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segunda-feira

JOGOS DE ADULTOS

 


JOGOS DE ADULTOS (Consenting adults, 1992, Hollywood Pictures, 99min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Matthew Chapman. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: Sam O'Steen. Música: Michael Small. Figurino: Gary Jones, Ann Roth. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Gretchen Rau. Produção executiva: Pieter Jan Brugge. Produção: Alan J. Pakula, David Permut. Elenco: Kevin Kline, Mary Elizabeth Mastrantonio, Kevin Spacey, Forest Whitaker, Rebecca Miller. Estreia: 16/10/92

Em 1982, o diretor Alan J. Pakula assinou uma de suas obras-primas, "A escolha de Sofia", que rendeu o Oscar de melhor atriz à Meryl Streep e marcou a estreia de Kevin Kline no cinema. Dez anos depois, cineasta e astro voltaram a se encontrar em "Jogos de adultos" - mas, já com Kline consagrado com uma estatueta de coadjuvante por "Um peixe chamado Wanda" (1988), o reencontro ficou muito longe de ser memorável. Vindo do sucesso apenas razoável de "Acima de qualquer suspeita" (1990) - que tornou anêmico o romance best-seller de Scott Turow - e antes de unir Julia Roberts e Denzel Washington na versão cinematográfica de "O Dossiê Pelicano", de John Grisham, Pakula decepcionou crítica e público com uma produção insossa que em momento algum lembra o brilhantismo de seus melhores trabalhos. Com um roteiro preguiçoso que praticamente evita qualquer tipo de suspense e uma direção quase mecânica, "Jogos de adultos" falha em todos os quesitos - e nem a presença de um iniciante Kevin Spacey oferece maiores motivos de entusiasmo.

A trama começa de forma promissora: entediados com a vida doméstica e com a solidão a dois imposta pela ida da filha à universidade, o casal formado por Richard e Priscilla Parker (Kevin Kline e Mary Elizabeth Mastrantonio) vê sua rotina alterada pela chegada à vizinhança de outro casal, bem menos convencional. Eddy e Kay Otis (Kevin Spacey e Rebecca Miller) não apenas se tornam amigos próximos mas também apresentam aos vizinhos um estilo de vida mais leve e divertido - e até mesmo quando Eddy demonstra não ser exatamente uma pessoa muito ética profissionalmente isso não atrapalha suas relações. A coisa começa a mudar de figura, porém, quando o simpático e sedutor novo amigo surge com uma ideia ousada: percebendo a atração de Richard por sua mulher e ele próprio encantado por Prsicilla, Eddy propõe uma troca de casais. Depois de muito hesitar, Richard aceita a proposta - mas quando Kay aparece violentamente assassinada, ele passa a ser o principal suspeito. Certo de que Eddy tem responsabilidade pelo crime, o até então pacato compositor de jingles comerciais luta para provar sua inocência e comprovar a culpa de seu carismático vizinho - agora viúvo e apaixonado por Priscilla.

 

Chega a ser inacreditável que um cineasta do porte de Pakula, que dotou produções como "A trama" (1974) e "Todos os homens do presidente" (1976) de um senso impecável de ritmo, seja o mesmo de "Jogos de adultos": com uma direção sem criatividade e uma edição monótona que impede qualquer chance de despertar interesse no espectador, seu filme sofre de uma absoluta falta de energia. Anêmico a ponto de anestesiar até mesmo aos normalmente bons atores que tem em mão - além dos dois Kevins o elenco conta ainda com Forest Whitaker -, o compasso do roteiro de Matthew Chapman (que mais tarde cometeria o problemático "A cor da noite", estrelado por Bruce Willis em 1994) não permite qualquer envolvimento do público, perdido (no pior sentido da palavra) em uma trama cuja reviravolta é previsível ainda no primeiro ato. Sem aprofundar nenhuma das questões levantadas em seu começo - a crise no casamento dos protagonistas, a personalidade dúbia do vilão, as engrenagens da justiça -, sua história peca principalmente ao negar à audiência os principais elementos de um filme de suspense: o mistério e a catarse: fica evidente desde os primeiros minutos que Eddy não é flor que se cheire e que sua insistência em movimentar a vida amorosa dos dois casais tem segundas e terceiras intenções, e o roteiro não faz a menor questão de subverter expectativas ou tomar rumos que não os mais óbvios. E isso sem falar no ato final, de uma pobreza criativa sem tamanho.

É uma pena que a soma de tantos talentos não impeça que "Jogos de adultos" seja uma produção tão esquecível - para não dizer medíocre. Nem mesmo Kevin Kline e Kevin Spacey, conhecidos por seus dotes dramáticos, conseguem oferecer qualquer tipo de energia que amenize a sensação de apatia que perpassa todos os 99 minutos (que parecem ser mais longos do que o normal) de projeção. Uma mancha desnecessária no currículo de todos os envolvidos.

terça-feira

O DOSSIÊ PELICANO

O DOSSIÊ PELICANO (The Pelican Brief, 1993, Warner Bros, 141min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Alan J. Pakula, romance de John Grisham. Fotografia: Stephen Golblatt. Montagem: Tom Rolf, Trudy Ship. Música: James Horner. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Lisa Fischer, Rick Simpson. Produção: Pieter Jan Brugge, Alan J. Pakula. Elenco: Julia Roberts, Denzel Washington, Sam Shepard, John Heard, Tony Goldwin, James B. Sikking, Stanley Tucci, Hume Cronyn, John Lithgow, Anthony Heald, Cynthia Nixon. Estreia: 17/12/93

Depois de tornar-se a maior estrela surgida em Hollywood no início da década de 90 - e ter sido indicada duas vezes consecutivas ao Oscar - Julia Roberts achou que era hora de dar uma parada: presente mais nas páginas de tabloides sensacionalistas (graças a seu casamento com Kiefer Sutherland desmarcado em cima da hora, seu romance com o ator Jason Patric e posteriormente seu casamento-surpresa com o cantor country Lyle Lovett) do que nos sets de filmagens, a linda mulher que havia encantado os homens e inspirado as mulheres de plateias do mundo inteiro tentava colocar ordem na vida pessoal. Questão resolvida, era hora, então, de voltar ao batente, e para isso nada melhor do que um papel escrito especialmente para ela por um autor em vias de tornar-se o nome mais quente da terra do cinema: John Grisham. Autor do best-seller que deu origem ao filme "A firma" (93), estrelado por Tom Cruise, Grisham criou a protagonista de seu livro seguinte, "O dossiê Pelicano" com Roberts como modelo - não foi preciso muito para que a atriz, lisonjeada, topasse o desafio de encarná-la em seu retorno às telas sem nem mesmo ler a adaptação do romance.

Especializado em uma literatura digestiva, fluente e de pegada fácil, Grisham conquistou milhares de leitores com seus protagonistas, invariavelmente advogados ou estudantes de Direito que se veem forçados a lidar com a ganância e a corrupção do meio em que se instruem. No caso de "O dossiê Pelicano" a bola da vez é Darby Shaw (Julia Roberts, linda e carismática como sempre), uma jovem estudante que, apesar de manter um romance secreto com Thomas Callahan (Sam Shepard) - seu professor e mentor - é dedicada e inteligente o bastante para, sozinha, encontrar o fio da meada de uma conspiração gigantesca (e que envolve membros da Casa Branca) na morte de dois juízes da Suprema Corte. O dossiê que ela escreve apontando os possíveis responsáveis - e que leva o nome de pelicano por causa da ave ameaçada de extinção graças à exploração criminosa de petróleo feita pelos culpados - acaba chegando ao FBI e, consequentemente, ela se vê perseguida e ameaçada de morte. Cercada de violência - que vitima seu amante e qualquer pessoa de quem ela se aproxima - ela recorre a Gray Grantham (Denzel Washington), repórter político em quem ela passa a confiar cegamente.


Acostumado a assinar filmes que tratam de conspirações - são dele "Todos os homens do presidente" (76) e "A trama" - o diretor Alan J. Pakula foi a escolha certa para conduzir "O dossiê Pelicano". Cineasta sóbrio e inteligente, ele consegue extrair sempre o melhor de seu elenco e escolher ângulos improváveis para suas cenas, sejam elas longos diálogos explanativos ou empolgantes correrias dentro de um estacionamento coberto. Mesmo que seu filme seja um tanto longo demais para os padrões comerciais hollywoodianos - quase duas horas e meia de pouca ação e muito papo - ele consegue manter o interesse da plateia graças à tensão construída pela trilha sonora adequada de James Horner, pela fotografia claustrofóbica de Stephen Goldblatt e principalmente pela química entre Julia e Denzel - que foi convencido pela atriz a tomar parte no projeto. É uma bênção, também, que não exista um interesse romântico entre os protagonistas - o que diminuiria o impacto da trama central - e que o final não apele para o clichê da luta corporal entre mocinhos e bandidos. Além disso, Pakula cria alguns momentos brilhantes - como a morte de um dos vilões em pleno parque de diversões e a tentativa de matar Gray e Darby em um carro armado com uma bomba - que amenizam o tom quase morno da narrativa.

Quem está acostumado aos thrillers americanos leva um choque ao assistir a "O dossiê Pelicano": o ritmo é mais lento, o desenvolvimento é menos atropelado e as reações dos personagens são mais críveis do que na maioria dos filmes do mainstream. Ao mesmo tempo que isso qualifica o filme de Pakula como um produto mais inteligente que a média, afasta a plateia que busca adrenalina e a catarse que normalmente acompanha o gênero. Pakula era um diretor elegante, que fugia da violência gratuita, e isso está claro em cada fotograma de seu filme. A história pode não empolgar, mas a qualidade da narrativa é impecável.

segunda-feira

A ESCOLHA DE SOFIA


A ESCOLHA DE SOFIA (Sophie's choice, 1982, ITC/Keith Barish Productions, 150min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Alan J. Pakula, romance de William Styron. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Evan A. Lottman. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: George Jenkins/John J. Moore. Produção executiva: Martin Starger. Produção: Alan J. Pakula. Elenco: Meryl Streep, Kevin Kline, Peter MacNicol, Rita Karin, Gunter Maria Halmer. Estreia: 08/12/82


5 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Meryl Streep)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Meryl Streep) 

Considerada com mérito a maior atriz americana de sua geração - e possivelmente uma das mais extraordinárias de todos os tempos - Meryl Streep não precisou da vantagem que a experiência traz para consagrar-se junto ao público, à crítica e aos membros da Academia. Em abril de 1983, aos 33 anos, ela, grávida, subia pela segunda vez ao palco da entrega do Oscar para receber uma estatueta. Porém, se por "Kramer vs Kramer", três anos antes, ela foi eleita a melhor coadjuvante, por "A escolha de Sofia" ela foi escolhida como a melhor atriz principal do ano. Mais impressionante ainda? Não foi só a Academia que rendeu-se a seu espetacular desempenho: quando pôs as mãos em seu segundo Oscar, ela já havia sido premiada pelas associações de críticos de Los Angeles e de Nova York, pelo prestigiado National Board of Review, pela Associação Nacional de Criticos e pelos jornalistas estrangeiros que concedem o Golden Globe - ou seja, todos os grupos que escolhem os melhores do cinema de cada ano concordaram que estavam diante de uma obra-prima de interpretação dramática.

Baseado em romance de William Styron, "A escolha de Sofia" é um petardo emocional, capaz de impressionar ao mais cínico dos espectadores por evitar, inteligentemente, o caminho da emoção fácil. Não há dúvidas que a famosa cena da escolha do título (muitas vezes comentada e mostrada fora de contexto, o que de certa forma enfraquece sua potência, apesar de ainda arrepiar a cada revisão) é de triturar o coração de qualquer um, mas o roteiro do cineasta Alan J. Pakula não se reduz a contar apenas a trajetória de sua protagonista nos dias cinzentos de sua passagem por Auschwitz, preferindo dar importância também às cicatrizes emocionais incuráveis que ela deixou. São essas feridas que fazem de Sofia uma personagem complexa, vasta, imprevisível e fascinante - o que a atuação de Streep enfatiza a cada diálogo, a cada cena, seja ela das mais leves ou das mais catárticas. O que Sofia esconde, o que ela sente, o que ela pensa são incógnitas ao público - e ao atônito apaixonado Stingo, um aspirante a escritor que chega a Nova York em 1947 e se encanta com a misteriosa vizinha do apartamento de cima. O que ela revela, o que ela deixa transbordar e o que ela finalmente desabafa são uma aula de como utilizar o corpo, os olhos e a voz para deixar marcas no coração e na memória de cada espectador.


Vivido por Peter MacNicol, Stingo faz as vezes de narrador e espectador de uma tragédia anunciada que se desenha a partir do momento em que ele testemunha pela primeira vez uma beligerante discussão entre a polonesa Sofia e seu namorado, o biólogo judeu Nathan Landau (Kevin Kline em sua estreia no cinema, mostrando um talento que lhe renderia um Oscar de coadjuvante seis anos depois, pela comédia "Um peixe chamado Wanda"). Inconstante e frequentemente violento, Nathan torna-se amigo de Stingo e, junto com Sofia, forma com ele uma espécie de família, ainda que o jovem escritor tenha sentimentos mais fortes por Sofia - que por sua vez, os incentiva ao mesmo tempo em que os repele, demonstrando também uma instabilidade emocional que, aos poucos, Stingo vai compreendendo, e que remete a seu passado como prisioneira de um campo de concentração. É também aos poucos que Stingo percebe que a relação doentia entre seus amigos vem acompanhada de uma alta dose de auto-destruição e de fantasmas ainda vivos em suas memórias.

A direção de Pakula é elegante, sóbria, direta. Ele dá espaço ao brilho de seus grandes atores, em algumas sequências que lembram uma boa peça de teatro - enquanto em outros momentos ele aproveita sua experiência como cineasta para criar imagens poderosas, ajudado pela fotografia do mestre Nestor Almendros, que trabalha os flashbacks em frios tons de cinza e o presente em um colorido primaveril que contrasta com sutileza com o frequente estado de espírito dos personagens. E os personagens são um capítulo à parte: Peter MacNicol pontua com correção o show de Kline e Streep, que enchem a tela de energia e força sempre que estão presentes. Kline faz de seu bipolar Nathan um homem adorável em um momento e um monstro no momento seguinte, sempre com segurança e carisma. E Streep não ganhou todos os prêmios que ganhou à toa: ela não apenas vive a personagem com a alma inteira como aprendeu a falar alemão e polonês, para que pudesse tornar verossímil uma mulher polonesa que fala com sotaque alemão. Valeu a pena implorar pelo papel - que Barbra Streisand também queria e para o qual Natalie Wood foi cotada: seu trabalho é, sem dúvida, um dos mais impactantes da história.

quinta-feira

KLUTE, O PASSADO CONDENA

KLUTE, O PASSADO CONDENA (Klute, 1971, Warner Bros, 114min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Andy Lewis, David E. Lewis. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Carl Lerner. Música: Michael Small. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: George Jenkins/John Mortensen. Produção: Alan J. Pakula. Elenco: Jane Fonda, Donald Sutherland, Roy Scheider, Charles Cioffi, Dorothy Tristan, Rita Gam. Estreia: 23/6/71

2 indicações ao Oscar: Atriz (Jane Fonda), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Jane Fonda)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Jane Fonda)

No início dos anos 70, poucas atrizes eram consideradas tão "perigosas" quanto Jane Fonda. Suas ideias fortes e polêmicas a respeito de temas controversos como o movimento feminista e os protestos contra a guerra do Vietnã - que chegaram a lhe render o apelido nada elogioso de "Hanoi Jane" -  não apenas deixavam sua já difícil relação com seu pai Henry, um notório conservador, ainda mais complicada, como também lhe rendiam muitas antipatias. Por esse motivo, havia uma certa aura de apreensão na noite de 10 de abril de 1972, quando foram entregues as estatuetas do Oscar aos melhores do ano de 1971. Era esperado que a então caçula do clã Fonda, uma das favoritas ao prêmio de melhor atriz por seu desempenho no policial "Klute, o passado condena", fosse fazer um discurso político se levasse o prêmio. Porém, se no filme de Alan J. Pakula ela não decepcionou ninguém - nem aos produtores, que a viram sagrar-se vencedora - seu discurso provavelmente deixou muita gente surpresa. Contrariando todas as expectativas, Jane foi concisa e elegante: "Há muita coisa a ser dita, mas eu não as direi hoje esta noite."

Por mais que em muitas de suas pautas políticas Jane estivesse coberta de razão, ela não poderia ter sido mais feliz em sua discrição na entrega do Oscar. O que estava sendo celebrado aquela noite era seu trabalho fascinante como Bree Daniel, uma garota de programa de luxo que comandava a ação do policial cerebral de Alan J. Pakula, um cineasta que como poucos de sua geração, conseguiu captar com perfeição o espírito paranoico de seu tempo - após "Klute" ele assinaria ainda os contundentes "A trama" e "Todos os homens do presidente", que deixariam claro ao público sua inclinação em desvendar o que se passa por trás das portas fechadas não só de pessoas comuns mas também daqueles que governam o país mais influente do mundo. Bree, a personagem de Fonda, é uma mulher que procura na prostituição uma forma de ganhar a vida enquanto não se acerta como atriz ou modelo e não faz disso um drama - ainda que tente equilibrar suas dúvidas existenciais com uma terapeuta. Sua vida aparentemente tranquila sofre uma reviravolta inesperada, porém, quando ela conhece John Klute (Donald Sutherland), um detetive particular que chega até ela em busca de um possível cliente seu misteriosamente desaparecido.


Klute é interpretado por Sutherland - vindo do sucesso da comédia de guerra "MASH", dirigida por Robert Altman - em notas sutis. Na pele de um detetive do interior, desacostumado a maiores violências e pouco à vontade com o ritmo acelerado de Nova York, o ator foge do exagero, preferindo seguir um minimalismo que combina à perfeição com o clima sóbrio e quase claustrofóbico imposto por Pakula. O roteiro não se prende à tentativa de criar um suspense convencional, revelando o criminoso bem antes do final, optando por contar mais a história da relação entre o sóbrio Klute e a sensual e insegura Bree - que a princípio assustada com a aproximação do investigador, que chega a grampear seus telefonemas, logo se vê atraída por suas maneiras delicadas e gentis. A diferença radical entre seus protagonistas e a forma com que eles lidam com ela é que segura "Klute, o passado condena" e o afasta do rótulo fácil de filme policial. Os elementos do gênero estão todos presentes (assassinatos misteriosos, telefonemas assustadores, suspeitos mal-intencionados), mas interessa mais ao cineasta o estudo de seus personagens do que viradas espetaculares na trama.

E, para sorte de Pakula, o que não falta em "Klute" são bons atores. Se Sutherland está discreto, pontuando com eficiência e sensibilidade um espetáculo que tem a violência como tema (mas não como chamariz) e Roy Scheider mostra porque era um dos vilões preferidos dos diretores de sua época pré-"Tubarão", Jane Fonda brilha radiante em mais uma atuação irretocável. Dona de um estilo de interpretação que valoriza mais os pequenos detalhes que criam a personagem do que gestos espalhafatosos, Fonda conquista o espectador pelo olhar, que diz coisas diferentes a cada momento: angústia em suas sessões de terapia, audácia em seus primeiros encontros com Klute e fragilidade logo adiante e principalmente uma certa desesperança em perceber como seus sonhos de estrelato fogem de suas mãos a cada audição frustrada. Seu Oscar foi mais do que merecido, embora o filme possa decepcionar a quem procura uma trama policial comum. Se não for esse o caso, é um belo drama de suspense que vale a pena conferir - nem que seja para aplaudir Jane, uma ausência cada vez mais sentida na tela grande.

segunda-feira

ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA

ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA (Presumed innocent, 1990, Warner Bros, 127min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Frank Pierson, Alan J. Pakula, romance de Scott Turow. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Evan Lottman. Música: John Williams. Figurino: John Boxer. Direção de arte/cenários: George Jenkins/Carol Joffe. Casting: Alixe Gordin. Produção executiva: Susan Solt. Produção: Sydney Pollack, Mark Rosenberg. Elenco: Harrison Ford, Brian Dennehy, Raul Julia, Bonnie Bedelia, Greta Scacchi, Paul Winfield, Bradley Whitford, Jesse Bradford, Joseph Mazzello, Jeffrey Wright. Estreia: 27/7/90

Publicado em 1988, o livro "Acima de qualquer suspeita", escrito pelo advogado Scott Turow, transformou-se imediatamente em um fenômeno de vendas. Sua prosa inteligente, que desvendava os meandros da justiça americana, aliada a uma intrigante história policial, encantou milhares de leitores e não demorou para que vários estúdios de Hollywood disputassem seus direitos a peso de ouro. A Warner Bros foi quem se deu melhor na guerra e, com o veterano Alan J. Pakula - de "Todos os homens do presidente" - no comando e Harrison Ford no papel principal, não tinha como dar errado. Mas, ao assistir-se à adaptação cinematográfica do best-seller de Turow, fica-se com a clara impressão de que certo também não deu.

"Acima de qualquer suspeita" tem todos os ingredientes de que um bom filme policial precisa para conquistar a audiência: uma trama coerente e recheada de pistas falsas, suspeitos interessantes e um final surpreendente, além de um algo a mais que sempre faz a diferença em termos comerciais: um grande astro. No entanto, a interpretação apática de Harrison Ford como o protagonista Rusty Sabitch, em vez de ajudar, apenas atrapalha o que já não é tão bom como poderia. Somado à direção anêmica de Pakula, o trabalho de Ford deixa bastante claras suas deficiências como ator em um papel que poderia render muito mais nas mãos de um Michael Douglas, por exemplo.

Rusty Sabitch (vivido no piloto-automático por Ford) é um bem-sucedido promotor público de Nova York que tem sua vida transformada quando é escalado por seu mentor (Brian Dennehy) para investigar o violento assassinato de Carolyn Polhemus (Greta Scaachi), sua colega de promotoria. Bela, ambiciosa e pouco afeita a coisas como ética e sentimentalismos, Carolyn foi estuprada e morta a golpes na cabeça e Rusty, em sua investigação, começa a descobrir as sujeiras por trás dos cargos públicos de sua profissão - além de particularidades pouco lisonjeiras sobre a vítima, com quem teve um tórrido e obsessivo caso extra-conjugal. As investigações sofrem uma reviravolta, no entanto, quando todas as pistas levam a um principal suspeito do crime: o próprio Rusty. Sem o apoio de seus superiores, ele conta apenas com a ajuda do talentoso advogado Sandy Stern (Raul Julia) e da esposa, Barbara (Bonnie Bedelia).

É difícil acreditar que um cineasta competente como Alan J. Pakula pôde ter errado a mão de maneira tão errônea quanto aqui. "Acima de qualquer suspeita" é um filme policial preguiçoso, que não dá à sua audiência o gostinho de brincar de detetive nem ao menos conta com consistência a história de seu protagonista, envolvido em uma trama rocambolesca e um caso de amor frustrado. Nem mesmo a chocante (para quem não leu o livro) revelação final consegue empolgar o público, em parte graças à absoluta falta de vontade do elenco. Com a gloriosa exceção de Raul Julia - que faz o que pode com o pouco que lhe dá o roteiro mal adaptado - ninguém no filme está além de corriqueiro ou banal - quando não está simplesmente péssimo, como é o caso de Greta Scaachi, que, de posse de um papel crucial, não faz mais do que piscar os olhos para mostrar que está interessada romanticamente em alguém ou fechar a cara para dizer o contrário.

É uma pena que "Acima de qualquer suspeita" - um belo livro policial, bem escrito e com coerência rara - não tenha tido uma adaptação mais bem-sucedida. Frustrante para os fãs do livro e para os entusiastas do gênero, é um pálido exemplar, se comparado à sua origem literária e ao currículo de seu diretor.

quinta-feira

TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE


TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE (All the president's men, 1976, Warner Bros, 138min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: William Goldman, baseado no livro de Bob Woodward e Carl Bernstein. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Robert L. Wolfe. Música: David Shire. Direção de arte/cenários: George Jenkins/George Gaines. Casting: Alan Shayne. Produção: Walter Coblenz. Elenco: Dustin Hoffman, Robert Redford, Jack Warden, Martin Balsam, Jason Robards, Hal Holbrook, Ned Beatty, Jane Alexander, Stephen Collins, Meredith Baxter. Estreia: 09/4/76

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alan J. Pakula), Ator Coadjuvante (Jason Robards), Atriz Coadjuvante (Jane Alexander), Roteiro Adaptado, Montagem, Direção de arte, Som
Vencedor de 4 Oscar: Ator Coadjuvante (Jason Robards), Roteiro Adaptado, Direção de Arte, Som


Enquanto no Brasil normalmente escândalos no governo acabam em pizza - e em reeleições alguns poucos anos depois - nos EUA as coisas não são assim tão fáceis para quem está no poder, vide a crise instaurada por um simples caso extra-conjugal de Bill Clinton quando ele estava na Casa Branca. Tida como o quarto poder, a imprensa é responsável por balançar as estruturas do poder, e o maior exemplo disso provavelmente é o caso Watergate, que, revelado por dois jornalistas do Washington Post, resultou na renúncia do presidente Richard Nixon em 9 de agosto de 1974. Contada com detalhes no extenso livro "Todos os homens do presidente", escrito pelos repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward, uma das investigações mais famosas da história do jornalismo moderno foi parar nas telas de cinema já em 1976, quando o caso ainda estava fresquinho na memória do público. Resultado? Um sucesso enorme de bilheteria e crítica, além de 8 indicações ao Oscar (sendo que 4 converteram-se em estatuetas). Nada mal para um filme que, apesar da presença fulgurante do então astro do momento Robert Redford, foge do padrão filme-pipoca que começava a mandar nas salas de exibição desde que o tubarão de Steven Spielberg surgiu, no verão de 1975.

Dirigido por Alan J. Pakula - que ficou com a direção depois que o inglês John Schlesinger declinou do convite por acreditar que tratava-se de uma história que deveria ser contada por um americano - o filme, roteirizado por William Goldman (que ganhou o Oscar por isso) começa em 17 de junho de 1972, quando um arrombamento na Sede do Partido Democrata americano, localizado no edifício Watergate chama a atenção do jornalista Bob Woodward (Robert Redford), que, recém-contratado pelo Washington Post, tenta mostrar serviço, mesmo que não entenda nada de política. Contando com a ajuda do colega Carl Bernstein (Dustin Hoffman), mais experiente na área e nos meandros do serviço, ele passa a correr atrás de pistas deixadas por atitudes estranhas dos criminosos, que parecem estar ligados à Casa Branca. Quando um misterioso informante, apelidado de Garganta Profunda (Hal Holbrook) confirma suas suspeitas, os dois rapazes tem que não apenas provar sua teoria - que culpa pessoas do mais alto escalão do governo americano - mas convencer seus superiores no jornal (Jack Warden, Martin Balsam e o premiado com o Oscar de coadjuvante Jason Robards) a publicar o que poderá ser a reportagem mais incendiária da história política do país.


O mais fascinante em "Todos os homens do presidente" é a forma com que o roteiro de Goldman e a direção de Pakula se desenrola frente aos olhos privilegiados da plateia. O público acompanha cada passo dos protagonistas do filme, suas altas expectativas, suas frustrações e seus insights de maneira a torcer por eles como se fossem heróis de um filme de ação, ainda que não façam muito mais do que ficar ao telefone ou interrogando dezenas de pessoas possivelmente ligadas à investigação. Não é à toa que ainda hoje o filme seja recomendado em todas as faculdades de Jornalismo, uma vez que detalha admiravelmente a jornada de dois profissionais idealistas em busca da verdade, mesmo que ela possa lhes ser prejudicial. Para isso colabora também a escolha de seus dois atores centrais: Robert Redford assumiu o papel de Woodward para garantir o financiamento do filme - além do fato de ter sido ele o responsável pela compra dos direitos do livro - e Dustin Hoffman entregou ao filme a credibilidade artística necessária à atenção da crítica.

Ainda que seja um filme bastante complexo para não-americanos - a enormidade de nomes, cargos e responsabilidades citadas no roteiro chega a confundir em certas passagens - "Todos os homens do presidente" tem momentos de puro cinema político, no melhor estilo do cineasta grego Costa-Gavras. A música de David Shire aparece nas horas certas, sem atrapalhar o andamento da narrativa, apenas sublinhando a tensão de algumas cenas e a edição confere um tom semi-documental ao resultado final - e ainda que o filme seja um tanto longo demais, é inegável que o roteiro conseguiu enxugar todas as informações necessárias ao máximo possível para que a trama seja compreendida pela audiência sem que prejuízo de suas ambições comerciais.

"Todos os homens do presidente" é um filme bastante interessante e importante, principalmente para quem gosta de histórias reais contadas com cuidado e atenção. Nâo é adrenalina pura, mas ainda se mantém como um dos mais influentes do seu gênero.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...