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segunda-feira

O INCRÍVEL HULK


O INCRÍVEL HULK (The Incredible Hulk, 2008, Universal Pictures/Marvel Enterprises, 112min) Direção: Louis Leterrier. Roteiro: Zak Penn, personagens criados por Stan Lee, Jack Kirby. Fotografia: Peter Menzies Jr.. Montagem: Rick Shaine, Vincent Tabaillon, John Wright. Música: Craig Armstrong. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Kirk M. Petrucelli/Monica Delfino, Carolyn "Cal" Loucks, Monica Rochlin. Produção executiva: Stan Lee, David Maisel, Jim Van Wyck. Produção: Avi Arad, Kevin Feige, Gale Anne Hurd. Elenco: Edward Norton, Liv Tyler, William Hurt, Tim Roth, Tim Blake Nelson, Ty Burrell. Estreia: 08/6/08

Em 2003 os fãs de quadrinhos foram surpreendidos com "Hulk", um olhar bastante peculiar sobre um dos personagens mais queridos e populares da Marvel: sob a direção do premiado Ang Lee (acostumado a assinar produções mais artísticas, como "Razão e sensibilidade", de 1995, e "O tigre e o dragão", de 2000, pelo qual levou seu primeiro Oscar), o super-herói verde tornou-se protagonista de um filme de ação com tendências existencialistas e, apesar da bilheteria mundial acima de 245 milhões de dólares, não chegou a entusiasmar o público e dividiu a crítica. As chances de uma sequência no mesmo tom cerebral, escrita por James Schamus - colaborador habitual de Lee - acabaram sendo abandonadas em 2005, no entanto, quando a Universal Pictures devolveu os direitos do personagem à Marvel. Já dedicada a criar seu Universo Cinematográfico, a Marvel aproveitou a oportunidade para dar uma nova chance ao cientista Bruce Banner e seu monstruoso alterego - com um viés mais próximo de suas pretensões comerciais e possibilidades mais concretas de fazer dele parte de um projeto maior. Para isso, não apenas Ang Lee foi dispensado da função de diretor - em uma estratégia corajosa, o estúdio aproveitou a recusa de Eric Bana em retornar ao papel-título para, ao invés de recomeçar do zero, fazer de "O incrível Hulk" uma mistura entre um reboot e uma continuação. Pode não ter repetido o êxito de "Homem de ferro" (2008) - primeiro filme do ambicioso plano da Marvel e sucesso imenso de bilheteria -, mas marcou presença de forma nada desprezível.

A saída de Bana do projeto abriu a porta para perspectivas interessantes - e nomes como Matthew McConaughey, David Duchovny (da série "Arquivo X") e Dominic Purcell (astro de "Prision break") foram cogitados para assumir a liderança do elenco. Em uma espécie de clarividência, o novo diretor, o cineasta francês Louis Leterrier, chegou a propor, sem sucesso, o nome de Mark Ruffalo para o papel principal, mas foi voto vencido junto aos executivos da Marvel: poucos anos depois Ruffalo tornou-se o mais celebrado intérprete do personagem mesmo sem ter um filme-solo. A recusa da Marvel em aceitar Ruffalo em "O incrível Hulk" tinha uma razão, no entanto, e bem forte: sua preferência por Edward Norton, fã dos quadrinhos e um ator de prestígio o suficiente para garantir a boa vontade da crítica e de parte do público avesso a filmes-evento. Apesar de conhecido por seu gênio forte - e por sua interferência nas decisões criativas dos filmes dos quais participava -, Norton já tinha duas indicações ao Oscar no currículo e não era um ator que se prestava facilmente a produções comerciais: sua presença seria um belo chamariz e deixaria bastante claro a todos a intenção da Marvel em ser levada muito a sério.

 

Como era de se esperar, Norton não apenas fez sua parte como ator - reescreveu várias cenas do roteiro de Zak Penn e dirigiu algumas sequências para ajudar a manter o cronograma de filmagens. Com locações no Rio de Janeiro e Toronto fazendo o papel de Manahattan (por questões de concessões comerciais oferecidas pelo prefeito local, David Miller, fã do personagem), "O incrível Hulk" sofreu várias alterações em relação a seu primeiro filme. Não apenas no visual escolhido pelo novo diretor (um verde mais escuro e um tamanho fixo para a criatura, por exemplo), mas também em sua tentativa de fazer dele um herói trágico sem abandonar seu propósito de entreter a plateia, ávida pelos melhores efeitos visuais que um orçamento de 150 milhões de dólares podem comprar. Para isso, a trama não perde tempo em estabelecer as origens do personagem - e conta com um vilão bastante interessante, interpretado pelo sempre ótimo (e frequentemente subestimado) Tim Roth. Da mesma forma, a relação entre Banner e Betty Ross (Liv Tyler substituindo Jennifer Connelly com competência e elegância) não precisa ser estabelecida desde o princípio - seu reencontro se dá em uma cena que resume perfeitamente o equilíbrio entre drama e ação que faltou ao primeiro filme. E é claro que ter William Hurt na pele do general Ross não atrapalha em nada: fã de Hulk, assim como seu filho e Edward Norton, Hurt é mais um elemento a emprestar prestígio à produção.

"O incrível Hulk" começa nas favelas do Rio de Janeiro, onde Bruce Banner está escondido depois dos catastróficos eventos do primeiro capítulo. Buscando incessantemente uma cura para sua condição, o cientista ainda precisa lidar com o fato de que forças militares lideradas pelo General Ross estão à sua procura, já que não pretendem abandonar o resultado de anos em estudos para a criação de um super soldado. Quando Banner retorna aos EUA, conta com o apoio da namorada, Betty (que, por caprichos do destino e dos roteiristas, é filha do general), para aproximar-se de um antídoto - uma questão que o colocará em rota de colisão com um monstro de poderes similares, criado justamente para enfrentá-lo e impedir sua deserção. O embate ente os dois é o centro do filme de Leterrier - que herdou a direção do filme depois que o comando de "Homem de ferro" foi parar nas mãos de Jon Favreau - e é bastante superior, em termos técnicos e emotivos, ao trabalho de Ang Lee, além de, é claro, deixar um espaço em aberto para as inevitáveis continuações ao lado de seus colegas vingadores. "O incrível Hulk" pode não ser um filme perfeito - mas funciona às mil maravilhas como entretenimento de qualidade.

domingo

OS OITO ODIADOS

OS OITO ODIADOS (The hateful eight, 2015, Double Feature Films, 187min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Fred Raskin. Música: Ennio Morricone. Figurino: Courtney Hoffman. Direção de arte/cenários: Yohei Taneda/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Georgia Kacandes, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Richard N. Gladstein, Shannon McIntosh, Stacey Sher. Elenco: Kurt Russell, Samuel L. Jackson, Jennifer Jason Leigh, Walter Goggins, Bruce Dern, Michael Madsen, Tim Roth, Demián Bichir, James Parks, Channing Tatum. Estreia: 07/12/15

3 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Jennifer Jason Leigh), Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Trilha Sonora Original 

Já nem é mais novidade: a cada filme novo de Quentin Tarantino que chega às telas o mundo se divide entre aqueles que o incensam como um dos mais originais e inventivos cineastas norte-americanos já existentes e aqueles que questionam seu talento e criatividade, lançando mãos de críticas que - vá lá - até fazem certo sentido sob determinados pontos de vista. Porém, a verdade é que, independente do fato de gravitar sempre em um universo todo particular (aparentemente localizado em algum lugar entre os anos 70 e 80 e povoado de filmes de baixo orçamento e roteiros pra lá de bizarros), Tarantino é um dos poucos diretores em atividade no cinema americano ainda capazes de suscitar tanta discussão e despertar tanto interesse da mídia, do público e da crítica. E não poderia ser diferente em relação a "Os oito odiados", seu oitavo longa, que correu o sério risco de jamais ver a luz dos projetores quando teve seu roteiro vazado antes mesmo da fase de pré-produção. Furioso com o imprevisto - e coberto de razão - Tarantino quase desistiu do projeto mas, convencido pelo amigo Samuel L. Jackson (apaixonado pela história e pelos personagens), voltou atrás na decisão. Sorte dos fãs inveterados (que encontrarão no filme, em versão exagerada, tudo que o diretor sempre ofereceu em seus trabalhos anteriores) e azar dos detratores (que, se arriscarem uma sessão, podem correr o risco de uma overdose de longos diálogos, sangue aos borbotões e maneirismos técnicos que a tantos agrada e a tantos outros repele).

Revisitando um gênero caro à sua memória afetiva, o western (que já havia homenageado com propriedade no ótimo "Django livre"), Tarantino acrescenta a "Os oito odiados" um clima de mistério à Agatha Christie e um tom teatral que enfatiza como nunca sua facilidade absurda de criar diálogos inspiradíssimos e personagens antológicos em situações extremas. Situando sua trama em um período imediatamente posterior à Guerra de Secessão, o diretor joga o público direto no gélido frio do Wyoming, onde a diligência do caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell em um grande momento da carreira) encontra um concorrente, o famoso Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson mostrando porque é um dos maiores atores americanos de sua geração, especialmente quando dirigido por Tarantino). Warren pede que Ruth lhe dê uma carona (e aos cadáveres que ele pretende trocar por uma gorda quantia de dólares) até a cidade de Red Rock e não demora para juntar-se a ele e à sua prisioneira, Daisy Domergue (a sensacional Jennifer Jason Leigh) na difícil viagem rumo a seu destino. Domergue é uma assassina procurada que Ruth tem a intenção de entregar ao carrasco de Red Rock e todos eles se surpreendem quando, ainda no caminho em direção à cidade, eles dão de cara com Chris Mannix (Walton Goggins), que alega ser o novo xerife do local e que também pede ajuda para chegar até lá.

No meio do caminho, devido a uma nevasca, a diligência se vê obrigada a fazer uma parada inesperada na estalagem de Minnie Mink (Dana Gourrier), uma conhecida de Warren que, em viagem para visitar a mãe, deixou o local aos cuidados do mexicano Bob (Demian Bichir). Juntando-se aos demais hóspedes também presos na hospedaria - o carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o lacônico Joe Gage (Michael Madsen) e o veterano General Sandy Smithers (Bruce Dern) - os novos visitantes não demoram a perceber um clima de tensão e desconfiança no ar. O que ninguém sabe, porém, é que os comparsas de Daisy não tem a menor intenção de permitir que ela seja entregue e enforcada, e que tem um plano elaborado para resgatá-la antes de sua chegada a Red Rock. Caberá então ao perspicaz Major Warren descobrir quem do grupo reunido na hospedaria está ao lado da temida e debochada assassina.


"Os oito odiados" é Tarantino do primeiro frame - os créditos com o mesmo design dos letreiros já trai suas origens - ao último minuto - que chega somente depois de quase três horas de duração. Muitos reclamam da demora em começar a ação propriamente dita (tiros, sangue, violência), mas é difícil sentir-se incomodado ao ver em cena atores tão fantásticos - Samuel L. Jackson, Michael Madsen, Tim Roth, Bruce Dern e Jennifer Jason Leigh (os três primeiros repetindo a parceria com o diretor e Jennifer merecidamente indicada ao Oscar de coadjuvante) - desfilando seu talento pela tela. Com o auxílio luxuoso da bela fotografia de Robert Richardson (também indicada ao Oscar) e da sensacional trilha sonora do veterano Ennio Morricone (vencedor de sua primeira estatueta por seu trabalho), o filme realmente aparenta ter um problema de ritmo - só depois de uma hora e meia é que as coisas realmente começam a acontecer - mas basta olhar com atenção para perceber que nada é por acaso, nenhum diálogo é supérfluo e a longa duração serve para mergulhar o espectador na tensão indispensável ao clímax sanguinolento, de dar inveja à carnificina de "Cães de aluguel", filme de estreia de Tarantino e que o colocou, de primeira, no coração dos cinéfilos e da crítica.

Com uma violência estilizada que enfatiza seu humor nigérrimo - Jennifer Jason Leigh passa o filme inteiro sendo espancada, para horror das feministas - e o tom politicamente incorreto que sempre caracterizou a obra do diretor, "Os oito odiados" é a cara de seu criador. Seus diálogos são longos e expressivos. Sua violência é um misto de crueza e humor negro. Seu linguajar é cortante e realista, Não é uma obra-prima como "Pulp fiction, tempo de violência" ou "Bastardos inglórios", mas é mais uma declaração incontestável de um estilo cinematográfico que já está indelevelmente marcado na cultura popular norte-americana e mundial há pelo menos duas décadas, quer se goste ou não. Falem bem ou falem mal, é impossível ficar indiferente a um filme de Quentin Tarantino. E de quantos artistas se pode dizer o mesmo hoje em dia?

sábado

SELMA: UMA LUTA PELA IGUALDADE

SELMA: UMA LUTA PELA IGUALDADE (Selma, 2014, Cloud Eight Films, 128min) Direção: Ava DuVernay. Roteiro: Paul Webb. Fotografia: Bradford Young. Montagem: Spencer Averick. Jason Moran. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Elizabeth Keenan. Produção executiva: Nik Bower, Ava DuVernay, Paul Garnes, Cameron McCracken, Diarmuid McKeown, Nan Morales, Brad Pitt. Produção: Christian Colson, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Oprah Winfrey. Elenco: David Oyelowo, Tim Roth, Oprah Winfrey, Carmen Ejogo, Tom Wilkinson, Giovanni Ribisi, Common, Dylan Baker, Cuba Gooding Jr., Alessandro Nivola. Estreia: 11/11/14

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Canção Original ("Glory")
Vencedor do Oscar de Melhor Canção ("Glory") 
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção Original ("Glory")

Em 2015, um ano marcado por omissões escandalosas, indicações discutíveis e surpresas um tanto desagradáveis na lista de indicados ao Oscar - pensando bem, em qual ano isso não acontece? - talvez a questão mais debatida dentre os fãs de cinema e os ditos "especialistas de plantão" disse respeito à esnobada quase geral dada ao filme "Selma: uma luta pela igualdade", que muitos julgavam merecedor de figurar entre os destaques da cerimônia. Mesmo indicada na categoria principal, a produção dirigida por Ava DuVernay não conseguiu conquistar os votos dos eleitores da Academia em outros páreos importantes, como direção (Ava seria a primeira mulher afro-americana a concorrer ao Oscar) e ator (David Oyelowo), o que acarretou uma interminável discussão sobre a falta de miscigenação racial na festa mais importante do cinema - uma polêmica que estendeu-se até o ano seguinte, quando a situação repetiu-se com ainda mais força. Enquanto alguns creditavam a omissão à Paramount por não ter enviado cópias do filme aos eleitores a tempo da votação, outros não hesitavam em dizer que tudo não passava de racismo puro e simples por parte da Academia e de Hollywood em si. O que ninguém cogitou pensar é na possibilidade de o filme - apesar de suas inúmeras qualidades e importância histórica e social - não ser tão forte quanto os acontecimentos que retrata.

É lógico que "Selma" é infinitamente superior a aberrações demagógicas como "Sniper americano" e ao filme-fórmula "A teoria de tudo" - ambos sintomaticamente indicados na principal categoria mas também deixados de fora na briga por diretor - mas é muito provável que os fãs mais radicais do filme não percebam que, por trás de todas as emocionantes e chocantes cenas que mostram os confrontos raciais que sacudiram os EUA nos anos 60, por trás da performance discreta e convincente de David Oyelowo como Martin Luther King e por trás da força emocional da história contada, não existe um roteiro consistente a ponto de esconder o ritmo claudicante, os tempos mortos e, pior ainda, a edição pouco criativa. A cada sequência empolgante, que leva o espectador para dentro da história, como se fosse participante ativo do movimento social que está transformando um país - e por consequência, o mundo todo - existem várias outras sonolentas, que o afastam emocionalmente. Toda vez que Martin Luther King vai ao encontro do Presidente Lyndon Johnson (Tom Wilkinson) ou este debate a situação com o governador do Alabama, George Wallace (Tim Roth), o filme perde o pique. São momentos importantes para a ação, claro, mas que contrastam radicalmente com outros de grande intensidade dramática e que comprometem o ritmo do filme como um todo.


Quando DuVernay mostra ao espectador a violência a que os negros - e até mesmo os brancos que compravam sua briga - eram submetidos simplesmente porque lutavam pelo direito básico ao voto, seu filme cresce, se agiganta, emociona às lágrimas. Quando se dedica a mostrar a forma idealista de Luther King lutar contra o preconceito, sua obra se ilumina e inspira. Quando dá espaço a seus atores - em especial Oyelowo, Tim Roth e sua produtora Oprah Winfrey em pequena participação - brilharem, seu trabalho conquista. Mas ao final da sessão, quando a sensação de injustiça e revolta passam, não sobra muito mais. Falta a "Selma" aquele algo mais que faz de um bom filme um filme inesquecível. É forte, é intenso e é imprescindível historicamente. Mas não faz jus a toda a polêmica que criou em torno de suas duas únicas indicações ao Oscar - e nem o fato de Brad Pitt estar entre os produtores executivos ajudou muito na campanha a seu favor (Pitt era também produtor executivo de "12 anos de escravidão", vencedor do Oscar principal do ano anterior, o que de certa forma anula a acusação de racismo generalizado por parte da Academia).

E seria injusto falar a respeito de "Selma" - cidade americana que foi sede de uma passeata de grande importância na luta pelos direitos civis dos negros - sem citar aquela que é, sem dúvida, uma de suas maiores qualidades (além da atuação de David Oyelowo, que interpretou, também com consistência e garra, o filho de Forest Whitaker no igualmente engajado "O mordomo da Casa Branca"). Vencedora do Oscar e do Golden Globe de Melhor Canção Original, a bela "Glory" levantou a plateia na cerimônia de entrega dos prêmios da Academia com uma performance energética e poderosa de Common e John Legend - e lembrou da força da emoção que em muitos momentos falta ao filme de DuVernay. Com um roteiro um pouco mais profundo e menos ambicioso em abraçar o mundo com as pernas, seria um filme genial. Como está, é um filme inspirador, mas muito aquém de extraordinário.

quinta-feira

GRACE DE MÔNACO

GRACE DE MÔNACO (Grace of Monaco, 2014, Stone Angels/YRF Entertainment, 103min) Direção: Olivier Dahan. Roteiro: Arash Amel. Fotografia: Eric Gautier. Montagem: Olivier Gajan. Música: Christopher Gunning. Figurino: Gigi Lepage. Direção de arte/cenários: Dan Weil. Produção executiva: Claudia Blumhuber, Jeremy Burdek, Florian Dargel, Uta Fredebeil, Irene Gall, Bill Johnson, Nadia Khamlichi, Adrian Politowski, Jonathan Reiman, Jim Seibel, Gilles Waterkeyn, Bruno Wu. Produção: Arash Amel, Uday Chopra, Pierre-Ange Le Pogam. Elenco: Nicole Kidman, Tim Roth, Frank Langella, Paz Vega, Parker Posey, Milo Ventimiglia, Derek Jacobi. Estreia: 14/5/14 (Festival de Cannes)

Em 2007, o cineasta Olivier Dahan comoveu o mundo e revelou o talento de Marion Cottilard ao contar a história de um dos maiores ícones da música francesa em "Piaf, um hino ao amor" - que rendeu à bela Cottilard o merecidíssimo Oscar de melhor atriz. Sete anos e dois filmes mais tarde, ele tentou repetir o sucesso, dessa vez mirando sua câmera para outro ídolo popular - e uma das mulheres mais invejadas do mundo: Grace Kelly, musa de Hitchcock, atriz vencedora do Oscar e, sonho dos sonhos, princesa do Condado de Mônaco após seu casamento com o Príncipe Rainier. Acontece que, apesar da história forte (a vida real de Kelly nos cômodos do palácio real não era tão idílica quanto parecia), do talento de Nicole Kidman no papel central e do talento do diretor em sublinhar a emoção de seus personagens sem soar piegas, "Grace de Mônaco" naufragou fragorosamente. Depois de abrir o Festival de Cannes de 2014, o filme de Dahan se viu em uma situação inusitada: os distribuidores americanos (os famigerados irmãos Weinstein, ex-Miramax) não gostaram do resultado final e exigiam uma nova montagem para a estreia nos EUA. O impasse estendeu-se tanto que somente um ano mais tarde o filme finalmente chegou ao mercado ianque - pela televisão, em uma terceira montagem, diferente da mostrada em Cannes e da realizada pelo produtor e roteirista Arash Amel para agradar aos Weinstein. O resultado de tanta briga? O filme foi praticamente ignorado pelo público.

Não merecia tal destino. Ainda que esteja bem longe das qualidades mostradas por Dahan em "Piaf", "Grace de Mônaco" é um filme honesto, sério, inteligente e avesso à tentação de ser apenas um amontoado de fofocas a respeito dos bastidores da realeza. Tampouco é uma cinebiografia convencional, que acompanha a trajetória da protagonista desde seus tempos de atriz consagrada - premiada com o Oscar por "Amar é sofrer" - até sua precoce morte em um acidente automobilístico em 1982. O roteiro de Arash Amel se concentra em um período bastante específico da vida da princesa - mais precisamente os meses de 1962 que a obrigaram a tomar partido de sua vida como mãe e esposa em detrimento de uma volta à Hollywood proposta por Hitchcock - e espertamente faz um interessante paralelo entre as questões diplomáticas a que Kelly era obrigada mesmo sem ter vocação para isso, e a séria crise entre Mônaco e a França, que, sob o comando de Charles De Gaulle, exigia o pagamento de impostos que poderia dar fim ao Condado. Infeliz no casamento com o Príncipe Rainier (Tim Roth, eficiente no papel), ela sente-se incapaz de cumprir as expectativas do marido e do povo, e o convite para estrelar "Marnie, confissões de uma ladra" serve de catalisador para uma crise também em sua relação.


Sentindo que voltar ao cinema poderia ser visto como uma espécie de descaso a seu papel como monarca - impressão enfatizada pelos discursos pouco incentivadores do marido e pelos conselhos de Francis Tucker (Frank Langella), um religioso americano que lhe serve de figura paterna - Kelly resolve recusar o convite de Hitchcock e dedicar-se à arte de ser uma princesa. Temerosa também de perder a guarda dos filhos em caso de divórcio, ela assume o papel mais importante de sua vida, apoiando o marido na época mais delicada de sua vida. Mesmo rejeitando seus ideais políticos e sociais e abdicando de sua personalidade forte - o que lhe aproximava da amiga Maria Callas (Paz Vega) - a bela se torna um exemplo de força e determinação quando resolve interferir na perigosa disputa com o presidente francês e se vê às voltas com traições políticas que envolvem pessoas muito mais próximas do que poderia imaginar. O atentado ao presidente De Gaulle é a deixa que ela precisa, então, para assumir as rédeas da situação.

Deixando claro que seu roteiro é inspirado em fatos reais, mas tratando-os de maneira ficcional, "Grace de Mônaco" se beneficia das enormes possibilidades dramáticas que rodeiam o universo da protagonista, oferecendo à Nicole Kidman a chance de brilhar em vários níveis. Quando interpreta a mulher insatisfeita com sua vida que deseja libertar-se da armadilha inclemente de ser uma pessoa pública, ela convence sem fazer esforço. Quando se transforma na deslumbrante e carismática princesa que ajuda a transformar a história - uma liberdade poética apropriada e escrita com delicadeza - ela transborda fascínio. E quando deixa transparecer através do olhar toda a sua frustração em relação a seus objetivos de caridade atrapalhados por interesses políticos, ela é intensa e verdadeira. Escorrega um pouco quando sua Grace Kelly tenta aprender os traquejos da vida de princesa - um tom leve que destoa do restante da narrativa - mas se recupera com maestria ao desfilar toda a majestade de uma mulher que descobriu na marra o que acontecia depois dos finais felizes dos contos de fada. Kidman é a alma do filme de Dahan. Merecia que o filme tivesse sido lançado decentemente e encontrado seu público.

sexta-feira

VIOLÊNCIA GRATUITA

VIOLÊNCIA GRATUITA (Funny games, 2007, Warner Independent Pictures, 111min) Direção e roteiro: Michael Haneke. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Monika Willi. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Rebecca Meis DeMarco. Produção executiva: Philippe Aigle, Carole Siller. Produção: Christian Baute, Chris Coen, Hamish McAlpine, Hengameh Panahi, Andro Steinborn. Elenco: Naomi Watts, Tim Roth, Michael Pitt, Brady Corbett, Devon Gearhart. Estreia: 20/10/07 (London Film Festival)

Em 1997, o cineasta austríaco Michael Haneke chocou o público ao narrar, em detalhes quase mórbidos, o ataque sem sentido e frio de uma dupla de adolescentes a uma família em sua casa no lago. Elogiado pelos quatro cantos do mundo, o filme acabou por chamar a atenção dos estúdios de Hollywood e, como é comum nesses casos, fez a transição para o cinema comercial norte-americano. Porém, um pequeno detalhe nas negociações fez toda a diferença no resultado final: Haneke manteve-se no comando do filme e, assim como Gus Van Sant fez com "Psicose", de Hitchcock, reconstruiu sua obra quadro a quadro, em uma literal refilmagem. No entanto, se Van Sant deu com os burros n'água com um filme sofrível, Haneke mostrou-se mais feliz em sua missão: a versão ianque de "Violência gratuita" consegue manter o tom de constante tensão do original, ao diferenciá-los basicamente pelo idioma.

A trama começa ensolarada e bucólica, com a chegada de uma família à sua casa de verão, onde pretendem passar as próximas semanas. Estáveis e felizes, George (Tim Roth), Ann (Naomi Watts) e seu filho pequeno (Devon Gearhart) mal conseguem se instalar em sua confortável casa de dois andares e repleta de conforto quando recebem a visita de dois jovens que se apresentam como amigos de seus vizinhos. Polidos e em tom suave, Paul (Michael Pitt) e Peter (Brady Corbett) chegam à propriedade para pedir alguns ovos emprestados, mas não demora para demonstrarem suas reais intenções: manter a família de refém, torturando-a aos poucos até exterminá-la por completo - não sem antes experimentar uma série aparentemente interminável de jogos de nervos enfatizado pela enorme distância que os separa dos demais moradores da região, únicas pessoas que poderiam interromper a tragédia anunciada.


Sem dar sossego ao público nem aos personagens, Haneke constroi um suspense psicológico aterrador, capaz de aterrorizar ao mais indiferente espectador justamente por não apelar para monstros ou assassinos mascarados como vilões. Ao eleger como ameaça dois jovens bem-apessoados, educados e aparentemente de boa instrução, o cineasta parece gritar que a civilização está a um passo da barbárie e que nem mesmo o sacrossanto recesso do lar é um lugar a salvo da delinquência juvenil - e que ela não está necessariamente ligada a diferenças sociais ou motivos menos banais do que um distorcido conceito de "diversão". Aliás, ao fazer do espectador voyeur do sofrimento alheio, ele também critica, de certa forma, a crescente onda de espetacularização da violência, que tornou-se ainda mais severa e brutal com a virada do século e a popularização da Internet e seus vídeos de gosto duvidoso. Para sublinhar essa sua teoria, ele não hesita em intercalar à seriedade do roteiro alguns momentos em que os psicóticos conversam com a câmera (ou seja, com os espectadores) e, em uma cena antológica, faz com que um deles utilize o controle remoto para reverter uma situação negativa - um rewind macabro e, ironicamente, bem-humorado.

Com a ingrata missão de substituir os atores do filme original, o elenco escalado por Haneke para sua refilmagem consegue manter o mesmo grau de consistência da versão austríaca, especialmente Naomi Watts e Tim Roth, que transmitem todo o desespero da situação de seus personagens com a competência de quem já tem indicações ao Oscar no currículo. Michael Pitt e Brady Corbett, por sua vez, não fazem feio, explorando o visual imaculado de seus personagens - roupas brancas e luvas - para oferecer ao público uma sensação de claustrofobia e angústia crescentes. É especialmente brilhante também o fato de Haneke manter fora das câmeras as cenas de maior violência física - um assassinato só é percebido pelo barulho distante que se ouve quando um dos criminosos está na cozinha fazendo um lanche e pelo sangue no aparelho de televisão - e, com isso, obrigar a plateia a completar as informações com sua própria imaginação (que, todos sabem, é sempre muito mais chocante do que a realidade).

Uma refilmagem não apenas decente, mas do mesmo nível do original, "Violência gratuita" é um dos filmes de suspense mais inteligentes, aterradores e originais de seu tempo. Uma pequena obra-prima que já dava mostras do quão longe Michael Haneke conseguiria chegar poucos anos depois. Imperdível!

segunda-feira

ÁGUA NEGRA

ÁGUA NEGRA (Dark water, 2005, Touchstone Pictures, 105min) Direção: Walter Salles. Roteiro: Rafael Yglesias, roteiro original de Hideo Nakata, Takashige Ichise, romance de Kôji Suzuki. Fotografia: Affonso Beato. Montagem: Daniel Rezende. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Thèrése DePrez/Nick Evans, Clive Thomasson. Produção executiva: Ashley Kramer. Produção: Doug Davison, Roy Lee, Bill Mechanic. Elenco: Jennifer Connelly, John C. Reilly, Tim Roth, Pete Postletwhaite, Dougray Scott, Camryn Manheim, Ariel Gade. Estreia: 27/6/05

Ainda parte de uma onda que adaptava filmes de terror orientais para o paladar do público (em especial o americano), este "Água negra" é o primeiro filme hollywoodiano do brasileiro Walter Salles depois da boa receptividade de "Diários de motocicleta" (que chegou a levar um Oscar de melhor canção). No entanto, a boa vontade da crítica ianque e do público em geral não se repetiu dessa vez. Refilmagem livre de uma obra japonesa, o filme naufragou nas bilheterias e ainda amargou uma rejeição inexplicável da imprensa de modo quase geral.


Quase inexplicável, na verdade. Levando-se em consideração o quanto obtusa a crítica americana pode ser em algumas ocasiões, o dito fracasso de "Água negra" era até esperado. Afinal de contas, um filme de terror quase sem sustos, com um clima opressivo e claustrofóbico mas sem nada, absolutamente nada de sangue e com uma protagonista torturada por um passado traumático que não envolve psicopatas mascarados só podia mesmo dar com os burros n'água. O diretor Walter Salles e o roteirista Alfredo Yglesias nadaram contra a corrente dos filmes de horror que insistiam em lotar as salas de exibição. E por isso mesmo criaram uma dos melhores e mais angustiantes obras do gênero a surgir em muito tempo.



Lembrando constantemente o clássico "O bebê de Rosemary", de Roman Polanski - principalmente devido a seu clima e sua preferência em focar o psicológico em detrimento do físico - o filme começa quando a jovem Dahlia Williams (Jennifer Connelly, bela e melhor atriz como nunca), recém divorciada, se muda com a filha pequena Ceci (a ótima atriz miriam Ariel Gade) para um prédio soturno, distante alguns minutos de Manhattan. O apartamento onde elas vão morar tem um vazamento no teto e, enquanto Dahlia briga na justiça pela guarda da menina, ele começa a aumentar cada vez mais, na mesma medida em que ela volta a ter pesadelos com sua mãe relapsa. Quando sua filha passa a falar de uma amiga imaginária chamada Natasha, Dahlia entra em colapso.

A ambientação lúgubre do filme de Salles funcina quase como uma personagem em si. O prédio, cada vez mais úmido a medida em que Dahlia entra em suas crises psicológicas, a fotografia escura e sombria do brasileiro Affonso Beatto e a trilha sonora de Angelo Badalamenti (colaborador frequente de David Lynch) colaboram de forma impecável com todo o clima de angústia e solidão proposto pelo roteiro. Ao invés de assustar a audiência a cada cinco minutos, "Água negra" prefere apresentar um estudo sobre traumas do passado, sobre a depressão e sobre o terror que cada um carrega dentro de si. Não é à toa que fracassou. Mas é um filme excelente, digno de ser redescoberto e aplaudido pelos fãs de bom cinema.

sábado

TODOS DIZEM EU TE AMO

TODOS DIZEM EU TE AMO (Everyone says I love you, 1996, Miramax Films/Buena Vista Pictures/Magnolia Productions, 101min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo DiPalmo. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Elaine O'Donnell. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Julia Roberts, Goldie Hawn, Alan Alda, Drew Barrymore, Edward Norton, Tim Roth, Natasha Lyonne, Lukas Haas, Natalie Portman, Billy Crudup, Gabby Hoffman. Estreia: 06/12/96

Imaginar um musical dirigido por Woody Allen pode parecer tão difícil quanto visualizar um filme de terror comandado por John Ford. Mas é exatamente isso que "Todos dizem eu te amo" é. Ao homenagear suas três cidades preferidas (Nova York, Paris e Veneza), Allen construiu uma deliciosa comédia musical, onde suas personagens cantam e dançam do nada - da mesma forma que ocorria nos clássicos do gênero - enquanto vivem suas histórias de amor, narradas no mesmo tom sarcástico e sofisticado de suas obras anteriores, que o colocaram na posição privilegiada de ser um dos mais autorais cineastas norte-americanos.

A bem da verdade, o único fator que diferencia "Todos dizem eu te amo" do resto da filmografia de Allen é sua opção em utilizar algumas clássicas canções populares dos EUA em diálogos - mas por "populares" entenda-se conhecidos dentro de um restrito nicho de eruditismo que de certa forma o afasta de um sucesso mais amplo junto ao público. As músicas entoadas pelos atores escolhidos pelo diretor - que mais uma vez utiliza-se de um elenco à prova de qualquer crítica - são pérolas do cancioneiro americano, com obras de Cole Porter e Rodgers & Hart, entre outros menos famosos. E são cantadas sem preocupações em encantar os ouvidos da audiência. A proposta de Allen é justamente o oposto dos musicais tradicionais: seus atores não treinaram a voz e só souberam que estavam escalados para um musical depois de ter o contrato assinado. Dessa forma, nomes como Edward Norton, Goldie Hawn e Julia Roberts entoam desajeitadamente suas dores de amor sem maiores enfeites de pós-produção (apenas Drew Barrymore salvou-se do drama, convencendo o diretor que não tinha a menor condição de cantar...) E, por incrível que pareça, justamente essa canhestra opção é que diverte o público.


A trama do filme segue o estilo Woody Allen de sempre: Steffi (Goldie Hawn) e Bob Dandridge (Alan Alda) formam um bem-sucedido casal que vive em um amplo apartamento muitíssimo bem localizado em Nova York. Sua numerosa família passa por problemas amorosos, narrados por DJ (Natasha Lyonne), filha de Steffi com seu ex-marido Joe Berlin (Woody Allen), que mora em Paris. A filha mais velha de Bob, Skylar (Drew Barrymore), acaba de ficar noiva do mauricinho Holden Spencer (Edward Norton), mas começa a ter dúvidas a respeito do relacionamento quando conhece Charles Ferry (Tim Roth), um ex-presidiário protegido por Steffi. Enquanto isso, Joe, durante uma viagem à Veneza com DJ, se encanta por Von (Julia Roberts), uma americana de cujos desejos e aspirações ele tem conhecimento através dos atos de espionagem da filha.

Com uma fotografia carinhosa que abraça com paixão as cidades escolhidas pelo cineasta, "Todos dizem eu te amo" é uma declaração de amor ao ato de estar-se apaixonado. As histórias românticas contadas pelo roteiro simples de Allen tem em comum a luta das personagens por sua felicidade, mesmo que para isso tenham que quebrar a cara constantemente. Apesar de alguns diálogos bastante espertos, dessa vez Woody não capricha no enredo, preferindo dedicar sua atenção aos números musicais agradáveis e ágeis - além de divertidamente próximos da realidade. Mesmo assim, a fantasia toma conta quando o fantasma do patriarca da família Dandridge une-se a outros espectros para cantar um hino à vida e Goldie Hawn flutua no ar durante um número de dança em Paris. Para os detratores de Allen, que o consideram maçante, é um prato cheio. Para os fãs, que admiram seu bom-gosto e delicadeza, é uma festa para os olhos.

"Todos dizem eu te amo" é um típico filme de Woody Allen, ainda que, paradoxalmente, seja diferente de todos os demais. Não recomendável para iniciantes na obra do cineasta, é, no entanto, um oásis de criatividade diante da falta de originalidade do cinema americano. E não é sempre que vemos Edward Norton cantando e dançando "My baby just cares for me" em uma joalheria....

PULP FICTION - TEMPO DE VIOLÊNCIA

PULP FICTION, TEMPO DE VIOLÊNCIA (Pulp fiction, 1994, Miramax Films/Jersey Films/A Band Apart, 154min) Direção: Quentin Tarantino. Roteiro: Quentin Tarantino, histórias de Quentin Tarantino e Lawrence Bender. Fotografia: Andrzej Sekula. Montagem: Sally Menke. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Produção: Lawrence Bender. Elenco: John Travolta, Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Uma Thurman, Harvey Keitel, Christopher Walken, Tim Roth, Amanda Plummer, Maria de Medeiros, Ving Rhames, Frank Whaley, Quentin Tarantino, Alexis Arquette. Estreia: Maio de 1994 (Festival de Cannes)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator (John Travolta), Ator Coadjuvante (Samuel L. Jackson), Atriz Coadjuvante (Uma Thurman), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro Original
Palma de Ouro no Festival de Cannes (Melhor Filme)

Já faz mais de quinze anos que "Pulp fiction" levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e sua influência sobre o cinema americano - e mundial - ainda está longe de arrefecer. Primeiro filme de Quentin Tarantino depois de sua bombástica estreia - o violento "Cães de aluguel" - "Pulp fiction" pegou o mundo de surpresa ao subverter praticamente todas as regras pré-concebidas do cinemão comercial e apresentar um painel cru, engraçado e amoral de pessoas que circulam em um universo particularmente interessante ao cineasta. Desfilam pela tela - por cerca de duas horas e meia de duração - assassinos de aluguel, gângsteres de esquina, boxeadores fracassados e junkies irremediáveis. Vindo da cabeça de Tarantino - dono de um enciclopédico conhecimento sobre filmes B - não é de se estranhar nenhum detalhe de "Pulp fiction". O que é de deixar qualquer um surpreso é o fato do filme ter chegado pertinho de ganhar o Oscar máximo. Não chegou lá - ficou "apenas" com a estatueta de roteiro original - mas só concorrer ao lado de obras certinhas - excelentes, sem dúvida, mas pouco inovadoras - como "Forrest Gump" e "Um sonho de liberdade", já é motivo de choque.


Quentin Tarantino - assim como David Lynch e Pedro Almodovar - é uma espécie de deus de seu próprio universo. Em seus filmes qualquer coisa é possível, qualquer absurdo é compreensível e qualquer personagem é crível. Dentro de seu específico mundo - decorado e sonorizado com uma mistura de anos 60, 70 e 80 aparentemente sem nexo - ele conduz o espectador a situações bizarras sem dar espaço a questionamentos supérfluos. É somente dentro da obra sui generis do cineasta que matadores verborrágicos em vias de converter-se cruzam o caminho de foragidos ameaçados de morte que adiam a fuga para correr atrás de relíquias familiares - e que dão de cara com bizarros estupradores sadomasoquistas. Sim, isso é "Pulp fiction". Isso e muito mais.

Narrado fora de ordem cronológica - artifício que funciona à perfeição aqui, mas que virou quase uma praga em seu rastro, uma vez que qualquer filme "moderno" a utilizou sem parcimônia desde então - "Pulp fiction" começa apresentando um casal de assaltantes, Pumpkin (Tim Roth) e Honey Bunny (Amanda Plummer), que decide dar uma virada na vida e partir para ações mais ambiciosas e menos perigosas. Antes mesmo que sua história tenha um desfecho, o público é levado a conhecer Vincent Vega (John Travolta no mais consistente retorno de sua carreira) e Jules Winfield (Samuel L. Jackson), em vias de cumprir uma "missão" para seu chefe, o temível Marsellus Wallace (Ving Rhames). Tão logo o trabalho dos dois companheiros é finalizado, começa a história do encontro entre o desajeitado Vincent com Mia (Uma Thurman), a esposa de seu patrão, uma ex-atriz apaixonada por drogas pesadas que o leva a um pesadelo noturno ao sofrer uma overdose acidental. Em seguida, somos jogados na aventura de Butch Coolidge (Bruce Willis), um boxeador que, desafiando o combinado com seus contratadores - entregar uma importante luta - foge em disparada rumo aos braços da namorada, Fabienne (Maria de Medeiros), mas é obrigado a fazer uma retirada estratégica para recuperar o relógio de ouro que pertenceu a seu avô e a seu pai - só para ser vítima de um estranho sequestro ao lado de seu inimigo. E para finalizar tudo, Jules e Vincent são obrigados a chamar o eficiente Mr. Wolf (Harvey Keitel) para resolver um grave e sangrento acidente provocado com um tiro disparado sem querer.



Mesmo hoje, depois de dezenas de imitações baratas e sofríveis, "Pulp fiction" se mantém como revolucionário e impactante. Seu texto afiado (e principalmente repleto de uma naturalidade rara), sua trilha sonora sensacional (impossível não lembrar de sequências inteiras ao ouvir algumas de suas canções), sua absoluta falta de compromisso com o déja-vu e seu humor sardônico são marcas registradas de Tarantino e não são encontradas em quaisquer filmes que beberam de sua fonte. O estilo de Tarantino é legítimo, ao contrário de seus copiadores, e isso faz toda a diferença: o texto de "Pulp fiction soa orgânico e jamais forçado e encontra em seus atores os intérpretes ideais. E é nesse quesito que o cineasta mais influente da década de 90 se sobressai gritantemente: sem seu elenco, escalado a dedo, "Pulp fiction" provavelmente perderia muito de seu impacto.

Ainda que tenha sido John Travolta o mais festejado dos atores do filme - em um retorno que lhe deu uma merecida indicação ao Oscar - é difícil não se deixar fascinar pelos olhos hipnotizantes de Samuel L. Jackson (dono dos diálogos mais substanciais e cultuados da obra) ou seduzir pelo charme de Uma Thurman (que só aceitou fazer parte do elenco depois que o próprio diretor leu o roteiro todo pelo telefone). Tanto Jackson quanto Thurman concorreram à estatueta mais cobiçada do cinema e poderiam facilmente ter vencido. E é um duro golpe aos detratores que insistem em dizer que Tarantino não é bom diretor de atores ver o que ele consegue fazer com Bruce Willis, por exemplo, na melhor atuação de sua carreira, ou com Ving Rhames, um ator pouco conhecido alçado à categoria de assustador com sua performance como Marsellus Wallace - um gângster perigoso flagrado pelas câmeras hiperativas do cineasta em um momento de extrema fragilidade. E isso que nem é preciso falar de nomes consagrados como Harvey Keitel, Christopher Walken e Tim Roth, que apenas reiteram seu talento mesmo em pequenos papéis.

A força de "Pulp fiction" reside em suas inúmeras qualidades que, somadas, fazem dele o filme fundamental de sua época. Parte do inconsciente coletivo de uma legião de fãs da sétima arte, a obra-prima de Quentin Tarantino - se bem que quase todos os seus filmes o são - é um perfeito exemplo do quão inteligente, excitante e corajoso o cinema americano pode ser. Para ver, rever e trever, sempre com a mesma sensação de ineditismo.

quinta-feira

CÃES DE ALUGUEL

CÃES DE ALUGUEL (Reservoir dogs, 1992, Miramax Films, 99min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Andrzej Sekula. Montagem: Sally Menke. Figurino: Betsy Heimann. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Casting: Ronnie Yeskel. Produção executiva: Richard N. Gladstein, Monte Hellman, Ronna B. Wallace. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Harvey Keitel, Tim Roth, Michael Madsen, Lawrence Tierney, Chris Penn, Steve Buscemi, Quentin Tarantino, Edward Bunker. Estreia: 08/10/92

Poucas vezes um filme de estreia causou tanta balbúrdia quanto "Cães de aluguel", primeiro trabalho do ex-balconista de videolocadora Quentin Tarantino por trás das câmeras. Logo de cara o jovem (então com 32 anos) foi comparado a ninguém menos que Martin Scorsese, principalmente devido à sua temática e violência. E o pior (ou melhor, no caso) é saber que todos os elogios que recebeu foram amplamente merecidos. Realizado com pouco mais de um milhão de dólares, o filme de Tarantino em nenhum momento deixa transparecer seu orçamento irrisório. O motivo? Seu foco no texto, nos atores e na tensão constante.

Escrito em três semanas e meia e filmado em 35 dias, "Cães de aluguel" é talvez o mais influente filme independente americano de todos os tempos. Estiloso, cru, empolgante e realista ao extremo, é também um policial excitante e enxuto, que não deixa a plateia respirar nem por um minuto depois de seu hilário texto inicial - onde as personagens discutem teorias a respeito de canções de Madonna. Depois dos créditos de abertura, a ação começa e ganha um doce quem conseguir desgrudar os olhos da tela.


Os "cães de aluguel" do título são um grupo de bandidos reunidos por Joe Cabot (Lawrence Tierney) para o assalto a uma joalheria. Todos chamados por pseudônimos para que não se saiba nada a respeito um do outro, eles armam um plano aparentemente perfeito que dá muito errado. A chegada da polícia, um tiroteio e algumas vítimas fatais - inclusive entre os criminosos - levam os sobreviventes a um galpão abandonado, onde eles haviam combinado de encontrar-se. Lá, o veterano Mr. White (Harvey Keitel) tenta acalmar Mr. Orange (Tim Roth), mortalmente ferido no estômago e, ao lado do nervoso Mr. Pink (Steve Buscemi), tenta descobrir quem, no grupo, é o informante da polícia. A chegada do psicótico Mr. Blonde (Michael Madsen), com um policial de refém, deixa as coisas ainda mais tensas. É somente quando Cabot e seu filho, Nice Guy Eddie (Chris Penn) chegam que tudo se encaminha para um final extremamente violento.



Co-produzido por Harvey Keitel - que leu o roteiro e apaixonou-se à primeira vista - "Cães de aluguel" já demonstra o estilo que caracterizaria a obra de Quentin Tarantino nos anos subsequentes: os diálogos rápidos e espertos (recheados de cultura pop), a edição frenética (a cargo de Sally Menke, morta precocemente este ano), a trilha sonora composta por pérolas trash e principalmente a escolha acertadíssima do elenco. O próprio cineasta atua no filme, como Mr. Brown, mas ambicionava o papel de Mr. Pink, interpretado com propriedade por Steve Buscemi - depois que George Clooney (ainda um ninguém na indústria) foi recusado. É admirável perceber como os atores escolhidos pelo diretor casaram perfeitamente com seus papéis. Tim Roth e Harvey Keitel tem uma química invejável, Chris Penn tem o melhor trabalho da carreira e Michael Madsen merece louvores à parte pela composição inesquecível do psicótico Mr. Blonde, dono da cena mais controversa de toda a obra.

Não houve quem tenha assistido a "Cães de aluguel" sem comentar - ou ao menos se chocar - com a famosa sequência em que Mr. Blonde tortura o policial feito de refém - a ponto de arrancar-lhe uma orelha. Assustadora e quase explícita, ela foi motivo de conversas em mesas de bares, discussões sobre a violência no cinema e proporcionou a Michael Madsen o momento mais marcante de sua carreira. A imagem de sua personagem tomando calmamente um milk-shake antes de partir para a ignorância fria e calculada é de arrepiar qualquer cinéfilo, que tem, inclusive, em "Cães de aluguel" algumas imagens marcadas na retina para sempre.


O grupo de criminosos vestidos de paletó e gravata no início do filme - que virou inclusive parte do logotipo da produtora de Tarantino, A Band Apart - Harvey Keitel dando pontapés em um Steve Buscemi caído no chão e a poderosa imagem de quatro dos "amigos" apontando armas uns para os outros no clímax são cenas de grande impacto visual e uma mostra do talento inegável do diretor já em seu primeiro trabalho - um talento que, apesar de alguns detratores dizerem o contrário, foi apenas se refinando com o tempo e a maturidade. E o roteiro - trabalhado fora de ordem cronológica, outra característica de Tarantino - é conciso, inteligente e verossímil sem, porém, apelar para a previsibilidade.


"Cães de aluguel" é uma das melhores estreias da história do cinema, quer goste-se ou não. Rendeu imitações, homenagens e citações. Mas mantém seu frescor e força apesar da distância do tempo.
 

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...