calcada em seus (ótimos) atores e que em determinados momentos sofre de uma evidente fragilidade de estrutura dramática. A opção estética de Russell em tratar sua história em forma semi-documental remete à maior das obras-primas sobre o mundo do boxe, o brilhante “Touro indomável” (80), de Martin Scorsese (que também privilegia a energia dos atores em detrimento de um andamento mais convencional), mas é covardia comparar os dois filmes: enquanto Scorsese mergulha fundo na alma e nos demônios de Jake La Motta (interpretação inesquecível de Robert DeNiro), Russell prefere se manter à margem dos dramas de seu protagonista – que surpreendentemente, não é Dicky Ecklund, e sim seu irmão mais jovem, Micky Ward, interpretado com segurança por Mark Wahlberg – como uma espécie de voyeur de luxo. É inegável que tal opção combina com seus métodos de direção, mas também é flagrante que é somente em alguns (raros) momentos em que se permite um pouco mais de emoção que o filme realmente conquista seu público.


Na maior parte do tempo “O vencedor” acompanha a complicada tentativa de Micky em tornar-se um campeão de boxe, a despeito da pressão exercida sobre ele por sua mãe, a ambiciosa e por vezes cruel Alice (Melissa Leo) e pelo resto de sua família – um grupo de irmãs cafonas e histéricas e seu patético irmão mais velho, Dicky, que passa os dias enchendo o organismo de drogas enquanto relembra um passado que considera glorioso. Considerando-se os donos de Micky, Dicky e Alice armam uma cruzada impiedosa contra sua nova namorada, Charlene (Amy Adams), uma garçonete que não tem medo de enfrentar a corja que cerca o rapaz e o conduz em direção ao sucesso no esporte. Dividindo seu tempo entre as brigas entre os dois lados da questão (com muita gritaria, tapas e desaforos) e as batalhas de Micky dentro dos ringues, “O vencedor” flui sem maiores problemas – graças à edição competente também indicada ao Oscar – mas poucas vezes chega a realmente encantar. Para sorte de Russell, seu elenco se responsabiliza por segurar (e muito bem) as pontas.
Na pele de Charlene, Amy Adams foi indicada à estatueta de coadjuvante feminina, mas perdeu para sua colega de cena Melissa Leo, que rouba a cena sempre que surge na pele da peruíssima e desagradável Alice. Brilhante, Leo teve sua vitória contestada devido à feroz campanha feita por ela junto aos membros eleitores – algo não exatamente proibido pelas regras da Academia, mas no mínimo constrangedor – porém é difícil não reconhecer sua entrega ao papel, especialmente quando precisa fazer frente à interpretação impecável de Christian Bale, que levou o Oscar de ator coadjuvante. Macérrimo na pele de Dicky, o ator inglês confirma com sua atuação o que todo mundo já conseguia antever desde sua estreia aos onze anos de idade, em “Império do sol” (87): o fato de que, por trás de sua tão falada arrogância (que o digam os técnicos agredidos por ele nas filmagens de “O exterminador do futuro 4”), existe um ator excepcional, capaz de equilibrar grandes produções comerciais como a trilogia do Batman dirigida por Christopher Nolan com obras menos imponentes e centradas em personagens mais próximos da realidade. A cena em que Melissa e Bale abrem seus corações cantando “I started a joke” é um exemplo perfeito de como “O vencedor” poderia ter sido ainda melhor se lhe tivesse sido permitido ser mais emocional do que racional. 

Para os fãs de boxe “O vencedor” não irá decepcionar – as lutas são bem filmadas, ainda que não cheguem perto da energia de outros filmes com a mesma temática, como “Rocky, um lutador” (76) e “Menina de ouro” (04). Mas é um filme indeciso entre abraçar o lado emotivo de sua história ou focar na glória (ou na decadência) de um esporte cujas possibilidades dramáticas são imensas. Ficando no meio-termo acaba por tornar-se apenas mais um dentre muitos, a despeito de sua calorosa receptividade junto à Academia – que, além dos prêmios de Leo e Bale, ainda lhe indicou às estatuetas de filme, direção, roteiro, atriz coadjuvante (Amy Adams) e edição. Um exagero que o tempo há de deixar ainda mais explícito, apesar das qualidades do filme.

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