Mostrando postagens com marcador 2003. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 2003. Mostrar todas as postagens

quinta-feira

DEUS É BRASILEIRO

 


DEUS É BRASILEIRO (Deus é brasileiro, 2003, Sony Pictures International Productions/Globo Filmes/Luz Mágica Produções, 110min) Direção: Carlos Diegues. Roteiro: João Ubaldo Ribeiro, Carlos Diegues, colaboração de João Emanuel Carneiro, Renata Almeida Magalhães, conto "O santo que não acreditava em Deus", de João Ubaldo Ribeiro. Fotografia: Affonso Beato. Montagem: Sergio Mekler. Música: Chico Neves, Hermano Vianna. Figurino: Carla Monteiro. Direção de arte/cenários: Vera Hamburguer. Produção executiva: Tereza Gonzalez. Produção: Renata Almeida Magalhães. Elenco: Antonio Fagundes, Wagner Moura, Paloma Duarte, Stepan Nercessian, Bruce Gomlevsky, Castrinho, Toni Garrido, Susana Werner. Estreia: 31/01/2003

O que poderia resultar na união da picardia do texto de João Ubaldo Ribeiro, da experiência de Carlos Diegues como cineasta, do talento superlativo de Antonio Fagundes e do carisma excepcional de um Wagner Moura ainda dando os primeiros passos rumo ao status de um dos maiores atores nacionais? A resposta é "Deus é brasileiro", uma comédia de alma popular que não deixa de ser, dentro de suas limitações mercadológicas, inteligente e dotada de uma dose saudável de sensibilidade. Sem apelar para polêmicas religiosas - ainda que faça piadas sobre o cristianismo e sobre as concepções humanas do sagrado -, o filme de Diegues dialoga com o público através de uma linguagem simples, que evita intelectualismos estéreis. Pode não funcionar cem por cento do tempo, mas diverte o suficiente para comprovar a versatilidade do diretor, um dos fundadores do Cinema Novo e autor de alguns dos maiores sucessos de bilheteria brasileiros, como "Xica da Silva" (1976) e "Bye bye, Brasil" (1979).

O protagonista do filme é Edvaltécio Barbosa da Anunciação, ou simplesmente Taoca (Wagner Moura), um pescador que complementa sua renda como borracheiro, enquanto tenta arrumar dinheiro para pagar suas dívidas com o violento Baudelé Vieira (Stepan Nercessian). Esperto e dono de uma lábia que frequentemente o coloca em situações difíceis (e às vezes também consegue tirá-lo delas), Taoca um dia conhece, no meio do mar, um homem de meia-idade que se apresenta como Deus (Antonio Fagundes). A princípio incrédulo - por no mínimo uma boa razão -, ele logo percebe que está realmente diante do Criador. O motivo da visita à Terra, no entanto, é ainda mais surreal: cansado de séculos a consertar erros da humanidade, Deus resolve tirar um período de férias, mas para isso, precisa encontrar alguém que o substitua. Conhecendo a história do Brasil em ser um dos maiores países católicos do mundo (e paradoxalmente sem nenhum santo oficial), Ele chega ao Nordeste disposto a encontrar o homem que acredita ter todos os requisitos para a função. Mas, até chegar a ele, o Todo-poderoso precisa da ajuda de Taoca - e, no caminho, junta-se a eles a melancólica Madá (Paloma Duarte), que sonha em chegar à cidade grande para levar uma vida menos sofrida.


 

Com locações em Alagoas, Tocantins e Pernambuco, "Deus é brasileiro" é quase um road movie nacional - gênero com o qual Carlos Diegues tem familiaridade desde seu clássico "Bye bye, Brasil". Porém, enquanto a trupe de Lorde Cigano (José Wilker) enfrentava a transformação cultural do interior do país, abandonando suas raízes em troca de uma pretensa modernização, em "Deus é brasileiro" o foco é a comercialização da fé, o sincretismo religioso de uma população carente de atenção e, por que não?, a busca por um conceito mais humanizado de religião. Na pele de um Deus ranzinza, cansado e quase egoísta, Antonio Fagundes demonstra um tempo cômico dos mais acertados (ainda que nem sempre o roteiro lhe dê espaço para maiores voos), mas é Wagner Moura quem mais se destaca, recriando (sem demérito algum) o tipo do nordestino cuja resiliência vive em levar o dia-a-dia e as desgraças com o máximo de bom humor e esperteza. Assim, é difícil não ver nele - em seus diálogos - um eco do bem-sucedido "O auto da Compadecida" (2000), um dos maiores êxitos comerciais do cinema nacional de sua época. Há uma grande diferença, no entanto, entre os dois filmes: enquanto a obra de Guel Arraes se beneficia de um conjunto harmônico de elementos (fotografia, figurino, desenho de produção e principalmente roteiro), o trabalho de Diegues deixa perceber, em alguns momentos, uma dificuldade de conexão que atrapalha o todo. O próprio enredo não chega a dizer exatamente a que se propõe, preferindo explorar a relação entre os dois protagonistas do que elaborar um objetivo claro - especialmente em sua segunda metade, depois que o tal santo procurado por Deus é finalmente encontrado e se demonstra uma decepção. Diegues parece tão fascinado pela interação entre Fagundes e Moura (e vá lá, também a esforçada Paloma Duarte) que esquece de passar com nitidez a mensagem de sua história.

Baseado no conto "O santo que não acreditava em Deus", de João Ubaldo Ribeiro, também um dos autores do roteiro, "Deus é brasileiro" funciona bastante bem como comédia - em grande parte devido aos diálogos espertos e à atuação de Wagner Moura -, mas falha em tentar ser mais profundo do que verdadeiramente é. Quando se assume como farsa é uma delícia, porém escorrega quando busca uma seriedade que destoa de seu DNA. Se tecnicamente não é um primor - os efeitos visuais são bastante capengas -, ao menos mantém uma honestidade que o torna irresistível a quem procura rir das próprias mazelas sociais e religiosas.

quarta-feira

TRATAMENTO DE CHOQUE

 


TRATAMENTO DE CHOQUE (Anger management, 2003, Revolution Studios, 106min) Direção: Peter Segal. Roteiro: David Dorfman. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jeff Gourson. Música: Teddy Castellucci. Figurino: Ellen Lutter. Direção de arte/cenários: Alan Au/Brad Davis, Chris Spellman. Produção executiva: Allen Covert, Todd Garner, Tim Herlihy, John Jacobs, Adam Sandler. Produção: Barry Bernardi, Jack Giarraputo. Elenco: Jack Nicholson, Adam Sandler, Marisa Tomei, John Turturro, Woody Harrelson, John C. Reilly, Luis Guzman, Alen Covert, January Jones. Estreia: 11/4/2003

Um tem doze indicações ao Oscar e três estatuetas para chamar de suas. O outro é frequentemente criticado por seus méritos artísticos ainda que de vez em quando surpreenda ao trabalhar com cineastas de prestígio. Um deles é um ícone absoluto do cinema hollywoodiano desde o final dos anos 1960. O outro entrou no imaginário popular somente a partir da década de 1990. Um deles passeou por todos os gêneros possíveis - começando com os filmes de horror de Roger Corman - e fez personagens tão díspares quanto um lobisomem quanto um escritor com TOC. O outro especializou-se em tipos comuns e dividiu-se entre comédias (românticas ou debochadas). Ambos tiveram filmes com bilheterias expressivas e tem uma legião de fãs - nem sempre os mesmos, mas em número considerável. Por mais diferentes que possam ser e por mais incompatíveis que pareçam, Jack Nicholson e Adam Sandler acabaram por revelar uma insuspeita química em "Tratamento de choque", uma comédia inofensiva que explora o melhor de cada um de seus protagonistas e conquista justamente pelo inusitado encontro de gerações.

Sem medo de apostar em algumas piadas fora do politicamente correto - mas sem os exageros dos irmãos Farrelly - e brincando com a febre dos coachs que assolava os EUA (e posteriormente se espalhou pelo mundo), o roteiro de "Tratamento de choque" mescla, com sucesso na maior parte do tempo, um filme sobre parceiros de personalidades opostas (subgênero popularíssimo e querido pelo público em geral) e uma comédia romântica com todos os ingredientes já conhecidos. Depois de uma breve introdução em que oferece à plateia um flashback explicativo sobre o trauma do protagonista em demonstrar carinho em lugares públicos, o filme começa com o jovem Dave Buznik (Adam Sandler) embarcando em uma viagem de negócios. O que deveria ser um voo tranquilo, no entanto, torna-se o começo de um pesadelo quando um pequeno mal-entendido o leva a ser expulso do voo e condenado a uma série de sessões de terapia para tratar de sua suposta agressividade. O médico escolhido pela juíza é o renomado Buddy Rydell (Jack Nicholson) - justamente o homem cujo comportamento deu início ao transtorno na viagem - e o atônito Dave se vê obrigado a um tratamento intensivo que inclui 24 horas por dia a seu lado. Dono de um estilo heterodoxo de cuidar de seus pacientes, Rydell se intromete em todos os setores da vida do rapaz - o que parece mais atrapalhar do que ajudar em suas questões profissionais e amorosas. Nem mesmo sua namorada, Linda (Marisa Tomei), parece estar imune aos arroubos pouco normais do médico, famoso por realizar milagres mesmo com seus métodos excêntricos.

 

Buddy Rydell parece um personagem sob medida para Jack Nicholson, que oferece ao público tudo aquilo que faz dele um dos mais queridos atores de sua geração - olhares insanos, a risada debochada, a sensação de perigo constante e um charme à toda prova. Porém, Nicholson não foi a primeira opção para o papel, que aceitou a conselhos de Kathy Bates, colega de Adam Sandler em "O rei da água" (1998): o primeiro ator pensado para interpretar o tresloucado terapeuta foi o de Eddie Murphy, e até que o veterano ator de "Um estranho no ninho" (1975) entrasse em cena, nomes como os de Robert DeNiro, Dustin Hoffman, Bill Murray e Steve Martin chegaram a ser considerados pelos produtores, cientes de que era imprescindível um astro de peso para dividir a cena com Sandler. Sem apresentar grandes novidades a seu repertório como intérprete - coisa que provavelmente nem era algo esperado por seu fiel séquito de fãs -, Sandler surpreende apenas em apostar em uma bem-vinda sutileza que se contrapõe à atuação a um passo do exagero (proposital) de seu veterano parceiro de cena. Os dois combinam tão bem que o filme se dá ao luxo de contar com participações especiais de gente como John C. Reilly e Woody Harrelson sem sair do foco central, que é sua conflituosa (e quase perversa) relação. O único senão é explorar tão pouco o talento da ótima Marisa Tomei, que pouco tem a fazer como o interesse romântico do protagonista.

"Tratamento de choque" é uma daquelas comédias que cumpre exatamente o que promete - e até chega a surpreender com uma reviravolta final que justifica alguns excessos cometidos no meio do caminho. O encontro entre Nicholson e Sandler é certeiro, boa parte das piadas funciona e a direção de Peter Segal não tenta sobressair-se ao real destaque da produção, que é o encontro de seus atores centrais. Pode não ser o melhor filme de suas carreiras e nem um trabalho para entrar na história do cinema, mas é divertido o bastante para arrancar gargalhadas sinceras e mostrar que Jack Nicholson é um dos raros atores capazes de transformar qualquer roteiro, por mais banal que seja, em uma experiência satisfatória. Coisa de quem sabe!

sexta-feira

TODO PODEROSO

 


TODO PODEROSO (Bruce Almighty, 2003, Universal Pictures, 103min) Direção: Tom Shadyac. Roteiro: Steve Koren, Mark O'Keefe, Steve Oedekerk, estória de Steve Koren, Mark O'Keefe. Fotografia: Dean Semler. Montagem: Scott Hill. Música: John Debney. Figurino: Judy Ruskin Howell. Direção de arte/cenários: Linda DeScenna/Rick McElvin. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum, Steve Oedekerk. Produção: Michael Bostik, James D. Brubaker, Jim Carrey, Steve Koren, Michael O'Keefe, Tom Shadyac. Elenco: Jim Carrey, Morgan Freeman, Jennifer Aniston, Philip Baker Hall, Steve Carell, Sally Kirkland. Estreia: 14/5/2003

Depois de provar-se como um ator capaz de alçar maiores voos dramáticos - em filmes como "O show de Truman: o show da vida" (1998), "O mundo de Andy" (1999) e "Cine Majestic" (2001) - o canadense Jim Carrey achou que já era hora de voltar à sua zona de conforto e abraçar o gênero que lhe deu fama, dinheiro e o amor de milhares de fãs. Ao reunir-se com o cineasta Tom Shadyac - que lhe deu seu primeiro grande sucesso de bilheteria, "Ace Ventura: um detetive diferente" (1994) e lhe confirmou o status de astro com "O mentiroso" (1997) - e assumir novamente seu talento em fazer rir com caras e bocas, Carrey tornou "Todo poderoso" a comédia de maior sucesso de sua carreira e, mais impressionante ainda, da história (batendo o recorde de "Esqueceram de mim", lançado em 1990). Contando com a luxuosa ajuda de Morgan Freeman e Jennifer Aniston - no auge do sucesso de "Friends" -, Carrey nem precisa se esforçar muito para arrancar gargalhadas das plateias, mesmo que nem sempre o roteiro atinja todas as suas possibilidades. Baseado livremente no romance "Almighty me", de Robert Bausch - que não é citado em nenhum momento como fonte oficial -, o filme de Shadyac brinca com a ideia universal de um ser humano adquirir poderes divinos, e aposta todas as suas fichas em seu astro. E ganha.

Criado como veículo para Kevin Hart, que abandonou o projeto por considerar o tema sacrílego, "Todo poderoso" apresenta Carrey como Bruce Nolan, um repórter televisivo infeliz com o rumo de sua carreira. Constantemente subestimado por seus superiores - que lhe escalam sempre para cobrir amenidades irrelevantes -, Nolan atinge o ápice de seu desgosto com a vida quando vê seu maior rival profissional, Evan Baxter (Steve Carrell), ficar com seu almejado posto de âncora do telejornal local. Frustrado e irado com a situação, ele acaba chamando a atenção de Deus, que ouve seus lamentos e lhe aparece (na figura de Morgan Freeman) para informar que, durante um período em que estará de férias, é o próprio Nolan quem irá ficar em seu lugar, tomando todas as decisões inerentes à função. Dotado de super poderes e com o dom de realizar milagres, conceder graças e - em pequenos atos de mesquinhez - prejudicar seu arquirrival no caminho do sucesso. Enquanto se diverte com a situação, porém, o aspirante a celebridade percebe que o Homem-aranha já sabe ("grandes poderes trazem grandes responsabilidades") e passa a negligenciar seu romance com a apaixonada Grace (Jennifer Aniston).

 


Se o roteiro escrito por Steve Koren, Mark O'Keefe e Steve Oedekerk não consegue escapar das armadilhas de uma trama quase moralista (com uma mensagem que não exatamente combina com o tom iconoclasta do humor praticado por seu ator central), Jim Carrey deita e rola em um papel que remete aos melhores momentos da comédia física que lhe consagrou. Quando o roteiro insiste em falar sério ou até mesmo apelar para o romantismo, o filme de Shadyac mostra que ambiciona mais do que simplesmente fazer rir descompromissadamente - como em seus outros trabalhos com o astro -, mas acaba por criar, involuntariamente, uma quebra de ritmo que compromete o resultado final. Os fãs de Carrey, logicamente, tem muito a aproveitar - o ator está em plena forma - e encontrarão diversos momentos hilariantes. De brinde, ainda há a participação de Steve Carell (ainda creditado como Steven) em uma sequência das mais engraçadas - não por acaso o próprio Carell assumiu a protagonização da continuação, lançada, sem o mesmo êxito, em 2007.

Banido no Egito devido a seu conteúdo considerado ofensivo, "Todo poderoso" é mais um sucesso incontestável na bem-sucedida carreira de Jim Carrey - que levou uma bolada de 25 milhões de dólares de cachê. Leve, despretensioso (ainda que levemente mais profundo do que boa parte de suas comédias) e solar, contrasta radicalmente de seu currículo até então - um currículo que seria enriquecido ainda mais no ano seguinte com o belo "Brilho eterno de uma mente sem lembranças", que ofereceria às plateias um novo lado do ator: o romântico. Antes de sua estreia, porém, o público pode divertir-se às pencas com uma trama que apostava em seu humor debochado e frequentemente exagerado - características que sempre fizeram dele uma aposta certeira quando se tratava de arrancar gargalhadas quase histéricas do espectador.

segunda-feira

DUPLEX


DUPLEX (Duplex, 2003, Miramax/Buena Vista Pictures, 89min) Direção: Danny DeVito. Roteiro: Larry Doyle. Fotografia: Anastas Michos. Montagem: Greg Hayden, Lynzee Klingman. Música: David Newman. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Stephen Alesch/Robin Stafender. Produção executiva: Alan C. Blomquist, Richard N. Gladstein, Meryl Poster, Jennifer Wachtell, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Drew Barrymore, Stuart Cornfeld, Nancy Juvonen, Jeremy Kramer, Ben Stiller. Elenco: Ben Stiller, Drew Barrymore, Eileen Essell, Harvey Fierstein, Maya Rudolph, Justin Theroux, Wallace Shawn, James Remar, Robert Wisdom, Swoosie Kurtz. Estreia: 26/9/2003

O primeiro longa-metragem de Danny DeVito como diretor, "Joga a mamãe do trem" (1987), já traía sua visão bastante particular de comédia, extraída de situações corriqueiras mas com os dois pés fincados em um tom sombrio e ácido. No filme, ele mesmo interpretava um aspirante a escritor que tentava convencer seu professor de escrita criativa a matar sua mãe autoritária - em troca dele mesmo assassinar a ex-esposa traidora do autor, como em "Pacto sinistro" (1951). Em seu trabalho seguinte atrás das câmeras, "A guerra dos Roses" (1989), um casal em processo de divórcio usava dos mais sórdidos artifícios para ficar com a posse da mansão que dividiam - mesmo que isso significasse sua destruição. "Duplex", lançado em 2003, confirmava a tendência de DeVito em rir de situações sérias e criticar, sem muita sutileza, o verniz que separa a civilização da barbárie. Ao contrapor um jovem casal em busca de um lar para chamar de seu e uma idosa aparentemente dócil que os separa da realização de seu sonho, a comédia estrelada por Ben Stiller e Drew Barrymore substitui a gargalhada óbvia pelo riso nervoso - opção inteligente que talvez explique sua decepcionante recepção comercial.

 

Com uma renda mundial que não chegou a cobrir nem mesmo a metade de seu orçamento, estimado em 40 milhões de dólares, "Duplex" provavelmente esbarrou na resistência do público em abraçar comédias que ousam fugir do esperado binômio pastelão/sofisticação. Situado em um meio-termo arriscado entre irmãos Farrelly e Woody Allen, o filme de DeVito aposta em personagens de caráter dúbio (ainda que facilmente adoráveis e de fácil empatia) e sequências de humor físico que deveriam dialogar diretamente com uma plateia ávida por risadas fáceis - mas que, por algum motivo, a afugentaram. O fraco resultado financeiro do filme, no entanto, não reflete sua qualidade. Assim como várias produções acima da média que naufragaram sem maior explicação, "Duplex" é um produto destinado a tornar-se cult. Talvez uma daquelas sessões da tarde queridas, com um público cativo e fiel, sempre disposto a rir das desventuras de um dos casais mais azarados de Nova York.

Alex Rose (Ben Stiller) e Nancy Kendricks (Drew Barrymore) são jovens, apaixonados, felizes e no caminho para se tornarem bem-sucedidos profissionais. Ela trabalha em uma revista e tem ambições de ascender na carreira, e ele é um escritor em vias de entregar seu segundo livro - apesar do atraso considerável no cronograma especificado no contrato. Depois de muito procurarem um lar para chamar de seu, os dois pombinhos mal podem acreditar na sorte grande quando surge, diante de seus olhos, a oportunidade de comprar um espaçoso duplex no Brooklyn - a um preço atrativo, ainda que apertado dentro de suas condições financeiras. Apaixonados pelo apartamento, os dois resolvem investir suas economias na compra do imóvel, mesmo sabendo que o andar superior do imóvel está ocupado. A inquilina é uma senhora idosa chamada Miss Connelly (Eileen Essell), solitária, doce e de saúde frágil. Alex e Nancy tem certeza de que não irá demorar para que sua vizinha morra e eles possam finalmente tomar posse de todo o seu duplex - mas as coisas não são como parecem. A dócil velhinha logo se transforma em uma enorme pedra no sapato do casal: espaçosa, cínica e irascível, ela não hesita em utilizar-se de sua imagem meiga para esconder uma personalidade insuportável. Sem ter a quem recorrer, Alex e Nancy chegam à conclusão de que a única maneira que eles tem de se livrar de seu pesadelo é apressando sua morte.

Assim como em seus filmes anteriores, Danny DeVito leva seus personagens ao limite do eticamente aceitável, transformando cidadãos normais e pacíficos em potenciais homicidas. Ao contrário de fazer disso um discurso pessimista sobre a maldade intrínseca do ser humano, porém, ele o faz com humor e leveza. Alex e Nancy não são pessoas ruins - o que não pode ser dito a respeito da respeitável anciã que os tira do sério -, e não é difícil simpatizar com eles e (pasmem!) torcer para que seus planos mirabolantes deem certo. Completamente inaptos para o crime, Alex e Nancy são mais vítimas do que assassinos (ou pretensos assassinos) e, dona de um talento inesgotável para transformar a vida dos vizinhos em um inferno na Terra, Miss Connelly passa rapidamente da condição de velhinha indefesa a alguém capaz de tirar a paciência do mais pacífico cidadão. Criando maneiras surpreendentes de tentativas de homicídio, o roteiro de Larry Doyle brinca sem medo com uma completa inversão de expectativas, e encontra em Ben Stiller, Drew Barrymore e Eileen Essell os intérpretes ideais de sua imaginação fértil - e seu casamento com a direção debochada de DeVito resulta em um filme cujo humor inteligente infelizmente não encontrou seu público. Talvez pelo tema, talvez pelo tom sombrio, a plateia ignorou "Duplex" no cinema - e acabou privada de uma das comédias mais ousadas e divertidas da temporada.

NA CAPTURA DOS FRIEDMAN


NA CAPTURA DOS FRIEDMAN (Capturing the Friedmans, 2003, HBO Documentary, 107min) Direção: Andrew Jarecki. Fotografia: Adolfo Doring. Montagem: Richard Hankin. Música: Andrea Morricone. Direção de arte: Nava Lubelski. Produção: Andrew Jarecki, Marc Smerling. Estreia: 17/01/2003 (Festival de Sundance)

Indicado ao Oscar de Melhor Documentário

No começo dos anos 2000, o cineasta Andrew Jarecki estava trabalhando na produção de um documentário que falaria sobre pessoas que ganhavam a vida como palhaços em festas de aniversário infantis em Nova York. Sua pesquisa o levou até David Friedman, considerado então o melhor profissional do ramo, na cidade. Mal sabia Jarecki que tal encontro o levaria a caminhos bem diferentes em sua carreira - incluindo uma indicação ao Oscar e uma polêmica que chegou a questionar o sistema judiciário norte-americano. "Na captura dos Friedman", o filme que gerou tanta controvérsia e o colocou na luta pela estatueta da Academia é, ainda hoje, quase duas décadas depois de seu lançamento, uma produção capaz de fazer questionar não apenas os desdobramentos de uma história no mínimo dúbia - mas também o papel da mídia na divulgação e cobertura de crimes graves.

O encontro de Jarecki com David Friedman o apresentou a uma história que lhe pareceu muito mais interessante e promissora do que seu projeto original - que foi lançado como extra na versão em DVD de "Na captura dos Friedman" nos EUA. Em 1987, seguindo uma investigação sobre pornografia infantil, a polícia chegou até a casa de Arnold Friedman  - um conhecido professor de computação para pré-adolescentes, pai de família e membro respeitado da comunidade de Great Neck, Long Island. Ao confessar ser receptador do material, Arnold acabou por dar margem a um aprofundamento maior àsinvestigações, e viu sua vida completamente destruída a partir daí. Acusado de molestar sexualmente seus alunos - devidamente interrogados pelas autoridades -, o aparentemente exemplar cidadão é preso juntamente com seu filho caçula, Jesse (de dezoito anos de idade), igualmente acusado pelos crimes. Enquanto aguardam julgamento em liberdade, pai e filho lidam com a pressão da vizinhança, da imprensa, da opinião pública e, mais grave ainda, da própria família. Enquanto os filhos mais velhos, David e Seth, acreditam na inocência do pai e do irmão mais jovem, Elaine, a esposa de Arnold, não tem tanta certeza assim - e essa desconfiança é a pá de cal na harmonia familiar.


 

Repleto de imagens registradas por David em filmes caseiros feitos durante o período pré-julgamento - e que acabaram sendo providenciais para a edição final do documentário de Jarecki -, "Na captura dos Friedman" é um estudo fascinante sobre a dissolução de um núcleo familiar de aparência sólida e, ao mesmo tempo, um inquietante drama policial, em que nada parece ser exatamente o que é. Mesmo que o filme seja perceptivelmente favorável à teoria de que as investigações sobre os abusos sexuais foram em boa parte forjadas - por interrogatórios duvidosos e tecnicidades que acabaram por prejudicar os réus -, há muito espaço, entre as entrevistas, as imagens de arquivo e as consequências do caso em si, para vastos questionamentos. O próprio Arnold Friedman assume, em determinado momento, que não a imagem que sempre transmitiu não corresponde à realidade: não apenas confessa ser pedófilo, mas revela também já ter cometido abusos sexuais em menores (fato nunca confirmado por qualquer evidência, mas mesmo assim perturbador). E o que dizer da possibilidade de Jesse ter sido molestado pelo próprio pai? Verdade ou jogada da defesa para diminuir a pena do rapaz? E as entrevistas do filme com as alegadas vítimas do professor - postas em xeque depois da estreia, por suas inconsistências? Nada é definitivo em "Na captura dos Friedman" - o que explica seus desdobramentos judiciais, que se mantiveram ativos por muitos anos depois da morte do patriarca.

As críticas feitas a "Na captura dos Friedman" à época de seu lançamento tinham muito mais a ver com a postura dúbia do cineasta em relação à culpa ou não de seus protagonistas do que a respeito do filme em si. Realmente há pouco do que reclamar em relação ao documentário de Andrew Jarecki - que depois mergulharia na história de outro réu célebre nos EUA, com o filme "Entre segredos e mentiras" (2010), estrelado por Ryan Gosling e Kirsten Dunst, e com a série documental "The Jinx: a vida e as mortes de Robert Durst" (2015): mantendo o interesse do público até seu último minuto, graças a uma edição ágil mas recheada de informações, o diretor conduz seu trabalho com seriedade e respeito aos envolvidos, evitando ao máximo o sensacionalismo barato. O resultado final pode até ser discutido em termos morais, éticos e/ou jurídicos, mas enquanto cinema é daqueles filmes de tirar o fôlego.

terça-feira

O HOMEM DO ANO


O HOMEM DO ANO (O homem do ano, 2003, Conspiração Filmes/Warner Bros, 105min) Direção: José Henrique Fonseca. Roteiro: Rubem Fonseca, livro "O matador", de Patrícia Melo. Fotografia: Breno Silveira. Montagem: Sérgio Mekler. Música: Dado Villa-lobos. Figurino: Cláudia Kopke. Direção de arte/cenários: Kiti Duarte/Toni Vanzolini. Produção executiva: Beto Bruno. Produção: José Henrique Fonseca, Leonardo Monteiro de Barros, Flávio R. Tambelini. Elenco: Murilo Benício, Cláudia Abreu, Natália Lage, Paulo César Pereio, José Wilker, Agildo Ribeiro, Jorge Dória, Lázaro Ramos, Wagner Moura, Amir Haddad, Mariana Ximenes, André Gonçalves, Perfeito Fortuna, Moska, Marilu Bueno. Estreia: 11/4/2003 (Festival de Cognac)

Não fosse o talento indiscutível dos envolvidos,"O homem do ano" poderia facilmente ser confundido com uma reunião de família: o roteiro é do celebrado escritor Rubem Fonseca, que é pai do diretor, José Henrique Fonseca, que por sua vez, é casado com Cláudia Abreu, dona de um dos principais papéis femininos. Basta assistir-se ao filme, porém, para constatar que este feliz encontro artístico apenas valoriza o resultado final, uma trama policial recheada de ironia que envolve o espectador em uma teia de situações quase surreais pelas quais passa o protagonista, um homem comum alçado à condição de herói do dia para a noite. Interpretado por Murilo Benício - perfeito em sua composição quase calada e por vezes atônita -, o lacônico Maiquel é criação da escritora Patrícia Melo em seu livro "O matador", e em sua encarnação cinematográfica é, sem favor, um dos personagens mais interessantes do cinema brasileiro do começo dos anos 2000.

"O homem do ano" se passa no Rio de Janeiro longe dos cartões-postais e apresenta, ao invés de corpos dourados de sol e um clima bossa-nova, um universo claustrofóbico, no qual a violência é tão comum quanto um jogo de sinuca e quaisquer mal-entendidos pode resultar em tragédia. É mais ou menos o que acontece com Maiquel, um jovem introspectivo que tem sua vida virada de cabeça para baixo por um motivo mais que banal: depois de perder uma aposta e ser obrigado a pintar o cabelo de loiro, ele entra em conflito com Suel (Wagner Moura em um papel pequeno mas marcante), um dos clientes do bar que frequenta e, antes que possa mudar de ideia, acaba matando o rapaz diante da namorada dele, Érica (Natália Lage, ótima em um papel bastante complexo). Ao contrário do que imaginava, no entanto, ele não é preso, e sim transformado em um benfeitor pela comunidade, que sofria nas mãos da vítima, um bandido pé-de-chinelo que amedrontava a vizinhança. Se não bastasse as homenagens que começa a receber dos vizinhos, Maiquel é procurado por um grupo de homens endinheirados que lhe propõem um alto pagamento em troca de seu trabalho em eliminar toda e qualquer ameaça à segurança de seus bens. 

 A princípio hesitante em aceitar essa nova incumbência, Maiquel acaba por tornar-se o homem de confiança dos empresários, com todo o respeito que a função possibilita. E se não fosse o bastante, Érica reaparece em sua vida, exigindo que ele a proteja depois da morte de seu amante - um problema que atrapalha os planos de Maiquel de ter uma vida relativamente normal com Cledir (Cláudia Abreu), com quem se casa e começa uma família. Dividido entre as duas mulheres, Maiquel se torna a pedra no caminho de bandidos profissionais, que iniciam uma série de represálias para impedi-lo de continuar sua carreira de matador. Eleito homem do ano pelo grupo que lhe paga - e bem-visto pela comunidade onde mora -, o outrora pacífico rapaz se vê cada vez mais afundado em uma vida regida pela violência e pela paranoia, em que nem mesmo seu suíno de estimação parece estar a salvo. De modo inacreditável, Maiquel, mesmo que pareça dono do seu destino, se sente impotente em acabar com sua nova rotina, preso entre duas mulheres e um trabalho que lhe dá prestígio e dinheiro - mas não a paz de espírito que ele almeja.

A ironia que permeia "O homem do ano" é, sem dúvida, um dos pontos altos do roteiro do veterano Rubem Fonseca, que mantém o estilo direto e seco de Patrícia Melo sem abrir mão de suas particularidades como autor. Seu texto é abrilhantado pelo elenco - Murilo Benício e Natália Lage à frente. e veteranos como Jorge Dória, José Wilker e Agildo Ribeiro como coadjuvantes de luxo - e pela direção inteligente de José Henrique, que conduz a trama com perfeito equilíbrio entre a tensão e o humor quase sombrio. Comparado por alguns críticos ao excepcional "Cidade de Deus" (2002), "O homem do ano" tem como similar apenas a ambientação e o tom realista - ainda que em seu filme Fonseca não se aprofunde em questões sociais ou na violência gráfica. A sutileza do cineasta em evitar, sempre que possível, a sanguinolência explícita, empurra o filme para características dramáticas das mais interessantes - e embora nem sempre tente analisá-las sob um viés psicológico, se aproveita delas para criar uma obra com características únicas, que se sustenta sozinha mesmo dentro um gênero com suas próprias regras. Pelo conjunto de qualidades que apresenta, "O homem do ano" é uma produção que não teve a atenção merecida quando chegou às telas. Nunca é tarde, porém, para reparar uma injustiça!

domingo

O CAMINHO DAS NUVENS

O CAMINHO DAS NUVENS (O caminho das nuvens, 2003, Luiz Carlos Barreto Produções Cinematográficas, 85min) Direção: Vicente Amorim. Roteiro: David França Mendes. Fotografia: Gustavo Hadba. Montagem: Pedro Amorim. Música: André Abujamra. Figurino: Cristina Kangussu, Valeria Stefani. Direção de arte: Jean-Louis Leblanc. Produção executiva: Paula Barreto. Produção: Bruno Barreto, Lucy Barreto, Luiz Carlos Barreto, Angelo Gastal. Elenco: Cláudia Abreu, Wagner Moura, Ravi Ramos Lacerda, Manoel Sebastião, Felipe Newton, Cristina de Lima, Cláudio Jaborandy, Sidney Magal, Carol Castro, Augusto Madeira, Alexandre Zacchia. Estreia: 11/8/2003 (Festival de Toronto)

Dois dos mais assíduos e talentosos nomes do cinema brasileiro durante o final dos anos 1990/começo dos anos 2000, Cláudia Abreu e Wagner Moura se encontraram pela primeira vez nas telas graças a dois dos mais reconhecidos e longevos produtores nacionais, Lucy e Luiz Carlos Barreto. "O caminho das nuvens" pode não ter levado multidões às salas de cinema, mas foi uma promissora estreia de Vicente Amorim como diretor de longas-metragem. Depois de trabalhar como diretor de curtas e alguns episódios da série de televisão "A justiceira", o cineasta, apesar de nascido na Áustria e criado em diversas cidades do mundo, voltou sua câmera para o interior do Nordeste brasileiro, com suas dificuldades econômicas e sociais, para criar uma história de amor familiar e da obstinação de um homem para oferecer uma vida digna para seus filhos. Contando com o carisma extraordinário de sua dupla de protagonistas e uma trilha sonora repleta de sucessos de Roberto Carlos (interpretados pela própria Cláudia Abreu), "O caminho das nuvens" é, no mínimo, um filme simpático - apesar de apresentar uma trama um tanto fraca e um final em aberto que pode incomodar à parte da plateia.

Premiado como Melhor Ator no Festival de Cartagena, Wagner Moura está à vontade na pele de Romão, um pai de família sem estudo e desempregado que acredita piamente que apenas um emprego que pague 1000 reais pode resolver o problema de sustentar a mulher, Rose (Cláudia Abreu), e os cinco filhos - um deles ainda de colo. Sem dinheiro para pagar passagens de ônibus a todos, Romão e sua prole embarcam em uma viagem absurda, de bicicletas, do nordeste do país até o Rio de Janeiro, onde ele espera - como um obcecado Dom Quixote - encontrar finalmente o emprego que sonha. No meio do caminho, o grupo ganha dinheiro como pode: as crianças lavam carros e Rose, mãe dedicada e esposa amorosa, se apresenta em restaurantes de beira de estrada, cantando músicas de Roberto Carlos, sempre acompanhada de um de seus meninos. Tentando sobreviver de forma honrada, a família encontra ainda uma dificuldade inesperada quando o filho mais velho, Antônio (Ravi Ramos Lacerda), resolve tornar-se independente dos pais: sentindo-se maduro o suficiente para isso, ele desafia o poder paterno e põe em risco a estabilidade da caravana.


O roteiro, escrito por David França Medeiros, não se propõe a fazer discursos sobre a desigualdade social e tampouco aprofunda a psicologia de seus personagens, dos quais o público só tem informações esparsas e pouco informativas. O que interessa a Medeiros - e a Amorim, como diretor -, são as interrelações que surgem no decorrer de seu road movie, sejam elas entre pais e filhos, marido e mulher, ou a família com outros personagens que vão surgindo no caminho. Tais personagens, que tanto ajudam quanto atrapalham o herói em sua jornada, são ainda menos desenvolvidos: aparecem, cumprem seu papel na trama e são abandonados, assim como a estrada que vai ficando para trás a cada dia. Tal decisão do roteiro é justificada e coerente, mas priva o espectador de algumas histórias paralelas que poderiam ser igualmente fascinantes - como o diretor de um show para turistas, vivido por Sidney Magal, que se utiliza de Romão e alguns de seus filhos para uma versão estilizada de rituais indígenas em um hotel. A presença de tal personagem é catalisadora: não apenas reforça a vontade do protagonista de seguir seus instintos, como mostra ao jovem Antônio um mundo bem distante de seu universo - limitado pela proteção da família e pelos áridos cenários a que está acostumado.

A trilha sonora de "O caminho das nuvens" é um caso à parte. Belas canções de Roberto Carlos ("Como é grande o meu amor por você", "Se você pensa") ilustram cada movimento da família, interpretadas por uma surpreendentemente afinada Cláudia Abreu - que não esquece de acrescentar o sotaque nordestino a suas apresentações. De certa forma, a música alivia a dor e a dureza da trajetória de Romão e Rose, oferecendo a ela uma aura romântica que os faz lembrar, sempre, de que, apesar das dificuldades, eles tem grande amor e respeito um pelo outro. Os olhares expressivos de Cláudia e Wagner em determinados momentos dizem mais do que muitos diálogos - e a música sublinha seus sentimentos mais nobres. Poucos anos mais tarde, o cineasta Breno Silveira voltaria a utilizar o cancioneiro de Roberto no sensível "À beira do caminho" (2012), mas "O caminho das nuvens" faz isso de maneira ainda mais orgânica e sentimental. É um complemento e tanto para um filme delicado e que, se não encontrou seu público à época de seu lançamento (apesar de ser uma co-produção da Globo Filmes), vale a pena descobrir, nem que seja pelos talentos superlativos de sua dupla central de atores.

quarta-feira

GAROTAS DO CALENDÁRIO

GAROTAS DO CALENDÁRIO (Calendar girls, 2003, Touchstone Pictures/Buena Vista Pictures, 108min) Direção: Nigel Cole. Roteiro: Juliette Towhidi, Tim Firth. Fotografia: Ashley Rowe. Montagem: Michael Parker. Música: Patrick Doyle. Figurino: Frances Tempest. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Mark Raggett. Produção: Nick Barton, Suzanne Mackie. Elenco: Helen Mirren, Julie Walters, Ciarán Hinds, Celia Imrie, Penelope Wilton, Linda Bassett, John Alderton, Annette Crosbie, Geraldine James, Georgie Glein. Estreia: 09/8/03 (Festival de Locarno)

É impossível não lembrar de "Ou tudo ou nada" quando se assiste à "Garotas do calendário". Assim como na comédia de Peter Cattaneo - que ousou desafiar "Titanic" na corrida ao Oscar 98 -, o filme de Nigel Cole parte de um pressuposto inusitado para falar sobre autoestima, amizade e solidariedade sem nunca apelar para o sentimentalismo óbvio e a caricatura. Ambos os filmes tem o delicioso senso de humor inglês e os dois se subvertem a lei não escrita de que apenas os jovens e belos tem direito a ter orgulho do próprio corpo. Baseado em uma história real, "Garotas do calendário" é um entretenimento de primeira qualidade: divertido, simples, emocionante e repleto de grandes atrizes, lideradas pela sempre ótima Helen Mirren (indicada ao Golden Globe) e Julie Walters. E, mais do que isso, é mais uma prova de que boas histórias são universais mesmo quando parecem falar apenas sobre o próprio quintal - Tolstói sorriria de orelha a orelha.

A trama se passa na pequena cidade de Knapely, localizada emYorkshire, na Inglaterra. É lá, em uma localidade modorrenta e tediosa, que um grupo de mulheres de meia-idade se reúne, religiosamente, para discutir assuntos tão excitantes quanto jardinagem e decoração - além de tomarem parte em concursos de bolos e coisas do tipo. Pouco afeitas a esse marasmo, algumas das integrantes do Instituto Feminino sonham em tomar parte de algo mais divertido e, sem que percebam, logo tem a grande chance de fazer isso acontecer: a morte do marido de Annie Clarke (Julie Walters), vítima de leucemia, dá uma ideia à Chris Harper (Helen Mirren): como forma de arrecadar dinheiro para comprar um sofá para a sala de espera do hospital da cidade, ela sugere que seu grupo pose para um calendário a ser vendido na comunidade. Todas aceitam, até que um detalhe as pega de surpresa: Chris quer que elas posem nuas, em atividades cotidianas. Batendo de frente com a líder do Instituto, a severa Marie (Geraldine James), o grupo aceita o desafio - e suas vidas se transformam em uma roda-viva de compromissos e elogios pelo país inteiro, além de mudarem também seu dia-a-dia familiar e conjugal.


Se Chris, no papel de líder do grupo dissidente, entra em crise em seu casamento com Rod (Ciarán Hinds) e se afasta sem perceber da criação do filho, outras companheiras se descobrem mais femininas e desejáveis, especialmente Ruth (Penelope Wilton), que descobre o relacionamento extraconjugal do marido e o abandona sem maiores dramas. A felicidade e o orgulho, porém, ficam ligeiramente ameaçados quando, descobertas por Hollywood, elas nem se dão conta do afastamento de Chris e Annie - antes melhores amigas inseparáveis, elas veem a fama e o prestígio atrapalhar seu relacionamento, principalmente quando os objetivos do calendário tornam-se diferentes para as duas: enquanto Chris aproveita o momento de celebridade para promovê-lo, Annie prefere responder às cartas enviadas por centenas de mulheres que passaram por seu drama de perder o marido. Tal impasse as coloca em caminhos quase opostos quando precisam desafiar o preconceito e o conservadorismo de seus vizinhos, a princípio chocados com as fotos, mas depois encantados com o resultado inesperado que elas produzem.

Uma história real contada com respeito e sinceridade, "Garotas do calendário" não é um filme perfeito. Sua segunda metade - quando elas passam a experimentar o gostinho da fama - é menos interessante do que sua primeira parte, em que o humor rola solto sempre que as tentativas de fazer as famigeradas fotografias surgem pela frente. Helen Mirren segura com maestria a responsabilidade de liderar um elenco feminino impecável, transitando sem erro entre o drama e a comédia mesmo quando o roteiro nem sempre lhe dá material para isso: o conflito entre as amigas no terço final da narrativa soa um tanto forçado para providenciar o desfecho emocional, mas Mirren e Julie Walters são tão boas que conseguem até disfarçar tal artifício pouco criativo. No final das contas, elas e suas companheiras fazem valer o espetáculo, que transcorre de forma agradável e bem-humorada até o final alto astral. Um excelente feel good movie, com tudo que se pode esperar de uma produção com o DNA britânico.

sexta-feira

SYLVIA - PAIXÃO ALÉM DAS PALAVRAS

SYLVIA - PAIXÃO ALÉM DAS PALAVRAS (Sylvia, 2003, BBC Films/British Film Council, 110min) Direção: Christine Jeffs. Roteiro: John Brownlow. Fotografia: John Toon. Montagem: Tariq Anwar. Música: Gabriel Yared. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Philippa Hart. Produção executiva: Jane Barclay, Sharon Harel, Robert Jones, Tracey Scoffield. Produção: Alison Owen. Elenco: Gwyneth Paltrow, Daniel Craig, Blythe Danner, Michael Gambon, Jared Harris. Estreia: 17/10/03

Uma dos maiores ícones da poesia americana de todos os tempos, Sylvia Plath passou a maior parte de sua vida intelectual à sombra do marido, o também poeta Ted Hughes, com quem se casou e teve dois filhos antes de cometer suicídio inalando gás de cozinha - um final previsível para uma história de amor, ciúmes, adultério e frequentes crises de depressão. Dirigido pela neozelandesa Christine Jeffs, o filme "Sylvia, paixão além das palavras" tenta dar um pouco de luz à trajetória de Plath, retratando seu relacionamento com Hughes desde seu primeiro encontro, em 1956, na Inglaterra, até sua trágica morte, em 1963, aos 30 anos de idade. Mesmo sem a densidade psicológica e sensível que Stephen Daldry imprimiu ao seu "As horas" - em que uma das protagonistas era a escritora Virginia Woolf, também suicida - o filme de Jeffs consegue ser satisfatoriamente sóbrio e respeitoso ao rejeitar o enfoque sensacionalista da história e dedicar-se à compreensão do drama de sua protagonista, interpretada por uma Gwyneth Paltrow discreta e paradoxalmente visceral.

Mostrando que o Oscar por "Shakespeare apaixonado" não foi apenas uma questão mercadológica como muitos afirmaram, Paltrow entrega, como a torturada Sylvia Plath, um trabalho de carga dramática intensa e febril inédito em sua carreira. Mesmo quando em seus momentos mais iluminados, a Sylvia criada por Paltrow não consegue esconder, em seu belo e plácido semblante, os demônios que a martirizam e que a fizeram conviver desde cedo com severas crises de depressão suicida. Dona de uma beleza clássica, Gwyneth empresta à poeta a delicadeza que torna ainda mais incompreensível o mundo de pesadelos em que ela vivia presa. A opção acertada do roteiro em situar a ação em um recorte de tempo onde tais pesadelos encontraram um ninho mais do que confortável para se multiplicarem - o casamento com Hughes - joga o espectador em meio a um turbilhão passional sublinhado pela bela trilha sonora de Gabriel Yared e pelo desempenho exemplar de Daniel Craig - antes de tornar-se James Bond e já demonstrando uma presença cênica de impacto e inteligência.


De posse de um papel ingrato - o roteiro não faz questão de demonizar Ted Hughes, mostrando-o como um adúltero quase compulsivo que não se importa em arriscar seu casamento e sua família para dormir com uma das alunas e depois com uma amiga do casal - Daniel Craig faz o possível e o impossível para dar-lhe um mínimo de simpatia, e por incrível que pareça, atinge seus objetivos. Mesmo diante de um poeta mulherengo e (de acordo com o filme) auto-centrado, o público não consegue deixar de ver nele um ser humano normal, repleto de incoerências e cercado por uma atmosfera de tristeza e opressão emocional que ao mesmo tempo lhe serve de inspiração para suas louvadas obras e o impele a buscar desesperadamente por uma forma de respirar. Sua química com Gwyneth Paltrow é essencial para que a atmosfera claustrofóbica que cerca o casal funcione à perfeição, em cenas que tanto exploram a sexualidade dos dois (em cenas belamente fotografadas) quanto as dificuldades que os levam ao inferno compartilhado. Mesmo prejudicados por um ritmo um tanto lento - e por cenas que tentam poetizar o dia-a-dia dos protagonistas - os dois atores estão em um momento inspirado de suas carreiras.

Sem o glamour de uma produção hollywoodiana - o filme é co-produzido pela inglesa BBC - "Sylvia, além das palavras" se concentra mais no conteúdo do que na forma, ainda que nem de longe seja desleixado ou visualmente pobre. Ilustrando sua narrativa com poesias da própria biografada, a cineasta Christine Jeffs busca no vazio dos olhos de Gwyneth Paltrow a maior explicação para seus desvarios melancólicos - e eles transmitem, silenciosamente, tudo que é preciso saber sobre sua atormentada alma. Mesmo que não seja tão repleto de matizes quanto o de Nicole Kidman como Virginia Woolf, o trabalho de Paltrow é um dos mais consistentes de sua trajetória artística, infelizmente ignorado por todas as cerimônias de premiação da temporada.

quinta-feira

O SORRISO DE MONA LISA

O SORRISO DE MONA LISA (Mona Lisa smile, 2003, Columbia Pictures, 117min) Direção: Mike Newell. Roteiro: Lawrence Konner, Mark Rosenthal. Fotografia: Anastas Michos. Montagem: Mick Audsley. Música: Rachel Portman. Figurino: Michael Dennison. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Susan Tyson, Chris Nickerson. Produção executiva: Joe Roth. Produção: Elaine Goldsmith-Thomas, Paul Schiff, Deborah Schindler. Elenco: Julia Roberts, Kirsten Dunst, Maggie Gyllenhaal, Julia Stiles, Ginnifer Goodwin, Juliet Stevenson, Marcia Gay Harden, Marian Seldes, John Slattery, Dominic West, Topher Grace. Estreia: 19/12/03

Em 1989 o australiano Peter Weir emocionou o mundo todo ao contar a história de um professor de Inglês que, desafiando a orotodoxia de uma escola para rapazes no final da década de 50, os inspirava a romper com o conformismo e buscar a felicidade através da realização de suas paixões. O filme era "Sociedade dos poetas mortos", que ganhou o Oscar de roteiro original e deu a Robin Williams um dos papéis mais populares de sua carreira e estabeleceu um padrão altíssimo a todas as produções subsequentes que retratavam a relação mestre/alunos. Quem chegou bem perto foi "Mr. Holland, adorável professor" (95), onde Richard Dreyfuss deu vida a um aspirante a compositor que acaba dedicando a vida toda a lecionar em uma escola pública, onde conquista alunos e colegas com sua paixão pela música. Quem tentou e acabou ficando no meio do caminho das boas intenções e objetivos comerciais foi Julia Roberts. A maior estrela de Hollywood juntou-se ao diretor Mike Newell, de "Quatro casamentos e um funeral" em "O sorriso de Mona Lisa", uma versão feminina de "Sociedade", agradável e fotogênica, mas com bem menos profundidade ou emoção.

A trama começa no início do ano letivo de 1953, quando a independente e carismática Katherine Wilson (Roberts, exercitando sem medo seu belo sorriso e os trejeitos que fizeram dela uma das maiores estrelas do cinema americano) chega à tradicional Wellesley, uma escola preparatória feminina das mais respeitadas da Nova Inglaterra para ensinar História da Arte. Tão logo as aulas tem início, porém, ela descobre que seus métodos de ensino - pouco ortodoxos em relação à rigidez dos programas da escola - fogem ao esperado pela direção e até mesmo pelas alunas, que frequentam as aulas apenas como uma espécie de temporada de espera antes de começarem suas vidas domésticas, como mulheres casadas e donas-de-casa dedicadas. De certa forma chocada com a visão de mundo tão estreita das jovens, ela começa uma espécie de queda de braço com a editora do jornal estudantil, Betty Warren (Kirsten Dunst), que está às vésperas do casamento e sente-se particularmente ofendida com as ideias progressistas de Katherine. Apoiada por outro professor, Bill Dunbar (Dominic West) - que se apaixona por ela - a mestra resolve dedicar seus esforços em convencer a ambiciosa porém conformista Joan Brandwyn (Julia Stiles) a não abdicar de seus sonhos de cursar Direito mesmo depois de casada.


Para que se goste de "O sorriso de Mona Lisa" é essencial que se deixe seduzir pelos talentos de Julia Roberts e não se tente comparar com o incomparável "Sociedade dos poetas mortos". O filme de Mike Newell, apesar das semelhanças em número suficiente para forçar paralelos com a obra de Weir, não parece buscar a densidade emocional deste, e baseia-se firmemente no carisma de Julia para cativar a audiência. Isso não implica, no entanto, que o roteiro, de fortes cores feministas, não dê espaço para que seus personagens coadjuvantes brilhem: enquanto narra as batalhas de sua protagonista para encontrar espaço em um mundo cercado de regras e mandamentos arcaicos, a trama também acompanha os dramas de algumas das alunas de Katherine, cada uma buscando a felicidade a seu modo. É assim que, além da reprimida e cruel Betty Warren, surgem em cena a liberal Giselle Levy (Maggie Gyllenhaal) - que tem um romance com o professor que depois se envolve com Katherine -, a sonhadora Joan e a romântica Connie Baker (Ginnifer Goodwin), que, desprovida dos encantos físicos das colegas, procura viver uma grande história de amor. Além disso, o filme também dá conta de apresentar ao público ao menos duas outras professoras com histórias dignas de nota: a solteirona Nancy Abbey (Marcia Gay Harden), que não supera a perda do noivo na II Guerra, e Amanda Armstrong (Juliet Stevenson), que vive das lembranças de seu relacionamento com outra professora, já falecida.

Ao espalhar seu foco entre tantas personagens, o roteiro de "O sorriso de Mona Lisa" acaba por não aprofundar-se em nenhuma das tramas que estabelece, apesar de dar à Katherine a primazia das atenções. Sua paixão pelo magistério, pela arte e pela possibilidade de mudar a vida de suas alunas empresta ao filme de Newell - cuja direção sem personalidade depõe mais contra a produção do que sua tentativa em abraçar várias histórias - algumas cenas bastante interessantes, que discute os critérios de julgamento de obras artísticas, os movimentos modernistas do feminismo e até as responsabilidades da educação formal em relação à comunidade. São temas intrigantes, abordados com leveza e simpatia, de acordo com as pretensões do filme. Não é uma obra-prima nem tampouco é uma produção inesquecível. Mas é uma boa sessão da tarde descompromissada.

quarta-feira

UM AMOR NA TRINCHEIRA

UM AMOR NA TRINCHEIRA (Soldier's wife, 2003, Showtime, 112min) Direção: Frank Pierson. Roteiro: Ron Nyswaner. Fotografia: Paul Sarossy. Montagem: Katina Zinner. Música: Jan A.P. Kaczmarek. Figurino: Patrick Antosh. Direção de arte/cenários: Lindsey Hermer-Bell/David Edgar. Produção: Doro Bachrach, Linda Gottlieb. Elenco: Troy Garity, Lee Pace, Shawn Hatosy, Andre Braugher, Philip Eddols, Merwin Mondesir. Estreia: 20/01/03 (Festival de Sundance)

Filho da atriz Jane Fonda com o ativista político Tom Hayden, o ator Troy Garity não é um rosto conhecido do grande público, construindo sua carreira sem a sombra do sobrenome famoso e sem participar de superproduções milionárias. Tal discrição, no entanto, não significa falta de talento, como ele deixa bem claro no filme "Um amor na trincheira", realizado para a TV a cabo americana e que lhe deu uma indicação ao Golden Globe e ao Independent Spirit Awards. Dirigido por Frank Pierson (roteirista oscarizado do clássico "Um dia de cão") e baseado em uma história real, o filme também marcou a estreia do ator Lee Pace, que anos depois faria sucesso como o protagonista da telessérie "Pushing daisies". Irreconhecível na pele de um transsexual que se envolve em uma trama de amor e violência, Pace entrega uma atuação irretocável em um filme acima da média e, considerando o veículo para o qual foi produzido, bastante ousado na temática e em cenas bastante gráficas de sexo.

Escrito por Ron Nyswaner - indicado ao Oscar por "Filadélfia" - "Um amor na trincheira" (título um tanto equivocado, uma vez que a trama se passa longe de qualquer campo de batalha) começa com a chegada do introvertido Barry Winchell (vivido por Garity) a um quartel-general do interior do Tennessee. Com pouca experiência na bagagem, ele é auxiliado pelo Sargento Diaz (Andre Braugher) a encontrar um meio de conviver com um grupo de colegas de personalidades bastante diversas, em especial o hiperativo Justin Fisher (Shawn Hatosy), que sofre com problemas relativos à sua dependência em remédios. Os dois começam uma espécie de amizade torta - Fisher não parece ser uma pessoa das mais confiáveis - e vão juntos, em um grupo com outros soldados, a uma boate gay da cidade, chamada Visions, que tem apresentações de drag-queens entre suas atrações. Uma dessas artistas, Calpernia Addams (Lee Pace) acaba chamando a atenção de Winchell, que se apaixona por ela a despeito de nunca ter tido inclinações homossexuais. O romance hesitante entre os dois - ela com medo de ser rejeitada posteriormente, ele confuso em relação a seus sentimentos - é ameaçado também pelo preconceito: lutando contra os próprios desejos reprimidos, Fisher aproveita a chegada de um novo recruta para incentivar a violência homofóbica que resultará em uma tragédia.


Intercalando em seu roteiro a história complexa do relacionamento entre Calpernia e Winchell - recheada de demônios recíprocos e banhada em uma sensualidade realista mas nunca vulgar - e a tensa relação entre o rapaz e seus colegas de farda - sempre a um passo da violência mais cruel e inesperada - "Um amor na trincheira" conduz o espectador a um universo repleto de dicotomias e paradoxos (masculino/feminino; amor/ódio; carinho/violência), mas retratado com seriedade por um diretor cujo objetivo não é explorar suas características excêntricas, e sim os seres humanos por trás delas. Lee Pace imprime uma sobriedade comovente como Calpernia, transmitindo ao espectador todas as angústias de sua personagem sem apelar para a caricatura barata. Construindo-a com respeito e sensibilidade, Pace dá a ela uma grandeza trágica e estoica que contrasta com a fragilidade emocional de Winchell, vivido por Garity com um misto de masculinidade delicada e força física sempre prestes a explodir. A química entre ambos é excepcional, especialmente nos momentos íntimos, em que equilibram desejo, romance e medo em iguais proporções. É admirável, aliás, o trabalho de maquiagem que deixa Pace irreconhecível na pele de Calpernia Addams: em cena, ele é uma mulher quase perfeita, o que explica a atração irresistível de seu amado soldado.

E se o casal central conquista pela química irretocável, o elenco coadjuvante também é digno de nota, em especial o jovem Shawn Hatosy, que interpreta o quase psicopata Justin Fisher. Vindo de papéis pequenos em filmes como "Será que ele é?" ou de mais destaque, como um dos herois de "Prova final", ele surpreende ao conceber um personagem extremamente difícil, cujas idiossincrasias e desejos controlados e não aceitos conduzem a um ato de absoluta e inexplicável crueldade. O terço final do filme, que leva a tal desgraça, é de uma claustrofobia quase palpável, acentuada pela direção parcimoniosa e delicada de Pierson, incapaz de explorar o perfil voyeurístico do espectador pelo simples prazer do ato. Honrando a história real no qual é baseado, "Um amor na trincheira" é um belo espetáculo, digno e chocante.

terça-feira

EM CARNE VIVA

EM CARNE VIVA (In the cut, 2003, Pathe Productions, 119min) Direção: Jane Campion. Roteiro: Jane Campion, Susanna Moore, romance de Susanna Moore, colaboração de Stavros Kazantzidis. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Alexandre De Franchesci. Música: Hilmar Orn Hilmarsson. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: David Brisbin/Andrew Baseman. Produção executiva: Effie T. Brown, François Ivernel. Produção: Nicole Kidman, Laurie Parker. Elenco: Meg Ryan, Mark Ruffalo, Jennifer Jason-Leigh. Estreia: 09/9/03 (Festival de Toronto)

Dentre as características da filmografia da cineasta australiana Jane Campion, duas se destacam nitidamente: o ritmo pouco ágil e a naturalidade com que ela encara a nudez e o sexo. Foi assim, por exemplo, em seu filme mais famoso, o multi-premiado "O piano", em que Holly Hunter e Harvey Keitel se envolviam em um romance nos confins da Nova Zelândia no começo do século XX. Tais características se repetem em "Carne viva", em que ela mergulha em um gênero inédito em sua carreira (o policial) e volta a explorar a sexualidade humana, dessa vez sob o véu de uma história recheada de violência e tensão. Baseada em um romance de Susanna Moore que desejava filmar desde seu lançamento em 1996, Campion mesclou o drama psicológico, o romance erótico e o suspense policial do livro em um filme que, apesar das expectativas, é frustrante nas três frentes: não é profundo o bastante em seu estudo sobre a psique humana, não intriga o suficiente em termos de mistério e só não chega a ser totalmente indiferente no erotismo por explorar, em cenas bastante ousadas, um lado ainda totalmente desconhecido de uma das atrizes mais populares dos anos 90, Meg Ryan.

Em um momento crítico de sua trajetória artística - depois do fracasso de bilheteria de "Prova de vida" e do fim do casamento com Dennis Quaid, resultado de um escandaloso romance com seu parceiro de cena Russell Crowe - Ryan aceitou o papel central de "Em carne viva" como uma forma de mostrar que, além de ser a rainha das comédias românticas da década anterior, também era uma atriz capaz de aventurar-se por gêneros e enredos mais sombrios. Ficando com a protagonização que seria de Nicole Kidman - que pulou fora por motivos pessoais relacionados a seu divórcio com Tom Cruise mas manteve-se no cargo de produtora - a estrela de "Harry & Sally, feitos um para o outro" assumiu a responsabilidade de romper com a imagem pudica e romântica com que cimentou seu sucesso e, apesar do fracasso financeiro do filme, mostrou fôlego para uma fase mais madura na carreira - fase essa que, infelizmente, não vingou, graças a sucessivos fiascos comerciais.


No filme de Campion, Ryan interpreta Frannie Avery, uma professora de literatura que, com o objetivo de escrever um livro sobre as gírias dos guetos nova-iorquinos, frequenta sem medo bairros, bares e boates pouco recomendáveis para a segurança. Solteira e atraente, ela acaba se envolvendo na investigação de um violento assassinato cometido em sua vizinhança (mais um em um série de homicídios semelhantes) e conhece o detetive encarregado do caso, Giovanni Malloy (Mark Ruffalo) - que desconfia que um aluno seu possa ser o culpado. Incentivada por sua meio-irmã Pauline (Jennifer Jason Leigh), Frannie inicia um intenso caso sexual com o policial, separado da esposa e pai de dois filhos pequenos cujo parceiro é tão violento quanto os criminosos que prende pelas ruas. Porém, apesar de estar extremamente atraída por Malloy, a professora não consegue entregar-se totalmente ao romance por desconfiar que ele seja o responsável pelas mortes: em um de seus passeios pelos bares barra-pesada que frequenta, ela viu a vítima fazendo sexo oral em seu provável assassino, que tem uma tatuagem idêntica à do investigador.

A busca pela identidade do assassino é o que menos importa no roteiro, co-escrito pela diretora e pela autora do livro que deu origem ao filme, servindo apenas como pano de fundo para um inventário superficial de paranoias, traumas e neuroses modernas que nem de longe desperta maior interesse em um público acostumado a consumir tudo isso em produções menos pedantes e enfadonhas. Em sua tentativa de cercar o filme de uma atmosfera sombria e claustrofóbica, a cineasta acaba pesando a mão em um suspense vazio, esquecendo de dar profundidade e clareza a seus personagens, que parecem jogados na trama, tendo como finalidade apenas servir como elementos gráficos de suas bem cuidadas cenas, que, justiça seja feita, são plasticamente interessantíssimas - em especial as tórridas cenas de sexo entre Meg Ryan e Mark Ruffalo, em um de seus primeiros papéis principais e já mostrando talento e desinibição de sobra. Fotografadas com bom gosto e enfatizando a naturalidade do ato, tais cenas acabam por se tornar a maior qualidade do filme, que de resto é apenas mais um policial mediano e pretensioso. Tem quem goste, mas para os demais é apenas chato e metido a profundo.

segunda-feira

O HOMEM QUE COPIAVA

O HOMEM QUE COPIAVA (O homem que copiava, 2003, Casa de Cinema de Porto Alegre/Sony Pictures, 124min) Direção e roteiro: Jorge Furtado. Fotografia: Alex Sernambi. Montagem: Giba Assis Brasil. Figurino: Rosângela Cortinhas. Direção de arte/cenários: Fiapo Barth/Silvia Guerra, Bolivar Lauda, Marnei Pereira. Produção executiva: Nora Goulart, Luciana Tomasi. Elenco: Lázaro Ramos, Leandra Leal, Luana Piovani, Pedro Cardoso, Júlio Andrade, Paulo José. Estreia: 13/6/03

Depois de testar seu talento como realizador de longas-metragens com o simpático e despretensioso "Houve uma vez dois verões", o cineasta gaúcho Jorge Furtado - conhecido pela coleção de prêmios acumulados pelo curta "Ilha das flores" - fez o que todo mundo esperava que ele fizesse: deu mais um passo à frente em sua brilhante carreira. Mais ambicioso - em termos artísticos e narrativos - e mais comercial - por ter em seu elenco nomes conhecidos nacionalmente, como Lázaro Ramos, Leandra Leal e Luana Piovani - "O homem que copiava" consegue ser ainda melhor do que o primeiro filme de Furtado, com uma trama inteligente e repleta de desdobramentos que torna impossível ao espectador adivinhar o que vem pela frente. Utilizando-se de diferentes linguagens para contar sua história de amor e contravenção, Furtado apresenta um misto de comédia, romance e filme policial que lhe assegura, sem favor nenhum, como um dos mais criativos cineastas brasileiros de sua geração - e isso sem deixar de lado seu estilo próprio e suas raízes.

O personagem central do filme é André (Lázaro Ramos), um jovem de classe média baixa que mora em Porto Alegre e trabalha como operador de fotocopiadora - ou simplesmente como "o cara do xerox". Ganhando um salário que não lhe permite quase nenhuma espécie de luxo, ele sonha ganhar a vida como desenhista, enquanto leva uma rotina pacata entre o trabalho e o lar, que divide com a mãe e a paixão por Sílvia (Leandra Leal), uma jovem que mora no prédio em frente ao seu e que espiona com seu binóculo comprado com a economia de um ano de salário. Tentando aproximar-se da garota - que trabalha em uma loja de roupas femininas - ele acaba caindo na tentação de falsificar uma nota de 50 reais com a nova máquina de cópias coloridas de seu patrão. O que poderia ser apenas uma escorregadela ética acaba, porém, se transformando em algo maior quando entra em cena o ambicioso e pouco inteligente Cardoso (Pedro Cardoso, sensacional), que, na tentativa de seduzir a bela Marinês (Luana Piovani) - colega de André - convence o rapaz a manter-se no ramo. Quando o tímido e desajeitado homem da copiadora troca a nota de 50 reais em um estabelecimento comercial, tem início uma série de eventos imprevisíveis e perigosos que ameaçam a integridade dos quatro.


Imprevisível e extremamente divertido - Furtado é um mestre em diálogos inteligentes e bem-humorados - "O homem que copiava" funciona em todos os níveis narrativos que apresenta, graças ao ritmo ágil imposto pela edição do competente Giba Assis Brasil (também cineasta) e ao roteiro recheado de reviravoltas, desvios e saltos cronológicos que, ao invés de confundir o público, apenas aumenta sua curiosidade em relação ao destino de seus protagonistas - todos eles fracassados em maior ou menor grau, e todos eles em busca da redenção financeira que seu ato desonesto pode lhes acarretar. Em um de seus maiores méritos, o roteiro abdica de qualquer tipo de julgamento moral, cobrindo André e companhia de um manto de isenção que praticamente ignora o fato de que todos estão cometendo graves infrações à lei (acredite, falsificar uma nota de 50 dólares é apenas o começo de tudo). Em especial dando à André uma aura de inocência quase infantil - característica que Lázaro Ramos aproveita com extrema sensibilidade - o filme foge das discussões sociopolíticas para manter seu foco no que realmente interessa: uma história boa o bastante para prender o espectador do início ao fim.

E se boa parte dos méritos de "O homem que copiava" é do Jorge Furtado roteirista, não é possível esquecer que também digno de elogios é o Jorge Furtado diretor de atores: até mesmo Luana Piovani está convincente em cena, na pele da exuberante Marinês, objeto de desejo do ambicioso Cardoso e que acaba entrando no esquema como parte importante do desenrolar da trama. Leandra Leal também se destaca, criando uma Sílvia aparentemente passiva que, em um momento crucial, se transforma em uma mocinha das mais interessantes do cinema nacional moderno - tudo sem perder a coerência dramática ou o nível da interpretação. E Pedro Cardoso, mesmo repetindo o estilo de interpretação que lhe deu fama, sai-se extraordinariamente bem, com uma química impecável com Lázaro Ramos em cenas memoráveis, de um humor sutil e perspicaz.

Empolgante, brilhante e divertido, "O homem que copiava" é um dos melhores filmes brasileiros desde a retomada, apesar de muitas vezes ser esquecido nas listas feitas por críticos e ditos especialistas. A anos-luz da estética marginal do cinema de Chico Assis ou das produções pasteurizadas da Globo Filmes, é um meio-termo altamente satisfatório entre os dois estilos. É popular sem ser medíocre, é inteligente sem ser pedante e é bem acabado sem deixar que isso se torne seu maior atrativo. É, enfim, um programaço.

sábado

A JANELA DA FRENTE

A JANELA DA FRENTE (La finestra di fronte, 2003, R&C Produzioni, 106min) Direção: Ferzan Ozpetek. Roteiro: Ferzan Ozpetek, Gianni Romoli. Fotografia: Gianfilippo Corticelli. Montagem: Patrizio Marone. Música: Andrea Guerra. Figurino: Catia Dottori. Direção de arte/cenários: Andrea Crisanti/Massimiliano Nocente. Produção: Tilde Corsi, Gianni Romoli. Elenco: Giovanna Mezzogiorno, Raoul Bova, Massimo Girotti, Filippo Nigro, Serra Yilmaz. Estreia: 28/02/03

Na Roma de 1943, em plena II Guerra Mundial, um jovem auxiliar de padeiro se engalfinha violentamente com seu patrão, aparentemente sem nenhum motivo. Seis décadas depois, um senhor de idade e sem memória vaga pelas ruas da cidade e é auxiliado por um casal em crise, que tentará ajudá-lo a recuperar os dados que podem lhe devolver à sua casa. Esses dois acontecimentos, a princípio aleatórios mas aos poucos interligados, são a base de "A janela da frente", belo drama romântico do cineasta turco Ferzan Ozpetek, que consegue, em menos de duas horas, equilibrar um par de histórias de amor separadas por sessenta anos sem aborrecer nem confundir a plateia, entregando-lhe, ao final da projeção, um espetáculo sensível e honesto sobre relações humanas e sonhos perdidos. Também diretor do elogiado "Um amor quase perfeito" - que retratava a relação de uma mulher com o amante gay de seu falecido marido - Ozpetek é um realizador mais preocupado com as nuances da alma humana do que com estripulias visuais, o que faz de seus filmes experiências bastante ricas emocionalmente. Não é diferente dessa vez: mesmo que utilize com inteligência artifícios visuais pouco frequentes em sua carreira, é a alma de cada um de seus protagonistas que tem importância vital à narrativa.

Em seu último filme, Massimo Girotti - ator de clássicos italianos de Luchino Visconti, Vittorio De Sica e Pier Paolo Pasolini, entre outros, e a quem o filme é dedicado - interpreta o misterioso Simone, o homem desmemoriado que o destino põe no caminho de Giovanna (Giovanna Mezzogiorno, de "O último beijo") e Filippo (Filippo Nigro), um belo casal que enfrenta graves problemas financeiros e de relacionamento: ela abandonou o sonho de construir uma carreira de confeiteira para trabalhar como fiscal em uma empresa que vende frangos congelados e ele não consegue manter-se em nenhum emprego, por mais esforço que faça. Pais de dois filhos pequenos, eles tem ideias conflitantes também em relação ao próprio Simone, que Filippo insiste em levar para sua casa depois de uma frustrada tentativa de identificação na delegacia. As brigas constantes entre eles acaba aproximando Giovanna de Lorenzo (Raoul Bova), gerente de banco que mora no prédio em frente ao seu e não esconde a atração que sente por ela. Juntos, eles acabam por começar a desvendar a verdade sobre o enigmático veterano quando descobrem que ele é um sobrevivente do Holocausto.


Soltando as pistas sobre a real identidade de Simone aos poucos, enquanto explora com delicadeza e inteligência o nascente romance entre Giovanna e Lorenzo, o roteiro co-escrito pelo cineasta equilibra seus dois focos narrativos sem atropelos, dedicando atenção a cada um deles com igual carinho. Conforme a história de Simone vai se revelando ao público - com seus desdobramentos trágicos e inesperados - ela também vai afetando, com sua força, o cotidiano de Giovanna, que passa a questionar suas escolhas e seu destino. Mesmo casada com um homem bom, honesto e dedicado à família, ela não deixa de sentir que a chama da paixão e do desejo há muito vem se extinguindo, e que a presença de Lorenzo - charmoso, inteligente, carinhoso - pode ser o catalisador de importantes mudanças em sua vida. Para isso, ela conta com o apoio da vizinha Emine (Serra Yilmaz), uma imigrante ilegal que também é sua colega de trabalho e, consciente de seus problemas conjugais, a incentiva a tentar um novo e excitante romance.

Com um desfecho coerente e melancólico, que sublinha o talento de Ozpetek em contar histórias simples e emocionalmente realistas, "A janela da frente" é um filme tipicamente italiano - com um subtexto sociopolítico que comenta o desemprego, a imigração e as consequências ainda sentidas da II Guerra - sem os exageros normalmente associados à filmografia do país. Bem dirigido, escrito com sensibilidade e interpretado por atores nitidamente apaixonados pela história que estão contando, é mais um belo trabalho na carreira do diretor, que não esconde sua simpatia pelas pessoas comuns enquanto as retrata com grandiosidade e generosidade. Um filme a ser descoberto!

quinta-feira

ADEUS, LÊNIN

ADEUS, LÊNIN (Good bye, Lenin, 2003, X-Creative Pool Film, 100min) Direção: Wolfgang Becker. Roteiro: Bernd Lichtenberg, colaboração de Wolfgang Becker, Achim von Borries, Hendrick Handloegten, Christoph Silber. Fotografia: Martin Kukula. Montagem: Peter R. Adam. Música: Yann Tiersen. Figurino: Aenne Plaumann. Direção de arte/cenários: Lothar Holler/Matthias Klemme. Produção: Stefan Arndt. Elenco: Daniel Bruhl, Katrin Sab, Chulpan Khamatova, Maria Simon, Florian Lukas, Alexander Beyer. Estreia: 09/02/03 (Festival de Berlim)

Falar de política em tom de comédia de costumes não é tarefa das mais fáceis, principalmente quando se tem o objetivo de conquistar um público não exatamente acostumado a sutilezas. Quando o filme em questão é de origem alemã, então, é cruzar os dedos e torcer para que a plateia passe por cima dos preconceitos e descubra que humor nem sempre significa piadas escatológicas ou personagens histéricos. Se "Corra Lola, corra", de Tom Tykwer deixou bem claro em 1999 que a cinematografia germânica moderna tinha espaço de sobra para narrativas mais ágeis e mais populares do que as firulas intelectualoides de gente como Wim Wenders e seus anjos melancólicos, o simpático "Adeus, Lênin", de 2003, explorou um novo viés do cinema do país: a crítica social com contornos familiares. Dirigido por Wolfgang Becker e estrelado por Daniel Bruhl - que se tornaria em poucos anos um dos nomes mais significativos do cinema alemão - o filme é uma deliciosa e inteligente comédia recomendada a todos aqueles que procuram uma alternativa ao cinemão comercial hollywoodiano.

Inspirado livremente em acontecimentos reais dos dois últimos anos de vida de Lênin - que, protegido por Stalin não tinha acesso a nenhuma notícia sobre política graças a jornais pré-editados por ele - o filme de Becker se passa em uma Berlim às vésperas da queda do muro que separava as Alemanhas Oriental e Ocidental. No lado oriental vive uma idealista mãe de família que, abandonada pelo marido, criou sozinha o casal de filhos sem nunca deixar de lado sua dedicação quase fanática ao regime socialista. Durante uma manifestação política, ao ver o filho Alex (Daniel Bruhl) ser preso pela polícia, ela sofre um enfarte e entra em coma, no qual permanece por oito meses. Nesse meio-tempo, o país sofre transformações radicais, e quando ela finalmente acorda, seus filhos recebem dos médicos a instrução de poupá-la de quaisquer aborrecimentos, que podem causar um novo ataque, dessa vez fatal. Sabendo que a notícia de que os dogmas políticos de sua mãe não são mais válidos com a nova configuração do país, Alex tem a ideia de esconder dela toda e qualquer pista sobre a verdade. Começa assim uma odisseia para impedí-la de ter acesso aos telejornais, às ruas da cidade e à qualquer menção de que os hábitos ocidentais invadiram o dia-a-dia dos berlinenses orientais.


Mesmo sendo filme de uma piada só, "Adeus, Lênin" conquista o espectador sem fazer muito esforço, graças à simpatia do elenco e à inteligência com que o roteiro desenvolve sua trama, equilibrando com suavidade o humor sutil e o melodrama. Enquanto protege sua mãe da desilusão de ver seus ideais destruídos junto com o muro de Berlim, Alex vive uma terna história de amor com sua jovem enfermeira e precisa lidar com a revolta da irmã, que apaixonou-se por um alemão do lado ocidental e, apesar de entender as razões do irmão, não vê a hora de voltar a ter uma vida normal, repleta dos prazeres a que passou a ter direito com as reformas ocorridas. Ao mesmo tempo, existe o trauma da separação dos pais, que acompanha Alex desde a infância - e que se resolve sem barracos ou lágrimas excessivas, mostrando a parcimônia dos roteiristas em explorar as emoções da história. Percorrendo as ruas de uma Berlim reunificada - ainda que modificada por efeitos especiais discretos - a câmera de Becker também ajuda o espectador a ter a consciência de como foi a adaptação dos alemães a coisas básicas como a chegada da Coca-cola e a Copa do Mundo de 1990, que reunificou a todos também em termos culturais.

Divertindo sem ofender a inteligência e falando de política sem tomar partido ou fazer qualquer tipo de panfletarismo - ainda que não deixe de ficar claro a simpatia do diretor pela ocidentalização do país - "Adeus, Lênin" é um dos filmes mais interessantes do novo cinema alemão, surgido após a queda do muro de Berlim. Conquistando a plateia logo de cara e envolvendo-a nas aventuras de Alex em cumprir seu objetivo - com inteligência e perspicácia - também cativa por apresentar personagens adoráveis, simples e humanos, de fácil identificação apesar de suas peculiaridades. Um pequeno grande filme!

OS NORMAIS - O FILME

OS NORMAIS, O FILME (Os Normais - O Filme, 2003, Globo Filmes, 110min) Direção: José Alvarenga Jr.. Roteiro: Alexandre Machado, Fernanda Young, Jorge Furtado. Fotografia: Tuca Moraes. Montagem: Paulo Henrique Farias. Figurino: Lessa de Lacerda. Direção de arte: Lia Renha. Produção executiva: Eduardo Figueira. Produção: Carlos Eduardo Rodrigues. Elenco: Fernanda Torres, Luiz Fernando Guimarães, Marisa Orth, Evandro Mesquita, Tutuca, Lupe Gigliotti. Estreia: 24/10/03

Exibida semanalmente na TV Globo entre 2001 e 2003, a série "Os normais" mostrava o dia-a-dia de um casal de noivos aparentemente comuns mas que escondiam, em sua rotina, toda série de neuroses e paranoias possíveis e imagináveis. Escritos pelo casal Alexandre Machado e Fernanda Young - e ocasionalmente por outros nomes respeitados da dramaturgia nacional, como Jorge Furtado - os 71 episódios foram dirigidos por José Alvarenga Jr. e estrelados pela dupla Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres, que ficaram marcados no imaginário popular como o certinho Rui e a tresloucada Vani, que conquistaram um público fiel e apaixonado. Não foi surpresa, portanto, quando foi anunciado que, da telinha pequena, os dois ganhariam a telona do cinema, na transposição do seriado para o cinema. Dirigido pelo mesmo Alvarenga e escrito pelos mesmos Machado, Young e Jorge Furtado, "Os Normais, o filme", estreou logo após o último episódio ir ao ar e confirmou o que todos esperavam: um enorme sucesso de bilheteria, com mais de três milhões de espectadores. A despeito do êxito comercial, porém, não fugiu da percepção de ninguém que o filme incorria no mesmo erro de várias outras adaptações televisivas para o cinema: é uma comédia engraçadíssima, com um elenco irretocável, mas no fundo, no fundo, é apenas mais um episódio alongado - e, com a liberdade do novo meio de comunicação, repleto de palavrões e situações impensáveis para um programa familiar.

Para os fãs, porém, o fato de o filme não se arriscar em inovar no novo formato, não incomoda em nada. Todas as qualidades que "Os normais" tinha na tv se repete no cinema, expandidas e sem cortes: estão presentes os diálogos de duplo sentido (que funcionam principalmente graças ao carisma impressionante de Fernanda Torres), as observações sagazes a respeito do modo de vida comum das pessoas de classe média, o humor politicamente incorreto e até mesmo algum humor de gosto duvidoso e quase infantil, o que, apesar do linguajar sem meios tons dos personagens, agrada até mesmo uma plateia menos adulta. "Os normais" tem a seu favor a despretensão em agradar intelectualmente, se propondo unicamente a entreter e fazer rir, sem elocubrações filosóficas ou sociais. O humor de Machado e Young é direto, sem anestesia, quase pueril em sua construção, mas paradoxalmente dotado de uma sofisticação pop, repleto de referências e piadas que remetem à sua própria bagagem de espectadores vorazes de telenovelas, seriados, música e literatura dos anos 70 e 80. Justamente essa bagagem - que pode passar despercebida pelo espectador menos antenado - é que diferencia seu texto (não só em "Os normais", mas em outros seriados, como "Os Aspones" e "Macho Man") das dezenas de outros menos bem-sucedidos. E é isso, também, que separa o filme de Alvarenga das comédias populares que vieram em seu rastro, dotadas de um humor histérico e vulgar - o que não foi impedimento para que também se tornassem êxitos de bilheteria.


Ao contrário da série de TV, em que Rui e Vani já são noivos há quase uma década, o filme segue a tendência hollywoodiana de prequels - tramas que mostram a origem de histórias já conhecidas. Quando o filme começa, os protagonistas são noivos, sim, mas de outras pessoas e se conhecem no dia de seus casamentos: Rui é noivo de Marta (Marisa Orth), uma mulher controladora e antipática que se recusa a dividir o arroz que vai ser jogado no casal após a cerimônia, o que incorre na ira de Vani, que vai se casar imediatamente antes com Sérgio (Evandro Mesquita), um homem pacato e aparentemente apaixonado. O conflito entre as duas noivas e as confusões que advem dessa briga domina a primeira parte da obra - com direito a um hilariante desfile de Vani pelas ruas cariocas em uma anacrônica carruagem. A segunda metade do filme começa quando, chegando ao apartamento onde vai morar com Sérgio, Vani descobre que foi traída na noite anterior à cerimônia. Furiosa, ela acaba envolvendo Rui e Marta na confusão - principalmente porque eles irão morar em um apartamento no prédio em frente e porque revelações inesperadas os colocarão - a todos - na mesma bagunça.

É impossível não rir em "Os normais". O roteiro atira para todos os lados, com todos os tipos de humor, e sai-se bem em quase todos (talvez o excesso de palavrões seja um tanto incômodo, mais pela gratuidade do que por pruridos morais). Fernanda Torres conduz a narrativa de forma absoluta, imprimindo à sua Vani uma personalidade que muito tem da própria atriz e da criadora Fernanda Young, além de confirmar o timing cômico impecável com que brindou o espectador durante os três anos da série. Luiz Fernando Guimarães continua rindo das próprias piadas, o que enfraquece consideravelmente sua graça e Marisa Orth e Evandro Mesquita (que já haviam participado da série em outros papéis) pontuam com correção o show de Fernandinha, que marcou sua carreira para sempre com sua atuação - fato um tanto imprevisível para uma atriz que ganhou a Palma de Ouro em Cannes com apenas 20 anos de idade.

Sucesso absoluto de público - e surpreendentemente de crítica, normalmente avessa às transições de mídia - "Os normais" ainda ganhou uma continuação em 2009, com o subtítulo "A noite mais maluca de todas". Definitivamente, Rui e Vani tem uma vasta legião de fãs.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...