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segunda-feira

À PROCURA DO AMOR

 


À PROCURA DO AMOR (Enough said, 2013, Fox Searchlights Pictures, 93min) Direção e roteiro: Nicole Holofcener. Fotografia: Xavier Grobet. Montagem: Robert Frazen. Música: Marcelo Zavros. Figurino: Leah Katznelson. Direção de arte/cenários: Keith Cunningham/Douglas Mowat. Produção executiva: Chrisann Verges. Produção: Stefanie Azpiazu, Anthony Bregman. Elenco: Julia Louis-Dreyfus, James Gandolfini, Catherine Keener, Toni Collette, Ben Falcone, Tracey Fairaway, Tavi Gevinson. Estreia: 07/9/2013 (Festival de Toronto)

No dia 17 de junho de 2013, os fãs de cinema em geral - e da série "Família Soprano" em particular - foram surpreendidos com a notícia da morte precoce, aos 51 anos, do ator James Gandolfini, vítima de um infarto fulminante durante uma viagem à Roma. Sua partida inesperada, além de deixar o público órfão de um ator de grande carisma, o impediu de colher os louros por seus dois últimos trabalhos. "A entrega" - cujas filmagens acabaram um mês antes de sua morte - só estreou em setembro de 2014 no Festival de Toronto, mas um ano antes, no mesmo festival, as plateias tiveram a oportunidade de conhecer um lado menos sombrio e violento do célebre intérprete de Tony Soprano: lançado pela Fox Searchlight Pictures, "À procura do amor" apresentava um Gandolfini doce e capaz de fazer suspirar as mulheres mais românticas. Sim, a produção escrita e dirigida por Nicole Holofcener era uma comédia romântica. Adulta, um tanto mais realista e com personagens mais verossímeis, mas ainda assim uma comédia romântica, com todos os elementos clássicos do gênero. E, para alegria de todos, uma produção deliciosa, daquelas de deixar qualquer um com um sorriso no rosto.

Eva (Julia Louis-Dreyfus) trabalha como massagista a domicílio e está em crise com a iminente viagem de sua filha adolescente, Ellen (Tracey Fairaway), para a faculdade. Separada e pouco otimista em relação a possíveis relacionamentos, ela se vê surpreendida com a inesperada atração que passa a sentir por Albert (James Gandolfini), um homem que, a princípio, não tem nada a ver com o que ela procura em homens. De meia-idade, acima do peso, igualmente separado e prestes a ver a filha sair de casa, Albert acaba a conquistando pelo humor, pela gentileza e pela química que surge entre eles. O romance nascente e promissor, no entanto, sofre um baque quando Eva descobre que seu novo príncipe encantado é o ex-marido de Marianne (Catherine Keener), uma nova cliente, que divide com ela fatos poucos lisonjeiros a seu respeito (sem imaginar do incipiente namoro entre os dois). Influenciada pelas conversas com Marianne - uma poetisa a quem tem em alta conta -, Eva começa a questionar seus sentimentos e as percepções sobre Albert, que nem de longe sonha que a relação está ameaçada por uma visão unilateral (e um tanto injusta de sua pessoa).

Autora de filmes cujo foco são personagens críveis e humanos, como "Amigas com dinheiro" (2006) e "Sentimento de culpa" (2010), Nicole Holofcener faz um gol de placa com "À procura do amor": sem buscar catarses exageradas e fugindo da artificialidade comum a comédias românticas, faz de seu filme uma pérola dirigida a uma fatia do público frequentemente alijada dos maiores sucessos do gênero. Sua escolha por dois atores atípicos como protagonistas - ao lado de sua constante colaboradora, Catherine Keener - é, paradoxalmente, seu maior acerto. Julia Louis-Dreyfus é uma força da natureza, uma atriz que consegue ir do humor ao drama sem maior esforço, dotando sua Eva de nuances e idiossincrasias que a aproximam do espectador até mesmo quando comete erros bobos e desnecessários. Gandolfini, por sua vez, deixa antever uma faceta solar e agradável, raramente percebida em suas atuações anteriores (com a possível exceção do pouco lembrado "A mexicana") e acabou por merecer aplausos unânimes por sua sutileza em dar vida a um personagem a anos-luz de sua mais famosa criação. A química entre os dois é precisa e conduz a trama com um ritmo próprio, que é costurado sem pressa e à base de diálogos inteligentes e perspicazes - além de um elenco coadjuvante onde brilha também a sempre ótima Toni Collette.

Ao driblar os clichês que deixam quase todas as comédias românticas com o mesmo tom de artificialidade, Holofcener imprime a "À procura do amor" uma organicidade rara - mérito de seu roteiro que flui com extrema felicidade tanto em momentos mais leves quanto naqueles que exigem do elenco uma carga maior de dramaticidade (ainda que jamais em exagero). Uma cineasta que encoraja o improviso em seus trabalhos, Nicole extrai de Gandolfini e Louis-Dreyfus desempenhos que soam absolutamente reais - e, por consequência, bem distantes de suas personas até então mais conhecidas. Calorosos, humanos e falíveis, Eva e Albert são o mais próximo que personagens de cinema podem chegar de seu público - e isso se deve primordialmente graças a seus intérpretes, em estado de graça da primeira à última cena. "À procura do amor" é ouro.

CHAMADA DE EMERGÊNCIA


CHAMADA DE EMERGÊNCIA (The call, 2013, TriStar Pictures/Stage 6 Films/Troika Pictures, 96min) Direção: Brad Anderson. Roteiro: Richard D'Ovidio, estória de Richard D'Ovidio, Nicole D'Ovidio, Jon Bokenkamp. Fotografia: Tom Yatsko. Montagem: Avi Youabian. Música: John Debney. Figurino: Magali Guidasci. Direção de arte/cenários: Franco-Giacomo Carbone/Robert Gould. Produção executiva: Philip M. Cohen, William C. Gallo, Guy J. Louthan, Dale Rosenbloom. Produção: Bradley Gallo, Jeff Graup, Michael A. Helfant, Michael J. Luisi, Robert L. Stein. Elenco: Halle Berry, Abigail Breslin, Michael Eklund, Morris Chestnut, Roma Maffia, Michael Imperioli, Justina Machado. Estreia: 14/3/2013

Depois de ganhar o Oscar de melhor atriz em 2002 por "A última ceia" - e tornar-se a primeira e até hoje única mulher negra a conseguir tal façanha -, Halle Berry passou a sofrer do mesmo problema de várias outras intérpretes premiadas com a estatueta: acometida da proverbial "maldição do Oscar", viu sua carreira entrar em uma espiral decadente, tanto em termos artísticos quanto financeiros. Filmes sofríveis como "Mulher-gato" (2004) e "Na companhia do medo" (2003) pareciam afundá-la em uma série de escolhas tão equivocadas que nem mesmo sua presença na série de continuações da série "X-Men" (onde dava vida à Tempestade) conseguia equilibrar. Foi somente em 2013, mais de uma década depois de sua vitória - e quando pouca gente ainda acreditava no potencial comercial de seu nome - que Berry voltou a cair nas graças do público: mesmo que não tenha feito um sucesso avassalador, "Chamada de emergência" arrecadou respeitáveis 68 milhões de dólares pelo mundo (contra um orçamento quase irrisório de 13 milhões) e reposicionou sua atriz principal na indústria - ainda que logo em seguida ela retornasse à sua rotina de más decisões profissionais.

Dirigido por Brad Anderson - mas sem o tom claustrofóbico e féerico de seu "O operário" (2004) -, "Chamada de emergência" é um filme de suspense que se utiliza sem pudores de todos os seus elementos mais clássicos. Sua coragem em assumir-se claramente como entretenimento é uma de suas maiores qualidades: em nenhum momento Anderson tenta transformar o roteiro em algo maior do que ele é, escorando-se com extrema confiança em um ritmo ágil, no talento de seus atores e na premissa, um tanto inverossímil mas bastante eficiente. Enxuto (apenas 96 minutos contando com os créditos) e nervoso, o filme conduz o espectador a uma viagem de constante tensão, que vai se avolumando até o terceiro (e um tanto exagerado) ato. Halle Berry brilha no papel central - e divide os méritos com Abigail Breslin (a Pequena Miss Sunshine em pessoa) e com o ótimo Michael Eklund, excelentes como as demais peças de um jogo violento e imprevisível.


 

Jordan Turner (Berry) trabalha como operadora do sistema de emergência de Los Angeles. Experiente mas incapaz de ser totalmente insensível em relação ao que testemunha, ela acaba por passar por um incidente traumático (mostrado nos primeiros ótimos minutos de projeção) e, insegura quanto à sua própria capacidade de lidar com o stress da profissão, tenta readaptar-se aos poucos na rotina de seus colegas. Seis meses depois do evento que a abalou profundamente, porém, ela terá uma chance de convencer a si mesma de que mantém intacto seu talento em ajudar as vítimas que procuram ajuda. A adolescente Casey (Abigail Breslin) liga desesperadamente para a emergência, e pede socorro: acaba de ser sequestrada em um shopping-center e está telefonando de um celular, trancada no porta-malas de um carro. Assumindo as rédeas da situação, Jordan conta com a ajuda de sua tarimba para manter a jovem em relativa calma e dos colegas policiais para que sigam as pistas que podem levá-los a evitar o pior. Nesse meio-tempo, Casey se demonstra uma vítima pouco propensa à passividade - o que não basta, no entanto, para diminuir seu terror diante da violência que passa a presenciar conforme seu raptor vai ficando cada vez menos pacífico.

É interessante lembrar que o primeiro cineasta ligado à "Chamada de emergência" foi Joel Schumacher, que em 2003 lançou "Por um fio" - os roteiros de ambos os filmes lidam com a urgência do tempo, com psicopatas violentos e com protagonistas lidando com a pressão de nunca abandonar o telefone. "Chamada de emergência" sofre, nesse ponto, com algumas inverossimilhanças que, se não atrapalham a tensão, podem minar a suspensão de realidade tão necessária a filmes do gênero: Casey consegue ficar conectada com Jordan o filme todo, sem que a ligação caia nem mesmo em situações em que isso seja pouco provável, e o final apresenta uma série de coincidências que soam um tanto forçadas em uma história que fluía com tanta naturalidade - também é um pouco frustrante a explanação a respeito dos motivos do criminoso, uma subtrama que em nada acrescenta à tensão construída com tanto cuidado até então. O fato de Jordan buscar justiça com as próprias mãos também é algo que incomoda, apesar de tal subterfúgio fazer parte da lista de elementos clássicos do gênero - em especial dentro de uma indústria que praticamente exige o embate entre herói e vilão nos momentos decisivos da ação. Apesar disso, o final é corajoso ao evitar (um pouco) o previsível e encerrar a história deixando no público a satisfação de um desfecho compensador. "Chamada de emergência" é um filme de suspense assumidamente realizado com o objetivo de divertir durante sua hora e meia de duração - e cumpre sua missão com louvor. Não muda a história do cinema, mas leva o espectador a um passeio de montanha-russa dos mais eficazes.

quinta-feira

FLORES RARAS

FLORES RARAS (Flores raras, 2013, LC Barreto Productions/Globo Filmes, 118min) Direção: Bruno Barreto. Roteiro: Matthew Chapman, Julie Sayres, livro "Flores raras e banalíssimas", de Carmem L. Oliveira, roteiro de Carolina Kotscho. Fotografia: Mauro Pinheiro Jr.. Montagem: Letícia Giffoni. Música: Marcelo Zarvos. Figurino: Marcelo Pies. Direção de arte/cenários: José Joaquim Salles/Clara Rocha. Produção executiva: Rômulo Marinho Jr., Penny Wolf. Produção: Lucy Barreto, Paula Barreto. Elenco: Glória Pires, Miranda Otto, Tracy Middendorf, Marcelo Airoldi, Treat Williams. Estreia: 09/02/2013 (Festival de Berlim)

Em dezembro de 1951, em meio a um bloqueio criativo, a poetista norte-americana Elizabeth Bishop aportou no Brasil, disposta a uma curta temporada para rever uma amiga de faculdade. Seus planos de ficar pouco tempo no país foram alterados graças a uma internação hospitalar - era alérgica a castanhas de caju - e à paixão avassaladora justamente pela companheira de sua colega. Lota Macedo de Soares, uma bem-sucedida arquiteta, encantada pela fragilidade de Bishop - que contrastava com sua personalidade forte e decidida -, não pensou duas vezes antes de assumir sua nova parceira. Começava então uma história de amor que atravessaria, aos trancos e barrancos, mais de uma década, e testemunharia momentos de dor e glória nas trajetórias de ambas. Embora tenham vivido um período auspicioso profissionalmente - Bishop ganhou um Pulitzer e Lota criou o ambicioso projeto do Aterro do Flamengo -, nem tudo era felicidade nos bastidores. O alcoolismo da escritora e a tendência da arquiteta em dominar a relação (além de problemas relacionados a seu trabalho no Rio) transformaram o idílio dos primeiros anos em uma constante guerra de nervos - e levaram o relacionamento a um final doloroso. Contada no livro "Flores raras e banalíssimas", de Carmem L. de Oliveira, a história de Bishop e Lota serviu como complemento ideal à redescoberta da poetisa pelo público brasileiro, na década de 1990 - e desde então lutou para ser adaptada para o cinema.

O preconceito a respeito do tema "delicado" do projeto afastou possíveis financiadores de "Flores raras", e o processo de realização do filme - já normalmente ampliado quando se trata de produções brasileiras - estendeu-se por quase uma década. Nem o compromisso de Bruno Barreto - diretor de um dos maiores sucessos do cinema nacional, "Dona Flor e seus dois maridos", de 1976 - em assumir a direção e o interesse de Glória Pires em interpretar Lota foram argumentos fortes o bastante para facilitar a batalha das produtoras Lucy (mãe de Bruno) e Paula Barreto. Nesses oito anos entre o lançamento do livro e a estreia do filme, pode-se dizer que o projeto amadureceu. Quando chegou ao Festival de Berlim de 2013, "Flores raras" já tinha a elegância e a delicadeza que a história pedia, somadas à experiência de Bruno, dono de uma respeitável carreira internacional, iniciada no final dos anos 1980. Lançado para o público brasileiro em agosto do mesmo ano de sua apresentação na Alemanha, o filme agradou mais aos críticos do que à plateia média, mais afeita a comédias despretensiosas do que a romances homossexuais de mulheres na meia-idade. No entanto, apesar da relação entre Lota e Bishop ser o centro da trama, "Flores raras" caminha na direção oposta a histórias de amor lacrimosas quando opta - acertadamente - em explorar também o mundo que as rodeia, repleto de armadilhas profissionais que as afastam fisicamente e, ao mesmo tempo, as aproximam emocionalmente.


Foi durante o período em que Lota e Bishop estiveram juntas, por exemplo, que Carlos Lacerda foi eleito o primeiro governador do então Estado da Guanabara (em 1961) e deu à Lota a missão (absurdamente absorvente) de projetar o Aterro do Flamengo, fato que obrigou as duas mulheres a deixarem o idílio de Petrópolis pela agitação do Rio de Janeiro. Bishop não era fã da cidade, e enquanto Lota trabalhava quase sem folga, a poeta saía a beber em botequins - e ser, quase sempre, carregada para casa. Antes disso, em 1956, foi premiada com o Pulitzer, uma honra que deve a seus momentos no Brasil, quando finalmente retornou à criação de suas obras - e ganhou de presente da companheira um estúdio com vista para o verde de sua propriedade. Sua relação com o Brasil era dúbia: ao mesmo tempo em que amava o espírito nacional, não deixava de perceber as mazelas da sociedade, o que, logicamente, não a tornava exatamente popular entre os nativos. Seu romance com Lota também tinha altos e baixos: planejavam longas viagens que nunca fizeram e frequentemente se desentendiam, principalmente por causa dos ciúmes da arquiteta. Em uma dessas crises, a escritora aceitou o convite para lecionar por uma temporada nos EUA, uma forma de afastar-se terapeuticamente de Lota, severamente deprimida pelos problemas de seu trabalho no Aterro. Era o começo do fim. E elas certamente perceberam isso, apesar das tentativas de ignorarem tal destino.

O filme de Bruno Barreto é, sem dúvida, um recorte caprichado e bastante abrangente do relacionamento entre Lota e Bishop. Boa parte dos acontecimentos mais importantes de seu período como amantes está retratado no roteiro de Matthew Chapman e Julie Sayres, adaptado tanto do livro de Carmem L. de Oliveira quanto de um primeiro tratamento escrito por Carolina Kotscho, e a direção de Barreto é contemplativa, sem chamar a atenção para si. O que realmente dá suporte a "Flores raras" - assim como dava à relação entre as protagonistas - é a combinação entre a força de Glória Pires (premiada como melhor atriz no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, de onde a produção saiu também com as estatuetas de direção, figurino e direção de arte) e a fragilidade física de Miranda Otto, que empresta à Elizabeth Shop um misto de elegância e inteligência. A atriz australiana (conhecida por sua participação na trilogia "O Senhor dos Anéis" e na série de TV "Homeland") é o contraponto ideal ao desempenho (como sempre) sólido de Glória, que não permite que a barreira do idioma atrapalhe uma bela interpretação. Se "Flores raras" fosse um filme medíocre, somente a dupla de atrizes centrais já bastaria para que fosse altamente recomendável. Como absolutamente não o é, o encontro entre dois talentos à prova de qualquer crítica o torna imperdível para qualquer fã de bom cinema.

domingo

TUDO POR JUSTIÇA


TUDO PELA JUSTIÇA (Out of the furnace, 2013, Relativity Media/Scott Free Productions, 116min) Direção: Scott Cooper. Roteiro: Scott Cooper, Brad Ingelsby. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: David Rosenbloom. Música: Dickon Hinchliffe. Figurino: Kurt and Bart. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez/Melissa Lombardo. Produção executiva: Riza Aziz, Robbie Brenner, Ron Burkle, Jason Colbeck, Joe Gatta, Joey MacFarland, Christian Mercuri, Tucker Tooley, Jeff Waxman, Brooklyn Weaver. Produção: Michael Costigan, Jeniffer Davisson Killoran, Leonardo DiCaprio, Ryan Kavanaugh, Ridley Scott. Elenco: Christian Bale, Woody Harrelson, Casey Affleck, Willem Dafoe, Forest Whitaker, Sam Shepard, Zoe Saldana. Estreia: 09/11/13

Em 2009, Scott Cooper dirigiu "Coração louco", que finalmente deu o esperado e merecido Oscar de melhor ator a Jeff Bridges. Com o prestígio em alta, ele foi procurado por ninguém menos que Ridley Scott e Leonardo DiCaprio, que lhe ofereceram o roteiro de um filme que eles queriam produzir - depois de pensarem por um tempo em assumir como diretor e astro, respectivamente. Cooper adorou a história, escrita por Brad Ingelsby, mas achou que poderia fazer alguns ajustes para melhorá-la, incluindo nela alguns elementos de sua própria experiência de vida. Com o ator Christian Bale em mente para o papel principal, ele transformou "The Low Dweller" em "Out of the furnace" e, para sua surpresa, o Batman mais aplaudido do cinema se mostrou muito interessado no projeto. Em Hollywood, porém, agendas são um problema, e Bale, mesmo encantado com a possibilidade de protagonizar o novo filme de Cooper, tinha inúmeros compromissos profissionais a cumprir. Cooper não queria fazer o filme sem seu astro, e somente em abril de 2012 as filmagens começaram - e o que parecia o capricho de um cineasta em começo de carreira mostrou-se um tiro certeiro: na pele de Russell Baze, o trágico protagonista de "Tudo pela justiça", Bale mais uma vez demonstra um talento incomparável e justifica a espera de seu diretor. Uma pena, porém, que pouca gente testemunhou tal revelação.

Lançado sem alardes no final de 2013, em plena temporada de estreias que sonhavam com os tapetes vermelhos das cerimônias de premiação, "Tudo por justiça" passou em brancas nuvens, tantos pelas salas de exibição - que ficavam lotadas com "Frozen" e "Jogos vorazes: em chamas" - quanto pelos eleitores da Academia (que preferiram homenagear Bale por um produto mais vendável e mais festivo, o esquecível "Trapaça"). A falta do devido estardalhaço em relação à sua estreia, porém, é injustificável: não apenas o filme de Cooper é um drama familiar violento e profundamente tocante como é um dos melhores trabalhos de direção de atores do ano, com personagens construídos com extremo cuidado e interpretados por atores em grandes momentos de inspiração. Um mergulho na forma de fazer cinema à moda antiga, "Tudo por justiça" relembra os suspenses cerebrais que fizeram a fama de Robert DeNiro e Al Pacino nos anos 70 - nada de tramas rocambolescas ou efeitos visuais estonteantes, apenas pessoas reais (ainda que douradas pelo verniz da arte) tentando encontrar uma forma de respirar e sobreviver a algo tão difícil quanto a vida. Não foi à toa que Cooper desistiu de usar a trilha sonora composta por Eddie Vedder, considerada potente demais: o que interessa ao jovem diretor são seus personagens e seus dramas, com o mínimo de interferência externa.


O protagonista da história é Russell Baze (Bale, brilhante em seu minimalismo), um homem honesto e batalhador que vive sua vida em função de trabalhar na fábrica de aço de sua pequena cidade do interior, cuidar do pai inválido e doente, namorar a bela Lena (Zoe Saldana) e tentar impedir que seu irmão caçula, Rodney (Casey Affleck), se deixe levar pelo desânimo depois de uma temporada no Iraque. Um exemplo de caráter, Russell tem sua vida virada de cabeça para baixo depois de um trágico acidente de carro, que o leva para a cadeia. Anos mais tarde, voltando ao convívio de todos, ele vê que nada mais é como antes: seu pai morreu, Lena casou-se com o xerife da cidade (Forest Whitaker) e seu irmão está envolvido em um violento submundo de brigas de rua - um universo cruel que o põe em rota de colisão com o psicótico Harlan DeGroat (Woody Harrelson). Quando Rodney desaparece e a justiça parece não se importar com o caso, Russell toma conta da situação e parte para a revanche - mesmo que isso vá contra todos os seus princípios.

Scott Cooper não tem pressa em contar sua história - sua opção em acentuar o drama em detrimento da ação pode não agradar aos fãs de filmes policiais, mas é um grande acerto em termos dramáticos. Ao oferecer ao público personagens verossímeis e repleto de nuances, seu roteiro percorre caminhos menos óbvios do que se poderia esperar de uma produção hollywoodiana. Não que a trama seja ousada ou surpreendente, mas a maneira como o diretor a conduz (com ritmo próprio, sem sobressaltos e com uma violência relativamente moderada) não deixa de ser corajosa. Até mesmo seu desfecho - anticlimático de certa forma, coerente de outra - vai de encontro às regras comerciais do cinema norte-americano. Esse apreço de Cooper pelo desenvolvimento dos personagens e as consequências de seus atos é o maior mérito de seu filme, principalmente porque permite ao elenco - em especial Bale e Woody Harrelson - momentos fascinantes. Se Casey Affleck nem sempre convence no papel do irmão rebelde (Channing Tatum, Max Irons, Garret Hedlund e Taylor Kitsch foram considerados para o papel antes da decisão final, tomada em conjunto por diretor e astro), o restante dos atores dispensa comentários - a não ser que se lastime o pouco tempo em cena de Whitaker e do sempre competente Willem Dafoe. "Tudo pela justiça" pode não ter tido o sucesso que merecia, mas é um filme a ser descoberto e apreciado não pelo que se espera dele (um policial violento), mas sim pelo que ele é (um drama familiar devastador). Um belo programa!

sábado

ELYSIUM

ELYSIUM (Elysium, 2013, TriStar Pictures, 109min) Direção e roteiro: Neill Blomkamp. Fotografia: Trent Opaloch. Montagem: Julian Clarke, Lee Smith. Música: Ryan Amon. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Philip Ivey/Peter Lando. Produção executiva: Sue Baden-Powell. Produção: Bill Block, Neill Blomkamp, Simon Kinberg. Elenco: Matt Damon, Jodie Foster, Sharlto Copley, Alice Braga, William Fitchner, Diego Luna, Wagner Moura. Estreia: 07/8/13

Depois do inesperado - ainda que justo - sucesso de "Distrito 9", que chegou a concorrer aos Oscar de melhor filme e roteiro adaptado em 2010, todo mundo em Hollywood estava curioso em saber qual seria o projeto seguinte de seu diretor, Neill Blomkamp. Inteligente e sabendo que em time que está ganhando não se mexe, o cineasta sul-africano resolveu então que o melhor a fazer seria manter o que havia dado certo em sua obra-prima (a crítica social através da ficção científica, seu amigo de infância Sharlto Copley e o equilíbrio entre drama e ação), injetar um orçamento mais generoso (que ultrapassou a barreira dos 100 milhões de dólares) e contar com a presença de astros populares (Matt Damon e Jodie Foster). Nem tudo deu exatamente certo: apesar do relativo sucesso nos EUA, "Elysium" não repetiu a mesma performance de "Distrito 9", dividiu a crítica e só conseguiu se pagar com a bilheteria mundial. Não deixa de ser injusto. Apesar de não ter o mesmo brilhantismo do filme mais conhecido de Blomkamp, "Elysium" é uma produção muito mais interessante do que a grande maioria dos lançamentos do gênero: diverte, faz pensar, é tecnicamente impecável e conta com um elenco internacional de fazer inveja a qualquer diretor muito mais experiente.

Com um filme tão impressionante como "Distrito 9" como cartão de visitas, não foi difícil a Neill Blomkamp escalar um time de sonhos para o elenco de "Elysium". além dos prestigiados Matt Damon e Jodie Foster (dois dos mais inteligentes e confiáveis astros de Hollywood), o cineasta contou com o mexicano Diego Luna e os brasileiros Alice Braga e Wagner Moura para dar vida a uma história fascinante sobre um mundo pós-apocalíptico onde a diferença de classes não é apenas endêmica: ela faz também a diferença entre a vida e a morte. Com uma impressionante direção de arte e uma fotografia assombrosa, "Elysium" é um filme de extrema urgência e relevância social, uma metáfora pouco sutil sobre a política de imigração e, melhor ainda, um entretenimento que jamais esquece sua principal função: divertir a plateia com cenas de ação empolgantes e personagens cativantes. Pode-se até dizer que em sua segunda metade as situações se atropelam um pouco, mas mesmo assim é difícil não concordar que sua mistura entre cinema e crítica social é construída com precisão cirúrgica - e que é virtualmente impossível desviar os olhos da tela do primeiro ao último minuto da sessão.


A trama se passa em 2154, e a Terra está completamente arruinada, sofrendo com escassez de recursos e uma superpopulação escravizada em subempregos e miséria. Sua condição miserável contrasta radicalmente com aquela que levam os felizardos que, com dinheiro o suficiente para isso, moram em uma estação espacial chamada Elysium, praticamente um clube de luxo, sofisticado e habitado por aqueles considerados a nata da sociedade. O único problema do local - mantido com mão de ferro pela secretária de defesa, Delacourt (Jodie Foster) - são as constantes tentativas de invasão por moradores da Terra, que procuram desesperadamente chegar até as milagrosas camas existentes por lá (e que curam qualquer doença). Uma dessas desesperadas é Frey (Alice Braga), cuja filha pequena sofre de leucemia: amiga de infância do operário Max (Matt Damon) - que abandonou a vida de pequenos crimes para viver em paz -, Frey acaba pedindo ajuda ao melhor amigo, que aceita o desafio quando ele mesmo é exposto à radiação em seu trabalho e se vê condenado a poucos dias de vida. Contando com o apoio logístico do rebelde Spider (Wagner Moura), Max vai fazer o possível para salvar-se e à filha de Frey - e para isso terá de bater de frente com o violento Kruger (Sharlto Copley), capaz de qualquer coisa para defender os privilégios da alta sociedade de Elysium.

Visualmente impressionante, "Elysium" é um filme de grande impacto, especialmente quando mostra os contrastes entre os moradores de uma Los Angeles completamente destruída e o luxo que envolve a estação espacial da classe privilegiada. Mesmo que o tema implore por um discurso mais incisivo em termos de crítica, porém, o roteiro prefere ater-se às regras da ficção científica, desenvolvendo mais uma história (fascinante e bem resolvida) do que uma tese de mestrado. Acerta em cheio nessa opção: sem jamais deixar de ilustrar sua simpatia pelos habitantes da Terra (sofridos, doentes, explorados, expostos a uma dura realidade de vida), Blomkamp conta sua história focando-se basicamente na trajetória de seu herói (vivido com garra por Matt Damon) e deixando a luta de classes como um tema incidental (potente, doloroso, relevante, mas incidental). Dessa forma, ele realiza um filme que é, ao mesmo tempo, um entretenimento dos mais empolgantes (em termos técnicos e emocionais) e um comentário socialmente importantíssimo - em especial em vista do que viria pela frente na política de imigração dos EUA da era Trump. Indispensável tanto pelo discurso quanto por suas qualidades artísticas, "Elysium" é um filme subestimado - mas que deve, com o passar do tempo, ter reconhecido seu devido valor.

quinta-feira

A PELE DE VÊNUS

A PELE DE VÊNUS (La Vénus à la fourrure, 2013, R.P. Productions, 96min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, David Ives, romance de Leopold von Sacher-Masoch, peça teatral de David Ives. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Hervé de Luze, Margot Meynier. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Dinah Collin. Direção de arte/cenários: Bruno Via/Philippe Cord'homme. Produção: Robert Benmussa, Alain Sarde. Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner. Estreia: 25/5/13 (Festival de Cannes)

Quando trabalhou junto com a atriz Emmanuelle Seigner pela primeira vez, no thriller "Busca frenética" (1988), o diretor Roman Polanski encontrou na bela francesa uma esposa e uma musa. Desde então dirigiu-a em "Lua de fel" (1992) e "O último portal" (1999), mas nunca teve a oportunidade de mostrar à plateia a evolução de seu talento como atriz, adquirida com a experiência e a maturidade. Trabalhando com o marido pela primeira vez em seu idioma natural - o francês - a bela Seigner finalmente teve a chance de deixar de ser coadjuvante para ser a estrela em "A pele de Vênus", que estreou no Festival de Cannes 2013 com efusivos elogios e rendeu ao veterano Polanski um César (o Oscar francês) de melhor diretor. Com um roteiro inspirado na peça de teatro de David Ives - por sua vez baseado no romance homônimo de Leopold von Sacher-Masoch - o filme volta a brincar com a obsessão do cineasta por ambientes claustrofóbicos, e envolve a plateia em um jogo de sedução e dominação inteligente e perspicaz, que tem especial ressonância àqueles apaixonados por teatro. Com uma invejável química entre Seigner e Mathieu Amalric - que substituiu Louis Garrell pouco antes do começo das filmagens - e um ritmo que se mantém em constante ebulição, "A pele de Vênus" é mais um filme que confirma Roman Polanski como um inquieto criador de obras perturbadoras e densas.

Uma clara homenagem ao teatro - forma de arte de que o próprio Polanski já se utilizou em filmes como "A morte e a donzela" (2004) e "O deus da carnificina" (2013) - e à arte da atuação, "A pele de Vênus" é, também, uma sofisticada obra de arte, recheada de referências culturais e psicológicas, que, ao contrário do que poderia acontecer, jamais soa pedante ou inalcançável. É, sem dúvida, muito acima da média do cinema popular (em que o cérebro do espectador raramente é acionado), mas dificilmente pode ser acusado de intelectualizado em excesso. Ao abraçar uma estrutura puramente teatral - sem respiros artificiais ou tramas paralelas desnecessárias - o roteiro, coescrito pelo diretor e pelo autor da peça original, exige da plateia uma atenção e uma disposição absolutas, mas lhe dá em troca um espetáculo do mais alto nível. É contra-indicado àqueles que reclamam da verborragia do teatro filmado, mas suas qualidades cinematográficas - a edição precisa, a trilha sonora impecável de Alexandre Desplat, a direção segura de Polanski - conseguem facilmente conquistar a admiração até do mais exigente espectador que se deixar envolver pela complexa relação estabelecida entre seus dois protagonistas.


Thomas (Mathieu Amalric) é um dramaturgo que está em vias de estrear como diretor, adaptando um clássico e polêmico romance escrito no século XVIII. Depois de testar dezenas de candidatas ao principal papel feminino e quase desistindo de sua busca, ele se vê surpreendido pela bela e determinada Vanda (Emmanuelle Seigner), que chega ao teatro onde os ensaios devem tomar forma com o firme objetivo de mostrar a ele que é a atriz ideal para viver a personagem, que, coincidentemente, tem o mesmo nome que ela. A princípio recusando-se a testar Vanda por ela ter chegado atrasada e parecer pouco apropriada fisicamente ao papel, aos poucos Thomas vai percebendo que, por trás de sua aparência vulgar e pouco inteligente, ela é uma mulher não apenas completamente dedicada à sua profissão como também apaixonada pelo texto - do qual ele tem indisfarçável orgulho. Não demora para que ele se deixe seduzir pelo talento da moça, que transforma uma simples audição em um sagaz jogo de dominação - que é, afinal, o tema da peça de Thomas. Cada vez mais certo de que Vanda (por coincidência ou não, o mesmo nome da protagonista de sua trama) é a melhor escolha para a peça, ele aceita sua proposta de fazer uma espécie de ensaio informal ali mesmo, diante de uma plateia vazia: surge, então, uma bizarra relação entre os dois.

E é esse relacionamento sui generis que conduz "A pele de Vênus" durante seus 96 minutos. Valorizando cada trecho de diálogos - bem escritos, inteligentes, irônicos e questionadores a respeito de temas como fetichismo e a complexidade das relações homem/mulher - mas jamais esquecendo as ferramentas do cinema (edição, fotografia), Polanski brinda o espectador com um brilhante exercício artístico, que sublinha o melhor de cada linguagem e as reapresenta em forma de um novo e excitante tabuleiro, onde cada nova cena ilumina um novo lado da personalidade - do texto, da direção e dos personagens, que se multiplicam conforme a narrativa vai se tornando mais e mais sinuosa. Para sua sorte, conta com dois atores excepcionais nas reviravoltas dramáticas e que seguram com extrema habilidade cada nuance proposta pelo roteiro. Elegante, fascinante e inteligente, "A pele de Vênus" é o melhor que um teatro filmado pode ser.

segunda-feira

CINE HOLLIÚDY

CINE HOLLIÚDY (Cine Holliúdy, 2013, Dowtown Films, 91min) Direção e roteiro: Halder Gomes. Fotografia: Carina Sanginitto. Montagem: Helgi Thor. Direção de arte/cenários: Juliana Ribeiro. Produção executiva: Halder Gomes, Dayane Queiroz. Produção: Halder Gomes. Elenco: Edmilson Filho, Miriam Freeland, Roberto Bomtempo, Joel Gomes, Rainer Cadete, Jesuíta Barbosa, Falcão. Estreia: 09/8/13

A princípio, um filme nacional cujo protagonista lembra Carlitos e que pode ser descrito como uma mistura entre "Cinema Paradiso" (1989), de Giuseppe Tornatore e "Bye bye, Brasil" (1976), de Cacá Diegues pode parecer um samba do crioulo doido, uma miscelânea sem sentido de estilos e nacionalidades com tudo para dar errado. Porém, quando a comédia "Cine Holliúdy" chega a seus créditos finais, depois de uma hora e meia de um humor ingênuo e despretensioso, é impossível ao espectador não ter se deixado cativar. Versão estendida de um curta-metragem do cineasta cearense Helder Gomes, o filme é uma lufada de ar fresco nas comédias pasteurizadas e rigidamente presas à fórmula já desgastada do tradicional cinema de humor brasileiro. Com raízes nitidamente regionalistas e sem ter vergonha delas - muito pelo contrário, as assume com extremo orgulho e as utiliza como mais um meio de fazer rir, através de um dialeto particular a ponto da necessidade de se utilizar legendas para melhor compreensão - "Cine Holliúdy" é uma grande e carinhosa brincadeira com a sétima arte, debochado e nostálgico em doses exatas. E de quebra ainda faz uma sutil crítica aos governos populistas e à chegada da televisão nos mais escondidos recantos do país, matando assim, a diversão popular representada pelo circo e pelas salas de cinema.


Apesar das leituras sociais e políticas que pode suscitar, porém, "Cine Holliúdy" é, acima de tudo, entretenimento. E dos bons. Simples, direto e sem medo de atingir o público pela pureza de seu humor quase infantil, o filme de Halder Gomes se beneficia de uma estrutura narrativa sem maiores ousadias e um protagonista cujo carisma gigantesco conquista o espectador logo de cara. Dotado de uma esperança e uma pureza que o tornam irresistível a qualquer público, Francisgleydisson é herdeiro direto do vagabundo de Chaplin, com seu humor físico de uma precisão cirúrgica e seu humanismo à toda prova. Não à toa, faz parte de sua receita uma criança (seu filho, que tem no pai seu maior e infalível ídolo) e uma dama (sua esposa, apaixonada pelo marido e disposta a qualquer sacrifício para manter-se a seu lado e alimentar seus sonhos). É esse triângulo familiar o alicerce no qual se sustenta a trama criada pelo cineasta, que mergulha no coração do Brasil dos anos 70 para contar uma história de amor ao cinema - mais especificamente o cinema de artes marciais que consagrou-se à época graças a filmes de Bruce Lee e outros menos cotados. São filmes assim que Francisgleydisson apresenta em seu cinema itinerante, que sofre com a concorrência da televisão e a burocracia que enfrenta em cada cidade a que chega.


Sem medo de apostar em estereótipos para alcançar com facilidade a simpatia do público, Helder Gomes acerta em cheio ao assumir o lado quase circense de seu filme. Quando Francisgleydisson e sua família chegam à uma pequena cidade do interior do Ceará para abrir seu "Cine Holliúdy", o que se vê na tela é um desfile de tipos impagáveis, invariavelmente com o objetivo de fazer rir através da identificação imediata. Muitas vezes sem mesmo um nome, os habitantes do lugar surgem para comentar a chegada da novidade, expor suas expectativas e, posteriormente, unir-se aos demais conterrâneos na fatídica exibição, um clímax cuidadosamente preparado para arrancar gargalhadas sem muito espaço para qualquer tipo de aprofundamentos psicológicos e/ou dramáticos. Em certos casos, seria um defeito. No filme de Gomes, é um gol de placa: de forma certeira ele apresenta seus personagens secundários com poucas linhas de texto e não é preciso mais nada para que todos eles já fiquem registrados na mente do espectador. O galã, o cego, o gay, a moça fogosa, o padre, o prefeito, a primeira-dama e outros tipos são apenas símbolos, arquétipos cômicos que fortalecem a proposta do cineasta em fazer de seu filme um microcosmo do Brasil, uma visão bem-humorada de um país que, mesmo afundado em uma ditadura militar, ainda não havia desistido de sonhar (e que metáfora melhor para o sonho do que uma tela de cinema?).

Diretor de dois filmes de temática espírita ("Bezerra de Menezes" e "As mães de Chico Xavier"), Helder Gomes encontrou em "Cine Holliúdy" sua voz definitiva. É um filme de personalidade forte e com o timing exato de humor e sensibilidade (em um equilíbrio inversamente proporcional ao italiano "Cinema Paradiso", de quem pega emprestado o nome e a temática), além de ser dono de uma brasilidade absolutamente indissociável de sua trama e protagonistas. Na pele do doce e sonhador Francisgleydisson, o ator Edmilson Filho - campeão de artes marciais que faz uso de seu impressionante talento para o humor físico para criar uma antológica sequência na parte final do filme - surge como uma grande revelação do cinema nacional, uma alternativa saudável e renovadora aos artifícios do chamado "cinema comercial brasileiro". Com seu carisma à serviço de um roteiro delicioso, de humor brejeiro mas nunca vulgar, ele transforma o filme em uma joia rara, digno de figurar entre as grandes comédias já produzidas no Brasil. Imperdível!

EVIL: RAÍZES DO MAL

EVIL: RAÍZES DO MAL (Ondskan, 2003, Moviola Film, 113min) Direção: Mikael Hafstrom. Roteiro: Hans Gunnarsson, Mikael Hafstrom, Klas Ostergren, romance de Jan Guillou. Fotografia: Peter Mokrosinski. Montagem: Darek Hodor. Música: Francis Shaw. Direção de arte: Anna Asp. Produção executiva: Kim Magnusson. Produção: Ingemar Leijonborg, Hans Lonnerheden. Elenco: Andreas Wilson, Henrik Lundstrom, Gustaf Skarsgard, Linda Zilliacus. Estreia: 16/5/03 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Como normalmente acontece, o título em português de "Evil: raízes do mal" dá a impressão errada a respeito desse drama sueco indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Ao contrário do que pode parecer, a produção dirigida por Mikael Hafstrom não é um filme de terror sobre a existência do demônio e tampouco uma obra de suspense que investiga as origens da violência na alma humana. Baseado em um romance de Jan Guillou inspirado em suas próprias experiências dentro de um colégio interno masculino na Suécia, "Evil" é apenas o retrato (mais um) do ritual de passagem da adolescência para a fase adulta, centrado basicamente na luta de um jovem contra a agressividade que o cerca e frequentemente o domina. Sem maiores novidades no roteiro ou na direção, o filme de Hafstrom sustenta-se principalmente no carisma de seu ator central, Andreas Wilson, que bateu 120 concorrentes para ficar com o papel principal, o angustiado Erik Ponti.

Expulso de sua escola depois de uma briga com outro aluno, Erik - que é constantemente espancado pelo padrasto (Johan Rabaeus), com a complacência da mãe (Marie Richardson) - é matriculado em um tradicional internato masculino, cujos alunos vem de famílias abastadas ou importantes. Disposto a terminar seus estudos sem envolver-se em confusões desnecessárias, ele faz amizade com seu colega de quarto, Pierre (Henrik Lundstrom), e entra para o time de natação da escola, destacando-se rapidamente. Porém, conforme o aviso de Pierre - filho de pais ricos mas pouco popular entre os colegas - seu sucesso chama a atenção de Otto Silverhielm (Gustaf Skarsgard), um dos alunos mais antigos e líder de um grupo que determina certas regras de conduta que, mesmo abusivas, são tratadas com condescendência pelos diretores. Com inveja do sucesso de Erik, Otto começa a tentar, de todas as maneiras, forçar situações de violência que o façam romper sua carapaça pacífica - usando, inclusive, de seu conhecimento a respeito do romance entre o rapaz e Maria (Linda Zilliacus), uma das funcionárias da instituição.


Com uma narrativa linear e discreta que vai construindo gradualmente sua tensão até o clímax final - que abdica da violência pura e simples para ser coerente com sua proposta - "Evil" é um filme que tem na simplicidade um de seus maiores méritos. Ao centrar seu foco quase exclusivamente na vida escolar de Erik - com raros momentos fora do ambiente educacional - o diretor Mikael Hafstrom cria uma atmosfera claustrofóbica que permite ao espectador acompanhar, passo a passo, a trajetória do personagem rumo à maturidade emocional. Para isso, recorre tanto ao clichê mais básico (a amizade do protagonista com alguém mais frágil fisicamente) quanto a referências culturais, como a menção ao filme "Juventude transviada" (54), cuja temática de gangues adolescentes dialoga diretamente com sua trama. Discreto e inteligente, Hafstrom não exagera nem mesmo na dose de violência das brigas juvenis, apesar de serem elementos cruciais para o desenvolvimento da trama, e apresenta a relação entre Erik e Pierre com a sensibilidade adequada, sem forçar nenhuma dubiedade sobre sua natureza fraternal, como um diretor menos seguro poderia ser tentado a fazer. Erik e Pierre são amigos e parceiros leais que se veem diante de uma força que parece maior que ambos - a crueldade pura e simples - e tentam derrotá-la com suas próprias armas, mesmo que isso talvez lhes destrua a pureza ou a integridade física. E esse detalhe é que faz de "Evil" um filme acima da média.

Ao contrário do que normalmente ocorreria se fosse uma produção realizada nas entranhas da indústria hollywoodiana, "Evil" não recorre a epifanias miraculosas ou tragédias anunciadas para conquistar a simpatia da plateia para seu protagonista. Na pele de Andreas Wilson - um ator capaz de ir da tormenta à calmaria apenas com o olhar - o protagonista Erik Ponti é o reflexo perfeito de uma juventude perdida, que tenta encontrar seu eixo, mas se vê constantemente ameaçada pelo mundo que a cerca. Mikael Hafstrom trata seus personagens com o perfeito equilíbrio entre a delicadeza e o realismo, evitando interferir na dinâmica entre eles e deixando sua câmera apenas como testemunha do embate inevitável - que acontece como uma espécie de catarse, no momento certo e da maneira menos óbvia possível. Até mesmo o final (feliz?) é dúbio, agridoce e quase melancólico, uma prova de que, apesar da vitória, sempre há cicatrizes que insistem em permanecer no corpo e na alma. Não se pode deixar enganar pelo subtítulo de "Evil: raízes do mal": eis aqui um belo drama europeu sobre os conflitos da juventude, e não um subproduto de terror.

sábado

EM TRANSE

EM TRANSE (Trance, 2013, 20th Century Fox, 101min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: John Hodge, Joe Ahearne, estória de Joe Ahearne. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Jon Harris. Música: Rick Smith. Figurino: Suttirat Larlab. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Dominic Capon. Produção executiva: Bernard Bellew, François Ivernel, Cameron McCracken, Steven Rales, Tessa Ross, Mark Royball. Produção: Christian Colson. Elenco: James McAvoy, Rosario Dawson, Vincent Cassell, Danny Sapani, Matt Cross. Estreia: 19/3/13

Quem esperava que Danny Boyle fosse escolher um projeto ambicioso logo após a chuva de Oscar de "Quem quer ser um milionário?" (2008) e dos elogios rasgados ao angustiante "127 horas" (2010) levou um susto quando o cineasta escocês lançou "Em transe". Barato - custou apenas 20 milhões de dólares, o que costuma ser o cachê de astros como Julia Roberts e Tom Cruise - e sem o apelo de um livro conhecido ou atores com apelo de arrastar multidões aos cinemas, "Em transe" passou quase em brancas nuvens pelos cinemas americanos e só conseguiu se pagar com a bilheteria do mercado internacional, que comprou com mais entusiasmo a complexa e intrigante trama de suspense urdida pelo diretor a partir de um roteiro de seu habitual colaborador John Hodge (indicado ao Oscar por "Trainspotting:sem limites") e Joe Ahearne. Um filme inteligente e que mergulha o espectador em um universo repleto de meias-verdades e pistas falsas, "Em transe" faz parte do seleto grupo de produções que se divertem em enganar a plateia ao conduzí-la por um caminho específico apenas para, em seu desfecho, revelar uma trama completamente diferente (e igualmente excitante).

Tudo começa como mais um "filme de roubo": em um leilão de obras de arte em um conceituado salão londrino, um grupo de homens armados e liderados pelo ameaçador Franck (Vincent Cassel herdando o papel de Michael Fassbender) tenta se apossar de um raro e famoso quadro de Goya, mas é impedido por um dos leiloeiros, o jovem Simon Newton (James McAvoy), que acaba atingido por uma forte pancada na cabeça que o deixa em coma. Percebendo que o rapaz escondeu a pintura em algum lugar desconhecido, o criminoso o espera deixar o hospital para obrigá-lo a revelar a localização da obra: o problema é que Simon não lembra de nada do que aconteceu no dia do assalto e, para salvar sua pele, concorda em tentar lembrar dos detalhes do caso através de hipnose. É assim que ele chega até Elizabeth Lamb (Rosario Dawson), especialista em ajudar pacientes a superar traumas e recuperar memórias perdidas. Quando médica e paciente se envolvem romanticamente, porém, as coisas saem do controle, e nada mais parece correr conforme o esperado.


Emoldurada pela fotografia instigante de Anthony Dod Mantle, que ajuda a confundir o público com suas elegantes distorções, a trama rocambolesca de "Em transe" viaja através de flashbacks que tanto podem ser verdadeiros quanto falsos, por lembranças escondidas ou plantadas, por relacionamentos sinceros ou interesseiros. A ambiguidade do roteiro - que ousa também por criar um herói falível, de caráter duvidoso e atitudes pouco exemplares - se estende também à criatividade da direção de Boyle, que simplesmente impede o espectador de antecipar as reviravoltas da história ou descobrir, antes dos minutos finais, quem realmente está do lado de quem. Para isso também contribui, e muito, a excelência de seu elenco: Vincent Cassel é insuperável na pele de tipos marginais e perigosos, e Rosario Dawson segura bem a oportunidade de ficar com um papel para o qual foram cotadas Scarlett Johansson, Eva Green e Zoe Saldana, uma mistura de inteligência e sensualidade que serve magistralmente à personagem. Mas é James McAvoy, com seu misto de pureza e coragem, o grande achado do filme.

Um dos atores mais talentosos de sua geração, McAvoy está perfeito como Simon Newton, um personagem que, apesar de servir como os olhos da plateia em uma narrativa recheada de surpresas e reviravoltas, também se permite cair em armadilhas e manipular as regras do jogo, quando necessário. Essa ambiguidade moral - que pode mostrar-se um defeito ou uma qualidade, conforme a trama vai se desenrolando - só é completamente verossímil e aceitável porque o ator transmite, em cada cena, uma variedade de sentimentos e emoções de que somente os grandes intérpretes são capazes. Revelado em dramas densos e potentes, como "O último rei da Escócia" (2006) e "Desejo e reparação" (2007) e posteriormente se provando capaz de sair-se muito bem em produções com intenções bem mais comerciais, a exemplo de "O procurado" (2008) e "X-Men: Primeira Classe" (2011), McAvoy é o protagonista ideal para um filme que equilibra com tanta propriedade a seriedade de um suspense e toques de puro escapismo de uma produção de ação como "Em transe". É ele, com seus angustiados olhos azuis, a alma de uma pequena pérola que merece ser descoberta pelos fãs do gênero - e que confirma Danny Boyle como um diretor nem um pouco disposto a deitar sobre as próprias láureas.

segunda-feira

CLUBE DE COMPRAS DALLAS

CLUBE DE COMPRAS DALLAS (Dallas Buyers Club, 2013, Truth Entertainment, 117min) Direção: Jean-Marc Vallée. Roteiro: Craig Borten, Melisa Wallack. Fotografia: Yves Bélanger. Montagem: Martin Pensa, Jean-Marc Vallée. Figurino: Kurt and Bart. Direção de arte/cenários: John Paino/Robert Covelman. Produção executiva: David Bushell, Nicolas Chartier, Cassian Elwes, Xev Foreman, Logan Levy, Joe Newcomb, Tony Notargiacomo, Nathan Ross, Holly Wiersma. Produção: Robbie Brenner, Rachel Winter. Elenco: Matthew McConaughey, Jared Leto, Jennifer Garner, Denis O'Hare, Steve Zahn, Dallas Roberts, Griffin Dunne, Michael O'Neill. Estreia: 07/9/13 (Festival de Toronto)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Matthew McConaughey), Ator Coadjuvante (Jared Leto), Roteiro Adaptado, Montagem, Maquiagem
Vencedor de 3 Oscar: Ator (Matthew McConaughey), Ator Coadjuvante (Jared Leto), Maquiagem
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Matthew McConaughey), Ator Coadjuvante (Jared Leto)

Levando-se em consideração o quão repleta de elementos dramáticos foi a história do eletricista texano Ron Woodroof e sua batalha contra o sistema de saúde americano que impedia a importação de medicamentos experimentais para a cura da AIDS no início dos anos 80 (no começo da epidemia, portanto), é surpreendente que Hollywood tenha demorado tanto tempo para transformá-la em filme. Tudo bem que o projeto inicial surgiu na metade da década de 90, com Dennis Hopper na direção e Woody Harrelson interessado no papel principal, mas foi somente em 2013 - quase trinta anos depois dos acontecimentos narrados no roteiro aconteceram - que finalmente o que era apenas uma ideia viu a luz das telas... e o brilho do Oscar. Indicado em seis categorias, inclusive melhor filme, "Clube de Compras Dallas" saiu da cerimônia de premiação que consagrou "Gravidade" e "12 anos de escravidão" com três estatuetas debaixo do braço: ator, ator coadjuvante e maquiagem. De certa forma, a Academia acertou em homenagear o que de melhor há no filme de Jean-Marc Vallée, de resto um trabalho apenas razoável e carente de um roteiro mais consistente (ainda que o texto de Craig Borten e Melisa Wallack também tenha tentado uma vitória impossível contra o genial "Ela", de Spike Jonze).

A trama de "Clube de Compras Dallas" começa em 1985, quando Woodroof, heterossexual convicto, machista e homofóbico, descobre ter contraído o vírus HIV, então praticamente uma incógnita até mesmo para a comunidade médica e tratada como uma doença restrita praticamente ao universo gay. Desesperado com a notícia e com a forma como passa a ser tratado por seus amigos - que assim como ele também não tem a menor informação sobre o vírus - ele resolve desafiar a sentença de 30 dias de vida dada por seu médico, Servard (Denis O'Hare) e buscar tratamentos alternativos e ainda ilegais nos EUA. Começando com AZT e passando por drogas testadas em outras partes do mundo, ele cria uma atividade de distribuição de tais medicamentos através de um clube de compras, onde o paciente paga uma taxa de inscrição e passa a receber seus tratamentos. Com a ajuda do travesti Rayon (Jared Leto) e com a anuência de outra médica, Eve (Jennifer Garner), ele desafia a justiça americana enquanto tenta manter-se vivo e na esperança de que encontrem uma cura. Utilizando-se de disfarces variados, ele consegue manter o contrabando por tempo suficiente para incomodar o sistema de saúde do país.


Vindo de um realizador criativo e sensível como o canadense Jean-Marc Vallée, revelado com o ótimo "C.R.A.Z.Y", de 2005, o resultado final de "Clube de Compra Dallas" não deixa de ser uma grande decepção. É quadrado, mecânico e - pecado mortal para um filme que trata de um assunto com tanto potencial dramático - indiferente. Mesmo que fique evidente a entrega de McConaughey e Leto a seus papéis é difícil envolver-se com a narrativa, porque o roteiro não permite a aproximação do espectador, tratando tudo com um distanciamento que, se mirou na neutralidade, acertou apenas na frieza. Por mais que os atores se esforcem em cativar a plateia - especialmente Jared Leto, mostrando que suas ótimas performances em "Réquiem para um sonho" (2000) e "Capítulo 27" (2008), em que interpretava o assassino de John Lennon não eram meros golpes de sorte - a opção do diretor em fugir do sentimentalismo contrasta violentamente com a potência emocional da história verdadeira de Woodroof, que chegou perto de ser interpretado por Brad Pitt e Ryan Gosling, em versões anteriores do projeto. Matthew McConaughey - em uma virada espetacular na carreira, deixando para trás comédias românticas bobas para concentrar-se em papéis mais desafiadores - está bem, mas é quase impossível dissociar seu Oscar de sua impressionante transformação física, que acaba por eclipsar suas tentativas de aprofundar-se em um texto pouco ousado, que jamais escapa do superficial mesmo com um protagonista tão intrigante.

Preconceituoso e sem maiores preparos psicológicos para lidar com sua nova situação, Woodroof é um personagem e tanto, mas McConaughey esbarra frequentemente em um roteiro incapaz de explorar a contento todas as possibilidades de sua personalidade conflituosa. Nesse ponto novamente Leto sai-se melhor, já que seu Rayon consegue ser um pouco (não muito) melhor desenvolvido, apesar do filme jogar fora a promissora relação entre ele - um jovem travesti que se prostitui e é contaminado pelo vírus da AIDS - e seu pai - um homem rico e conservador que não aceita seu modo de vida. Tal conflito é explorado em apenas uma cena rápida, matando um dos poucos focos mais emocionantes do filme. Ainda assim, é do vocalista da banda 30 Seconds To Mars a cena mais impactante da produção: quando ele conversa consigo mesmo diante de um espelho é difícil ficar indiferente, apesar do mérito ser muito mais do ator do que da direção. No final das contas, "Clube de Compras Dallas" cumpriu seu objetivo (ganhar Oscar), mas desperdiça uma boa história e bons personagens em um resultado raso e dinamicamente falho, que encontra espaço até para uma dispersiva relação entre o protagonista e sua médica (a sempre fraca Jennifer Garner) mas não encontra um foco narrativo capaz de cativar ou emocionar a plateia. Um filme muito aquém do que poderia ser.

terça-feira

JFK: A HISTÓRIA NÃO CONTADA

JFK: A HISTÓRIA NÃO CONTADA (Parkland, 2013, The American Film Company, 93min) Direção: Peter Landesman. Roteiro: Peter Landesman, livro de Vincent Bugliosi. Fotografia: Barry Ackroyd. Montagem: Markus Czyzewski, Leo Trombetta. Música: James Newton Howard. Figurino: Kari Perkins. Direção de arte/cenários: Bruce Curtis/Rodney Becker. Produção executiva: Tobin Armbrust, Guy East, Brian Falk, Joe Ricketts, Ginger Sledge. Produção: Gary Goetzman, Tom Hanks, Matt Jackson, Bill Paxton, Nigel Sinclair. Elenco: Marcia Gay Harden, Zac Efron, Paul Giamatti, Ron Livingston, James Badge Dale, Billy Bob Thornton, Jacki Weaver, Gil Bellows, Tom Welling, Mark Duplass, Colin Hanks, Jackie Earle Haley, Rory Cochrane. Estreia: 01/9/13 (Festival de Veneza)

Em 22 de novembro de 1963, a cidade de Dallas, Texas, foi cenário do mais traumático e devastador espetáculo que os EUA testemunhou até o atentado ao World Trade Center, quase quarenta anos mais tarde: o assassinato do então presidente John Fitzgerald Kennedy não apenas mostrou aos americanos a fragilidade de sua segurança como também abalou os alicerces da política mundial de forma indelével e ainda hoje ressoante. Em 1991, Oliver Stone abordou a morte de Kennedy no fenomenal "JFK: A pergunta que não quer calar", que, em tom semi-documental, expunha teorias da conspiração de modo tão contundente que era impossível não acabar a sessão totalmente convencido de que o presidente havia sido morto por culpa da CIA, do FBI, da KGB e da própria Casa Branca. O trabalho de Stone concorreu ao Oscar de filme, direção e roteiro - e ganhou as estatuetas de fotografia e edição - e passou à história como um dos maiores thrillers políticos dos anos 90. Com um olhar completamente oposto ao espetáculo grandioso estrelado por Kevin Costner, o discreto e pouco conhecido "JFK: A história não contada" volta sua atenção não para a investigação do crime, mas para suas consequências imediatas junto às pessoas que atenderam o presidente no Parkland Memorial Hospital, seus seguranças e um lado da questão sempre esquecida por todos: a família daquele que é considerado o autor dos tiros, Lee Harvey Oswald.

Baseado no livro "Four days in November: The assassination of John F. Kennedy", escrito pelo promotor Vincent Bugliosi - tornado famoso graças ao julgamento de Charles Manson e seus seguidores - o filme de estreia do roteirista Peter Landesman renega as teorias propostas por Oliver Stone em seu trabalho e abraça a história oficial do atirador solitário. Assim como Emilio Estevez fez em "Bobby" (2006) - que apresentava uma dúzia de personagens presentes ao Hotel onde Robert Kennedy foi assassinado, em 1968 - a obra de Landesman se debruça sobre pequenas histórias paralelas (mas todas reais) que envolveram o homicídio, mas pouco se interessa em invadir as entranhas das investigações e das incoerências que cercavam o caso. Seu interesse humano é maior que o político - o que torna o resultado final um tanto irregular, ainda que fascinante para quem se interessa pelo assunto. Produzido por Tom Hanks e Bill Pullman - que primeiro pretendiam adaptar o livro de Bugliosi como minissérie de televisão - e com um elenco de rostos conhecidos do grande público, o filme custou meros 10 milhões de dólares, mas naufragou nas bilheterias e foi ignorado nas cerimônias de premiação, mesmo tendo estreado no concorrido Festival de Veneza e lançado comercialmente no aniversário de 50 anos da tragédia.


A morte de John Kennedy - na frente de centenas de pessoas, em uma via pública e de forma a abalar toda uma nação - é o ponto de partida de "JKF: A história não contada". A partir do momento em que o presidente chega à Dallas, os personagens da trama vão sendo apresentados aos poucos: surge Abraham Zapruder (Paul Giamatti), o homem que, com sua filmadora, irá registrar um dos momentos mais estudados do século. Aparecem os jovens médicos Charles Carrico (Zac Efron) e Malcolm Perry (Colin Hanks), que irão tentar salvar a vida do presidente, ao lado da enfermeira-chefe Doris Nelson (Marcia Gay Harden). São iluminados pela tela alguns dos homens do Serviço Secreto, dispostos a descobrir qualquer detalhe sobre a tragédia, como Forrest Sorells (Billy Bob Thornton) e Roy Kellerman (Tom Welling), assim como agentes do FBI encarregados de cuidar da segurança do presidente, como James Hosty (Ron Livingston) e Gordon Shanklin (David Harbour) - o primeiro sentindo-se culpado pelo fato de não ter dado a devida atenção a um homem que estava investigando, chamado Lee Harvey Oswald. A família de Oswald, inclusive, também é lembrada pelo roteiro, nas figuras marcantes de seu atônito irmão Robert (James Badge Dale, ótimo) e sua interesseira mãe Marguerite (Jacki Weaver).

Enquanto vai contando a história desses personagens - e outros menos marcantes mas igualmente importantes no processo que tirou o corpo de Kennedy do hospital de Dallas mesmo contra a vontade do médico legista Earl Rose (Rory Cochrane) - o filme de Landesman vai mostrando os efeitos do fatídico evento na vida de cada um deles, mas sem aprofundar-se satisfatoriamente em nenhum dos casos. Mesmo que sua intenção seja exatamente um recorte específico na trajetória dos personagens, é impossível não ficar com a sensação de que algo ficou faltando. É como se o filme todo fosse uma introdução - forte, interessante, realista - de uma obra que, no fim, não existe. Bom diretor de atores, Landesman consegue extrair atuações convincentes até de Zac Efron e Tom Welling - mais conhecidos como galãs do que como intérpretes sérios - e explora com deleite o trabalho fascinante de medalhões como Paul Giamatti, Billy Bob Thornton e Jacki Weaver, a melhor em cena, com uma atuação monstruosa da igualmente monstruosa mãe de Lee Harvey Oswald - que passou o resto da vida insistindo que o filme era um agente do governo americano, o que, consequentemente, ratifica as ideias de Oliver Stone e vai contra as conclusões de Vincent Bugliosi. Em todo caso, "JFK: A história não contada" não se propõe a investigar um caso de assassinato, mas sim em como essa morte afetou diretamente alguns personagens à margem da história. Um bom filme, ainda que aquém de todo o seu potencial.

quinta-feira

NINFOMANÍACA, VOLUME 2

NINFOMANÍACA: VOLUME 2 (Nymphomaniac: Vol. II, 2013, Zentropa Entertainment, 123min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia: Manuel Alberto Claro. Montagem: Molly Marlene Stensgaard. Direção de arte: Alexander Scherer. Produção executiva: Peter Garde, Peter Aalbaek Jensen. Produção: Marie Cecilie Gade, Peter Aalbaek Jensen, Louise Vesth. Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgard, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Jamie Bell, Willem Dafoe, Jean-Marc Barr, Udo Kier. Estreia: 25/12/13

Enquanto o primeiro capítulo do mais polêmico filme de Lars Von Trier tratava de apresentar Joe e sua infância e adolescência - origens de sua autodiagnosticada doença - "Ninfomaníaca, volume 2" se aprofunda ainda mais em sua busca inglória pelo Santo Graal do prazer a todo custo e nas consequências dramáticas de suas escolhas - nem sempre tomadas de forma totalmente racional. Sem mais dividir o papel de protagonista com Stacy Martin, a atriz Charlotte Gainsbourg mostra mais uma vez porque é uma das preferidas do cineasta, com uma performance intensa e corajosa. Finalizando com coerência e ainda mais controvérsia uma obra explosiva e que despertou discussões incansáveis ao redor do planeta, o segundo volume da história de Joe acrescenta ao já variado menu sexual da protagonista sadomasoquismo, lesbianismo, sexo grupal e, para seu desespero, até uma dose de anorgasmia (incapacidade de ter orgasmos). O resultado é uma narrativa que equilibra com sensibilidade uma série de sequências bastante quentes - interpretadas por dublês de corpo - e alguns momentos de partir o coração.

Começando exatamente de onde acabou a primeira parte - quando, casada e apaixonada, Joe se descobre incapaz de ter prazer com o marido, Jerôme (Shia LaBeouf), também pai de seu filho - o filme mostra o desespero da protagonista diante de uma encruzilhada que a obriga a tomar decisões cruéis e revoltantes como forma de sustentar seu estilo particular de vida, regado a sexo compulsivo e por vezes (ao menos na visão tradicional) degradante. Se dando até mesmo ao luxo da auto-citação - com uma sequência que lembra um dos momentos mais fortes de seu "Anticristo" - Lars Von Trier conduz Joe e a plateia por um caminho sombrio e desprovido de glamour, onde o sexo surge não como uma forma de prazer absoluto, mas como uma espécie de inferno particular. Ao não conseguir fugir de sua "doença", Joe se afunda cada vez mais em situações de perigo - sexo a três com desconhecidos, encontros secretos com um jovem cujo fetiche é espancar mulheres e até mesmo um emprego como "cobradora informal" ao lado de criminosos violentos - como forma de expiar seus pecados (nem mesmo a ajuda de um grupo de apoio é capaz de livrá-la do que considera parte de seu ser). Mas, ao contrário do primeiro volume, dessa vez o cineasta deixa a trama perder o foco em algum lugar da estrada.


Mesmo sendo visualmente mais ousado do que o primeiro filme em termos de cenas de sexo e até mesmo em teorias polêmicas (em determinado ponto Joe defende os pedófilos que nunca ultrapassaram a linha do desejo e os classifica como heróis), "Ninfomaníaca, volume 2" perde parte de seu ritmo quando cria uma subtrama desnecessária e quase deslocada, que envolve Joe e um empresário (Willem Dafoe) que a contrata para cobrar dívidas de mau-pagadores. Ok, existe um motivo dramaticamente explicável para tal desvio quase surpreendente da narrativa (e que inclui mais uma história de amor frustrada da protagonista e que acaba por ser a responsável pela situação em que ela se encontra no começo do capítulo inicial), mas é inegável que, depois da avalanche de situações empolgantes/temerárias/controversas discutidas pelo filme, esse desvio de percurso compromete o ritmo do filme e quase o transforma em uma obra de narrativa convencional - impressão que seu final anti-climático (ainda que com uma certa dose de ironia) apenas ajuda a reforçar. A questão que fica, porém, é uma só: "Ninfomaníaca" (os dois volumes juntos) é, afinal um filme misógino ou feminista?

Nem uma coisa nem outra. Lars Von Trier é um cineasta conhecido por colocar suas personagens femininas em situações extremas de humilhação e sofrimento, mas daí a considerá-lo misógino por causa disso é exagero - afinal, ótimas atrizes, como Emily Watson Nicole Kidman, Kirsten Dunst e a própria Charlotte Gainsbourg não iriam sujeitar-se a um diretor com tendências exclusivamente sádicas e sem (boas) histórias para contar. Além do mais, basta examinar com mais cuidado seus filmes anteriores para perceber que, apesar das via-crucis pelas quais passam suas protagonistas, elas não deixam de ser mulheres fortes e determinadas. Joe, por exemplo, pode ser vista tanto como uma vítima das circunstâncias quanto uma senhora de seu destino, por fazer escolhas (muitas delas erradas, mas coerentes com sua personalidade) e pagar o preço por elas estoicamente. Uma mulher ser capaz de entregar-se a uma vida sexual rica e submeter-se aos caprichos masculinos por vontade própria pode soar como uma afronta às feministas, mas não deixa de ser também revolucionário e corajoso. Talvez isso tenha incomodado algumas mulheres e provocado a discussão a respeito das intenções de Von Trier, mas até mesmo essa dubiedade é fascinante e transforma o que poderia ser apenas mais um filme disposto a chamar a atenção pelo comércio do sexo puro e simples em uma obra passível de permanecer por bons anos na berlinda. Afinal de contas, não é isso que se espera de um bom cineasta?

Quanto às virtudes artísticas, é preciso mais uma vez louvar o desempenho de Charlotte Gainsbourg - não à toa integrante da Trilogia da Depressão do cineasta ("Anticristo", "Melancolia" e estes volumes de "Ninfomaníaca" - no papel central. Entregue de corpo e alma a um papel difícil e desafiador, a filha da cantora Jane Birkin e do músico Serge Gainsbourg se mostra uma das mais ousadas atrizes de sua geração e uma parceira à altura dos devaneios de Von Trier. Merecem destaque também as participações de Jamie Bell - o menino revelado em "Billy Elliot", aqui crescido e bem desenvolvido - e Stellan Skarsgard, em uma atuação contida que só vai explodir ao final, quando finalmente revela quem é seu personagem. Resumindo, "Ninfomaníaca, volume 2" é o desfecho impactante de um filme por si só capaz de despertar todos os tipos de sentimento no espectador que procura mais no cinema do que simples diversão. Altamente recomendável - nem que seja para falar mal com argumentos.

quarta-feira

NINFOMANÍACA, VOLUME 1

NINFOMANÍACA, VOLUME 1 (Nymphomaniac: Vol. I, 2013, Zentropa Entertainments, 117min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia: Manuel Alberto Claro. Montagem: Morten Hojberg, Moly Marlene Stensgaard. Figurino: Manon Rasmussen. Direção de arte/cenários: Simon Grau Roney/Thorsten Sabel. Produção executiva: Peter Garde, Peter Aalbaek Jensen. Produção: Louise Vesth. Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgard, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Uma Thurman, Sophie Kennedy Clark, Connie Nielsen, Mia Goth. Estreia: 25/12/13

Lars Von Trier é um cineasta que não tem medo de polêmicas - e, a julgar por sua filmografia recheada de obras provocantes como "Anticristo", "Dogville" e "Ondas do destino" até as procura constantemente. Depois de ter sido banido do Festival de Cannes 2011 por declarações consideradas antissemitas - ele afirmou entender Hitler - o dinamarquês voltou às manchetes no final de 2013 graças a mais um projeto cinematográfico ousado e controverso: dividido em dois volumes lançados simultaneamente, "Ninfomaníaca" já despertava furiosas discussões ao redor do mundo antes mesmo de sua estreia. O motivo? Mais do que nunca, Trier dava munição de sobra a todos que sempre o acusavam de misoginia ao contar a dramática história de Joe, uma mulher cuja impossibilidade de resistir a seus desejos a leva a uma vida repleta de dor e sofrimento. Porém, mesmo que dê continuidade à linhagem de mártires femininas criadas pelo diretor, Joe é, ao mesmo tempo, vítima e heroína, dona de uma complexidade dramática de que só mesmo o talento da atriz Charlotte Gainsbourgh - parceira constante do diretor - conseguiria dar conta. O resultado é uma obra perturbadora como todos os trabalhos anteriores de Trier, mas bem menos "pornográfico" do que o marketing e a curiosidade do público previam.

Misturando matemática, música clássica e filosofia a uma receita explosiva por natureza, Lars Von Trier narra a saga de Joe através de flashbacks, quando ela conta sua história ao solidário Seligman (Stellan Skarsgard), que a encontra caída e extremamente ferida perto de sua casa. Sentindo que pode confiar no homem que a ajudou, Joe revela a ele sua trajetória sexual, que teve início já na infância em brincadeiras com uma amiga. Aos poucos, ela passa para situações mais intensas, como a traumática perda da virgindade com Jerôme (Shia LaBeouf), que a atormentará pela vida inteira. Enquanto discute teorias matemáticas com Seligman e ouve suas histórias sobre pescaria - hobby que ele compara ao vício dela - Joe também revela a importância de seu relacionamento com o pai amoroso (Christian Slater), a amizade competitiva com B (Sophie Kennedy Clark) - que a incentivava a praticar atos ousados como transar com todos os passageiros possíveis de um trem - e a forma como gerenciava uma vida preenchida por inúmeros casos sexuais concomitantes e que resultou em uma experiência pouco agradável com a esposa de um dos amantes (Uma Thurman). Dotada de extrema autocrítica, Joe prepara o espírito de Seligman para chegar até o clímax de sua história - e que a fez acabar espancada na porta de sua casa.


"Ninfomaníaca, volume 1" não é um filme erótico, apesar do que pode parecer ao público menos informado: tudo bem que Lars Von Trier não se furta a mostrar cenas bem mais ousadas do que acontece no cinema comercial, mas não existe gratuidade nas sequências que mostram as desventuras sexuais de sua protagonista. Mesmo em momentos mais explícitos, não é intenção do filme excitar o espectador, e sim retratar com o máximo de realismo a rotina de uma mulher presa a suas próprias armadilhas. Joe sabe desde cedo onde colocar o desejo que lhe acomete - e, a princípio, o faz sem culpa e com um prazer que não teria como passar em branco por um mundo machista e propenso a todo tipo de julgamentos morais. E o castigo por sua liberdade, como se poderia esperar de um filme assinado por Von Trier, vem sem piedade justamente quando ela sente-se disposta a entregar-se ao amor - em uma cena angustiante que prepara o público para a segunda parte, que levará a protagonista ao fundo do poço físico e moral.

Mesmo que seja o rosto de Charlotte Gainsbourgh que enfeite os cartazes de "Ninfomaníaca", é inegável que boa parte do impacto do filme se deve à performance corajosa e intensa de Stacy Martin, que se entrega sem medo ao desafio de interpretar a juventude de Joe mesmo em cenas pra lá de quentes. Com um rosto angelical que contrasta com a voracidade do desejo sexual de sua personagem, Martin cativa a plateia com um misto de conformismo e sensualidade, enquanto contracena com atores do porte de Uma Thurman, Christian Slater e Shia LaBeouf em dias inspiradíssimos. Fotografado com capricho e criativo na edição - que mantém a atenção da plateia do primeiro ao último minuto de projeção - o filme de Von Trier é um primeiro capítulo instigante, repleto das maiores qualidades do cinema do diretor (e também um prato cheio para seus detratores). Como filme é fascinante, e como discussão é ainda melhor, ainda que só faça sentido completo após o término do segundo volume.

segunda-feira

O GRANDE HERÓI

O GRANDE HERÓI (Lone survivor, 2013, Film 44/Emmett/Furla Films, 121min) Direção: Peter Berg. Roteiro: Peter Berg, livro de Marcus Lutrell, Patrick Robinson. Fotografia: Tobias Schliesser. Montagem: Colby Parker Jr.. Música: Explosions in the Sky, Steve Jablonsky. Figurino: Amy Stofsky. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Ron Reiss. Produção executiva: Braden Aftergood, Brandt Andersen, Remington Chase, Grant Cramer, Mark Damon, Simon Fawcett, Kerry Foster, Louis G. Friedman, George Furla, Stepan Martirosyan, Jeff Rice, Steven Saxton, Lauren Selig, Adi Shankar, Jason Shuman, Spencer Silna, Tamara Birkemoe. Produção: Sarah Aubrey, Peter Berg, Randall Emmett, Akiva Goldsman, Vitaly Grigoriants, Norton Herrick, Stephen Levinson, Barry Spikings, Mark Wahlberg. Elenco: Mark Wahlberg, Taylor Kitsch, Emile Hirsch, Ben Foster, Eric Bana, Alexander Ludwig, Rich Ting, Yousuf Azami. Estreia: 12/11/13

2 indicações ao Oscar: Edição de Som, Mixagem de Som

Alguns reclamaram que se trata de mais uma obra que exalta o patriotismo americano - como se o louvado e superestimado "Sniper americano" fosse diferente ou ufanismo alterasse a qualidade de um filme em termos cinematográficos. Mas o fato é que "O grande herói", dirigido pelo ator/cineasta Peter Berg - que já havia demonstrado seu interesse por temas polêmicos em "O reino", de 2007 e comandou o mastodôntico fracasso "Battleship, a batalha dos mares" em 2012 - passa por cima de qualquer ideologia política para criar um poderoso drama de guerra que surpreendeu nas bilheterias americanas (tradicionalmente avesso a produções do gênero, salvo raras exceções) e caindo no gosto da crítica - foi eleito um dos dez melhores filmes de 2013 pela conceituada National Board of Review.

A encenação crua e realista de Berg de uma história real, ocorrida em 2005, durante a guerra no Afeganistão - e que já estava nos planos do diretor desde 2008, quando ele leu o livro que deu origem ao roteiro - remete às duras e violentas cenas de "Falcão negro em perigo", que deu a Ridley Scott uma indicação ao Oscar de diretor em 2002. Porém, enquanto Scott aproveitou a oportunidade para explorar seu virtuosismo técnico, sem focar-se a contento nos dramas de seus inúmeros personagens, Berg segue um caminho quase inverso. Sim, as cenas de conflito físico são dirigidas com segurança invejável e não poupam a audiência de sentir-se dentro da ação - para o que colabora também a maquiagem detalhista e a edição de som (que concorreu a uma merecida estatueta do Oscar) - mas o roteiro também se dá ao trabalho de dedicar boa parte de seu segundo ato ao desenvolvimento de seus protagonistas. Logicamente não há tempo para uma maior profundidade, mas contar com um elenco coadjuvante formado por Emile Hirsch, Eric Bana e Ben Foster (especialmente o último, em mais uma atuação estupenda) já é meio caminho andado para provocar a empatia essencial a uma história que, de outra maneira, seria apenas mais um filme de guerra a preencher as sessões noturnas da televisão.


Também favorável a "O grande herói" - que conta a história de um grupo de fuzileiros americanos que veem falhar sua missão de capturar um líder da Al Qaeda nas montanhas do Afeganistão e precisam lutar pela sobrevivência - é a presença de seu ator central, Mark Wahlberg. Surgido no mundo do entretenimento como modelo de cuecas Calvin Klein e posteriormente como o rapper Marky Mark, Wahlberg se reinventou como ator respeitado, presente em filmes prestigiados como "Boogie nights", "Três reis" e "Os infiltrados", de Martin Scorsese, pelo qual chegou a ser indicado ao Oscar. Na pele de Marcus Luttrell - que lidera a missão e acaba encontrando a salvação onde menos poderia esperar (com a ajuda do grande herói do título nacional) - o ator mostra que sabe escolher boa parte dos projetos dos quais participa (deixemos de lado bobagens como "Sem dor, sem ganho") e se manter sempre em evidência na fugaz fogueira das vaidades hollywoodianas com filmes de visibilidade e qualidade dramática.

Uma das boas surpresas de sua temporada, "O grande herói" ganha o público logo nos créditos de abertura - em cenas que mostram o rígido treinamento dos fuzileiros - e mantém sua atenção durante duas horas de adrenalina nas alturas, que se encerram com uma melancólica versão da clássica "Heroes", de David Bowie, na voz de Peter Gabriel. Escapando com inteligência de ser apenas mais uma obra de patriotismo exarcebado para tornar-se um drama de guerra da melhor estirpe, é também um trabalho impecável de edição, fotografia e técnica. Enfim, um filme imperdível.

sábado

O HOMEM DUPLICADO

O HOMEM DUPLICADO (Enemy, 2013, Pathé International, 91min) Direção: Dennis Villeneuve. Roteiro: Javier Gullón, romance de José Saramago. Fotografia: Nicolas Bolduc. Montagem: Matthew Hannam. Música: Danny Bensi, Saunder Jurriaans. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Jim Lambie. Produção executiva: François Ivernel, Victor Loewy, Cameron McCracken, Mark Slone. Produção: Miguel A. Faura, Niv Fichman. Elenco: Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Gadon, Isabella Rossellini. Estreia: 08/9/12 (Festival de Toronto)

Adam é um jovem professor universitário que vive em Toronto e leva uma rotina pacata, que inclui visitas à sua dedicada mãe e encontros ocasionais com uma bela mulher com quem evita maiores intimidades. Um dia, assistindo a um filme recomendado por um colega de trabalho, ele reconhece em um dos figurantes um homem idêntico a si mesmo. Movido por uma curiosidade implacável, ele descobre o nome do tal ator - Anthony Claire - e, depois de confirmar sua impressionante semelhança física com ele, parte em sua busca para encontrá-lo face a face. Quando tal encontro acontece, uma série de situações imprevistas une os dois rapazes (de personalidades opostas) e passa a invadir suas vidas íntimas.

À primeira vista, "O homem duplicado" é apenas mais um filme de suspense repleto de clichês, a despeito de ser baseado em um romance do premiado escritor português José Saramago. Mas basta prestar atenção nos créditos para se perceber que ele é bem mais do que isso. Na direção está o canadense Denis Villeneuve, que concorreu ao Oscar de filme estrangeiro com o devastador "Incêndios", e o elenco conta com a experiente Isabella Rossellini e o mais que conhecido Jake Gyllenhaal se dividindo nos papéis centrais. Herdando o desafio recusado por Javier Bardem (que não se achava adequado) e Christian Bale (impedido de fazer o filme por falta de tempo na agenda), Gyllenhaal acaba se mostrando mais do que capaz de enfrentar um roteiro que se liberta das amarras do gênero apresentando um conjunto de metáforas e símbolos de fazer qualquer fã de David Lynch vibrar a cada cena.


Desde a primeira cena, em um bizarro cenário que retrata um misterioso clube que remete imediatamente aos delírios visuais que Lynch imprimiu em obras singulares como "Veludo azul" e "Cidade dos sonhos", o filme de Villeneuve - finalizado antes do bem mais comercial "Os suspeitos", mas lançado posteriormente - já dá mostras ao espectador que não irá seguir o caminho tradicional das narrativas hollywoodianas. Construindo o suspense aos poucos e oferecendo econômicas pistas sobre o que realmente está acontecendo, o roteiro de Javier Gullón conduz a plateia a um angustiante jogo de espelhos, enfatizado pela extraordinária fotografia, que se equilibra com maestria entre os ensolarados exteriores e os opressivos e claustrofóbicos ambientes fechados - uma dualidade que casa perfeitamente com a ideia central da trama, que versa sobre extremos e dicotomias a todo momento. E logicamente, encerrar seu filme com um final alegórico apenas confirma sua vocação para cult: não foi à toa que "O homem duplicado" pouca atenção chamou nas bilheterias e passou praticamente em branco até mesmo pelas cerimônias de premiação, onde foi solenemente ignorado apesar de suas evidentes qualidades artísticas.

Tipo de filme do qual pouco se pode falar sob pena de estragar a diversão alheia, "O homem duplicado" é um prato cheio para o espectador que procura mais do que simples entretenimento. Inteligente, sutil, bem dirigido e bem interpretado - Isabella Rossellini ilumina a tela no papel da mãe do protagonista - o filme de Villeneuve, um cineasta elegante e incapaz de obviedades, é para ser assistido, discutido e aplaudido. Em um dos melhores trabalhos de uma carreira jovem mas já solidificada, Jake Gyllenhaal é apenas a principal razão para se conhecer um dos melhores e mais subestimados filmes de 2013 - nem que seja para ficar com a cabeça repleta de nós quando acabar a sessão.

sexta-feira

TRAPAÇA

TRAPAÇA (American hustle, 2013, Columbia Pictures/Annapurna Pictures/Atlas Entertainment, 138min) Direção: David O. Russell. Roteiro: David O. Russell, Eric Warren Singer. Fotografia: Linus Sandgren. Montagem: Alan Baumgarten, Jay Cassidy, Crispin Struthers. Música: Danny Elfman. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Heather Loeffler. Produção executiva: Matthew Budman, Bradley Cooper, George Parra, Eric Warren Singer. Produção: Megan Ellison, Jonathan Gordon, Charles Roven, Richard Suckle. Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Jeremy Renner, Robert DeNiro, Louis C.K., Jack Huston, Michael Peña, Shea Whigham, Alessandro Nivola. Estreia: 12/12/13

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David O. Russell), Ator (Christian Bale), Atriz (Amy Adams), Ator Coadjuvante (Bradley Cooper), Atriz Coadjuvante (Jennifer Lawrence), Roteiro Original, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Atriz Comédia/Musical (Amy Adams), Atriz Coadjuvante (Jennifer Lawrence)

Em 1999 o cineasta David O. Russell realizou um dos primeiros filmes americanos a tratar sobre a guerra no Golfo, a comédia de ação "Três reis", que demonstrava um senso de humor afiado e uma criatividade que seria ainda mais perceptível no bizarro "Huckabees, a vida é uma comédia", lançado cinco anos depois. Depois disso, de uma hora pra outra, o nova-iorquino tornou-se um queridinho absoluto da Academia. "O vencedor", de 2010, deu a Christian Bale e Melissa Leo os Oscar de coadjuvante, além de ter indicado Amy Adams na mesma categoria. "O lado bom da vida", de 2012, premiou Jennifer Lawrence como melhor atriz - e indicou também Bradley Cooper a melhor ator e Robert DeNiro e Jackie Weaver a coadjuvantes. Ambos concorreram aos Oscar de filme, direção e roteiro. Coroando uma fase sem igual, Russell repetiu o feito na cerimônia de 2014: "Trapaça", seu trabalho seguinte, concorreu a dez estatuetas, incluindo as cinco principais - além de, como aconteceu no ano anterior, ter todos os seus quatro atores principais entre os finalistas nas categorias de interpretação. Isso tudo - mais o Golden Globe de melhor comédia/musical e o prêmio de melhor filme pela Associação de Críticos de Nova York - levantou uma importante questão: o filme era assim tão bom?

Se depender do resultado negativo dos mesmos acadêmicos que o homenagearam com uma dezena de indicações e o deixaram sair da cerimônia de mãos vazias, a resposta é um sonoro "não". Porém, é impossível negar que, apesar de sua vontade explícita de ser um clássico instantâneo, "Trapaça" é uma obra até divertida, desde que vista sem maiores expectativas. Seu maior problema é a ambição: enquanto seus dois filmes anteriores eram calcados basicamente em personagens, sua terceira obra consecutiva a chegar ao Oscar é recheada de pretensões estilísticas que infelizmente cansam mais do que encantam. Bebendo diretamente na fonte do cinema enérgico e marginal de Martin Scorsese, incluindo narrações em off de mais de um personagem, Russell apenas confirma que não tem talento para sair de sua zona de conforto. A narrativa é confusa, lenta e alguns personagens são simplesmente irritantes. Ironicamente, o cineasta disputou a estatueta de melhor diretor com o próprio Scorsese, que estava no páreo pelo irônico "O lobo de Wall Street" - no qual se reinventava novamente. Ambos perderam para Alfonso Cuarón e seu soporífero "Gravidade", mas, por mais difícil que seja de acreditar, o aprendiz com sua versão light dos filmes de golpe parecia ter mais chances que o mestre com seu sarcasmo e ousadia.


A trama de "Trapaça" é complexa como convém a um filme que trata de golpes financeiros, mas narrada de forma convencional, sem maiores arroubos de criatividade, preocupando-se mais com as relações interpessoais de seus personagens, interpretados por atores em momentos de rara inspiração, ainda que por vezes forçados. Christian Bale está mais uma vez irreconhecível como Irving Rosenfeld, um golpista que, em 1977, é forçado a trabalhar ao lado do agente do FBI Ritchie DiMaso (Bradley Cooper) como forma de ter seus crimes perdoados. Casado com a perua Rosalyn (Jennifer Lawrence) - acostumada com os luxos que uma vida de crime proporciona - Rosenfeld conta com a ajuda de sua amante, Sydney (Amy Adams), para tentar jogar o político Carmine Polito (Jeremy Renner) e outros figurões atrás das grades. Logicamente nem tudo sai como o planejado, o que leva todos a situações inesperadas - e a um final inteligente o bastante (mas quase previsível) para justificar os momentos menos ágeis do roteiro.

No fundo, a profusão de indicações de "Trapaça" ao Oscar teve mais a ver com os valores de produção - por se passar no final da década de 70 os figurinos e os cenários mereceram cuidado especial - e o elenco do que exatamente por suas qualidades inovadoras. Parte de um subgênero do cinema hollywoodiano - os filmes de roubo - a obra de Russell segue sua cartilha à risca, criando personagens simpáticos em sua marginalidade e uma trama rocambolesca na medida exata para prender a atenção e não confundir o público. Se Amy Adams utiliza a sensualidade pela primeira vez em sua carreira em um interpretação impecável e Bale mais uma vez mostra que é um ator extraordinário, os coadjuvantes Bradley Cooper e Jennifer Lawrence (protagonistas do filme anterior do diretor) não fazem feio, ainda que a elogiada Lawrence talvez exagere um pouco nas tintas de sua personagem - culpa dela, da direção ou do excesso de expectativa em torno de seu nome?

Em resumo, "Trapaça" é filme razoável mas jamais brilhante, simpático mas nunca encantador. O excesso de indicações ao Oscar talvez tenha representado mais um exemplo de alucinação coletiva que acomete frequentemente a Academia do que um atestado de suas qualidades. Apenas um passatempo com mais ambições do que acertos. E além do mais, tem Robert DeNiro em um papel decente, o que não é sempre que acontece ultimamente.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...