sexta-feira

A FORÇA DO DESTINO

A FORÇA DO DESTINO (An officer and a gentleman, 1982, Paramount Pictures, 124min) Direção: Taylor Hackford. Roteiro: Douglas Day Stewart. Fotografia: Donald Thorin. Montagem: Peter Zinner. Música: Jack Nitzsche. Direção de arte/cenários: Philip M. Jefferies/James I. Berkey. Produção: Martin Elfand. Elenco: Richard Gere, Debra Winger, Louis Gosset Jr., David Keith, Robert Loggia, Lisa Blount, Tony Plana, David Caruso, Grace Zabriskie. Estreia: 28/7/82

6 indicações ao Oscar: Atriz (Debra Winger), Ator Coadjuvante (Louis Gosset Jr.), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção Original ("Up where we belong")
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Louis Gosset Jr.), Canção Original ("Up where we belong")
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Louis Gosset Jr.), Canção Original ("Up where we belong")

O filme que confirmou o status de Richard Gere como um dos maiores símbolos sexuais do cinema nos anos 80 - em um papel recusado por John Travolta e Kurt Russell e oferecido a Jeff Bridges, Dennis Quaid e Christopher Reeve -, que foi a terceira maior bilheteria do ano de 1982 nos EUA e que ganhou dois Oscar pode ter conquistado milhares de corações românticos pelo planeta, mas nem todo mundo envolvido com ele tem os mesmos sentimentos. Debra Winger, a estrela de "A força do destino", não tem as melhores lembranças da produção, dirigida por Taylor Hackford e que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz: não apenas porque foi obrigada por contrato a fazer cenas de nudez com as quais não concordava - e que deu dores de cabeça ao diretor junto à censura - mas também pelo fato de que não teve um tempo exatamente fácil durante as filmagens. Segundo o livro "An actor and a gentleman", autobiografia do ator Louis Gosset Jr., a relação entre Winger e Gere era pouco amigável - e o fato da atriz não ter sido a primeira escolha para o papel, por "não ser sexy o suficiente", em palavras do produtor Don Simpson, apenas aumentava o clima pouco amistoso nas filmagens.

Na verdade, o principal papel feminino de "A força do destino" acabou nas mãos de Winger por desistências múltiplas. Sigourney Weaver, Anjelica Huston e Jennifer Jason Leigh foram as primeiras convidadas pela produção - ainda que tenham pouco em comum entre si. Rebecca De Mornay, Meg Ryan e Geena Davis também foram testadas, e somente depois de todo esse processo o nome de Winger foi confirmado. Hoje é difícil imaginar outra intérprete para Paula Pokrifki - especialmente devido ao sucesso financeiro do filme, a maior bilheteria da carreira de Richard Gere até a explosão de "Uma linda mulher" (90) -, mas até que o filme estreasse, no verão americano de 1982, tudo era questionável nos bastidores, inclusive a bela canção-tema "Up where we belong", que, desprezada pelo produtor, foi mantida no filme por teimosia de Taylor Hackford e acabou ganhando um Oscar - além de ter atingido as paradas de sucesso do mundo inteiro. No final das contas, "A força do destino" é mais um perfeito exemplo de uma produção que tinha tudo para dar errado... mas deu extraordinariamente certo!


Realizado com um orçamento irrisório de estimados 7,5 milhões de dólares, "A força do destino" rendeu, apenas no mercado doméstico, quase 130 milhões, além de ter sido eleito um dos dez melhores filmes do ano pelos críticos do National Board of Review, ter concorrido ao Golden Globe de melhor drama (além das indicações a Gere e Winger) e sido indicado a seis Oscar - venceu em duas categorias: melhor canção e ator coadjuvante (Louis Gosset Jr.). Tanto reconhecimento lhe deu facilmente um lugar de honra entre os clássicos românticos da década de 80, além de estabelecer alguns dos clichês que se tornariam regras nos anos seguintes - em especial o militar durão e irascível que, criado por Louis Gosset Jr., nunca mais abandonou qualquer filme que se preze sobre o assunto. Premiado também com o Golden Globe de ator coadjuvante, Gosset Jr. rouba todas as cenas em que aparece, equilibrando com enorme competência o drama romântico que se desenrola à sua volta: não é por acaso que sua figura é uma das mais marcantes do filme, a despeito do carisma de Gere e do talento de Winger, os dois protagonistas de uma história de amor simples e eficaz.

Sem maiores arroubos de criatividade, "A força do destino" é uma produção correta e com um roteiro redondo, escrito por Douglas Day Stewart, indicado ao Oscar da categoria. O protagonista é Zack Mayo (Richard Gere), um jovem sem muito sentido de responsabilidade, criado com negligência pelo pai após o suicídio da mãe e que decide dar um rumo para a sua vida ao entrar em um rígido treinamento militar de treze semanas em uma base naval. É nesse lugar que ele finalmente vai conseguir formar laços: com o colega Sid Worley (David Keith), com o treinador quase sádico Emil Foley (Louis Gosset Jr.), e principalmente com Paula Pokrifki (Debra Winger), que trabalha em uma fábrica da região e que, apesar da personalidade forte, sonha em tornar-se a esposa de um oficial da marinha. Com esses poucos personagens, Stewart conta uma história de amor, honra, lealdade e segundas chances, sem apelar para o sentimentalismo barato ou para a violência desnecessária. Um degrau acima dos romances melodramáticos de sua geração, "A força do destino" resiste bravamente ao tempo - graças à química entre Gere e Winger, à bela trilha sonora e à interpretação antológica de Louis Gosset Jr.

quarta-feira

AUSÊNCIA DE MALÍCIA

AUSÊNCIA DE MALÍCIA (Absence of malice, 1981, Columbia Pictures, 116min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Kurt Luedtke. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Sheldon Kahn. Música: Dave Grusin. Figurino: Bernie Pollack. Direção de arte/cenários: Terence Marsh/John Franco Jr.. Produção executiva: Ronald L. Schwary. Produção: Sydney Pollack. Elenco: Paul Newman, Sally Field, Bob Balaban, Melinda Dillon, Luther Adler. Estreia: 15/11/81

3 indicações ao Oscar: Ator (Paul Newman), Atriz Coadjuvante (Melinda Dillon), Roteiro Original

Um belo dia, o repórter Kurt Luedtke, editor-executivo do The Detroit Free Press, percebeu que já tinha experiência o suficiente dentro do universo do jornalismo para escrever um roteiro sobre o assunto. Pediu demissão, mudou-se para Los Angeles e, inspirado pela história real de um colega do Washington Post que havia sido obrigado a devolver um Pulitzer quando foi descoberto que sua história era inventada, criou a trama de "Ausência de malícia" - que discutia os problemas inerentes à liberdade de expressão. Apresentando um tema contundente na democracia dos EUA - que poucos anos antes havia testemunhado a queda de um presidente graças à denúncias de uma dupla de jornalistas -, o roteiro de Luedtke logo interessou ao cineasta George Roy Hill - vencedor do Oscar por "Golpe de mestre" (73). Apesar do interesse, no entanto, Hill não se manteve à frente do projeto por muito tempo, mas teve um substituto à altura. Já no comando da produção, o consagrado Sydney Pollack mostrou que não tinha medo da potencial controvérsia a respeito do tema central do filme e escalou para os papéis centrais uma dupla de grandes astros, Al Pacino e Diane Keaton (ambos do elenco de "O poderoso chefão"). A saída de Pacino - e posteriormente de Keaton - não abalou o cineasta, que ofereceu então os papéis ao prestigiado Paul Newman e a recém oscarizada Sally Field. Surgia então um filme que encantaria boa parte da crítica, renderia mais de 40 milhões de dólares nas bilheterias e chegaria à lista de indicados ao Oscar em três importantes categorias.

Corajosamente indo em direção contrária ao bem sucedido "Todos os homens do presidente" (76), que narrava a investigação do Washington Post que revelou o escândalo de Watergate e levou à renúncia de Richard Nixon, Sydney Pollack mostra, em "Ausência de malícia", um outro lado do jornalismo investigativo, questionando os limites da liberdade de expressão. Se no premiado filme de Alan J. Pakula os repórteres vividos por Dustin Hoffman e Robert Redford eram o protótipo do heroísmo e da coragem, na obra de Pakula o outro lado do universo jornalístico é mostrado através de Megan Carter (Sally Field), uma repórter ambiciosa mas um tanto ingênua que é pega em uma armadilha criada pelas raposas do FBI: por sua causa, o nome de Mike Gallagher (Paul Newman) é ligado à investigação de um homicídio, apesar de seu álibi e de suas contundentes negativas. Filho de um conhecido mafioso recentemente morto, Gallagher passa a ter sua vida devassada pelos jornais e seu negócio como comerciante de bebidas em Miami prejudicado. Em busca da verdade - e para consertar seu possível erro de julgamento -, Megan começa a investigar os detalhes de sua própria notícia e esbarra em Teresa (Melinda Dillon), uma velha amiga de Mike, que pode ser a chave de todo o interesse do empresário em proteger sua privacidade.


Contando com uma atuação exemplar de Paul Newman, que injeta um misto de elegância e mistério a um personagem cujas reais intenções e motivações só vão sendo relevadas aos poucos, "Ausência de malícia" apresenta um ritmo que o aproxima mais das cerebrais produções policiais dos anos 70 do que dos filmes mais ágeis da década seguinte. Dirigido com segurança e sem espaço para piadas fora de hora, o filme de Pollack só força um pouco a barra quando o roteiro insiste em um romance pouco convincente entre sua dupla de protagonistas: por mais que seja irresistível acrescentar uma dose de
leveza à trama, a história de amor entre Megan e Mike soa deslocada e desnecessária - principalmente porque interrompe o fluxo da narrativa mais importante e atraente. Isso não impediu, porém, que o roteiro de Luedtke fosse candidato ao Oscar da categoria - que perdeu para "Carruagens de fogo", o papa-Oscar surpresa da temporada. Newman também concorreu à estatueta, assim como a coadjuvante Melinda Dillon, mas ambos também foram derrotados - ele pelo veterano Henry Fonda ("Num lago dourado") e ela por Maureen Stapleton ("Reds"). Apenas Sally Field ficou de fora das indicações - e por ironia, a primeira escolha para seu papel, Diane Keaton, chegou às cinco finalistas da categoria de melhor atriz, por "Reds".

Longe de ser um clássico da estatura de "Todos os homens do presidente" ou outros filmes que se utilizam dos bastidores do jornalismo para fazer uma crônica d sua época, "Ausência de malícia" é um filme apenas correto, valorizado por seus atores e pela direção contida de Sydney Pollack. Discute um tema relevante, mas lhe falta paixão e até mesmo uma química mais potente entre Newman e Sally Field, dois atores excelentes mas que nem sempre conseguem o essencial: despertar a simpatia da plateia. Essa falha acaba por atrapalhar o resultado final, apesar do capricho das atuações e da discussão que levanta. Um bom filme, mas muito aquém de outras obras bem melhores de Pollack.

terça-feira

OS ELEITOS: ONDE O FUTURO COMEÇA

OS ELEITOS: ONDE O FUTURO COMEÇA (The right stuff, 1983, The Ladd Company, 193min) Direção: Philip Kaufman. Roteiro: Philip Kaufman, livro de Tom Wolfe. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Glenn Farr, Lisa Fruchtman, Tom Rolf, Stephen A. Rotter, Douglas Stewart. Música: Bill Conti. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kirkland/George R. Nelson, Pat Pending. Produção executiva: James D. Brubaker. Produção: Robert Chartoff, Irwin Winkler. Elenco: Sam Shepard, Barbara Hershey, Ed Harris, Dennis Quaid, Fred Ward, Scott Glenn, Lance Henriksen, Kim Stanley, Veronica Cartwright, Pamela Reed, Jeff Goldblum, Kathy Baker, Scott Paulin, Charles Frank, Levon Helm. Estreia: 21/10/83

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Sam Shepard), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 4 Oscar: Montagem, Trilha Sonora Original, Som, Efeitos Sonoros

As expectativas eram enormes. Primeiro, o roteiro era baseado em um livro do consagrado Tom Wolfe. Depois, seu tema - os primeiros passos dos EUA na corrida espacial - era empolgante. especialmente para o público norte-americano, notoriamente ufanista. E por fim, tudo levava a crer que se estaria diante de um épico grandioso, recheado de efeitos visuais acachapantes e sequências de ação de tirar o fôlego. Porém, quando "Os eleitos: onde o futuro começa" estreou, em outubro de 1983, a decepção foi grande em vários aspectos: não apenas naufragou nas bilheterias como desagradou àqueles que esperavam por mais um blockbuster superficial. Dirigido por Philip Kaufman com elegância, senso de humor e um ritmo destoante da maioria das produções do gênero, seu filme acabou sendo relativamente reconhecido apenas pela crítica e pela Academia, que lhe indicou ao Oscar em oito categorias - um reconhecimento um tanto agridoce para Kaufman, que se viu fora da disputa de diretor e roteiro mesmo com uma indicação a melhor filme do ano.

 Essa aparente incoerência da Academia - quase constante, aliás, como seus estudiosos podem perceber a cada ano - não impediu, no entanto, que "Os eleitos" saísse da cerimônia de premiação com um número generoso de estatuetas: reconhecido por sua montagem, trilha sonora, som e efeitos sonoros, o filme de Kaufman entrou, logo em seguida, em várias listas de melhores filmes da década de 80, o que, de certa forma, corrigiu a injustiça de seu fracasso comercial - responsável inclusive pelo fim de sua produtora (The Ladd Company). O fato é que, assim como aconteceu com vários bons filmes que passaram quase em branco pelo crivo do público, "Os eleitos" oferece muito mais do que um simples entretenimento: é inteligente, quase sarcástico e, mesmo que renda homenagens aos homens que retrata, jamais abandona o senso de crônica característico da prosa de Tom Wolfe. Mesmo que o próprio autor tenha ficado insatisfeito com as mudanças feitas na adaptação feita pelo cineasta, é inegável que existe, em cada cena, um cuidado em manter um alto nível de discurso, seja em diálogos rápidos e por vezes poéticos ou mesmo em cenas que comprovam a excelência de sua parte técnica. Surpreendendo a cada momento, Kaufman equilibra com maestria seu filme entre o corriqueiro (o treinamento e os testes a que os candidatos a astronautas são submetidos) e o sublime (suas viagens, tensas e paradoxalmente divertidas). Seu objetivo de realizar um épico é claro, e não fosse uma certa demora em engrenar, seu filme seria uma diversão perfeita.


Se Sam Shepard foi o único do elenco a conseguir uma indicação ao Oscar (como ator coadjuvante, perdendo para Jack Nicholson, em "Laços de ternura"), sua presença na lista de candidatos foi, de certa forma, uma maneira de homenagear todos os seus colegas de cena. Nomes em começo de carreira, como Dennis Quaid e Jeff Goldblum, e atores já conhecidos, como Ed Harris e Barbara Hershey, integram um elenco sem elos fracos, que conquistam o público com suas particularidades e estilos próprios. Kaufman não apenas se contenta em narrar com o máximo de detalhes possível o caminho dos astronautas rumo a seu lugar na história - ele também examina suas relações pessoais, familiares e matrimoniais, sem deixar que o ritmo pareça truncado (palmas para a edição oscarizada). Das primeiras cenas, que mostram o pioneiro Chuck Yeager (Shepard) em suas tentativas de romper a barreira do som, até a consagração dos sete homens escolhidos para liderar a corrida espacial americana, "Os eleitos" convida o espectador a uma viagem no tempo, que remete ao começo da Guerra Fria e à rivalidade entre EUA e URSS. Com imagens reais editadas com cenas recriadas com capricho, o filme de Kaufman brinca com o tom de semi-documentário, enquanto não abdica de rir de seus protagonistas, na verdade homens frequentemente inconscientes de sua importância histórica - um deles chega a dormir enquanto espera ser lançado ao espaço (!!).

Envolvente, por vezes divertido e quase sempre emocionante, "Os eleitos" é um filme que não deixou com que o tempo lhe diminuísse a qualidade. Mais de três décadas depois de seu lançamento nos cinemas ainda é um grande filme - talvez hoje ainda mais do que em sua estreia, já que pode ser visto à luz do tempo e devidamente consagrado como cult movie. Se Kaufman posteriormente investiria em filmes com alto teor erótico - "A insustentável leveza do ser" (88) e "Contos proibidos do Marquês de Sade" (2000), por exemplo -, aqui ele demonstra um domínio técnico e narrativo acima da média, e um cuidado com os detalhes que faz sua omissão entre os candidatos ao Oscar de direção quase criminosa. Mais de dez anos antes que "Apollo 13: do desastre ao triunfo" (94) - coincidentemente também estrelado por Ed Harris - se tornasse um grande sucesso de bilheteria e crítica (e também fosse indicado ao Oscar de filme, mas não de direção), "Os eleitos" já demonstrava que a corrida espacial era um terreno fértil para cineastas talentosos e sensíveis. Um vencedor, apesar dos pesares!

segunda-feira

ENSINA-ME A VIVER

ENSINA-ME A VIVER (Harold and Maude, 1971, Paramount Pictures, 91min) Direção: Hal Ashby. Roteiro: Colin Higgins. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: William A. Sawyer, Edward Warschilka. Música: Cat Stevens. Figurino: William Theiss. Direção de arte/cenários: Michael Haller. Produção executiva: Mildred Lewis. Produção: Colin Higgins, Charles B. Mulvehill. Elenco: Ruth Gordon, Bud Cort, Vivian Pickles, Cyril Cusack. Estreia: 20/12/71

Alguns filmes parecem predestinados ao status de cult. Talvez pelo tema, pelo elenco ou pelas circunstâncias em que foram lançados, eles se tornam parte de um seleto grupo de produções que, mesmo sem a glória das premiações ou o selo de campeões de bilheteria, ultrapassam as limitações temporais e passam à eternidade graças às sensações que despertam nos espectadores. "Ensina-me a viver" é um desses afortunados. Longe de ter sido um estouro comercial no ano de seu lançamento (1971) - apesar de ter imediatamente conquistado fãs leais e devotados - e ignorado pelas principais cerimônias de premiação de Hollywood (recebeu apenas duas indicações ao Golden Globe), o filme de Hal Ashby ocupou lugar de destaque no coração do público principalmente pela forma afetuosa, respeitosa e bem-humorada com que trata de temas difíceis, como a velhice e a finitude. Mais do que uma história de amor entre duas pessoas completamente opostas, "Ensina-me a viver" é uma história de amor à vida e aos pequenos prazeres.

Antes de consagrar-se como o diretor de filmes vencedores do Oscar, como "Shampoo" (75), "Amargo regresso" (78) e "Muito além do jardim" (79), Hal Ashby só chegou ao comando de "Ensina-me a viver" quando o filme corria o sério risco de cancelamento. O projeto inicial, que teria o roteirista Colin Higgins como diretor, não passou da fase de pré-produção - quando, para papel o de protagonista masculino foram cotados nomes como Bob Balaban e Elton John (!!) - e a entrada de Ashby (que só tinha um filme no currículo) salvou o filme do limbo e lhe dotou de uma personalidade única, repleta de um humor seco e desconcertante, que quebra paradigmas românticos com a mesma desenvoltura com que se utiliza de alguns clichês do gênero para virá-los do avesso e apresentar ao público uma surpreendente e emocionante trama - que deixou apreensivos até mesmo os executivos da Paramount, temerosos com a reação da plateia diante do conteúdo pouco ortodoxo do roteiro.


Logo nas primeiras cenas o público é apresentado a Harold Chasen (Bud Cort), um excêntrico e solitário rapaz com mórbida fascinação pela morte. Constantemente simulando suicídio para chamar a atenção de sua mãe socialite - que não vê a hora de ou arranjar-lhe uma noiva ou mandar para uma instalação militar onde ele possa fazer carreira como seu tio - e frequentando funerais de desconhecidos, ele leva uma existência tão tediosa quanto fora do comum. Em um desses funerais é que ele conhece Maude (Ruth Gordon), que está às vésperas de completar seu 80º aniversário e, ao contrário dele, é obcecada pela vida. Igualmente solitária, mas dotada de um espírito aventureiro que a faz embarcar em situações impensáveis para gente de sua idade - como roubar carros e não dar a mínima importância a opiniões alheias -, Maude se torna uma companhia constante na vida do jovem, que vê nela um novo exemplo a ser seguido. Seus momentos juntos acabam se transformando em um amor inesperado e incompreendido.

Ilustrado por canções originais de Cat Stevens, "Ensina-me a viver" deve boa parte de seu charme irresistível e seu sucesso junto a plateias cativas à sua dupla central de atores. Apadrinhado por Robert Altman, o jovem Bud Cort parece talhado sob medida para viver o exótico Harold - um personagem quase inacreditável, mas interpretado com sensibilidade única. E Ruth Gordon dá um show na pele da divertida e entusiasmada Maude - uma mulher com um passado sombrio (revelado pelo roteiro apenas em uma tomada rápida que evita o sentimentalismo) e que persegue a vida com a sede de quem sabe que ela está cada vez mais finita. A química entre os dois - com direito até a uma cena de beijo - é esplêndida, como se ambos fossem feitos um para o outro, e se completassem com a naturalidade da existência. Mesmo não sendo um filme para todos os públicos - há quem possa se incomodar com o ritmo, com o estilo, com o visual - e merecidamente celebrado como cult, "Ensina-me a viver" é uma obra de rara luminosidade e sutileza, feita para todos aqueles que acreditam no amor e na vida.

domingo

FAHRENHEIT 451

FAHRENHEIT 451 (Fahrenheit 451, 1966, Anglo Enterprises, 112min) Direção: François Truffaut. Roteiro: François Truffaut, Jean-Louis Richard, romance de Ray Bradbury. Fotografia: Nicolas Roeg. Montagem: Thom Noble. Música: Bernard Herrmann. Figurino: Tony Walton. Direção de arte/cenários: Syd Cain. Produção executiva: Miriam Brickman. Produção: Lewis M. Allen. Elenco: Oskar Werner, Julie Christie, Cyril Cusack, Anton Diffring. Estreia: 07/9/66 (Festival de Veneza)

Em 1953, o escritor Ray Bradbury imaginou um futuro distópico onde livros seriam proibidos pelo governo e incinerados pelos bombeiros, impedindo a população a ter acesso a qualquer palavra escrita. Alguns anos mais tarde, seu romance, batizado de "Fahrenheit 451" - em teoria, a temperatura necessária para a combustão das publicações - chegou às mãos do francês François Truffaut, notoriamente avesso a ficções científicas, e transformou completamente a opinião do célebre cineasta. Apaixonado pelo conceito da trama concebida por Bradbury e certo de que poderia fazer dela um filme memorável, Truffaut passou os próximos seis anos em busca de financiamento para o projeto. Nascia então seu primeiro - e único - filme falado em inglês. Lançado no Festival de Veneza de 1966, "Fahrenheit 451" é um clássico por excelência: inteligente, perturbador e emocionante, se mantém como uma crítica feroz ao totalitarismo ao mesmo tempo que convida o público a uma poética homenagem à literatura e seu poder transformador.

Antes de chegar às telas, porém, "Fahrenheit 451" mostrou-se um desafio dos mais trabalhosos para o inveterado cinéfilo, colaborador assíduo do prestigioso "Cahièrs du Cinéma" e já consagrado por filmes como "Os incompreendidos" (59) e "Jules e Jim: uma mulher para dois" (62). Não apenas o financiamento demorava a sair, mas também seu elenco dos sonhos parecia impossível de escalar. Para os dois principais papéis femininos, por exemplo, Truffaut queria a francesa Jean Seberg e a americana Tippi Hedren, mas viu seu desejo frustrado em dose dupla: Hedren estava ocupada com Alfred Hitchcock e Seberg (estrela do seminal "Acossado", de Jean-Luc Godard) foi considerada um nome pouco comercial pelos produtores. Nem mesmo Jane Fonda acertou sua participação e a contratação de Julie Christie para ambos os papéis (pela metade do cachê cobrado então pela atriz), ao contrário de ajudar, só complicou ainda mais a situação: sua presença causou a defecção do ator Terence Stamp - escolhido para interpretar o protagonista, Montag. Ex-namorado de Christie, o ator inglês não ficou confortável com a ideia de trabalhar com ela - especialmente quando havia a forte possibilidade de, fazendo dois personagens em cena, a bela Christie roubar a atenção. O resultado foi uma tremenda dor de cabeça aos produtores, que passaram a cogitar nomes tão diversos quanto Montgomery Clift, Marlon Brando, Paul Newman, Jean-Paul Belmondo, Charles Aznavour e Peter O'Toole - até que Truffaut finalmente bateu o martelo com Oskar Werner... e se arrependeu amargamente.





Não foi a primeira vez que cineasta e ator trabalharam juntos - ambos foram parte fundamental do sucesso de "Jules e Jim". Mas certamente Truffaut jamais imaginaria que a parceria outrora tão feliz se tornaria motivo de tanto desgosto. Com visões completamente opostas a respeito da forma como retratar o bombeiro Montag - personagem principal e que serve de ponte entre o filme e o público -, diretor e ator entraram em frequente rota de colisão durante as filmagens, e o próprio Truffaut declarou posteriormente que só não chegou a ponto de desistir do projeto devido à sua paixão pela história e pelo tempo que havia gasto na pré-produção. A situação ficou tão delicada que os dois chegaram a ficar sem dirigir a palavra um ao outro durante as duas últimas semanas de trabalho - some-se a isso uma crise nervosa de Julie Christie e as dificuldades do diretor em comunicar-se em inglês enquanto trabalhava em Londres e chega a ser quase um milagre que "Fahrenheit 451" tenha sido completado - e indo ainda mais longe, tenha ficado tão bom. Com o roteiro escrito em inglês por Truffaut e Jean-Louis Richard (que não dominavam o idioma e não ficaram totalmente satisfeitos com o resultado final), a adaptação do romance de Bradbury acerta em todos os aspectos - como cinema, como crítica social e como transposição de uma obra literária para as telas.


A criatividade de Truffaut começa já nos créditos de abertura: uma vez que no universo proposto pelo roteiro a leitura é algo proibido, não há letreiros e sim uma narração em off apresentando o elenco e a equipe técnica. Logo em seguida, o público passa a conhecer uma sociedade opressiva e totalitária, onde a população vive à mercê de um governo que proíbe o consumo de livros - e incentiva as denúncias contra aqueles que desafiam as leis. Nesse universo quase asséptico intelectualmente, a única função do corpo de bombeiros é justamente incinerar todos os livros descobertos e impedir que outros meios de comunicação senão a televisão sejam acessíveis como meio de informação. O protagonista, vivido por Oskar Werner, é Guy Montag, um desses bombeiros, um profissional dedicado e à espera de uma promoção que está em vias de chegar. E é justamente nesse ponto de sua carreira que Montag é surpreendido por um novo sentimento: fascinado pela bela Clarisse (Julie Christie), ele se vê subitamente curioso em conhecer o prazer da leitura, para desespero de sua mulher, a fútil Linda (também Christie). Tentado a mergulhar cada vez mais em um novo ambiente (onde o livre-pensar é uma realidade e o idealismo intelectual é capaz de forjar mártires orgulhosos), Montag descobre que seus fechados horizontes podem transformar-se em infinitas possibilidades - mas, para isso, precisa escolher entre a vida que leva e os perigos do não-conformismo.

Visualmente interessante - ainda que pareça um tanto datado - e contado em ritmo fluido e envolvente, "Fahrenheit 451" é uma obra-prima. Nem mesmo os embates dos bastidores foi capaz de minar o que há de mais brilhante no filme: sua mensagem de amor à liberdade e à literatura. Um pouco incômoda em seus momentos iniciais - até que a plateia finalmente compreenda exatamente o que está acontecendo - e fascinante em seu terço final, quando Montag descobre um novo caminho para sua vida, a obra de Truffaut sobrevive ao tempo como uma das mais importantes ficções científicas do cinema moderno (mesmo que abra mão de alguns elementos icônicos do gênero, como a violência e os efeitos visuais abundantes, que transformariam os filmes das décadas seguintes mais e mais parecidos com videogames do que com cinema). Felizmente a ideia de Mel Gibson em refilmá-lo não vingou: dificilmente alguém seria capaz de ser tão competente em transmitir as ideias do romance de Bradbury do que Truffaut foi em seu único filme em língua inglesa.

sábado

ELYSIUM

ELYSIUM (Elysium, 2013, TriStar Pictures, 109min) Direção e roteiro: Neill Blomkamp. Fotografia: Trent Opaloch. Montagem: Julian Clarke, Lee Smith. Música: Ryan Amon. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Philip Ivey/Peter Lando. Produção executiva: Sue Baden-Powell. Produção: Bill Block, Neill Blomkamp, Simon Kinberg. Elenco: Matt Damon, Jodie Foster, Sharlto Copley, Alice Braga, William Fitchner, Diego Luna, Wagner Moura. Estreia: 07/8/13

Depois do inesperado - ainda que justo - sucesso de "Distrito 9", que chegou a concorrer aos Oscar de melhor filme e roteiro adaptado em 2010, todo mundo em Hollywood estava curioso em saber qual seria o projeto seguinte de seu diretor, Neill Blomkamp. Inteligente e sabendo que em time que está ganhando não se mexe, o cineasta sul-africano resolveu então que o melhor a fazer seria manter o que havia dado certo em sua obra-prima (a crítica social através da ficção científica, seu amigo de infância Sharlto Copley e o equilíbrio entre drama e ação), injetar um orçamento mais generoso (que ultrapassou a barreira dos 100 milhões de dólares) e contar com a presença de astros populares (Matt Damon e Jodie Foster). Nem tudo deu exatamente certo: apesar do relativo sucesso nos EUA, "Elysium" não repetiu a mesma performance de "Distrito 9", dividiu a crítica e só conseguiu se pagar com a bilheteria mundial. Não deixa de ser injusto. Apesar de não ter o mesmo brilhantismo do filme mais conhecido de Blomkamp, "Elysium" é uma produção muito mais interessante do que a grande maioria dos lançamentos do gênero: diverte, faz pensar, é tecnicamente impecável e conta com um elenco internacional de fazer inveja a qualquer diretor muito mais experiente.

Com um filme tão impressionante como "Distrito 9" como cartão de visitas, não foi difícil a Neill Blomkamp escalar um time de sonhos para o elenco de "Elysium". além dos prestigiados Matt Damon e Jodie Foster (dois dos mais inteligentes e confiáveis astros de Hollywood), o cineasta contou com o mexicano Diego Luna e os brasileiros Alice Braga e Wagner Moura para dar vida a uma história fascinante sobre um mundo pós-apocalíptico onde a diferença de classes não é apenas endêmica: ela faz também a diferença entre a vida e a morte. Com uma impressionante direção de arte e uma fotografia assombrosa, "Elysium" é um filme de extrema urgência e relevância social, uma metáfora pouco sutil sobre a política de imigração e, melhor ainda, um entretenimento que jamais esquece sua principal função: divertir a plateia com cenas de ação empolgantes e personagens cativantes. Pode-se até dizer que em sua segunda metade as situações se atropelam um pouco, mas mesmo assim é difícil não concordar que sua mistura entre cinema e crítica social é construída com precisão cirúrgica - e que é virtualmente impossível desviar os olhos da tela do primeiro ao último minuto da sessão.


A trama se passa em 2154, e a Terra está completamente arruinada, sofrendo com escassez de recursos e uma superpopulação escravizada em subempregos e miséria. Sua condição miserável contrasta radicalmente com aquela que levam os felizardos que, com dinheiro o suficiente para isso, moram em uma estação espacial chamada Elysium, praticamente um clube de luxo, sofisticado e habitado por aqueles considerados a nata da sociedade. O único problema do local - mantido com mão de ferro pela secretária de defesa, Delacourt (Jodie Foster) - são as constantes tentativas de invasão por moradores da Terra, que procuram desesperadamente chegar até as milagrosas camas existentes por lá (e que curam qualquer doença). Uma dessas desesperadas é Frey (Alice Braga), cuja filha pequena sofre de leucemia: amiga de infância do operário Max (Matt Damon) - que abandonou a vida de pequenos crimes para viver em paz -, Frey acaba pedindo ajuda ao melhor amigo, que aceita o desafio quando ele mesmo é exposto à radiação em seu trabalho e se vê condenado a poucos dias de vida. Contando com o apoio logístico do rebelde Spider (Wagner Moura), Max vai fazer o possível para salvar-se e à filha de Frey - e para isso terá de bater de frente com o violento Kruger (Sharlto Copley), capaz de qualquer coisa para defender os privilégios da alta sociedade de Elysium.

Visualmente impressionante, "Elysium" é um filme de grande impacto, especialmente quando mostra os contrastes entre os moradores de uma Los Angeles completamente destruída e o luxo que envolve a estação espacial da classe privilegiada. Mesmo que o tema implore por um discurso mais incisivo em termos de crítica, porém, o roteiro prefere ater-se às regras da ficção científica, desenvolvendo mais uma história (fascinante e bem resolvida) do que uma tese de mestrado. Acerta em cheio nessa opção: sem jamais deixar de ilustrar sua simpatia pelos habitantes da Terra (sofridos, doentes, explorados, expostos a uma dura realidade de vida), Blomkamp conta sua história focando-se basicamente na trajetória de seu herói (vivido com garra por Matt Damon) e deixando a luta de classes como um tema incidental (potente, doloroso, relevante, mas incidental). Dessa forma, ele realiza um filme que é, ao mesmo tempo, um entretenimento dos mais empolgantes (em termos técnicos e emocionais) e um comentário socialmente importantíssimo - em especial em vista do que viria pela frente na política de imigração dos EUA da era Trump. Indispensável tanto pelo discurso quanto por suas qualidades artísticas, "Elysium" é um filme subestimado - mas que deve, com o passar do tempo, ter reconhecido seu devido valor.

sexta-feira

DONNIE BRASCO

DONNIE BRASCO (Donnie Brasco, 1997, Sony Pictures/Mandalay Entertainment, 127min) Direção: Mike Newell. Roteiro: Paul Attanasio, livro de Joseph D. Pistone, Richard Woodley. Fotografia: Peter Sova. Montagem: Jon Gregory. Música: Patrick Doyle. Figurino: Aude Bronson-Howard, David Robinson. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Leslie Pope. Produção executiva: Alan Greenspan, Patrick McCormick. Produção: Louis DiGiaimo, Mark Johnson, Barry Levinson, Gail Mutrux. Elenco: Al Pacino, Johnny Depp, Michael Madsen, James Russo, Anne Heche, Bruno Kirby, Zeljko Ivanek, Paul Giamatti, Tim Blake Nelson. Estreia: 24/02/97

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

Durante seis anos, entre 1978 e 1984, o agente especial do FBI Joseph Pistone trabalhou infiltrado entre os mafiosos de Nova York, quase sem contato com a própria família e conquistando a confiança de um dos integrantes do grupo, que passou a considerá-lo como um filho. Tal história, com seus desdobramentos talvez previsíveis mas sempre interessantes, estava pronta para ser contada no cinema desde o lançamento do livro "Donnie Brasco: my undercover life with the Mafia", publicado nos EUA em 1988. Escrito pelo próprio Pistone (cuja cabeça ainda está a prêmio) e o jornalista Richard Woodley, o livro estava nos planos de Hollywood a um bom tempo quando o inglês Mike Newell entrou no projeto: celebrado pelo enorme sucesso de seu "Quatro casamentos e um funeral" (94), Newell chegou com moral, substituindo outro britânico até então considerado para o trabalho (Stephen Frears) e injetando no filme uma elegância e uma sobriedade que possivelmente um cineasta americano não seria capaz de imprimir. Com o elenco liderado por Al Pacino e Johnny Depp - dois nomes populares e de prestígio junto ao público e à crítica - e pronto para estrear no Natal de 1996, "Donnie Brasco" acabou sendo vítima do próprio estúdio: com três outros filmes de grande visibilidade entrando em cartaz quase ao mesmo tempo (e lutando por indicações ao Oscar), a Sony empurrou seu lançamento para fevereiro de 1997. Deu mais ou menos certo: mesmo lançado longe da temporada de premiações, o filme de Newell arrebatou uma indicação na categoria de roteiro adaptado quase um ano depois de sua estreia - e as outras produções da Sony foram relativamente recompensadas pela Academia, em especial "Jerry Maguire: a grande virada", que levou a estatueta de ator coadjuvante (Cuba Gooding Jr.).

Se "Donnie Brasco" tinha mais chances de convencer a Academia do que seus irmãos de estúdio - "O espelho tem duas faces" (96) e "O povo contra Larry Flynt" (96) - é difícil dizer, especialmente em um ano em que as produções independentes foram mais felizes no resultado final. Mas é óbvio que, levando-se em consideração seu tema, seus valores de produção e os vastos elogios da crítica especializada, o filme de Newell tinha tudo para ter uma sorte bem maior se tivesse sido lançado no período adequado - inclusive nas bilheterias, já que não fez muito barulho em casa mas rendeu mais de 120 milhões pelo mundo, em grande parte devido à presença de Johnny Depp, então um jovem astro em ascensão, e Al Pacino, um dos maiores atores do cinema americano. Sua química é um dos motivos que fazem do filme uma das produções mais interessantes do final dos anos 90 - uma narrativa séria e minimalista que lembra os policiais da década de 70 (não por acaso também estrelados por Pacino). Cineasta pouco afeito a malabarismos estéreis, Newell se concentra em caprichar na ambientação e no desenvolvimento dos personagens - cortesia também do roteiro de Paul Attanasio, que equilibra admiravelmente a trama policial com os problemas domésticos do protagonista. Com um elenco coadjuvante igualmente brilhante, "Donnie Brasco" foge facilmente da limitação de gênero, alcançando níveis dramáticos que o elevam acima da média. 


A trama é centrada basicamente no relacionamento entre o jovem agente Joseph Pistone - que assume o pseudônimo de Donnie Brasco e é vivido por Johnny Depp de forma discreta, sem os habituais exageros que se tornaram característica de seus desempenhos - e o mafioso Lefty Ruggiero (Al Pacino), que, apesar de não ser o chefão do grupo, lhe serve como ponte de acesso a nomes, crimes e detalhes dos delitos cometidos por outros integrantes do bando, especialmente Sonny Black (Michael Madsen), que se torna o líder durante a temporada do rapaz como infiltrado. Enquanto vai se tornando parte integrante da quadrilha, Donnie vai se afastando da esposa, Maggie (Anne Heche) e das filhas, ao mesmo tempo em que fortalece laços de amizade e quase lealdade com Ruggiero - até que o cerco se fecha e ele precisa redobrar os cuidados para não ser desmascarado e completar sua missão (que inclui, obviamente, mandar seu mentor para a cadeia).

Narrado de forma correta e sem sobressaltos, "Donnie Brasco" é um filme que substitui as cenas de ação alucinantes por um tom de mais densidade psicológica e dramática. Seu registro quase cerebral pode aborrecer a quem procura um filme policial nos moldes mais tradicionais (leia-se tiroteios, perseguições e violência extrema), mas é justamente essa opção de Mike Newell que faz toda a diferença. Seria bastante diferente, por exemplo, se outros nomes cotados para o projeto tivessem assumido o papel central - como Alec Baldwin, Nicolas Cage ou John Cusack, que certamente dariam outro estilo à produção. Dotado de um ritmo atípico, é um filme que envolve o espectador aos poucos, o mergulhando gradativamente em uma trama que fala de amizade, dever, traição e paranoia em doses exatas e tratadas com o máximo de talento. Apesar de se alongar desnecessariamente nos minutos finais, é uma obra pela qual é difícil não se deixar conquistar, senão por sua história incrível, ao menos por sua direção elegante e pelo elenco em ótimo momento. Um dos grandes filmes de Pacino pós-Oscar - e talvez um dos mais subestimados de sua brilhante carreira.

quinta-feira

DOIS CARAS LEGAIS

DOIS CARAS LEGAIS (The nice guys, 2016, Warner Bros, 116min) Direção: Shane Black. Roteiro: Shane Black, Anthony Bagarozzi. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Joel Negron. Música: David Buckley, John Ottman. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Richard Bridgland/Danielle Berman, Tommy Wilson. Produção executiva: Anthony Bagarozzi, Peter Hampden, Ken Kao, Michael J. Malone, Norman Merry, Hal Sadoff, Alex Walton. Produção: Joel Silver. Elenco: Russell Crowe, Ryan Gosling, Kim Basinger, Matt Bomer, Lois Smith, Angourie Rice, Margaret Qualley, Yaya DaCosta. Estreia: 15/5/16 (Festival de Cannes)

A brincadeira já começava no trailer, com imagens que lembravam os filmes da década de 70 (período em que se passa o filme), utilizava o logo da Warner da época e mostrava Kim Basinger sob o anúncio de "apresentando". Mas era apenas uma pequena amostra do que estava por vir. "Dois caras legais" é diversão pura, uma comédia de ação que não se leva a sério, apresenta dois protagonistas completamente atípicos e subverte os clichês do gênero policial a cada cena. Coescrito e dirigido por Shane Black - o responsável por "Máquina mortífera" e o padrão de filmes policiais hollywoodianos a partir dos anos 80 - e estrelado por Russell Crowe e Ryan Gosling em dias inspirados (e com um timing cômico impecável), o filme pode não ter tido a repercussão que merecia - rendeu pouco mais de 60 milhões de dólares em todo o mundo - mas serve para confirmar a teoria de que um bom roteiro e um bom elenco são muito mais eficazes para a produção de um bom filme do que efeitos digitais e super-heróis cada vez menos surpreendentes.

Inicialmente pensado como piloto de uma série de televisão, "Dois caras legais" transformou-se em roteiro para o cinema quando Black percebeu que as possibilidades de ganhar uma temporada seriam quase nulas. Foi um mal que aconteceu para o bem: no conciso tempo de pouco menos de duas horas, a história (repleta de reviravoltas e personagens dúbios) ganha corpo, interesse e serve como uma luva para divertir a plateia sem recorrer a piadas forçadas ou cenas de ação hipertrofiadas. Dosando em igual quantidade humor e ação, o diretor consegue um equilíbrio admirável e de certa forma volta às origens, depois de ter comandado uma superprodução ("Homem de ferro 3", de 2013) controlada com rédeas curtas pela Marvel. Em seu novo filme, ele parece respirar aliviado sem tanta pressão, e tal leveza se reflete no tom debochado (ainda que carinhoso) do resultado final. Com diálogos brilhantes, uma reconstituição de época caprichada e um elenco afiadíssimo, "Dois caras legais" é um dos filmes mais subestimados de sua temporada - e um programão para quem procura entretenimento puro e simples.


Os dois caras legais do título são Jackson Healy (Russell Crowe) e Holland March (Ryan Gosling), detetives particulares da Los Angeles de 1977 que tem seus caminhos cruzados quando se veem investigando o mesmo caso. March é viúvo e vive com a filha pré-adolescente, Holly (a ótima Angourie Rice), enquanto curte a depressão se afogando em álcool e aceitando trabalhos para localizar pessoas desaparecidas; Healy é solteiro e resolve a maioria de seus casos utilizando-se de métodos violentos e pouco ortodoxos. Um dia, March é contratado por uma senhora idosa, Mrs. Glenn (Lois Smith), para encontrar sua sobrinha, uma atriz pornô que todos acreditam ter morrido em um acidente de carro - mas que ela insiste ter visto, bem viva, alguns dias depois do desastre. Em sua busca, o rapaz esbarra com o nome de Amelia Kuttner (Margaret Qualley), uma jovem que parece estar muito mais envolvida no caso do que parece - e que também está sendo procurada por Healy. É nesse ponto que a mãe da garota, Judith (Kim Basinger), chefe do Departamento de Estado, entra em cena, contratando os dois para impedir que sua filha seja prejudicada por um filme "alternativo" que fez com alguns amigos.

A mistura de comédia e filme policial engendrada por Shane Black ainda recebe a ajuda de ingredientes inusitados, como os bastidores da indústria de filmes pornográficos, criminosos excêntricos, tiroteios em locais públicos e muito, muito bom humor. Mesmo que a história por vezes soe confusa, o roteiro é tão recheado de boas piadas e bons personagens que fica difícil reclamar. Russell Crowe e Ryan Gosling estão absolutamente à vontade em cena, em uma parceria que implora por um segundo capítulo - e a jovem Angourie Rice quase rouba o filme na pele da precoce filha de Gosling, que assume papel fundamental no desfecho da trama. Engraçado, leve e despretensioso, "Dois caras legais" é uma das mais gratas surpresas da temporada 2016 - e uma lembrança do quanto Russell Crowe faz falta no cinemão americano.

quarta-feira

O DESPERTAR

O DESPERTAR (The awakening, 2011, StudioCanal/BBC Films, 102min) Direção: Nick Murphy. Roteiro: Stephen Volk, Nick Murphy. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Victoria Boydell. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Caroline Harris. Direção de arte/cenários: Jon Henson/Robert Wischhusen-Hayes. Produção executiva: Jenny Borgars, Will Clarke, Olivier Courson, Robin Guise, Peter Hampden, Norman Merry, Joe Oppenheimer, Peter Raven, Carole Sheridan. Produção: Sarah Curtis, Julia Stannard, David M. Thompson. Elenco: Rebecca Hall, Dominic West, Imelda Staunton, Isaac Hempstead Wright, Shaun Dooley. Estreia: 16/9/11 (Festival de Toronto)

Via de regra, um bom filme de fantasmas conta sempre com uma ambientação apropriada, uma história interessante, um final surpreendente e um bom elenco. Funcionou muito bem, por exemplo, em "O sexto sentido" (99), em "Os outros" (2001) e em "O orfanato" (2007). Funciona apenas em parte em "O despertar". Co-produzido pela BBC Films, o filme de Nick Murphy - oriundo da televisão - tem como seus maiores trunfos as presenças das ótimas Rebecca Hall e Imelda Staunton, mas esbarra em problemas de ritmo e foco, que acabam por diluir as boas ideias do roteiro e dar a impressão de que é mais longo do que deveria. Ainda assim, por levar-se a sério e não cair na tentação de pregar sustos aleatórios, é uma produção acima da média, capaz de conquistar os fãs do gênero, principalmente graças a algumas surpresas em seu final - mesmo que ele se arraste mais do que o necessário depois de seu clímax.

A trama tem início na Inglaterra de 1921, ainda se recuperando do final da I Guerra Mundial. Esse ambiente, ainda traumatizado pela perda de milhares de vidas, é fértil para Florence Cathcart, que trabalha ajudando a polícia a desmascarar fraudes que envolvem falsos médiuns e comunicações com os mortos. Escritora relativamente famosa, ela é procurada por Robert Mallory (Dominic West), o diretor de uma escola para meninos que vem, segundo ele, sendo assombrado por fantasmas que provavelmente tem relação com uma tragédia ocorrida na mansão alguns anos antes. Mesmo pouco interessada, Florence aceita o desafio de provar que tudo não passa de imaginação ou armação, e assim que chega na escola sente-se aceita pela governanta, Maud (Imelda Staunton), e procura se informar a respeito de tudo que acontece no local - ainda chocado com a recente morte de um aluno. Quando percebe que talvez haja realmente algo de estranho na história, Florence pede que todos os alunos sejam mandados para casa. Ficam na imensa propriedade apenas ela, Mallory, Maud, um empregado e um aluno, Thomas Hill (Isaac Hempstead Wright) - e revelações irão testar a coragem e o ceticismo da experiente caçadora de mentiras.


O roteiro de Stephen Volck e do diretor Nick Murphy usa e abusa de todos os clichês do gênero, mas felizmente o fazem de forma inteligente, inserindo aos poucos todos os elementos de sua trama e sem exagerar nos sustos. Sua opção acertada em apostar na atmosfera lúgubre e nos personagens - interessantes e bem desenvolvidos - faz toda a diferença: mesmo que a história seja quase derivativa em seus desdobramentos, ela prende a atenção por se levar a sério e realmente envolver o espectador. Rebecca Hall é a atriz ideal para o papel principal, com seu rosto quase frio e postura pétrea; seus embates com Imelda Staunton - uma atriz gigantesca quando tem a oportunidade de mostrar seu talento - são hipnotizantes e compensam alguns momentos mortos. Já a química entre Hall e Dominic West não é tão eletrizante: ambos são bons atores mas falta algo para que o relacionamento entre Florence e Mallory convença a plateia (talvez o fato de ambos transmitirem uma aura pouco expansiva e/ou carismática). Ainda assim, o roteiro leva a trama até o final sem maiores tropeços, oferecendo um bom espetáculo aos fãs de um filme de terror elegante e sutil.

Fugindo dos sustos óbvios e seguindo um caminho de mais sugestão e menos terror - que muito deu certo nos filmes de Shyamalan, Amenábar e Bayona citados no primeiro parágrafo -, "O despertar" faz parte de uma linhagem de produções que tentam resgatar o clima nostálgico de clássicos do gênero. Acerta em boa parte do tempo (a ambientação, a direção cuidadosa, o elenco bem escalado), mas não é um filme perfeito: se estende sem necessidade, falha em criar uma empatia entre a protagonista e o público e não assusta tanto quanto deveria. Porém, diante da enxurrada de filmes baratos de terror que chegam ao consumo do espectador sem oferecer mais do que roteiros pífios e atuações canhestras, é um bálsamo. Merece ser descoberto e recomendado!

terça-feira

O DESTINO MUDOU SUA VIDA

O DESTINO MUDOU SUA VIDA (Coal miner's daughter, 1980, Universal Pictures, 124min) Direção: Michael Apted. Roteiro: Tom Rickman, livro de Loretta Lynn, George Vecsey. Fotografia: Ralf D. Bode. Montagem: Arthur Schmidt. Figurino: Joe I. Tompkins. Direção de arte/cenários: John W. Corso/John M. Dwyer. Produção executiva: Bob Larson. Produção: Bernard Schwartz. Elenco: Sissy Spacek, Tommy Lee Jones, Beverly D'Angelo, Levon Helm, Phyllis Boyens. Estreia: 07/3/80

07 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Sissy Spacek), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Sissy Spacek)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Atriz Comédia/Musical (Sissy Spacek) 

Para muita gente (especialmente no Brasil), o nome Loretta Lynn não significa muita coisa. Nos EUA, porém, a história é bem diferente: uma das cantoras mais reconhecidas e famosas do país, Lynn tem inúmeros prêmios nas prateleiras (incluindo o Grammy) e é, desde a década de 60, uma referência em música country e gospel. O tamanho de sua importância é tanto que em 1980 ela recebeu uma das maiores homenagens que podem ser feitas a um artista vivo: um filme contando sua vida, produzido por um grande estúdio (a Universal Pictures) e com visibilidade e prestígio o bastante para chegar até a temporada de premiações e sair dela com alguns troféus muito ambicionados. Indicado ao Oscar de melhor filme, "O destino mudou sua vida" deu à Sissy Spacek a estatueta dourada de melhor atriz - além de todos os outros prêmios do ano, das associações de críticos ao Golden Globe. A chuva de aplausos reconhece justamente o melhor do filme, baseado em uma autobiografia da cantora, escrita em parceria com George Vecsey: convencional e sem muito brilho narrativo, "O destino mudou sua vida" deve seu sucesso à Spacek, convincente em todas as fases da personagem e mostrando um surpreendente talento vocal.

Escolhida pessoalmente pela própria Loretta Lynn para interpretá-la nas telas, e batendo até mesmo Meryl Streep na disputa pelo papel, Sissy Spacek mostra, em "O destino mudou sua vida", uma outra faceta de seu talento. Indicada ao Grammy de melhor vocal feminina em música country, ela não hesita em soltar a voz nas apresentações de Lynn, assim como sua parceira de cena Beverly D'Angelo, que interpreta a cantora Patsy Cline, grande inspiração da protagonista e que se torna sua amiga íntima durante sua trajetória rumo ao sucesso. Em sua preparação para o papel, Spacek acompanhou Lynn em uma de suas turnês, e, mantendo-se no personagem mesmo quando não estava diante das câmeras, ela impressiona com uma caracterização impecável, em expressão corporal, sotaque e, mais importante que tudo, compreensão dos variados estados de espírito de sua personagem. De adolescente insegura e apaixonada à artista consagrada, a Loretta Lynn criada pela atriz conquista pela força e pela honestidade de sua arte - surgida de suas experiências pessoais e totalmente autodidata.


O acontecimento mais importante da vida de Loretta - antes da fama e do sucesso - foi o encontro com aquele que seria seu futuro marido, Oliver 'Moon' Lynn (Tommy Lee Jones). O ano era 1947 e, com apenas 13 anos de idade, a filha mais velha de um mineiro do Kentucky, se apaixona à primeira vista, apesar da objeção dos pais. O casamento quase imediato sofre com a inexperiência da garota e a falta de jeito do marido, mas uma gravidez logo os une definitivamente e eles se mudam para Washington. Alguns mais mais tarde e já mãe de quatro filhos, Loretta é uma competente dona-de-casa e tem sua vida transformada com um presente aparentemente inútil que ganha do marido: um violão. Apaixonada por música, ela aprende sozinha a tocar e, com o apoio de Moon, começa a apresentar-se em festas locais de música country. Entusiasmada, passa a compor as próprias canções e, ao lado do marido, vai em busca do sucesso, procurando gravadoras e shows para demonstrar seu trabalho. Começa aí uma trajetória de êxito e respeito que a levará a se tornar uma das mais conhecidas cantoras country de sua geração.

Sem grandes acontecimentos dramáticos além da vida pessoal da protagonista, sacrificada em prol da carreira - e uma morte que o filme trata sem dar muita importância -, "O destino mudou sua vida" é uma produção correta, sem grandes escorregões mas igualmente sem muito brilho. Sissy Spacek realmente carrega o filme nas costas, com uma interpretação irretocável, mas a direção de Michael Apted (que depois levaria Sigourney Weaver e Jodie Foster à disputa pelo Oscar em "Nas montanhas dos gorilas", de 1988, e "Nell", de 1994, respectivamente) não consegue fazer milagres com um roteiro que, ao seguir a linha cronológica dos acontecimentos, serve apenas para retratar, sem muita inventividade, uma carreira linear e quase desinteressante - à parte o trabalho de Spacek, a história de Loretta não chega a entusiasmar àqueles que não conhecem sua música, e a edição tampouco ajuda (alguns minutos a menos não faria mal nenhum à trama). No final das contas, um filme honesto e bem realizado, mas que não justifica as sete indicações ao Oscar (incluindo melhor filme e roteiro adaptado). Vale por Sissy, uma grande atriz no papel de sua vida!

segunda-feira

DE CASO COM A MÁFIA

DE CASO COM A MÁFIA (Married to the mob, 1988, Orion Pictures, 104min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Barry Strugatz, Mark R. Burns. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Craig McKay. Música: David Byrne. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Nina Ramsey. Produção executiva: Joel Simon, Bill Todman Jr.. Produção: Edward Saxon, Kenneth Utt. Elenco: Michelle Pfeiffer, Matthew Modine, Dean Stockwell, Alec Baldwin, Mercedes Ruehl, Joan Cusack, Oliver Platt, Nancy Travis, Chris Isaak. Estreia: 11/8/88

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Dean Stockwell)

Muitas vezes, especialmente em Hollywood, há males que vem pra bem. Quando o cineasta Jonathan Demme - já celebrado pela comédia maluca "Totalmente selvagem" - assumiu as rédeas do projeto de "De caso com a máfia", os atores cotados para os papéis principais eram Jessica Lange e Tom Cruise. Não que os dois astros fossem incapazes (Cruise era um astro em ascensão e Lange já tinha um Oscar de coadjuvante em casa há uns bons anos), mas é difícil imaginar como teria ficado o filme com suas presenças, afinal ela já era considerada uma atriz séria e ele povoava os sonhos de milhares de adolescentes desde "Top Gun: ases indomáveis" (86). No fim das contas, Cruise preferiu - apesar das mudanças no roteiro solicitadas por ele - seguir seu caminho de galã e fazer "Cocktail" (88) e Lange nem chegou a ser convidada para o elenco. Melhor assim: ele foi substituído por Matthew Modine (menos carismático, mas um ator bem melhor) e o principal papel feminino foi parar nas mãos de Michelle Pfeiffer, em vias de tornar-se uma das mais requisitadas atrizes da época (não à toa, foi indicada ao Oscar de coadjuvante no mesmo ano, por "Ligações perigosas", de Stephen Frears). O resultado é um filme alto astral, quase esquizofrênico em sua mistura de gêneros e uma das produções que empurraram Demme para o mainstream - e, em consequência, para o Oscar de melhor direção por "O silêncio dos inocentes", três anos depois.


Assim como fez em "Totalmente selvagem", Demme não se prende a um único estilo narrativo, obrigando o espectador a acompanhar seus personagens por uma série de desvios, que vão da comédia romântica ao filme de gângster, do humor quase pastelão de Almodóvar à violência de Scorsese. Conduzindo com segurança um roteiro que foge do convencional, ele imprime um ritmo próprio à trama, oferecendo uma experiência bem mais rica ao público do que simplesmente uma história sobre embates entre mafiosos e a polícia. Com uma trilha sonora vibrante - que inclui até mesmo Jorge Benjor - e um visual propositalmente cafona, "De caso com a máfia" é um filme que não se leva a sério, e nesse caminho de quase autodeboche ganha a simpatia imediata da plateia, cativada com sua comunicação fácil e direta. É lógico que, para isso, conta com a luminosidade de Michelle Pfeiffer (com ótimo timing cômico) e com a atuação inspirada de Dean Stockwell, que acabou concorrendo ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho como um chefão do crime ameaçado pelo ciúme da esposa.


Matthew Modine, saído das filmagens de "Nascido para matar" (87) e ainda traumatizado pelos longos meses de trabalho com Stanley Kubrick declarava que não via nada de engraçado no roteiro - e talvez por isso mesmo sua atuação como o agente do FBI Mike Downey soe tão verdadeiramente dotada de frescor: assim como o ator estava em meio a um filme sem saber exatamente o que estava fazendo, seu personagem também é pego no meio de um furacão e precisa aprender a lidar com um misto de sentimentos inesperados. Downey é um policial infiltrado encarregado de vigiar a bela Angela (Michelle Pfeiffer), que acaba de ficar viúva do mafioso Frank deMarco (Alec Baldwin) - o FBI acredita que ela seja amante de outro integrante da máfia, o expansivo chefão Tony Russo (Dean Stockwell), e a missão de Downey é descobrir, através dela, algo que possa levar o criminoso à cadeia. Acontece que o próprio Downey acaba se apaixonando por Angela - que não só recusa as investidas de Russo como deseja viver uma vida longe do crime organizado, dos "amigos" do falecido marido e principalmente da mulher de Russo, a possessiva Connie (Mercedes Ruehl).

Deliciosamente sarcástico, "De caso com a máfia" tira sarro dos filmes de gângster de forma inteligente e perspicaz, sem precisar apelar para a sátira explícita ou citações óbvias. Ao retratar os mafiosos como pessoas incapazes de lidar com situações banais (como o casamento ou o ciúme), o roteiro não apenas lhes tira o glamour como os deixa extremamente próximos do espectador. Essa opção de privá-los da sensação de perigo constante não deixa de ser corajosa - especialmente porque uma das subtramas do filme tem a ver com o risco que o jovem policial corre de ser descoberto -, mas ao mesmo tempo dá ao resultado final um tom mais anárquico e iconoclasta, típico de Jonathan Demme antes de tornar-se o bem-comportado diretor de "Filadélfia" (93) e "Sob o domínio do mal" (2004). Com o brilho de Michelle Pfeiffer no auge da beleza, a química perfeita entre Dean Stockwell e Mercedes Ruehl e uma trilha sonora das mais empolgantes - quem não se deixa levar logo de cara com Rosemary Clooney cantando "Mambo italiano"? -, é uma comédia das mais espertas da década de 80, e uma prova de que até mesmo temas sombrios podem render boas gargalhadas.

domingo

CUJO

CUJO (Cujo, 1983, Sunn Classic Pictures, 93min) Direção: Lewis Teague. Roteiro: Don Carlos Dunaway, Lauren Currier, romance de Stephen King. Fotografia: Jan De Bont. Montagem: Neil Travis. Música: Charles Bernstein. Figurino: Jack Buehler. Direção de arte/cenários: Guy Comtois/John Bergman. Produção: Daniel H. Blatt, Robert Singer. Elenco: Dee Wallace, Daniel Hugh-Kelly, Danny Pintauro, Christopher Stone, Ed Lauter, Kaiulani Lee. Estreia: 10/8/83

Tudo começou quando o escritor Stephen King deu de cara com o assustador cachorro de seu mecânico, enquanto aguardava o conserto de sua motocicleta. Criativo e com a imaginação à solta, não demorou para transformar esse encontro tão banal em um romance assustador, publicado em 1981 depois de um processo de escrita que ele mesmo não lembra de ter desenvolvido (cortesia de seu vício em álcool, então no auge). Transformado em filme dois anos depois de seu lançamento nas livrarias, "Cujo" chegou às telas em uma produção barata, dirigida por um cineasta pouco conhecido e com um elenco sem grandes estrelas. Tais circunstâncias, no entanto, não o impediram de atingir um alto grau de fidelidade a seu original literário e, melhor ainda, manter um nível de suspense capaz de grudar o espectador na poltrona até seus minutos finais. Graças a um grande domínio narrativo, uma edição enxuta e o belo trabalho de Dee Wallace (mais conhecida como a mãe de Elliott no sucesso "ET", de 1982), "Cujo" é um pequeno grande filme, uma pérola rápida (93 minutos contando com os créditos) e quase sempre esquecida (injustamente) dentre as dezenas de adaptações de obras de King.

O próprio King teve um envolvimento bastante efetivo na realização do filme, dirigido por Lewis Teague - que em seguida assinaria a segunda parceria de Michael Douglas e Kathleen Turner nas telas, a comédia "A joia do Nilo" (85): apesar de não estar creditado, colaborou ativamente no roteiro e chegou a declarar que a atuação de Dee Wallace era a melhor que ele já havia visto em uma adaptação de uma obra sua - o que talvez seja verdade se não forem contabilizados os trabalhos impecáveis de Kathy Bates em "Louca obsesão" (vencedor do Oscar) e "Eclipse total". Totalmente entregue à sua personagem, Wallace cumpre com louvor sua missão de deixar o público angustiado e tenso - a credibilidade que ela imprime em cada cena conduz a ação a um alto grau de claustrofobia e realismo que fazem o terço final do filme ser simplesmente um dos mais tensos exercícios de suspense dos anos 80. Sem medo de fazer de um animal doméstico um vilão dos mais violentos da história, "Cujo" transforma uma situação corriqueira em um puro pesadelo.


Apesar do cão São Bernardo ser o personagem-título e principal elemento da narrativa, os humanos é que dominam os dois primeiros terços do filme de Teague. Boa parte da ação inicial serve para apresentar a família Trenton, aparentemente parte de um lar feliz e bem estruturado: o pai, Vic (Daniel-Hugh Kelly) é publicitário e anda às voltas com um problema profissional que pode lhe custar o emprego; o filho pequeno, Ted (Danny Pintauro) é um menino feliz mas constantemente apavorado com o "monstro do armário"; e a mãe, Donna (Dee Wallace) é uma dona-de-casa dedicada e presente. Na verdade, porém, há um segredo que põe em risco seu casamento: ela tem um caso com o conquistador da cidade, Steve Kemp (Christopher Stone) - e sua culpa a impede de levar uma vida totalmente em paz. Enquanto se desenrola o drama doméstico, o cachorro do mecânico Joe Camber (Ed Lauter) é mordido por um morcego e desenvolve raiva, passando a atacar - e matar! - qualquer um que cruze seu caminho, inclusive seu dono. A viagem de sua esposa e de seu filho deixam sua oficina (localizada a alguns quilômetros da cidade) completamente abandonada - e é lá que Donna e o pequeno Ted ficarão à mercê de Cujo, quando o carro que estão levando para o conserto simplesmente se recusa a funcionar.

Presos em um carro em uma oficina distante, em um dia de calor extremo e sem condições de pedir ajuda - Vic também está fora da cidade, a trabalho -, mãe e filho iniciam uma odisseia de pavor, compartilhada de forma exata pela câmera detalhista do cineasta, que acompanha cada minuto de seu desespero com o máximo de tensão. A trilha sonora discreta e a edição competente do futuro diretor Jan De Bont completam o cenário, estabelecendo um panorama que permite ao público mergulhar sem reservas na história. Mesmo que apenas o ato final se concentre nos ataques de Cujo a mãe e filho, são exatamente esses poucos minutos (que parecem muito mais, devido ao talento do diretor em expandir a linha do medo até seu limite máximo) que permanecem na memória da plateia depois que os créditos finais surgem na tela. Mais do que um filme que mexe com os nervos do espectador, "Cujo" é a prova de que até mesmo as mais minimalistas histórias de Stephen King são capazes de se transformar em ótimos filmes - desde que contem com a equipe apropriada e não tentem inventar a roda. É um filme de suspense de tirar o sono - ou ao menos pensar duas vezes antes de mexer com qualquer cachorro.

sábado

CREED: NASCIDO PARA LUTAR

CREED: NASCIDO PARA LUTAR (Creed, 2015, MGM/Warner Bros/New Line Cinema, 133min) Direção: Ryan Coogler. Roteiro: Ryan Coogler, Aaron Covington, estória de Ryan Coogler, personagens criados por Sylvester Stallone. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Claudia Castello, Michael P. Shawver. Música: Ludwig Goransson. Figurino: Antoinette Messam, Emma Potter. Direção de arte/cenários: Hannah Beachler/Amanda Carroll. Produção executiva: Nicolas Stern. Produção: Robert Chartoff, William Chartoff, Sylvester Stallone, Kevin King-Templeton, Charles Winkler, David Winkler, Irwin Winkler. Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashad, Andre Ward, Tony Bellew. Estreia: 19/11/15

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Sylvester Stallone)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Sylvester Stallone)

Em 1977, "Rocky, um lutador" surpreendeu aos desavisados e saiu da cerimônia do Oscar com os prêmios de filme e direção - contra obras como "Taxi driver", "Rede de intrigas" e "Todos os homens do presidente". Desde então, seu criador e intérprete, Sylvester Stallone vem passando por altos e baixos, intercalando sucessos de bilheteria e crítica com bombas que quase acabaram com sua carreira. Para sua sorte, porém, seu personagem mais famoso - ao lado do questionável John Rambo - volta e meia ressurge para dar um novo gás à sua carreira. Em 2006, por exemplo, ele parecia ter encerrado sua trajetória, com o êxito quase inesperado de "Rocky Balboa", que ele mesmo estrelou e dirigiu e que arrecadou mais de 150 milhões de dólares mundo afora - provando que sua popularidade ainda estava longe de diminuir. Mas eis que, quase uma década mais tarde, um jovem cineasta negro chamado Ryan Coogler, aplaudido por um filme-denúncia de grande importância - "Fruitvale Station: a última parada" - resolveu que ainda não era hora de aposentar o icônico lutador. Depois de muito insistir com o próprio Stallone, Coogler finalmente o convenceu a abençoar o projeto de "Creed: nascido para matar" - onde Balboa, para surpresa de muitos, é um personagem coadjuvante. Tal demonstração de humildade do ator não passou despercebida - ele levou pra casa o Golden Globe, foi unanimemente elogiado pela imprensa e só não ganhou o Oscar porque Mark Rylance, de "Ponte dos espiões", lhe passou a perna na última hora.

Na verdade, o projeto de "Creed" surgiu antes mesmo da estreia de "Fruitvale Station" - e foi o sucesso do filme, baseado em uma história real, que fez com que o desejo de Ryan Coogler se tornasse realidade. A princípio relutantes em retornar ao universo de Rocky Balboa, tanto Sylvester Stallone quanto o produtor Irwin Winkler só aceitaram diante da ideia proposta pelo jovem diretor: contar não mais uma história sobre Balboa, mas sim utilizá-lo como uma ponte para a introdução de um outro personagem, consistente com a  mitologia dos filmes e de fácil comunicação até mesmo com a plateia que não foi criada tendo Rocky como referência cultural. Surgia assim a história de Adonis Creed, filho bastardo de um antigo rival e amigo do lutador, o igualmente memorável Apollo Creed (interpretado por Carl Weathers nos quatro primeiros capítulos da série), que aparece na vida de Rocky como uma lembrança do passado e inicia com ele uma relação de pai e filho que ajuda o aposentado atleta a enfrentar uma batalha ainda mais dolorosa e aparentemente invencível: um câncer.


A relação entre Creed e Balboa acabou sendo o principal atrativo para Stallone, que durante a pré-produção teve que lidar com um golpe dos mais devastadores: a morte de seu filho Sage, aos 36 anos de idade, vítima de um ataque cardíaco. Em uma ironia das mais cruéis, o veterano ator estava em vias de fazer um filme que tinha como um dos principais temas um relacionamento paternal e tinha sua vida pessoal virada do avesso com uma perda irreparável. Inteligente, Coogler usou tal tristeza a seu favor: não apenas fez o ator perceber que o trabalho lhe faria bem como explorou ao máximo o sentimento de finitude que ele vinha experimentando. O resultado não poderia ter sido melhor, e a crítica reconheceu: desde "Copland" (97), Stallone não recebia elogios tão calorosos a uma atuação, e a indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante (na condição inédita de favorito) apenas coroou um sucesso também comercial. Com uma renda de mais de 100 milhões de dólares apenas no mercado doméstico, "Creed" comprovou a perenidade de Rocky Balboa no coração do público.

Mas, apesar do apelo de Stallone junto às plateias, é injusto creditar apenas a ele o êxito de "Creed": com um roteiro que não tenta inventar a roda e faz uso apropriado de todos os clichês que fizeram da série um fenômeno cultural, Ryan Coogler  criou uma história universal de amor - aos amigos, à família, à namorada, ao esporte. E de quebra , acertou em cheio ao escolher seu ator principal. Carismático e talentoso, Michael B. Jordan já havia trabalhado com o diretor em "Fruitvale Station" - e foi responsável por boa parte da recepção positiva ao filme. Em "Creed" ele demonstra ainda mais poder de fogo ao dividir suas cenas com um monstro sagrado como Stallone e não se deixar eclipsar. Na pele de Adonis Creed, o jovem ator vai da fúria à tristeza, da solidão à paixão e do medo à ousadia em um piscar de olhos - e leva a plateia junto, até o final (quase previsível, mas ainda assim emocionante como nos melhores momentos dos filmes da série). Uma bem-vinda injeção de sangue novo em um personagem constantemente em reinvenção, "Creed: nascido para lutar" é um programa e tanto para os fãs - e até para aqueles raros espectadores que nunca ouviram falar em Rocky Balboa.

sexta-feira

TRAMA MACABRA

TRAMA MACABRA (Plot family, 1976, Universal Pictures, 120min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Ernest Lehman, romance de Victor Canning. Fotografia: Leonard J. South. Montagem: J. Terry Williams. Música: John Williams. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/James W. Payne. Produção: Alfred Hitchcock. Elenco: Bruce Dern, Barbara Harris, William Devane, Karen Black, Ed Lauter, Cathleen Nesbit. Estreia: 21/3/76

O 53º e último filme do mestre do suspense - lançado quatro anos antes de sua morte, em 29 de abril de 1980 - pode ser considerado também sua mais atípica produção. Tudo bem que seu senso de humor frequentemente cruel ainda pode ser visto em algumas sequências, mas "Trama macabra" em quase nada lembra o auge do cinema de Alfred Hitchcock: sem grandes momentos de tensão, sem cenas antológicas e com personagens não exatamente carismáticos ou simpáticos, a adaptação do romance de Victor Canning feita por Ernest Lehman (colaborador do cineasta no bem mais lembrado "Intriga internacional", de 1959) é, na verdade, uma comédia de humor negro com alguns (poucos) lances de suspense e um elenco sem os grandes astros que frequentemente enfeitavam as obras do cineasta. Não deixa de ser um melancólico final de carreira para um dos maiores diretores da história do cinema.

A seu favor, pode-se dizer que, mesmo com falhas, "Trama macabra" ainda é uma obra divertida, inteligente e capaz de prender a atenção do público até seu final (um tanto anticlimático, mas coerente com seu desenvolvimento e de certa forma esperto em fugir do caminho que parecia tomar em sua primeira metade). Mesmo aos 75 anos de idade e com a saúde frágil, Hitchcock sabia como manipular as expectativas de sua plateia, e, se o resultado final dessa sua comédia de erros não é mais consistente, é justo supor que boa parte da culpa vem do fato de que o cineasta estava, então, privado de três de seus maiores e mais importantes colaboradores: o editor George Tomasini, o diretor de fotografia Robert Burks (que havia morrido em um incêndio) e o compositor Bernard Herrmann (demitido pela Universal Pictures depois de ter sua trilha para "Cortina rasgada" recusada pelo estúdio). Por mais brilhante que fosse, Hitch já não estava mais confortável em seu meio - desde "Marnie: confissões de uma ladra" (64) ele vinha perdendo sua comunicação com o público e, pior ainda, não se conformava com as mudanças radicais que haviam passado a ditar as regras da indústria. Sem os grandes astros do passado com que havia trabalhado, sem suas musas inspiradoras e sem seus parceiros habituais nos bastidores, o diretor realizou "Trama macabra" quase como uma forma de mostrar que ainda tinha suas cartas na manga e que sabia se reinventar.


Buscando inspiração na obra do cineasta alemão Ernst Lubitsch, conhecido em Hollywood por suas comédias sofisticadas, Hitchcock fez de "Trama macabra" um desvio na sua filmografia e, pela primeira vez desde "O terceiro tiro" (56) optou pela leveza como tom narrativo, deixando de lado as neuroses e paranoias de suas obras mais celebradas. Impossibilitado de contar com Al Pacino ou Jack Nicholson em um dos papéis principais - o primeiro estava em alta devido ao sucesso de "O poderoso chefão" (72) e sua continuação, e o segundo estava ocupado nas filmagens de "Um estranho no ninho" (75), que lhe daria o primeiro Oscar - e depois de descartar Goldie Hawn e Liza Minnelli para viver a protagonista, Hitchcock acertou em escalar os menos conhecidos Bruce Dern e Barbara Harris como o casal central de sua estória. Ela interpreta a falsa paranormal Blanche Tyler, que ganha a vida oferecendo consultas a pessoas interessadas em comunicar-se com seus entes queridos já mortos - e ele é seu namorado, George Lumley, um taxista que lhe passa todas as informações necessárias para que as fraudes funcionem. O filme começa quando uma das clientes de Blanche,  a milionária Julia Rainbird (Cathleen Nesbitt) pede sua ajuda para encontrar um sobrinho, abandonado ainda bebê e que agora ela pretende fazer seu herdeiro. Entusiasmados com a possibilidade de embolsar um bom dinheiro com a situação, Blanche e George entram de cabeça na investigação sobre o paradeiro do tal sobrinho - e descobrem que tem muita coisa errada na história. Enquanto isso, o ambicioso Arthur Adamson (William Devane) - dono de uma joalheria - segue uma rotina de sequestros para aumentar sua coleção de pedras preciosas e nem desconfia que é, na verdade, o futuro herdeiro de uma fortuna.

O roteiro de Ernest Lehman é inteligente e apresenta seus personagens de maneira a nunca permitir ao público a antecipação de seus próximos movimentos - até o embate final, um tudo ou nada que, apesar de prometer bastante, não chega a empolgar. Talvez o maior problema do filme seja justamente a opção de Hitchcock em forçar humor em momentos que poderiam alcançar grande potência dramática - uma perseguição automobilística, por exemplo, em que os personagens principais agem como se estivessem em uma produção da Disney e não correndo um sério perigo de morte. Essa falha, por mais proposital que seja, enfraquece o resultado final de "Trama macabra" a ponto de transformar o filme em uma obra esquecível e decepcionante - mas mesmo assim acima da média. Graças ao talento de Hitchcock em dominar as regras do seu próprio jogo, ele consegue transformar um filme menor em um entretenimento no mínimo agradável. Pouco para quem, como ele, assinou obras-primas incontestáveis - mas bem mais do muita gente já tentou realizar.

quinta-feira

COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ

COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ (Me before you, 2016, MGM/New Line Cinema, 106min) Direção: Thea Sharrock. Roteiro: Jojo Moyes, romance de Jojo Moyes. Fotografia: Remi Adefarasin. Montagem: John Wilson. Música: Craig Armstrong. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Sara Wan. Produção executiva: Sue Baden-Powell, Trent Walton. Produção: Alison Owen, Karen Rosenfelt. Elenco: Emilia Clarke, Sam Claffin, Janet McTeer, Charles Dance, Vanessa Kirby, Samantha Spiro, Brendan Coyle, Jenna Coleman, Stephen Peacocke. Estreia: 23/5/16

Até a estreia de "Game of thrones", em 2011, a britânica Emilia Clarke era uma ilustre desconhecida do grande público. Porém, bastou uma única temporada da série, baseada em livros de George R.R. Martin, para que a intérprete de Daenerys Targaryen se tornasse um rosto mundialmente popular, assim como o restante do vasto elenco. Para confirmar seu status de estrela, no entanto, lhe faltava ainda um sucesso na tela grande, que a apresentasse também ao público imune à febre causada pela vitoriosa produção da HBO. Tal situação foi resolvida da melhor maneira possível: unindo o rosto de Clarke à adaptação de um romance best-seller, "Como eu era antes de você" provou-se um êxito senão previsível, ao menos pouco surpreendente: arrecadou mais de 200 milhões de dólares mundo afora e emocionou os espectadores mais sensíveis, seduzidos por uma história de amor à moda antiga, bem-humorada e delicada. É difícil saber se tamanha aprovação se deve mais à fidelidade dos leitores do livro de Jojo Moyes ou dos fãs de "Game of thrones" - o fato é que o filme de estreia da cineasta Thea Sharrock cumpre exatamente o que promete e, se não é inesquecível, ao menos diverte e envolve seu público-alvo com uma narrativa dinâmica e sensível.

Anos-luz distante de sua personagem em "Game of thrones", Emilia Clarke demonstra carisma o bastante para encarar o desafio de interpretar uma jovem comum, sem efeitos visuais ou cenários mirabolantes para dividir com ela as atenções. Ela vive Louisa Clark, uma bem-humorada e otimista garota inglesa que, depois de perder o emprego como atendente de uma charmosa padaria que acaba de fechar as portas, vê-se diante do desafio de encontrar um novo trabalho, que a ajude a complementar a renda da família. Depois de alguma procura, ela parece encontrar uma posição satisfatória: ser cuidadora de um rapaz tetraplégico, filho de uma das famílias mais ricas da região. Will Traynor (Sam Claffin), atropelado por uma moto e sem movimento abaixo do pescoço desde então, vive em um anexo à mansão de seus pais, perdeu totalmente o interesse na vida e, a princípio, não se deixa conquistar pela alegria contagiante de Louisa. Com o passar do tempo, porém, as coisas começam a mudar: seduzido pelo entusiasmo de sua nova cuidadora, Will aceita acompanhá-la em programas que até então considerava perdidos, como viagens, concertos e até a festa de casamento de sua ex-namorada. O que ele não sabe é que Louisa descobriu que ele tem planos de cometer suicídio assistido - e, apaixonada, quer fazê-lo desistir dessa ideia e mantê-lo a seu lado.


Apesar do tema doloroso, "Como eu era antes de você" tem a seu favor uma leveza inesperada - cortesia de Jojo Moyes, autora do romance original e do roteiro que adapta seu livro com o máximo de fidelidade à trama e a seu espírito romântico. O otimismo incorrigível de Louisa - encarnada com ritmo correto por Emilia Clarke - é o contraponto perfeito para a melancolia de Traynor, e sua combinação de espíritos é a sustentação de uma história que não apresenta grandes novidades mas sabe manipular com destreza os clichês que a formam. Primeiro longa-metragem da diretora Thea Sharrock - com experiência em episódios de séries de TV e demonstrando um apropriado timing tanto para o humor quanto para o romance, "Como eu era antes de você" é uma feliz união de um roteiro simples e de fácil comunicação com seu público, uma dupla central carismática e talentosa e o apelo sempre irresistível de um melodrama bem construído. Some-se a isso um visual moderno e atraente, uma trilha sonora convidativa (com duas canções de Ed Sheeran em momentos-chave) e o sucesso é inevitável.

Assim como em "A culpa é das estrelas" - baseado em romance de John Green e também muito bem-sucedido em sua versão cinematográfica - e nas adaptações dos livros de Nicholas Sparks, é certo que boa parte do êxito comercial de "Como eu era antes de você" se deve aos leitores que, encantados com a trama criada por Jojo Moyes, correram aos cinemas para ver nas telas a personificação de seus personagens (interessantes e bem desenvolvidos na medida do possível dentro de um filme de gênero e sem maiores pretensões). Porém, não é preciso ter tido contato com a obra original para se deixar conquistar: fluido e leve, engraçado e comovente, o filme de Sharrock é uma boa surpresa para aqueles que procuram um entretenimento livre de efeitos visuais de última geração e sexo gratuito. Sensível e discreto, "Como eu era antes de você" é uma adaptação digna e honesta, valorizada por seus atores - Charles Dance e Janet McTeer completam o elenco, como os pais de Traynor - e calorosa em suas intenções. Só há contraindicações àqueles que definitivamente não gostam de histórias de amor: para os demais é só preparar a caixa de lenços.

quarta-feira

COLORS: AS CORES DA VIOLÊNCIA

COLORS: AS CORES DA VIOLÊNCIA (Colors, 1988, Orion Pictures, 120min) Direção: Dennis Hopper. Roteiro: Michael Schiffer, estória de Michael Schiffer, Richard DiLello. Fotografia: Haskell Wexler. Montagem: Robert Estrin. Música: Herbie Hancock. Direção de arte/cenários: Ron Foreman/Ernie Bishop. Produção: Robert H. Solo. Elenco: Sean Penn, Robert Duvall, Maria Conchita Alonso, Don Cheadle, Damon Wayans, Leon, Mario Lopez. Estreia: 15/4/88

No final da década de 80, a cidade de Los Angeles enfrentava, em seu dia-a-dia, um fenômeno dos mais perigosos: a proliferação de gangues, que agiam nos subúrbios, provocavam ondas de violência e batiam de frente com a força policial - dedicada e corajosa, mas praticamente impotente diante da abissal desigualdade numérica. Enquanto os policiais contavam com uma equipe de cerca de 250 homens e mulheres, os membros de gangues chegavam a 70.000 (espalhados em quase 600 grupos diferentes). Diante desse quadro aterrador, Dennis Hopper não viu outra solução senão modificar o roteiro original de Michael Schiffer - que versava sobre traficantes de drogas em Chicago - para retratar, com o máximo de frieza e realismo, o embate entre os dois lados da lei em seu quarto longa-metragem como diretor (e oito anos depois de sua última incursão na função, com "Anos de rebeldia"). Com o cenário e o pano de fundo modificados por Schiffer, surgia então "Colors: as cores da violência", um sucesso inesperado de bilheteria que esfregava na cara do espectador uma realidade até então conhecida apenas através de telejornais ou romantizações vindas de Hollywood. Com membros de gangues contratados como extras e seguranças da equipe, "Colors" conseguiu o feito raro de promover um cessar-fogo provisório durante as filmagens - e reacendeu a polêmica da violência no cinema quando, em algumas salas de exibição, provocou tumultos e distúrbios.

A crueza do tema e da realização de Hopper - que filma quase como um documentário, com cenas que mal se conectam entre si e são fotografadas de forma nervosa e urgente - espalhou-se também para os bastidores da produção, quando seu astro, Sean Penn, foi preso e passou trinta e três dias na cadeia por ter agredido um paparazzo (vale lembrar que, na época, ele era casado com Madonna, e os dois frequentavam os tabloides sensacionalistas com assiduidade quase religiosa). Da mesma forma, um ataque a tiros em um funeral (em uma cena crucial do filme) foi praticamente repetida a poucos metros de distância da filmagem, para descrédito de alguns críticos um tanto quanto céticos em relação ao realismo da sequência. A despeito de tal grau de realismo, porém, o resultado final do filme não deixa de ser surpreendentemente morno - uma quase decepção, especialmente por ser dirigido por um dos ícones da rebeldia no cinema e autor de um dos filmes seminais da contracultura, o clássico "Sem destino" (69). 





"Colors", apesar do visual sujo e do tom naturalista, peca por não envolver o público em sua trama, preferindo a denúncia social ao desenvolvimento dramático de seu roteiro, que dificilmente escapa dos clichês e tampouco apresenta personagens carismáticos o bastante para conquistar a plateia. Tanto o novato Danny McGavin (Sean Penn, bom ator como sempre) quanto o veterano Bob Hodges (Robert Duvall) parecem criados seguindo a regra consagrada pela série "Máquina mortífera", em que dois parceiros de personalidades diferentes se unem em prol do mesmo objetivo e passam a se admirar e respeitar mutuamente. Não há uma química muito consistente entre McGavin e Louisa (Maria Conchita Alonso), por exemplo: fica a impressão de que seu envolvimento acontece unicamente para acrescentar um obstáculo a mais no conflito entre o jovem policial e os integrantes das gangues - assim como a família feliz de Hodges serve como contraponto ao caos urbano e tenta dar densidade a um personagem que, não fosse o talento de Robert Duvall, seria igual a tantos outros já retratados pelo cinema norte-americano. Sem buscar novidades em sua narrativa, "Colors" destaca-se mesmo é pelo tema pulsante e pelo desempenho de seus atores principais.

Longe de ser um grande filme - as cenas de ação são formulaicas e editadas sem ritmo, falta empatia aos protagonistas e o roteiro é simplista ao extremo -, "Colors" se beneficia (e muito) do talento de Sean Penn e Robert Duvall. Atores extremamente competentes, eles conseguem extrair o que há de bom no roteiro e disfarçar a superficialidade da trama - basicamente a tentativa dos policiais de Los Angeles em acabar com a guerra entre gangues, mais especificamente entre os Bloods e os Crisps. Enquanto o mais experiente Hodges faz isso através do diálogo e de uma malandragem adquirida com os anos de prática, seu colega McGavin prefere apelar para a violência e a ameaça física. Nada que seja particularmente empolgante ou criativo a ponto de tornar-se memorável. É um filme que cumpre o que promete, mas deixa no ar a sensação de que poderia ter sido bem melhor, dados os talentos envolvidos. À época de seu lançamento teve seu impacto, mas não resistiu tão bem ao tempo e hoje dificilmente é capaz de surpreender aos espectadores mais exigentes.

DUELO AO SOL

DUELO AO SOL (Duel in the sun, 1946, Selznick International Pictures, 129min) Direção: King Vidor. Roteiro: David O. Selznick, inspirado n...