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sábado

A MISSÃO

A MISSÃO (The Mission, 1986, Warner Bros, 125min) Direção: Roland Joffé. Roteiro: Robert Bolt. Fotografia: Chris Menges. Montagem: Jim Clark. Música: Ennio Morricone. Figurino: Enrico Sabbatini. Direção de arte/cenários: Stuart Craig. Produção: Fernando Ghia, David Puttnam. Elenco: Robert De Niro, Jeremy Irons, Liam Neeson, Aidan Quinn, Ray McAnally, Cherie Lunghi. Estreia: 16/5/86 (Festival de Cannes)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Roland Joffé), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Melhor Fotografia
Vencedor de 2 Golden Globes: Roteiro, Trilha Sonora Original
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes

Não é à toa que a Igreja Católica tem grande carinho e admiração por "A missão", a ponto de colocá-lo frequentemente em listas dos melhores filmes religiosos de todos os tempos: ao romantizar a exploração jesuíta entre indígenas do século XVIII e torná-la menos violenta e colonizadora do que realmente foi, a produção dirigida por Roland Joffé elege, como um de seus heroicos protagonistas, um padre espanhol dedicado e corajoso, capaz de qualquer sacrifício para proteger seus pupilos - inclusive opor-se com veemência contra o reino de Portugal, que se torna seu maior inimigo. No entanto, se como História o filme pode ser questionado em sua visão um tanto simplista, como cinema é um filme de enormes qualidades - qualidades estas que lhe renderam a Palma de Ouro no Festival de Cannes 86 (além do Grande Prêmio do Júri) e sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e direção. Uma produção imponente, séria e adulta, "A missão" comprova a tendência de seu diretor em tratar de temas relevantes e socialmente interessantes - a despeito de seu potencial comercial. Prova disso é a renda do filme no mercado doméstico (EUA e Canadá): apenas 17 milhões de dólares, uma renda que não pagou nem mesmo o custo total da produção. Seu relativo fracasso não chega a ser surpreendente: em uma época em que as salas de cinema lotavam de espectadores dispostos a aplaudir superproduções caras como "Aliens: o resgate" ou despretensiosas como "Crocodilo Dundee", o filme de Joffé surgiu como uma opção "difícil" e "densa", mirando um público mais sofisticado - que também não lhe deu a atenção devida, preferindo, assim como a Academia, o Vietnã de Oliver Stone, em "Platoon".

"A missão" é um grande filme, valorizado pela direção segura de Joffé, pela belíssima fotografia de Chris Menges (premiada com o Oscar), pela trilha sonora arrebatadora de Ennio Morricone - e pela presença magnética de Robert De Niro e Jeremy Irons nos papéis principais. O primeiro interpreta (com toda a carga dramática com que o público já está acostumado) Rodrigo Mendoza, um conhecido caçador de indígenas - a quem captura para vender como escravos na colônia onde vive, na América do Sul do século XVIII. Irons vive o Padre Gabriel, jesuíta que tem como objetivo de vida catequizar os mesmos índios caçados por Mendoza. O caminho dos dois se cruza quando o caçador, depois de uma tragédia familiar, procura abrigo nas missões comandadas pelo sacerdote: convertido ao catolicismo, ele se torna parte integrante da companhia, convivendo com religiosos e seus catequizandos - até que a Espanha vende o território onde eles trabalham para Portugal e os obriga a pegar em armas para defender a continuidade de seu projeto.


O roteiro de Robert Bolt se divide claramente em três capítulos, cada um com ritmo e desenvolvimento próprios. A primeira parte apresenta os protagonistas, sem muitos diálogos e concentrando seu foco em imagens fortes e poderosas, que estabelecem a personalidade dos personagens e sua relação com o meio em que vivem. Essa primeira etapa acaba quando Mendoza abandona a vida de caçador de escravos para tentar encontrar uma redenção espiritual - e para isso conta com o apoio de Gabriel, outros padres e a comunidade jesuítica fundada por ele. O terceiro capítulo é o mais intenso: confrontados com a possibilidade de perder tudo que foi construído até então, os dois homens tão diferentes entre si se unem - um com a palavra, o outro com a ação - para defender o que acreditam ser um bem maior. Mesmo a violência que surge a partir daí parece sagrada e justificável - e da maneira como é mostrada por Joffé, até poética.

Questões históricas e éticas à parte - é discutível o benefício das missões jesuíticas em termos de colonização, nem sempre tão pacífica como mostrada no filme -, "A missão" funciona perfeitamente como cinema. Roland Joffé é um cineasta que sabe emocionar sem soar panfletário ou melodramático, e essa característica é essencial para que o espectador não se sinta manipulado diante de uma história que já é poderosa por si mesma. O tom quase seco do diretor torna o resultado final menos impactante dramaticamente (a quem já está acostumado a catarses gigantescas e pirotécnicas), mas ressoa com muito mais potência na alma do público. Ao mostrar dois protagonistas tão opostos, o roteiro acerta em cheio, especialmente porque seus atores estão no auge do talento e da maturidade artística - De Niro já tinha dois Oscar em casa e Irons levaria o seu poucos anos mais tarde - e porque não há, entre eles, a busca pelo brilho fácil ou previsível. Assim como fez com Sam Waterston  Haing S. Ngor em "Os gritos do silêncio" - uma dupla improvável que se completa ao encontrar uma missão na vida -, Joffé deu a seus dois atores principais a chance de fugir do óbvio e do já visto. Por essas e outras é que seu filme acaba sendo uma experiência tão gratificante e inesquecível!

segunda-feira

BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA

BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA (Batman v Superman: The Dawn of Justice, 2016, Warner Bros, 151min) Direção: Zack Snyder. Roteiro: Chris Terrio, David S. Goyer, personagens criados por Bob Kane e Bill Finger (Batman), Jerry Siegel e Joe Shuster (Superman) e William Moulton Marston (Mulher Maravilha). Fotografia: Larry Fong. Montagem: David Brenner. Música: Junkie XL, Hans Zimmer. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Patrick Tatopoulos/Carolyn "Cal" Loucks. Produção executiva: Wesley Coller, David S. Goyer, Geoff Johns, Benjamin Melniker, Steven Mnuchin, Christopher Nolan, Emma Thomas, Michael E. Uslan. Produção: Charles Roven, Deborah Snyder. Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Laurence Fishburne, Jesse Eisenberg, Gal Gadot, Diane Lane, Kevin Costner, Holly Hunter, Jeremy Irons, Michael Shannon, Jeffrey Dean Morgan. Estreia: 20/3/16

Primeiro foi a polêmica em torno do nome de Ben Affleck para viver o Cavaleiro das Trevas, praticamente imortalizado por Christian Bale na trilogia dirigida por Christopher Nolan entre 2006 e 2012. Depois, as críticas generalizadas a "O Homem de Aço" (2013), que recomeçava a apresentar o Superman às novas gerações de cinéfilos - depois do inesquecível Christopher Reeve e do pouco memorável Brandon Routh. Por fim, havia a dúvida se Zack Snyder (cujo currículo incluía o sucesso "300", de 2008, e o fracasso "Sucker punch", de 2010) seria capaz de apagar a má impressão de seu primeiro filme estrelado pelo herói de Krypton - criticado principalmente pelo excesso de violência e efeitos visuais supérfluos. Com um orçamento generoso de aproximados 250 milhões de dólares, a volta do britânico Henry Cavill à pele de Clark Kent e uma trama que daria origem ao esperado filme sobre a Liga da Justiça (daí o subtítulo "Dawn of justice"), "Batman vs Superman: a origem da justiça" chegou aos cinemas cercado de expectativas e medos. Como era de se esperar, dividiu opiniões: puristas e fãs dos quadrinhos surgiram com listas intermináveis de reclamações; a imprensa não exatamente ficou entusiasmada, mas o público não deixou de correr às salas de exibição. Com uma renda mundial de quase 900 milhões de dólares, o filme de Snyder conseguiu o principal: deixou felizes os executivos da Warner, preparou terreno para um próximo capítulo ainda mais explosivo e, para alegria dos espectadores, apresentou em primeira mão sua arma mais poderosa e esperada, a Mulher Maravilha do século XXI, interpretada pela israelense Gal Gadot.

Protagonista de seu próprio filme de origem, que viria a ser lançado em 2017, a Mulher Maravilha é apenas uma pequena (mas crucial) peça no roteiro escrito por David S. Goyer e Chris Terrio (Oscar por "Argo") a partir de uma ideia surgida em 2001, quando o roteirista Andrew Kevin Walker (de "Seven: os sete crimes capitais") propôs um filme em que o Batman, enfurecido pela perda de sua noiva nas mãos do Coringa, parte em busca de vingança e se vê impedido pelo Superman. Diz-se que, na época, o script ficaria a cargo de Akiva Goldsman (Oscar por "Uma mente brilhante"), a direção seria do alemão Wolfgang Petersen e os protagonistas seriam George Clooney (voltando ao papel do Homem Morcego) e John Travolta. Felizmente a ideia acabou não vingando nos termos imaginados por Walker, e depois de mais de quinze anos no limbo, o que parecia meio absurdo começou a tomar forma. Com sérias mudanças, é verdade, mas com seu principal trunfo intacto: o encontro entre dois dos maiores super heróis dos quadrinhos (e do cinema) em uma produção caprichada, repleta de astros e, felizmente, bem melhor do que o público médio poderia esperar (apesar das ressalvas da crítica especializada e dos leitores mais radicais).


Começando dois anos depois dos eventos de "O Homem de Aço" - ou seja, após o show de destruição comandado pelo Superman em sua luta contra o General Zod (Michael Shannon) -, o filme de Snyder mostra uma população dividida entre acreditar nas boas intenções do misterioso alienígena de Krypton e temer por ainda mais tragédias na Terra. Mesmo defendido ferrenhamente pela jornalista Lois Lane (Amy Adams), o Superman é constantemente atacado pela mídia e pela congressista June Finch (Holly Hunter), que o intima a comparecer a uma sessão no Capitólio para defender-se diante da população. A explosão de uma bomba - plantada pelo milionário Lex Luthor (Jesse Eisenberg) - acaba por dar ainda mais credibilidade a quem o considera uma ameaça: acusado de ser o responsável pelo atentado, Superman abandona o planeta. Acreditando que tem o dever de proteger a humanidade dos poderes daquele que considera uma temeridade à população, Bruce Wayne assume a responsabilidade de, como Batman, destruí-lo sem compaixão. De certa forma manipulado por Luthor, ele bate de frente com Superman - mas não demora para que ambos, auxiliados pela corajosa Mulher Maravilha, se unam diante de um perigo ainda maior, representado por um monstro criado por Lex Luthor.

A princípio, parece que a trama de "Batman vs Superman" é um tanto forçada, criada mais pela necessidade de unir seus protagonistas do que exatamente contar uma história interessante ou plausível. No entanto, é surpreendente como as peças se encaixam, de forma a prender a atenção do público e construir uma base razoavelmente verossímil para o explosivo conflito final - esse sim, mais uma vez, exagerado e sem muita criatividade. Por incrível que pareça, Snyder se sai melhor quando estabelece o clima e as causas de todo o desfecho do que quando finalmente põe as mãos no clímax. Para isso, claro, ele conta com um elenco coadjuvante de nomes como Holly Hunter, Jeremy Irons e Laurence Fishburne, com o poder de fogo de seus personagens e com a produção caprichada - da fotografia de Larry Fong à trilha sonora, dividida entre Hans Zimmer e Junkie XL, tudo funciona muito bem, sem maiores percalços. Infelizmente nem tudo são flores, e a luta final - que finalmente coloca os heróis todos ao mesmo lado - é desnecessariamente longa, minando a força de um final que poderia ter sido ainda mais poderoso. Sem muito o que fazer em cena, Amy Adams e Diane Lane (como Martha, a mãe adotiva de Clark Kent), apenas enfeitam o filme com seu talento e beleza, e Jesse Eisenberg talvez esteja a um passo do overacting, mas o que era motivo de mais questionamentos antes da estreia acabou por ser um ponto positivo: emprestando prestígio a uma produção de objetivos claramente comerciais, o premiado Ben Affleck não compromete como Batman, mesmo estando à sombra de Christian Bale e assumindo as rédeas de um dos mais icônicos personagens da cultura popular mundial. Sua criticada escalação é, por fim, uma das maiores qualidades de um filme que, mesmo não sendo inesquecível ou artisticamente potente, serve muito bem como entretenimento. É só deixar o mau-humor de lado e embarcar na viagem!

sexta-feira

A MULHER DO TENENTE FRANCÊS

A MULHER DO TENENTE FRANCÊS (The French Lieutenant's woman, 1981, United Artists, 124min) Direção: Karel Reisz. Roteiro: Harold Pinter, romance de John Fowles. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: John Bloom. Música: Carl Davis. Figurino: Tom Rand. Direção de arte/cenários: Assheton Gordon/Ann Mollo. Produção: Leon Clore. Elenco: Meryl Streep, Jeremy Irons, Hilton McRae, Emily Morgan, Charlotte Mitchell. Estreia: 18/9/81 (Festival de Toronto)

5 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Meryl Streep) 

Quando Meryl Streep recebeu sua primeira indicação ao Oscar de melhor atriz, por "A mulher do tenente francês" (81), ela já estava acostumada a ser lembrada pela Academia na categoria de coadjuvante - já havia sido indicada por "O franco-atirador" (78) e premiada por "Kramer vs Kramer" (79). Seu desempenho duplo no filme de Karel Reisz lhe valeu um Golden Globe de melhor atriz em drama, um prêmio dos críticos de Los Angeles e o BAFTA - mas, do alto de sua modéstia, ela o considera um dos mais fracos de sua carreira. Basta assistir ao filme uma única vez, no entanto, para constatar que já nos primeiros anos de sua carreira no cinema, Streep já era um fenômeno. Mesmo que Helen Mirren fosse a escolha do escritor John Fowles (autor do livro que deu origem ao filme), é difícil imaginar que alguém pudesse ser tão absolutamente certeira nos papéis centrais. Já brilhando em seu talento de imitar sotaques, a atriz teve lições diárias para aperfeiçoar seu tom britânico - mas é em seu olhar, sua expressão corporal e na vasta gama de emoções que ela transmite que reside seu maior trunfo: a sinceridade.

Sem buscar respostas definitivas a respeito da personagem-título, Streep serve como um canal (espetacular) para que a trama de Fowles (autor também do romance que originou "O colecionador", de 1966) chegue ao espectador da forma mais limpa e emocionante possível. Um livro difícil de ser adaptado (que o digam cineastas como Milos Forman, Mike Nichols, Sidney Lumet e Fred Zinnemann, entre outros que tentaram a façanha durante anos), "A mulher do tenente francês" ganha requintes de sofisticação com o roteiro escrito pelo premiado dramaturgo Harold Pinter. Experiente, Pinter criou uma solução inusitada como forma de comportar dois dos três finais alternativos propostos por Fowles em sua obra: inventou uma trama paralela, contemporânea, que dialogava com a trágica e romântica estória descrita no livro. Nem sempre funciona - em alguns momentos desvia o foco sem necessidade e não tem a força necessária para envolver o público -, mas não deixa de ser um exemplo de criatividade e, de certa forma, liga o passado e o presente com toques poéticos e dramáticos que também realçam as diferenças cruciais na visão do comportamento feminino em circunstâncias e tempos distintos.


A trama original se passa no interior da Inglaterra do século XIX, e é centrada na figura melancólica e desamparada de Sarah (Meryl Streep), que passa seus dias à sombra do preconceito de que é vítima graças a seu infeliz caso de amor com um militar francês, que a abandonou à própria sorte. Seu semblante misterioso acaba por chamar a atenção de Charles (Jeremy Irons), um biólogo que está no lugar para acertar os detalhes de seu casamento. Atraído irremediavelmente pela aura trágica de Sarah - cuja história é contada aos quatro ventos pela cidade -, o rapaz acaba por aproximar-se dela, a princípio por curiosidade e posteriormente por uma paixão avassaladora que arrisca sua reputação e seu noivado. Sarah, no entanto, não é uma personalidade fácil de decifrar - e logo Charles percebe que embarcou em um relacionamento cujas consequências poderão ser desastrosas. Enquanto isso, em uma narrativa paralela, um estúdio de Hollywood está filmando a trajetória de Sarah e Charles - e seus intérpretes, Anna e Mike (novamente Streep e Irons) se descobrem tão apaixonados quanto seus personagens.

A divisão da história em dois tempos - com suas características próprias e personagens distintos - proporciona a Meryl Streep e Jeremy Irons (que voltariam a contracenar em "A casa dos espíritos", em 1994) a chance de mostrar sua versatilidade como intérpretes, dotando cada um de seus personagens com motivações e sentimentos próprios. Mesmo que a subtrama contemporânea não seja tão envolvente quanto o romance entre Sarah e Charles, a química entre os dois atores é brilhante, valorizada pela edição (indicada ao Oscar) e pela diferença de tons na fotografia de Freddie Francis - mais pesada no passado, mais clara no presente. O clima de opressão da vida de Sarah é também ilustrada pela trilha sonora inspirada e pela direção de arte, cinzenta e enevoada como sua alma. Dirigido com precisão pelo tcheco Karel Reisz, "A mulher do tenente francês" é um clássico romântico dos anos 80 - e mesmo que a própria Meryl Streep o contradiga, uma das atuações mais sutis e delicadas de sua carreira.

domingo

MARGIN CALL - O DIA ANTES DO FIM

MARGIN CALL, O DIA ANTES DO FIM (Margin call, 2011, Before the Door Pictures, 107min) Direção e roteiro: J.C. Chandor. Fotografia: Frank G. DeMarco. Montagem: Pete Beaudreau. Música: Nathan Larson. Figurino: Caroline Duncan. Direção de arte/cenários: John Paino/Robert Covelman. Produção executiva: Joshua Blum, Michael Corso, Kirk D'Amico, Cassian Elwes, Rose Ganguzza, Anthony Gudas, Randy Manis, Laura Rister. Produção: Robert Ogden Barnum, Michael Benaroya, Neal Dodson, Joe Jenckes, Corey Moosa, , Zachary Quinto. Elenco: Kevin Spacey, Paul Bettany, Jeremy Irons, Zachary Quinto, Demi Moore, Simon Baker, Mary McDonnell, Stanley Tucci, Penn Badgley. Estreia: 25/01/11 (Festival de Sundance)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Pode até parecer chato, mas não é. "Margin Call - O dia antes do fim". escrito e dirigido por J.C. Chandor, apesar de tratar de um assunto relativamente inacessível à maioria do público - finanças, negociatas e afins - consegue surpreendentemente evitar os bocejos que filmes com essa temática normalmente despertam na audiência (vide o aborrecido "Wall Street, o dinheiro nunca dorme", que apesar de Michael Douglas não escapava da chatice). Focalizando sua atenção mais na tensão de uma provável hecatombe monetária do que exatamente em tentar explicar didaticamente suas causas, Chandor marcou um gol de placa logo em seu primeiro filme, levando pra casa os prêmios de melhor diretor estreante tanto pelo National Board of Review quanto pela Associação de Críticos de Nova York, além de uma surpreendente indicação ao Oscar de roteiro original. A boa notícia? Ele mereceu.

"Margin Call" se passa em tensas 24 horas que precedem o que promete ser - segundo as personagens, todas especialistas no assunto - uma das mais graves crises financeiras já vistas pelos EUA (e consequentemente pelo mundo todo). Tudo começa com a demissão em massa de inúmeros funcionários de um milionário banco de investimentos nova-iorquino. Entre os infelizes desempregados está Eric Dale (Stanley Tucci, excepcional), que, na hora de sair do prédio, deixa nas mãos de um de seus assistentes, o jovem Peter Sullivan (Zachary Quinto, um dos produtores do filme) um pen-drive com informações aterradoras sobre os negócios da empresa. Assustado com o que descobre, Peter e seu colega mais próximo Seth Bregman (Penn Badgley) entram em contato com seu superior imediato, Will Emerson (Paul Bettany), que também se choca com o que vê. A partir daí, o pânico passa a fazer parte da equação, principalmente quando entram em jogo figuras de um escalão muito maior da firma, como o experiente Sam Rogers (Kevin Spacey em um dos melhores momentos de sua carreira), a ambiciosa Sarah Robertson (Demi Moore) e o especialista Jared Cohen (Simon Baker). Juntos, todos eles se reunirão com aquele que irá decidir seus destinos, o poderoso John Tuld (Jeremy Irons, também magnífico).


Apesar de muitas vezes deixar o espectador perdido (em especial por não fazer questão de esclarecer a crise de maneira explícita), o ótimo roteiro de Chandor tem a sorte de contar com um dos mais espetaculares elencos reunidos nos últimos anos. É graças aos trabalhos repletos de silêncios reveladores de Spacey, Tucci, Irons e até mesmo Demi Moore que a trama do filme se sustenta. Se as cenas que se referem a dólares e percentuais passam batidos pela vasta maioria da audiência, os diálogos onde a humanidade de suas personagens se revela dá à obra um tom dramático irresistível (mesmo que exagero de espécie alguma passe pela tela). E são particularmente fascinantes as atuações de Kevin Spacey (relembrando a todos o porquê de ser um dos melhores atores americanos de sua geração) e Stanley Tucci (que merecia ter sido lembrado com uma indicação ao Oscar de coadjuvante).

Tendo passado despercebido pelos cinemas brasileiros - em boa parte por seu tema específico demais - "Margin call" é um filme de filigranas. A forma como Chandor equilibra todos os detalhes de seu roteiro sem nunca perder o fio da meda é admirável, especialmente quando se percebe que até mesmo subtramas aparentemente desnecessárias - caso da doença do cachorro do personagem de Spacey - tem razão de ser dentro do imenso quadro geral. Escrever um roteiro assim não é tarefa das mais fáceis. Dirigir um elenco com tantos nomes poderosos idem. Mas Chandor tira de letra o desafio em um filme que, a despeito de seu assunto, pode surpreender até ao menos interessado em finanças.

sábado

IMPÉRIO DOS SONHOS

IMPÉRIO DOS SONHOS (Inland Empire, 2006, StudioCanal, 180min) Direção e roteiro: David Lynch. Fotografia: David Lynch. Montagem: David Lynch. Figurino: Karen Baird. Direção de arte/cenários: Christina Wilson/Melanie Rein. Produção executiva: Keith Kjarval, Marek Zydowicz. Produção: David Lynch, Mary Sweeney. Elenco: Laura Dern, Jeremy Irons, Justin Theroux, Grace Zabriskie, Harry Dean Stanton, Diane Ladd, William H. Macy, Julia Ormond, Mary Steenburgen, Nastassja Kinski, Laura Harring. Estreia: 06/9/06 (Festival de Veneza)

Um belo dia, a atriz Laura Dern recebeu um telefonema do diretor David Lynch - com quem já havia trabalhado nos filmes "Veludo azul" e "Coração selvagem" - e ouviu dele uma proposta tão estranha quanto irresistível: "Você quer experimentar?", perguntava a voz de um dos cineastas de maior prestígio do cinema americano independente. Intrigada e disposta a mergulhar novamente no universo onírico do criador de Laura Palmer, Dern topou a brincadeira. Surgia assim o mais hermético, bizarro e assustador de Lynch, "Império dos sonhos". Quem considerava sua obra fascinante, envolvente e poética a seu modo particular ganhou mais uma obra-prima. Aqueles que o rechaçavam como um diretor capaz de construir climas e imagens instigantes mas vazias de conteúdo tiveram mais munição. Mas o fato é que seu filme - o último até agora - parece ser tese final de décadas de estudo sobre a natureza complexa e muitas vezes maligna do ser humano. Você pode até não entender absolutamente nada do filme - assim como a própria Dern e seu colega de elenco Justin Theroux - mas é impossível ficar incólume à toda a carga de angústia, tensão e excitação intelectual que ele transmite a cada cena.

Quem começar a assistir a "Império dos sonhos" em busca de um filme com começo, meio e fim lógicos e bem definidos certamente irá decepcionar-se. Assim como "A estrada perdida" (99) e "Cidade dos sonhos" (02), seu filme se presta a inúmeras interpretações - e todas elas certamente estarão corretas, uma vez que o próprio David Lynch não faz a menor questão de esclarecer totalmente a trama, borrando deliberadamente as fronteiras entre o real e o imaginário, o passado e o presente, o palpável e o onírico. Contando com uma atuação assombrosa de Laura Dern, o cineasta mistura a uma história, já intrincada por natureza, imagens do mais puro nonsense - uma família de coelhos comporta-se como seres humanos em uma sitcom, por exemplo - e sequências de dar orgulho a qualquer discípulo de Jung. Usando e abusando de lentes grande-angulares, distorções de imagem e ruídos perturbadores, ele arquiteta um gigantesco painel de neuroses, culpas e violência que joga as pistas no colo do espectador, desafiando-o a montar um quebra-cabeças que talvez não se utilize de todas as peças - ao menos da maneira convencional.


A história - ou pelo menos o fio narrativo que dá o empurrão inicial - começa quando a atriz Nikki Grace (vivida por Laura Dern em estado de graça) aceita o papel principal de um filme romântico que está prestes a ser rodado pelo diretor Kingsley Stewart (Jeremy Irons). Antes do começo das filmagens, ela é procurada por uma nova vizinha (Gracie Zabriskie, de "Twin Peaks"), que a adverte em relação ao novo papel e, através de códigos, a alerta a respeito das consequências que a decisão de realizá-lo pode trazer. Ignorando os avisos, Nikki se envolve de cabeça no projeto e acaba por se apaixonar por seu colega de cena, o ator Devon Berk (Justin Theroux, o sr. Jennifer Aniston) - o que espelha a trama do filme que estão fazendo, na verdade o remake de um original que nunca chegou a ser finalizado porque seu casal de protagonistas morreu assassinado. Tal descoberta afunda Nikki ainda mais em um estado em que ela passa a confundir a realidade com a ficção.

Em seu terço inicial, "Império dos sonhos" até consegue enganar o público, com uma narrativa onde expõe alguns dos elementos com os quais irá jogar mais adiante. Não demora muito, porém, para que as pistas comecem a se acumular sem explicações plausíveis, o que transmite a exata sensação de desespero de sua protagonista, perdida em um mundo sem entradas e saídas facilmente definíveis. Na desordem organizada de Lynch frases são repetidas em momentos diametralmente opostos, situações aparentemente contraditórias completam uma a outra, personagens de épocas e mundos diferentes convivem pacificamente e atores consagrados fazem pontas quase imperceptíveis (caso de Diane Ladd, William H. Macy e Nastassja Kinski). No mundo feérico do diretor, a lógica como a conhecemos no dia-a-dia não se aplica. Tal característica - que a tantos confunde e afasta - é uma qualidade das maiores em um cinema cada vez mais estéril como o de Hollywood. Só isso já faz de "Império dos sonhos" um programa imperdível.

domingo

BELEZA ROUBADA

BELEZA ROUBADA (Stealing beauty, 1996, Fiction Films/France 2 Cinéma, 118min) Direção: Bernardo Bertolucci. Roteiro: Susan Minot, estória de Bernardo Bertolucci. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Pietro Scalia. Música: Richard Hartley. Figurino: Louise Stjernsward. Direção de arte/cenários: Gianni Silvestri/Cinzia Sleiter. Produção executiva: Yves Attal. Produção: Jeremy Thomas. Elenco: Liv Tyler, Jeremy Irons, Sinéad Cusack, Rachel Weisz, Joseph Fiennes, Jason Flemyng, Jean Marais, Stefania Sandrelli. Estreia: 29/3/96

Durante as entrevistas de divulgação de "O pequeno Buda", estrelado por Keanu Reeves, o cineasta Bernardo Bertolucci não se cansava de dizer que seu filme seguinte teria que ser, necessariamente, um projeto pequeno, familiar, que não envolvesse as dificuldades logísticas de suas últimas obras - entre elas, o ambicioso "O céu que nos protege". Quando "Beleza roubada" estreou no Festival de Cannes de 1996, dois meses de ter chegado aos cinemas italianos, o mundo todo percebeu que ele falava muito sério. Simples e minimalista, a história da bela e inocente Lucy Harmon em busca da verdade sobre sua mãe suicida e do primeiro amor mostra um Bertolucci em registro discreto, a anos-luz do gigantismo de coisas como "O último imperador", que lhe rendeu 9 Oscar em 1988. Essa bem-vinda despretensão conquistou a simpatia da crítica e do público, que aprovou, entre outras coisas, a escolha acertadíssima de Liv Tyler para interpretar o papel principal. Com uma aura de pureza e inocência ao redor de um rosto deslumbrante, Liv - filha do vocalista da banda de rock Aerosmith, Steven Tyler - se desincumbe com graça e segurança de sua primeira protagonista, seduzindo o espectador logo nas primeiras cenas.

Ao som de Lizzy Phair e  sua "Rocket song", o público acompanha a chegada da bela Lucy, uma jovem americana de 19 anos, a uma afastada vila italiana de propriedade de Ian (Donald McCann), um artista plástico inglês que refugiou-se do mundo para levar uma existência tranquila ao lado da esposa, Diana (Sinéad Cusack) e dos amigos que frequentemente os visitam, como o poeta Alex (Jeremy Irons), que, contaminado pelo vírus da AIDS, passa seus últimos meses na companhia do casal. A visita de Lucy, porém, não é apenas um acontecimento social corriqueiro: com a desculpa de posar para uma escultura de Ian, a bela jovem tem também interesse em descobrir a verdade sobre sua paternidade, que ela sabe ter relação com um verão passado por sua mãe, uma recente suicida, no mesmo local da Toscana. Enquanto busca pistas que a levem à identidade de seu pai, ela passa a ter contato com o grupo de convidados excêntricos de Ian e Diana, que aproveitam ao máximo o calor da Itália e sua atmosfera altamente sensual. Envolvida pelo clima erótico do lugar, Lucy espera ansiosamente pelo reencontro com Niccólo (Roberto Zibetti), um flerte de adolescência que ela espera converter em seu primeiro homem.


Fotografada com extrema luminosidade por Darius Khondji - em um trabalho oposto ao que realizou no soturno "Seven, os sete crimes capitais" - a Toscana de Bernardo Bertolucci surge soberana diante dos olhos do público em cada cena de "Beleza roubada". As paisagens deslumbrantes combinam magistralmente com a beleza espectral de Liv Tyler, em uma composição irresistível que ilustra com perfeição os temas essenciais do filme: a busca pelo prazer, pelo amor e pela identidade. Narrado de forma poética - através de trechos de escritos da protagonista, do visual arrebatador e da relação estabelecida entre sexo e arte, com mostrado na festa da qual os personagens participam - o filme ressente-se apenas de um rimo pouco atraente. Ainda que seja bem mais ágil que muitos outros filmes do diretor, "Beleza roubada" empresta das produções europeias sua velocidade discreta em contar sua história, o que pode incomodar os espectadores mais afoitos.

Apoiado basicamente no trabalho de Liv Tyler - ainda inexperiente mas dotada de um carisma que ameniza suas falhas como atriz - "Beleza roubada" consegue alcançar seu maior objetivo (ser um filme pequeno, leve, discreto) sem maiores esforços. Experiente na direção de seus atores, Bernardo Bertolucci conduz a trama com mão leve, deixando que a ação transcorra sem pressa como um verão na Toscana. Tal clima transparece em cada sequência, mergulhando o espectador em uma história de gente normal passando por acontecimentos normais - que se engrandecem apenas graças ao visual estonteante imposto pela fotografia impecável. É um filme comum, capaz de agradar a quem procura se ver retratado nas telas. Se é que a beleza de Liv pode ser considerada comum.

quarta-feira

O REVERSO DA FORTUNA

O REVERSO DA FORTUNA (Reversal of fortune, 1990, Sovereign Pictures, 111min) Direção: Barbet Schroeder. Roteiro: Nicholas Kazan, livro de Alan Dershowitz. Fotografia: Luciano Tovoli. Montagem: Lee Percy. Música: Mark Isham. Figurino: Judianna Makovsky. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Beth Kushnick. Produção executiva: Michael Rauch. Produção: Edward R. Pressman, Oliver Stone. Elenco: Glenn Close, Jeremy Irons, Ron Silver, Julie Hagerty, Annabella Sciorra, Uta Hagen, Felicity Huffman. Estreia: 12/9/90 (Festival de Toronto)

3 indicações ao Oscar: Diretor (Barbet Schroeder), Ator (Jeremy Irons), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Jeremy Irons)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Jeremy Irons)

Em 1988, Jeremy Irons mostrou ao público e à crítica um de seus mais devastadores trabalhos, como os irmãos ginecologistas de "Gêmeos, mórbida semelhança", de David Cronenberg, e foi sumariamente ignorado pela Academia, talvez assustada com a temática barra-pesada da trama. Dois anos depois, porém, foi praticamente impossível deixar de perceber mais um desempenho extraordinário de Irons, dessa vez no filme "O reverso da fortuna". Na pele do milionário europeu Claus Von Bullow, julgado por tentativa de homicídio ao condenar sua esposa a um coma definitivo por overdose de insulina, o ator inglês toma partido de sua figura esguia e aristocrata para incorporar um personagem que, ao contrário do que dita o lugar-comum dos roteiros hollywoodianos, não deixa de lado em momento algum sua dubiedade e arrogância. Não à toa, conquistou, além do Golden Globe e do Oscar, os prêmios da Associação de Críticos de Los Angeles e da Sociedade Nacional de Críticos de Cinema, todos boquiabertos com a sutileza e a força de sua interpretação.

Longe de ser um típico herói - daqueles que a Academia adora louvar com suas douradas estatuetas - Claus Von Bullow é de um frieza assustadora, mesmo quando sua esposa, a sofisticada Sunny (Glenn Close, igualmente brilhante) cai vitimada por um segundo coma, praticamente um ano depois do primeiro: em ambos os casos, a causa é claramente debitada a seu uso exagerado de pílulas e medicamentos. Porém, a reincidência do pretenso acidente chama a atenção da velha empregada da família e do filho mais velho da milionária, que não demoram a acusar Claus, seu segundo marido, de tentativa de homicídio. Motivos ele tinha de sobra, especialmente depois de declarar suas intenções de divorciar-se para ficar com outra mulher. Condenado pela justiça, o réu procura o advogado Alan Derschowitz (Ron Silver) - famoso por estar envolvido na defesa de dois jovens negros destruídos pela opinião pública - para que, junto com seu grupo de alunos/assistentes, entre com um recurso para anular o veredicto negativo. Mesmo sabendo das poucas probabilidades de vitória, Derschowitz aceita o desafio... e passa a questionar de verdade a inocência de seu novo cliente.


Se a interpretação impecável de Jeremy Irons é o que mais chama a atenção do público à primeira vista - desafiando a todos a ficar o tempo todo em dúvida a respeito de sua inocência - muito se deve ao genial roteiro de Nicholas Kazan, baseado em livro escrito pelo próprio advogado de Von Bullow. Filho do veterano cineasta Elia, Nicholas também foi indicado ao Oscar por seu delicado trabalho, que mescla com impressionante equilíbrio vários estilos de narrativa sem perder o fio da meada. Ora contando a história pelo ponto de vista de Derschowitz, ora pelas palavras de Von Bullow, ora pela narração em off da própria Sunny - que acrescenta detalhes saborosos aos depoimentos do marido - o roteiro funciona como uma espécie de quebra-cabeças, com as peças juntando-se pouco a pouco para formar um painel que, mesmo completo, dá a impressão de nunca estar inteiramente correto. A opção de manter o final em aberto (ao menos em relação à culpabilidade do protagonista, uma vez que o caso foi extremamente popular à época, início dos anos 80) também é acertada, permitindo a Irons que jogue com todas as nuances de seu personagem, que vai do sedutor ao arrogante em questão de minutos, conforme pede o desenrolar da trama. Mas essa constante transformação do protagonista - e as idas e vindas do roteiro - não teriam o mesmo impacto sem a direção segura e inteligente de Barbet Schroeder.

Também finalista do Oscar por seu trabalho em "O reverso da fortuna", Schroeder conduz seu filme com a extrema elegância de seu protagonista, conduzindo o espectador a um mundo de luxo e glamour, mas que, no fundo, esconde um mar de hipocrisia, interesse e solidão. É quase palpável a maneira com que ele retrata Sunny Von Bullow como uma mulher infeliz e apática, que recorre a seus medicamentos como única forma de manter-se psicologicamente sã. Esse artifício - de retratá-la como uma possível suicida - também funciona perfeitamente, dando ao público todos os elementos disponíveis para que ele mesmo tire suas conclusões. Em meio a festas, discussões familiares e dólares a rodo, a plateia é testemunha de um universo onde pouco valor a dado a sentimentos, sempre eclipsados por interesses mais mundanos. De mãos dadas com o diretor (que nunca mais alcançaria o mesmo grau de qualidade em sua carreira irregular), ela sente-se segura em visitar os vastos cômodos da mansão Von Bullow para, como testemunha privilegiada, chegar a suas próprias conclusões. Sejam quais forem elas, no entanto, algo é unânime: a excelência do trabalho de Jeremy Irons, no papel que mais se utilizou de todo o seu potencial.

terça-feira

GÊMEOS, MÓRBIDA SEMELHANÇA

GÊMEOS, MÓRBIDA SEMELHANÇA (Dead ringers, 1988, Morgan Creek Productions, 116min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: David Cronenberg, Norman Snider, romance "Twins", de Bari Wood, Jack Geasland. Fotografia: Peter Suschitzky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Elinor Rose Galbraith. Produção executiva: Carol Baum, Sylvio Tabet. Produção: Marc Boyman, David Cronenberg. Elenco: Jeremy Irons, Genevieve Bujold, Heide von Palleske, Barbara Gordon, Shirley Douglas. Estreia: 08/9/88

Um romance chamado "Twins", escrito por Barri Wood e Jack Geasland e publicado em 1977, contava a trágica história dos irmãos Stewart e Cyril Marcus, ocorrida no Upper East Side de Manhattan em 1975: ginecologistas que atuavam em conjunto, os dois acabaram entrando em uma espiral de vício em barbitúricos que acabou os levando a uma morte que chocou a alta sociedade nova-iorquina - berço de sua fama, de seu sucesso e de sua decadência. Os detalhes da história - como o fato de um dos irmãos tomar o lugar do outro frente a seus pacientes quando o vício tornou-se irreversível e as circunstâncias bizarras que cercaram seu fim - logicamente chamou a atenção do cinema. Mais ainda, chamou a atenção de um dos poucos cineastas que seriam capazes de contá-la sem apelar para o suspense barato ou o dramalhão edificante: o canadense David Cronenberg. Vindo do sucesso de bilheteria de "A mosca" (86), que lhe deu moral em Hollywood como um diretor bancável, ele realizou "Gêmeos, mórbida semelhança", um filme perturbador e angustiante - características habituais em sua filmografia - amparado em uma atuação nada menos que sublime de Jeremy Irons nos papéis centrais. Injustamente esquecido pela Academia - que só lhe daria o Oscar dois anos mais tarde, por "O reverso da fortuna" (90) - Irons dá um show particular, enriquecendo ainda mais uma trama forte e intrigante - e que deixou muitas espectadoras pouco confortáveis ao visitar seus próprios ginecologistas por um bom tempo.

No filme de Cronenberg os gêmeos se chamam Beverly e Elliot Mantle e, assim como aqueles que os inspiraram, dividem bem mais do que uma mera semelhança física que impede a todos que os diferencie com facilidade: além da sociedade em uma clínica de ginecologia e fertilidade assistida em Toronto (Canadá), eles também tem o hábito (desconhecido por todos, obviamente) de compartilhar amantes. A dinâmica de sua sociedade também implica no fato de que Beverly é bem mais tímido e retraído do que Elliott, que responde pela agenda social do empreendimento e tem um relacionamento mais afável com as clientes enquanto o irmão é responsável pelas pesquisas que fazem a fama dos dois. Sua rotina quase inalterável é bruscamente interrompida, porém, quando entra em cena a famosa atriz Claire Niveau (Geneviève Bujold), que procura a clínica devido à sua dificuldade de engravidar. Fascinado, Elliot descobre que a atriz tem uma trompa trifurcada - fato clinicamente raro - e acaba passando uma noite com ela, apenas para, logo em seguida, deixar que Beverly também o faça. Quando Beverly se apaixona por Claire, porém, sua personalidade afável torna-se obsessiva e autodestrutiva - o que põe em risco toda a reputação construída por ele e por Elliot.


Premiado como melhor ator pelas associações de críticos de Chicago e Nova York, Jeremy Irons nunca esteve melhor - nem mesmo em sua atuação premiada com o Oscar. Diferentemente do que acontece com frequência com atores que interpretam gêmeos, ele não faz questão de deixar evidente para a audiência as diferenças entre seus personagens, confundindo o público da mesma forma como os próprios irmãos acabam confundido suas personalidades conforme a trama vai se desenrolando. De acordo com o roteiro e com a direção de Cronenberg, os Mantle vão, aos poucos, se fundindo um ao outro, eliminando a tênue linha que sempre os separou. Assim que tal linha desaparece o filme vai se afundando em cenas cada vez mais tensas e angustiantes, que convidam o público a compartilhar uma atmosfera de pesadelo orquestrado com uma elegância grotesca e feérica - em cenas que ficam na memória graças a seu desenho visual, como as cirurgias com os instrumentos bizarros criados por Beverly sendo realizadas como se fossem um ritual pagão, com os médicos todos vestidos de um vermelho forte sob uma luz ofuscante. Somados à imersão de Irons em seu trabalho, tais momentos de "Gêmeos, mórbida semelhança" o elevam a um patamar acima dos dramas de suspense convencionais, cutucando o público a ponto de incomodá-lo.

Se em seus trabalhos imediatamente anteriores em Hollywood o diretor David Cronenberg deixou um pouco de lado sua tendência à violência gráfica e ao explícito (mesmo em "A mosca" eles estavam diluídos em uma espécie de mainstream que o tornou imensamente popular), em "Gêmeos", ele parece ter voltado para casa, para seus tempos de "Videodrome, a síndrome do vídeo", em que brincava com o grotesco sem medo da reação crítica e financeira à sua obra. Em "Gêmeos", ele parece ter encontrado um equilíbrio entre a agressão quase gratuita de seus primeiros filmes e a elegância (se é que se pode chamar assim um filme onde, em um pesadelo, um personagem rompe com os dentes o que o mantinha preso no corpo do irmão) que a experiência e a maturidade lhe deram. Talvez por isso exista, dentro desse seu grande filme, a essência de toda a sua filmografia.

segunda-feira

PERDAS E DANOS

PERDAS E DANOS (Damage, 1992, StudioCanal, 111min) Direção: Louis Malle. Roteiro: David Hare, romance de Josephine Hart. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: John Bloom. Música: Zbigniew Preisner. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Christopher Turlure. Produção: Louis Malle. Elenco: Jeremy Irons, Juliette Binoche, Miranda Richardson, Rupert Graves, Leslie Caron. Estreia: 09/12/92

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Miranda Richardson)

"Pessoas feridas são perigosas. Sabem que podem sobreviver." Esse é o lema de Anna Barton, a melancólica personagem de Juliette Binoche em "Perdas e danos", elegante adaptação de Louis Malle do romance de Josephine Hart, com roteiro escrito por David Hare - que dez anos depois seria indicado ao Oscar pelo memorável script de "As horas". Oriunda de uma família marcada pela tragédia, Anna acaba por se tornar o catalisador de outro desastre familiar quando se apaixona pelo homem errado - e com isso confirmar sua tendência à destruição.

Anna é uma jovem funcionária de um antiquário que é também a namorada de Martyn (Rupert Graves), filho de Stephen Fleming (Jeremy Irons), respeitado membro do Parlamento britânico. No momento em que põe os olhos na namorada do filho, Stephen - um homem equilibrado e sensato - perde todos os referenciais rígidos que o havia guiado até então, entregando-se a um romance passional, carnal e desesperado. Sua relação proibida ameaça não apenas o relacionamento entre Anna e Martyn - que se encaminha para um compromisso sério - mas também o casamento harmônico (mas frio) entre Stephen e Ingrid (Miranda Richardson), que percebe na garota uma ameaça assim que a conhece.


Apesar das tórridas cenas de sexo entre Binoche e Jeremy Irons, "Perdas e danos" nunca deixa de ser um filme de enquadramentos clássicos e uma sutileza ímpar - para o que colabora a equipe refinada recrutada por Malle, como a figurinista Milena Canonero e o compositor Zbgniew Preisner. A sofisticação imposta pelo cineasta contrasta com a violência emocional do embate entre Anna e Stephen, duas pessoas de mundo diametralmente opostos que se encontram e tem suas vidas drasticamente modificadas pelo poder dos sentimentos - amor? desejo? atração pura e simples?. Juntos, eles criam um mundo à parte, isolado das conveniências sociais e de seus passados - uma versão menos vulgar de "O último tango em Paris".

Binoche está perfeita em seu misto de inocência, infelicidade e sensualidade, em uma atuação que encontra em Jeremy Irons o par perfeito. Recém saído de sua interpretação premiada com o Oscar em "O reverso da fortuna", Irons transmite com precisão todas as dúvidas e angústias de seu personagem, preso em suas contradições mas incapaz de controlar seus sentimentos, mesmo que isso represente destruir sua família, carreira e reputação. Todas as cenas entre os protagonistas é um espetáculo à parte, um embate entre dois grandes atores em momentos especiais de suas carreiras. E entre eles, o desempenho discreto mas sempre eficientíssimo de Miranda Richardson, uma das atrizes mais subestimadas de sua geração.

Na pele de Ingrid Fleming, uma mulher aristocrática que defende sua família com unhas e dentes, Richardson conquistou uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante - que perdeu para Marisa Tomei por "Meu primo Vinny" em uma das mais inacreditáveis escolhas dos acadêmicos. Seu trabalho excepcional só não é eclipsado por Binoche e Irons porque Malle lhe dá ao menos uma arrasadora cena perto do final, onde ela demonstra, sem sombra de dúvidas, a grande atriz que ela é. Atuando basicamente com o olhar e o corpo até sua catarse final, Richardson é um motivo a mais para que "Perdas e danos" seja visto e revisto.

sexta-feira

ADORÁVEL JULIA

ADORÁVEL JULIA (Being Julia, 2004, Serendipity Point Films, 104min) Direção: István Szabó, novela de W. Somerset Maughan. Fotografia: Lajos Koltai. Montagem: Susan Shipton. Música: Mychael Danna. Figurino: John Bloomfield. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Zoltán Horváth, Attila Koves, Ian Whittaker. Produção executiva: Mark Milln, Marion Pilowsky. Produção: Robert Lantos. Elenco: Annette Bening, Jeremy Irons, Michael Gambon, Bruce Greenwood, Shaun Evans, Lucy Punch, Juliet Stevenson, Miriam Margolyes. Estreia: 03/9/04 (Festival de Telluride)


Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Annette Bening)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Annette Bening)

 Inspirado na história “Theatre”, de W. Sommerset Maughan, esse belo drama romântico do húngaro Istvan Szabo apresenta uma das melhores atuações da sra. Warren Beatty, Annette Bening, que ganhou o Globo de Ouro e foi indicada ao Oscar por seu trabalho. Ela mereceu. Sua Julia Lambert é sem dúvida uma das personagens mais fascinantes e bem escritas da década, e Bening tira de letra a sua complexidade de emoções. De diva aborrecida a mulher apaixonada e daí a uma mulher amargurada e vingativa, Bening desfila pela tela uma paleta completa de sentimentos, o que leva o público a embarcar em sua jornada rumo à vingança com um sorriso nos lábios.
        
Londres, 1938. A atriz Julia Lambert (Annette Bening) é a diva maior dos palcos ingleses. Vivendo um casamento aberto com o diretor Michael (Jeremy Irons), ela conhece e passa a viver um caso com o jovem americano Tom (Shaun Evans), que tem idade para ser seu filho. O romance dos dois convém a ambos, uma vez que Julia torna-se mais feliz e menos deprimida e o rapaz passa a ser praticamente sustentado pela atriz. As coisas mudam de figura quando Tom se apaixona por Avril Chrichton, uma aspirante à estrela e Julia, sentindo-se traída e humilhada planeja uma vingança em grande estilo, no seu próprio terreno: o palco.




Para isso também ajuda todo o trabalho de produção do filme. Com uma primorosa reconstituição de época, uma bela trilha sonora e um elenco coadjuvante afinado, a nova obra de Szabo conquista pela elegância, pela inteligência e pela qualidade que emana em cada cena. Jeremy Irons, apesar de não ter muito o que fazer em cena demonstra seu tradicional estilo cool. Michael Gambon, como uma espécie de anjo da guarda e grilo falante de Julia não poderia estar melhor e Juliet Stevenson, como a camareira da atriz nem precisa de muitos diálogos para mostrar sua competência. Pena que Shaun Evans, na pele de Tom, personagem crucial à trama não cumpra com as expectativas. Apesar de jovem, simpático e sedutor, ele não tem o estofo necessário para viver o pivô de toda a história. No entanto, isso não compromete o belo espetáculo que “Adorável Julia” é, uma bela declaração de amor ao teatro, acima de tudo.

quarta-feira

A CASA DOS ESPÍRITOS


A CASA DOS ESPÍRITOS (The house of the spirits, 1993, Costa do Castelo Filmes, 140min) Direção: Bille August. Roteiro: Bille August, romance de Isabel Allende. Fotografia: Jorgen Persson. Montagem: Janus Billeskov Jansen. Música: Hans Zimmer. Figurino: Barbara Baum. Direção de arte/cenários: Anna Asp/Soren Gam. Produção executiva: Edwin Leicht, Dieter Meyer, Mark Rosenberg, Paula Weinstein. Produção: Bernd Eichinger. Elenco: Jeremy Irons, Meryl Streep, Glenn Close, Winona Ryder, Antonio Banderas, Vanessa Redgrave, Armin Mueller-Stahl, Teri Polo, Vincent Gallo, Maria Conchita Alonso. Estreia nos EUA: 01/4/94

Demorou anos até que o best-seller da escritora chilena Isabel Allende chegasse às telas. E eis que finalmente, chegou, nas mãos do cineasta Bille August, mas pasteurizado, simplificado e até mesmo decepcionante para quem leu sua obra-prima. Quem não passou os olhos pelo longo romance, no entanto, pode gostar do filme e até se emocionar, graças ao grande e competento elenco, que passa por cima dos defeitos da adaptação simplista feita pelo próprio diretor. "A casa dos espíritos", o filme, não chega aos pés do romance que lhe deu origem, mas não chega exatamente a destruí-lo.

Sobrinha do ex-presidente Salvador Allende, Isabel utilizou em seu romance elementos sobrenaturais que lembrava a prosa realista-fantástica de Gabriel García Marquez, mas que, em formato áudio-visual, são apenas detalhes quase insignificantes em meio à longa saga da família Trueba. Tudo bem que condensar décadas da vida de uma família em pouco mais de duas horas de duração não é tarefa das mais fáceis, principalmente levando-se em conta que a autora mistura mediunidade com política, amores proibidos e psicologismos freudianos e que dar profundidade a isso em um único longa-metragem é um esforço hercúleo e normalmente inglório. Mas August, diretor do belo "Pelle, o conquistador", vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 1989 poderia ter sido menos acadêmico no que é seu trabalho mais ambicioso comercialmente.

A história começa quando o pobre mas ambicioso Esteban Trueba (Jeremy Irons, que convence de jovem a idoso) pede a mão da bela Rosa (Teri Polo) a seus cuidadosos pais (Armin Mueller-Stahl e Vanessa Redgrave, subaproveitados). Querendo enriquecer o mais rapidamente possível, ele vai trabalhar em uma mina de diamantes, mas quando retorna para a mulher que ama, a encontra morta, vítima de um atentado político contra seu pai. Desesperado de dor, ele se refugia no trabalho de construir a Fazenda Três Marias ao lado da irmã solteirona Ferula (Glenn Close), que passou a vida cuidando da mãe doente. Depois de vinte anos, Esteban pede em casamento a irmã de Rosa, Clara (Meryl Streep), uma médium que vive em seu próprio mundo e que adota Ferula como sua irmã de coração.

É a saga da família Trueba que é contada no romance e no filme. Décadas depois de seu casamento com Clara, Esteban vê Blanca (Winona Ryder) sua única filha dentro do casamento - a despeito de no mínimo um filho bastardo ressentido contra a própria pobreza - envolver-se romanticamente com Pedro (Antonio Banderas), líder sindicalista que prega melhores condições de trabalho na fazenda dos Trueba e que passa a ser perseguido depois do golpe militar do início dos anos 70 - que depôs, inclusive, o tio da escritora.

O roteiro de August concentra-se bem mais nos problemas políticos e sociais da história do que em seus elementos sobrenaturais - o que faz com que o título soe meio deslocado. Se acerta por um lado, deixa fãs inconsoláveis de outro. Acerta em deixar o rojão maior nas mãos competentes de Jeremy Irons, mas não aproveita como deveria a dupla Meryl Streep e Glenn Close, que, embora menos exploradas do que deveriam, nunca deixam de dar seu show particular: nas cenas em que qualquer uma delas está presente, o filme cresce emocionalmente - tome-se como exemplo a cena em que Clara beija Ferula no rosto, em um restaurante, e ela chora dizendo que nunca foi querida por ninguém. Também é comovente o encontro entre Blanca, à beira da morte depois das torturas impostas pelos militares, com o espírito de sua mãe, que a convence a permanecer viva.

Ainda que não consiga atingir todas as nuances do belo romance de Allende - passando muito superficialmente por temas espinhosos, como o amor que Ferula sente pela cunhada e a relação entre Trueba e as empregadas que ele violentava - a adaptação de "A casa dos espíritos" para o cinema consegue ser interessante o bastante para segurar a audiência na poltrona. Mas, perto da obra-prima que poderia ser, não deixa de ser decepcionante. Felizmente o elenco salva miraculosamente o resultado final.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...