MÚSICA E LÁGRIMAS (The Glenn Miller story, 1954, Universal Studios, 115min) Direção: Anthony Mann. Roteiro: Valentine Davies, Oscar Brodney. Fotografia: William Daniels. Montagem: Russell Schoengarth. Figurino: Jay Morley Jr.. Direção de arte/cenários: Alexander Golitzen, Bernard Herzbrun/Russell A. Gausman, Julia Heron. Produção: Aaron Rosenberg. Elenco: James Stewart, June Allyson, Harry Morgan, Charles Drake, George Tobias. Estreia: 17/02/54
3 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Trilha Sonora Original (Musical), Som
Vencedor do Oscar de Melhor Som
No período compreendido entre 1939 e 1942, não existia no mundo orquestra mais famosa do que a liderada por Glenn Miller: campeão de vendas de discos e com uma agenda de apresentações quase desumana, o músico norte-americano que mudou a forma como o público ouvia (e reagia) às músicas que embalavam bailes por todo o planeta. Dono de um estilo único e moderno, Miller surpreendeu aos fãs quando, no auge do sucesso, em 1941, resolveu deixar tudo de lado e alistar-se para lutar pelos EUA na II Guerra Mundial. Seus planos não eram pouco ambiciosos: ele sabia que, dentre os jovens soldados norte-americanos, havia muitos talentos à espera de serem descobertos e que dariam qualquer coisa para trocar suas baionetas por instrumentos musicais. Depois de convencer o Exército a lhe conferir a patente de Capitão apesar de nunca ter tido contato com qualquer serviço militar, Miller passou a recrutar os novos membros de sua orquestra de pelotão em pelotão, até formar um grupo de quase cinquenta profissionais - que iam de soldados a sargentos - em uma orquestra que tinha por objetivo entreter as tropas aliadas pela Europa. Já como major, ele levou diversão à milhares de conterrâneos pelos anos em que esteve à frente de seu novo grupo, mas em dezembro de 1944, embarcou em um voo de Londres a Paris - e simplesmente desapareceu. Seu monomotor simplesmente parece ter-se dissipado no ar, em um dos maiores mistérios da história da aviação - nem mesmo várias versões surgidas nas décadas seguintes deram conta de por um ponto final na questão.
Mas se a trágica e inexplicada morte de Miller ainda hoje intriga fãs e historiadores, ela é apenas um detalhe em "Música e lágrimas", lançado pouco menos de dez anos após seu desaparecimento e que se dedica, com quase veneração e sem espaço para polêmicas, a contar sua trajetória como músico e pai de família. Com aprovação da viúva do músico, Helen, o roteiro do filme de Anthony Mann ignora o gênio difícil de Miller e, na pele do dócil e respeitabilíssimo James Stewart, o protagonista chega ao público com uma imagem intocada e bem mais apropriada ao que desejava a plateia dos anos 50, ainda traumatizada com seu destino inesperado. Dirigida por Anthony Mann ( que ficaria conhecido pelo épico "El Cid", realizado quase uma década mais tarde), a cinebiografia de Glenn Miller foi muito bem recebida pela crítica e pelo público justamente por resgatar a memória afetiva de um de seus maiores ídolos, mas à luz do tempo, pode-se dizer que, apesar de correto, o filme de Mann não resiste tão bem ao tempo: é açucarado em excesso, e não oferece mais do que uma visão simplista e unilateral de seu personagem principal.
Premiado com o Oscar de melhor som - nada mais apropriado para um filme que tem a música como sua base e principal ingrediente - "Música e lágrimas" acompanha a história de Miller a partir do momento em que ele ingressa na banda de Ben Pollack, impressionado com um de seus arranjos, e de seu reencontro com uma uma antiga namorada, Helen Berger (June Allyson) - com quem virá a se casar depois de dois anos tentando encontrar o ritmo perfeito para a criação de sua própria orquestra. O roteiro (também indicado ao Oscar) não faz questão de aprofundar o desenho de seus protagonistas, optando, ao invés disso, em acompanhar a escalada do compositor rumo ao topo das paradas de sucesso e da aclamação popular. Emoldurando suas cenas com uma trilha sonora recheada de hits de Miller (é lógico), Mann constrói uma narrativa sem sobressaltos, mas tampouco sem maiores emoções: sua obra é morna, ainda que agradável; elegante, ainda que sem brilho; didática, ainda que superficial. Stewart está bem como Glenn Miller, mesmo que sua visão do personagem esteja um tanto distante da real personalidade do músico (culpa do roteiro chapa branca e sem ousadias). June Allyson, por sua vez, faz o que pode com uma personagem que pouco faz em cena a não ser apoiar o marido incondicionalmente e lhe servir de inspiração ocasional - o poder da verdadeira Helen era tanto sobre o projeto que até mesmo o mais popular e importante membro da orquestra de seu marido, Tex Beneke, ficou de fora de sua versão da história, porque eles estavam brigados na ocasião da realização do filme.
"Música e lágrimas" é um filme para fãs. Fãs de Glenn Miller, de James Stewart, de boa música e de filmes clássicos. Está longe de ser uma obra-prima ou até mesmo um filme imperdível, mas agrada a quem não se cansa de ouvir "In the mood" ou "Moonlight serenade" como forma de sublinhar um romantismo nostálgico e há muito perdido. E o fato de que a história de Miller ter acabado de forma tão intrigante - a teoria de que seu monomotor foi abatido por engano por um avião aliado que estava se livrando de bombas não utilizadas, para pousar mais leve, acabou sendo jogada por terra logo que surgiu - apenas torna seu caminho ainda mais interessante. Pena que faltou coragem e mais criatividade (algo que nunca lhe faltou) ao filme que lhe fez uma justa homenagem.
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domingo
A FELICIDADE NÃO SE COMPRA
A FELICIDADE NÃO SE COMPRA (It's a wonderful life, 1946, Liberty Films, 130min) Direção: Frank Capra. Roteiro: Frances Goodrich, Albert Hackett, Frank Capra, estória de Philip Van Doren Stern. Fotografia: Joseph Biroc, Joseph Walker. Montagem: William Hornbeck. Música: Dimitri Tiomkin. Figurino: Edward Stevenson. Direção de arte/cenários: Jack Okey/Emile Kuri. Produção: Frank Capra. Elenco: James Stewart, Donna Reed, Lionel Barrymore, Thomas Mitchell, Henry Travers. Estreia: 21/12/46
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Frank Capra), Ator (James Stewart), Montagem, Som
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Frank Capra)
É até difícil de acreditar, mas um dos filmes mais adorados pelas plateias dos últimos sessenta anos – e capaz de emocionar ao mais renitente e cínico espectador – foi um fracasso tão grande de bilheteria à época de sua estreia que abreviou a vida do estúdio independente que lhe deu origem. Baseado em uma pequena história publicada em um cartão de Natal, “A felicidade não se compra” talvez seja o filme que melhor ilustra as características da obra do cineasta Frank Capra, um dos mais populares e importantes diretores da era de ouro de Hollywood. Impregnada de otimismo, senso de humor, delicadeza e uma grande dose de ingenuidade, a história de um homem simples que em momentos de desespero reencontra a razão de viver através de um anjo disposto a conquistar suas almejadas asas foi sobrepujada, em seu lançamento, pelo êxito do drama pós-guerra “Os melhores anos de nossas vidas”, tanto nas bilheterias quanto no reconhecimento da Academia. Mas bastou que fosse redescoberto, nos anos 70, para tornar-se, indubitavelmente, um clássico natalino dos mais adorados pelo público através das décadas.
Escolhido por Capra para ser o primeiro filme de sua recém-fundada Liberty Films, na qual era sócio dos cineastas George Stevens e William Wyler e que pretendia lançar obras relevantes e sérias, “A felicidade não se compra” caiu em seu colo quando já estava em desenvolvimento por outro estúdio e com o nome de Cary Grant como protagonista. Baseado em um conto de Philip Van Doren, o roteiro do casal Frances Goodrich e Albert Hackett acabou sendo retocado pelo diretor para melhor caber em sua escolha para o papel central, o hesitante James Stewart. Era a primeira – e foi a única – vez em que Capra trabalhou escrevendo um filme seu, mas as intenções eram as melhores: apesar da fúria dos roteiristas anteriores, Capra (já vencedor do Oscar por “Aconteceu naquela noite”, de 1934) sabia que a história encontraria, nas mãos de Stewart, um calor humano mais crível e condizente com a trama central, e se para isso fosse preciso alterar alguns detalhes, assim seria feito. E foi. Ainda em dúvida se já era hora de voltar aos sets de filmagem – depois de ter se juntado ao exército americano na guerra – Stewart foi convencido pelo colega Lionel Barrymore a aceitar o papel que também já havia sido cogitado para Henry Fonda. Premiado com o Golden Globe e indicado ao Oscar por seu desempenho, o ator jamais poderia imaginar que o quase simplório George Bailey se transformaria no trabalho mais icônico de sua longa e vitoriosa carreira.
Lançado com apenas um dia de diferença de “Os melhores anos de nossas vidas” – que levou multidões aos cinemas e seria o grande vencedor do Oscar do ano seguinte – “A felicidade não se compra” foi um fracasso inesperado. Não apenas porque era a união de dois nomes bastante populares à época (Capra e Stewart) mas também porque ninguém poderia imaginar que as plateias fossem rechaçar tão violentamente um filme com intenções tão nobres. Foi somente quando caiu em domínio público, em 1974 – graças a confusões burocráticas – que sua sorte virou. Redescoberto por uma nova geração que passou a acompanhar suas tradicionais reprises televisivas no período do Natal, o filme começou, então, a conquistar fãs leais e influentes – como os diretores Rob Reiner e Edward Zwick – e ser parte de um ritual anual que o converteu em uma instituição norte-americana.
A história é simples, mas repleta de uma poesia redentora e humanista que equilibra até mesmo a acidez um tanto cínica de alguns momentos: tentando desesperadamente ganhar seu almejado par de asas, o anjo Clarence (a princípio apenas uma luz no céu, e posteriormente na figura bizarra de Henry Travers) recebe a incumbência de seus superiores de descer à Terra e ajudar um cidadão em apuros. O tal cidadão é George Bailey (James Stewart), que, na véspera de Natal, pensa em suicidar-se devido a manobras sujas do banqueiro Potter (Lionel Barrymore). Para melhor entender a situação, Clarence é posto a par - juntamente com a plateia - de toda a história do rapaz. Morador da pequena Bedford Falls, George abdicou de seus sonhos de juventude (viajar pelo mundo e tornar-se arquiteto) para permanecer ao lado da família e dar continuidade aos negócios do pai. Casado com a bela Mary (Donna Reed) e pai de adoráveis crianças, ele aos poucos acostumou-se com uma nova rotina, de ajudar aos amigos e necessitados do lugar. Seu desespero vem do fato de ter perdido todo o dinheiro guardado para as casas populares sonhadas pelos contribuintes. Mas Clarence, nem um pouco disposto a perder a oportunidade de finalmente ser presenteado com suas asas, decide impedir o suicídio de George mostrando a ele como seria a vida da cidade e de muitas pessoas a seu redor se ele nunca tivesse existido.
Com uma meia-hora final brilhante - quando George percebe sua importância para as outras pessoas - e a coragem radical de não tentar evitar um sentimentalismo quase exagerado, "A felicidade não se compra" é a prova contundente de que a sinceridade é um ingrediente dos mais importantes do cinema. Debaixo do humor ingênuo, da lição de vida e da crítica mordaz à ambição, o que mais se sobressai do filme de Capra é uma sinceridade à toda prova e um amor à humanidade que fica óbvio em cada cena e principalmente no olhar de felicidade de Bailey ao constatar que não há nada de mais importante no mundo do que a amizade - e que cada pessoa tem o poder de transformar a vida de outras. Uma bela lição em um filme atemporal!
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Frank Capra), Ator (James Stewart), Montagem, Som
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Frank Capra)
É até difícil de acreditar, mas um dos filmes mais adorados pelas plateias dos últimos sessenta anos – e capaz de emocionar ao mais renitente e cínico espectador – foi um fracasso tão grande de bilheteria à época de sua estreia que abreviou a vida do estúdio independente que lhe deu origem. Baseado em uma pequena história publicada em um cartão de Natal, “A felicidade não se compra” talvez seja o filme que melhor ilustra as características da obra do cineasta Frank Capra, um dos mais populares e importantes diretores da era de ouro de Hollywood. Impregnada de otimismo, senso de humor, delicadeza e uma grande dose de ingenuidade, a história de um homem simples que em momentos de desespero reencontra a razão de viver através de um anjo disposto a conquistar suas almejadas asas foi sobrepujada, em seu lançamento, pelo êxito do drama pós-guerra “Os melhores anos de nossas vidas”, tanto nas bilheterias quanto no reconhecimento da Academia. Mas bastou que fosse redescoberto, nos anos 70, para tornar-se, indubitavelmente, um clássico natalino dos mais adorados pelo público através das décadas.
Escolhido por Capra para ser o primeiro filme de sua recém-fundada Liberty Films, na qual era sócio dos cineastas George Stevens e William Wyler e que pretendia lançar obras relevantes e sérias, “A felicidade não se compra” caiu em seu colo quando já estava em desenvolvimento por outro estúdio e com o nome de Cary Grant como protagonista. Baseado em um conto de Philip Van Doren, o roteiro do casal Frances Goodrich e Albert Hackett acabou sendo retocado pelo diretor para melhor caber em sua escolha para o papel central, o hesitante James Stewart. Era a primeira – e foi a única – vez em que Capra trabalhou escrevendo um filme seu, mas as intenções eram as melhores: apesar da fúria dos roteiristas anteriores, Capra (já vencedor do Oscar por “Aconteceu naquela noite”, de 1934) sabia que a história encontraria, nas mãos de Stewart, um calor humano mais crível e condizente com a trama central, e se para isso fosse preciso alterar alguns detalhes, assim seria feito. E foi. Ainda em dúvida se já era hora de voltar aos sets de filmagem – depois de ter se juntado ao exército americano na guerra – Stewart foi convencido pelo colega Lionel Barrymore a aceitar o papel que também já havia sido cogitado para Henry Fonda. Premiado com o Golden Globe e indicado ao Oscar por seu desempenho, o ator jamais poderia imaginar que o quase simplório George Bailey se transformaria no trabalho mais icônico de sua longa e vitoriosa carreira.
Lançado com apenas um dia de diferença de “Os melhores anos de nossas vidas” – que levou multidões aos cinemas e seria o grande vencedor do Oscar do ano seguinte – “A felicidade não se compra” foi um fracasso inesperado. Não apenas porque era a união de dois nomes bastante populares à época (Capra e Stewart) mas também porque ninguém poderia imaginar que as plateias fossem rechaçar tão violentamente um filme com intenções tão nobres. Foi somente quando caiu em domínio público, em 1974 – graças a confusões burocráticas – que sua sorte virou. Redescoberto por uma nova geração que passou a acompanhar suas tradicionais reprises televisivas no período do Natal, o filme começou, então, a conquistar fãs leais e influentes – como os diretores Rob Reiner e Edward Zwick – e ser parte de um ritual anual que o converteu em uma instituição norte-americana.
A história é simples, mas repleta de uma poesia redentora e humanista que equilibra até mesmo a acidez um tanto cínica de alguns momentos: tentando desesperadamente ganhar seu almejado par de asas, o anjo Clarence (a princípio apenas uma luz no céu, e posteriormente na figura bizarra de Henry Travers) recebe a incumbência de seus superiores de descer à Terra e ajudar um cidadão em apuros. O tal cidadão é George Bailey (James Stewart), que, na véspera de Natal, pensa em suicidar-se devido a manobras sujas do banqueiro Potter (Lionel Barrymore). Para melhor entender a situação, Clarence é posto a par - juntamente com a plateia - de toda a história do rapaz. Morador da pequena Bedford Falls, George abdicou de seus sonhos de juventude (viajar pelo mundo e tornar-se arquiteto) para permanecer ao lado da família e dar continuidade aos negócios do pai. Casado com a bela Mary (Donna Reed) e pai de adoráveis crianças, ele aos poucos acostumou-se com uma nova rotina, de ajudar aos amigos e necessitados do lugar. Seu desespero vem do fato de ter perdido todo o dinheiro guardado para as casas populares sonhadas pelos contribuintes. Mas Clarence, nem um pouco disposto a perder a oportunidade de finalmente ser presenteado com suas asas, decide impedir o suicídio de George mostrando a ele como seria a vida da cidade e de muitas pessoas a seu redor se ele nunca tivesse existido.
Com uma meia-hora final brilhante - quando George percebe sua importância para as outras pessoas - e a coragem radical de não tentar evitar um sentimentalismo quase exagerado, "A felicidade não se compra" é a prova contundente de que a sinceridade é um ingrediente dos mais importantes do cinema. Debaixo do humor ingênuo, da lição de vida e da crítica mordaz à ambição, o que mais se sobressai do filme de Capra é uma sinceridade à toda prova e um amor à humanidade que fica óbvio em cada cena e principalmente no olhar de felicidade de Bailey ao constatar que não há nada de mais importante no mundo do que a amizade - e que cada pessoa tem o poder de transformar a vida de outras. Uma bela lição em um filme atemporal!
ANATOMIA DE UM CRIME
ANATOMIA DE UM CRIME (Anatomy of a murder, 1959, Carlyle Productions, 160min) Direção: Otto Preminger. Roteiro: Wendell Mayes, romance de Robert Traver. Fotografia: Sam Leavitt. Montagem: Louis R. Loeffler. Música: Duke Ellington. Direção de arte: Boris Leven. Produção: Otto Preminger. Elenco: James Stewart, Lee Remick, Ben Gazzarra, Arthur O'Connell, Eve Arden, George C. Scott. Estreia: 01/7/59
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (James Stewart), Ator Coadjuvante (Arthur O'Connell, George C. Scott), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Montagem
Um filme que, em plena vigência do Código Hays - guia de regras morais impostas ao cinema americano entre os anos de 1930 e 1968 e que tentava controlar, de forma ditatorial, o conteúdo que se considerava desagradável ou impróprio ao público - se utilizava de termos como "calcinha", "estupro", "esperma", "penetração" e "vagabunda" já merecia figurar em qualquer lista de obras imprescindíveis para se melhor compreender a história do cinema hollywoodiano. Se o filme em questão ainda por cima for um drama de tribunal da melhor estirpe, adaptado do romance de um juiz da Suprema Corte, dirigido por um cineasta sério e estrelado por James Stewart e George C. Scott, então, tal merecimento se transforma em obrigação. Sendo assim, não é à toa que "Anatomia de um crime" siga, mais de meio século depois de seu lançamento, como uma das mais importantes produções americanas de todos os tempos.
O protagonista do filme é Paul Biegler (James Stewart), um advogado mais afeito às pescarias, ao jazz que volta e meia toca em seu piano e às suas longas conversas com o melhor amigo, Parnell McCarthy (Arthur O'Connell). O que acaba o retirando de sua semi-aposentadoria - e ainda assim meio à contra-gosto - é o telefonema de uma mulher chamada Laura Manion (Lee Remick em papel que quase foi de Lana Turner): ela o contrata para defender seu marido, o tenente do exército Frederick Manion (Ben Gazzarra). O jovem réu é acusado do assassinato de outro homem, mas Laura insiste que o crime aconteceu como forma de vingança, por a vítima tê-la violentado. Não demora muito para que Biegler passe a duvidar um pouco da história contada por seus clientes, uma vez que Laura não é exatamente uma mulher exemplar: vulgar, provocante e pouco arraigada a convenções sociais, ela pode ser um sério obstáculo à absolvição do marido. Para piorar as coisas, o promotor convocado para o caso é o vaidoso e ambicioso Claude Dancer (o ótimo George C. Scott, que faria história onze anos depois recusando seu Oscar por "Patton, rebelde ou herói?"), cujo estilo sóbrio contrasta ferozmente com o jeito simples e quase caipira de Biegler.
Longe de buscar o sensacionalismo que o tema poderia sugerir, "Anatomia de um crime" utiliza de maneira sóbria e inteligente os elementos que o destacam ainda hoje entre seus congêneres. Apesar de apresentar em seu roteiro tudo aquilo que atualmente pode ser considerado clichê, Wendell Mayes - indicado ao Oscar por seu meticuloso trabalho - não hesita em embaralhar as cartas do jogo, deixando no espectador a dúvida crucial que também acomete ao corpo de jurados: será que realmente a história contada pelo réu é verdadeira? Será que a vítima do estupro é tão inocente quanto se declara? Será que uma mulher flagrantemente pouco afeita ao puritanismo de sua cidadezinha merece ser julgada como criminosa? Ao estabelecer todas essas questões, tanto o roteiro de Mayes quanto a direção imparcial de Otto Preminger dão um passo à frente em questões até então varridas para debaixo do tapete da sociedade ianque.
À parte o fato de ter tido a coragem de desafiar o tal Código de Produção, com seu tema e seu roteiro sem meias-palavras ou suscetibilidades, "Anatomia de um crime" conquista o público por causa principalmente devido a suas qualidades dramáticas, que vão desde a direção segura de Otto Preminger - que trata a audiência como gente grande e capaz de tirar suas próprias conclusões, evitando o uso de flashbacks e mantendo a dubiedade da versão oficial da defesa - até a escalação certeira de um elenco inspiradíssimo. James Stewart poucas vezes esteve tão seguro em cena, especialmente nos confrontos com George C. Scott e nas cenas encharcadas de uma tensão sexual quase palpável com a Laura Manion de Lee Remick. Destaca-se também um jovem Ben Gazzarra, mostrando-se extremamente eficaz como o réu em constante estado de excitação violenta. Eles são as ferramentas que Preminger utiliza para construir sua obra-prima.
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (James Stewart), Ator Coadjuvante (Arthur O'Connell, George C. Scott), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Montagem
Um filme que, em plena vigência do Código Hays - guia de regras morais impostas ao cinema americano entre os anos de 1930 e 1968 e que tentava controlar, de forma ditatorial, o conteúdo que se considerava desagradável ou impróprio ao público - se utilizava de termos como "calcinha", "estupro", "esperma", "penetração" e "vagabunda" já merecia figurar em qualquer lista de obras imprescindíveis para se melhor compreender a história do cinema hollywoodiano. Se o filme em questão ainda por cima for um drama de tribunal da melhor estirpe, adaptado do romance de um juiz da Suprema Corte, dirigido por um cineasta sério e estrelado por James Stewart e George C. Scott, então, tal merecimento se transforma em obrigação. Sendo assim, não é à toa que "Anatomia de um crime" siga, mais de meio século depois de seu lançamento, como uma das mais importantes produções americanas de todos os tempos.
O protagonista do filme é Paul Biegler (James Stewart), um advogado mais afeito às pescarias, ao jazz que volta e meia toca em seu piano e às suas longas conversas com o melhor amigo, Parnell McCarthy (Arthur O'Connell). O que acaba o retirando de sua semi-aposentadoria - e ainda assim meio à contra-gosto - é o telefonema de uma mulher chamada Laura Manion (Lee Remick em papel que quase foi de Lana Turner): ela o contrata para defender seu marido, o tenente do exército Frederick Manion (Ben Gazzarra). O jovem réu é acusado do assassinato de outro homem, mas Laura insiste que o crime aconteceu como forma de vingança, por a vítima tê-la violentado. Não demora muito para que Biegler passe a duvidar um pouco da história contada por seus clientes, uma vez que Laura não é exatamente uma mulher exemplar: vulgar, provocante e pouco arraigada a convenções sociais, ela pode ser um sério obstáculo à absolvição do marido. Para piorar as coisas, o promotor convocado para o caso é o vaidoso e ambicioso Claude Dancer (o ótimo George C. Scott, que faria história onze anos depois recusando seu Oscar por "Patton, rebelde ou herói?"), cujo estilo sóbrio contrasta ferozmente com o jeito simples e quase caipira de Biegler.
Longe de buscar o sensacionalismo que o tema poderia sugerir, "Anatomia de um crime" utiliza de maneira sóbria e inteligente os elementos que o destacam ainda hoje entre seus congêneres. Apesar de apresentar em seu roteiro tudo aquilo que atualmente pode ser considerado clichê, Wendell Mayes - indicado ao Oscar por seu meticuloso trabalho - não hesita em embaralhar as cartas do jogo, deixando no espectador a dúvida crucial que também acomete ao corpo de jurados: será que realmente a história contada pelo réu é verdadeira? Será que a vítima do estupro é tão inocente quanto se declara? Será que uma mulher flagrantemente pouco afeita ao puritanismo de sua cidadezinha merece ser julgada como criminosa? Ao estabelecer todas essas questões, tanto o roteiro de Mayes quanto a direção imparcial de Otto Preminger dão um passo à frente em questões até então varridas para debaixo do tapete da sociedade ianque.
À parte o fato de ter tido a coragem de desafiar o tal Código de Produção, com seu tema e seu roteiro sem meias-palavras ou suscetibilidades, "Anatomia de um crime" conquista o público por causa principalmente devido a suas qualidades dramáticas, que vão desde a direção segura de Otto Preminger - que trata a audiência como gente grande e capaz de tirar suas próprias conclusões, evitando o uso de flashbacks e mantendo a dubiedade da versão oficial da defesa - até a escalação certeira de um elenco inspiradíssimo. James Stewart poucas vezes esteve tão seguro em cena, especialmente nos confrontos com George C. Scott e nas cenas encharcadas de uma tensão sexual quase palpável com a Laura Manion de Lee Remick. Destaca-se também um jovem Ben Gazzarra, mostrando-se extremamente eficaz como o réu em constante estado de excitação violenta. Eles são as ferramentas que Preminger utiliza para construir sua obra-prima.
quinta-feira
FESTIM DIABÓLICO
FESTIM DIABÓLICO (Rope, 1948, Warner Bros, 80min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Arthur Laurents, adaptação de Hume Cronyn, peça teatral de Patrick Hamilton. Fotografia: William V. Skall, Joseph Valentine. Montagem: William H. Zeigler. Direção de arte/cenários: Perry Ferguson/Howard Bristol, Emile Kuri. Produção: Sidney Bernstein, Alfred Hitchcock. Elenco: James Stewart, Farley Granger, John Dall, Edith Evanson, Douglas Dick, Joan Chandler, Sir Cedric Hardwicke, Constance Collier. Estreia: 26/8/48
O primeiro filme colorido do mestre do suspense Alfred Hitchcock - e também o primeiro em que ele assume o papel de produtor - é mais uma prova cabal de que o cineasta inglês tinha pleno domínio da técnica cinematográfica, além de seu talento quase sobrenatural para manipular os medos e tensões da plateia. Adaptando livremente a peça teatral de Patrick Hamilton (e por livremente leia-se com alterações bastante substanciais), Hitch resolveu manter na versão cinematográfica a sensação de tempo real do espetáculo através de um artifício ainda pouco utilizado no cinema de então e ainda hoje raramente visto: um plano único, que acompanha os personagens durante pouco menos de hora e meia. Logicamente, não há uma única tomada - algo impraticável devido a limitações técnicas - mas é inegável que a meta foi atingida: "Festim diabólico" é uma aula de narrativa, onde o diretor abdica de uma de suas maiores qualidades como artista (a decupagem cuidadosa e rica de planos, que privilegiava a montagem como forma de acentuar a importância emocional de determinadas cenas) para experimentar um novo modo de contar uma história.
Repleta de dificulades técnicas - fios espalhados pelo set, ruídos de móveis especialmente construídos sendo arrastados e um especial desafio em termos de iluminação que acabou afastando o diretor de fotografia William V. Skall - a ousadia de Hitchcock em criar um marco na história do cinema acabou disfarçando para o público e os censores uma ousadia ainda maior, desta vez creditada ao dramaturgo Patrick Hamilton: em sua peça teatral, os dois protagonistas são homossexuais, assim como o professor de um deles, vivido no filme por James Stewart. Na versão para as telas não há menção explícita à sexualidade dos rapazes - e o professor não só é hetero e mais velho do que no texto original como tem um interesse romântico feminino. Tais medidas da adaptação feita pelo também ator Hume Cronyn (que foi casado com Jessica Tandy até sua morte) não foram o bastante para que o filme fosse banido em diversas cidades dos EUA, ignorando que a trama foi inspirada em um caso real e ocorrido por dois estudantes da Universidade de Chicago.
E a trama, apesar de todo o tititi em torno das técnicas corajosas e então vanguardistas de Hitchcock, consegue se manter sólida e interessante mesmo mais de seis décadas desde seu lançamento. Dois jovens estudantes, Brandon (John Dall) e Phillip (Farley Granger), que dividem um apartamento em Nova York resolvem testar sua teoria sobre um crime perfeito e matam um colega, David Kentley (Dick Hogan, que aparece apenas no primeiro take, sendo enforcado). Depois do ato cometido, eles colocam o corpo do rapaz em um baú, sabendo que na mesma noite receberão um grupo de convidados para um coquetel. Sua intenção é agir normalmente diante dos pais da vítima, de sua ex-noiva e de um professor, Rupert Cadell (James Stewart), a quem querem provar sua superioridade intelectual. Durante a noite, o nervosismo de Phillip quase põe tudo a perder, mas a frieza de Brandon não pretende se deixar subjugar pela inteligência de Cadell.
Se fosse rodado de maneira convencional - com todos os artifícios que fazem dos filmes de Hitchcock a delícia que são - "Festim diabólico" certamente seria um sucesso a mais em sua carreira brilhante. Como está, no entanto, ele se sobressai pela coragem de um diretor em romper a inércia de uma indústria e inovar a feitura de seus filmes mesmo correndo sérios riscos financeiros. O público pode até nem se dar conta da forma com que o filme foi feito - com seus truques inteligentes para disfarçar a mudança de um take para outro ou com as câmeras deslizando pelo cenário - mas fica hipnotizado pela maneira com que a história é contada e com seus personagens, bem defendidos por um elenco eficiente. Hitchcock sabia inovar, sem dúvida, mas ainda é, acima de tudo, um contador de histórias muito acima da média.
O primeiro filme colorido do mestre do suspense Alfred Hitchcock - e também o primeiro em que ele assume o papel de produtor - é mais uma prova cabal de que o cineasta inglês tinha pleno domínio da técnica cinematográfica, além de seu talento quase sobrenatural para manipular os medos e tensões da plateia. Adaptando livremente a peça teatral de Patrick Hamilton (e por livremente leia-se com alterações bastante substanciais), Hitch resolveu manter na versão cinematográfica a sensação de tempo real do espetáculo através de um artifício ainda pouco utilizado no cinema de então e ainda hoje raramente visto: um plano único, que acompanha os personagens durante pouco menos de hora e meia. Logicamente, não há uma única tomada - algo impraticável devido a limitações técnicas - mas é inegável que a meta foi atingida: "Festim diabólico" é uma aula de narrativa, onde o diretor abdica de uma de suas maiores qualidades como artista (a decupagem cuidadosa e rica de planos, que privilegiava a montagem como forma de acentuar a importância emocional de determinadas cenas) para experimentar um novo modo de contar uma história.
Repleta de dificulades técnicas - fios espalhados pelo set, ruídos de móveis especialmente construídos sendo arrastados e um especial desafio em termos de iluminação que acabou afastando o diretor de fotografia William V. Skall - a ousadia de Hitchcock em criar um marco na história do cinema acabou disfarçando para o público e os censores uma ousadia ainda maior, desta vez creditada ao dramaturgo Patrick Hamilton: em sua peça teatral, os dois protagonistas são homossexuais, assim como o professor de um deles, vivido no filme por James Stewart. Na versão para as telas não há menção explícita à sexualidade dos rapazes - e o professor não só é hetero e mais velho do que no texto original como tem um interesse romântico feminino. Tais medidas da adaptação feita pelo também ator Hume Cronyn (que foi casado com Jessica Tandy até sua morte) não foram o bastante para que o filme fosse banido em diversas cidades dos EUA, ignorando que a trama foi inspirada em um caso real e ocorrido por dois estudantes da Universidade de Chicago.
E a trama, apesar de todo o tititi em torno das técnicas corajosas e então vanguardistas de Hitchcock, consegue se manter sólida e interessante mesmo mais de seis décadas desde seu lançamento. Dois jovens estudantes, Brandon (John Dall) e Phillip (Farley Granger), que dividem um apartamento em Nova York resolvem testar sua teoria sobre um crime perfeito e matam um colega, David Kentley (Dick Hogan, que aparece apenas no primeiro take, sendo enforcado). Depois do ato cometido, eles colocam o corpo do rapaz em um baú, sabendo que na mesma noite receberão um grupo de convidados para um coquetel. Sua intenção é agir normalmente diante dos pais da vítima, de sua ex-noiva e de um professor, Rupert Cadell (James Stewart), a quem querem provar sua superioridade intelectual. Durante a noite, o nervosismo de Phillip quase põe tudo a perder, mas a frieza de Brandon não pretende se deixar subjugar pela inteligência de Cadell.
Se fosse rodado de maneira convencional - com todos os artifícios que fazem dos filmes de Hitchcock a delícia que são - "Festim diabólico" certamente seria um sucesso a mais em sua carreira brilhante. Como está, no entanto, ele se sobressai pela coragem de um diretor em romper a inércia de uma indústria e inovar a feitura de seus filmes mesmo correndo sérios riscos financeiros. O público pode até nem se dar conta da forma com que o filme foi feito - com seus truques inteligentes para disfarçar a mudança de um take para outro ou com as câmeras deslizando pelo cenário - mas fica hipnotizado pela maneira com que a história é contada e com seus personagens, bem defendidos por um elenco eficiente. Hitchcock sabia inovar, sem dúvida, mas ainda é, acima de tudo, um contador de histórias muito acima da média.
quarta-feira
UM CORPO QUE CAI

UM CORPO QUE CAI (Vertigo, 1958, Paramount Pictures, 128min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Alec Coppel, Samuel A. Taylor, baseado no romance "D'entre les morts", de Pierre Boileau e Thomas Narcejac. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Bernard Herrmann. Figurino: Edith Head. Elenco: James Stewart, Kim Novak, Barbara Bel Geddes, Tom Helmore. Estreia: 09/5/58
2 indicações ao Oscar: Direção de Arte, Som
O tempo pode ser bastante cruel em algumas ocasiões, mas é inegável que às vezes o distanciamento cronológico pode fazer um bem incomensurável a determinados elementos. Uma prova viva disso é o filme "Um corpo que cai". Quando lançado, em 1958, o filme do cineasta Alfred Hitchcock recebeu esparsas críticas positivas, não empolgando quase ninguém. Foi preciso uns bons anos se passarem para que a obra assumisse a posição privilegiada que hoje tem dentre a filmografia do mestre do suspense, considerado quase que por unanimidade um de seus melhores trabalhos.
"Um corpo que cai" é baseado em um romance escrito por Pierre Boileau e Thomas Narcejac, que escreveram a história depois de saberem que o cineasta havia se interessado por seu livro anterior - que deu origem ao filme "As diabólicas", dirigido por François Cluzot. No final das contas, o roteiro de Samuel Taylor pouco utilizou da obra literária dos autores franceses - e nem do primeiro tratamento do script, escrito por Alec Coppel, concentrando-se unicamente na ideia central da história, contada a ele pelo próprio diretor. O resultado final é um fascinante jogo de espelhos filmado com elegância e romantismo, atingindo um equilíbrio perfeito entre uma trama bem urdida e a habitual preocupação de Hitch com o suspense visual de sua obra.
Novamente James Stewart assume o papel principal (pela última vez na obra de Hitchcock, que o considerou culpado pelo fracasso comercial do filme, alegando ser ele muito velho para as novas audiências). Aqui, ele vive John Scottie Ferguson, um policial forçadamente aposentado por sofrer de acrofobia (medo de altura). Depois de testemunhar a morte de um colega, ele vive em um tédio absoluto, quebrado apenas pelas conversas com a artista plástica Midge (Barbara Bel Geddes), apaixonada por ele. O encontro com um antigo amigo - agora milionário por casamento - vai dar um novo mote à sua vida. Gavin Elster (Tom Helmore) pede a Ferguson que passe a seguir sua esposa, que anda se comportando de forma estranha. Sem ter muito o que fazer, Ferguson aceita a empreitada e começa a acompanhar discretamente a bela Madeleine (Kim Novak) e percebe que ela parece estar sofrendo de algum tipo de influência de uma antepassada, Carlotta Valdez, que morreu tragicamente aos 26 anos, suicidando-se. Conforme se aproxima de Madeleine - que tenta se matar jogando-se na Baía de San Francisco - Ferguson vai se apaixonando pela triste mulher. O que parecia ser uma trama sobre espiritismo, no entanto, sofre uma reviravolta quando Madeleine finalmente é bem-sucedida em suas tentativas de suicídio, atirando-se da torre de um campanário. Sentindo-se culpado por não ter conseguido impedir mais esse desastre, o ex-policial entra em uma profunda depressão que só começa a dar sinais de cura quando, em um passeio corriqueiro pelas ruas da cidade, ele se depara com Judy, a bela balconista de uma loja que ele reconhece como uma sósia da mulher que amava e que tirou a própria vida.

Ao contrário de muitos outros filmes de Hitchcock, onde a história importava menos do que a maneira como ela era contada, aqui a trama central é claramente baseada em um jogo de pistas falsas, identidades trocadas e um mistério essencial à narrativa. As viradas que o belo roteiro apresenta, no entanto, casam perfeitamente com o ritmo impresso pelo cineasta, que filma cada cena com um cuidado de ourives. Apesar de tratar-se de um filme de suspense dos mais hipnotizantes, "Um corpo que cai" muitas vezes tem a aparência de um belo romance, ainda que com tintas um tanto quanto doentias. Se o amor de Ferguson por Madeleine ainda tinha um pé na normalidade, apesar das extravagâncias mentais da jovem, seu relacionamento com Judy faria a festa de qualquer psicanalista. Quando, em determinado momento do filme ele pede que ela pinte o cabelo de louro, que o prenda em um coque e se vista exatamente como a falecida mulher por quem era apaixonado, ele está claramente ultrapassando os limites do saudável. Seu olhar embevecido ao vê-la transformada em Madeleine diz mais sobre obessão do que milhares de Glenn Closes enlouquecidas cozinhando coelhinhos de estimação. E, no entanto, ao aceitar a submissão de transmutar-se em outra pessoa, Judy também se entrega ao perigoso jogo do homem que ama.
A trilha sonora tonitruante de Bernard Herrman - uma das mais marcantes de sua carreira, diga-se de passagem - constitui outro ponto de destaque em "Um corpo que cai", comentando a ação com a discrição ou o alarde que cada sequência demanda. O silêncio que percorre o filme, inclusive, é dos mais expressivos que se tem notícia. Ousadamente, Hitchcock constrói longas sequências sem diálogos - alguém lembrou do Brian de Palma de "Doublé de corpo"? -, pegando o público pela mão para percorrer os caminhos tortuosos de sua trama.
Mas enfim, James Stewart era velho demais para o papel principal? Talvez sim, talvez não, dependendo do ponto de vista. A implicância de Hitchcock com esse pormenor talvez venha do fato de que ele, na verdade, estava bastante insatisfeito com Kim Novak, que substituiu Vera Miles, sua primeira opção para o papel, mas que saiu do projeto devido a uma gravidez. Não há como não perceber uma sintonia bem grande entre a intenção de Ferguson em transformar Judy em Madeleine com o que o cineasta fazia com suas musas. Vários de seus biógrafos (inclusive Ruy castro no delicioso "Saudades do século XX") afirmam que, uma vez fascinado por suas atrizes (em especial as louras como Grace Kelly) ele tentava moldá-las a seu gosto, estética e culturalmente falando, exatamente como faz seu protagonista em "Um corpo que cai". Esse pequeno detalhe talvez ajude a entender melhor algumas das várias nuances de mais uma de suas espetaculares obras-primas.
quinta-feira
O HOMEM QUE SABIA DEMAIS

O HOMEM QUE SABIA DEMAIS (The man who knew too much, 1956, Paramount Pictures, 120min) Direção e produção: Alfred Hitchcock. Roteiro: John Michael Hayes. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Bernard Herrman. Figurino: Edith Head. Elenco: James Stewart, Doris Day, Daniel Gélin, Christopher Olsen, Brenda De Banzie, Bernard Miles. Estreia: 16/5/56
Vencedor do Oscar de melhor canção ("Que será, será")
Em 1934, ainda na sua fase inglesa, Alfred Hitchcock lançou um filme chamado "O homem que sabia demais". Mais de vinte anos depois, já consagrado em Hollywood, ele achou que podia contar novamente a mesma história, desta vez "como profissional". Contando com seu amigo pessoal James Stewart no papel principal, assim como com todos os seus colaboradores habituais (Robert Burks na fotografia, George Tomasini na edição e John Michael Hayes como roteirista), o cineasta britânico partiu então para o Marrocos e para Londres, para realizar um de seus filmes mais famosos - e ele estava absolutamente certo quando declarou que a nova versão não era mais coisa de amador.
Tudo começa no Marrocos, onde a tradicional família McKenna está passando alguns dias, aproveitando uma viagem a trabalho de seu chefe, o médico Benjamin (James Stewart). Fascinados com os costumes locais, logo eles fazem amizade com outro casal ocidental, os Drayton (Brenda De Banzie e Bernard Miles), e com o misterioso francês Louis Bernard (Daniel Gèlin). O que era para ser uma viagem tranquila, no entanto, passa a assumir a forma de um pesadelo quando Bernard morre assassinado em pleno mercado público, não sem antes revelar a Benjamin que um importante líder de estado será assassinado em Londres. A ideia de Benjamin é contar tudo à polícia, mas os responsáveis pela morte de Bernard e pela conspiração descoberta por ele sequestram seu filho pequeno, Hank (Christopher Olsen), para impedí-lo de fazer qualquer denúncia. Sentindo-se desprotegidos, o médico e sua mulher, a ex-cantora Josephine (Doris Day) partem para Londres, dispostos a reaver o filho e evitar a tragédia prevista pelo francês, que eles descobrem que trabalhava para o FBI.
"O homem que sabia demais" é uma obra típica de Hitchcock, onde ele, mais uma vez, volta a tratar de pessoas comuns sendo obrigadas a lidar com situações adversas e das quais não conseguem sair de maneira convencional. Dessa vez, ao invés de apenas um homem jogado no centro do furacão, ele vai ainda mais longe, fazendo tremer as estruturas de uma família inteira (e uma família cuja mãe é Doris Day, a epítome do mainstream, do suburbano, do trivial). Aliada a James Stewart (escolhido por Hitchcock principalmente por representar o homem comum), Day cria um núcleo familiar com o qual qualquer espectador pode tranquilamente se identificar. E é justamente essa identificação com o público médio que leva "O homem..." a uma esfera quase inédita na obra do diretor. Na grande maioria de seus filmes anteriores, os protagonistas lutavam sozinhos, e para salvar a própria pele. Aqui, há muito mais em jogo: a união da família, a sobrevivência e até mesmo a possibilidade de salvar a vida de um importante líder.
Apesar das elocubrações estilísticas e psicológicas, no entanto, o que vale em "O homem que sabia demais" é o gênio de Hitchcock em construir exemplarmente grandes sequências de suspense. Desde as primeiras cenas, quase idílicas, de uma família em viagem de férias, há um clima de tensão sutil. Sob o comando de Hitchcock, até mesmo coisas simples assumem um ar de claustrofobia - e para isso também contribui magistralmente seu inegável talento em escolher visuais marcantes para os coadjuvantes: ninguém no elenco de "O homem que sabia demais" tem um rosto trivial. Todos parecem saídos de um sonho ruim, felliniano, sufocante, o que contrasta ainda mais com os saudáveis rostos americanos de Stewart e Doris Day.
E isso que nem vale a pena citar a sequência de doze minutos, quase sem diálogos, que se passa em um concerto no Albert Hall (com a luxuosa participação especial do compositor Bernard Herrman como ele mesmo). Hitchcock constrói meticulosamente a tensão crescente que precede o atentado ao Primeiro-ministro inglês de forma impecável, onde cada minuto exerce, sobre o espectador, exatamente o efeito que ele deseja exercer. Se isso não é o domínio absoluto de seu ofício, então o que seria?
"O homem que sabia demais" foi praticamente ignorado na cerimônia do Oscar de 1957. Sua única indicação - que foi convertida em estatueta, diga-se de passagem - foi para canção original. Doris Day detestava a música, "Que será, será", cantada em um momento crucial do filme, mas ela acompanhou-a por toda sua carreira, sendo uma de suas mais populares marcas registradas. Logo em seguida ela começaria uma extremamente bem-sucedida série de comédias românticas com Rock Hudson e se tornaria uma das mais requisitadas estrelas de Hollywood, até tornar-se tão "fora de moda quanto o charleston", como diria Nelson Rodrigues. Mas sua colaboração com o mestre Hitchcock comprova que, se não lhe davam papéis mais consistentes, isso era problema dos produtores. E do público, que não teve a oportunidade de acompanhar a maturidade de seu talento dramático.
sexta-feira
JANELA INDISCRETA
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JANELA INDISCRETA (Rear window, 1954, Paramount Pictures, 112min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: John Michael Hayes, baseado em um conto de Cornell Woolrich. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Franz Waxman. Figurino: Edith Head. Elenco: James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey, Thelma Ritter, Raymond Burr. Estreia: 01/8/54
4 indicações ao Oscar: Diretor (Alfred Hitchcock), Roteiro Adaptado, Fotografia em cores, Som
Se o cinema é a arte do voyeurismo, então "Janela indiscreta" é cinema em sua mais pura essência. Baseado em um conto de Cornell Woolrich (recentemente republicado no Brasil pela Cia das Letras), um dos clássicos mais famosos de Alfred Hitchcock (e um dos poucos que o mestre do suspense não renega fervorosamente, como várias de suas criações) é também um dos filmes seminais do gênero, utilizando elegância, ironia e até mesmo um certo olhar carinhoso sobre as pessoas em geral para contar uma história de assassinato onde o crime, no final das contas, é o que menos interessa.
A primeira cena de "Janela indiscreta" já é um primor de concisão e uma prova do talento inconteste de Hitchcock em falar muito em pouco tempo: um único movimento de câmera e o espectador já percebe que a ação se passará em um verão bastante quente e que seu protagonista é um fotógrafo profissional que sofreu um acidente durante um trabalho e está com uma das pernas engessadas. O tal fotógrafo é L.B. Jefferies (James Stewart), que, entedidado com sua falta de opções de lazer passa os dias bisbilhotando as vidas dos vizinhos do prédio em frente ao seu. Munido de um binóculo e de uma luneta, ele acompanha as aventuras românticas de uma mulher solitária, a lua-de-mel de um jovem casal, as noites animadas de uma bela dançarina, etc. As únicas exceções a seu programa solitário são as visitas de sua tagarela massagista/enfermeira Stella (Thelma Ritter) e de sua namorada, a bela socialite Lisa Carol Fremont (Grace Kelly), que tenta convencê-lo, inutilmente, a abandonar a vida de solteiro para casar-se com ela. Sua pasmaceira é sacudida, no entanto, quando ele passa a desconfiar que um de seus vizinhos, Lars Thornwald (Raymond Burr), matou a esposa e esquartejou o corpo para escondê-lo da polícia. A princípio desacreditado inclusive por seu amigo policial (Wendell Corey), logo Jefferies passa a convencer a todos de sua certeza, uma vez que inúmeras evidências apontam para a culpa de Thornwald.

"Janela indiscreta" é uma aula de cinema. Conciso e direto, o roteiro de John Michael Hayes não perde tempo com cenas desnecessárias à estória que conta: tudo que é mostrado através da lente de Jefferies é extremamente importante para o desenrolar de alguma ramificação da trama - se não para levar adiante as desconfianças do protagonista em relação ao assassinato, ao menos para convidar o público a acompanhar os inúmeros dramas humanos mostrados pelo cineasta. O prédio observado pela personagem de James Stewart não deixa de ser um microcosmo da vida - pelo menos em seu lado mais humano, sentimental e sensível. Enquanto renega um envolvimento mais sério com a namorada, o fotógrafo tem à sua vista inúmeros exemplos de relações bem ou mal resolvidas - e logicamente a mais extrema (que resulta em homicídio) é a que mais lhe interessa.
No entanto, por mais que a trama principal seja justamente a que envolve sangue e violência, são as pequenas histórias cotidianas contadas praticamente sem diálogos por Hitchcock e sua equipe que conquistam pela simplicidade e delicadeza: o casal sem filhos que transmite todo o amor a um cachorro, a solteirona que é salva do suicídio pela música composta pelo vizinho compositor e a bela mulher que é casada com um soldado nada atraente são, entre outros, protagonistas de sua própria história, cada uma delas coadjuvante de uma trama maior, tecida com a ironia e a elegância do mestre inglês.
E por falar em elegância, seria injusto não citar a presença grandiosa de Grace Kelly. Vestida por Edith Head, a futura princesa de Mônaco brilha intensamente em cada cena em que está (sua primeira aparição - em um close quando se inclina para beijar seu namorado adormecido - merece figurar em qualquer antologia dos momentos mais sexies do cinema). E não deixa de ser irônico que ela desperte a paixão do protagonista justamente quando sai de sua vida "cor-de-rosa" das colunas sociais para enfrentar o monstro assassino, transformando-se, assim, de mocinha indefesa e fútil em mulher determinada e corajosa.
Uma das melhores obras da carreira de Alfred Hitchcock, "Janela indiscreta" é o tipo de filme que quanto mais vezes é assistido melhor fica. Graças ao número imenso de pequenos detalhes lançados pelo cineasta em cena (que aparece arrumando um relógio no apartamento do compositor) é praticamente impossível não descobrir mais qualidades a cada revisão. Uma obra-prima indiscutível!
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