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quinta-feira

ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD


ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD (Once upon a time in... Hollywood, 2019, Sony Pictures, 161min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Fred Raskin. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Nancy Haigh. Produção executiva: Jeffrey Chan, Georgia Kacandes, Yu Dong. Produção: David Heyman, Shannon McIntosh, Quentin Tarantino. Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Emile Hirsch, Margaret Qualley, Timothy Olyphant, Dakota Fanning, Bruce Dern, Al Pacino, Luke Perry, Costa Ronin, Lena Dunham, Kurt Russell, Rafal Zawierucha, Damon Herriman. Estreia: 21/5/2019 (Festival de Cannes)

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários. Edição de Som, Mixagem de Som

Vencedor de 2 Oscar: Ator (Brad Pitt), Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 3 Golden Globe Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Roteiro

Foi na madrugada de 6 de agosto de 1969 que um crime - violento e chocante em sua gratuidade - acabou, segundo a escritora Joan Didion, com o movimento hippie, a era do amor livre e a atmosfera dos anos 60 como um todo. Um grupo de seguidores do messiânico Charles Manson invadiu a casa da atriz Sharon Tate, grávida de oito meses do cineasta Roman Polanski (em alta com o sucesso de seu "O bebê de Rosemary", lançado no ano anterior) e a assassinou, juntamente com um grupo de amigos, deixando no local uma série de detalhes macabros que alimentaram as manchetes dos jornais por meses a fio. A investigação do crime, a prisão dos responsáveis e o julgamento midiático ocuparam a mente do mundo - e em especial dos EUA - por anos e ainda permanecem como uma lembrança trágica de uma época encerrada abruptamente com um banho de sangue. O trauma foi tanto que demorou meio século para que um grande estúdio de Hollywood finalmente rompesse o silêncio a respeito do assunto - e mesmo assim somente com o aval de um nome de prestígio, com coragem o suficiente para mexer em um vespeiro mantido sob uma redoma de respeito pelos envolvidos e pelo medo de um fracasso de bilheteria. Foi somente quando Quentin Tarantino anunciou que seu filme seguinte ao western "Os oito odiados" (2016) teria Sharon Tate como uma de suas personagens principais que a história (até então contada mal e porcamente em documentários e telefilmes de pouca repercussão) voltou a povoar o imaginário mundial - e despertar uma curiosidade que só fez aumentar conforme chegava a data de estreia.

Pensando em marcar a estreia de "Era uma vez em... Hollywood" para 6 de agosto de 2019, data em que o crime completaria 50 anos, Tarantino foi voto vencido quando a Sony Pictures - que ganhou os direitos de distribuição em uma disputa acirradíssima com a Warner, a Universal, a Paramount, a Lionsgate e Annapurna Pictures - preferiu adiantar a data para 26 de julho, pouco mais de dois meses depois do lançamento da produção no Festival de Cannes. Até que tal evento acontecesse, porém, muito foi dito, inventado, polemizado e misteriosamente escondido a respeito do filme. Com um roteiro secreto (lido apenas por parte da equipe de filmagem, como forma de evitar os dissabores que quase cancelaram "Os oito odiados" depois do vazamento de seu script) e notícias que chegavam aos poucos, "Era uma vez em... Hollywood" já era, muito antes de chegar às telas, uma das produções mais comentadas e esperadas da temporada - por inúmeras razões. Além do marketing espontâneo que qualquer trabalho de Tarantino gera, não era nada mal ter Brad Pitt e Leonardo DiCaprio nos papéis principais em uma trama que misturava, da forma como apenas o cineasta consegue fazer sem soar prolixo, a trajetória de Sharon Tate, a desilusão de um astro da antiga indústria com os novos tempos, a decadência de um gênero específico (o western), bastidores do cinema pelos olhos de um dublê e diálogos preciosos. Tido por Tarantino como seu filme mais pessoal - algo como "Roma" foi em relação a Alfonso Cuarón - e escrito em um período de cinco anos (nos quais o cineasta também o transformou em um romance, lançado em seguida à estreia), "Era uma vez em... Hollywood" provou que a espera valeu a pena, tanto em termos artísticos quanto comerciais. Com uma renda internacional que ultrapassou os 370 milhões de dólares, dez indicações ao Oscar (e duas categorias no bolso), o filme pode até não ter agradado a todo mundo - algo corriqueiro na filmografia de Tarantino -, mas é, inegavelmente, uma das obras cinematográficas mais importantes de seu tempo.


 Com um título inspirado em Sergio Leone e seus "Era uma vez no Oeste" (1968) e "Era uma vez na América" (1984), o nono filme de Tarantino - se as duas partes de "Kill Bill" forem consideradas apenas um único projeto - quase foi realizado em preto-e-branco e poderia ter estreado com uma duração de 4 horas e 20 minutos. Mas cinema é uma arte de concessões e do jeito que está, o filme é uma pequena obra-prima (mais uma na carreira do Tarantino diretor ). Tudo funciona perfeitamente - até mesmo o que parece gratuito tem ressonâncias bem mais profundas do que aparenta. Por trás dos longos diálogos (característica inconfundível do Tarantino roteirista) e das referências que podem soar como grego ao público médio, a trama é uma pérola de nostalgia, melancolia e pitadas generosas de uma ironia tão fina que pode até passar despercebida - ao menos até o clímax, tão inesperado e surpreendente que foi objeto de um pedido especial dos realizadores para que não fosse comentado pela imprensa ou pela plateia. Justificável: assim como em "Bastardos inglórios" (2009), Tarantino rege seu próprio universo, manda em seus próprios domínios, subverte as próprias regras e a história, se for preciso. Longe de desagradar aos puristas, encontra uma maneira de fazer com que a magia do cinema sempre se sobressaia - e sublinhe seu talento em encantar e decepcionar com a mesma intensidade.

O filme se passa em 1969, quando a Era de Ouro de Hollywood está em seus estertores. Longe de ainda ter a relevância que tinha na década de 1950, quando estrelava populares séries de western na televisão, Rick Dalton (vivido por Leonardo DiCaprio) paira sob uma Los Angeles a que mal reconhece, tentando encontrar uma maneira de manter uma carreira já tida como acabada. Vizinho do cineasta Roman Polanski (praticamente um símbolo de uma nova indústria, moderna e jovem), Dalton luta contra o próprio instinto de autodestruição enquanto relembra seus melhores momentos, ao lado de grandes atores e cercado de respeito e adulação. Invariavelmente acompanhado de seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt, vencedor do Oscar de ator coadjuvante) - bem mais confortável com as novas regras do jogo, a ponto de quase deixar-se envolver com um grupo de hippies bem mais jovens -, o ex-astro vê, aos poucos, uma nova Hollywood surgir diante de seus olhos. Enquanto isso, sua deslumbrante vizinha, Sharon Tate (Margot Robbie), começa a sentir o gostinho da fama e vislumbrar um brilhante futuro, tanto na carreira quanto na vida doméstica. Com visões distintas de sua época e de sua profissão, Dalton e Tate terão suas vidas cruzadas de forma totalmente inesperada e violenta.

Lançado no mesmo Festival de Cannes que 25 anos antes deu a Tarantino a Palma de Ouro e o aval necessário para que se tornasse um dos autores mais prestigiados do cinema norte-americano, "Era uma vez em... Hollywood" não saiu ileso a críticas e polêmicas. Se Debra Tate, irmã de Sharon, viu sua resistência ao projeto ruir ao encontrar Margot Robbie e reconhecer nela qualidades que a faziam lembrar da saudosa atriz, o mesmo não pode ser dito em relação às queixas de Shannon Lee, filha do ator Bruce Lee que não achou graça nenhuma na forma como o roteiro retratou seu pai - bastou uma única sequência para que Shannon considerasse tudo um insulto à memória do ator. Também foi alvo de críticas as liberdades artísticas tomadas pelo cineasta em relação à uma trama crucial para o roteiro: ao criar personagens novos na famigerada Família Manson (ou mesclar personagens reais com fictícios), Tarantino incomodou os puristas que esperavam uma descrição real dos crueis fatos de 6 de agosto de 1969 - que não tiveram interesse em perceber as reais intenções do diretor ao unir a realidade (ainda que alterada) com a fantasia: "Era uma vez em... Hollywood" não é um documentário sobre os assassinatos cometidos naquela fatídica noite - é uma comédia dramática sobre a união de dois mundos, sobre os meandros do destino e sobre a inexorabilidade do tempo até mesmo dentro de um universo que vende fantasia. É um filme com a cara de seu diretor - para o bem ou para o mal - e uma inteligente homenagem a uma atriz cujo futuro foi interrompido pela força do fanatismo. Como qualquer filme de Tarantino, não é para todos os públicos. Mas é sensacional!

quarta-feira

EU, TONYA

EU, TONYA (I, Tonya, 2017, AI-Film/ClubHouse Pictures, 120min) Direção: Craig Gillespie. Roteiro: Steven Rogers. Fotografia: Nicolas Karakatsanis. Montagem: Tatiana S. Riegel. Música: Peter Nashel. Figurino: Jennifer Johnson. Direção de arte/cenários: Jade Healy/Adam Willis. Produção executiva: Len Blavatnik, Zanne Devine, Aviv Giladi, Ben Giladi, Craig Gillespie, Toby Hill, Vince Holden, Rosanne Korenberg. Produção: Margot Robbie, Steven Rogers, Bryan Unkeless. Elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Julianne Nicholson. Estreia: 08/9/2017 (Festival de Toronto)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Margot Robbie), Atriz Coadjuvante (Allison Janney), Montagem
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Allison Janney)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Allison Janney) 

O início dos anos 1990 foi pródigo para os tabloides sensacionalistas norte-americanos. Primeiro Lorena Bobbitt arrancou o pênis do marido e jogou pela janela do carro, tornando-se um símbolo do feminismo e da luta contra a violência doméstica. Depois, os irmãos Menendez - filhos de um executivo do entretenimento - foram presos e julgados, acusados do assassinato dos pais, e revelaram um histórico de abusos sexuais, em um julgamento que parou o país. E por fim, o mundo do esporte também apresentava seu escândalo, quando a patinadora artística Nancy Kerrigan foi cruelmente atacada por um homem que, segundo apuraram as investigações, tinha ligações com o marido de sua maior rival, Tonya Harding. A história, que ilustrou páginas e mais páginas de jornais do mundo todo, tornou-se icônica e entrou para os anais do esporte, e parecia estranho que Hollywood tivesse demonstrado pouco interesse por uma trama com todos os ingredientes necessários para capturar a atenção do público. Mais de vinte anos se passaram até que "Eu, Tonya" - uma visão ácida, sarcástica e ainda assim emocionante - finalmente visse a luz dos refletores. Com um roteiro espertíssimo de Steven Rogers (considerado um dos melhores scripts não filmados de 2016) e a direção inspirada do australiano Craig Gillespie (do ótimo e sub-apreciado "A garota ideal", de 2007), o filme, produzido e estrelado por Margot Robbie, tornou-se uma das produções mais premiadas de sua temporada - e pode ser considerado uma das mais criativas cinebiografias já realizadas pelo cinema americano.

Sem desrespeitar sua protagonista, mas extraindo dela todas as suas possibilidades - tanto dramáticas quanto cômicas -, o filme de Gillespie assume a forma de um documentário informal, com os lances trágicos da história sendo mostrados ao público pelos olhos dos próprios personagens (às vezes sendo confirmados pela edição ágil e bem-humorada, às vezes sendo traídos pelas contradições mais óbvias). Buscando inspiração em programas policiais sensacionalistas como "Hard Copy" e ousando na forma de apresentar uma história já devidamente vasculhada e requentada diversas vezes em duas décadas, o roteiro não se furta a investir em um senso de humor macabro ao mesmo tempo em que tenta chegar ao fundo das razões que levaram ao trágico acontecimento. Surpreendendo a plateia ao não se deter no "incidente" em si e sim nas relações doentias de Tonya - com sua mãe amarga e super-protetora e com seu marido violento -, o filme é muito mais psicologicamente profundo do que seu verniz cômico deixa aparentar, e boa parte de seu êxito em transcender os rótulos vem dos brilhantes trabalhos de Robbie e Allison Janney - esta última premiada com praticamente todos os troféus do ano, incluindo o Golden Globe e o Oscar de atriz coadjuvante.


Um dos maiores méritos do roteiro de Steven Rogers é não fixar-se exclusivamente no caso Harding-Kerrigan, mas sim investigar, através da biografia de sua protagonista, os fatos que levaram a tal desfecho. De uma infância reprimida e controlada com mão de ferro por sua mãe, Lavona (Allison Janney em atuação impecável) até o casamento turbulento e agressivo com Jeff Gillooly (Sebastian Stan, muito bem aproveitado pela direção de Gillespie), o filme acompanha uma trajetória repleta de altos e baixos físicos e psicológicos, que forjaram a personalidade complexa de Tonya. Deixando de lado o glamour dos ringues de patinação e se concentrando no dia-a-dia pesado da atleta, o filme rompe com a estrutura convencional do "levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima" e se mostra uma produção ousada em retratar seus personagens sem condescendência ou julgamentos morais. É sintomático que Nancy Kerrigan mal apareça em cena - o roteiro é centrado justamente em Tonya e seu relacionamento com as duas pessoas mais próximas (e por coincidência mais tóxicas). Quando se assiste ao filme, é difícil não imaginar como Harding não sofreu destino ainda pior.

Com uma edição inteligente, que evita o tradicional e acentua o tom sarcástico do roteiro, "Eu, Tonya" também brilha em outros aspectos: a trilha sonora repleta de sucessos da época, a caracterização impecável e a direção segura de Gillespie, porém, não fazem sombra ao desempenho arrebatador de Margot Robbie no papel principal. Saltando de papéis coadjuvantes em filmes elogiados como "O lobo de Wall Street" (2013) para o estrelato em um trabalho difícil e exigente, a bela atriz surpreendeu crítica e público com uma interpretação nunca aquém de brilhante. Mesmo que efeitos visuais a substituam nas cenas em que Harding está no ringue, é Robbie quem dá consistência dramática e irônica à personagem, inserindo um toque de humanidade essencial a uma trama na qual ela poderia facilmente ser acusada de monstro insensível e frio. Desviando das armadilhas sentimentais e evitando o humor fácil, a atriz fez por merecer os elogios unânimes e a indicação ao Oscar - e deu um novo rumo a uma carreira que promete oferecer à plateia muitos outros trabalhos dignos de prêmios. "Eu, Tonya" é um feliz casamento entre um roteiro sagaz, uma direção inspirada, uma trama inacreditavelmente verdadeira e um elenco excepcional. Imperdível!

domingo

SUÍTE FRANCESA

SUÍTE FRANCESA (Suite Française, 2014, Alliance/Scope Pictures, 107min) Direção: Saul Dibb. Roteiro: Saul Dibb, Matt Charman, romance de Irène Némirovsky. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Chris Dickens. Música: Rael Jones. Figurino: Michael O'Connor. Direção de arte/cenários: Michael Carlin/Véronique Melery. Produção executiva: Len Blavatnik, Christine Langan, Charles Layton, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Romain Bremond, Andrea Cornwell, Michael Kuhn, Xavier Marchand. Elenco: Michelle Williams, Kristin Scott-Thomas, Matthias Schonaerts, Margot Robbie, Sam Riley, Lambert Wilson, Alexandra Maria Lara, Harriet Walter, Ruth Wilson, Eric Godon, Deborah Findlay. Estreia: 05/11/14

Final dos anos 1990: filha de uma vítima fatal dos campos de concentração de Auschwitz, Denise Epstein aceita a proposta de doar as anotações de sua mãe, a escritora Irène Nemirovsky, morta em 1942, para os arquivos franceses sobre a II Guerra Mundial. Antes de entregar todas os seus escritos, porém, ela resolve finalmente ler o que acreditava ser um doloroso diário sobre a rotina da prisão e descobre, surpresa, que tem em mãos um livro inacabado, um romance ambicioso que tencionava retratar o período da guerra sob um olhar mais mundano e menos político, concentrando sua ação em personagens comuns vivendo situações extremas. Publicado em 2004, "Suíte francesa" torna-se um bestseller e, como era previsível, chama a atenção de Hollywood - mais especificamente dos produtores Kathleen Kennedy e Frank Marshall (colaboradores habituais de Steven Spielberg nos anos 80 e 90), que, com o apoio da Universal Pictures, chegam a contratar o roteirista Ronald Harwood (vencedor do Oscar por "O pianista"). Foi uma produtora francesa, porém, a TF1 Droits Audiovisuels, quem levou o projeto adiante, sob a direção de Saul Dibb e a produção executiva dos irmãos Weinstein (ex-Miramax e donos da Weinstein Company). A mudança de planos pode ter sido benéfica em termos artísticos (sabe-se lá quem seriam as escolhas da Universal para o elenco), mas foi um desastre em termos de marketing: pronto desde o final de 2014, o filme só estreou nos EUA na televisão a cabo, em maio de 2017 - acabando com suas chances de prêmios e bilheterias de destaque.

O lançamento equivocado de "Suíte francesa" nos cinemas - apesar de seu lançamento em mais de 30 países, ele nunca chegou a ter o merecido destaque dos produtores - apenas privou o público de uma pequena obra de arte, delicada, sensível e emocionante. Experiente em produções de época (seu "A duquesa" levou o Oscar de figurino em 2009), o cineasta Saul Dibb explora com segurança e bom gosto todas as nuances da trama de Nemirovsky - em um roteiro coescrito por ele e Matt Charman que se concentra basicamente na novela "Dulce". Mais do que apenas contar uma devastadora história de amor proibido, Dibb também apresenta ao espectador uma visão diferente do conflito, centrada em famílias atingidas indiretamente pelas bombas e pela violência. Não há, no filme, cenas sanguinolentas ao estilo "O resgate do soldado Ryan", ou contemplativas como em "Além da linha vermelha", ambos de 1998: o que interessa ao cineasta são as consequências de tudo isso no dia-a-dia principalmente das mulheres que, deixadas de lado no front, eram obrigadas a esperar notícias de seus maridos/filhos/irmãos enquanto sofriam na pele o outro lado da moeda, se vendo diante de dilemas morais dilacerantes, que transformavam seu silêncio em impensáveis concessões ao inimigo.


O inimigo, em "Suíte francesa", surge na forma pouco convencional de um homem culto, inteligente, sensível e romântico, que abala as estruturas de uma jovem até então dedicada ao marido e ao lar. Esse inimigo, vestido com o uniforme da Alemanha nazista, é Bruno von Falk (Matthias Schoenaerts), que se hospeda compulsoriamente na propriedade de Madame Angellier (Kristin Scott-Thomas) durante a ocupação germânica na França. Apesar de ser tido (justificadamente) como alguém em quem não se deve confiar, os modos elegantes de Bruno acabam chamando a atenção de Lucille (Michelle Williams), que espera notícias de seu marido - filho de Angellier e prisioneiro de guerra. Atraída pelos bons modos de Bruno e sua paixão por música, a recatada Lucille acaba se envolvendo muito mais do que deveria - especialmente quando moradores da região passam a tornar-se alvo preferencial dos soldados invasores, devido à sua insurreição. Ao tentar fazer o que suas consciências obrigam, tanto Lucille quanto Bruno se veem diante de decisões que significam a vida ou a morte - e percebem que a força da guerra pode ser tão grande ou maior do que a do amor que sentem um pelo outro.

Dentre suas inúmeras qualidades, "Suíte francesa" consegue a façanha de contar sua trama principal de forma satisfatória sem deixar de lado os personagens paralelos, cujas histórias aparentemente marginais acabam por afetar profundamente seu desenrolar. A mais importante delas diz respeito ao jovem Benoit Labarie (Sam Riley), cuja tragédia conjugal atravessa radicalmente o romance dos protagonistas e os joga em um labirinto de situações imprevistas que servem para testar seu amor. Saul Dibb conta todas as histórias de seu roteiro com delicadeza e cuidado, se preocupando em proporcionar ao espectador uma experiência vasta em emoções. Consegue atingir seu objetivo na maior parte do tempo, graças principalmente à excelência de seu elenco, que se dá ao luxo de ter a sempre fascinante Kirstin Scott-Thomas em um papel coadjuvante mas crucial - e que pega o público de surpresa com algumas atitudes que apenas reiteram a ideia central do filme: a guerra pode despertar o melhor ou o pior nas pessoas, basta que elas se deixem levar por sua verdadeira personalidade. Uma história de amor lindamente musicada (o tema principal é de Alexandre Desplat) e com um histórico pessoal poderoso, "Suíte francesa" merece ser descoberto e admirado - ao menos para que se confira a excelente química entre Michelle Williams e Matthias Schoenaerts.

sábado

O LOBO DE WALL STREET

O LOBO DE WALL STREET (The wolf of Wall Street, 2013, Paramount Pictures, 180min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Terence Winter, livro de Jordan Belfort. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Bob Shaw/Ellen Christiansen. Produção executiva: Danny Dimbort, Joel Gotler, Georgia Kacandes, Alexandra Milchan, Irwin Winkler, Rick Yorn. Produção: Riza Aziz, Leonardo DiCaprio, Joey McFarland, Martin Scorsese, Emma Tillinger Koskoff. Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Matthew McConaughey, Kyle Chandler, Margot Robbie, Rob Reiner, Jon Bernthal, Jean Dujardin, Shea Whigham, Ethan Suplee. Estreia: 17/12/13

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Jonah Hill), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Leonardo DiCaprio)


Quando “O lobo de Wall Street”, 30º longa-metragem de Martin Scorsese – contando-se os documentários e sua participação no episódico “Contos de Nova York”, ao lado de Francis Ford Coppola e Woody Allen – foi classificado como comédia pelos jornalistas estrangeiros que elegem os vencedores dos cobiçados Golden Globes (que só perdem para o Oscar em termos de importância no mercado norte-americano), muita gente estranhou – até mesmo seu ator principal, Leonardo DiCaprio, que ganhou a disputa da estatueta em sua categoria. Porém, o que talvez poucos tenham notado é que, da maneira como foi filmada por Scorsese – no auge de uma energia aparentemente inesgotável – a trajetória de altos e baixos (mais altos do que baixos) do protagonista Jordan Belfort é, definitivamente, uma comédia. Histérica, cruel, de humor nigérrimo e pouco dada a concessões ao riso fácil, mas uma comédia. Das boas. E das mais inteligentes que se pode conceber em uma indústria tão dada a suscetibilidades pudicas quanto a de Hollywood.
A história de Belfort – contada em sua autobiografia, aqui adaptada com verve e extrema ironia por Terence Winter, merecidamente indicado ao Oscar – não é engraçada, pelo menos pelos parâmetros oficiais do termo: sua ascensão no mercado de ações, regada a muita droga, corrupção e orgias das mais variadas e sua queda vertiginosa rumo às malhas da lei, recheada de associações escusas e a perda da própria família, são contundentes e tão violentas quanto aquelas mostradas pelo mesmo Scorsese em “Os bons companheiros” (90), mas o cineasta nova-iorquino dessa vez resolveu optar por um caminho menos óbvio e linear de retratá-las. Sai de cena a crueldade sanguinolenta dos becos sórdidos do Bronx e entram em cena o luxo e o glamour de mansões paquidérmicas. A ameaça não é mais representada por rivais na disputa pela primazia no tráfico de drogas e sim por agentes da Receita Federal pouco afeitos a negociatas. A paranoia, consequência do abuso de tóxicos não mais assusta ou mata, e sim dá lugar a absurdas sequências de um humor tão negro que até mesmo os mais atentos espectadores demoraram a percebê-lo em sua totalidade. “O lobo de Wall Street” não faz rir através de piadas fáceis. É preciso embarcar em sua visão particular de comédia para chegar ao âmago de sua ironia iconoclasta e devastadora. Scorsese não quer arrancar gargalhadas apelando para a vulgaridade – e quando joga diante do espectador cenas explodindo de sexo e excessos de toda a espécie, é uma forma de, através de uma lente de aumento, sublinhar o quão patética a ambição e a decadência podem soar. Se no cinema do diretor nunca faltou descomedimento, em “O lobo de Wall Street” ele é ainda mais explícito e crucial. É um meio magistralmente manipulado para se chegar a um fim de inegável impacto e genialidade.
Deixando de lado a inocência de seu filme anterior, o poético e deslumbrante “A invenção de Hugo Cabret”, Martin Scorsese faz, em “O lobo de Wall Street” um inventário impiedoso e barulhento de toda a parafernália amoral e inescrupulosa da mais individualista do século XX, os insensíveis anos 80 que tão bem foram definidos por Gordon Geko, o personagem do oscarizado Michael Douglas em “Wall Street: poder e cobiça” (87): do alto de sua arrogância yuppie, ele declarava, com um sorriso cínico estampado, que “ganância é bom!”. E ganância é a palavra-chave na história de Jordan Belfort, interpretado na linha exata entre o deboche escrachado a fina ironia por um Leonardo DiCaprio no auge de sua colaboração com o diretor. Recebido em Wall Street como um rapaz ambicioso mas ainda ingênuo que escapa de ser devorado por homens como seu mentor Mark Hannah (Matthew McConaughey) graças a um apurado instinto de sobrevivência, Belfort se vê repentinamente no meio de uma crise financeira que o faz perder o emprego e quase aniquila com suas esperanças. Porém, utilizando-se dos conhecimentos adquiridos em sua rápida passagem pelo alto mercado financeiro, ele logo encontra um jeito de arrumar uma recolocação ainda mais promissora: em pouco tempo, ele passa de empregado de uma corretora de fundo-de-quintal (dirigida pelo também cineasta Spike Jonze em ponta não-creditada) a dono de uma empresa de ações. Desprovidos de qualquer tipo de ética, Belfort e seu sócio, Donnie (Jonah Hill, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), junto com um grupo de amigos, tornam-se milionários da noite para o dia – e com os dólares em profusão vem também a possibilidade de queda.



Entregando-se sem medo a exorbitâncias materiais, sexuais e alucinógenas, Jordan abandona a esposa, casa-se com a bela Naomi LaPaglia (Margot Robbie) e, cada vez mais rico, chama a atenção da Receita Federal e do FBI, na figura do honesto e implacável Patrick Denham (Kyle Chandler). Começa, então, uma corrida para manter a salvo sua liberdade, sua reputação e principalmente sua fortuna. Em uma edição progressivamente mais ágil e febril – a cargo da habitual parceira de Scorsese, a veterana Thelma Schoonmaker, vencedora do Oscar por “Touro indomável” (80) e “Os infiltrados” (06) – o filme vai se tornando a cada cena mais histérico (no bom sentido) e alucinado. Brincando com o tempo de forma genial, Scorsese e Schoonmaker comprimem meses em rápidos segundos e se dão ao luxo de gastar vários minutos em uma única cena aparentemente simples – e ainda oferecem à plateia uma longa sequência e divertidíssima sequência em que Belfort, sentindo o resultado de uma vasta quantidade de anfetaminas ingeridas como balas, se vê repentinamente vítima de uma temporária paralisia cerebral: o resultado da cena e suas consequências mostram o total domínio técnico do cineasta e sua inteligência em modelar o roteiro a seu estilo inconfundível (mas sempre imprevisível) de filmar. Não à toa, mesmo com a profusão de cenas de sexo e consumo de drogas de seu filme – uma afronta à moral e aos bons costumes pregados pela Academia – Scorsese acabou concorrendo ao Oscar por seu trabalho (junto com as indicações a melhor filme, roteiro, ator e ator coadjuvante).
 Implacável no retrato debochado de um estilo de vida em que o glamour convive lado a lado com uma inconfundível cafonice, Scorsese fez de “O lobo de Wall Street” uma obra-prima do sarcasmo. Contando com um elenco coadjuvante que se dá ao luxo de ter os também cineastas Jon Favreau e Rob Reiner (na pele do irascível pai do protagonista) e o oscarizado Jean Dujardin (de “O artista” (11)) em pequenos papéis, ele brinca com a falta de moralidade ianque e tira sarro da suposta sobriedade do mercado financeiro mais importante do mundo. Não é à toa que poucos acharam graça na brincadeira.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...