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terça-feira

DESEJO PROIBIDO


DESEJO PROIBIDO (If these walls could talk 2, 2000, HBO Films/Team Todd, 96min) Direção: Jane Snderson ("1961"), Martha Coolidge ("1972"), Anne Heche ("2000"). Roteiro: Jane Anderson ("1961"), Sylvia Sichel, estória de Sylvia Sichel e Alex Sichel ("1972"), Anne Heche ("2000"). Fotografia: Peter Deming, Paul Elliott, Robbie Greenberg. Montagem: Margaret Goodspeed. Música: Basil Poledouris. Figurino: Julia Caston. Direção de arte/cenários: Nina Ruscio/Susan Mina Eschelnach, K. C. Fox, Mary E. Gullickson. Produção executiva: Ellen DeGeneres, Jennifer Todd, Suzanne Todd. Produção: Mary Kane. Elenco: Vanessa Redgrave, Michelle Williams, Chloe Sevigny, Sharon Stone, Ellen DeGeneres, Paul Giamatti, Elizabeth Perkins, Marian Seldes, Nia Long, Natasha Lyonne, Heathe McComb, Rashida Jones, Regina King, Kathy Najimy. Estreia: 05/3/2000

Em 1996, a HBO lançou, com enorme sucesso de público e crítica, o polêmico "O preço de uma escolha", que trata, em três histórias distintas, de um assunto bastante controverso na sociedade norte-americana: o aborto. Com um elenco que contava com Demi Moore, Catherine Keener e Cher - também uma das diretoras -, o filme chegou a ser indicado a três Golden Globes e estabeleceu um alto parâmetro para as produções do canal. Quatro anos mais tarde, "Desejo proibido" tentou repetir o êxito, voltando a discutir uma questão delicada (ao menos para a audiência mais conservadora) e seguindo a mesma estrutura do original. Ao retratar a homossexualidade feminina - e a forma como ela é vista - em três tempos e enfoques distintos, a produção manteve o tom sério e respeitoso do primeiro filme, mas como normalmente acontece com antologias, não conseguiu escapar da irregularidade. Potente em sua primeira parte, interessante em sua segunda e leve em seu encerramento, "Desejo proibido" revela um panorama abrangente de seu tema, mas nem sempre consegue atingir todo o seu potencial.

O primeiro (e melhor) capítulo se passa em 1961 e apresenta a triste história de Edith Tree (Vanessa Redgrave), que vê sua vida desmoronar com a morte de Abby Hedley (Marian Seldes), sua parceira há mais de cinquenta anos. A tragédia fica ainda maior quando um sobrinho distante de Abby, o pouco afetivo Ted (Paul Giamatti) surge para reivindicar a propriedade onde elas moravam: sem o amparo legal que poderia lhe dar o direito de ficar com a casa que ajudou a pagar, Edith precisa lidar com questões práticas ao mesmo tempo em que experimenta a impensável dor da perda. A diretora e roteirista Jane Anderson é extremamente feliz em imprimir o tom de melancolia e amor maduro, valorizado pela atuação monstruosa de Vanessa Redgrave. Começando sua história já em grande estilo - com uma citação direta do clássico "Infâmia" (1961), em que Shirley MacLaine e Audrey Hepburn tinham sua escola atacada por insinuações de homossexualidade -, Anderson é elegante e romântica, ao mesmo tempo em que desperta no espectador toda a indignação possível diante da situação absurda. Destaca-se também o belo trabalho de Elizabeth Perkins, na pele de Alice, a fútil e insensível esposa de Ted, e a sutileza do roteiro, que vai apresentando camadas ao tema conforme a trama vai se desenhando: do medo de andar próximas na rua às burocracias médicas, tudo é tratado com delicadeza extrema, que eleva o primeiro episódio do filme ao status de pequena obra-prima.

 

Já o segundo segmento, dirigido por Martha Coolidge, peca por sua incapacidade (ou opção) de aprofundar um questionamento bastante relevante - inclusive dentro da comunidade gay. Em 1972, quando os movimentos feministas e homossexuais estavam em alta dentro da sociedade dos EUA, a jovem Linda (Michelle Williams), um tanto decepcionada com o preconceito que presencia junto às pretensamente liberadas e modernas ativistas, se envolve com Amy (Chloe Sevigny), a quem conhece em um bar frequentado por lésbicas. Apesar de morar com um amigas também gays, ela passa a conhecer a discriminação dentro da própria casa, já que Amy, ao contrário delas, se veste como homem e age de forma masculinizada. Sem saber como lidar com a diferença entre elas - e pressionada pelas colegas, pouco à vontade com sua nova namorada -, Linda passa a questionar até que ponto as aparências podem influir na saúde de seu relacionamento. Coolidge (que assinou o delicado "As noites de Rose", que indicou Laura Dern e Diane Ladd ao Oscar, em 1992) constrói uma obra de textura visual quase palpável, que mergulha o espectador no universo de suas personagens, mas tropeça na superficialidade do roteiro, que não sabe desenvolver a contento todas as possibilidades do tema e ainda surge com um desfecho artificialmente feliz e fácil. Michelle Williams - começando sua trajetória em interpretar mulheres sofridas e atormentadas - está bem, mas Chloe Sevigny - recém vinda de uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante por "Meninos não choram" (1999) - já apresenta alguns trejeitos e expressões que seriam comuns à toda a sua carreira posterior.

 

O ato final da produção, por sua vez, aposta na leveza, no bom humor e até no otimismo - como um aceno aos novos tempos que (todos esperavam) estavam por surgir. No ano 2000, um casal bem resolvido, feliz e apaixonado, resolve ter um filho e completar sua família não convencional. A princípio, Fran (Sharon Stone) e Kal (Ellen DeGeneres) querem que um amigo seja o pai biológico de seu bebê, mas ao ver sua proposta recusada por Arnold (Mitchell Anderson) e Tom (George Newbern), passam a tentar outros modos de concepção. Para isso, buscam um doador anônimo de esperma (em um site especializado), inseminação artificial (em uma clínica conceituada) e meses de tensão enquanto esperam um resultado positivo. Enquanto isso, questionam (mas não muito) a ideia de por um filho em um mundo preconceituoso, violento e super povoado. Escrito e dirigido por Anne Heche (esposa de Ellen DeGeneres à época), o episódio é bem menos denso do que os primeiros, preferindo um tom positivo que encontra eco no desempenho solar de Sharon Stone e no sarcasmo de DeGeneres. Novamente faz falta um aprofundamento do tema, mas sua opção em seguir um caminho oposto ao drama dos dois primeiros segmentos não deixa de ser acertado, principalmente ao contrapor a dor do preconceito à esperança de um novo e mais tolerante mundo.

No cômputo final, "Desejo proibido" tem mais acertos do que erros. Em uma época em que a televisão ainda engatinhava em tratar de temas polêmicos - ao menos de forma tão explícita -, o filme tem a coragem não apenas de falar sobre a homossexualidade feminina em algumas de suas diversas formas, mas também de não esconder o amor das protagonistas em cenas veladas e/ou falsamente pudicas. Com sequências de sexo dirigidas com bom gosto e delicadeza (mesmo que limitadas pelo veículo) e sem medo de se posicionar ao lado contrário a qualquer tipo de intolerância, a produção posicionou a HBO como um importante aliado na causa gay e deu um passo à frente na caminhada da emissora pelo prestígio de que viria a desfrutar logo em seguida.

 

quarta-feira

TODO O DINHEIRO DO MUNDO

TODO O DINHEIRO DO MUNDO (All the money in the world, 2017, TriStar Productions/Sony Pictures, 132min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: David Scarpa, livro "Painfully rich: the outrageous fortune and misfortunes of the heirs of J. Paul Getty", de John Pearson. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Claire Simpson. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Richard Roberts, Letizia Santucci, Nasser Zoubi. Produção: Chris Clark, Quentin Curtis, Dan Friedkin, Mark Huffam, Ridley Scott, Bradley Thomas, Kevin J. Walsh. Elenco: Michelle Williams, Christopher Plummer, Mark Wahlberg, Romain Duris, Timothy Hutton, Marco Leonardi, Charlie Plummer, Andrew Buchan. Estreia: 18/12/17

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Christopher Plummer)

Nunca é uma boa notícia quando os bastidores de um filme chamam mais a atenção do que a obra em si. Por mais que o resultado final seja consistente ou até mesmo admirável, o que fica na memória do público são os escândalos que atribularam sua realização. Um exemplo claro desta afirmação é "Todo o dinheiro do mundo", um filme extremamente bem realizado, dirigido por um cineasta experiente (Ridley Scott), estrelado por nomes conhecidos (Michelle Williams e Mark Wahlberg), baseado em uma história real e planejado para encabeçar as listas de indicados aos prêmios da temporada. O que parecia correr tranquilamente para os produtores e a Sony acabou se tornando um pesadelo, no entanto, quando, no começo de novembro de 2017, uma notícia caiu como uma bomba no colo de todos: acusado de estupro de menor e assédio sexual, o ator Kevin Spacey - que tinha um papel chave na trama - transformou-se, de uma hora para outra, em um problema quase insolúvel em termos comerciais. A pouco mais de um mês da data programada para a estreia do filme, o que antes soava como uma grande promessa de sucesso se transmutava em um provável desastre. Em uma decisão surpreendente - e temerária, haja visto que acrescentaria 10 milhões de dólares ao orçamento final -, o estúdio anunciou que o lançamento ocorreria, sim, conforme o previsto, mas com uma pequena (e radical) diferença no elenco: Christopher Plummer no lugar de Spacey, cortado definitivamente do filme e seu material promocional.

Como polêmica pouca é bobagem, os problemas da Sony continuaram mesmo depois de o filme estar pronto e começar sua carreira nos cinemas: chamados para refilmar as 22 cenas em que Plummer assumia o papel do milionário J. Paul Getty, os atores Michelle Williams e Mark Wahlberg se viram em meio a um novo tornado de controvérsias, quando a diferença entre seus salários alcançou as manchetes da imprensa especializada em entretenimento. A gritaria começou quando se soube que Williams recebeu um pagamento de apenas mil dólares por seu retorno ao trabalho, enquanto seu colega havia embolsado 1,5 milhão. A discrepância entre os números deu margem a discussões a respeito de sexismo na indústria e ultrapassou o interesse pelo filme em si. Resultado: Wahlberg doou seu salário (e mais 500 mil dólares) para uma fundação em defesa legal das mulheres - e o assunto, de certa forma, morreu (sem que se questionasse, por exemplo, que o número de cenas refilmadas pelo ator era bem maior e que a própria atriz havia se oferecido a trabalhar por uma fração menor do salário, já que não ficaria à vontade, como declarado mais tarde, em divulgar um filme estrelado por Spacey). A essa altura, porém, "Todo o dinheiro do mundo" já havia estreado, dividido a crítica e atraído pouca gente às salas de exibição. De pouco adiantaram os elogios à atuação de Michelle Williams, as três indicações ao Golden Globe (incluindo direção e atriz/drama) e o nome de Plummer entre os candidatos ao Oscar de ator coadjuvante: o filme já estava destinado a permanecer como uma produção maculada pela polêmica.


O pior de tudo é "Todo o dinheiro do mundo" é um belo filme. Não apenas conta sua história com inteligência e sensibilidade - sem deixar de lado a tensão e o aprofundamento dramático dos personagens, cortesia do roteiro de David Scarpa, baseado em livro de John Pearson - como é tecnicamente notável. Da fotografia de Dariusz Wolski à trilha sonora arrepiante de Daniel Pemberton, tudo funciona como um relógio, e mergulha o espectador em um pesadelo acinzentado, de tons trágicos e contornos sombrios, tudo orquestrado por um Ridley Scott em grande forma, abandonando a grandiosidade de seus épicos para concentrar-se em um drama familiar dos mais angustiantes e revoltantes. Para isso, conta com a sempre inspirada Michelle Williams - que ficou com o papel depois das desistências de Angelina Jolie e Natalie Portman - e um Christopher Plummer assustador em sua frieza. É ele, na pele do bilionário magnata do petróleo J. Paul Getty, quem dá as cartas em um jogo mórbido e perigoso que pode custar a vida de seu neto predileto - um jogo que lhe serve, ironicamente, como arma para dominar todos à sua volta.

O filme começa em Roma, no ano de 1973, quando o adolescente Paul (Charlie Plummer, que apesar do sobrenome não tem relação com Christopher) é sequestrado por um grupo de criminosos que exige, como resgate, a quantia de 17 milhões de dólares. Seria uma fortuna inalcançável, se o menino não fosse neto de um dos homens mais ricos do mundo, J. Paul Getty - cuja conta bancária só é comparável à sua frieza e calculismo. Desesperada com o rapto do filho, a ex-nora de Getty, Gail (Michelle Williams), se torna a ponte entre os bandidos e o sogro, que se recusa a pagar um centavo que seja pela volta do neto - por acreditar que, aberto um precedente, todos os outros membros da família serão igualmente abduzidos. Enquanto tenta convencer Getty a ceder, Gail conta com a ajuda do leal Fletcher Chace (Mark Wahlberg), homem de confiança do magnata, que o chama para resolver a situação por meios não oficiais. Nesse meio-tempo, o jovem Paul vive uma rotina de grande tensão, quebrada apenas por seu relacionamento com um dos sequestradores, o misterioso Cinquanta (Romain Duris) - uma relação que não impedirá, no entanto, que a violência o atinja sem piedade.

"Todo o dinheiro do mundo" é um filme que funciona em vários níveis. Pode ser um drama pungente, capaz de emocionar aos mais sensíveis; pode ser um filme de suspense aterrador e imprevisível (apesar de ser uma história real cujo desfecho pode ser descoberto sem mistério em qualquer acesso à Internet); pode ser um belo estudo sobre o poder do dinheiro e como ele pode levar à solidão mais devastadora; e é, ainda, um excelente espelho para o talento de seus atores principais, em especial Michelle Williams e Christopher Plummer, brilhando em um papel difícil e detestável - ao qual oferece uma série de nuances que o livra do maniqueísmo e da análise fácil. Um filme que merece ser visto como a pequena obra-prima que é - a despeito de todos os problemas em sua realização.

domingo

SUÍTE FRANCESA

SUÍTE FRANCESA (Suite Française, 2014, Alliance/Scope Pictures, 107min) Direção: Saul Dibb. Roteiro: Saul Dibb, Matt Charman, romance de Irène Némirovsky. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Chris Dickens. Música: Rael Jones. Figurino: Michael O'Connor. Direção de arte/cenários: Michael Carlin/Véronique Melery. Produção executiva: Len Blavatnik, Christine Langan, Charles Layton, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Romain Bremond, Andrea Cornwell, Michael Kuhn, Xavier Marchand. Elenco: Michelle Williams, Kristin Scott-Thomas, Matthias Schonaerts, Margot Robbie, Sam Riley, Lambert Wilson, Alexandra Maria Lara, Harriet Walter, Ruth Wilson, Eric Godon, Deborah Findlay. Estreia: 05/11/14

Final dos anos 1990: filha de uma vítima fatal dos campos de concentração de Auschwitz, Denise Epstein aceita a proposta de doar as anotações de sua mãe, a escritora Irène Nemirovsky, morta em 1942, para os arquivos franceses sobre a II Guerra Mundial. Antes de entregar todas os seus escritos, porém, ela resolve finalmente ler o que acreditava ser um doloroso diário sobre a rotina da prisão e descobre, surpresa, que tem em mãos um livro inacabado, um romance ambicioso que tencionava retratar o período da guerra sob um olhar mais mundano e menos político, concentrando sua ação em personagens comuns vivendo situações extremas. Publicado em 2004, "Suíte francesa" torna-se um bestseller e, como era previsível, chama a atenção de Hollywood - mais especificamente dos produtores Kathleen Kennedy e Frank Marshall (colaboradores habituais de Steven Spielberg nos anos 80 e 90), que, com o apoio da Universal Pictures, chegam a contratar o roteirista Ronald Harwood (vencedor do Oscar por "O pianista"). Foi uma produtora francesa, porém, a TF1 Droits Audiovisuels, quem levou o projeto adiante, sob a direção de Saul Dibb e a produção executiva dos irmãos Weinstein (ex-Miramax e donos da Weinstein Company). A mudança de planos pode ter sido benéfica em termos artísticos (sabe-se lá quem seriam as escolhas da Universal para o elenco), mas foi um desastre em termos de marketing: pronto desde o final de 2014, o filme só estreou nos EUA na televisão a cabo, em maio de 2017 - acabando com suas chances de prêmios e bilheterias de destaque.

O lançamento equivocado de "Suíte francesa" nos cinemas - apesar de seu lançamento em mais de 30 países, ele nunca chegou a ter o merecido destaque dos produtores - apenas privou o público de uma pequena obra de arte, delicada, sensível e emocionante. Experiente em produções de época (seu "A duquesa" levou o Oscar de figurino em 2009), o cineasta Saul Dibb explora com segurança e bom gosto todas as nuances da trama de Nemirovsky - em um roteiro coescrito por ele e Matt Charman que se concentra basicamente na novela "Dulce". Mais do que apenas contar uma devastadora história de amor proibido, Dibb também apresenta ao espectador uma visão diferente do conflito, centrada em famílias atingidas indiretamente pelas bombas e pela violência. Não há, no filme, cenas sanguinolentas ao estilo "O resgate do soldado Ryan", ou contemplativas como em "Além da linha vermelha", ambos de 1998: o que interessa ao cineasta são as consequências de tudo isso no dia-a-dia principalmente das mulheres que, deixadas de lado no front, eram obrigadas a esperar notícias de seus maridos/filhos/irmãos enquanto sofriam na pele o outro lado da moeda, se vendo diante de dilemas morais dilacerantes, que transformavam seu silêncio em impensáveis concessões ao inimigo.


O inimigo, em "Suíte francesa", surge na forma pouco convencional de um homem culto, inteligente, sensível e romântico, que abala as estruturas de uma jovem até então dedicada ao marido e ao lar. Esse inimigo, vestido com o uniforme da Alemanha nazista, é Bruno von Falk (Matthias Schoenaerts), que se hospeda compulsoriamente na propriedade de Madame Angellier (Kristin Scott-Thomas) durante a ocupação germânica na França. Apesar de ser tido (justificadamente) como alguém em quem não se deve confiar, os modos elegantes de Bruno acabam chamando a atenção de Lucille (Michelle Williams), que espera notícias de seu marido - filho de Angellier e prisioneiro de guerra. Atraída pelos bons modos de Bruno e sua paixão por música, a recatada Lucille acaba se envolvendo muito mais do que deveria - especialmente quando moradores da região passam a tornar-se alvo preferencial dos soldados invasores, devido à sua insurreição. Ao tentar fazer o que suas consciências obrigam, tanto Lucille quanto Bruno se veem diante de decisões que significam a vida ou a morte - e percebem que a força da guerra pode ser tão grande ou maior do que a do amor que sentem um pelo outro.

Dentre suas inúmeras qualidades, "Suíte francesa" consegue a façanha de contar sua trama principal de forma satisfatória sem deixar de lado os personagens paralelos, cujas histórias aparentemente marginais acabam por afetar profundamente seu desenrolar. A mais importante delas diz respeito ao jovem Benoit Labarie (Sam Riley), cuja tragédia conjugal atravessa radicalmente o romance dos protagonistas e os joga em um labirinto de situações imprevistas que servem para testar seu amor. Saul Dibb conta todas as histórias de seu roteiro com delicadeza e cuidado, se preocupando em proporcionar ao espectador uma experiência vasta em emoções. Consegue atingir seu objetivo na maior parte do tempo, graças principalmente à excelência de seu elenco, que se dá ao luxo de ter a sempre fascinante Kirstin Scott-Thomas em um papel coadjuvante mas crucial - e que pega o público de surpresa com algumas atitudes que apenas reiteram a ideia central do filme: a guerra pode despertar o melhor ou o pior nas pessoas, basta que elas se deixem levar por sua verdadeira personalidade. Uma história de amor lindamente musicada (o tema principal é de Alexandre Desplat) e com um histórico pessoal poderoso, "Suíte francesa" merece ser descoberto e admirado - ao menos para que se confira a excelente química entre Michelle Williams e Matthias Schoenaerts.

TERRAS PERDIDAS

TERRAS PERDIDAS (A thousand acres, 1997, Touchstone Pictures, 104min) Direção: Jocelyn Moorhouse. Roteiro: Laura Jones, romance de Jane Smiley. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Maryann Brandon. Música: Richard Hartley. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Dan Davis/Andrea Fenton. Produção executiva: Armyan Bernstein, Thomas A. Bliss. Produção: Marc Abraham, Lynn Arost, Steve Golin, Kate Guinzburg, Sigurjon Sighvatsson. Elenco: Jessica Lange, Michelle Pfeiffer, Jennifer Jason Leigh, Jason Robards, Colin Firth, Keith Carradine, Kevin Anderson, Pat Hingle, John Carroll Lynch, Michelle Williams, Elizabeth Moss, Beth Grant, Bob Gunton. Estreia: 19/9/97

Um rei idoso e poderoso, sentido a morte se aproximar, resolve dividir seu reino entre as três filhas, deflagrando assim um confronto épico de decepções e traições. Escrita por William Shakespeare por volta de 1605, a peça "Rei Lear" serviu de inspiração, desde então, para inúmeros autores dispostos a examinar as raízes da ambição e dos conflitos familiares advindos dela. Um dos livros inspirados na tragédia shakespeareana foi "A thousand acres", escrito por Jane Smiley e vencedor do prestigiado Pulitzer de literatura. Com os direitos vendidos para Hollywood, era apenas questão de tempo para que sua trama chegasse às telas e conquistasse o público - afinal, não tinha como dar errado. Mas deu. Com uma produção problemática que se estendeu por cinco anos, constantes reedições, a rejeição do produto final por sua diretora e um fracasso de crítica e bilheteria, "Terras perdidas" tornou-se mais um na vasta lista de filmes que poderiam ter sido um grande sucesso mas que não passaram de promessa. Uma pena, já que seus ingredientes são excepcionais.

A diretora de "Terras perdidas" é a australiana Jocelyn Moorhouse, cujo filme anterior, "Colcha de retalhos" (95), também tinha uma apurada visão feminina da vida. Suas estrelas, Michelle Pfeiffer e Jessica Lange, são ótimas atrizes, populares e velhas conhecidas da Academia. O elenco coadjuvante conta com Jason Robards, Jennifer Jason Leigh e um então iniciante Colin Firth - sem contar as adolescentes Michelle Williams e Elizabeth Moss, que mal aparecem em cena, como as filhas de Pfeiffer. A trama - como já dito, inspirada em Shakespeare - inclui na receita traumas do passado, doenças incuráveis e um leve viés feminista, mas o roteiro, escrito por Laura Jones, mal consegue alinhavar todos os conflitos propostos pela história original: não fosse a força das atuações de Lange e Pfeiffer - tirando leite de pedra -, o filme de Moorhouse seria um desastre completo (e isso que a própria cineasta pediu para seu nome ser retirado dos créditos depois de assistir à sua primeira versão).


Transferindo a ação de Lear para o interior do Iowa, com suas belas fazendas e cenários de tirar o fôlego, "Terras perdidas" começa justamente quando o fazendeiro Larry Cook (Jason Robards em papel recusado por Paul Newman), viúvo há muitos anos, resolve, como o protagonista shakespereano, dividir as terras de sua fazenda entre suas três filhas. A mais velha, Ginny (Jessica Lange), é quem cuida da rotina do pai, e divide seu tempo entre ele e o marido, Ty (Keith Carradine). A filha do meio, Rose (Michelle Pfeiffer), se recupera de um câncer no seio e leva uma vida doméstica aparentemente tranquila com Peter (Kevin Anderson) e as duas filhas adolescentes. A caçula, Caroline (Jennifer Jason Leigh) é a única que não compartilha do dia-a-dia agrícola da família: estudando para ser advogada e morando longe, é ela quem questiona a decisão do pai - e é ela também que desencadeia o processo de conflito familiar, ao recusar a proposta paterna. A briga entre os dois passa a ser o pano de fundo para uma sucessão de dramas que afloram no seio dos Cook, o que inclui a chegada de um antigo conhecido, Jess Taylor (Colin Firth), que desequilibra a união entre Ginny e Rose.

Michelle Pfeiffer - que lutou para levar o livro de Smiley às telas - está fascinante como Rose, uma mulher amargurada por traumas do passado e que tenta, através da compensação financeira, recompor uma vida de sofrimento. Jessica Lange tem mais trabalho como Ginny, que se transforma de uma mulher frustrada pela falta de filhos no para-raios de uma família altamente disfuncional - e que encontra forças para viver a própria vida justamente quando já se encontrava acomodada em um casamento morno. São as duas que movimentam a trama do filme - a ótima Jennifer Jason Leigh é subaproveitada como Caroline, e Jason Robards, apesar de sempre excelente como déspota, sofre com um personagem maniqueísta, sem nuances ou qualidades redentoras. O resultado é uma obra morna, que desperdiça uma história forte e bons atores em uma trama de telenovela, rasa e desprovida de maior emoção. Para os fãs das atrizes é um show à parte, mas como cinema é, infelizmente, bem medíocre.

sábado

MANCHESTER À BEIRA-MAR

MANCHESTER À BEIRA-MAR (Manchester by the sea, 2016, Amazon Studios/K Period Media/Pearl Street Films, 137min) Direção e roteiro: Kenneth Lonergan. Fotografia: Jody Lee Lipes. Montagem: Jennifer Lame. Música: Lesley Barber. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Ruth De Jong/Florencia Martin. Produção executiva: Declan Baldwin, Josh Godfrey, John Krasinski, Bill Migliore. Produção: Lauren Beck, Matt Damon, Chris Moore, Kimberly Steward, Kevin J. Walsh. Elenco: Casey Affleck, Michelle Williams, Kyle Chandler, Lucas Hedges, Gretchen Mol, Matthew Broderick. Estreia: 23/01/16 (Festival de Sundance)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Kenneth Lonergan), Ator (Casey Affleck), Ator Coadjuvante (Lucas Hedges), Atriz Coadjuvante (Michelle Williams), Roteiro Original
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Casey Affleck), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Casey Affleck) 

A cerimônia de entrega do Oscar 2017 ficou marcada pela maior gafe da história do prêmio, quando os apresentadores Warren Beatty e Faye Dunaway divulgaram o filme errado como vencedor da principal estatueta - uma situação constrangedora resolvida ainda no palco e diante dos olhos de milhões de pessoas ao redor do mundo. Porém, antes disso, outro momento desconfortável havia acontecido sem que houvesse tanto alarde: ao ser anunciado como o melhor ator do ano por seu desempenho em "Manchester à beira-mar", Casey Affleck recebeu o troféu das mãos da melhor atriz do ano anterior, Brie Larson (por "O quarto de Jack") - e ela simplesmente se recusou a cumprimentá-lo com mais efusão do que um simples aperto de mãos. Explica-se: acusado de assédio sexual por diversas mulheres envolvidas no falso documentário "I'm still here", com Joaquin Phoenix, Affleck batia de frente com o envolvimento de Larson em campanhas contra tais atitudes. O gesto da atriz - cujo Oscar aconteceu justamente por uma personagem vítima de cárcere privado e abuso - passou quase em branco, mas acabou por manchar a trajetória de um filme que, desde sua estreia, no Festival de Sundance mostrou-se uma das mais premiadas produções da temporada - com Affleck sendo eleito melhor ator não apenas pela Academia, mas também pelo Golden Globe, pelo BAFTA e algumas das mais importantes associações de críticos dos EUA.

A ironia é que Affleck nem era a primeira escolha para o papel principal do filme, dirigido por Kenneth Lonergan, conhecido por suas produções independentes - e indicações ao Oscar de roteiro por "Conte comigo" (2000) e "Gangues de Nova York" (2003): quando a ideia da história surgiu, durante as filmagens de "Os agentes do destino" (2011), em um jantar entre Matt Damon (astro do filme) e John Krasinski (também ator, casado com a estrela da produção, Emily Blunt). Krasinski deu a ideia do roteiro a Damon, que gostou tanto da possibilidade de transformá-la em filme que se dispunha inclusive a dirigir e ficar com o papel principal. Lonergan, seu amigo de longa data, aceitou a proposta de escrever o roteiro, mas compromissos anteriores atrasaram tanto o projeto que, quando finalmente colocou seu ponto final na trama, Matt Damon é quem estava com a agenda cheia. Se mantendo no papel de produtor, ele sugeriu Casey Affleck para liderar o elenco. E a coisa tomou forma: com um custo de 8 milhões e meio de dólares e filmado em apenas 32 dias, "Manchester à beira-mar" foi a primeira produção distribuída pela Amazon Studios e arrecadou mais de 60 milhões de dólares mundo afora - graças principalmente ao fato de ter se tornado queridinho dos críticos desde sua estreia.



"Manchester à beira-mar" é um drama no melhor sentido da palavra: sem medo de apostar nos sentimentos mais primais do público, Kenneth Lonergan não poupa sofrimento a seus personagens, e carrega junto cada um na plateia a um mundo triste e solitário - mas felizmente temperado com um sutil senso de humor e uma espécie de otimismo que escapa até mesmo nos momentos mais difíceis, uma característica do diretor. Seu protagonista, Lee Chandler, é um Jó moderno, um homem de quem tudo foi tirado sem piedade e que leva sua vida no piloto automático - por motivos que vão sendo revelados aos poucos e justificam plenamente sua apatia diante da rotina e seu comportamento agressivo. Separado da mulher, Randi (Michelle Williams, brilhante e indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) e trabalhando como um silencioso e ranzinza zelador de um prédio em Boston, longe de seus últimos vínculos familiares, com o irmão, Joe (Kyle Chandler), e o sobrinho adolescente, Patrick (Lucas Hedges, indicado ao Oscar de ator coadjuvante). Quando Joe morre em decorrência de uma doença cardíaca, Lee descobre que, por uma determinação em seu testamento, deve ficar com a guarda do rapaz. Logicamente Patrick não quer deixar a cidade de Manchester - onde tem amigos, uma banda e duas namoradas - e Lee não tem intenções de voltar ao cenário de sua tragédia particular: está estabelecido o impasse.

Unanimemente aplaudido por seu desempenho no papel central, Casey Affleck na verdade não faz muito mais do que desfilar pela tela de forma apática e desanimada - uma característica do personagem, é claro, mas basta uma conferida em outras de suas atuações, inclusive na que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante, em "O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford" (2007), para perceber que não há muita diferença. Sem carisma o bastante para conectar a audiência a seu sofrimento, Affleck acaba por transformar um roteiro poderoso (vencedor da estatueta em sua categoria) em um drama apenas interessante, valorizado muito mais pelo elenco secundário do que por seu protagonista. Apesar de aparecer pouquíssimo em cena, Michelle Williams simplesmente rouba o filme, em um momento em que finalmente todo o drama represado pela sutileza de Lonergan vem à tona - são lágrimas necessárias para transformar o árido caminho de Lee em algo menos duro para a plateia, e Michelle cumpre a missão com louvor mesmo diante de um quase invisível Casey Affleck, mais um (dentre vários) casos de alucinação coletiva junto aos membros da Academia. "Manchester à beira-mar" não é um filme bom por causa de Affleck: ele é bom apesar dele.

quarta-feira

HERÓIS IMAGINÁRIOS

HERÓIS IMAGINÁRIOS (Imaginary heroes, 2004, Signature Pictres, 111min) Direção e roteiro: Dan Harris. Fotografia: Tim Orr. Montagem: James Lyons. Música: Deborah Lurie. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Rick Butler/Mila Khalevich. Produção executiva: Rudy Cohen, Jan Fantl. Produção: Illana Diamant, Moshe Diamant, Frank Hubner, Art Linson, Gina Resnick, Denise Shaw. Elenco: Sigourney Weaver, Jeff Daniels, Emile Hirsch, Michelle Williams, Kip Pardue, Deirde O'Connell, Ryan Donowho, Suzanne Santo. Estreia: 14/9/04 (Festival de Toronto)

A princípio, tem-se a nítida impressão de que "Heróis imaginários" é uma versão modernizada de "Gente como a gente", estreia de Robert Redford como cineasta, que ganhou os Oscar de melhor filme e direção de 1980: uma família já com uma saudável cota de problemas precisa lidar com o suicídio do primogênito enquanto o caçula, ainda adolescente, tenta encontrar o equilíbrio necessário para sobreviver em um mundo pouco hostil. Porém, não precisa-se de muito tempo para perceber, com uma dose de alívio, que o filme de Dan Harris pode até ter se inspirado na produção estrelada por Donald Sutherland e Mary Tyler Moore, mas tem personalidade própria. Em seu primeiro longa-metragem como diretor - em seu currículo já constava o roteiro de "X-Men 2" (2003) - Harris, com 35 anos à época do lançamento do filme, demonstra maturidade surpreendente ao falar de luto, desajuste social e angústias de todo tipo sem cair na armadilha do sentimentalismo barato nem mesmo quando ameaça descambar para o dramalhão.

Apesar de ser Sigourney Weaver o grande nome do elenco, o real protagonista de "Heróis imaginários" é o jovem Emile Hirsch, que quatro anos mais tarde se consagraria no papel central de "Na natureza selvagem", dirigido por Sean Penn. Hirsch interpreta Tim Travis, o filho mais novo de uma família aparentemente normal que vê seu mundo virar de cabeça para baixo quando o primogênito, Matt (Kip Pardue), comete suicídio. Exímio nadador e orgulho do pai, Ben (Jeff Daniels), Matt só consegue manifestar sua infelicidade crônica com a vida dando um tiro na cabeça. Sua morte violenta e inesperada joga toda a família em uma espiral de angústia da qual cada um só consegue emergir da própria maneira. Ben, o pai, passa a andar a esmo pelas ruas e faltar ao trabalho. A mãe, Sandy (Sigourney Weaver), apela para pequenas transgressões, como fumar maconha e flertar com rapazes mais jovens. A filha universitária, Penny (Michelle Williams dando início a uma série de filmes dramáticos que passariam a lhe dar prestígio), passa a frequentar cada vez menos o lar. E Tim, que teve o azar de encontrar o corpo do irmão, luta para enfrentar os problemas da adolescência ao mesmo tempo em que procura encaixar-se em um núcleo familiar cada vez menos atraente e significativo.


Emprestando a Tim seu talento em parecer vulnerável e introvertido, Emile Hirsch cabe como uma luva no papel do protagonista, sem carregar nas tintas dramáticas nem quando segredos de família e a verdade sobre sua relação com o irmão surgem com a força de um caminhão desgovernado. Amparado pela atuação sensível e discreta de Sigourney Weaver - responsável por alguns dos melhores momentos do filme - o jovem ator alcança a rara façanha de criar um personagem melancólico na medida certa, sem forçar a compaixão da plateia ou buscar o caminho mais fácil de conquistar sua simpatia. Seu Tim é repleto de nuances - todas exploradas com delicadeza e bom senso, graças ao roteiro do diretor - e é louvável como o cineasta consegue atingir todas as notas de sua trama mesmo quando opta por revelar todos os seus elementos aos poucos, como uma jornada de autodescoberta dolorida mas imprescindível. Como em todos os bons filmes sobre a difícil travessia da infância para a vida adulta, "Heróis imaginários" tem em seu caminho decepções, alegrias e uma bem-vinda dose de otimismo que dá o equilíbrio exato entre a tristeza das perdas e a felicidade de se estar vivo.

Sem pretensões a tornar-se retrato de uma geração, "Heróis imaginários" é o recorte de um ritual de passagem, pura e simplesmente. Torna-se especial graças ao roteiro sensível, à direção inspirada de um cineasta ainda bastante jovem e antenado e a um elenco em estado de graça, capaz de transformar sentimentos comuns em matéria-prima de uma história que poderia acontecer em qualquer lugar do mundo, em qualquer classe social ou qualquer tipo de família. É a essência de "Gente como a gente", mas tornada mais acessível a uma plateia jovem e com valores um tanto diferentes daqueles revelados por Redford no final da década de 70 - um exemplo disso são as relações de Tim com sua namorada, Steph (Suzanne Santo) e com seu melhor amigo e vizinho, Kyle (Ryan Donowho), bem mais ousadas do que no filme oscarizado. O conteúdo principal ainda é forte e contundente, mas a forma é mais moderna e atraente para as novas plateias. Vale ser descoberto e apreciado por quem procura bons dramas familiares, mas sua despretensão o impede de ser ainda melhor.

ENTRE O AMOR E A PAIXÃO

ENTRE O AMOR E A PAIXÃO  (Take this waltz, 2011, Joe's Daughter/Astral Media, 116min) Direção e roteiro: Sarah Polley. Fotografia: Luc Montpellier. Montagem: Christopher Donaldson. Música: Jonathan Goldsmith. Figurino: Lea Carlson. Direção de arte/cenários: Matthew Davies/Steve Chewchuk. Produção: Susan Cavan, Sarah Polley. Elenco: Michelle Williams, Seth Rogen, Luke Kirby, Sarah Silverman. Estreia: 10/9/11 (Festival de Toronto)

Em uma das sequências iniciais do filme "Entre o amor e a paixão", a protagonista Margo diz a um desconhecido - que mais tarde lhe deixará com o tesão à flor da pele - que não gosta de voos com conexões porque não se sente confortável entre dois pontos. Essa afirmação, aparentemente banal, é a base na qual se sustenta esse novo trabalho da atriz Sarah Polley atrás das câmeras, cinco anos depois do belo "Longe dela", que deu a Julie Christie uma merecida indicação ao Oscar de melhor atriz. Agora trabalhando com um roteiro original, a jovem cineasta demonstra novamente um grande conhecimento da alma humana assim como uma surpreendente maturidade. Contando com mais uma atuação superlativa de Michelle Williams, seu novo filme machuca, emociona e faz pensar como poucos. Em uma época tão propensa a passatempos ligeiros e inconsequentes, não deixa de ser um oásis.

Margo - vivida de corpo e alma por Williams - sonha em ser escritora e é casada com Lou (Seth Rogen), um chef de cozinha que está preparando um livro de receitas à base de frango. Durante uma viagem, ela conhece o sedutor Daniel (Luke Kirby) e sente-se irremediavelmente atraída por ele. Para seu azar, descobre que o rapaz mora em frente à sua casa, o que lhe faz questionar fortemente sua relação matrimonial - confortável mas carente de maiores arroubos de paixão. Dividida entre o casamento estável mas um tanto acomodado e o desejo carnal por outro homem, a Margo resta apenas lidar com suas dúvidas e tentar tomar a decisão correta. Na balança pesa a morna vida sexual que leva com o marido, sua insatisfação quanto à demora dele em querer aumentar a família e sua vontade de escapar de uma rotina conjugal que a deixa em constante frustração.


Assim como no livro "O mundo pós-aniversário", de Lionel Shriver - mesma autora de "Precisamos falar sobre o Kevin" - a protagonista se vê diante de uma encruzilhada em sua vida amorosa e precisa contar apenas com sua intuição para fazer a escolha certa. E, assim como no romance de Shriver, o questionamento passa a ser, em determinado momento, se existe realmente uma escolha que seja a certa. Tanto no livro quanto no filme de Polley, a protagonista e seus pretendentes são seres humanos complexos, com qualidades e defeitos e qualquer caminho a ser tomado é cercado de momentos bons e outros nem tanto. Essa questão crucial - também levantada brilhantemente no já clássico "As pontes de Madison" - é levada com delicadeza pelo roteiro da diretora, que intercala momentos leves com sequências desde já destinadas a antológicas.

A sequência em que Margo e Daniel conversam sobre como seria sua primeira noite, por exemplo, é chocante em sua crueza e ao mesmo tempo consegue ser romântica, sexy e - graças a seus atores - extremamente verdadeira: há muito tempo o cinema não conseguia apresentar uma cena tão erótica sem que nem ao menos haja um mísero toque de mãos. E é devastadora também a cena em que Margo finalmente toma sua decisão - sem querer estragar as surpresas, basta dizer que é quase impossível conter as lágrimas ou o nó na garganta e que Seth Rogen consegue deixar ver que, por baixo do ator de comédias inconsequentes, esconde-se um ator promissor e carismático.

Simbólico sem ser hermético, denso sem ser depressivo e realista sem deixar de ser poético nas horas certas, "Entre o amor e a paixão" tem tudo para despertar muitas e muitas discussões. Além disso, revela em Sarah Polley (mais uma vez) uma sensibilidade que ainda poderá render ótimos frutos em um futuro próximo: a forma como ela utiliza a bela canção-título, na voz de Leonard Cohen, é exemplar, traindo uma maneira feminina e sutil de enxergar um tema polêmico e que poderia resvalar no vulgar ou maniqueísta.

domingo

SETE DIAS COM MARILYN

SETE DIAS COM MARILYN (My week with Marilyn, 2011, The Weinstein Company, 99min) Direção: Simon Curtis. Roteiro: Adrian Hodges, livros "My week with Marilyn" e "The prince, the showgirl and me" de Colin Clark. Fotografia: Ben Smithard. Montagem: Adam Recht. Música: Conrad Pope. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Donal Woods/Judy Farr. Produção executiva: Kelly Carmichael, Simon Curtis, Christine Langan, Jamie Laurenson, Ivan Mactaggart, Bob Weinstein. Produção: David Parfitt, Harvey Weinstein. Elenco: Michelle Williams, Kenneth Branagh, Eddie Redmayne, Judi Dench, Julia Ormond, Dominic Cooper, Emma Watson, Dougray Scott, Toby Jones. Estreia: 09/10/11 (Festival de Nova York)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Michelle Williams), Ator Coadjuvante (Kenneth Branagh)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz em Comédia/Musical (Michelle Williams)

Via de regra, cinebiografias tropeçam nas próprias ambições e esbarram na maior das dificuldades do gênero: contar em cerca de duas horas a vida inteira de alguém cuja existência justifique um filme. Tal dificuldade resulta em produções frequentemente superficiais que preferem passar ao largo de momentos cruciais na trajetória de seus protagonistas como forma de resumir, em uma duração palatável ao gosto do público médio, um arco de existência que vai do nascimento à morte. Às vezes, nem mesmo uma minissérie de TV seria capaz de dar conta da quantidade de informações e acontecimentos – e filmes como “Gandhi” e “Chaplin”, ambos, não por coincidência, de Richard Attenborough, acabam por ficar aquém do que poderiam. Como forma de sanar um pouco esse problema de superficialidade, o cinema americano encontrou uma saída inteligente que acabou virando tendência: escolher determinado momento na vida/carreira dos biografados e concentrar seu foco em períodos de tempo muito mais compactos. Tal opção funcionou muito bem em “Capote”, de Bennett Miller – que deu o Oscar de melhor ator a Philip Seymour Hoffman e concorreu nas categorias de filme, diretor e roteiro adaptado – e “Steve Jobs” – que apesar de ter dividido a crítica, deu a Michael Fassbender e Kate Winslet chances de concorrer à estatueta e à Aaron Sorkin o Golden Globe de melhor roteiro. Não deu tão certo assim em “Hitchcock”, de Sacha Gervasi, que atolou-se em uma direção medíocre. E resultou apenas morna em “Sete dias com Marilyn”.
Baseado em um livro escrito por Colin Clark – diretor de documentários que registrou em diários sua relação fugaz com Marilyn Monroe, a maior estrela de Hollywood nos anos 50 – o filme de Simon Curtis acerta em não tentar contar em seus 90 minutos de duração toda a existência conflituosa e recheada de complexos dramas psicológicos da atriz, mas não consegue, infelizmente, ultrapassar a superfície de uma das mais fascinantes personagens que o cinema americano já forjou – e que existia de verdade, sem que houvesse a necessidade de acrescentar à sua vida nenhum tipo de dramas. Apenas passando por cima da razão das carências emocionais de Marilyn e tocando com uma rapidez quase tímida momentos de extrema importância à vida futura da estrela (o aborto espontâneo sofrido no período de tempo retratado pelo roteiro), o filme de Curtis funciona como entretenimento leve, mas falha em ser uma homenagem a um dos maiores ícones do cinema americano às vésperas do 50º aniversário de sua morte.
O filme se passa em 1956, quando Marilyn já era a atriz mais famosa e desejada de Hollywood e chega à Inglaterra para estrelar a comédia romântica “O príncipe encantado”, convidada especialmente pelo astro do filme, Laurence Olivier, disposto a conquistar uma nova geração de espectadores que não se deixavam impressionar por seu currículo shakespereano. O problema é que Marilyn não chega sozinha à pequena cidade onde o filme será rodado: com ela, junto com uma dúzia de problemas de autoestima e insegurança, está o marido Arthur Miller – autor de clássicos do teatro americano - e sua instrutora de interpretação, Paula Strassberg, esposa do infame Lee Strassberg, criador do Actor’s Studio. Dependente quase total da opinião de Paula e dos remédios para dormir, Monroe não demora a desafiar a paciência de toda a equipe, incluindo Olivier, que não parece estar disposto a tolerar os atrasos constantes e a falta de compromisso da estrela. Apenas a veterana Sybil (Judi Dench) e o terceiro assistente de direção do filme, Colin (Eddie Redmayne) dão apoio incondicional à bela atriz – e ela acaba se encantando com o rapaz, para surpresa e desespero de todos.

Michelle Williams concorreu ao Oscar por seu desempenho na pele de Marilyn. Mereceu. Apesar de não ser exatamente parecida com o mito, Williams injeta tanta personalidade e sensibilidade a seu trabalho que o espectador não demora a comprar a ideia de que está realmente diante da mulher que sacudiu o mundo em filmes como “O pecado mora ao lado” e “Quanto mais quente melhor” – realizado logo em seguida e considerado o melhor trabalho de sua carreira. Mesclando momentos de candura e timidez com outros em que transmite o vulcão de sensualidade que fez de Monroe o mais duradouro símbolo sexual da história, Williams explora com inteligência tudo que o roteiro lhe oferece, tratando sua personagem com respeito e coerência, jamais caindo na armadilha de fazer dela uma vítima ou retratá-la como a loira burra, imagem que a estereotipou até sua trágica morte, em agosto de 1962. Sua interpretação é de uma sutileza comovente – com apenas um olhar, Williams fala mais do que outras estrelinhas que Hollywood insiste em empurrar para a plateia em longos discursos.
Mas se Michelle Williams dá um espetáculo com seu desempenho, seu elenco coadjuvante não fica atrás. Em um toque de mestre, o diretor Simon Curtis escalou Kenneth Branagh – irlandês que tornou-se famoso no cinema como uma espécie de representante oficial de Shakespeare nos anos 90, com filmes como “Henry V”, “Muito barulho por nada” e “Hamlet” – para interpretar Laurence Olivier – britânico que, nas décadas de 40 e 50, fazia o mesmo, a ponto de ganhar um Oscar por “Hamlet”. Esse sutil toque metalinguístico – Olivier chega a citar o bardo em uma sequência perto do final do filme – é um rasgo de inteligência que quase torna perdoável escalar a insossa Julia Ormond para viver a espetacular Vivien Leigh: mesmo que fosse mais velha que Marilyn, Leigh ainda era linda e elegante em 1956, coisa que Ormond apenas sonha em ser. Se na vida real era questionável alguém apaixonar-se por Monroe tendo Leigh em casa, no filme tal opção torna-se muito mais compreensível – se era essa a intenção do diretor, palmas a ele. Caso contrário, foi um tiro no pé. Diante de Ormond nem é preciso muito para que Michelle Williams brilhe e justifique o carisma imortal de Marilyn.
Quanto ao roteiro, “Sete dias com Marilyn” fica apenas na média. Não aprofunda as relações entre a atriz e Colin (Eddie Redmayne antes de ficar famoso e ganhar o Oscar por “A teoria de tudo”) nem dá foco ao que poderia ser um delicioso retrato dos bastidores de uma filmagem. Toda vez que o filme se concentra na fúria de Olivier em ter que aturar os atrasos e inconstâncias de Marilyn, o filme de Curtis cresce e se torna interessante. Quando se desvia para o romance hesitante entre Monroe e Clark – um personagem mal escrito e interpretado com apatia por Redmayne – cai no lugar-comum que acaba por transformá-lo em um filme apenas razoável. Serve como curiosidade e para admirar o trabalho de Michelle Williams e Kenneth Branagh – ambos, aliás, merecidos candidatos à estatueta da Academia.

quarta-feira

CORAÇÕES EM CONFLITO

CORAÇÕES EM CONFLITO (Mammoth, 2009, Memfis Film, 125min) Direção e roteiro: Lukas Moodysson. Fotografia: Marcel Zyskind. Montagem: Michal Leszczylowki. Música: Erik Holmquist, Linus Gierta, Jesper Kurlandsky. Figurino: Denise Ostholm. Direção de arte/cenários: Josefin Asberg. Produção executiva: Lene Borglum, Peter Garde, Vibeke Windelov. Produção: Lars Jonsson. Elenco: Michelle Williams, Gael García Bernal, Marife Necesito, Sophie Nyweide, Tom McCarthy. Estreia: 19/01/09 (Estocolmo)

Há mais em comum entre "Corações em conflito" e "Babel" do que a simples presença do ator mexicano Gael García Bernal. Apesar do badalado filme de Alejandro Gonzalez Iñarritu ter arrancado elogios e prêmios mundo afora e da obra do desconhecido Lukas Moodysson ter passado praticamente em branco pelos cinemas, ambos falam sobre temas que se tornaram primordiais em uma época de globalização: a incomunicabilidade entre as pessoas e o entrelaçamento cada vez maior e indelével de culturas diversas sem que haja uma real interação e respeito entre elas. Porém, se a produção de Iñarritu apelava para um ambicioso painel estrelado por grandes nomes de Hollywood, o filme do sueco Moodysson opta por um registro mais discreto e minimalista, ao centrar seu foco na história de um casal jovem e profissionalmente realizado que tem seu relacionamento posto à prova quando o marido precisa fazer uma viagem de negócios e passa a questionar seu modo de vida.

Leo (muito bem interpretado por Gael García Bernal) e Ellen Vidales (Michelle Williams, sempre à vontade em papéis que exigem uma entrega dramática mais intensa) formam um casal em franca ascensão profissional. Morando em um confortável e amplo apartamento em Nova York ao lado da filhinha, Jackie (Sophie Nywiede), eles levam uma vida tranquila e desprovida de maiores dramas. Porém, quando Leo viaja para a Tailândia com seu sócio, para assinar um milionário contrato, essa paz toda começa a mostrar suas rachaduras. Ellen atende a um rapaz esfaqueado pela própria mãe e passa a nutrir por ele um carinho que a faz repensar o casamento. Leo, enquanto aguarda a confecção do contrato, se hospeda em uma cabana rústica de Bangcoc e se aproxima de uma jovem prostituta que deseja mudar de vida. E Gloria (Marife Necesito), a babá da pequena Jackie, sofre com a saudade que sente dos filhos que deixou nas Filipinas, sem nem ao menos desconfiar dos sérios problemas e ameaças a que suas crianças estão expostas.


Ao mesclar três linhas narrativas simultâneas em seu roteiro, o suíço Moodysson se aproxima perigosamente do terreno já explorado à exaustão, tanto por Iñarritu quanto por outros cineastas premiados, como Paul Haggis, que fez o mesmo com seu oscarizado e superestimado "Crash, no limite". No entanto, ao seguir um caminho menos sensacionalista e mais sutil, que privilegia silêncios e olhares, o cineasta segue o rumo oposto dos exemplares mais famosos do gênero - e para isso conta com um desempenho preciso de Michelle Williams (já indicada ao Oscar de coadjuvante por "O segredo de Brokeback Mountain" e em vias de concorrer mais duas vezes à estatueta na categoria principal). A forma com que a jovem atriz se entrega ao desespero quieto e angustiado de Ellen dá consistência e ressonância ao roteiro do diretor, que também explora, com delicadeza, a relação entre a patroa - americana, jovem, bem-sucedida - e a empregada - imigrante, sofrida, subvalorizada - quando um novo elemento surge em cena: o ciúme. Sentindo-se afastada da filha, que passa mais tempo com a babá do que com a mãe, Ellen inicia também um processo de autoquestionamento em relação à sua função materna, uma subtrama importante que dialoga diretamente com a distância entre Gloria e seus filhos - que tem desdobramentos corajosos e dramáticos que poucos filmes hollywoodianos tem.

E se Michelle Williams brilha mais uma vez, o mesmo pode ser dito de Gael García Bernal. Um dos mais elogiados atores de sua geração - e certamente o único mexicano a brilhar em filmes de nacionalidades variadas, sempre com grandes atuações - Bernal novamente entrega um desempenho memorável, na pele de um homem que vê a maturidade aproximar-se da maneira mais inesperada possível e tenta lidar com ela da melhor maneira possível. Mesmo que sua trama seja a menos interessante das três histórias, ele a banha com simpatia e verdade, impedindo que se afunde nos clichês que volta e meia aparecem no caminho. São os dois atores que transformam a experiência de se assistir a "Corações em conflito" - um drama à primeira vista banal mas que revela grande profundidade em sua narrativa simples e direta - em um programa bastante interessante. É um filme que merece ser descoberto.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...