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quinta-feira

MEU QUERIDO PRESIDENTE

 


MEU QUERIDO PRESIDENTE (The American president, 1995, Universal Pictures/Castle Rock Entertainment, 114min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Aaron Sorkin. Fotografia: John Seale. Montagem: Robert Leighton. Música: Marc Shaiman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Lillu Kilvert/Karen O'Hara. Produção executiva: Charles Newirth, Jeffrey Stott. Produção: Rob Reiner. Elenco: Michael Douglas, Annette Bening, Michael J. Fox, Martin Sheen, Richard Dreyfuss, Samantha Mathis, Anna Deavere Smith, Shawna Waldron. Estreia: 08/11/95

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original (Comédia ou Musical)

Às vezes tudo que um diretor de cinema precisa é de uma comédia romântica para demonstrar que também tem um lado menos denso - e de quebra deixar para trás um fiasco homérico. Depois que seu "O anjo da guarda" (1994) fracassou gigantescamente nas bilheterias e foi massacrado pela crítica, Rob Reiner percebeu que a forma de fazer as pazes com o público e com o sucesso seria retornar ao gênero que já havia lhe dado a oportunidade de criar um clássico contemporâneo. Sendo assim, seis anos depois que Meg Ryan entrou para a história fingindo um orgasmo em pleno restaurante lotado - em "Harry & Sally: feitos um para o outro" - uma nova história de amor inofensiva e elegante chegava às telas com sua assinatura, mas dessa vez, com um pequeno upgrade em relação a seus protagonistas: em vez de um casal normal no começo dos trinta anos e vivendo em uma fotogênica Nova York, os personagens principais de "Meu querido presidente" são uma lobista ambiental e um quarentão viúvo que é ninguém menos que o presidente dos EUA.

Andrew Sheperd (interpretado com charme por Michael Douglas) está chegando à segunda metade de seu mandato como presidente, com alto índice de aprovação do eleitorado e sem causar maiores problemas junto a seus correligionários do Partido Democrata. Eleito logo após a morte da esposa, vítima de câncer, Sheperd é visto como um pai dedicado (de uma filha pré-adolescente) e de uma integridade a toda prova - para desgosto de seu maior rival, o republicano Bob Rumson (Richard Dreyfuss), à espera de qualquer deslize para tentar suplantá-lo em uma nova e próxima eleição. A chance de ouro de Rumson chega quando entra em cena Sydney Ellen Wade (Annette Bening), uma competente e conhecida lobista lutando pela aprovação de uma lei a favor do meio-ambiente. Encantado pela inteligência e pela sensibilidade de Sydney, o presidente se deixa seduzir pela possibilidade de um novo romance - até que seus oponentes resolvem apelar para táticas pouco elogiáveis com o intuito de destruir suas chances de reeleição. Resta a ele decidir-se, então, pelo amor ou pelo poder.

Escrito por Aaron Sorkin - criador e roteirista da bem-sucedida série "The West Wing", que também trata dos bastidores da política norte-americana -, "Meu querido presidente" não tenta ser um retrato fiel dos meandros da Casa Branca e seus adendos. Pelo contrário, o filme de Reiner apresenta uma visão romântica e idealizada, quase a ponto de tornar-se maniqueísta: enquanto Sheperd é retratado como bom moço, honesto e incapaz de qualquer deslize deliberado, seu rival - vivido por Richard Dreyfuss nitidamente à vontade - é a epítome da política como algo venal, sujo e amoral. Entre os dois extremos, está a heroína de Annette Bening, mostrada como uma mulher independente, bem-sucedida e respeitada que, no entanto, não escapa de ser a típica protagonista de histórias de amor direcionadas aos fãs do gênero: mesmo tentando manter a pose de alguém que põe a carreira acima da vida pessoal, basta um encontro regado a belas roupas, boa bebida e uma rodada de dança para que suas prioridades entrem em xeque. São poucos os momentos em que Reiner (que conduz o filme com sobriedade mas nunca a ironia que se poderia esperar) deixa sobressair a argúcia característica da obra mais famosa de Sorkin - somente quando entram em cena os assessores de Sheperd, interpretados por Martin Sheen e Michael J. Fox, é que se pode reconhecer seu texto quase cínico (é de se imaginar como seria seu roteiro original, que contava com 385 páginas).

Indicado ao Oscar de melhor trilha sonora original (comédia ou musical), "Meu querido presidente" é um filme que, mesmo longe de ser brilhante, jamais subestima o espectador. Oferece um casal central extremamente simpático (Bening ficou com o papel para o qual foram consideradas Jessica Lange, Emma Thompson, Michelle Pfeiffer e Susan Sarandon), uma história sem sobressaltos ou ousadias temáticas e narrativas e uma atmosfera romântica e adulta rara em filmes comerciais de sua época - vale lembrar que foi o ano de blockbusters como "Toy story", "Pocahontas", Duro de matar 3" e "Ace Ventura 2", nenhum deles exatamente apropriado para quem desejava apenas sentir-se apaixonado ao entrar em uma sala de exibição. Delicado mas pouco memorável, ao menos serviu para deixar para trás o fracasso de "O anjo da guarda" - pelo menos até o filme seguinte de Reiner, "Fantasmas do passado", que também não foi exatamente um sucesso.

sábado

CULPADO POR SUSPEITA


CULPADO POR SUSPEITA (Guilty for suspicion, 1991, Warner Bros, 105min) Direção e roteiro: Irwin Winkler. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Priscilla Nedd. Música: James Newton Howard. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Leslie Dilley/Nancy Haigh. Produção executiva: Steven Reuther. Produção: Arnon Milchan. Elenco: Robert DeNiro, Annette Bening, George Wendt, Chris Cooper, Patricia Wettig, Sam Wanamaker, Luke Edwards, Ben Piazza, Martin Scorsese, Tom Sizemore. Estreia: 15/3/91

Levando-se em consideração que o cinema foi um dos ramos mais atingidos pela  famigerada caça às bruxas promovida pelo Senador republicano norte-americano Joseph McCarthy na década de 1950 - que, sob o pretexto de salvar os EUA do comunismo, ceifou carreiras e reputações, arruinando vidas e famílias inteiras - até que demorou para que Hollywood tratasse do assunto com a seriedade merecida. Talvez por medo de tocar em uma ferida ainda dolorida mesmo depois de quarenta anos, os executivos  evitaram, por décadas, ressuscitar um fantasma que havia posto colegas contra colegas e deixado a indústria em tensão constante por um longo e tenebroso período. Foi somente em 1991 que a Warner Bros finalmente rompeu a barreira de silêncio e lançou "Culpado por suspeita" - uma produção classuda, estrelada por um astro de primeira grandeza (Robert DeNiro) e que marcava a estreia na direção de um produtor consagrado - Irwin Winkler, o nome por trás de clássicos contemporâneos, como "Touro indomável" (1980), "Os eleitos" (1983) e "Os bons companheiros" (1990). Tais créditos, no entanto, não impediram que o filme fracassasse nas bilheterias - o que era, de certa forma, esperado, devido à seriedade do tema, pouco atrativo ao público médio - e falhasse na tentativa de arrebatar estatuetas do Oscar - não apenas por ter estreado longe do período mais propício à atenção da Academia mas por sua falta de brilho e personalidade.

 


Morno e quase apático - a despeito do tema explosivo -, "Culpado por suspeita" provavelmente perdeu sua chance de ser a obra definitiva sobre o macartismo (ou ao menos uma produção memorável e relevante artisticamente) logo em sua gênese. Ao assumir o projeto, uma das primeiras coisas que Winkler fez foi trabalhar em alterações no roteiro original de Abraham Polonsky e transformar David Merill, seu personagem principal, de comunista assumido em um menos "perigoso" liberal. Polonsky - ele mesmo uma vítima da lista negra promovida pelas investigações de McCarthy - sentiu-se pessoalmente ofendido com a mudança e não fez a menor questão de esconder a insatisfação com a novidade. Segundo ele - e com razão, a história não era sobre alguém falsamente acusado e sim sobre alguém que tinha plena consciência de suas visões políticas e se recusava a abrir mão de seus ideais. Polonsky se identificava com o protagonista e sua integridade a tal ponto que simplesmente obrigou a retirada de seu nome dos créditos também na função de produtor executivo (o que poderia lhe render dividendos, caso o filme se tornasse um hit). A opção de Winkler em tornar Merrill um liberal teve suas razões comerciais - um filme sobre um cineasta comunista certamente incomodaria muita gente - mas acabou por mostrar-se quase tão covarde quanto àqueles que tenciona criticar em sua trama. Isso e o excesso de didatismo acabaram diminuindo o impacto que o filme poderia ter.

O roteiro de Winkler - depois das alterações feitas para desgosto de Polonsky - tenta ser acessível até mesmo ao público que desconhece detalhes das investigações promovidas pelo Comitê de Atividades Antiamericanas, mas esbarra em uma profusão de cenas redundantes, que fazem com que o filme, apesar de suas intenções quase louváveis, pareça andar em círculos. Os personagens constantemente repetem o que a plateia já cansou de ouvir - todas as cenas em que Merrill tenta ser convencido a testemunhar diante do comitê, por exemplo, soam incomodamente semelhantes, e nem mesmo o talento superlativo de Robert DeNiro é capaz de disfarçar tamanha falta de criatividade. Aliás, se há algo em que "Culpado por suspeita" se escora com sucesso é em seu elenco: além de DeNiro (que mesmo sem estar em um momento particularmente memorável da carreira ainda é um ator fenomenal), Winkler conta com a estrela (então) em ascensão Annette Bening (no mesmo ano em que estaria no elenco do aclamado "Bugsy", ao lado do marido Warren Beatty), o ainda pouco conhecido Chris Cooper, a ótima Patricia Wettig (que anos mais tarde estaria no elenco da série "Brothers and sisters") e até mesmo Martin Scorsese em um de seus raros trabalhos como ator (na pele de um cineasta perseguido que prefere abandonar os EUA a delatar amigos, uma história que espelha a do veterano Joseph Losey). Com atores tão bons em mãos (além do veterano Sam Wanamaker, que esteve, assim como o roteirista original, Abraham Polonsky, na lista de profissionais impedidos de trabalhar), Winkler tropeça ao apresentar um filme burocrático que somente em seu terço final consegue empolgar - e mesmo assim o faz ao colocar na boca de seu protagonista um discurso real ouvido no Comitê: o do advogado Joseph N. Welch.

A trama de "Culpado por suspeita" acompanha o consagrado cineasta David Merrill (DeNiro), que retorna da Europa aos EUA, no começo dos anos 1950, e encontra Hollywood em polvorosa com a caça aos comunistas promovida pelo Senador Joseph McCarthy. Merrill - citado como provável membro do partido por ter participado de reuniões anos antes - passa a ser pressionado pelo comitê e até mesmo por colegas para testemunhar e, obviamente, listar nomes que possam ser punidos por suas atividades. Impedido de trabalhar até que concorde em fazer parte da lista de delatores, Merril vê sua vida ruir em questão de semanas. Sem emprego, dinheiro ou oportunidades, ele recorre à família como porto seguro: a ex-mulher, Ruth (Annette Bening), e o filho pequeno. Enquanto mantém firme sua integridade, porém, o cineasta fica atônito ao perceber que nem todo mundo tem a mesma força de caráter. Tal constatação o leva a questionar a força devastadora da mentira e do medo - uma reflexão contada de forma muito mais ousada e memorável em "Boa noite, e boa sorte" (2005), filme de George Clooney que retratava o mesmo período histórico mas dentro do universo televisivo, assim como a comédia "Testa-de-ferro por acaso", estrelada por Woody Allen em 1977. Importante apenas por ser o primeiro filme a resgatar o assunto dentro do mundo do cinema, "Culpado por suspeita" é uma produção agradável e interessante - mas jamais ultrapassa os limites que impôs a si mesma. Uma pena.

sexta-feira

MULHERES DO SÉCULO XX

MULHERES DO SÉCULO XX (20th Century women, 2016, A24/Annapurna Pictures, 119min) Direção e roteiro: Mike Mills. Fotografia: Sean Porter. Montagem: Leslie Jones. Música: Roger Neill. Figurino: Jennifer Johnson. Direção de arte/cenários: Chris Jones/Aimee Athnos. Produção executiva: Chelsea Barnard. Produção: Anne Carey, Megan Ellison, Youree Henley. Elenco: Annette Bening, Elle Fanning, Greta Gerwig, Billy Crudup, Lucas Jade Zumann, Allison Elliot, Thea Gill. Estreia: 08/10/16 (Festival de Nova York)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Em uma Hollywood cujas constantes reclamações a respeito da falta de bons papéis femininos acima dos 50 anos, a atriz Anette Bening vem mantendo uma constância interessante em sua carreira: volta e meia surge com uma personagem forte e bem-escrita, que lhe dá a oportunidade de demonstrar todas as nuances de seu talento. Foi assim em "Beleza americana" (1999), "Adorável Julia" (2005), "Minhas mães e meu pai" (2010) e "Correndo com tesouras" (2006) - não por coincidência, os três primeiros lhe deram indicações ao Oscar. Em "Mulheres do século XX" ela voltou a encantar à crítica, mas, apesar de ter sido lembrada pelos eleitores do Golden Globe, foi esnobada pela Academia e ficou de fora da lista das candidatas à estatueta. Melhor sorte teve o roteiro do também diretor Mike Mills, que, com uma protagonista inspirada em sua própria mãe, chegou à reta final da premiação ao lado dos badalados "La La Land: cantando estações" e "Manchester à beira-mar". Com uma prosa poética e recheada de nostalgia, ele mergulha o espectador em uma trama que, a despeito de parecer excessivamente simples, discute com bom-humor e sem exageros, um tema sempre caro e relevante: o feminismo.

Porém, apesar do título e do tema que percorre com maior ou menor destaque toda a sua narrativa, "Mulheres do século XX" é, principalmente, um filme sobre o amor familiar, mesmo que em um núcleo menos ortodoxo. Assim como em "Toda forma de amor" (2011) o cineasta Mike Mills se utiliza da memória afetiva para criar personagens quase inacreditáveis: no filme anterior, Christopher Plummer deu vida (e ganhou um Oscar de coadjuvante por isso) a um homem de 80 anos que, viúvo, resolve assumir a homossexualidade para o filho e viver uma história de amor outonal - um acontecimento baseado na vida de seu próprio pai. Em sua nova obra, é sua mãe quem ressurge, com cores carinhosas e quase melancólicas, na figura de Dorothea, uma mulher forte e estoica que, divorciada, tenta criar o filho adolescente na efervescente cultura da Califórnia do final dos anos 70. Sentindo-se incapaz de lhe transmitir tudo que acredita ser necessário para que sobreviva em um mundo em constante mudança, ela pede socorro a quem lhe parece mais correto: suas duas jovens inquilinas, que irão, então, iniciar o ingênuo Jamie (Lucas Jade Zumann) nas dores e delícias de um universo de liberdade, sexo, drogas e maturidade.


Concentrando-se nas dúvidas de Dorothea em relação à forma de criar o filho em um lar cuja mais constante figura masculina é William (Billy Crudup) - um faz-tudo que faz reparos em sua deteriorada casa e em sua ocasional solidão - o filme de Mills volta seu olhar também para duas fascinantes coadjuvantes femininas que completam o panorama informal sobre a situação da mulher nas décadas finais do século XX. A mais velha, Abbie (Greta Gerwig, ótima), sonha em ser fotógrafa, acaba de passar por uma séria doença e apresenta ao rapaz o mundo da vida noturna de Nova York, com suas bandas de punk rock, atitudes rebeldes e a luta pelos direitos das mulheres. A mais jovem, Julie (Elle Fanning), de apenas 17 anos, está experimentando o sexo, com todas as complicações inerentes a tal período - incluindo o medo de uma gravidez indesejada - e, a despeito de despertar sentimentos fortes em Jamie, não pretende envolver-se romanticamente com ninguém depois de uma série de experiências traumáticas. Cada uma a seu modo, Abbie e Julie serão fundamentais na transição do rapaz para a vida adulta e, ao som de uma caprichada trilha sonora, emolduram uma época de transformações culturais e sociais que ecoariam por muito tempo.

Mike Mills é inteligente em justapor essas duas camadas narrativas - pessoais e históricas - sem que uma atropele a outra e ambas sutilmente se completem. O amadurecimento de Jamie é mostrado com delicadeza e o tom certo de melancolia/nostalgia/bom humor, em um roteiro que privilegia momentos simples e cotidianos ao invés de elaborar grandiosas sequências catárticas. Com uma edição que intercala informações a respeito dos personagens através de imagens de arquivo e uma narração em off que revela ao público alguns de seus dramas e segredos, "Mulheres do século XX" deve muito de seu sucesso junto à crítica à força de seu elenco. Se Annette Bening novamente dá mostras de que é uma das grandes atrizes de sua geração, sempre arrancando o máximo de suas personagens e entregando ao público interpretações sensíveis e realistas, suas coadjuvantes não ficam atrás: Elle Fanning cresce a cada filme, sempre cativando com a intensidade de seus desempenhos, e Greta Gerwig (de "Frances Ha") rouba o filme com sua corajosa Abbie - são dela as melhores cenas e os melhores diálogos, e é difícil não se apaixonar por sua personagem. O único senão do filme é a presença quase apática do protagonista masculino, o iniciante Lucas Jade Zumann, que não chega a comprometer o resultado final, mas impede o filme de atingir todo o seu potencial. Um pequeno senão em um filme simpático, agradável e antenado com seu tempo, que reitera o talento de seu diretor em transformar memórias afetivas em pequenos e delicados filmes.

sábado

RICARDO III

RICARDO III (Richard III, 1995, Mayfair Entertainment International, 104min) Direção: Richard Loncraine. Roteiro: Ian McKellen, Richard Loncraine, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Paul Green. Música: Trevor Jones. Figurino: Shuna Harwood. Direção de arte/cenários: Tony Burrough. Produção executiva: Maria Apodiacos, Ellen Dinerman Little, Ian McKellen, Joe Simon. Produção: Stephen Bayly, Lisa Katselas Paré. Elenco: Ian McKellen, Annette Bening, Robert Downey Jr., Jim Broadbent, Kristin Scott Thomas, Nigel Hawthorne, John Wood, Maggie Smith, Jim Carter, Dominic West. Estreia: 20/8/95 (Brasil)

2 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

De todas as polêmicas que envolvem o dramaturgo inglês William Shakespeare - desde sua sexualidade até a autoria verdadeira de suas obras - duas certezas emergem soberanas sempre que um filme baseado em alguma peça sua chega aos cinemas: a perenidade de sua percepção da alma humana e a estrutura sempre moderna de seus textos, que permite que qualquer adaptação mantenha o espírito do original intocado. Um perfeito exemplo dessa afirmação é "Ricardo III", que o ator Ian McKellen levou dos palcos para as telas em 1995. Baseado em uma montagem ousada que alterava a data da ação para os primórdios da ascensão do nazismo (incutindo assim uma crítica política que em nada diminui o impacto da trama) e enxugava o texto em cerca de 50%, o filme de Richard Loncraine é um triunfo artístico, mas peca em ditar o ritmo necessário que poderia fazer dele uma das mais excitantes transposições do bardo para o cinema.

McKellen, também autor do roteiro, está espetacular como o personagem-título - reza a lenda que ele perdeu uma indicação ao Oscar 96 por apenas dois votos - o deformado e vil irmão caçula do Rei Edward (John Wood) que, na Europa dos anos 30, cobiça o trono da Inglaterra a ponto de urdir intrigas e assassinatos para alcançá-lo. Frio e cruel, ele não hesita em incluir até mesmo outro irmão, Clarence (Nigel Hawthorne), entre as vítimas que faz rumo ao poder. Sua trajetória sangrenta, porém, encontra firme resistência na Rainha Elizabeth (Annette Bening) - tornada americana na adaptação de Loncraine - e no irmão dela, Lord Rivers (Robert Downey Jr.), a quem ele considera dois arrivistas sociais. Casado com a bela Lady Anne (Kristin Scott Thomas), viúva de uma suas vítimas, Richard não medirá esforços em atingir seu objetivo e tornar-se um monarca ditatorial e fascista.


Com cuidadosa reconstituição de época - foi indicado aos Oscars de figurino e direção de arte - "Ricardo III" é uma produção que enche os olhos, conquistando o espectador logo de cara com uma sequência de ação empolgante que apresenta seu protagonista já mostrando seu lado maligno - no que muito colabora o olhar ensandecido de McKellen, um dos grandes atores de seu tempo. Conforme a história avança, no entanto, algo parece sair do lugar. Talvez os cortes no texto original de Shakespeare tenham sido exagerados, pois em vários momentos fica a impressão clara de que algo aconteceu e não foi explicado à plateia. Esse sentimento de confusão permanece até o final, e essa confiança do cineasta no conhecimento prévio do público da história que está sendo contada acaba por prejudicar sua narrativa. Não fica claro, por exemplo, os motivos que levam o protagonista a odiar tanto a Lord Rivers - exceto, lógico, pelo fato de ele ser o cunhado do rei. Tampouco é explicado o motivo que leva Lady Anne a aceitar desposar Ricardo, a despeito de ele ser o assassino de seu marido.

Essas falhas no roteiro de "Ricardo III" terminam por ser o calcanhar de Aquiles da obra, de resto um trabalho exemplar de grandes atuações e um texto poderoso enfatizado por um desenho de produção impecável e luxuoso. Shakespeare sabia como ninguém burilar as ambições e desejos humanos e poucos personagens seus são tão absurdamente apavorantes em sua sinceridade quanto o rei Ricardo, que encontra na atuação do monstro Ian McKellen a personificação ideal. Nem seu ritmo um tanto irregular apaga o brilho de seu desempenho.

domingo

LEMBRANÇAS DE HOLLYWOOD

LEMBRANÇAS DE HOLLYWOOD (Postcards from the edge, 1990, Columbia Pictures, 101min ) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Carrie Fisher, livro de sua autoria. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Sam O'Steen. Música: Carly Simon. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandestein/Chris A. Butler. Produção executiva: Robert Greenhut, Neil Machlis. Produção: John Calley, Mike Nichols. Elenco: Meryl Streep, Shirley MacLaine, Dennis Quaid, Gene Hackman, Richard Dreyfuss, Rob Reiner, Annette Bening, Simon Callow, CCH Pounder, Oliver Platt, Michael Ontkean, Anthony Heald. Estreia: 14/9/90

2 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Canção Original ("I'm checking out")

Carrie Fisher foi ao inferno e voltou - com um humor mordaz e venenoso à tiracolo. A eterna Princesa Leia da cinessérie "Star Wars" - filha de um ícone (Debbie Reynolds), ex-mulher de outro (Paul Simon), ídolo de uma (ou provavelmente mais de uma) geração de nerds - Fisher enfrentou um perigoso vício em drogas e sobreviveu para contar sua história. Disfarçada sob o rótulo de ficção, sua trajetória para recuperar sua carreira, aprender a conviver com as idiossincrasias da mãe estrela de cinema e de quebra fazer uma dura e mordaz crítica aos bastidores da indústria do cinema americano chegou às livrarias com o título de "Postcards from the edge" ("Cartões postais do abismo", em tradução literal) e, mais tarde, como não poderia deixar de ser, apesar da ironia, chamou a atenção dos produtores de Hollywood (que, sabidamente, adoram ser retratados nas telas, por pior que seja tal retrato). Dirigido pelo ótimo Mike Nichols - acostumado a lidar com os melindres da terra do cinema - "Lembranças de Hollywood" acabou resultando em uma agridoce comédia dramática que mesmo em seus momentos mais sentimentais nunca abandona sua tendência ao sarcasmo - em boa parte porque o roteiro ficou a cargo da própria Fisher, especialista em transformar aridez em saborosos diálogos.

E diálogos furiosos banhados a humor não faltam na história de Suzanne Vale, a protagonista interpretada com verve cômica por Meryl Streep (que obviamente concorreu ao Oscar por seu desempenho repleto de frescor e ironia). Famosa mais por seu vício em drogas e por ser filha da excêntrica, querida e popular Doris Mann (Shirley MacLaine, esplêndida), ela é obrigada a fazer um tratamento de desintoxicação como cláusula para ser contratada para um filme que ela nem mesmo está tão empolgada a fazer. O problema do tratamento é, além daqueles normalmente inerentes a ele, é a obrigação de voltar a conviver com a mãe, uma mulher carismática, adorada pelo público e de cuja sombra ela vem tentando sair há anos. Com seus próprios problemas de vício - dessa vez em álcool - Mann não chega a ser um exemplo para a filha, mas a convivência, apesar de difícil, passa a ser responsável por uma aproximação entre elas, principalmente quando demônios e traumas passados vem à tona. Não bastasse tudo isso, Suzanne ainda se vê diante de seus problemas amorosos, em especial quando se encanta por um ator metido a conquistador, Jack Faulkner (Dennis Quaid).


Lotado de participações especiais - Richard Dreyfuss como seu médico, Gene Hackman como um cineasta com o coração bem menos duro do que aparenta, o cineasta Rob Reiner como um produtor - "Lembranças de Hollywood" é um retrato tão sincero dos bastidores do cinema comercial americano que incomodou alguns (Lana Turner não gostou nem um pouco de ter sido citada em uma cena que a qualificava como uma má mãe), trouxe lembrnças a outros (Liza Minnelli encontrou ecos de sua relação com Judy Garland no filme) e despertou cobiça em outros tantos (Janet Leigh queria fazer o filme com a filha Jamie Lee Curtis e a própria Debbie Reynolds se interessou em interpretar Doris Mann). A coragem de Fisher em expor-se e seu mundo é admirável, em especial quando se nota que em momento algum existe resquícios de autopiedade ou sentimentalismo. Como uma metralhadora giratória, o roteiro brinca com o egocentrismo dos cineastas e atores, com o mundo de aparências em que vivem e até mesmo com o perigo do vício em entorpecentes (em vias de morrer de overdose, Suzanne se vê em um corredor decorado com fotos de Judy Garland, Elvis Presley, James Belushi e Marilyn Monroe). Mas é na problemática/amorosa/inconstante relação entre mãe e filha que está o âmago do filme de Mike Nichols, e é onde estão também seus maiores trunfos: Meryl Streep e Shirley MacLaine.

Se foi Streep quem concorreu ao Oscar - e perdeu para Kathy Bates em "Louca obsessão" - é MacLaine quem rouba a cena com sua histriônica Doris Mann, uma atriz capaz de fazer um mini-show em sua casa na festa que dá para comemorar o retorno da filha de uma clínica de reabilitação e de dar uma entrevista coletiva ao sair do hospital depois de ter sofrido um acidente por dirigir bêbada como se estivesse saindo de um espetáculo na Broadway. Os duelos entre as duas - repleto de farpas, rancores e uma indisfarçável inveja (a filha inveja o talento da mãe, a mãe queria a juventude da filha) - estão entre os melhores momentos do filme, a ponto de o público ficar constantemente querendo ver mais e mais arranca-rabos entre as duas. Mesmo que a diferença entre as duas atrizes não ultrapasse quinze anos, não existe dúvidas de que Nichols não poderia ter feito escolhas melhores para suas protagonistas: elas iluminam e dão calor humano a um filme que, a despeito de tratar de um assunto aparentemente tão distante da plateia que não é astro de cinema nem viciado em drogas, consegue atingir em cheio o coração e a mente do espectador graças a um belo roteiro, uma trilha sonora inspirada e duas atrizes extraordinárias.

sábado

OS IMORAIS

OS IMORAIS (The grifters, 1990, Cineplex-Odeon Films, 110min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Donald E. Westlake, romance de Jim Thompson. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Mick Audsley. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Richard Honrnung. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Barbara de Fina. Produção: Robert A. Harris, Jim Painter, Martin Scorsese. Elenco: Anjelica Huston, John Cusack, Annette Bening, Pat Hingle, Xander Berkeley. Estreia: 14/9/90 (Festival de Toronto)

4 indicações ao Oscar: Diretor (Stephen Frears), Atriz (Anjelica Huston), Atriz Coadjuvante (Annette Bening), Roteiro Adaptado

Lilly Dillon ganha a vida lavando dinheiro da Máfia, frequentando hipódromos para buscar a grana de seu violento patrão, Bobo Justus. Seu filho, Roy, vive de golpe em golpe, arriscando-se em busca do ganha-pão e não a vê há oito anos. Sua nova namorada, a alegre sirigaita Myra Langrty, utiliza-se de sua beleza para pagar com o corpo o aluguel e outras dívidas que não consegue amortecer, depois de ver suas chances de enriquecer com um golpe milionário irem por água abaixo. Esse trio de bandidinhos, malandros pés-de-chinelo, a quilômetros de distância do glamour hollywoodiano são os protagonistas de "Os imorais", noir sujo, direto e sem concessões baseado com extrema fidelidade no romance de Jim Thompson e dirigido por Stephen Frears que conseguiu a façanha de, no mesmo ano de "Os bons companheiros", de Martin Scorsese, e "O poderoso chefão, parte III", de Francis Ford Coppola, chegar até a cerimônia do Oscar em categorias nobres como direção, roteiro e atriz. Scorsese, aliás, é produtor executivo do filme, o que talvez explique a maneira com que as entranhas do submundo do crime são tão cruamente expostas nessa pérola de Stephen Frears, até então mais conhecido pelo elegante "Ligações perigosas" (88).

Pela direção da adaptação do clássico romance de Choderlos de Laclos estrelado por Glenn Close e John Malkovich, o diretor foi esnobado pela Academia, apesar do filme concorrer à estatueta principal, mas dessa vez não teve como ignorá-lo. Sua direção firme, fria e direta casa perfeitamente com o texto incisivo e cínico de Jim Thompson, escritor americano que frequentou Hollywood contribuindo com o roteiro de  "O grande golpe" (56) e "Glória feita de sangue" (57), ambos de Stanley Kubrick: sem preocupar-se com firulas, sua obra vai direto à jugular, com uma violência verbal e física capaz de encantar aos fãs do tradicional cinema noir hollywoodiano - mas, ao contrário dos filmes mais famosos do gênero, abdica do glamour para concentrar-se nos escaninhos mais sórdidos das histórias de gângsteres, aqueles que até o mais amoral criminoso tem vergonha de admitir. Ao retratar bandidos ralé ao invés de poderosos chefões, "Os imorais" ganha pontos pela autenticidade, garantida por um trio de atores principais de tirar o chapéu.


Anjelica Huston (loiríssima) está sublime como Lilly, uma Jocasta extemporânea que, depois de oito anos de ausência, reencontra o filho, Roy (John Cusack iniciando uma expressiva fase da carreira que o levaria a trabalhar com cineastas do porte de Woody Allen e ser reconhecido como um dos atores mais promissores de sua geração) e de cara implica com sua nova namorada, Myra (Annette Bening, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), em uma antipatia recíproca, como se ambas percebessem a inevitável rivalidade prestes a ocorrer. Lilly quer que Roy a ajude a fugir de seu patrão, que desconfia de sua honestidade (não sem motivos). Myra deseja que o namorado se torne seu sócio em um esquema que lesa milionários desavisados. As duas sabem que qualquer escolha do rapaz anulará a outra e uma guerra silenciosa é declarada entre elas.

Contando com uma edição ágil mas nunca apressada de Mick Audsley - que começa o filme dividindo a tela em três, apresentando à plateia as personagens com quem irão conviver pelas próximas duas horas - "Os imorais" se beneficia também do roteiro enxuto de Donald E. Westlake, que segue religiosamente sua origem literária e da coragem de Stephen Frears em obrigar o publico a testemunhar cenas de grande impacto emocional (a tortura psicológica sofrida por Lilly e um punhado de laranjas enroladas em uma toalha) sem nunca ultrapassar os limites visuais da violência. Trabalhando principalmente sobre a personalidade de seus protagonistas - e até mesmo deixando no ar algumas questões como o tipo de relação entre Lilly e Roy, que beira o incesto - a trama prefere investigar os mecanismos tortuosos entre os três personagens como engrenagens de uma complexa história de amor, traição e vingança. Não deve agradar a todos - seu visual é desprovido de qualquer beleza e seu ritmo é brusco e árido - mas poucos filmes de sua época tiveram sua coragem de arrancar sem temores os véus de delicadeza que cobriam o gênero policial. Só por isso já merece aplausos.

quarta-feira

MINHAS MÃES E MEU PAI

MINHAS MÃES E MEU PAI (The kids are all right, 2010, Focus Features, 106min) Direção: Lisa Cholodenko. Roteiro: Lisa Cholodenko, Stuart Blumberg. Fotografia: Igor Jadue-Lillo. Montagem: Jeffrey M. Werner. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Claire Hannan. Direção de arte/cenários: Julie Berghoff/David Cook. Produção executiva: J. Todd Harris, Neil Katz, Riva Marker, Anne O'Shea, Andrew Sawyer, Steven Saxton, Christy Cashman, Ron Stein. Produção: Gary Gilbert, Jordan Horowitz, Celine Rattray, Daniela Taplin Lundberg. Elenco: Julianne Moore, Annette Bening, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska, Josh Hutcherson. Estreia: 25/01/10 (Festival de Sundance)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Annette Bening), Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Atriz Comédia/Musical (Annette Bening)

Levando-se em consideração o quão conservadora e fechada a ousadias em relação a sexo (especialmente entre iguais) a Academia de Hollywood pode ser – principal razão pela qual preferiram premiar o hipócrita “Crash: no limite” ao invés do infinitamente superior “O segredo de Brokeback Mountain” na cerimônia de 2006 – não deixou de ser uma (boa) surpresa a inclusão da comédia dramática “Minhas mães e meu pai” na lista dos indicados a melhor filme de 2010. A história de um casal de lésbicas que encontra o homem que doou o esperma para a concepção de seus filhos adolescentes e vê sua família entrar em curto-circuito não é exatamente o tipo de produção que os rígidos membros eleitores costumam homenagear – vale lembrar, por exemplo, que neste mesmo ano eles encheram de láureas o tenebroso “O discurso do rei” mesmo com os bem mais criativos “A origem”, “Cisne negro” e “A rede social” no páreo – mas entrou na lista final em quatro categorias importantes (filme, atriz, ator coadjuvante e roteiro original). Não ganhou nada, como se poderia esperar, mas deu ao filme de Lisa Cholodenko uma visibilidade merecida e que, a julgar pela (ainda) impermeabilidade do mercado quando se fala de homossexualidade de forma séria e adulta, ficaria restrita ao mercado GLBT.
Sem transformar seu roteiro – em parceria com Stuart Blumberg, que posteriormente estrearia como diretor com o simpático “Terapia do sexo” – em palanque, Cholodenko acerta em cheio a rechear sua história com momentos de humor e dar a seus personagens uma complexidade rara no cinema americano, dotando-os de qualidades e defeitos na exata medida. É difícil não acreditar em todos os atos que eles cometem, por mais absurdos que a princípio possam parecer, principalmente porque, além do roteiro exemplar, a diretora ainda teve o mérito de juntar um elenco impecável, sem elos fracos e que transmite com exatidão o tom realista proposto pela trama sem nunca cair na armadilha do dramalhão ou da comédia de erros. Um filme basicamente calcado no equilíbrio entre todas as partes de sua equação, “Minhas mães e meu pai” é capaz de conquistar até ao mais renitente conservador.
A médica Nic (Annette Bening, indicada ao Oscar de melhor atriz) e a paisagista Jules (Julianne Moore, injustamente esquecida pela Academia) vivem um casamento pleno e feliz há mais de duas décadas. A harmonia de seu relacionamento – baseado nas diferenças essenciais entre as duas – se reflete em seu casal de filhos, Joni (Mia Wasikowska) e Laser (Josh Hutcherson), dois adolescentes centrados e de mente aberta concebidos através de inseminação artificial. Aos 18 anos de idade e em vias de viajar para a universidade, Joni cede aos pedidos do curioso irmão caçula e resolve entrar em contato com o banco de sêmen que permitiu a gravidez de suas mães e descobre a identidade de seu “pai”. Para sua surpresa, Paul (Mark Ruffalo, que perdeu o Oscar de coadjuvante para Christian Bale em “O vencedor”), o dono de um restaurante de comida orgânica, mostra-se uma pessoa afável, inteligente e comunicativa, que acaba por conquistar a amizade dos dois irmãos. Porém, quem não gosta nada da ideia de ver os filhos se aproximando do que considera uma ameaça à paz de sua família é Nic, uma mulher controladora e acostumada a ditar as regras de sua casa. Mas nem mesmo ela consegue impedir que não apenas os meninos se tornem amigos de Paul: contratada por ele para cuidar da paisagem de um terreno de sua propriedade, Jules acaba sucumbindo a seu charme e pondo em risco seu casamento até então inabalável.




Ao contrário de muitos filmes de temática homossexual que se utilizam de um elemento externo para abalar as convicções de algum dos protagonistas, “Minhas mães e meu pai” não se aproveita de Paul para tal propósito. Sua chegada ao universo anteriormente pacífico e estruturado da família de Nic não tem intenções dramáticas de questionar a sexualidade de Jules, e sim sua situação como alguém que se viu, aos poucos, sendo deixada de lado como mulher e indivíduo. De forma passiva, Jules viu Nic tomar conta de todo o lado prático da família, obrigando os filhos a normas de comportamento social quase sufocantes e pegando para si o papel de provedora (o que em um mundo heteronormativo corresponderia ao papel masculino). A chegada intempestiva e inesperada de Paul lhe oferece não apenas a confiança em sua capacidade criativa e profissional como também volta a lhe despertar o instinto sexual que a rotina doméstica havia tolhido. Não é uma questão de homo ou heterossexualidade: é uma questão de humanidade, e o roteiro faz questão de tratar a infidelidade de Jules com a devida naturalidade. A questão não é o gênero, e sim a lealdade ou falta dela, a busca pela felicidade, a insegurança e a insatisfação com a realidade. Jules é tanto vítima quanto algoz, assim como a personalidade avassaladora de Nic também o é. E Paul, no meio delas, é apenas o catalisador de uma discussão há muito tentando vir à tona.
O que é melhor em “Minhas mães e meu pai” é a absoluta naturalidade com que seus temas são tratados. O roteiro não pisa em ovos ao falar de homossexualidade, famílias modernas, infidelidade, sexo ou uso de drogas. Cholodenko e Blumberg conseguem criar um universo saudável onde tudo isso convive tranquilamente com uma rotina absolutamente corriqueira. Solar, bem-humorado e desprovido de julgamentos morais, o filme aproxima público e personagens sem apelar para piadas rasteiras ou momentos sentimentaloides, ainda que faça rir em algumas sequências e possa emocionar em outras. E não é difícil perceber que boa parte desse sucesso se deve ao elenco irretocável escolhido pela diretora. Annette Bening tem o papel mais complicado, menos simpático e consequentemente menos propenso a conquistar a simpatia da plateia, mas desincumbe-se com maestria do desafio. Julianne Moore foge com destreza das tentações de fazer uma Jules frágil em excesso e mais uma vez mostra porque é uma das grandes atrizes de sua geração, conquistando a cumplicidade do público sem fazer esforço. Mark Ruffalo – conquistando sua primeira indicação ao Oscar – exercita novamente sua persona agradável e alto-astral, justificando o furacão que provoca na família e Josh Hutcherson demonstra que pode vir a ser um grande ator em um futuro próximo. Até mesmo a normalmente apática e inexpressiva Mia Wasikowska está bem, o que confirma a qualidade da direção de atores de Cholodenko.
Engraçado, leve, sério e desprovido de neuras, “Minhas mães e meu pai” é um dos melhores filmes de temática gay a surgir na primeira década do século XXI. Sem fazer propaganda ou levantar bandeiras, trata seus personagens com o carinho e o respeito que merecem, e oferecem ao público um desenho acurado e sentimental – mas nunca açucarado em excesso – de um novo formato familiar, cheio de idiossincrasias e conflitos, mas ainda mais repleto de amor e compreensão. Um belo filme, sem contra-indicações.

OS AGENTES DO DESTINO

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