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sexta-feira

O VIOLINISTA QUE VEIO DO MAR

 


O VIOLINISTA QUE VEIO DO MAR ( Ladies in Lavender, 2004, UK Film Council/Baker Street/Future Films, 104min) Direção: Charles Dance. Roteiro: Charles Dance, conto de William J. Locke. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Michael Parker. Música: Nigel Hess. Figurino: Barbara Kidd. Direção de arte/cenários: Caroline Amies/David Hindle. Produção executiva: Bill Allan, Charles Dance, Emma Hayter, Robert Jones. Produção: Elizabeth Karlsen, Nik Powell. Elenco: Judi Dench, Maggie Smith, Daniel Bruhl, Natascha McElhone, Freddie Jones, Toby Jones, Miriam Margoyles. Estreia: 14/6/2004 (Festival de Taormina)

Conhecido por seu trabalho como intérprete em produções de prestígio como "Assassinato em Gosford Park" (2001) e "O jogo da imitação" (2014) e séries premiadas como "Game of thrones" e "The crown", o ator britânico Charles Dance tem, em seu currículo, uma interessantíssima incursão como diretor. Lançado discretamente em 2004, "O violinista que veio do mar" já seria imperdível por ter seu elenco liderado pelas espetaculares Judi Dench e Maggie Smith, mas, além disso - e de ser o primeiro trabalho em língua inglesa do alemão Daniel Bruhl -, a adaptação do conto de William J. Locke é um filme acima da média, com um ritmo delicado que ecoa as belas paisagens da costa inglesa e brinda o espectador com personagens fascinantes e uma trama que surpreende pelos desdobramentos inusitados (mas nunca inverossímeis ou tirados da manga). Valorizado pelos desempenhos exemplares de Dench e Smith - o que não chega a ser uma surpresa -, o filme de Dance é um deleite para os fãs de histórias contadas com sutileza e sobriedade.

A trama gira em torno de Ursula (Judi Dench) e Janet (Maggie Smith), duas irmãs viúvas que moram juntas em um chalé na costa da Cornualha, poucos anos antes da II Guerra Mundial. Sua rotina pacata e sem grandes acontecimentos é abalada depois de uma violenta tormenta, quando um jovem desacordado é encontrado na praia. A princípio temerosas de colocar um desconhecido dentro de casa, logo elas resolvem cuidar do rapaz, que não fala sua língua e cuja origem é uma incógnita. Aos poucos sua comunicação vai ficando menos complicada: ao aprender noções rudimentares de inglês, o novo hóspede se identifica como Andrea, um polonês que, a caminho dos EUA para tentar a sorte como violonista, sobreviveu a um naufrágio. Enquanto se recupera dos ferimentos, Andrea, sem perceber, despertar sentimentos há muito enterrados nas duas solitárias idosas - que passam a temer sua partida especialmente quando ele inicia uma amizade com a extrovertida Olga (Natasha McElhone), uma bela russa que mora nas proximidades do chalé.

 

Fazendo pequenas alterações na história original - como a transferência para os anos pré-I Guerra Mundial e o desfecho da relação entre os protagonistas -, o roteiro do também diretor se apoia em pequenos momentos, emoções discretas e diálogos curtos (mas repletos de subtextos). Acostumadas a atuações minimalistas e sutis, Judi Dench e Maggie Smith voltam a encantar com desempenhos comoventes, pontuadas pelo bom trabalho do alemão Daniel Bruhl em seu primeiro filme falado em inglês: a interação entre os três personagens principais são o que há de melhor na obra, em uma dinâmica pontuada de mistério, sedução e até um pouco de suspense. Deixando sempre no ar uma série de possibilidades que impedem que o espectador adivinhe os próximos acontecimentos, o filme de Dance imprime uma sensação deliciosa de uma história contada em frente à lareira, com personagens humanos e bem escritos diante de situações que caminham entre o romântico e trágico. Só não é ainda melhor por sua falha em explorar a contento a relação entre o misterioso violinista e Olga - um relacionamento que nunca deixa exatamente claro a que veio (a não ser precipitar o ato final da trama).

Em seu primeiro (e até agora único) trabalho como diretor, Charles Dance mostra-se atento às sutilezas, tanto de sua trama quanto de suas estupendas atrizes. Talvez pelo fato de ser também um intérprete, Dance valoriza a construção paulatina de climas e relações entre seus personagens, enfatizando-as mais do que à própria trama, que serve, na verdade, como uma forma de retrato da solidão e suas vicissitudes. Narrado em um ritmo delicado que não deixa espaço para cortes bruscos e catarses exageradas, "O violinista que veio do mar" é um oásis de paz e sensibilidade - e mais um exemplo do talento dos colaboradores envolvidos.

quarta-feira

PEGANDO FOGO

PEGANDO FOGO (Burnt, 2015, The Weinstein Company, 101min) Direção: John Wells. Roteiro: Steven Knight, estória de Michael Kalesniko. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Nick Moore. Música: Rob Simonsen. Figurino: Lyn Elizabeth Paolo. Direção de arte/cenários: David Gropman/Tina Jones. Produção executiva: David Glasser, Claire Rudnick Polstein, Gordon Ramsay, Dylan Sellers, Michael Shamberg, Kris Thykier, Harvey Weinstein, Bob Weinstein, Negeen Yazdi. Produção: Stacey Sher, Erwin Stoff, John Wells. Elenco: Bradley Cooper, Siena Miller, Daniel Bruhl, Omar Sy, Uma Thurman, Matthew Rhys, Alicia Vikander, Riccardo Scamarcio, Sam Keeley, Emma Thompson. Estreia: 18/10/15

 Em cinema, definitivamente há males que vem para o bem. Senão vejamos: em 2008, um roteiro escrito por Steven Knight - indicado ao Oscar por "Coisas belas e sujas", de 2004 - chegou às mãos do cineasta David Fincher, um dos mais inventivos e consistentes cineastas de sua geração. A notícia seria ótima se o ator escalado por Fincher para estrelar o projeto não fosse Keanu Reeves, não exatamente um exemplo de talento dramático (e que estava com a carreira em franca decadência). Como as coisas em Hollywood não andam em um ritmo muito ágil, o projeto estagnou e Fincher pulou fora - e Reeves também não foi adiante. Foi somente em 2012 que Bradley Cooper foi anunciado no papel principal - antes que começasse a ser respeitado pela crítica e pela Academia, que lhe indicou por três anos consecutivos ao Oscar -, comandado por Derek Cianfrance. Cianfrance, elogiado pela direção de "Namorados para sempre" (2010), porém, também não durou muito no posto e foi substituído por John Wells, um nome pouco conhecido do grande público mas com anos de experiência no leme de episódios de séries consagradas, como "Plantão médico" e "West Wing" e em vias de lançar "Álbum de família", que colocaria novamente Meryl Streep e Julia Roberts no páreo por uma estatueta dourada. No final das contas, a desistência de Fincher e Cianfrance acabaram por fazer bem ao filme: "Pegando fogo" é uma obra que não se encaixaria em nenhuma das duas filmografias, mas é um ponto de sofisticação e versatilidade na carreira de Wells - e uma prova de que Cooper é realmente bem mais que um simples galã.

Na verdade, Cooper, no auge do carisma, é o ponto alto de "Pegando fogo", não apenas por conseguir a simpatia do público mesmo com um personagem repleto de defeitos, como pelo fato de não se deixar eclipsar por atores de talento comprovado, como Uma Thurman, Emma Thompson e Daniel Bruhl. Completamente à vontade em cena, ele deita e rola na pele de Adam Jones, um chef de cozinha ao mesmo tempo sedutor e arrogante, obcecado pela profissão e por seu objetivo de reconquistar o autorrespeito e a admiração dos colegas - principalmente daqueles com quem tem um relacionamento marcado por desavenças e supostas traições. Na medida certa entre o cinismo e uma escondida autopiedade, ele conquista a plateia justamente por ser tão falível (e por vezes quase desagradável), um desafio do qual seu intérprete consegue se desvencilhar com segurança ímpar. Cooper só não vai ainda mais longe porque o roteiro, mesmo ágil, esperto e sem espaço para lágrimas fáceis, não se aprofunda o bastante para lhe dar um material mais forte. Mesmo assim, Adam Jones e Bradley Cooper formam um par perfeito.


Jones é um chef de cozinha autodestrutivo e prepotente que, depois de praticamente acabar com sua brilhante e ascendente carreira, resolve recomeçar a vida. Deixando para trás seu vício em drogas - e uma dívida com traficantes franceses - ele volta à Londres com o objetivo claro de comandar um restaurante e alcançar as ambicionadas três estrelas Michelin (o santo graal da gastronomia mundial). O restaurante que ele escolhe para ser o palco de sua redenção é comandado por um antigo conhecido, Tony (Daniel Bruhl) - que aceita, a contragosto, ajudá-lo, mais por ser apaixonado por ele e saber de seu talento do que por confiar em sua sobriedade. Adam começa, então, uma jornada para montar o time perfeito, e para isso, reúne dois antigos colegas: Max (o galã italiano Riccardo Scamarcio) - que está saindo da cadeia - e Michel (Omar Sy, do sucesso francês "Intocáveis"), que perdeu tudo o que tinha graças a uma situação armada pelo próprio Adam. A eles juntam-se o jovem David (Sam Keeley) e a promissora Helene (Siena Miller), uma mãe solteira se torna sua maior pedra no sapato dentro da cozinha. Juntos, eles tentarão alcançar a almejada cotação máxima para o restaurante - enquanto o chef briga com seus demônios particulares e a atração que sente por Helene.

Editado com agilidade e elegância, "Pegando fogo" é um filme de visual deslumbrante - todas as cenas em que aparecem os pratos sendo montados e degustados é de dar água na boca - e ritmo agradável. Ao mesmo tempo em que se utiliza da gastronomia como pano de fundo para uma história de reconquista da autoestima, ela é peça fundamental para a narrativa, fornecendo os elementos dramáticos da trama e se mostrando em todo o seu glamour e suas misérias. Buscando o máximo de realismo para as cenas que se passam na cozinha, Wells apresenta sequências apetitosas com outras de grande tensão, que refletem tanto o desafio profissional dos personagens (sempre em constante pressão) quanto o mundo interior do protagonista, a um passo de um ataque de nervos. Bom diretor de atores, Wells comanda o espetáculo com leveza, mas extrai atuações inspiradas de todo o seu elenco - e ainda dá espaço para uma química excelente entre Cooper e Siena Miller, que ficou com um papel para o qual foram cogitadas Michelle Williams e Marion Cottilard. O casal de atores - que já foram um casal também em "Sniper americano" (2014) - valoriza cada momento juntos, e acrescenta um tom romântico a uma história de redenção e amadurecimento. Não é um filme inesquecível, mas é um passatempo acima da média, tornado ainda melhor graças a um elenco impecável e uma direção discreta e eficaz. Um bom entretenimento!

sábado

O QUINTO PODER

O QUINTO PODER (The fifth state, 2013, DreamWorks SKG/Reliance Entertainment, 128min) Direção: Bill Condon. Roteiro: Josh Singer, livros "Inside WikiLeaks: my time with Julian Assange at the world's most dangerous website", de Daniel Domscheit-Berg e "WikiLeaks: inside Julian Assange's war on secrecy", de David Leigh, Luke Harding. Fotografia: Tobias Schliesser. Montagem: Virginia Katz. Música: Carter Burwell. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Veronique Melery. Produção executiva: Paul Green, Jonathan King, Jim Shamoon, Richard Sharkey, Jeff Skoll. Produção: Steve Golin, Michael Sugar. Elenco: Benedict Cumberbatch, Daniel Bruhl, Alicia Vikander, Laura Linney, David Thewlis, Stanley Tucci, Alexander Beyer, Dan Stevens. Estreia: 05/9/(Festival de Toronto)

A história real de Julian Assange e a criação do WikiLeaks - um site que revelava ao público documentos confidenciais de governos do mundo inteiro e que por consequência ganhou o status de ameaça internacional - tem todos os elementos dos melhores thrillers políticos, na melhor tradição de "Todos os homens do presidente" e "A trama", sintomaticamente dirigidos pelo mesmo Alan J. Pakula. Porém, assim que o projeto foi anunciado, um problema (previsível mas mesmo assim preocupante) surgiu no horizonte dos produtores: como contar ao espectador uma história cujo final ainda não aconteceu - e mais importante ainda, é passível de ter novos capítulos pelos próximos anos? Somado a essa dúvida cruel - mais ou menos resolvida com a decisão de adaptar dois livros escritos sobre o assunto (um deles pelo assessor mais próximo de Assange, que tornou-se desafeto) - veio ainda, antes do começo das filmagens, outras pedras no caminho. Um roteiro ainda não oficial caiu nas mãos de Assange (nenhuma surpresa, uma vez que ele tinha acesso até mesmo a telegramas da CIA) e o próprio começou uma campanha contra o filme, chamando-o de "mentiroso e tendencioso" e escrevendo um e-mail ao ator Benedict Cumberbatch implorando para que ele não aceitasse o papel central. Tal súplica não funcionou: não apenas Cumberbatch aceitou protagonizar "O quinto poder" - substituindo a escolha inicial, Jeremy Renner - como o filme estreou no Festival de Toronto de 2013 cercado de expectativas. Para alegria de Assange, no entanto, a obra de Bill Condon não entusiasmou muita gente - a crítica se dividiu e o público praticamente ignorou.

Tal indiferença em relação a "O quinto poder" não deixa de ser injusta, porém. Mesmo que esteja longe de ser um "A rede social" - brilhante filme de David Fincher sobre Mark Zuckerberg e a fundação do Facebook - o trabalho de Condon é visualmente criativo, quase didático em sua forma de explicar a forma com que o WikiLeaks funcionava e conta com um elenco excelente defendendo personagens dúbios e longe do tradicional maniqueísmo de Hollywood. Talvez essa opção do roteiro de Josh Singer seja sua maior ousadia: ao tirar do público a chance de torcer por um herói bem definido - Assange tem sérios problemas éticos e nem mesmo seu homem de confiança pode ser considerado um exemplo de conduta, mesmo quando se revolta contra os métodos pouco louváveis do colega - Singer entra no perigoso território dos filmes que propõem à audiência o pacto poucas vezes aceito de ser conquistado por uma história sem certo ou errado. É corajoso, mas não funciona em todos os momentos, principalmente porque o protagonista não apenas carece de limites morais bem definidos: ele sofre de uma crucial falta de carisma.


Não que Benedict Cumberbatch não seja um ator carismático, pelo contrário. Mas exatamente por seu enorme talento em transformar-se nos personagens que interpreta, ele desaparece debaixo dos cabelos brancos de Assange e de sua paranoia (muitas vezes justificável), deixando ao público a dura tarefa de compreender seus atos e sua arrogância diante dos inimigos - que vão se acumulando perigosamente conforme ele avança em seu objetivo de escancarar aos leitores todas as mazelas governamentais do mundo (literalmente). Solitário como somente os paranoicos conseguem e petulantes como apenas os gênios sabem, Assange tornou-se, do dia para a noite, em inimigo público número 1 do poder, especialmente ao bater de frente contra ditaduras sanguinárias e expor as reais intenções do governo americano em relação à guerra no Afeganistão. Unindo-se a expoentes da mídia internacional, ele acabou por - segundo o roteiro, é bom sempre lembrar - entrar em rota de colisão com a única pessoa em quem confiava cegamente, seu amigo e parceiro de site Daniel Berg (Daniel Bruhl, herdando papel de James McAvoy e entregando uma segunda performance impecável no mesmo ano, depois do Niki Lauda que viveu em "Rush, no limite da emoção"). Recusando-se a ficar ao lado de Assange em uma situação crítica que pode ter resultados sangrentos, Daniel se afasta e passa a ser visto como traidor.

"O quinto poder" é um belo filme. Bill Condon (roteirista de "Chicago" e diretor de "Deuses e monstros" e "Kinsey") é um cineasta cuidadoso, inteligente e criativo - e isso fica óbvio em sequências sensacionais, como aquelas que mostram metaforicamente a destruição do site. Até mesmo as participações pequenas mas essenciais de Laura Linney e Stanley Tucci são precisas, bem dirigidas e elegantes, como sempre acontece nas obras de Condon, e a edição ágil transmite com exatidão o clima de urgência da trama. Típico caso de filme mal-compreendido (ou mal vendido, ou mal divulgado), "O quinto poder" merece uma segunda chance, se não pela história empolgante ao menos pelo elenco espetacular e a condução esperta de Bill Condon. E além do mais, é uma essencial maneira de entender um dos períodos mais cruciais da política internacional do século e uma de suas personalidades mais fascinantes.

quarta-feira

RUSH - NO LIMITE DA EMOÇÃO

RUSH: NO LIMITE DA EMOÇÃO (Rush, 2013, Imagine Entertainment/Cross Creek Pictures, 123min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Peter Morgan. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: Hans Zimmer. Figurino: Julian Day. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: Tobin Armbrust, Tim Bevan, Guy East, Todd Hallowell, Nigel Sinclair, Tyler Thompson. Produção: Andrew Eaton, Eric Fellner, Brian Grazer, Ron Howard, Peter Morgan, Brian Oliver. Elenco: Chris Hemsworth, Daniel Bruhl, Olivia Wilde, Alexandra Maria Lara, Pierfrancesco Favino, David Calder. Estreia: 02/9/13 (Festival de Londres)

O diretor Ron Howard tem uma forte tendência a recriar, em seus filmes, histórias reais de superação e/ou rivalidade. Foi assim em "Apollo 13", "Uma mente brilhante", "A luta pela esperança" e "Frost/Nixon". É assim também em "Rush, no limite da emoção", que ilumina a rivalidade levada às raias da obsessão entre os pilotos de Fórmula 1 James Hunt e Niki Lauda, concentrando sua narrativa na emocionante temporada de 1976, uma das mais sensacionais da história do automobilismo. Contando com um roteiro enxuto e direto de Peter Morgan - autor dos scripts de  "O aviador", "A rainha" e "Frost/Nixon", entre outros menos cotados - o filme de Howard é uma aula de narrativa visual, que consegue conquistar a admiração e a atenção até mesmo daqueles que veem o esporte que consagrou Ayrton Senna com absoluta indiferença.

Apesar de começar sua narrativa quando os protagonistas ainda estão engatinhando na Fórmula 3 - até como forma de estabelecer a idade de sua rivalidade, concentrada basicamente em seus diferentes modos de ver a carreira e lidar com a pressão das montadoras - "Rush" tem o bom senso de não tentar contar toda a história de vida dos dois pilotos, preferindo ater-se à tensão da temporada 1976, quando sua briga atingiu o auge. Contando sua história com imagens poderosas e uma edição impecável, Howard equilibra com perfeição os momentos mais pessoais dos protagonistas - como suas relações matrimoniais - com sequências abismais de corrida, fotografadas como nenhuma outra até hoje, que praticamente leva o espectador para o meio das pistas. O realismo das cenas é um dos maiores méritos do filme, que, além disso, não deixa de lado a construção dramática de seus personagens e dá a seus atores chances extraordinárias de mostrar serviço.


Se Chris Hemsworth consegue deixar pra trás seu personagem mais famoso até então, o super-heroi Thor, em um trabalho bastante eficiente - apesar de seu James Hunt ser extremamente apropriado a seu físico e à persona que ele vem construindo em sua carreira - é Daniel Bruhl quem brilha na pele do rígido e focado Niki Lauda, um homem obcecado com sua profissão a ponto de arriscar a vida para provar seu talento. Injustamente esquecido pelas indicações ao Oscar de coadjuvante - apesar de ser tão protagonista (ou mais) quanto Hemsworth, foi nessa categoria que ele concorreu ao Golden Globe - Bruhl está irreconhecível sob a maquiagem que o transforma no piloto austríaco e não tem medo de retratá-lo como alguém quase desagradável, em especial diante do carisma de Hunt. Sempre que estão juntos em cena, os dois atores fascinam o público, com uma química de causar faíscas, bastante valorizada pelos ótimos diálogos de Morgan, que enfatizam sem didatismo as diferenças cruciais entre os dois - e suas semelhanças óbvias.

A rivalidade entre os dois - que remete, guardadas as devidas proporções, ao multipremiado "Amadeus", de Milos Forman, que falava sobre Mozart e Salieri - é o ponto alto de "Rush". É sua discussão sobre as diferentes formas com que os gênios lidam com seus dons que move o filme, que permanece na memória do espectador como o melhor retrato da Fórmula 1 já mostrado no cinema. Mesmo que o final da história seja conhecido - ou de fácil acesso em tempos de Internet - é impossível tirar os olhos da tela. Graças ao conjunto de qualidades, é um dos melhores filmes da temporada 2013, infelizmente ignorado pela Academia até mesmo nas categorias técnicas - um trabalho irretocável e admirável. Um filme que certamente será valorizado ainda mais com o passar dos anos.

quinta-feira

ADEUS, LÊNIN

ADEUS, LÊNIN (Good bye, Lenin, 2003, X-Creative Pool Film, 100min) Direção: Wolfgang Becker. Roteiro: Bernd Lichtenberg, colaboração de Wolfgang Becker, Achim von Borries, Hendrick Handloegten, Christoph Silber. Fotografia: Martin Kukula. Montagem: Peter R. Adam. Música: Yann Tiersen. Figurino: Aenne Plaumann. Direção de arte/cenários: Lothar Holler/Matthias Klemme. Produção: Stefan Arndt. Elenco: Daniel Bruhl, Katrin Sab, Chulpan Khamatova, Maria Simon, Florian Lukas, Alexander Beyer. Estreia: 09/02/03 (Festival de Berlim)

Falar de política em tom de comédia de costumes não é tarefa das mais fáceis, principalmente quando se tem o objetivo de conquistar um público não exatamente acostumado a sutilezas. Quando o filme em questão é de origem alemã, então, é cruzar os dedos e torcer para que a plateia passe por cima dos preconceitos e descubra que humor nem sempre significa piadas escatológicas ou personagens histéricos. Se "Corra Lola, corra", de Tom Tykwer deixou bem claro em 1999 que a cinematografia germânica moderna tinha espaço de sobra para narrativas mais ágeis e mais populares do que as firulas intelectualoides de gente como Wim Wenders e seus anjos melancólicos, o simpático "Adeus, Lênin", de 2003, explorou um novo viés do cinema do país: a crítica social com contornos familiares. Dirigido por Wolfgang Becker e estrelado por Daniel Bruhl - que se tornaria em poucos anos um dos nomes mais significativos do cinema alemão - o filme é uma deliciosa e inteligente comédia recomendada a todos aqueles que procuram uma alternativa ao cinemão comercial hollywoodiano.

Inspirado livremente em acontecimentos reais dos dois últimos anos de vida de Lênin - que, protegido por Stalin não tinha acesso a nenhuma notícia sobre política graças a jornais pré-editados por ele - o filme de Becker se passa em uma Berlim às vésperas da queda do muro que separava as Alemanhas Oriental e Ocidental. No lado oriental vive uma idealista mãe de família que, abandonada pelo marido, criou sozinha o casal de filhos sem nunca deixar de lado sua dedicação quase fanática ao regime socialista. Durante uma manifestação política, ao ver o filho Alex (Daniel Bruhl) ser preso pela polícia, ela sofre um enfarte e entra em coma, no qual permanece por oito meses. Nesse meio-tempo, o país sofre transformações radicais, e quando ela finalmente acorda, seus filhos recebem dos médicos a instrução de poupá-la de quaisquer aborrecimentos, que podem causar um novo ataque, dessa vez fatal. Sabendo que a notícia de que os dogmas políticos de sua mãe não são mais válidos com a nova configuração do país, Alex tem a ideia de esconder dela toda e qualquer pista sobre a verdade. Começa assim uma odisseia para impedí-la de ter acesso aos telejornais, às ruas da cidade e à qualquer menção de que os hábitos ocidentais invadiram o dia-a-dia dos berlinenses orientais.


Mesmo sendo filme de uma piada só, "Adeus, Lênin" conquista o espectador sem fazer muito esforço, graças à simpatia do elenco e à inteligência com que o roteiro desenvolve sua trama, equilibrando com suavidade o humor sutil e o melodrama. Enquanto protege sua mãe da desilusão de ver seus ideais destruídos junto com o muro de Berlim, Alex vive uma terna história de amor com sua jovem enfermeira e precisa lidar com a revolta da irmã, que apaixonou-se por um alemão do lado ocidental e, apesar de entender as razões do irmão, não vê a hora de voltar a ter uma vida normal, repleta dos prazeres a que passou a ter direito com as reformas ocorridas. Ao mesmo tempo, existe o trauma da separação dos pais, que acompanha Alex desde a infância - e que se resolve sem barracos ou lágrimas excessivas, mostrando a parcimônia dos roteiristas em explorar as emoções da história. Percorrendo as ruas de uma Berlim reunificada - ainda que modificada por efeitos especiais discretos - a câmera de Becker também ajuda o espectador a ter a consciência de como foi a adaptação dos alemães a coisas básicas como a chegada da Coca-cola e a Copa do Mundo de 1990, que reunificou a todos também em termos culturais.

Divertindo sem ofender a inteligência e falando de política sem tomar partido ou fazer qualquer tipo de panfletarismo - ainda que não deixe de ficar claro a simpatia do diretor pela ocidentalização do país - "Adeus, Lênin" é um dos filmes mais interessantes do novo cinema alemão, surgido após a queda do muro de Berlim. Conquistando a plateia logo de cara e envolvendo-a nas aventuras de Alex em cumprir seu objetivo - com inteligência e perspicácia - também cativa por apresentar personagens adoráveis, simples e humanos, de fácil identificação apesar de suas peculiaridades. Um pequeno grande filme!

segunda-feira

BASTARDOS INGLÓRIOS

BASTARDOS INGLÓRIOS (Inglourious basterds, 2009, ) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Sally Menke. Figurino: Anna B. Sheppard. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Lloyd Phillips, Erica Steinberg, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Brad Pitt, Christoph Waltz, Melanie Laurent, Diane Kruger, Michael Fassbender, Eli Roth, Mike Meyers, Daniel Bruhl, B.J. Novak, Denis Menochet, Julie Dreyfuss. Estreia: 20/5/09 (Festival de Cannes)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator Coadjuvante (Christoph Waltz), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Christoph Waltz)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Christoph Waltz)
Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes: Melhor Ator (Christoph Waltz)

Em 1978, um filme italiano chamado "O expresso blindado da S.S. Nazista" estreou nos EUA com o título "The inglourious bastards". Dirigido por Enzo G. Castellari, o filme se passava na França ocupada pelos alemães e tinha como protagonistas um grupo de homens dispostos a qualquer sacrifício para completar sua perigosa missão de cruzar a fronteira com a Suíça. O filme - não exatamente um êxito comercial ou crítico - poderia ter desaparecido com o tempo se Quentin Tarantino, dono de uma prodigiosa memória cinematográfica adquirida de seus tempos como funcionário de um videolocadora não o tivesse ressuscitado... à sua maneira. Mantendo apenas seu título ianque - com uma pequena alteração na grafia - e uma participação especial do diretor Castellari, um dos cineastas mais cultuados da moderna Hollywood inventou uma história que casa com perfeição a violência dos filmes de guerra, o humor negro característico de suas obras anteriores e uma trama capaz até mesmo de alterar o desfecho da II Guerra Mundial.

Provando seu prestígio no mundo do cinema, Tarantino estreou seu "Bastardos inglórios" no Festival de Cannes de 2009, quinze anos depois que abocanhou a Palma de Ouro com seu incensado "Pulp fiction, tempo de violência" e novamente viu os jurados conquistados por seu jeito particular de contar histórias: na pele de Hans Lauda, o oficial nazista que dedica sua vida à caça aos judeus, o austríaco Christoph Waltz levou o prêmio de melhor ator, em uma interpretação impecável que também lhe rendeu o Oscar de coadjuvante no ano seguinte. Roubando a atenção com um personagem que frequentemente se equilibra entre o carisma irônico dos vilões tarantinescos e a crueldade inerente a seus atos de violência, Waltz consegue a proeza até mesmo de sobressair-se ao maior astro do filme, Brad Pitt, que, como o Tenente Aldo Raine, esbanja charme cínico, timing cômico e o carisma que lhe caracterizam e fizeram dele um dos mais confiáveis atores de Hollywood.


Porém, apesar do nome de Pitt estampar com destaque o cartaz de "Bastardos inglórios", o ator divide a atenção com um elenco vasto, que deita e rola no universo criado por Tarantino em sua reimaginação do período. Dividido em capítulos, o filme apresenta seus personagens aos poucos, dando a cada um deles a devida importância, até que todos se encontram no grand finale, a pré-estreia de um filme de propaganda nazista estrelado pelo soldado tornado ator Fredrick Zoller (Daniel Bruhl) - cuja arrogância nascente o impede de perceber que a mulher por quem está interessado (Mélanie Laurent), a dona do cinema, que tem um trágico passado a suas costas, não tem a menor intenção de acatar seus desejos. Sobrevivente de uma família judia exterminada por Landa, a jovem Shosanna imagina uma vingança em grande estilo, que vai de encontro com as intenções dos Bastardos Inglórios e seus comparsas - e que acaba reescrevendo a história de uma das maneiras mais criativas do cinema americano.

Repleto de citações subliminares - como é tradicional na filmografia do diretor - "Bastardos inglórios" é a prova da maturidade de Quentin Tarantino. Sem abrir mão dos longos diálogos que caracterizam sua obra, ele cria uma narrativa que mescla um senso de humor raro com uma tensão constante desde a primeira sequência até seu clímax, de um absurdo nonsense que só faz mesmo sentido dentro do universo do cineasta. Inteligente, engraçado, violento e moderno, "Bastardos inglórios" poderia tranquilamente ter levado o Oscar de Melhor Filme que foi entregue à "Guerra ao terror", mas provavelmente a forma como tratou de um tema delicado junto à Academia deve ter lhe tirado muitos votos. Ainda assim, deve entrar na história como um dos grandes filmes de guerra de seu tempo.

quarta-feira

O ULTIMATO BOURNE

O ULTIMATO BOURNE (The Bourne ultimatum, 2007, Universal Pictures, 115min) Direção: Paul Greengrass. Roteiro: Tony Gilroy, Scott Z. Burns, George Nolfi. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Christopher Rouse. Música: John Powell. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Peter Wenham/Tina Jones. Produção executiva: Doug Liman, Henry Morrison, Jeffrey M. Weiner. Produção: Patrick Crowley, Frank Marshall, Paul L. Sandberg. Elenco: Matt Damon, Joan Allen, David Straithairn, Julia Stiles, Paddy Considine, Albert Finney, Scott Glenn, Daniel Bruhl. Estreia: 25/7/07

Vencedor de 3 Oscar: Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som

Caso raro dentro da indústria dos filmes de ação hollywoodianos, a trilogia Bourne, inspirada na série de livros do escritor Robert Ludlum conseguiu uma façanha e tanto: não apenas manteve o interesse do público por seus três filmes (interesse que inclusive aumentava a cada lançamento) como superou toda e qualquer expectativa em termos de qualidade narrativa e técnica. Um exemplo perfeito dessa afirmação é "O ultimato Bourne", seu capítulo final, que não apenas rendeu mais de 220 milhões de dólares nas bilheterias americanas como agradou em cheio à crítica, à audiência e até mesmo à Academia, que lhe ofereceu em troca 3 estatuetas do Oscar, que sublinharam suas qualidades técnicas impressionantes. Se os dois primeiros filmes já eram sensacionais, o terceiro é absolutamente impecável.

Dessa vez, o agente secreto Jason Bourne (interpretado a cada filme com mais intensidade por um Matt Damon que nunca esquece, mesmo em momentos de quebradeira, que é um ator sério e talentoso) é tirado de seu anonimato graças às investigações do repórter investigativo inglês Simon Ross (Paddy Considine), que tenta trazer à tona os segredos de uma operação secreta da CIA, o Projeto Blackbriar - que vem a ser um passo à frente da antiga missão de Bourne, a Operação Treadstone. A busca de Ross pela verdade coincide com uma falsa acusação de traição contra Bourne, que, na tentativa de provar sua inocência e descobrir a verdade sobre seu passado (que continua vindo em lembranças intermitentes), conta com a ajuda inesperada de Pam Landy (Joan Allen), diretora da agência, que deseja manter a integridade do órgão de segurança.


Equilibrando cenas de tensão constante - em especial uma perseguição de tirar o fôlego sobre telhados e a tentativa de Bourne em salvar a vida de Simon Ross em meio à multidão que frequenta as estações de Londres - com momentos dramáticos importantes para o desfecho da trilogia (como o encontro com o irmão de Marie (Franka Potente), "O ultimato Bourne" atinge sua excelência por atingir a perfeita mistura entre um roteiro inteligente, atuações seguras de um elenco de feras (Damon, Joan Allen, David Straithairn) e uma técnica invejável. A edição espetacular de Christopher Rouse - premiada com um Oscar justíssimo - não dá folga ao espectador, praticamente jogando-o no meio das eletrizantes sequências de luta, coreografadas de forma a impressionar a audiência sem precisar de efeitos especiais mirabolantes. Seu realismo é um ponto mais do que positivo, por destacar o tom seco e direto da direção de Paul Greengrass - que usa e abusa de câmeras na mão e de sua experiência em filmes de estilo semi-documental para criar uma atmosfera claustrofóbica e tensa mesmo em espaços vastos e planos abertos.

No final das contas, "O ultimato Bourne" encerra com chave de ouro uma série cinematográfica que devolveu ao público o prazer de acompanhar uma boa história recheada de cenas extraordinárias de ação sem que seja preciso abdicar do cérebro. E Jason Bourne, é, com toda certeza, um dos mais fascinantes personagens do cinema de ação vindo de Hollywood. Vai deixar saudades.

terça-feira

EDUKATORS, OS EDUCADORES

EDUKATORS, OS EDUCADORES (Die fetten Jahre sind vorbei, 2005, Alemanha, 127min) Direção: Hans Weingartner. Roteiro: Hans Weingartner, Katharina Held. Fotografia: Daniela Knapp, Matthias Schellenberg. Montagem: Dirk Oetelshoven, Andreas Wodraschke. Música: Andreas Wodraschke. Figurino: Silvia Pernegger. Direção de arte/cenários: Christian M. Goldbeck. Produção: Antonin Svoboda, Hans Weingartner. Elenco: Daniel Bruhl, Julia Jentsch, Stipe Erceg, Burghart Klaubner. Estreia: 17/5/04 (Festival de Cannes)

"Seus dias de fartura estão contados." Com essa afirmação ameaçadora - e que também é seu título original - o filme alemão "Edukators, os educadores" já demonstra claramente a que veio. Dirigido por Hans Weingartner e estrelado por Daniel Bruhl (astro do bem sucedido "Adeus, Lenin"), o filme é um elogio rasgado à juventude idealista e politicamente ativa da Alemanha de sua época, banhado de certa ingenuidade, mas capaz de, felizmente, ser inteligente o bastante para demonstrar um senso de realismo que o eleva facilmente a um dos mais interessantes produtos do cinema germânico do século XXI.

Até mesmo aqueles que nutrem certo preconceito contra qualquer tipo de cinema realizado longe dos domínios de Hollywood tem vários motivos para se encantar com "Edukators". A começar pelo ritmo ágil, tudo no filme de Weingartner aponta para um rumo bem diferente de clássicos modernos do país, como o cultuado "Asas do desejo". Cinema popular sem ser condescendente, inteligente sem ser arrogante e socialmente relevante sem ser panfletário, "Edukators" conquista o público aos poucos, para, em seu final, mostrar que contou várias histórias em uma só de maneira sutil e envolvente.

 

Os Educadores do título são Jan (Daniel Bruhl) e Peter (Stipe Erceg), dois amigos inseparáveis que, militantes contra a má distribuição de renda em seu país, invadem as residências dos milionários com o objetivo de mandar seu recado: eles não roubam nada, apenas mudam a mobília de lugar (de maneira bizarra) e deixam um bilhete com os dizeres do início deste texto. Sua rotina é alterada quando, durante uma viagem de Peter, sua namorada Jule (Julia Jentsch) fica sabendo das aventuras noturnas de seu amado e convence Jan a invadir a casa de um industrial que a obrigou, depois de um acidente de carro, a lhe pagar o conserto de sua Mercedez. Os dois entram na casa - Jan é apaixonado pela garota - mas um imprevisto muda completamente o rumo dos acontecimentos e leva os quatro - os amigos e o industrial - a uma situação de vida ou morte.

Quanto menos se souber dos rumos de "Edukators" em uma primeira sessão, melhor. O roteiro esperto do diretor - co-escrito por Katharina Held - se equilibra com perfeição entre o triângulo amoroso dos amigos, o suspense da situação desencadeada pela invasão na casa do milionário e o discurso mal-disfarçado (mas puro o bastante para não incomodar) a respeito da desigualdade social. Aliás, talvez essa pureza de objetivos seja a maior qualidade do filme de Weingartner. Tudo bem que a trama é bem desenvolvida, os atores são carismáticos - em especial Daniel Bruhl - e a utilização da bela "Hallelujah", de Leonard Cohen é exemplar. Mas é o respiro de uma ideologia poucas vezes retratada no cinema com tanta doçura que faz com que tudo soe ainda mais belo e empolgante. Um pequeno grande filme!

O PREÇO DA TRAIÇÃO

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