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quinta-feira

PRESO NA ESCURIDÃO

 


PRESO NA ESCURIDÃO (Abre los ojos, 1997, Sogetel/Las Producciones de Escorpion/Les Films Alain Sarde, 119min) Direção e roteiro: Alejandro Amenábar. Fotografia: Hans Burmann. Montagem: María Elena de Rozas. Música: Alejandro Amenábar, Mariano Marín. Figurino: Concha Solera. Direção de arte/cenários: Wolfgang Burmann/Carola Angula. Produção: Fernando Bovaira, José Luis Cuerda. Elenco: Eduardo Noriega, Penélope Cruz, Fele Martínez, Chete Lera, Najwa Nimri. Estreia: 17/12/97

Quando "Os outros" estreou, em 2001, o mundo todo ficou embasbacado com o talento de seu diretor/roteirista/produtor, o chileno Alejandro Amenábar. Porém, se boa parte do público que lotou as salas de cinema tinha a sensação de estar descobrindo um novo talento, um outro tipo de plateia já sabia o que esperar do cineasta: aqueles que conheciam suas obras anteriores, o perturbador "Morte ao vivo"- que lhe rendeu o Goya de melhor diretor estreante de 1996 - e o surpreendente "Preso na escuridão", que, lançado em 1997, colocou seu nome no mapa dos mais promissores realizadores do final do século. Ao misturar romance, suspense e ficção científica de forma orgânica e intrigante, Amenábar não apenas chamou a atenção da crítica, mas também de gente poderosa: impressionado com a trama estrelada por Eduardo Noriega e Penélope Cruz (por quem também se encantaria romanticamente), o astro Tom Cruise assumiu a produção e a protagonização de um remake americano e financiou o primeiro filme do jovem diretor em Hollywood - justamente "Os outros", com sua então esposa Nicole Kidman. O casamento de Kidman e Cruise acabou (assim como o relacionamento do ator com Penélope Cruz), o remake "Vanilla sky" (2001) foi um fiasco artístico e Amenábar ganhou um Oscar em 2005 pelo impecável "Mar adentro", mas nenhum de seus filmes posteriores teve a mesma coragem narrativa de "Preso na escuridão".

A trama, que segundo o diretor, surgiu durante pesadelos oriundos de uma gripe, é propositalmente elíptica, repleta de simbolismos e peças soltas que só fazem sentido no desfecho - quando o quebra-cabeças finalmente é revelado em sua totalidade. Tudo gira em torno de César (Eduardo Noriega), um jovem que, aos 25 anos de idade, tem tudo que qualquer um poderia ambicionar: é bonito, rico, charmoso, invejado - até mesmo pelo melhor amigo, Pelayo (Fele Martinez) - e conquista, sem muito esforço, qualquer mulher que deseja. E são justamente duas mulheres que formam o ponto de virada em sua vida sem sobressaltos. A primeira é a bela Sofía (Penélope Cruz), a quem conhece na festa de seu aniversário - e por quem se apaixona perdidamente - e a outra é Nuria (Najwa Nirmi), uma ex-namorada possessiva e obcecada que, ao sentir-se rejeitada por ele, tenta matá-lo junto com ela em um violento acidente de carro. Vivo mas desfigurado, César passa sem sucesso por uma série de cirurgias plásticas, sem nunca voltar a ter o mesmo rosto de antes, o que o deixa deprimido e revoltado. As coisas começam a mudar, no entanto, depois de uma noite em que, bêbado, ele chega a desmaiar em uma sarjeta: de uma hora para outra, César se vê novamente com a aparência antiga, ao lado de Sofia e levando a vida que sempre sonhou. Uma tragédia, porém, mais uma vez altera seu destino, e caberá a ele - preso por homicídio - tentar montar o quebra-cabeças em que se transformou sua existência.

 

O roteiro de Amenábar é um primor - assim como sua direção, que evita a previsibilidade e mergulha o espectador em uma atmosfera de pesadelo constante. Contando com a inspirada atuação de Eduardo Noriega, que transita com talento entre o playboy inconsequente e a trágica vítima de um amor obsessivo, o cineasta conduz sua trama com extrema segurança, utilizando-se, para isso, de um visual que acentua a sensação de labirinto em que se encontram seus personagens. É digno de nota, também, a forma com que o cineasta embaralha as cartas de seu jogo ao multiplicar a nuances dramáticas de cada jogador, oferecendo a seu elenco (uma jovem Penélope Cruz incluída) uma série de possibilidades, como um jogo de espelhos que reflete vários prismas sem deixar exatamente claro qual deles é o real. A trilha sonora discreta - também composta pelo diretor - pontua com precisão cada diálogo, cada sequência, cada reviravolta, e a edição - fator crucial para a manutenção do suspense - costura o enredo sem deixar pontas soltas (e, ao mesmo tempo, sem precisar recorrer a explicações óbvias, mesmo no angustiante clímax). Mesclando elementos de thriller e ficção científica, Amenábar homenageia ambos os gêneros ao mesmo tempo em que insere, dentro deles, uma personalidade moderna e uma personalidade muito bem-vinda - coisa que o remake dirigido por Cameron Crowe não soube fazer justamente por deixar de lado o fator surpresa do original.

Um belo cartão de visitas de um cineasta corajoso, com boas ideias e um raro domínio do suspense, "Preso na escuridão" recebeu dez indicações ao Goya (o Oscar espanhol), incluindo melhor filme, diretor, roteiro e ator, e demonstrou a força do cinema realizado fora de Hollywood, sem necessidade de prender-se a obrigações comerciais ao mesmo tempo em que não abandona completamente elementos clássicos de gêneros queridos pelo público. E se não bastasse tudo isso, ainda foi o filme que apresentou a beleza de Penélope Cruz para audiências internacionais - ainda demoraria para que ela deixasse de ser apenas uma linda mulher para se tornar uma atriz de prestígio e respeito, mas quando Sofía aparece diante de César, com seu sorriso irresistível, ninguém na plateia é capaz de julgar o rapaz pelos atos obsessivos que virão a seguir. Poucas atrizes tem esse poder!

segunda-feira

E AGORA, MEU AMOR?

E AGORA, MEU AMOR? (Fools rush in, 1997, Columbia Pictures, 109min) Direção: Andy Tennant. Roteiro: Katherine Reback, estória de Joan Taylor, Katherine Reback. Fotografia: Robbie Greenberg. Montagem: Roger Bondelli. Música: Alan Silvestri. Figurino: Kimberly A. Tillman. Direção de arte/cenários: Edward Pisoni/Leslie Morales. Produção executiva: Michael McDonnell. Produção: Doug Draizin. Elenco: Matthew Perry, Salma Hayek, Jill Claybourgh, Jon Tenney, Carlos Gomez, Siobhan Fallon, John Bennett Perry. Estreia: 14/02/97

No começo de 1997, poucos programas de tv eram tão populares e queridos quanto "Friends" - cujo sucesso só fez aumentar ainda mais nas temporadas seguintes. Nenhuma surpresa, portanto, que seus astros tentassem o caminho natural rumo em direção ao cinema, ainda considerado um veículo mais nobre e com mais status. Enquanto Jennifer Aniston já começava a brilhar em comédias românticas - como "Nosso tipo de mulher" (1996) e "Paixão de ocasião" (1997) -, Courteney Cox ganhava ainda mais fama com o primeiro capítulo de "Pânico" (1996) e Lisa Kudrow apostava na comédia, com "Romy & Michelle" (1997), o elenco masculino buscava arduamente ser reconhecido além de seus personagens mais célebres. Se David Schwimmer havia tentado a sorte no elogiado mas pouco visto "O primeiro amor de um homem" (1996) - ao lado de uma Gwyneth Paltrow pré-Oscar - foi Matthew Perry quem deu o passo mais bem-sucedido. Tudo bem que "E agora, meu amor?" não foi um sucesso avassalador de bilheteria - nem tampouco chegou a fazer barulho nas cerimônias de premiação do ano -, mas o romance dirigido por Andy Tennant conseguiu mostrar, ainda que de forma tímida, que o intérprete do sardônico Chandler Bing tinha mais a oferecer do que piadas ininterruptas. 

Simples e inofensivo, o filme de Tennant - que se especializaria em comédias românticas no decorrer dos anos 2000 - serve como um veículo perfeito para o carisma de Perry, um ator simpático e talentoso, capaz de provocar a identificação do público masculino sem maiores dificuldades. Na trama, ele interpreta Alex Whitman, um homem comum, que trabalha como supervisor no mercado de construção civil enquanto leva uma vida quase tediosa, se envolvendo aqui e ali em relações fugazes e sem profundidade. Uma dessas relações acontece durante uma viagem a Las Vegas, quando ele conhece a mexicana Isabel Fuentes (Salma Hayek) e passa a noite com ela. O que parecia apenas mais um caso passageiro logo se revela algo mais complicado, porém: alguns meses depois do encontro, a bela fotógrafa ressurge em sua vida com a notícia de que está grávida. Atônito com a novidade - e ciente de que a jovem não tem o menor interesse em interromper a gravidez, por motivos religiosos e morais -, Alex a pede em casamento. Mesmo diante do fato de que se conhecem muito pouco e que suas diferenças culturais e sociais podem ser um empecilho para o relacionamento, os dois se casam - e descobrem, com o passar dos meses, que estavam certos quanto às dificuldades de um compromisso tão precoce.

 

Se há alguma diferença entre "E agora, meu amor?" e dezenas de filmes do gênero é em sua tentativa - nem sempre feliz, mas bem intencionada - de retratar o choque cultural que nasce do encontro entre Alex e Isabel, duas pessoas de mundos cuja distância pode ser facilmente subestimada em um primeiro olhar. Alex tem uma relação quase distante com os pais (interpretados por Jill Claybourgh e John Bennett Perry, pai de Matthew também na vida real), enquanto Isabel tem a família - numerosa, ruidosa e onipresente - como base de sua existência. Isabel é católica fervorosa - e seu novo marido não é exatamente um sujeito religioso. Alex tem planos profissionais que pedem que ele more em Nova York; a futura mãe de seu filho não tem a menor intenção de abandonar Las Vegas e seu clamoroso clã. Tais diferenças - administráveis em um namoro, mas pouco remediáveis quando se começa uma família - formam o conflito que é praticamente todo o roteiro do filme. O problema é que, apesar de talentosa, a dupla central falha no principal: não há química entre o casal, e a paixão que surge entre eles soa pouco crível, tornando difícil o principal objetivo de uma comédia romântica, que é torcer pelo casal de protagonistas.

"E agora, meu amor?" é, na verdade, e em seu favor, um entretenimento despretensioso, que cumpre o que promete. Se não consegue ultrapassar os limites do mediano é somente porque o roteiro foge de qualquer ousadia narrativa e/ou profundidade dramática. Salma Hayek é linda - e em papel oferecido à Jennifer Lopez, que o recusou para estar em "Anaconda" (1997) -, mas não é exatamente uma atriz de grandes recursos (levaria ainda quase meia década para concorrer ao Oscar por "Frida" (2002)) e Matthew Perry, simpático e carismático, faz o que pode para extrair substância de um personagem muito aquém de seu talento cômico - e, segundo ele, foi durante as filmagens que um acidente de jetski aprofundou ainda mais seu vício em remédios controlados, problema que o atormentou durante décadas. Leve (até demais), "E agora, meu amor?" é o programa ideal para os fãs dos atores e do gênero. Mas não entrega mais do que se poderia esperar.

quinta-feira

PAIXÃO DE OCASIÃO


PAIXÃO DE OCASIÃO (Picture perfect, 1997, Warner Bros, 121min) Direção: Glenn Gordon Caron. Roteiro: Arleen Sorkin, Paul Slansky, Glenn Cordon Caron, estória de Arleen Sorkin, Paul Slansky, May Quigley. Fotografia: Paul Sarossy. Montagem: Robert Reitano. Música: Carter Burwell. Figurino: Jane Robinson. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Debra Schutt. Produção executiva: William Teitler. Produção: Erwin Stoff. Elenco: Jennifer Aniston, Kevin Bacon, Jay Mohr, Olympia Dukakis, Illeana Douglas, Kevin Dunn. Estreia: 01/8/97

Comédias românticas, via de regra, seguem algumas fórmulas - já consagradas e sem as quais os fãs do gênero se sentiriam órfãos. Uma dessas fórmulas (talvez a mais utilizada, mas sempre eficiente) é seguida quase à risca em "Paixão de ocasião", um dos primeiros sucessos no cinema de Jennifer Aniston - então já famosa por "Friends" mas ainda antes de seu célebre casamento com Brad Pitt. Dirigido por Glenn Gordon Caron, produtor executivo de televisão, mas com poucos trabalhos como cineasta, o filme, simpático e agradável, serviu para comprovar o carisma de Aniston, que se tornaria, com o passar dos anos, a mais bem sucedida integrante do elenco da série (ao menos na tela grande). Mesmo sem apresentar maiores novidades em seu enredo - e talvez justamente por isso -, a história de um triângulo amoroso surgido através de um mal entendido conquistou o público (em especial o feminino) com sua mistura de humor, romance, belas paisagens e uma trilha sonora moderna - em suma, a receita completa para uma bela sessão da tarde despretensiosa.

Kate (Jennifer Aniston) é uma jovem de 28 anos que trabalha em uma agência de publicidade de Nova York, ao lado do homem por quem é apaixonada, o galante Sam (Kevin Bacon). Ainda solteira apesar dos apelos de sua dramática mãe, Rita (Olympia Dukakis), que não vê a hora de ser avó, Kate está praticamente desistindo da vida amorosa quando percebe que nem mesmo sua vida profissional está andando pra frente devido a seu estado civil. Deixada de lado em uma campanha milionária somente por ser solteira - de acordo com seus chefes ela não tem a estabilidade necessária para que confiem a ela uma responsabilidade maior -, Kate acaba aceitando fazer parte de uma mentira criada por sua amiga e colega de trabalho Darcy (Illeana Douglas): de uma hora para outra, o cinegrafista Nick (Jay Mohr) - que vive de filmar eventos particulares em Massachussets - se torna seu noivo, graças a uma fotografia casual tirada em um casamento. Para manter a mentira, Kate convida Nick para visitá-la e acompanhá-la em um jantar de negócios - ele se apaixona de verdade por ela, que não percebe a situação por ainda estar obcecada por Sam, que repentinamente também passa a sentir-se atraído pela colega capaz de trair o noivo para ficar com ele.

 

As situações criadas pelo roteiro de "Paixão de ocasião" são deliciosas, tanto no que diz respeito aos problemas criados na vida de Kate por sua mentira quanto por seu encontro com Nick, que se demonstra uma pessoa adorável e muito mais apaixonante do que ela poderia prever. Ao contrário de seus colegas nova-iorquinos, esnobes e consumidos pelas carreiras, ela vê, no rapaz, alguém sensível e capaz de oferecer mais do que conversas sobre mercado financeiro e estabilidade profissional: delicado e atencioso, Nick é a antítese de Sam, egoísta, autocentrado e que só percebe Kate quando tem certeza de que ela, comprometida, não lhe cobrará mais do que noites de sexo escondido. Enquanto um mal entendido leva a outro, no entanto, a trama perde a oportunidade de discutir temas relevantes, como a posição da mulher no mercado de trabalho e o preconceito contra mulheres solteiras e independentes. Não chega a ser um demérito - afinal não parece ser a intenção do roteiro - mas soa a uma oportunidade perdida ignorar uma premissa tão cheia de possibilidades, principalmente porque, conforme é mostrado logo nas primeiras cenas, Kate é tão talentosa quanto qualquer um de sua agência, sendo casada ou solteira. Mas essa discussão praticamente inexiste no filme - e, levando-se em conta de que se trata de uma comédia romântica com o objetivo simples de entreter e deixar a plateia com um sorriso nos lábios, é algo perdoável e compreensível.

"Paixão de ocasião" é, para os ávidos consumidores do gênero, uma delícia. Atores fotogênicos e talentosos, um roteiro que não exige demais dos neurônios, um roteiro que trabalha os clichês com segurança e carinho e uma direção que não tenta sobrepujar os elementos de que dispõe. Correto e sem grandes deslizes, Glenn Gordon Caron - cujo maior crédito em cinema é "Love affair: segredos do coração" (1994), remake de "Tarde demais para esquecer" (1957) - conduz seu filme com elegância e, mesmo que pudesse inserir um pouco mais de leveza a seu ritmo, faz dele um programa sem contra-indicações. Em seu primeiro papel principal em um gênero que fez a glória de Meg Ryan, Jennifer Aniston mostra personalidade própria e carisma o bastante para alçar voos mais ambiciosos - como seu elogiado desempenho em "Cake: uma razão para viver", lançado em 2015 e que comprovou seu talento dramático.

terça-feira

FEROCIDADE MÁXIMA


FEROCIDADE MÁXIMA (Fierce creatures, 1997, Universal Pictures, 93min) Direção: Robert Young, Fred Schepsi. Roteiro: John Cleese, Iain Johnstone, ideia "The Fierce Animal Policy", de Terry Jones e Michael Palin. Fotografia: Ian Baker, Adrian Biddle. Montagem: Robert Gibson. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Hazel Pethig. . Direção de arte/cenários: Roger Murray-Leach/Peter Howitt, Stephenie McMillan, Brian Read. Produção executiva: Steve Abbott. Produção: John Cleese, Michael Shamberg. Elenco: Kevin Kline, Jamie Lee Curtis, John Cleese, Michael Palin. Estreia: 23/01/97

Em 1988, o mundo foi tomado de assalto por uma comédia despretensiosa que, unindo o senso de humor nonsense do grupo britânico Monthy Phyton com o cinismo norte-americano, conquistou público (com uma renda acima de 60 milhões de dólares de arrecadação) e a crítica (com três indicações ao Oscar, incluindo direção e roteiro original, levou pra casa a estatueta de ator coadjuvante). "Um peixe chamado Wanda" mesclava, de forma inteligente e ácida, piadas verbais e visuais com uma velocidade estonteante, deu à Jamie Lee Curtis um dos melhores papéis de sua carreira e mostrou às plateias a veia cômica de Kevin Kline, até então celebrado por papéis dramáticos em filmes como "A escolha de Sofia" (1982) , "O reencontro" (1983) e "Um grito de liberdade" (1987). Desde então, entusiasmados com o êxito, os fãs da produção tinham apenas uma pergunta em mente: "quando eles irão se reunir novamente?" Demorou, mas aconteceu. Quase uma década depois, estreava nos cinemas "Ferocidade máxima". A notícia boa: quase todo mundo da equipe original estava de volta (com exceção do diretor Charles Crichton). A notícia ruim: apesar de algumas boas ideias e do talento inquestionável de todos os envolvidos, o filme não apresentava o mesmo frescor de "Um peixe" e naufragou solenemente nas bilheterias mesmo com as mudanças exigidas depois de uma série de exibições-teste.

Talvez o maior problema no caminho de "Ferocidade máxima", além da tentativa de emplacar um filme de piada única estendida à exaustão, tenha sido o excesso de expectativas. Depois de quase dez anos de espera, o público estava ávido por gargalhar à exaustão com as novas besteiras da trupe capitaneada por John Cleese e Michael Palin - este com um papel ainda menor do que o que lhe coube em "Um peixe chamado Wanda". O que encontrou foi o resultado de uma produção problemática, que necessitou de refilmagens depois de pronta - com um novo diretor, Fred Schepsi - e estreou quase um ano depois da data programada. Dotado de algumas cenas realmente engraçadas - em especial aquelas que envolvem o mal-entendido a respeito das aventuras sexuais de Rollo Lee (Michael Palin) - e uma ideia central das mais inusitadas, o filme assinado por Robert Young deixa a desejar principalmente devido à irregularidade do roteiro, que não permite ao espectador se envolver suficientemente com os personagens, e à direção sem os toques de genialidade de Charles Crichton - indicado ao Oscar por "Um peixe chamado Wanda" e deixado de fora do novo filme pela idade avançada de 84 anos de idade, o que prejudicaria o sinal verde para o projeto). Kevin Kline - que ganhou um merecido Oscar pelo filme anterior - faz papel duplo, mas está longe de sua melhor forma, prejudicado por personagens pouco simpáticos, e Jamie Lee Curtis tampouco é explorada em todo o seu potencial, sendo relegada quase a segundo plano. Resta John Cleese, que arranca o máximo de cada cena, utilizando sua experiência de décadas para valorizar cada diálogo e gesto. 

A trama central é um achado: um poderoso e irascível empresário, Rod McCain (Kevin Kline), acaba de comprar, dentro de um de seus vários negócios, um zoológico londrino, o London Marwood Zoo, e contrata para dirigí-lo o tímido e desajeitado Rollo Lee (John Cleese), que tem a dura missão de encontrar uma maneira de aumentar a lucratividade do local. Lee tem a ideia de acabar com os animais dóceis e dedicar o zoológico apenas a feras de alta periculosidade, o que imediatamente causa revolta nos funcionários mais antigos, principalmente no veterano Adrian Malone (Michael Palin), que vê na novidade o risco de perder o emprego. As coisas ficam ainda mais complicadas quando chegam a Londres o filho de Rod, o frívolo Vince (também Kevin Kline) e a sensual Willa Carter (Jamie Lee Curtis), recém-contratada para trabalhar com Lee - por quem se sente surpreendentemente atraída ao julgá-lo um sedutor contumaz. Juntos, Vince e Willa irão testemunhar a batalha dos funcionários, capazes de qualquer coisa para provar que até mesmo os coelhinhos do zoológico são ferozes e perigosos.

Algumas cenas de "Ferocidade máxima" são sensacionais: ao descobrir a armação dos empregados, Lee tenta desmascará-los à custa de uma visitante ferida do zoológico; Willa e Vince ouvem Lee falando com os animais que resgatou e julgam que ele está acompanhado de várias mulheres; uma aranha venenosa escapa enquanto Malone está escondido em um armário para gravar conversas comprometedoras. Infelizmente elas não são o bastante para fazer de "Ferocidade máxima" um sucessor à altura de "Um peixe chamado Wanda", cuja estrutura era muito mais firme e redonda. O elenco ainda é seu maior trunfo - apesar de nem sempre ser completamente explorado -, mas a direção carece de inventividade. Ficam patentes a confusão de bastidores, a troca de diretores, a indecisão do roteiro em focar no zoológico ou nos problemas entre os McCain. É uma pena que todo o potencial da produção não tenha sido atingido e que não tenha se tornado mais um clássico instantâneo. É uma boa comédia, capaz de arrancar uma ou outra gargalhada - mas em comparação com seu antecessor, não deixa de ser decepcionante, apesar de suas qualidades óbvias. 

sexta-feira

ESTRADA PERDIDA


ESTRADA PERDIDA (Lost highway, 1997, CiBy 2000, 134min) Direção: David Lynch. Roteiro: David Lynch, Barry Gifford. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Mary Sweeney. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Patricia Norris/Leslie Morales. Produção: Deepak Nayar, Tom Sternberg, Mary Sweeney. Elenco: Bill Pullman, Balthazar Getty, Patricia Arquette, Robert Blake, Louis Eppolito, Gary Busey, Natasha Gregson-Wagner. Estreia: 15/01/97 (França) 

A maneira com que ideias surgem na mente de criadores é sempre uma incógnita. Autores costumam ser inspirados por canções, acontecimentos reais, pessoas que conhecem, livros ou até mesmo por sonhos - e nenhum deles se arriscaria a afirmar sua receita como a melhor ou mais acertada. Que o diga David Lynch, que viu o roteiro de seu "Estrada perdida" surgir de dois acontecimentos completamente aleatórios. Segundo o cineasta, tudo começou com um incidente estranho ocorrido em sua própria casa, quando uma voz desconhecida declarou, através do interfone, que uma pessoa que ele não conhecia estava morta - para simplesmente desaparecer depois da notícia. Além disso, durante o processo de escrita, Lynch teve (segundo ele mesmo, de forma inconsciente) a influência de um dos julgamentos mais rumorosos dos EUA na década de 1990: o caso O.J. Simpson, levado aos tribunais pelo duplo homicídio de sua ex-mulher e um amigo. De posse desses dois elementos díspares, um dos mais íntegros e fascinantes realizadores de Hollywood surgiu com seu oitavo longa-metragem, aquele que foi definido pela revista Entertainment Weekly como um dos mais assustadores filmes de todos os tempos. Cruel e angustiante na mesma medida, "Estrada perdida" é, também, um exercício de estilo dos mais impressionantes.

Enigmático como boa parte da filmografia de David Lynch, "Estrada perdida" já desnorteia o espectador de cara, assim como o faz com seus protagonistas, o saxofonista Fred Madison (Bill Pullman, colhendo os louros do sucesso de bilheteria de "Independence Day" (1996) e sua bela esposa, Renee (Patricia Arquette, morena): passando por uma série crise em seu casamento, enfatizada pelo constante ciúme de Fred, o casal ainda precisa lidar com a chegada constante de fitas de vídeo deixadas à sua porta, que mostram cenas do interior de sua casa. Nem mesmo a polícia é capaz de fazer algo para resolver a situação - que pode ou não estar relacionada ao violento assassinato de Renee, pelo qual seu marido acaba por ser responsabilizado e condenado. Se até então Lynch brincava com a percepção do público a respeito de seu par central de personagens - cujas personalidades não são aprofundadas propositalmente -, o segundo ato embaralha as cartas de forma radical: do nada, de dentro de sua cela, Fred se transforma em outra pessoa, mais jovem, com outro nome, outro rosto e outra profissão. A partir de então ele é Pete Dayton (Balthazar Getty), mecânico preso por crimes menores e que, fora da cadeia, irá se envolver em um romance arriscado com Alice (Patricia Arquette, dessa vez loura), amante de um perigoso gângster. Mas afinal de contas, qual a relação entre Fred Madison e Pete Dayton? Ou mais importante ainda: há alguma relação entre eles? E quem mandava as fitas para Madison e Renee? E quem é Dick Laurant - cujo anúncio de morte feito via interfone para o saxofonista dá início ao jogo?

Quem conhece a obra de David Lynch sabe que nem todas as perguntas criadas em suas tramas tem respostas óbvias - frequentemente cada espectador tem uma resposta própria e razoavelmente coerente com suas percepções. Em "Estrada perdida" não é diferente: amparado pela trilha sonora hipnótica de Angelo Badalamenti - em sua quarta colaboração juntos - e pela edição claustrofóbica de Mary Sweeney, o cineasta conduz a plateia por uma jornada aflitiva e aparentemente caótica cujos elementos só fazem sentido quando unidos em um panorama maior. Assim como faria em seus filmes seguintes, "Cidade dos sonhos" (2002) e "Império dos sonhos" (2006), o diretor apresenta suas armas gradativamente, jogando luz sobre detalhes que se repetem em circunstâncias contraditórias e/ou complementares. Um filme de Lynch não é apenas um passatempo esquecível: reafirmando seu modo peculiar de enxergar o mundo, o homem que fez o planeta se perguntar quem matou Laura Palmer - na antológica série "Twin Peaks" - faz de uma sessão de pouco mais de duas horas se transformar em uma experiência sensorial completa, em que nada é o que parece ser, personagens desafiam a lógica pré-estabelecida pelas regras narrativas e atores mostram lados até então novos de suas personas artísticas. É assim que Bill Pullman se transforma em um Fred Madison angustiado, paranoico e torturado e Patricia Arquette abandona suas personagens maluquetes - de filmes como "Amor à queima-roupa" (1993), "Ed Wood" (1994) e "Procurando encrenca" (1996) - para entregar não apenas uma, mas duas atuações densas, que chegam ao limite entre o sensual e o macabro.

Chegar a uma conclusão definitiva sobre qualquer trabalho de David Lynch é tarefa inglória. Por mais que sempre exista um caminho para decifrar seus enigmas - montados como um pesadelo pictório - e no final das contas as coisas possam fazer sentido dentro de um quadro maior, quebrar a cabeça com mil teorias faz parte da viagem que é assistir a filmes como "Estrada perdida". Toda imagem, todo diálogo, todo personagem, são peças essenciais para que o conjunto se torne, no final da sessão, uma espécie de experiência única e avassaladora. Em "Estrada perdida" há uma explicação lógica e simples por trás da profusão de problemas apresentados - mas a forma como se chegar a essa explicação é que faz disso tudo um momento único. Embalado por uma trilha sonora jazzística que mistura David Bowie, Lou Reed, Marilyn Manson, Trent Reznor e Tom Jobim - uma miscelânea que já dá pistas sobre o estilo iconoclasta do currículo do cineasta - e por um tom aterrador de suspense que jamais permite ao público antecipar o que virá pela frente, "Estrada perdida" é mais um ponto alto da carreira de seu realizador, ainda que apeteça muito mais a seu público cativo do que eventuais neófitos.

sábado

O QUE É ISSO, COMPANHEIRO?


O QUE É ISSO, COMPANHEIRO? (O que é isso, companheiro?, 1997, Columbia Pictures/Luiz Carlos Barreto Produções, 110min) Direção: Bruno Barreto. Roteiro: Leopoldo Serran, livro de Fernando Gabeira. Fotografia: Félix Monti. Montagem: Isabelle Rathery. Música: Stewart Copeland. Figurino: Emilia Duncan. Direção de arte/cenários: Marcos Flaksman, Alexandre Meyer/Carlos Eduardo Mallet. Produção: Lucy Barreto, Luiz Carlos Barreto. Elenco: Alan Arkin, Pedro Cardoso, Fernanda Torres, Cláudia Abreu, Matheus Nachtergaele, Luiz Fernando Guimarães, Caio Junqueira, Selton Mello, Marco Ricca, Alessandra Negrini, Fernanda Montenegro, Lulu Santos, Luiz Armando Queiroz, Nelson Dantas, Maurício Gonçalves, Milton Gonçalves, Eduardo Moscovis, Othon Bastos. Estreia: 19/4/97

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Publicado em 1979 e logo alçado ao posto de um clássico contemporâneo, "O que é isso, companheiro?" narrava, em primeira pessoa, as experiências de Fernando Gabeira na luta armada contra a ditadura militar brasileira, sua participação no sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, sua prisão e seu exílio na Europa. Com mais de 250 mil exemplares vendidos, o livro foi peça fundamental na consolidação da carreira política do autor e uma das obras seminais a respeito de um dos períodos mais sombrios da história do país. Cinco anos depois de servir como uma das bases da minissérie global "Anos rebeldes" - um sucesso estrondoso que voltou a colocar os anos de chumbo em evidência - e quase duas décadas depois de seu lançamento, as memórias de Gabeira voltaram à tona com sua adaptação para o cinema. Com produção de Lucy e Luiz Carlos Barreto, direção de Bruno Barreto - já com carreira internacional consolidada - e coprodução da Columbia Pictures, a versão para as telas do infame sequestro de Elbrick ganhou a simpatia do público, da crítica e da Academia de Hollywood, que lhe indicou ao Oscar de melhor filme estrangeiro: não chegou a sair como vencedor - teve os planos atrapalhados pelo holandês "Caráter" -, mas foi um passo adiante do cinema brasileiro em direção ao respeito mundial.

O roteiro do experiente Leopoldo Serran - responsável pela adaptação de "O quatrilho", outra produção dos Barreto a ter concorrido ao Oscar, em 1996 - não abarca todo o livro de Gabeira, concentrando-se exclusivamente em seu elemento mais cinematográfico: sua entrada para o temido Movimento Revolucionário 8 de outubro (ou MR-8) e sua participação naquele que se tornaria um dos momentos mais emblemáticos da luta armada do final dos anos 1960. O próprio autor admite que sua personificação no filme (na pele do ótimo Pedro Cardoso) tem mais importância do que ele teve na realidade, mas a licença poética é plenamente compreensível em termos dramáticos: como elemento narrativo, é muito mais interessante um personagem como Fernando - um jovem sem experiência na luta que se vê no olho de um furacão e assume papel fundamental em um episódio muito maior que ele - do que um espectador passivo, servindo apenas de testemunha da história. Fernando é um homem de letras, de propensões intelectuais, e não alguém cuja índole previa pegar em armas e participar de assaltos (ou expropriações) e sequestros. É assim, graças a tal personalidade pacífica, que Fernando se aproxima do público, que se identifica com sua (falta de) vocação para a guerrilha ao mesmo tempo em que sabe que ela é a (talvez) única solução imediata. Ajuda, é claro, o talento de Pedro Cardoso em transmitir a insegurança de seu personagem e seu tom quase cômico mesmo em situações perigosas - e o grande elenco, tão incrível que pode se dar ao luxo de contar com Fernanda Montenegro em uma participação mínima mas crucial.


 

Em uma tentativa bem-sucedida de aproximar seu filme do público consumidor de programas de televisão, Bruno Barreto escolheu seu elenco a dedo. Dos consagrados Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães ao então novato Matheus Nachtergaele - passando por uma Cláudia Abreu no auge da popularidade e pelo norte-americano Alan Arkin -, a lista de créditos de "O que é isso, companheiro?" é admirável , com espaço até mesmo para pontas do cantor Lulu Santos como um militar. Se é questionável o fato de lotar o elenco de globais como forma de buscar o sucesso comercial - ainda que todos estejam excelentes em cena, independentemente de suas personas artísticas mais conhecidas -, o resultado foi bastante favorável. Além de dialogar com a audiência com mais facilidade, tal opção deu visibilidade o bastante ao filme em sua trajetória rumo a uma indicação ao Oscar - um objetivo para o qual contou também o nome de Bruno Barreto no exterior. Já bem instalado em Hollywood - principalmente graças ao êxito internacional de "Dona Flor e seus dois maridos" (1976) e produções de prestígio como "Assassinato sob duas bandeiras" (1990), estrelado por Amy Irving, com quem foi casado até 2005 -, Barreto nunca abandonou completamente suas raízes, e assim como seu irmão Fábio dois anos antes, chegou à corrida da estatueta com o apoio de nomes poderosos da indústria americana, como Steven Spielberg e a máquina de marketing da Columbia Pictures internacional. Não foi suficiente para arrebatar o prêmio - mas voltou a colocar o cinema brasileiro no mapa e jogar luz sobre um tema nunca desgastado.

Apesar de se passar durante a ditadura militar brasileira e contar uma de suas histórias mais emblemáticas, "O que é isso, companheiro?" dificilmente pode ser considerado um filme político. Longe dos questionamentos da filmografia de um Costa-Gavras, por exemplo - cujo "Z" (1969) é um cânone do gênero - e sem maior aprofundamentos do contexto histórico, o roteiro de Serran prefere focar-se na interrelação entre seus personagens, pressionados pela máquina governamental e diante da possibilidade de um fracasso que pode levá-los à morte. Boa parte da trama se passa durante o período do cativeiro do embaixador, interpretado com excelência por Alan Arkin - daí o título internacional, "Four days in September" - e são os vínculos entre os personagens que interessam a Serran e Barreto, mais do que os desdobramentos sociais e políticos de sua aventura. Tal escolha é válida, mas esbarra em alguns momentos um tanto quanto desconcertantes - como as crises de consciência do torturador a que Marco Ricca dá vida: Ricca é um ótimo ator e transmite verdade em suas cenas, mas é pouco crível que pessoas que ganham a vida com tal violência sejam tão suscetíveis a remorsos (em especial no calor do momento). Detalhes assim enfraquecem o filme como um todo - é uma tentativa não feliz em evitar o maniqueísmo - e o impedem de ter a potência que poderia. É uma produção caprichada - bem dirigida, com uma edição ágil e uma trilha sonora adequada - mas longe da obra-prima que se poderia esperar. Ainda assim, um belo produto do cinema nacional em sua fase de mesclar sucesso financeiro e prestígio internacional.

EU SEI O QUE VOCÊS FIZERAM NO VERÃO PASSADO

EU SEI O QUE VOCÊS FIZERAM NO VERÃO PASSADO (I know what you did last summer, 1997, TriStar/Columbia Pictures, 101min) Direção: Jim Gillespie. Roteiro: Kevin Williamson, romance de Lois Duncan. Fotografia: Denis Crossan. Montagem: Steve Mirkovich. Música: John Debney. Figurino: Catherine Adair. Direção de arte/cenários: Gary Wissner/James Edward Ferrell Jr.. Produção executiva: William S. Beasley. Produção: Stokely Chaffin, Erik Feig, Neal H. Moritz. Elenco: Jennifer Love Hewitt, Freddie Prinze Jr., Ryan Phillippe, Sarah Michelle Gellar, Anne Heche Estreia: 17/10/97

Na segunda metade dos anos 1990, poucos nomes em Hollywood eram tão quentes quanto o de Kevin Williamson. Autor do roteiro de "Pânico" (1996), o slasher movie que devolveu o prestígio (e o sucesso de bilheteria) a Wes Craven, ele ainda era o criador da série dramática "Dawson's Creek" (que revelou Katie Holmes e Michelle Williams) - e parecia que tudo que tinha seu nome era uma mina de ouro a ser explorada. Por isso, ninguém ficou surpreso quando a Columbia Pictures resolveu dar o sinal verde a "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado", adaptação do livro de Lois Duncan que Williamson já tentava vender antes mesmo da estreia do filme de Craven. Nas mãos do roteirista mais celebrado da época, o romance de Duncan foi totalmente modificado para melhor apetecer às plateias juvenis sedentas por sangue e transformou-se em outro êxito comercial. Com uma renda mundial de mais de 125 milhões de dólares, popularizou ainda mais seu jovem e atraente elenco e confirmou a estrela de Williamson - ao menos até o desgaste de sua fórmula e o decrescente interesse por seus trabalhos seguintes (de certa forma proporcional à qualidade deles). Feito para assustar e lucrar em cima de um gênero então renascido das trevas, o filme de estreia de Jim Gillespie - oriundo do mundo dos videoclipes - cumpre o que promete, mas soa (bastante) como um produto requentado e sem muita criatividade.

É claro que o público-alvo do filme não é exatamente exigente, e seu sucesso mundial confirma o fato. Seguindo à risca a receita de produções como a cinessérie "Sexta-feira 13" - a saber: muitos sustos, violência, sangue aos borbotões e um elenco fotogênico interpretando personagens rasos -, "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado" não apresenta novidades, mas ao menos tem a seu favor uma produção caprichada e alguns bons momentos de tensão. A história é derivativa e nem faz muito sentido no final das contas, mas ao menos a plateia que procura diversão no gênero não tem do que se queixar: as mortes são bem elaboradas, o suspense é razoavelmente bem construído e, como é frequente em filmes assim, os personagens são tão chatos e bobos que é difícil não torcer pelo assassino - seja ele quem for. E no caso do filme de Gillespie, pode-se dizer até que isso é o que menos interessa, já que o roteiro tem reviravoltas e pistas falsas em número suficiente para preencher os minutos entre um assassinato e outro mas acaba de forma anticlimática e forçada - já pensando em um novo capítulo.


A trama se passa em uma pequena cidade litorânea e começa no feriado de 4 de julho - no último verão em que quatro amigos ainda estarão juntos antes de começarem a faculdade. Depois de uma noite de diversão e bebidas, porém, um trágico acidente muda suas vidas para sempre. Único dos quatro a não estar bêbado, Ray (Freddie Prinze Jr.) acaba atropelando um desconhecido, para desespero do dono do carro, Barry (Ryan Phillippe), e de suas namoradas, Julie (Jennifer Love Hewitt) e Helen (Sarah Michelle Gellar). Com medo que o desastre atrapalhe seus planos para o futuro, o grupo resolve se livrar do corpo jogando-o no mar - e não mudam de ideia nem mesmo quando descobrem, talvez tarde demais, que a vítima ainda não estava morta. Fazendo um pacto de silêncio, eles decidem seguir suas vidas como se nada tivesse acontecido. Um ano mais tarde, no entanto, o passado volta para lhes assombrar: alguém não apenas sabe o que aconteceu na fatídica noite e está mandando recados para os quatro mas também está decidido a matar um por um dos jovens.

A partir daí, o roteiro de Kevin Williamson abandona o livro original e parte para a matança geral. O assassino - munido de um gancho no lugar de uma das mãos - sai à caça dos protagonistas sem dó nem piedade, e o grupo tenta, de todas as maneiras possíveis, descobrir sua identidade antes de se tornar a próxima vítima. Nessa busca, eles mergulham em histórias antigas da cidade, cruzam com tipos assustadores (como a mecânica interpretada por Anne Heche) e descobrem que ninguém está imune a suspeitas - nem mesmo eles próprios. O filme cria algumas sequências interessantes - o mínimo que se espera de um bom slasher - mas peca em fazer de seus personagens principais apenas estereótipos batidos (o galã, a princesa, a nerd e o pobre) e sem muita empatia. Ryan Phillippe e Sarah Michelle Gellar voltariam a atuar juntos em "Segundas intenções" (1999) - e ela se tornaria estrela da série de TV "Buffy: a caça-vampiros" - e Freddie Prinze Jr. apostaria em comédias românticas antes de sumir dos holofotes. Da mesma forma que Sarah Michelle, Jennifer Love Hewitt (que já fazia sucesso na televisão, como parte do elenco de "O quinteto") deu continuidade à carreira na telinha, estrelando "Ghost whisperer" e tentando emplacar como cantora - depois de participar das continuações cada vez piores do filme original. No final das contas, "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado" é uma sessão nostálgica e descerebrada de um período específico da indústria do terror em Hollywood - que atingiu seu ápice com "Pânico" e degenerou em produções totalmente desprovidas de charme e inteligência.

sexta-feira

DONNIE BRASCO

DONNIE BRASCO (Donnie Brasco, 1997, Sony Pictures/Mandalay Entertainment, 127min) Direção: Mike Newell. Roteiro: Paul Attanasio, livro de Joseph D. Pistone, Richard Woodley. Fotografia: Peter Sova. Montagem: Jon Gregory. Música: Patrick Doyle. Figurino: Aude Bronson-Howard, David Robinson. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Leslie Pope. Produção executiva: Alan Greenspan, Patrick McCormick. Produção: Louis DiGiaimo, Mark Johnson, Barry Levinson, Gail Mutrux. Elenco: Al Pacino, Johnny Depp, Michael Madsen, James Russo, Anne Heche, Bruno Kirby, Zeljko Ivanek, Paul Giamatti, Tim Blake Nelson. Estreia: 24/02/97

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

Durante seis anos, entre 1978 e 1984, o agente especial do FBI Joseph Pistone trabalhou infiltrado entre os mafiosos de Nova York, quase sem contato com a própria família e conquistando a confiança de um dos integrantes do grupo, que passou a considerá-lo como um filho. Tal história, com seus desdobramentos talvez previsíveis mas sempre interessantes, estava pronta para ser contada no cinema desde o lançamento do livro "Donnie Brasco: my undercover life with the Mafia", publicado nos EUA em 1988. Escrito pelo próprio Pistone (cuja cabeça ainda está a prêmio) e o jornalista Richard Woodley, o livro estava nos planos de Hollywood a um bom tempo quando o inglês Mike Newell entrou no projeto: celebrado pelo enorme sucesso de seu "Quatro casamentos e um funeral" (94), Newell chegou com moral, substituindo outro britânico até então considerado para o trabalho (Stephen Frears) e injetando no filme uma elegância e uma sobriedade que possivelmente um cineasta americano não seria capaz de imprimir. Com o elenco liderado por Al Pacino e Johnny Depp - dois nomes populares e de prestígio junto ao público e à crítica - e pronto para estrear no Natal de 1996, "Donnie Brasco" acabou sendo vítima do próprio estúdio: com três outros filmes de grande visibilidade entrando em cartaz quase ao mesmo tempo (e lutando por indicações ao Oscar), a Sony empurrou seu lançamento para fevereiro de 1997. Deu mais ou menos certo: mesmo lançado longe da temporada de premiações, o filme de Newell arrebatou uma indicação na categoria de roteiro adaptado quase um ano depois de sua estreia - e as outras produções da Sony foram relativamente recompensadas pela Academia, em especial "Jerry Maguire: a grande virada", que levou a estatueta de ator coadjuvante (Cuba Gooding Jr.).

Se "Donnie Brasco" tinha mais chances de convencer a Academia do que seus irmãos de estúdio - "O espelho tem duas faces" (96) e "O povo contra Larry Flynt" (96) - é difícil dizer, especialmente em um ano em que as produções independentes foram mais felizes no resultado final. Mas é óbvio que, levando-se em consideração seu tema, seus valores de produção e os vastos elogios da crítica especializada, o filme de Newell tinha tudo para ter uma sorte bem maior se tivesse sido lançado no período adequado - inclusive nas bilheterias, já que não fez muito barulho em casa mas rendeu mais de 120 milhões pelo mundo, em grande parte devido à presença de Johnny Depp, então um jovem astro em ascensão, e Al Pacino, um dos maiores atores do cinema americano. Sua química é um dos motivos que fazem do filme uma das produções mais interessantes do final dos anos 90 - uma narrativa séria e minimalista que lembra os policiais da década de 70 (não por acaso também estrelados por Pacino). Cineasta pouco afeito a malabarismos estéreis, Newell se concentra em caprichar na ambientação e no desenvolvimento dos personagens - cortesia também do roteiro de Paul Attanasio, que equilibra admiravelmente a trama policial com os problemas domésticos do protagonista. Com um elenco coadjuvante igualmente brilhante, "Donnie Brasco" foge facilmente da limitação de gênero, alcançando níveis dramáticos que o elevam acima da média. 


A trama é centrada basicamente no relacionamento entre o jovem agente Joseph Pistone - que assume o pseudônimo de Donnie Brasco e é vivido por Johnny Depp de forma discreta, sem os habituais exageros que se tornaram característica de seus desempenhos - e o mafioso Lefty Ruggiero (Al Pacino), que, apesar de não ser o chefão do grupo, lhe serve como ponte de acesso a nomes, crimes e detalhes dos delitos cometidos por outros integrantes do bando, especialmente Sonny Black (Michael Madsen), que se torna o líder durante a temporada do rapaz como infiltrado. Enquanto vai se tornando parte integrante da quadrilha, Donnie vai se afastando da esposa, Maggie (Anne Heche) e das filhas, ao mesmo tempo em que fortalece laços de amizade e quase lealdade com Ruggiero - até que o cerco se fecha e ele precisa redobrar os cuidados para não ser desmascarado e completar sua missão (que inclui, obviamente, mandar seu mentor para a cadeia).

Narrado de forma correta e sem sobressaltos, "Donnie Brasco" é um filme que substitui as cenas de ação alucinantes por um tom de mais densidade psicológica e dramática. Seu registro quase cerebral pode aborrecer a quem procura um filme policial nos moldes mais tradicionais (leia-se tiroteios, perseguições e violência extrema), mas é justamente essa opção de Mike Newell que faz toda a diferença. Seria bastante diferente, por exemplo, se outros nomes cotados para o projeto tivessem assumido o papel central - como Alec Baldwin, Nicolas Cage ou John Cusack, que certamente dariam outro estilo à produção. Dotado de um ritmo atípico, é um filme que envolve o espectador aos poucos, o mergulhando gradativamente em uma trama que fala de amizade, dever, traição e paranoia em doses exatas e tratadas com o máximo de talento. Apesar de se alongar desnecessariamente nos minutos finais, é uma obra pela qual é difícil não se deixar conquistar, senão por sua história incrível, ao menos por sua direção elegante e pelo elenco em ótimo momento. Um dos grandes filmes de Pacino pós-Oscar - e talvez um dos mais subestimados de sua brilhante carreira.

sábado

MATADOR EM CONFLITO

MATADOR EM CONFLITO (Grosse Pointe Blank, 1997, Hollywood Pictures/Caravan Pictures, 107min) Direção: George Armitage. Roteiro: Tom Jankiewicz, D.V. DeVincentis, Steve Pink, John Cusack, estória de Tom Jankiewicz. Fotografia: Jamie Anderson. Montagem: Brian Berdan. Figurino: Eugenie Bafaloukos. Direção de arte/cenários: Stephen Altman/Chris Spellman. Produção executiva: Jonathan Glickman, Lata Ryan. Produção: Susan Arnold, Roger Birnbaum, Donna Arkoff Roth. Elenco: John Cusack, Minnie Driver, Alan Arkin, Dan Aykroyd, Joan Cusack, Hank Azaria, Jeremy Piven. Estreia: 11/4/97

Em 1991, Tom Jankiewicz recebeu o convite de sua antiga turma de escola para uma reunião, comemorando os dez anos de formatura do ensino médio. Como bom aspirante a roteirista, logo surgiu em sua mente uma ideia mirabolante: e se um de seus colegas aparecesse na festa e, ao contrário dos antigos companheiros - então bancários, médicos, advogados e outras profissões mais tradicionais - se revelasse um bem-sucedido matador de aluguel? Essa foi a gênese de "Matador em conflito", um dos mais elogiados filmes da temporada 1997, que, a despeito de seu desempenho medíocre nas bilheterias, tornou-se cult instantâneo - em boa parte devido à presença do ator John Cusack, então um dos queridinhos do público fã de cinema alternativo de Hollywood. Dirigido por George Armitage - também cultuado, por seu "O anjo assassino" (90) - e recheado de humor negro e referências culturais pop, "Matador em conflito" é um antídoto perfeito para as fórmulas engessadas do cinemão americano, misturando gêneros e não se levando a sério nem mesmo diante de sequências surpreendentemente violentas.

Sua mistura de gêneros, aliás, quase foi um problema para sua realização: por volta de 1993, quando o conceito do filme já era cobiçado por vários produtores, Kiefer Sutherland mostrou-se realmente interessado em levá-lo às telas. O projeto esbarrou justamente na dificuldade que seria encontrar financiamento para um filme tão atípico, que fazia rir ao mesmo tempo em que mostrava pessoas sendo assassinadas, e que, de forma amoral, tinha como protagonista (e portanto, segundo as regras não escritas, o herói com quem o público deveria se identificar) um matador profissional - e o que é pior, um matador profissional simpático e carismático. Projeto cancelado, foi somente em 1996 que finalmente as coisas começaram a realmente andar, quando John Cusack entrou em cena e assumiu as rédeas da situação: juntamente com os amigos D.V. DeVincentis e Steve Pink (com quem também trabalharia na adaptação do livro "Alta fidelidade", de Nick Hornby), Cusack se aproximou de Jankiewicz e criou o roteiro daquele que seria um de seus trabalhos preferidos: uma absurda comédia de humor negro, violência e, por incrível que pareça, uma história de amor.


O próprio Cusack assumiu também o papel principal do filme, um assassino profissional que está passando por uma crise existencial. Descontente com sua rotina de violência, Martin Blank tenta acalmá-la com sessões de terapia com o dr. Oatman (Alan Arkin) - que só o atende por medo de também virar uma vítima sua. Recusando trabalhos e com pretensões de abandonar a vida criminosa, ele confia apenas em sua secretária, Marcella (Joan Cusack), para organizar sua confusa vida. Sua situação pouco invejável se torna ainda mais complicada quando ele aceita a missão de cometer um assassinato na pequena Grosse Point, nos subúrbios de Detroit: não apenas se trata de sua cidade natal como também o trabalho coincide com uma festa de reencontro com seus ex-colegas de classe, dez anos depois do baile de formatura em que ele deixou sozinha sua então namorada Debi (Minnie Driver). O reencontro com Debi e a ideia de ter de dar de cara com todos os seus amigos e desafetos do passado se combinam com a pressão de ter de cumprir seu objetivo profissional, escapar de dois agentes federais, um outro assassino que está em seu encalço, e, pior ainda, ter de livrar-se de Groce (Dan Aykroyd), que tenta convencê-lo a participar de um sindicato de matadores de aluguel.

O roteiro de "Matador em conflito" é um festival de citações pop: filmes de 007, Quentin Tarantino, games, música dos anos 80 (a trilha sonora é fantástica, com direito a Queen, Guns'n'Roses, Johnny Nash, The Clash, The Cure e A-ha, entre dezenas de outros) e até citações internas (Jenna Elffman faz sua estreia no cinema com uma homenagem à Joan Cusack no clássico "Gatinhas e gatões", de 1986) são facilmente detectáveis por toda a curiosa narrativa de Armitage. Sem espaço para a previsibilidade, o roteiro se transforma imperceptivelmente de cena para cena, pulando de uma comédia quase surreal para um romance nostálgico e então para um filme de ação com direito a tiroteios e explosões. John Cusack é o ator ideal para o papel principal, com sua aparência carente, e Minnie Driver demonstra um ótimo timing cômico, servindo também de equilíbrio entre todos os gêneros apresentados por Armitage e companhia, que não tem medo de ousar e fugir do lugar-comum. Desconcertante e surpreendente, "Matador em conflito" não é um filme para qualquer tipo de público - e tampouco escapa de um ritmo irregular em determinados momentos -, mas é uma refrescante opção para quem deseja fugir da mesmice hollywoodiana. Uma sessão da tarde apimentada e movimentada que é a cara de sua época.

domingo

TERRAS PERDIDAS

TERRAS PERDIDAS (A thousand acres, 1997, Touchstone Pictures, 104min) Direção: Jocelyn Moorhouse. Roteiro: Laura Jones, romance de Jane Smiley. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Maryann Brandon. Música: Richard Hartley. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Dan Davis/Andrea Fenton. Produção executiva: Armyan Bernstein, Thomas A. Bliss. Produção: Marc Abraham, Lynn Arost, Steve Golin, Kate Guinzburg, Sigurjon Sighvatsson. Elenco: Jessica Lange, Michelle Pfeiffer, Jennifer Jason Leigh, Jason Robards, Colin Firth, Keith Carradine, Kevin Anderson, Pat Hingle, John Carroll Lynch, Michelle Williams, Elizabeth Moss, Beth Grant, Bob Gunton. Estreia: 19/9/97

Um rei idoso e poderoso, sentido a morte se aproximar, resolve dividir seu reino entre as três filhas, deflagrando assim um confronto épico de decepções e traições. Escrita por William Shakespeare por volta de 1605, a peça "Rei Lear" serviu de inspiração, desde então, para inúmeros autores dispostos a examinar as raízes da ambição e dos conflitos familiares advindos dela. Um dos livros inspirados na tragédia shakespeareana foi "A thousand acres", escrito por Jane Smiley e vencedor do prestigiado Pulitzer de literatura. Com os direitos vendidos para Hollywood, era apenas questão de tempo para que sua trama chegasse às telas e conquistasse o público - afinal, não tinha como dar errado. Mas deu. Com uma produção problemática que se estendeu por cinco anos, constantes reedições, a rejeição do produto final por sua diretora e um fracasso de crítica e bilheteria, "Terras perdidas" tornou-se mais um na vasta lista de filmes que poderiam ter sido um grande sucesso mas que não passaram de promessa. Uma pena, já que seus ingredientes são excepcionais.

A diretora de "Terras perdidas" é a australiana Jocelyn Moorhouse, cujo filme anterior, "Colcha de retalhos" (95), também tinha uma apurada visão feminina da vida. Suas estrelas, Michelle Pfeiffer e Jessica Lange, são ótimas atrizes, populares e velhas conhecidas da Academia. O elenco coadjuvante conta com Jason Robards, Jennifer Jason Leigh e um então iniciante Colin Firth - sem contar as adolescentes Michelle Williams e Elizabeth Moss, que mal aparecem em cena, como as filhas de Pfeiffer. A trama - como já dito, inspirada em Shakespeare - inclui na receita traumas do passado, doenças incuráveis e um leve viés feminista, mas o roteiro, escrito por Laura Jones, mal consegue alinhavar todos os conflitos propostos pela história original: não fosse a força das atuações de Lange e Pfeiffer - tirando leite de pedra -, o filme de Moorhouse seria um desastre completo (e isso que a própria cineasta pediu para seu nome ser retirado dos créditos depois de assistir à sua primeira versão).


Transferindo a ação de Lear para o interior do Iowa, com suas belas fazendas e cenários de tirar o fôlego, "Terras perdidas" começa justamente quando o fazendeiro Larry Cook (Jason Robards em papel recusado por Paul Newman), viúvo há muitos anos, resolve, como o protagonista shakespereano, dividir as terras de sua fazenda entre suas três filhas. A mais velha, Ginny (Jessica Lange), é quem cuida da rotina do pai, e divide seu tempo entre ele e o marido, Ty (Keith Carradine). A filha do meio, Rose (Michelle Pfeiffer), se recupera de um câncer no seio e leva uma vida doméstica aparentemente tranquila com Peter (Kevin Anderson) e as duas filhas adolescentes. A caçula, Caroline (Jennifer Jason Leigh) é a única que não compartilha do dia-a-dia agrícola da família: estudando para ser advogada e morando longe, é ela quem questiona a decisão do pai - e é ela também que desencadeia o processo de conflito familiar, ao recusar a proposta paterna. A briga entre os dois passa a ser o pano de fundo para uma sucessão de dramas que afloram no seio dos Cook, o que inclui a chegada de um antigo conhecido, Jess Taylor (Colin Firth), que desequilibra a união entre Ginny e Rose.

Michelle Pfeiffer - que lutou para levar o livro de Smiley às telas - está fascinante como Rose, uma mulher amargurada por traumas do passado e que tenta, através da compensação financeira, recompor uma vida de sofrimento. Jessica Lange tem mais trabalho como Ginny, que se transforma de uma mulher frustrada pela falta de filhos no para-raios de uma família altamente disfuncional - e que encontra forças para viver a própria vida justamente quando já se encontrava acomodada em um casamento morno. São as duas que movimentam a trama do filme - a ótima Jennifer Jason Leigh é subaproveitada como Caroline, e Jason Robards, apesar de sempre excelente como déspota, sofre com um personagem maniqueísta, sem nuances ou qualidades redentoras. O resultado é uma obra morna, que desperdiça uma história forte e bons atores em uma trama de telenovela, rasa e desprovida de maior emoção. Para os fãs das atrizes é um show à parte, mas como cinema é, infelizmente, bem medíocre.

quarta-feira

SELENA

SELENA (Selena, 1997, Warner Bros, 127min) Direção e roteiro: Gregory Nava. Fotografia: Edward Lachman. Montagem: Nancy Richardson. Música: Dave Grusin. Figurino: Elisabetta Beraldo. Direção de arte/cenários: Cary White/Jeanette Scott. Produção executiva: Abraham Quintanilla Jr.. Produção: Moctesuma Esparza, Robert Katz. Elenco: Jennifer Lopez, Edward James Olmos, Jon Seda, Constance Marie, Jackie Guerra, Alex Meneses, Rebecca Lee Meza, Lupe Ontiveros. Estreia: 21/3/97

Mesmo acostumado com tragédias e mortes precoces e repentinas, o mundo da música sofreu um grande abalo em 31 de março de 1995, com o brutal assassinato da cantora Selena, ídolo da comunidade hispânica norte-americana e em vias de iniciar uma promissora carreira internacional com o lançamento de seu primeiro álbum em inglês. Comparada a nomes de peso como Gloria Estefan (por sua influência junto ao público latino), Whitney Houston e Mariah Carey, a jovem de apenas 23 anos de idade foi morta com um tiro disparado pela presidente de seu fã-clube e gerente de uma loja de roupas da sua grife, que, desmascarada por desvio de dinheiro, resolveu a situação de forma a deixar órfãos milhares de fãs inconsoláveis - o que lhe rendeu a condenação à prisão perpétua. Se o nome de Selena não diz muito a quem não fazia parte de sua legião de admiradores (dois meses antes de sua morte ela havia levado mais de 60 mil pessoas a seu show em um estádio em Houston, Texas), é somente porque a interrupção inesperada de sua vida não permitiu. Vencedora do Grammy, garota-propaganda da Coca-cola e dona de uma marca de roupas de sucesso junto a seu público-alvo, Selena ainda assim não era uma unanimidade - a comoção por sua morte junto ao público hispânico foi minimizada por grande parte da população branca americana - mas seu carisma e talento (somados à indignação atônita que seguiu-se à tragédia) foram suficientes para que a notícia de sua morte tomasse conta dos EUA e de parte do mundo. Não foi surpresa para ninguém, portanto, que, quase no aniversário de dois anos do crime, estreasse "Selena", um filme realizado para a televisão que celebrava a vida e a carreira da artista - mas que, por privilegiar apenas esses aspectos de sua trajetória, perde a oportunidade de esclarecer aos neófitos as circunstâncias absurdamente mundanas de sua morte, talvez o único fator que o diferencia de várias outras produções semelhantes.

Dirigido por Gregory Nava - um cineasta já preocupado com questões dos povos latinos, como deixa claro seu filme "Minha família" (95) - e estrelado por uma então quase desconhecida Jennifer Lopez, "Selena" é uma cinebiografia convencional, com todas as limitações de um filme para a televisão. Como não poderia deixar de ser, já que seu produtor executivo é Abraham Quintanilla Jr. - pai da cantora - é uma obra que respeita tanto a obra como a imagem da cantora, procurando ater-se à sua meteórica carreira e suas relações familiares e sem exatamente aprofundar-se dramaticamente em nenhum desses aspectos. Bem-sucedido em recriar momentos importantes da jornada da cantora - como seu show em Houston - o filme de Nava não consegue evitar de tropeçar em alguns clichês do gênero, mas o faz com tal carinho e admiração que é difícil não se deixar envolver, apesar da duração excessiva e da falta total de novidades na história. Das origens familiares até o estrelato e seu desfecho violento - com direito até mesmo a uma história de amor proibido - a vida de Selena é contada sem sobressaltos, mas também sem grandes momentos de destaque. Jennifer Lopez se esforça no papel (foi inclusive indicada ao Golden Globe), mas tem pouco a fazer exceto mimetizar com competência as performances da cantora nos palcos (e sincronizar os números musicais, todos apresentados no filme com a voz da própria Selena). Sua atuação é bastante convincente, mas esbarra em um roteiro superficial - talvez culpa da história em si, mas ainda assim pouco empolgante.


Como em toda biografia musical que se preze, a historia de Selena Quintanilla-Perez começa com uma frustração paterna: parte integrante de um trio de cantores latinos que nunca alcançou o sucesso, Abraham Quintanilla Jr. (Edward James Olmos) encontrou nos filhos a possibilidade de fazer parte da história da música. Ainda criança, cantando no grupo formado por seus irmãos e que se apresentava no restaurante de comida típica de propriedade de seu pai, Selena (interpretada por Rebecca Lee Meza na infância) já começa a chamar a atenção pela afinação e pelo carisma. Com o fechamento do restaurante e palcos maiores em parques de diversão e bares, aos poucos ela vai se transformando em uma espécie de porta-voz da comunidade hispânica, misturando influências musicais que iam dos clássicos apresentados por seu pai até o pop de gente como Madonna e Paula Abdul. Sua evolução na carreira chega ao ponto máximo quando ela passa a ser agenciada pelo experiente Jose Behar (John Verea), que lhe oferece um contrato com a EMI e começa a planejar uma expansão internacional. Nessa época, ela conhece e se apaixona por um dos músicos de sua banda, Chris Perez (Jon Seda) - e esbarra na rejeição de seu pai ao relacionamento. Quando as coisas finalmente se acalmam e tudo parece apontar para um futuro alvissareiro, a tragédia acontece.

E é justamente quando o filme chega a um ponto onde realmente pode sobressair-se em relação a outras cinebiografias que "Selena" mostra sua fragilidade. Ao optar por não dar a devida importância ao fim de sua vida - talvez para não tocar em uma ferida ainda recente e dolorida para os fãs e familiares - Gregory Nava simplesmente termina seu filme de forma apressada e anticlimática. A relação entre a cantora e Yolanda Saldivar (Lupe Ontiveros), de vital importância para explicar os acontecimentos que levaram à tragédia final, é quase ignorada, mostrada em poucas cenas que se perdem em meio a sequências desnecessárias e repetitivas da vida profissional e amorosa de Selena. O que é crucial na história - a quebra de confiança entre as duas, as brigas e por fim o assassinato - fica apenas na imaginação do espectador, que, se não souber de detalhes do acontecido, fica completamente perdido nos minutos finais. Aliás, é de se perguntar o motivo de Nava ter escolhido a atriz Lupe Ontiveros - 54 anos à época das filmagens - para interpretar uma personagem de 34: assim como o clímax que não existe, depõe bastante contra o resultado final. Ainda assim, é um filme correto e carinhoso, valorizado pela interpretação vibrante de Jennifer Lopez - e que agrada em cheio aos fãs da cantora sem aborrecer (demais) àqueles que não a conheceram.

domingo

WILDE

WILDE (Wilde, 1997, BBC/Capitol Films, 118min) Direção: Brian Gilbert. Roteiro: Julian Mitchell, livro de Richard Ellman. Fotografia: Martin Fuhrer. Montagem: Michael Bradsell. Música: Debbie Wiseman. Figurino: Nic Ede. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic. Produção executiva: Alex Graham, Alan Howden, Deborah Raffin, Michael Viner, Michiyo Yoshizaki. Produção: Marc Samuelson, Peter Samuelson. Elenco: Stephen Fry, Jude Law, Vanessa Redgrave, Jennifer Ehle, Gemma Jones, Judy Parfitt, Michael Sheen, Tom Wilkinson, Ioan Gruffud, Zoe Wanamaker, Orlando Bloom. Estreia: 01/9/97

Um dos escritores mais respeitados e conhecidos do mundo - especialmente graças à sua obra-prima "O retrato de Dorian Gray" - o irlandês Oscar Wilde era conhecido em sua época também devido a seu estilo de vida pouco recomendado à alta sociedade. Notadamente homossexual - fato que nem mesmo seu casamento e os posteriores filhos conseguiram disfarçar perante a sociedade - ele frequentemente desfilava por Londres com algum jovem rapaz à tiracolo, suscitando todos os tipos de comentários (que naturalmente ficavam restritos a quatro paredes). Um desses rapazes, porém, foi o responsável indireto por jogar o autor de "A importância de ser honesto" em um escândalo de grandes proporções que nem mesmo o respeito público por sua obra literária foi capaz de abafar: condenado à dois anos de trabalhos forçados (a homossexualidade era crime passível de punição na Inglaterra do século XIX), Wilde se viu humilhado e rechaçado pela população, em um dos mais infames casos jurídicos do país. É esse recorte da vida do escritor - que se passa entre a criação de seu maior livro e a condenação que lhe fragilizou a saúde - a base de "Wilde", bela cinebiografia de Brian Gilbert que, apesar das inúmeras qualidades, passou quase despercebido pelos cinemas e pelas cerimônias de premiação.

Sua maior qualidade - e a que mais merecia homenagens nos tapetes vermelhos que tanto aplaudem talentos menores - é a atuação de Stephen Fry no papel central. Além da semelhança física com o Oscar Wilde, o ator inglês entrega um desempenho irretocável, que abrange todas as nuances da complexa personalidade do escritor de forma orgânica e objetiva. Em sua interpretação a plateia pode ver o homem apaixonado, o intelectual sardônico, o pai amoroso, o marido carinhoso, o dândi debochado e finalmente o mártir vencido pelo preconceito e pelo amor incondicional àquele que, de um modo ou outro, foi a faísca que deflagrou sua decadência. Ignorado por todas as cerimônias de premiação, Fry - que parece ter nascido para interpretar Wilde - foi o grande injustiçado de um ano em que a Academia resolveu homenagear a velha guarda de Hollywood (Jack Nicholson, Dustin Hoffman, Robert Duvall e Peter Fonda foram indicados ao Oscar) e lançar um novo candidato a astro (Matt Damon, que saiu vencedor na categoria de roteiro original ao lado de Ben Affleck mas cuja lembrança no páreo de interpretação masculina soou mais como um incentivo do que como merecimento). Essa esnobada de todos os críticos - somente o Golden Globe lhe indicou no ano seguinte, quando o filme finalmente estreou nos EUA - porém, não tiram o brilho, tanto do ator quanto do filme em si.


A obra de Gilbert começa quando Wilde, voltando à Londres depois de uma temporada nos EUA, se casa com a doce Constance (Jennifer Ehle), com quem tem dois filhos justamente quando começa a tornar-se um dramaturgo de sucesso. É nessa época também que ele passa a exercer mais explicitamente sua homossexualidade, envolvendo-se com homens mais jovens e frequentemente de menos posses, que não se importam em dividir sua cama com outros rapazes na mesma situação - como Robie Ross (Michael Sheen), que se torna amigo íntimo e fiel do escritor. Sua rotina se altera profundamente, porém, quando ele se apaixona perdidamente pelo sedutor e manipulador Alfred 'Bosie' Douglas (Jude Law, antes de ficar famoso com "O talentoso Ripley" mas já demonstrando grande talento e beleza), filho do influente Marquês de Queensbery (Tom Wilkinson). Furioso com a relação entre o filho e aquele a quem considera um "pederasta pervertido", o marquês inicia uma campanha de difamação que resulta em um julgamento que expõe o estilo de vida de Oscar - e consequentemente, na sua ruína financeira e moral.

Construindo sua história sem pressa e estabelecendo com inteligência a relação desigual entre Wilde e Bosie - um rapaz egoísta, irresponsável e imaturo que é incapaz de perceber o estrago que suas atitudes podem causar ao amante - Brian Gilbert também cuida em dotar de personalidade os coadjuvantes de sua história, vividos por atores sensacionais como Tom Wilkinson e Vanessa Redgrave - que interpreta a mãe do protagonista com a personalidade forte de sempre. Dirigindo com elegâncias as cenas de sexo - que nunca ultrapassam o limite do bom-gosto e servem apenas para ilustrar o drama central - o cineasta conduz o roteiro de forma a enfatizar a situação extrema de seus personagens e não apenas de comentá-la como uma testemunha neutra. Nitidamente simpática a Wilde e à causa gay, a produção não se furta a retratar seu personagem principal como uma vítima de uma sociedade preconceituosa e hipócrita, o que confere ao filme ares de uma atualidade pungente. Mesmo que não se aprofunde na psicologia de seus protagonistas - que muitas vezes soam bastante fúteis e volúveis - o roteiro serve com perfeição para apresentar ao público uma das histórias mais tristes e revoltantes dos bastidores da literatura mundial. Um filme que não merecia o pouco-caso com que foi recebido e deve ser descoberto pelos fãs do gênero e de um dos maiores escritores da língua inglesa de todos os tempos.

quinta-feira

TROPAS ESTELARES

TROPAS ESTELARES (Starship troopers, 1997, TriStar Pictures/Touchstone Pictures, 129min) Direção: Paul Verhoeven. Roteiro: Ed Neumeier, romance de Robert A. Heinlein. Fotografia: Jost Vacano. Montagem: Mark Goldblatt, Caroline Ross. Música: Basil Poledouris. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Allan Cameron/Bob Gould. Produção: Jon Davison, Alan Marshall. Elenco: Casper Van Dien, Dina Meyer, Neil Patrick Harris, Denise Richards, Jake Busey, Clancy Brown, Michael Ironside. Estreia: 04/11/97

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

É no mínimo incoerente: ruim de doer, mal dirigido e se escorando puramente em efeitos visuais previsíveis e em um nacionalismo constrangedor, "Independence day" transformou-se, já em seu fim-de-semana de estreia, em uma das maiores bilheterias da história do cinema, arrastando multidões às salas de exibição e entronando Will Smith como um dos astros mais populares de seu tempo. Pouco mais de um ano depois, outra ficção científica - com efeitos mais bem elaborados, com um diretor muito mais talentoso e assumidamente trash - se viu apedrejada pela crítica e ignorada pelo público, não chegando nem mesmo a pagar seu custo astronômico de 100 milhões de dólares. Incompreendido pela mesma plateia que aplaudiu os americanos salvarem o mundo de um ataque alienígena no filme de Roland Emmerich, "Tropas estelares" teve o consolo de, com o tempo, sobreviver como um cult movie muito mais respeitado, sendo finalmente reconhecido pelo que é: um divertido pastiche do gênero, recheado de atuações grotescamente exageradas e com um roteiro claramente baseado em todos os clichês de ficção científica. A maior ironia? Mesmo com todos esses excessos propositais, o filme do holandês Paul Verhoeven é muito melhor do que "Independence day".

Assumindo um tom kitsch e farsesco sublinhado pela narrativa que se utiliza de trechos filmados como propaganda militarista, "Tropas estelares" se passa em um futuro não especificado, quando a Terra está em guerra declarada a uma civilização de insetos alienígenas ainda não totalmente estudados pela ciência. Buscando seus soldados ainda na escola, o exército arregimenta milhares de jovens que sonham em lutar pelo planeta e tornarem-se heróis de guerra. Dentre esses jovens encontram-se quatro colegas de ensino médio que, separados em suas divisões, voltam a encontrar-se quando o conflito explode em uma violência sem precedentes: vendo sua cidade destruída pelos inimigos e o planeta em vias de ser invadido, o jovem Johnny Rico (Casper Van Dien), a bela Carmen Ibanez (Denise Richards), a corajosa Dizzy Flores (Dina Meyer) e o genial Carl Jenkins (Neil Patrick Harris) se juntam às tropas armadas até os dentes com o objetivo de dizimar os crueis rivais.


Confortável dentro de um gênero no qual colheu dois de seus maiores êxitos comerciais - "Robocop", de 1987 e "O vingador do futuro", de 1990 - Verhoeven mergulhou em um romance clássico do escritor Robert A. Heinlein (o qual confessa ter lido apenas metade) para criar uma obra que regurgita todos os elementos mais óbvios da ficção científica com um ritmo ágil o suficiente para agradar às plateias pouco pacientes da última década do século, entregando a ela uma profusão de corpos desmembrados, piadas infames e sequências realizadas com os melhores efeitos visuais que um grande orçamento pode comprar. Ignorando por completo a censura americana - capaz de mutilar um filme com sua visão conservadora do politicamente correto e com seus rígidos limites sobre o que é ou não violento demais para o público - o cineasta não hesita em mostrar humanos sendo destroçados pelos insetos gigantescos com uma violência gráfica poucas vezes vista em filmes comerciais que zelam por seus lucros. Por mais paradoxal que possa parecer, no entanto, em cada fotograma de "Tropas estelares" - por mais cruel e debochado - Verhoeven demonstra um carinho legítimo pelo gênero, brincando com seus ingredientes com a intenção de oferecer um saboroso entretenimento à plateia. Infelizmente, quase ninguém comprou sua brincadeira.

É óbvio que as críticas negativas feitas a "Tropas estelares" à época de sua estreia foram feitas por aqueles que não entenderam o espírito de troça no qual o filme está nitida e generosamente banhado. e seus atores centrais com aparência de Barbie e Ken - os péssimos Denise Richards e Casper Van Dien - até o heroísmo exagerado de seus personagens unidimensionais, tudo no filme de Paul Verhoeven tem a função de hipérbole, de over, de caricatura, coisa que jamais faltou nos filmes do gênero, mas sob o manto de uma seriedade que sempre serviu para enfatizar um patriotismo boçal e aborrecido. "Tropas estelares" é um filme de ficção científica, mas no fundo é uma comédia descerebrada do mesmo naipe de "Corra que a polícia vem aí". Só não vê quem não quer ou tem medo de entender.

quarta-feira

GATTACA - EXPERIÊNCIA GENÉTICA

GATTACA - EXPERIÊNCIA GENÉTICA (Gattaca, 1997, Columbia Pictures, 105min) Direção e roteiro: Andrew Niccol. Fotografia: Slawomir Idziak. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: Michael Nyman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Jan Roelfs/Nancy Nye. Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: Ethan Hawke, Uma Thurman, Alan Arkin, Jude Law, Gore Vidal, Loren Dean, Xander Berkeley, Elias Koteas, Blair Underwood, Ernest Borgnine, Tony Shalhoub. Estreia: 07/9/97 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Direção de Arte/Cenários

Em um futuro não muito distante, a imensa maioria dos bebês da Terra serão gerados através de inseminação artificial, possibilitando a seus pais que gerem filhos perfeitos, sem doenças ou qualquer tipo de desvio genético. Nesse mundo, aqueles que, por infelicidade, nascerem de forma natural, são relegados a um destino menos auspicioso, sendo tratados como seres inferiores e portanto impossibilitados de uma vida profissional e pessoal plena. Um desses "filhos da fé" é Vincent Freeman (Ethan Hawke), que, nascido fora dos padrões científicos de sua época, sofre com as chances de desenvolver uma doença cardíaca que pode matá-lo aos trinta anos de idade. Sonhando viajar para o espaço - mesmo sabendo que isso é impossível devido à sua condição genética - ele ainda se tortura ao perceber no irmão caçula (gerado conforme as regras) toda a pureza que sempre quis. Decidido a provar a todos que é capaz de vencer na vida mesmo com suas limitações, ele sai de casa em busca de romper com a inércia de seu dia-a-dia e arruma emprego na Gattaca - uma empresa aeroespacial que provê viagens para fora do planeta. É trabalhando lá que ele descobre uma maneira de burlar o sistema, se passando por outra pessoa para realizar o seu sonho.

Assim começa "Gattaca, experiência genética", brilhante ficção científica escrita e dirigida pelo mesmo Andrew Niccol que criou um dos contos mais contundentes dos anos 90, "O show de Truman, o show da vida" - pelo qual foi indicado ao Oscar de roteiro original. Ao inserir uma clássica história policial em um universo distópico (ou seria utópico?) tão asséptico que soa como um pesadelo orwelliano, Niccol misturou dois gêneros queridos pelo público e cimentou-os com uma saudável discussão sobre os limites da ciência e a obsessão pela perfeição, temas pulsantes e inteligentes que transformam o que poderia ser apenas um competente entretenimento em um dos filmes mais interessantes de seu tempo - ainda que, como a maior parte das obras realmente relevantes dos anos 90, tenha sido um fracasso de bilheteria. Visualmente impactante - com um cenário seco e opressivo que transmite com exatidão a neutralidade impessoal do enredo e concorreu merecidamente ao Oscar - "Gattaca" acaba sendo mais lembrado, porém, por uma história de bastidores do que por seus méritos cinematográficos: foi durante suas filmagens que Uma Thurman e Ethan Hawke se tornaram um casal, em um relacionamento que durou até 2003.


Quando "Gattaca" começa, Vincent já está em vias de ser mandado à sua primeira viagem espacial, depois de anos trabalhando na empresa - e sendo devidamente testado diariamente com exames de sangue e urina. Homem de confiança de um dos diretores da missão, Josef (o escritor Gore Vidal em participação mais do que especial), Vincent esconde de todos um segredo que pode acabar com sua trajetória vitoriosa: ele assumiu a identidade de Jerome Morrow (Jude Law), um atleta geneticamente perfeito que ficou paraplégico depois de um acidente e que cede a ele, diariamente, todos os elementos necessários para que ele não seja descoberto. Assim, com o nome de Jerome, o jovem Vincent leva uma vida sempre no limiar do perigo, sendo obrigado a livrar-se constantemente de todos os resquícios corporais de sua antiga vida. Às vésperas de sua viagem, porém, seu segredo passa a correr o grande risco de ser revelado: um dos diretores da empresa é violentamente assassinado e um cílio de Vincent, encontrado em uma das salas do prédio o aponta como principal suspeito. Sua corrida passa a ser então para esconder sua identidade, provar sua inocência e esconder tudo da mulher por quem está apaixonado, a colega de trabalho Irene (Uma Thurman), que também tem um segredo a esconder de todos.

Fotografado com precisão por Slawomir Idziak (de "A liberdade é azul") - que tira de cada cena o máximo em informações e poesia - e editado como um filme policial cerebral dos anos 70, "Gattaca" foge dos clichês da ficção científica em apostar em um híbrido de gêneros, sendo bem-sucedido em todos eles. A inteligência de sua premissa central encontra eco em um roteiro com ritmo cadenciado, um desenho de produção impecável (a escada da casa de Jerome é em formato de uma espiral de DNA), uma direção discreta e um elenco formidável, no qual se destaca Ethan Hawke no papel principal e Jude Law como seu duplo - um personagem semelhante ao que Law desempenharia pouco tempo depois, em "O talentoso Ripley", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante e um belo empurrão na carreira. Elegante, sóbrio e acima de tudo extremamente pertinente à época em que foi realizado, o filme de Niccol é um dos melhores filmes subestimados dos anos 90.

terça-feira

O QUARTO PODER

O QUARTO PODER (Mad city, 1997, Warner Bros, 115min) Direção: Costa-Gavras. Roteiro: Tom Matthews, história de Tom Matthews, Eric Williams. Fotografia: Patrick Blossier. Montagem: Françoise Bonnot. Música: Thomas Newman. Figurino: Deborah Nadoolman. Direção de arte/cenários: Catherine Hardwicke/Jan Pascale. Produção executiva: Stephen Brown, Wolfgang Glattes, Jonathan D. Krane. Produção: Anne Kopelson, Arnold Kopelson. Elenco: Dustin Hoffman, John Travolta, Alan Alda, Mia Kirschner, Blythe Danner, Robert Prosky. Estreia: 10/10/97

A nociva combinação entre a mídia e a ambição humana sempre encontrou nas telas de cinema vários exemplos e no mínimo um clássico indiscutível, o genial "A montanha dos sete abutres", de Billy Wilder. Essa receita explosiva pareceu irresistível para o cineasta grego Constatin Costa-Gavras, autor de filmes seminais do cinema político, como o oscarizado "Z" (69) e "Missing, o desaparecido" - estrelado por Jack Lemmon em 1982 - que viu na história de um homem comum sendo manipulado por um repórter sensacionalista em sua gana por audiência mais um potencial sucesso para sua bem-sucedida e provocativa carreira. Porém, ao contrário do que se poderia esperar, "O quarto poder" - a união da instigante trama com o talento para a polêmica do diretor - caiu no vazio das boas intenções. Fracasso de bilheteria e ignorado pela crítica, o filme estrelado por Dustin Hoffman e John Travolta peca pela superficialidade, pelo ritmo irregular e pasmem, pela direção apática de Costa-Gavras, que em nenhum momento consegue atingir a plateia com a contundência de suas obras anteriores.

O protagonista do filme é Max Brackett (Dustin Hoffman aparentemente no piloto automático), um repórter televisivo que já teve seus momentos de glória, mas que caiu em desgraça depois de um desentendimento com Kevin Hollander (Alan Alda), âncora de um famoso telejornal de alcance nacional que o relegou a um noticiário pouco visto em uma cidade do interior. Em constante conflito com seu chefe por buscar notícias mais empolgantes do que meros factoides de interesse restrito, ele vê cair em suas mãos, inesperadamente, uma situação que pode lhe render a grande chance dessa fase ruim de sua carreira. Durante uma entrevista tediosa em um museu da cidade, ele testemunha um funcionário demitido, Sam Baily (John Travolta com as mesmas caras e bocas de sempre), invadir o local armado com uma espingarda e exigindo seu emprego de volta. Raposa velha do jornalismo, ele fareja um furo na história, especialmente quando, por acidente, a arma dispara atingindo um segurança do museu - negro, o que atiça ainda mais os ânimos politicamente corretos que veem nisso um crime de ódio - e o atarantado Sam resolve manter como reféns todas as crianças que estão em visita ao prédio. Conquistando aos poucos a confiança de Sam, o repórter conta com a ajuda de sua assistente, a ambiciosa Laurie (Mia Kirschner), para chamar a atenção da mídia nacional e transformar o fato em circo, retomando o destaque de seus dias mais felizes.


Como nem sempre as coisas funcionam da maneira esperada, no entanto, Max se vê diante de um dilema moral quando seu arquirrival Kevin surge em cena, querendo a protagonização da história. Com ainda menos escrúpulos, o famoso âncora passa a manipular as entrevistas feitas por Laurie, com a intenção de transformar Sam de vítima das circunstâncias em um vilão desequilibrado capaz de matar um homem negro pai de família e manter um grupo de crianças como refém. Percebendo as artimanhas de Hollander, Max passa a questionar sua própria ambição e tenta ajudar Sam a sair da armadilha que ele mesmo preparou, chegando à conclusão de que talvez as coisas tenham saído demais do seu controle. Enquanto isso, a população é manipulada facilmente pelo noticiário e cerca o museu, à espera do desfecho do sequestro.

Costurando vários focos de narrativa ao mesmo tempo - a relação entre Max e Sam, a manipulação comandada por Hollander, as entrevistas de Laurie, a manifestação da plateia ávida por sangue - o roteiro acaba por não dar conta de uní-las de maneira satisfatoria, dando a impressão de buracos pouco confortáveis entre uma e outra que nem mesmo a direção consegue disfarçar. A trama central - instigante, inteligente - se perde diante de tantos desvios, esvaziando seu tom de denúncia quando resolve dedicar boa tarde de seu terço final à crise de consciência de Max, em uma reviravolta otimista e forçada que não condiz com o cinismo ácido de seu início promissor. Nem mesmo o final - que acaba sendo previsível e anti-climático - salva o show de virar o aborrecido e banal retrato de uma sociedade doentia e manipulável pela mídia. Não é uma desgraça total - Dustin Hoffman sempre vale uma espiada, mesmo quando não está em seus melhores dias - mas vindo de um diretor do porte de Costa-Gavras é bastante decepcionante.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...