Mostrando postagens com marcador 1981. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1981. Mostrar todas as postagens

quarta-feira

TESTEMUNHA FATAL

 


TESTEMUNHA FATAL (Eyewitness, 1981, 20th Century Fox, 103min) Direção: Peter Yates. Roteiro: Steve Tesich. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Montagem: Cynthia Scheider. Música: Stanley Silverman. Figurino: Hilary Rosenfeld. Direção de arte/cenários: Phillip Rosenberg/Gary J. Brink, Edward Stewart. Produção: Peter Yates. Elenco: William Hurt, Sigourney Weaver, Christopher Plummer, James Woods, Morgan Freeman, Pamela Reed. Estreia: 13/02/81

Uma história de amor que não convence. Um filme de suspense que não empolga. E uma trama policial incapaz de despertar o menor interesse no espectador. É difícil acreditar que por trás de "Testemunha fatal" exista uma equipe que conta com um diretor de prestígio, um roteirista vencedor do Oscar e um elenco composto por atores acima de qualquer suspeita. Primeiro trabalho de Peter Yates depois do sucesso de "O vencedor" (1979) - também escrito por Steve Tesich - e estrelado pelos então promissores William Hurt e Sigourney Weaver, o filme naufragou nas bilheterias e acabou se tornando uma nota de rodapé na carreira de seus astros. Hurt, que estava em vias de derreter as telas de cinema com "Corpos ardentes" - que também não foi um êxito comercial mas virou cult com o passar do anos - e Weaver - fresquinha da aclamação popular por "Alien: o oitavo passageiro" (1979) - já eram atores de grande talento, mas nem mesmo eles foram capazes de esconder as inconsistências do roteiro e a apatia da direção - algo surpreendente quando se trata de Yates, um cineasta capaz de grandes feitos quando de posse de um bom material.

Escrito como uma fusão de duas histórias incompletas de Steve Tesich - que ganhou um Oscar por "O vencedor" -, o roteiro de "Testemunha fatal" deixa claro, desde o início, a fragilidade de sua trama central e de seus personagens. O filme começa com o assassinato de um milionário vietnamita, morto em seu escritório, localizado em um arranha-céu de Manhattan. Para cobrir o caso é escalada a jornalista Tony Sokolow (Sigourney Weaver) - a ocasião perfeita para que o zelador Daryll Deever (William Hurt) se aproxime dela, seu maior objeto de desejo. Para mantê-la sempre por perto, Deever dá a entender que sabe mais do que aparenta sobre o crime - e enquanto a bela repórter vai se deixando seduzir por sua persistência, acaba por despertar os ciúmes de seu noivo, Joseph (Christopher Plummer), um milionário frio e pouco afeito a demonstrações de carinho. O romance nascente entre duas personalidades tão díspares vai se tornando mais profundo a cada passo das investigações - que leva à possível culpa de Aldo (James Woods), colega de Deever e desafeto público da vítima.
 
 
Assumidamente pouco propenso a reviravoltas e tramas complexas, sempre preferindo dedicar-se aos personagens do que às histórias que conta, Steve Tesich erra feio em ambos os quesitos em seu trabalho em "Testemunha fatal": enquanto o enredo policial falha imensamente em envolver o espectador (o nome do culpado do crime e seus motivos para tal não são nem de longe interessantes), o romance entre Tony e Daryll tampouco empolga, principalmente devido à falta de profundidade oferecida a eles: em nenhum momento se sabe mais do que o extremamente básico a respeito deles. Daryl é apenas um zelador solitário apaixonado por uma repórter de TV famosa, a ponto de gravar seus programas para assistir repetidas vezes - e que parece mais um stalker do que um romântico. Tony é uma jornalista popular, que tenta (mas não muito) fugir de sua vida privilegiada de filha de milionários e que não demonstra nada mais do que ambição profissional em sua relação com seu admirador. A paixão que surge entre eles é repentina demais para ser crível e é desenvolvida com preguiça e falta de imaginação pelo roteiro - não há sequer uma única cena que transmita qualquer lampejo de química entre Hurt e Weaver, que voltariam a fazer parte do mesmo filme em outras duas ocasiões ("A vila", de 2004, e Ponto de vista", de 2008).

E se o roteiro de Tesich incomoda por sua superficialidade, o mesmo pode ser dito da direção de Peter Yates. Imprimindo um ritmo enfadonho a seu filme, Yates parece não fazer a menor questão de conquistar o interesse da plateia - e falha em criar qualquer atmosfera de tensão ou romantismo. Desperdiçando um elenco de ótimos atores e conduzindo a narrativa de forma apática - a ponto de conceber um final morno e anticlimático que apenas reitera sua pouca inspiração -, o cineasta, que voltaria ao Oscar com o belo "O fiel camareiro" (1983), mostra que cinema é, antes de qualquer coisa, um conjunto de fatores e talentos que, quando não devidamente azeitados, pode dar muito errado.

sexta-feira

O DOCE SABOR DE UM SORRISO

 


O DOCE SABOR DE UM SORRISO (Only when I laugh, 1981, Columbia Pictures, 120min) Direção: Glenn Jordan. Roteiro: Neil Simon, peça teatral "The gingerbread lady", de sua autoria. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: John Wright. Música: David Shire. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Marvin March. Produção: Roger M. Rothstein, Neil Simon. Elenco: Marsha Mason, James Coco, Joan Hackett, Kristy McNichol, David Dukes, Peter Coffield. Estreia: 13/9/81 (Festival de Toronto)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Marsha Mason), Ator Coadjuvante (James Coco), Atriz Coadjuvante Joan Hackett)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Joan Hackett) 

Um dos mais populares dramaturgos norte-americanos dos anos 1960 e 1970, Neil Simon não apenas consagrou-se nos palcos da Broadway mas também teve uma bem-sucedida carreira em Hollywood, assinando grandes sucessos, que chegaram a lhe render indicações ao Oscar - pelos filmes "Um estranho casal" (1968), "Uma dupla desajustada" (1975), "A garota do adeus" (1977) e "California Suite" (1978). Vencedor de 3 Tony Awards e referência do teatro nos EUA, Simon enfrentou, em 1970, um revés artístico e comercial: sua peça "The gingerbread lady" teve uma decepcionante trajetória e parecia fadada a entrar para a história como um de seus poucos equívocos. Porém, na arte nem sempre um fracasso é definitivo, e onze anos depois, rebatizado de "Only when I laugh", seu texto ressurgiu em forma de roteiro e, posteriormente como um filme. Dirigido por Glenn Jordan e produzido pelo próprio Neil Simon, "O doce sabor de um sorriso" arrebatou três indicações ao Oscar (incluindo na categoria de melhor atriz, para Marsha Mason, então casada com o escritor) e reafirmou sua posição como um roteirista dos mais confiáveis e admiráveis de sua geração. Mesmo com sua história construída dentro de um universo todo particular - o mundo do teatro nova-iorquino, com suas idiossincrasias e dramas -, o filme estrelado por Mason acerta ao dotar sua protagonista de sentimentos universais e facilmente reconhecíveis dentro de qualquer família disfuncional.

A personagem central do filme é Georgia Hines (Marsha Mason), uma atriz de teatro que, depois de uma temporada de de três meses em uma clínica de reabilitação, volta ao convívio de seus amigos e de sua filha adolescente, Polly (Kristy McNichol). Polly, tentando reconectar-se com a mãe com quem tem uma relação delicada, resolve morar com ela em seu pequeno apartamento - e passa a testemunhar sua luta para evitar a recaída no álcool. Tentando retomar a carreira, Georgia aceita o desafio de protagonizar uma peça inédita de seu ex-namorado, David (David Dukes) - um texto que recria no palco sua problemática relação. Em seu dia-a-dia ela conta com o apoio de Toby Landau (Joan Hackett), cujo casamento está por um fio a despeito de seus cuidados com a aparência, e Jimmy Perrino (James Coco), um ator gay em busca de um lugar ao sol.

 


Típico produto de sua época - para o bem e para o mal -, "O doce sabor de um sorriso" não esconde suas origens teatrais, com um roteiro calcado basicamente em diálogos e cenas cuja construção vai crescendo gradualmente. É aí que se destaca a familiaridade de Mason em declamar o texto bem azeitado de Simon - em especial a ótima sequência em que, reunida com seus dois melhores amigos, ambos frustrados com suas vidas, sua Georgia cai na tentação de voltar a beber. Em momentos assim o filme cresce e disfarça a direção sem brilho de Glenn Jordan em seu primeiro filme. Substituindo Herbert Ross - que havia comandado com sucesso o ótimo "A garota do adeus" -, Jordan extrai de seus atores atuações inspiradas, mas falha em dotar o filme de um ritmo ágil que lhe faria muito bem. Uma edição mais enxuta, por exemplo, evitaria a duração excessiva (a trama frágil mal consegue sustentar as duas horas) e deixaria a história menos cansativa. Para sua sorte, porém, a química entre o elenco é das melhores possível. James Coco, inclusive, tem no currículo a dúbia glória de ter sido indicado ao Oscar e ao Framboesa de Ouro pelo mesmo desempenho: na pele do leal Jimmy Perrino, ele é dono de algumas das melhores falas do roteiro - mas perdeu o prêmio da Academia para John Gielgud (de "Arthur, o milionário sedutor") e o Framboesa para Steve Forrest (por "Mamãezinha querida"). E Joan Hackett, que brilha na pele da quase fútil Toby Landau, morreu aos 49 anos, em 1983, vítima de câncer no ovário, encerrando uma carreira promissora ainda incipiente. 

Leve e inteligente, mas pouco lembrado até mesmo pelos fãs de Neil Simon, que o coloca em segundo plano diante de uma série de sucessos, "O doce sabor de um sorriso" é uma produção simpática, dotada de alguns bons e específicos momentos. O resultado final é um tanto morno e carece da força dos melhores trabalhos do autor, além de deixar no ar uma sensação de frustração em relação ao destino de seus personagens. Porém, o carisma de Marsha Mason em um de seus melhores trabalhos e a leveza com que trata de temas pesados como o alcoolismo fazem dele uma bela opção para quem gosta do gênero e da Hollywood do começo da década de 1980 - um meio-termo entre a ousadia dos 70 e o conservadorismo que se avizinhava e tomaria conta dos anos seguintes.

quinta-feira

ARTHUR: O MILIONÁRIO SEDUTOR


ARTHUR: O MILIONÁRIO SEDUTOR (Arthur, 1981, Orion Pictures, 97min) Direção e roteiro: Steve Gordon. Fotografia: Fred Schuler. Montagem: Susan E. Morse. Música: Burt Bacharach. Figurino: Jane Greenwood. Direção de Arte/Cenários: Stephen Hendrickson/Carol Joffe, Steven J. Jordan. Produção executiva: Charles H. Joffe. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Dudley Moore, Liza Minelli, John Gielgud, Geraldine Fitzgerald, Jill Eikenberry. Estreia: 17/7/81

4 indicações ao Oscar: Ator (Dudley Moore), Ator Coadjuvante (John Gielgud), Roteiro Original, Canção Original ("Arthur's Theme (Best you can do")

Vencedor do Oscar de Canção Original: "Arthur's Theme (Best you can do)"

Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Dudley Moore), Ator Coadjuvante (John Gielgud), Canção Original ("Arthur's Theme (Best you can do)")

Nem só de dramas lacrimosos e épicos históricos vive a cerimônia do Oscar. Em 1981, mesmo ano em que "Carruagens de fogo" surgiu como o grande vencedor da festa da Academia, contra pesos-pesados como "Num lago dourado", "Reds" e "Caçadores da arca perdida", uma comédia romântica de grande sucesso popular demonstrou um poder de fogo inesperado, arrebatando duas das quatro estatuetas douradas a que estava indicada. "Arthur, o milionário sedutor", único filme escrito e dirigido por Steve Gordon (que morreu precocemente, aos 44 anos, em novembro de 1982) não apenas acabou a temporada como a quarta maior bilheteria do ano (com quase 100 milhões de dólares arrecadados pelo mundo) como conquistou a crítica a ponto de ganhar quatro Golden Globes (incluindo melhor filme e ator em comédia/musical) e chegar ao Oscar com moral suficiente para colocar Dudley Moore na disputa com nomes fortes como Paul Newman, Burt Lancaster e Henry Fonda - que acabou prevalecendo depois de uma carreira longa e vitoriosa. Estrelado ainda por uma Liza Minelli no auge da graça e da popularidade e por um John Gielgud brilhante em sua elegância britânica, "Arthur" se tornou, com o tempo, um incontestável clássico contemporâneo que nem mesmo a refilmagem desnecessária e sofrível estrelada por Russell Brand e Helen Mirren em 2011 conseguiu estragar.

Excêntrico, alcóolatra contumaz, mulherengo e de língua ferina, Arthur Bach não é apenas o personagem-título do longa de Gordon, mas seu centro absoluto - assim como suas relações com o fiel mordomo Hobson (John Gielgud) e a espevitada Linda Marolla (Liza Minnelli). Mas se é impensável imaginar ator mais apropriado do que o impagável Dudley Moore para vivê-lo, é preciso saber que o britânico estava bem longe de ser a primeira escolha do diretor. E nem apenas George Segal foi substituído por ele, como já havia acontecido em "Mulher nota dez" (1979): na lista de possíveis intérpretes para Arthur figuraram Al Pacino, James Caan, John Travolta, John Belushi, Robert Redford, Jeff Bridges, Chevy Chase, Steve Martin, Bill Murray, Jack Nicholson, Sylvester Stallone, Robin Williams, Burt Reynolds e Tom Selleck - um verdadeiro quem é quem na indústria no começo dos anos 1980. O êxito absoluto de Moore no papel não deixa de ser mérito do cineasta, que admitiu depois do lançamento, que suas dúvidas a respeito do ator central não eram as únicas a lhe atormentar: nada menos que quatro finais diferentes foram filmados e somente no processo de edição as coisas finalmente entraram nos eixos - detalhe que não impediu que o roteiro original fosse indicado ao Oscar e de certa forma servisse de influência a todas as comédias românticas que viriam a seguir.


A trama de "Arthur" não é exatamente inovadora - e nem o era à época de seu lançamento: o protagonista é um milionário irresponsável mas de bom coração que passa seus dias (ou melhor, noites) bebendo e dando em cima de toda bela mulher que passa em seu caminho. Seu fiel escudeiro, o mordomo Hobson, está sempre à espreita, consertando seus erros e tentando amenizar as consequências de seus atos tresloucados causados pelo excesso de bebida. Por trás da existência errática de Arthur, no entanto, existe um grande problema: a pressão para que se case com outra milionária, a deslumbrada Susan Johnson (Jill Eikenberry), única condição para que não tenha todo o seu dinheiro bloqueado por seu pai e sua avó. Pouco tempo antes de tomar a decisão mais importante de sua vida, porém, Arthur esbarra em Linda Marolla (Liza Minnelli), uma garçonete espevitada e de bem com a vida, que mora com o pai, Ralph (Barney Martin), e lhe mostra uma existência mais leve e distante do luxo a que está acostumado. Apaixonado por ela, o milionário precisa decidir entre o dinheiro e o amor - e descobrirá que a decisão não é tão fácil quanto poderia parecer.

"Arthur" é uma comédia deliciosa, que faz rir de forma orgânica e conquista pela simpatia dos atores principais - uma química preciosa que por pouco não aconteceu. Além da dificuldade de escalar um ator apropriado para viver o protagonista masculino, a produção também sofreu para encontrar uma atriz capaz de dividir a cena com Dudley Moore de forma a não ser eclipsada. Antes que Liza Minnelli entrasse no jogo, Carrie Fisher e Debra Winger já haviam recusado o papel, e na lista de possíveis intérpretes para a carismática Linda Marolla constavam Mia Farrow, Goldie Hawn, Farrah Fawcett, Barbara Hershey, Diane Keaton, Jessica Lange, Bette Midler, Susan Sarandon, Cybill Sheperd e Meryl Streep. A entrada de Minnelli no projeto se aproveitava do sucesso pós-Oscar por "Cabaret" (1977), mas é impossível não perceber que, apesar de seu talento incontestável, sua personagem é pouco desenvolvida, praticamente vivendo em função de seu relacionamento com Arthur. Quando juntos, ela e Dudley Moore brilham cintilantes - mas é uma pena a trama muitas vezes se desloque para as desventuras familiares do ricaço, em detrimento de seu nascente e divertido romance. Isso não impede, no entanto, que o filme de Steve Gordon seja um passatempo dos mais agradáveis e felizes de sua época

quarta-feira

MAMÃEZINHA QUERIDA

MAMÃEZINHA QUERIDA (Mommie dearest, 1981, Paramount Pictures, 129min) Direção: Frank Perry. Roteiro: Frank Yablans, Frank Perry, Tracy Hotchner, Robert Getchell, livro de Christina Craword. Fotografia: Paul Lohmann. Montagem: Peter E. Berger. Música: Henry Mancini. Figurino: Irene Sharaff. Direção de arte/cenários: Bill Malley/Richard C. Goddard. Produção executiva: David Koontz, Terence O'Neill. Produção: Frank Yablans. Elenco: Faye Dunaway, Diana Scarwid, Steve Forrest, Howard da Silva, Mara Hobel. Estreia: 16/9/81

Em 1978, a publicação de "Mamãezinha querida" nos EUA causou comoção geral e polêmicas infindáveis. Escrito por Christina, filha adotiva da atriz Joan Crawford, o livro mostrava um lado cruel e violento de uma das maiores estrelas da era de ouro de Hollywood, falecida então há apenas quatro anos. Ao contar em detalhes os tormentos físicos e psicológicos pelos quais passou durante sua infância e sua adolescência com uma das mulheres mais conhecidas do mundo nas décadas de 40 e 50, Christina tornou-se autora de um enorme best-seller internacional, mas ao mesmo tempo, arriscou-se a - como realmente aconteceu - ser taxada de mentirosa e oportunista, especialmente por ter sido deixada de fora do testamento de sua mãe. A controvérsia, ao contrário de prejudicar o sucesso do livro, apenas jogou ainda mais lenha na fogueira - e não demorou para que os produtores de cinema vissem no explosivo material a chance de um grande êxito comercial (e possíveis estatuetas douradas). No final das contas, as bilheterias não foram exatamente milionárias - apesar de quintuplicar o orçamento, sua renda não chegou nem aos 20 milhões de dólares no mercado doméstico - e as únicas estatuetas que levou não foram nem um pouco lisonjeiras.

Sofrendo de críticas impiedosas desde sua estreia nos cinemas, "Mamãezinha querida" logo tornou-se uma dor de cabeça inesperada para a Paramount - até que o limão se transformou em limonada: percebendo que boa parte do público repetia a sessão do filme e frequentava as salas de exibição como uma espécie de happening, inclusive repetindo parte de seus diálogos, os executivos tomaram uma decisão arriscada. Para fúria do diretor estreante Frank Perry e de sua atriz principal, Faye Dunaway - o marketing da produção mudou radicalmente, enfatizando o tom exagerado do roteiro e das interpretações. Para quem esperava no mínimo uma indicação ao Oscar, não deve ter sido fácil para Dunaway - que divide com Crawford o gênio bastante forte - ser eleita a pior atriz do ano no famigerado Framboesa de Ouro. Aliás, é importante salientar que o filme simplesmente provocou um arrastão: além de Dunaway como pior atriz, "Mamãezinha querida" ainda saiu "vitorioso" nas categorias de pior filme, pior ator coadjuvante (Steve Forrest), pior atriz coadjuvante (Diana Scarwid) e pior roteiro - sem falar que foi eleito o pior filme da década, em 1990, e pior drama dos 25 anos do prêmio, em 2005. Mas será que, apesar de tantas críticas, o filme de Perry é realmente tão ruim quanto reza a lenda?





É impossível negar que existe, por todo o filme, uma atmosfera camp, artificial e pouco naturalista. O enfoque do primeiro roteiro - que seria dirigido por Franco Zefirelli e teria Anne Bancroft no papel principal mas acabou sendo substituído posteriormente - ainda conseguia fugir do maniqueísmo sensacionalista (e Crawford não seria retratada com tanta fúria), mas a produção estrelada por Dunaway usa e abusa de sua música dramática (composta por Henry Mancini), dos closes que transformam o rosto de atriz em assustadoras caretas e de uma gratuidade que chega a ser, em alguns momentos, quase risível. Não ajuda que o elenco secundário seja péssimo (em especial Diana Scarwid como Christina adolescente) e a direção de arte capriche em reconstruir os frequentemente cafonas cenários da época, que colaboram com o tom excessivo do texto e da direção. Sempre um tom acima do normal, Dunaway (uma excelente atriz, mas infelizmente dirigida sem a força necessária) mal consegue transmitir a ideia de que, por trás da monstruosa mãe, existe uma pessoa com sentimentos reais e (logicamente) sérios transtornos psicológicos. Esse erro crucial - a falha em obter qualquer simpatia da plateia, por mais complicado que isso fosse, levando-se em conta a trama - é o que desvia o filme de suas possibilidades mais sérias e o conduz a uma comédia involuntária.


Rejeitado para sempre por Dunaway - que se recusa terminantemente a falar sobre o filme que ela acreditava poder lhe render um segundo Oscar -, "Mamãezinha querida" é um festival de atrocidades. Na pele de Joan Crawford, a bela atriz de "Chinatown" (74) e "Rede de intrigas" (76) simplesmente transforma a vida de sua filha em um inferno na Terra (o roteiro ignora que além de Christina e Christopher, mostrados no filme, a estrela tinha ainda outros dois filhos): surras, gritos, ataques histéricos em meio à madrugada, castigos desproporcionais e até uma inesperada e patética rivalidade profissional estão na lista de crueldades que Christina descreveu em seu livro - em parte desmentido por pessoas que conviveram com a família durante os anos em que a história é contada. Nas mãos de um diretor mais experiente e menos afeito ao sucesso fácil, a adaptação poderia ter sido um filme sério, capaz de desnudar os bastidores do glamour de Hollywood. Como foi feito, acabou por tornar-se motivo de piada por parte da crítica e foi salvo pelo status de cult movie, que o mantém vivo até hoje como um exemplo de absoluto exagero dramático. Serve como curiosidade, mas artisticamente é bem sofrível...

sexta-feira

ELES NÃO USAM BLACK-TIE

ELES NÃO USAM BLACK-TIE (Eles não usam black-tie, 1981, Embrafilme, 120min) Direção: Leon Hirszman. Roteiro: Leon Hirszman, peça teatral homônima de Gianfrancesco Guarnieri. Fotografia: Lauro Escorel. Montagem: Eduardo Escorel. Música: Adoniran Barbosa, Chico Buarque, Gianfrancesco Guarnieri. Figurino: Yurika Yamasaki. Direção de arte/cenários: Jefferson Albuquerque Júnior, Francisco Osório, Marcos Weinstock. Produção: Leon Hirszman. Elenco: Gianfrancesco Guarnieri, Fernanda Montenegro, Carlos Alberto Riccelli, Bete Mendes, Milton Gonçalves, Lélia Abramo. Estreia: 05/9/81 (Festival de Veneza)


Um claro sinal de que nem sempre a história avança tão rapidamente quanto deveria é o fato da peça teatral "Eles não usam black-tie", de Gianfrancesco Guarnieri, ter sofrido tão poucas alterações em sua adaptação para o cinema, realizada 23 anos mais tarde pelo cineasta Leon Hirszman (oriundo do Cinema Novo). Com pequenas modificações na trama (transportada do final da década de 50 para o começo dos anos 80, portanto durante o fortalecimento do movimento sindicalista do ABC paulista), o roteiro do cineasta enfatiza as relações interpessoais dos personagens, ameniza o tom político quase panfletário do texto original e altera sutilmente a personalidade de uma das protagonistas, mas mantém intocado o teor ideológico de uma das obras seminais do teatro brasileiro contemporâneo. Lançada em fevereiro de 1958, a peça de Guarnieri encontrou em Hirszman, marxista assumido, a ponte ideal para sua transposição para as telas - uma produção tão amplamente influenciada pelo neorrealismo italiano que saiu do Festival de Veneza de 1981 com o prêmio especial do júri e o prêmio da crítica. É, de longe, o melhor longa de ficção do diretor - que já havia assinado adaptações para o cinema de Nelson Rodrigues ("A falecida", de 1965) e Graciliano Ramos ("São Bernardo", de 1972) - e um dos mais importantes filmes nacionais de todos os tempos (ainda que nem sempre seja tão louvado quanto deveria).

A trama do filme se passa em 1980, época de enorme turbulência entre os operários paulistas, que começavam a se organizar em movimentos sindicais, liderados por expoentes da própria indústria siderúrgica, como o futuro presidente Lula. É nesse ambiente efervescente que o jovem Tião (Carlos Alberto Riccelli) recebe a notícia de que será pai: sua namorada, Maria (Bete Mendes), também operária, está grávida, e o casal decide casar-se imediatamente. Seus planos encontram um empecilho, porém, quando justamente às vésperas do compromisso, eclode uma greve que divide os empregados da fábrica onde trabalha, além de Tião e Maria, o pai do rapaz, Otávio (Gianfrancesco Guarnieri) - que, preso durante a ditadura militar, não esconde suas tendências de esquerda. Com medo de perder o emprego e não ser capaz de sustentar o filho a caminho, Tião resolve furar a greve e entra em rota de colisão com o pai, os colegas e até mesmo com Maria - que não aceita a possibilidade de se casar com um homem fraco de espírito. Só quem permanece serena diante de todos os fatos é Romana (Fernanda Montenegro), a matriarca da família: um oásis de compassividade e compreensão perante toda a família.


Em sua estreia, em 1958, a versão teatral de "Eles não usam black-tie" contava com Guarnieri como Tião, Montenegro como Maria e Lélia Abramo como Romana - todos eles voltam na adaptação de Hirszman, em papéis diferentes (Abramo assume o papel da mãe de Maria), e apenas Milton Gonçalves permanece com a mesma missão: interpretar Bráulio, um colega de Otávio, uma espécie de liderança entre os operários e que remete (ao menos no filme) ao metalúrgico Santo Dias, morto pela polícia em 1979, durante manifestações grevistas. Tal toque - que obviamente difere da peça - é um trunfo extra na visão cinematográfica, que aproxima o público ainda mais dos personagens e seus dramas, independentemente de suas visões políticas. Como todo boa obra neorrealista, o roteiro se concentra nos dramas familiares como principal ponto de interesse, utilizando-se dos movimentos sindicalistas apenas como um pano de fundo - potente, é verdade, e imprescindível, mas como palco de um embate entre ideologias e responsabilidades, entre o certo e o mais prático, entre escolhas que podem destruir uma família ou mantê-la sob a sombra da culpa. Esse viés dramático é um acerto, principalmente porque o elenco conta com atores que estão em grandes momentos das carreiras.
 
Cinco anos antes de contracenarem na novela "Cambalacho", com registro cômico e leve, Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri inundam a tela de um talento discreto, mas poderoso a ponto de apagar quaisquer vestígios de interpretações anteriores ou posteriores - a cena final, em uma conversa aparentemente banal na cozinha, enquanto escolhe feijão para cozinhar, Montenegro mostra, sem esforço algum, porque é uma das maiores atrizes do mundo. Diante de uma dupla tão avassaladora, resta a Carlos Alberto Riccelli e Bete Mendes representarem uma nova geração - na trama, de operários e trabalhadores em busca de justiça; fora dela, como dois jovens atores esforçados, em papéis de suprema importância em suas trajetórias artísticas. E à direção de Hirszman - discreta, silenciosa, humana - cabe dar dimensão e verdade a cada um de seus personagens, evitando julgamentos óbvios e maniqueísmos baratos. A complexidade do roteiro - mérito que já vem do texto teatral - mergulha o espectador em um universo realista, sincero e passional, onde cada gesto ou omissão é catalisador de transformações radicais. "Eles não usam black-tie" é um drama perfeito - em intenções, em resultado, em ideologia. É, sem dúvida, um dos melhores filmes da história do cinema nacional.

A MULHER DO TENENTE FRANCÊS

A MULHER DO TENENTE FRANCÊS (The French Lieutenant's woman, 1981, United Artists, 124min) Direção: Karel Reisz. Roteiro: Harold Pinter, romance de John Fowles. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: John Bloom. Música: Carl Davis. Figurino: Tom Rand. Direção de arte/cenários: Assheton Gordon/Ann Mollo. Produção: Leon Clore. Elenco: Meryl Streep, Jeremy Irons, Hilton McRae, Emily Morgan, Charlotte Mitchell. Estreia: 18/9/81 (Festival de Toronto)

5 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Meryl Streep) 

Quando Meryl Streep recebeu sua primeira indicação ao Oscar de melhor atriz, por "A mulher do tenente francês" (81), ela já estava acostumada a ser lembrada pela Academia na categoria de coadjuvante - já havia sido indicada por "O franco-atirador" (78) e premiada por "Kramer vs Kramer" (79). Seu desempenho duplo no filme de Karel Reisz lhe valeu um Golden Globe de melhor atriz em drama, um prêmio dos críticos de Los Angeles e o BAFTA - mas, do alto de sua modéstia, ela o considera um dos mais fracos de sua carreira. Basta assistir ao filme uma única vez, no entanto, para constatar que já nos primeiros anos de sua carreira no cinema, Streep já era um fenômeno. Mesmo que Helen Mirren fosse a escolha do escritor John Fowles (autor do livro que deu origem ao filme), é difícil imaginar que alguém pudesse ser tão absolutamente certeira nos papéis centrais. Já brilhando em seu talento de imitar sotaques, a atriz teve lições diárias para aperfeiçoar seu tom britânico - mas é em seu olhar, sua expressão corporal e na vasta gama de emoções que ela transmite que reside seu maior trunfo: a sinceridade.

Sem buscar respostas definitivas a respeito da personagem-título, Streep serve como um canal (espetacular) para que a trama de Fowles (autor também do romance que originou "O colecionador", de 1966) chegue ao espectador da forma mais limpa e emocionante possível. Um livro difícil de ser adaptado (que o digam cineastas como Milos Forman, Mike Nichols, Sidney Lumet e Fred Zinnemann, entre outros que tentaram a façanha durante anos), "A mulher do tenente francês" ganha requintes de sofisticação com o roteiro escrito pelo premiado dramaturgo Harold Pinter. Experiente, Pinter criou uma solução inusitada como forma de comportar dois dos três finais alternativos propostos por Fowles em sua obra: inventou uma trama paralela, contemporânea, que dialogava com a trágica e romântica estória descrita no livro. Nem sempre funciona - em alguns momentos desvia o foco sem necessidade e não tem a força necessária para envolver o público -, mas não deixa de ser um exemplo de criatividade e, de certa forma, liga o passado e o presente com toques poéticos e dramáticos que também realçam as diferenças cruciais na visão do comportamento feminino em circunstâncias e tempos distintos.


A trama original se passa no interior da Inglaterra do século XIX, e é centrada na figura melancólica e desamparada de Sarah (Meryl Streep), que passa seus dias à sombra do preconceito de que é vítima graças a seu infeliz caso de amor com um militar francês, que a abandonou à própria sorte. Seu semblante misterioso acaba por chamar a atenção de Charles (Jeremy Irons), um biólogo que está no lugar para acertar os detalhes de seu casamento. Atraído irremediavelmente pela aura trágica de Sarah - cuja história é contada aos quatro ventos pela cidade -, o rapaz acaba por aproximar-se dela, a princípio por curiosidade e posteriormente por uma paixão avassaladora que arrisca sua reputação e seu noivado. Sarah, no entanto, não é uma personalidade fácil de decifrar - e logo Charles percebe que embarcou em um relacionamento cujas consequências poderão ser desastrosas. Enquanto isso, em uma narrativa paralela, um estúdio de Hollywood está filmando a trajetória de Sarah e Charles - e seus intérpretes, Anna e Mike (novamente Streep e Irons) se descobrem tão apaixonados quanto seus personagens.

A divisão da história em dois tempos - com suas características próprias e personagens distintos - proporciona a Meryl Streep e Jeremy Irons (que voltariam a contracenar em "A casa dos espíritos", em 1994) a chance de mostrar sua versatilidade como intérpretes, dotando cada um de seus personagens com motivações e sentimentos próprios. Mesmo que a subtrama contemporânea não seja tão envolvente quanto o romance entre Sarah e Charles, a química entre os dois atores é brilhante, valorizada pela edição (indicada ao Oscar) e pela diferença de tons na fotografia de Freddie Francis - mais pesada no passado, mais clara no presente. O clima de opressão da vida de Sarah é também ilustrada pela trilha sonora inspirada e pela direção de arte, cinzenta e enevoada como sua alma. Dirigido com precisão pelo tcheco Karel Reisz, "A mulher do tenente francês" é um clássico romântico dos anos 80 - e mesmo que a própria Meryl Streep o contradiga, uma das atuações mais sutis e delicadas de sua carreira.

quarta-feira

AUSÊNCIA DE MALÍCIA

AUSÊNCIA DE MALÍCIA (Absence of malice, 1981, Columbia Pictures, 116min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Kurt Luedtke. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Sheldon Kahn. Música: Dave Grusin. Figurino: Bernie Pollack. Direção de arte/cenários: Terence Marsh/John Franco Jr.. Produção executiva: Ronald L. Schwary. Produção: Sydney Pollack. Elenco: Paul Newman, Sally Field, Bob Balaban, Melinda Dillon, Luther Adler. Estreia: 15/11/81

3 indicações ao Oscar: Ator (Paul Newman), Atriz Coadjuvante (Melinda Dillon), Roteiro Original

Um belo dia, o repórter Kurt Luedtke, editor-executivo do The Detroit Free Press, percebeu que já tinha experiência o suficiente dentro do universo do jornalismo para escrever um roteiro sobre o assunto. Pediu demissão, mudou-se para Los Angeles e, inspirado pela história real de um colega do Washington Post que havia sido obrigado a devolver um Pulitzer quando foi descoberto que sua história era inventada, criou a trama de "Ausência de malícia" - que discutia os problemas inerentes à liberdade de expressão. Apresentando um tema contundente na democracia dos EUA - que poucos anos antes havia testemunhado a queda de um presidente graças à denúncias de uma dupla de jornalistas -, o roteiro de Luedtke logo interessou ao cineasta George Roy Hill - vencedor do Oscar por "Golpe de mestre" (73). Apesar do interesse, no entanto, Hill não se manteve à frente do projeto por muito tempo, mas teve um substituto à altura. Já no comando da produção, o consagrado Sydney Pollack mostrou que não tinha medo da potencial controvérsia a respeito do tema central do filme e escalou para os papéis centrais uma dupla de grandes astros, Al Pacino e Diane Keaton (ambos do elenco de "O poderoso chefão"). A saída de Pacino - e posteriormente de Keaton - não abalou o cineasta, que ofereceu então os papéis ao prestigiado Paul Newman e a recém oscarizada Sally Field. Surgia então um filme que encantaria boa parte da crítica, renderia mais de 40 milhões de dólares nas bilheterias e chegaria à lista de indicados ao Oscar em três importantes categorias.

Corajosamente indo em direção contrária ao bem sucedido "Todos os homens do presidente" (76), que narrava a investigação do Washington Post que revelou o escândalo de Watergate e levou à renúncia de Richard Nixon, Sydney Pollack mostra, em "Ausência de malícia", um outro lado do jornalismo investigativo, questionando os limites da liberdade de expressão. Se no premiado filme de Alan J. Pakula os repórteres vividos por Dustin Hoffman e Robert Redford eram o protótipo do heroísmo e da coragem, na obra de Pakula o outro lado do universo jornalístico é mostrado através de Megan Carter (Sally Field), uma repórter ambiciosa mas um tanto ingênua que é pega em uma armadilha criada pelas raposas do FBI: por sua causa, o nome de Mike Gallagher (Paul Newman) é ligado à investigação de um homicídio, apesar de seu álibi e de suas contundentes negativas. Filho de um conhecido mafioso recentemente morto, Gallagher passa a ter sua vida devassada pelos jornais e seu negócio como comerciante de bebidas em Miami prejudicado. Em busca da verdade - e para consertar seu possível erro de julgamento -, Megan começa a investigar os detalhes de sua própria notícia e esbarra em Teresa (Melinda Dillon), uma velha amiga de Mike, que pode ser a chave de todo o interesse do empresário em proteger sua privacidade.


Contando com uma atuação exemplar de Paul Newman, que injeta um misto de elegância e mistério a um personagem cujas reais intenções e motivações só vão sendo relevadas aos poucos, "Ausência de malícia" apresenta um ritmo que o aproxima mais das cerebrais produções policiais dos anos 70 do que dos filmes mais ágeis da década seguinte. Dirigido com segurança e sem espaço para piadas fora de hora, o filme de Pollack só força um pouco a barra quando o roteiro insiste em um romance pouco convincente entre sua dupla de protagonistas: por mais que seja irresistível acrescentar uma dose de
leveza à trama, a história de amor entre Megan e Mike soa deslocada e desnecessária - principalmente porque interrompe o fluxo da narrativa mais importante e atraente. Isso não impediu, porém, que o roteiro de Luedtke fosse candidato ao Oscar da categoria - que perdeu para "Carruagens de fogo", o papa-Oscar surpresa da temporada. Newman também concorreu à estatueta, assim como a coadjuvante Melinda Dillon, mas ambos também foram derrotados - ele pelo veterano Henry Fonda ("Num lago dourado") e ela por Maureen Stapleton ("Reds"). Apenas Sally Field ficou de fora das indicações - e por ironia, a primeira escolha para seu papel, Diane Keaton, chegou às cinco finalistas da categoria de melhor atriz, por "Reds".

Longe de ser um clássico da estatura de "Todos os homens do presidente" ou outros filmes que se utilizam dos bastidores do jornalismo para fazer uma crônica d sua época, "Ausência de malícia" é um filme apenas correto, valorizado por seus atores e pela direção contida de Sydney Pollack. Discute um tema relevante, mas lhe falta paixão e até mesmo uma química mais potente entre Newman e Sally Field, dois atores excelentes mas que nem sempre conseguem o essencial: despertar a simpatia da plateia. Essa falha acaba por atrapalhar o resultado final, apesar do capricho das atuações e da discussão que levanta. Um bom filme, mas muito aquém de outras obras bem melhores de Pollack.

segunda-feira

EU, CHRISTIANE F., 13 ANOS, DROGADA E PROSTITUÍDA

EU, CHRISTIANE F., 13 ANOS, DROGADA E PROSTITUÍDA (Christiane F.: Wir Kinder vom Banhof Zoo, 1981, Solaris Film, 138min) Direção: Ulrich Edel. Roteiro: Herman Weigel, Ulrich Edel, livro de Kari Hermann, Horst Rieck. Fotografia: Jurgen Jurges, Justus Pankau. Montagem: Jane Seitz. Música: Jurgen Knieper. Figurino: Myrella Bordt. Direção de arte/cenários: Sabine Eichinger, Harald Muchametow/Rainer Schaper, Holger Scholz. Produção: Bernd Eichinger, Hans Weth. Elenco: Natja Brunckhorst, Thomas Haustein, Jens Kuphal, Christiane Reichelt. Estreia: 02/4/81

Publicado em 1979 e imediatamente alçado à categoria de best-seller mundial, o livro "Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída" chocou os leitores com sua descrição crua e detalhada de uma juventude perdida em meio ao consumo de drogas. Mesmo tendo a Alemanha dos anos 70 como cenário, o livro, escrito em primeira pessoa, fazia sentido em qualquer parte do planeta e, por isso, amedrontou pais e despertou discussões acaloradas - mas quase sempre inúteis. O fato é que, ao jogar luz sobre uma realidade pesada e que muita gente preferiria ignorar, o livro tornou-se fundamental em escancarar um lado feio e amargo da adolescência - e virou leitura quase obrigatória da época. Dois anos após seu lançamento nas livrarias, como era de se esperar, "Christiane F." chegou às telas - e, livre da influência pasteurizadora de Hollywood, chegou às telas da maneira mais fiel possível. Sem medo de soar sujo, desagradável e/ou realista demais, o filme de Ulrich Edel é um retrato doloroso e depressivo, mas bem-sucedido no que mais importa: a fidelidade ao clima decadente e claustrofóbico da obra original.

Virando sua câmera para ambientes desprovidos de glamour - e se utilizando de jovens viciados, prostitutas e afins como extras - o cineasta então estreante (e que depois mudaria o nome para Uli Edel e iria para Hollywood para assinar filmes como "Corpo em delito", estrelado por Madonna em 1992) mergulha sem medo do universo de sua protagonista, e equilibra sua ousadia com uma narrativa convencional e de fácil diálogo com a plateia. Mesmo sem poupar o público de cenas francamente indigestas, o diretor conta sua história sem sobressaltos e sem artifícios, estabelecendo desde suas primeiras cenas uma atmosfera de familiaridade que vai, aos poucos, se transformando em um cenário de desespero e decadência. Para isso, conta com a ajuda de Natja Brunkhorst, sua atriz principal: aos 14 anos durante as filmagens, a jovem intérprete é a personificação exata da personagem central. De aparência cândida e inocente quando vista pela primeira vez, ela vai se transformando diante do espectador - física e moralmente - de acordo com a descida a seu inferno pessoal, tratado no roteiro de forma séria e sem espaço para momentos de humor (mesmo o mais negro). A barra é pesada, e felizmente o filme não cai na tentação de aliviá-la para tornar o processo mais palatável ao público médio: assim como o livro que lhe deu origem, "Christiane F." é um soco no estômago - e um alerta atemporal a pais e educadores.


Quando o filme começa, Christiane é uma pré-adolescente de 13 anos igual a tantas outras: mora com a mãe e a irmã em um apartamento em Berlim, frequenta a escola regularmente e, vez ou outra, mente a idade para poder ser aceita em clubes da moda. Em um desses locais, o Sound, é que sua vida irá tomar rumo completamente oposto ao que seguia até então: acompanhando a melhor amiga, Kessi (Daniela Jaeger), ela conhece um outro mundo, bastante diverso do seu, e, encantada com as inúmeras possibilidades que se abrem diante dela (ainda que muitas delas pouco atraentes), mergulha em uma rotina de festas, shows de rock e, posteriormente consumo desenfreado de drogas. Parte de um grupo de adolescentes igualmente envolvidos com esse comportamento errático - no qual também participa Detlev (Thomas Haustein), por quem ela se apaixona - Christiane não demora a perceber que suas escolhas tem consequências trágicas e dolorosas. Viciada em heroína, ela segue o caminho do namorado e apela à prostituição como forma de manter seu novo estilo de vida.

Com uma trilha sonora recheada de canções de David Bowie - que faz uma participação especial como ele mesmo em uma sequência que dá início à travessia da protagonista rumo à autodestruição - e um visual sujo que traduz com perfeição o clima da história contada, "Christiane F." cumpre com louvor a missão a que se propõe: é uma adaptação fiel, um drama desconcertante sobre uma parcela representativa da juventude e um poderoso recorte de sua época. Ainda hoje bastante controverso e impactante, é um filme fundamental e um dos mais importantes sobre o assunto - que foge do filtro moralizador de Hollywood para buscar um tom de extrema honestidade, valorizado pelo elenco juvenil e absolutamente entregue. Um filme que resiste bravamente ao tempo!

domingo

AMOR SEM FIM

AMOR SEM FIM (Endless love, 1981, Polygram Filmed Entertainment, 116min) Direção: Franco Zefirelli. Roteiro: Judith Rascoe, romance de Scott Spencer. Fotografia: David Watkin. Montagem: Michael J. Sheridan. Música: Jonathan Tunick. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Ed Wittstein/Alan Hicks. Produção executiva: Keith Barish. Produção: Dyson Lovell. Elenco: Brooke Shields, Martin Hewitt, Shirley Knight, James Spader, Beatrice Straight, Don Murray, Richard Kiley, Tom Cruise. Estreia: 17/7/81

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Endless love")

Por motivos bem diferentes entre si, tanto a veterana Shirley Knight quanto Teri Shields, mãe da atriz Brooke Shields, não queriam que a estrela juvenil de "A lagoa azul" (80) fosse escalada para o papel principal de "Amor sem fim", a ser dirigido pelo italiano Franco Zefirelli. Teri temia - com carradas de razão - de que a filha acabasse sendo apenas um enfeite em um filme cujo roteiro era praticamente inexistente. E Knight, com sua experiência, julgava - também sem estar muito errada - que a bela adolescente não tinha talento suficiente para o papel. Para Knight, qualquer outra jovem atriz seria uma melhor opção - e, para facilitar a vida do cineasta, sugeriu uma lista de nomes que incluía Rosanna Arquette, Bo Derek, Linda Blair, Carrie Fisher, Jodie Foster, Melanie Griffith, Jennifer Jason Leigh, Michelle Pfeiffer e Debra Winger. Nenhuma delas, no entanto, conseguiu convencer Zefirelli a mudar de ideia - e Knight ainda teve o desprazer de ser indicada ao Framboesa de Ouro de pior atriz coadjuvante do ano (fazendo companhia, por extrema ironia, tanto à Brooke quanto ao diretor e ao galã do filme, Martin Hewitt).

Baseado em um livro de Scott Spencer, "Amor sem fim" é o típico filme que ganhou notoriedade pelos motivos errados. Em primeiro lugar, há a beleza plácida e incontestável de Brooke Shields, um dos mais lindos rostos já descobertos por Hollywood. Em segundo, há a canção-tema, interpretada por Lionel Richie e Diana Ross, indicada ao Golden Globe e ao Oscar e campeã de vendas e execução nas rádios à época de seu lançamento. Afora isso, é um romance de plástico, com uma trama frouxa e inverossímil e uma dupla central de atores que, à parte sua fotogenia, não consegue sustentar um roteiro de telenovela mexicana dirigido sem brilho e sem inspiração por um cineasta que, pouco mais de uma década antes, havia tornado Shakespeare popular à juventude cinéfila com uma versão delicada e comovente de "Romeu e Julieta" (68). Amor proibido, portanto, não lhe era um terreno desconhecido  - o que deixa a decepção ainda maior e mais imperdoável: "Amor sem fim" é simplesmente ruim, capaz de conquistar corações adolescentes pouco exigentes mas impossível de agradar racionalmente a quem procura um filme de verdade.


A história - rala e pouco crível - já começa mostrando o namoro de David Axelrod (Martin Hewitt, estreando no cinema em papel para o qual até mesmo Tom Hanks foi testado) e Jade Butterfield (Brooke Shields): ele tem 17 anos e ela tem 15, mas a família aparentemente liberal da menina não se importa muito que eles já estejam fazendo sexo (ao menos sua mãe, que gosta de David mais do que uma sogra deveria gostar). De uma hora para outra, no entanto, o pai da garota, Hugh (Don Murray), um médico nem tão moderno assim, decide que é hora de afastá-los, porque as noites de amor entre os dois estão prejudicando os estudos de sua bela filha. Revoltado com o fato - e com a possibilidade de Jade não estar mais apaixonada por ele -, David faz o que qualquer um faria (???) e incendeia, por acidente, a casa da família. Condenado a dois anos em uma instituição psiquiátrica, ele não deixa de pensar na namorada (ou ex) e, assim que tem a oportunidade de sair da prisão, resolve que é hora de reconquistar o seu amor - nem que para isso tenha que usar de meios banais, como seduzir a ex-sogra.

Se fosse uma comédia - ou até mesmo um filme de suspense -, "Amor sem fim" poderia ser um filme no mínimo razoável. Mas Franco Zefirelli, sem a menor sutileza, resolveu apresentá-lo como um romance adolescente, quase pueril (apesar da nudez dos atores centrais) e totalmente desprovido de lógica. A separação do casal por imposição dos pais, por exemplo, soa descabida, assim como a relação entre David e Ann (Shirley Knight) - por mais que desde o início dê para perceber o interesse dela pelo rapaz, sua aproximação é nitidamente um artifício para criar uma aura de tensão que nem é trabalhada com eficiência pelo roteiro, que ainda encontra um jeito de acrescentar uma morte ao molho de tragédias da história e encerra sua narrativa de forma anticlimática e morna. Sobra então encantar-se com Brooke Shields (que além disso some de cena por boa parte do segundo ato) e tentar entender porque Hollywood resolveu fazer um remake em 2014 - que não tinha nem Shields e nem a música de Lionel Richie.

Em tempo: tentem encontrar Tom Cruise em uma única e crucial cena. Talvez seja outro motivo para encarar uma sessão.

quarta-feira

REDS

REDS (Reds, 1981, Paramount Pictures, 195min) Direção: Warren Beatty. Roteiro: Warren Beatty, Trevor Griffiths. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Dede Allen, Craig McKay. Música: Stephen Sondheim. Figurino: Shirley Russell. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Simon Holland. Produção executiva: Dede Allen, Simon Relph. Produção: Warren Beatty. Elenco: Warren Beatty, Diane Keaton, Jack Nicholson, Maureen Stapleton, Gene Hackman, Edward Herrman, Paul Sorvino. Estreia: 03/12/81

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Warren Beatty), Ator (Warren Beatty), Atriz (Diane Keaton), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Atriz Coadjuvante (Maureen Stapleton), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Oscar: Diretor (Warren Beatty), Atriz Coadjuvante (Maureen Stapleton), Fotografia
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Warren Beatty) 

A concepção de um projeto cinematográfico é uma ciência inexata. Nunca se sabe em que circunstâncias uma ideia pode surgir - e que motivos inusitados podem levá-la a ver a luz dos refletores. Um exemplo claro dessa afirmação é "Reds", o milionário épico estrelado, dirigido, produzido e roteirizado por Warren Beatty: a história de um dos jornalistas mais importantes de sua época, John Reed, e de como ele testemunhou a Revolução Russa de 1917 começou a fervilhar na mente de seu criador por volta de 1966, quando, em viagem à Rússia, ele conheceu uma mulher que alegava ter tido um romance com Reed e lhe contou a história de sua vida. Alguns anos depois, aprendendo o idioma russo para conquistar a bailarina Maya Plisetskaya, Beatty aprofundou-se nos detalhes sobre seu protagonista e, em 1969, escreveu o primeiro esboço de um filme que só começaria a tomar forma de verdade dez anos depois - e que fez com que o astro recusasse o convite do cineasta soviético Sergey Bondarchuck de viver o jornalista em um outro filme. Ambicioso, caro (35 milhões de dólares), longo e arriscado, "Reds" chegou às telas americanas no final de 1981, mais de dois anos depois do começo de suas filmagens e, por incrível que pareça em relação a um filme com ideais claramente esquerdistas em uma Hollywood ainda torturada pelos anos do macarthismo, tornou-se um sucesso, especialmente de crítica e prêmios: indicado a 12 Oscar, levou três estatuetas para casa (direção, atriz coadjuvante e fotografia) e rendeu à Beatty láureas de direção do Golden Globe, da Associação de Diretores, dos críticos de Los Angeles e do National Board of Review. Nada mal para um filme que parecia que jamais iria estrear.

Quando Warren Beatty deu o pontapé inicial às filmagens de "Reds", em agosto de 1979, o cronograma previa quinze ou dezesseis semanas de trabalho. Quando finalmente o perfeccionista diretor se deu por satisfeito, seis meses já haviam se passado e o material filmado era suficiente para nada menos que duas semanas e meia de projeção. A própria Paramount Pictures, financiadora do projeto, só teve acesso ao filme pronto um mês antes de sua estreia - e. logicamente, tinha reservas em relação a como o tema (delicado e talvez político demais para o público médio) iria ser tratado por Beatty, já então um ator politicamente ativo. O resultado foi mais que positivo: ao contrário do que se poderia esperar, o roteiro de "Reds" não se detém na Revolução Russa, passando por ela apenas como uma das vastas experiências de seu protagonista junto a seu trabalho como repórter político e sua relação conturbada com outra jornalista, a independente Louise Bryant (Diane Keaton). Mais uma história de amor do que uma história política, "Reds" conquista pelo tom épico, pela fotografia deslumbrante de Vittorio Storaro e por um elenco coadjuvante onde se destacam Jack Nicholson e Maureen Stapleton, ambos indicados ao Oscar, assim como Beatty e Keaton.


O filme começa em novembro de 1915, quando John Reed, um repórter da revista de esquerda The Masses conhece a inteligente e liberada Louise, que não hesita em abandonar o marido para se entregar à paixão que sente pelo experiente e sedutor jornalista. O romance entre os dois é atrapalhado somente pelo excesso de viagens de Reed e por seus pontos de vista distintos em relação à fidelidade matrimonial: enquanto ele não nega os romances passageiros que vive enquanto está fora de casa, ela se tortura psicologicamente por seu envolvimento com um amigo do casal, o dramatugo Eugene O'Neil (Jack Nicholson), completamente apaixonado por ela. A entrada dos EUA na Primeira Guerra Mundial serve como estopim para novas crises em seu relacionamento: depois de uma separação traumática, ele a convence a acompanhá-lo para uma viagem à Rússia, onde ele acredita que está se preparando uma grande revolução comunista que irá mudar o mundo. As consequências da revolução, porém, acaba ameaçando sua relação quando Reed se vê preso no país e Louise resolve, mesmo correndo riscos, procurar uma maneira de resgatá-lo. Nesse meio-tempo, Reed tenta também encontrar um modo de fazer com que seus conterrâneos abracem a causa comunista como forma de igualdade social.

Intercalando sua história com depoimentos reais de pessoas que conheceram os protagonistas (em entrevistas filmadas desde o começo dos anos 70), Warren Beatty constrói sua narrativa de forma quase documental, contando com a ajuda providencial da fotografia espetacular de Vittorio Storaro, que por pouco não abandonou o projeto devido às temidas "diferenças artísticas", devidamente solucionadas de forma a equilibrar os planos estáticos desejados por Beatty e os movimentos fluidos e ágeis de câmera propostos por Storaro - merecidamente premiado com um Oscar por seu trabalho. Boa parte do fascínio de "Reds" vem justamente do visual impresso na tela, com paisagens de tirar o fôlego entremeadas por longas cenas de diálogos inteligentes e dramaticamente consistentes: são nesses momentos que brilha Diane Keaton (então namorada do diretor e astro), que transforma sua Louise Bryant na verdadeira protagonista do filme, uma mulher decidida e forte que vê sua vida completamente transformada por amor a um homem e a uma causa. Beatty, galã de prestígio e um dos homens mais poderosos da indústria de então (foi indicado em quatro categorias do Oscar, por "Reds", seguindo outras quatro por "O céu pode esperar", de 1978) quase fica em segundo plano diante da potência do desempenho e Keaton, provando de vez que sua carreira não dependia de sua sociedade artística com Woody Allen. Talvez justamente sua performance tão sensacional dê a impressão de que "Reds" é mais uma história romântica - algo como "Doutor Jivago" (65) - do que uma história política. Melhor assim: sua ideologia não assustou ao público, foi bem aceita pela crítica e legou ao filme a fama de ser um dos épicos mais importantes de sua época. Poderia ser menos longo e mais focado, mas ainda assim é um belo e memorável espetáculo, prejudicado apenas pelo egocentrismo de seu ator principal - não é difícil perceber o quanto o filme fica mais interessante quando ele não está em cena!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...