O
VERÃO DE SAM (The summer of Sam, 1999, 40 Acres & A Mule
Filmworks/Touchstone Pictures, 142min) Direção: Spike Lee. Roteiro:
Spike Lee, Victor Colicchio, Michael Imperioli. Fotografia: Ellen Kuras.
Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino:
Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez/Diane Lederman.
Produção executiva: Jerri Carroll-Colicchio, Michael Imperioli.
Produção: Jon Kilik, Spike Lee. Elenco: John Leguizamo, Mira Sorvino,
Adrien Brody, Jennifer Esposito, Michael Rispoli, Bebe Neuwirth, Patti
Lupone, Anthony LaPaglia, Ben Gazzarra, John Savage, Spike Lee. Estreia:
20/5/99 (Festival de Cannes)
A ideia inicial de
Spike Lee era contar em forma de filme, uma das histórias mais
apavorantes vivenciadas pelos moradores de Nova York na década de
70, quando um serial killer auto-intitulado "O Filho de Sam" usou de um
revólver calibre 44 para matar seis pessoas e ferir outras sete, sempre
à noite, entre agosto de 1976 e julho de 1977 - um dos mais quentes da
história da cidade. A contrariedade dos familiares das vítimas, que não
gostaram nem um pouco de ver o algoz de seus entes queridos transformado
em possível heroi mudou a perspectiva do polêmico cineasta: a trama
central então, mudou de foco, e apesar dos assassinatos terem
importância fundamental em "O verão de Sam", são apenas o pano de fundo
para um conto sobre preconceito, intolerância e medo. Candente e dotado
de um ritmo ágil e angustiante, o filme é um dos melhores da carreira do
diretor de "Faça a coisa certa" e "Malcolm X", valorizado pelo cuidado
com a reconstituição de época e com um elenco de atores certos nos
papéis corretos.
O protagonista de "O verão de Sam" é
Vinny (o ótimo John Leguizamo, que improvisou boa parte de seus
diálogos, com o incentivo do diretor), um cabeleireiro mulherengo que
gasta suas noites dançando nas discotecas do Bronx ao lado da esposa,
Dionna (Mira Sorvino) - e frequentemente transando com qualquer
rabo-de-saia que passe à sua frente, não importa se é a sua chefe,
Gloria (Bebe Neuwirth) ou a prima de sua mulher. Em uma dessas puladas
de cerca, ele escapa de ser assassinado pelo Filho de Sam, um serial
killer que vem apavorando a cidade de Nova York. Acreditando que sua
sorte é um sinal de Deus para que mude de vida, ele resolve tentar ser o
melhor marido possível, ao mesmo tempo em que Dionna, para mantê-lo a
seu lado, passa a buscar formas diferentes de satisfazê-lo sexualmente.
Nesse meio tempo, um dos policiais encarregados do caso, Lou Petrocelli
(Anthony LaPaglia), criado no Bronx, pede ajuda ao mafioso local, Luigi
(Ben Gazzarra), para que colabore nas investigações com seu vasto
conhecimento do submundo do crime. Tal pedido acaba por envolver na
história um grupo de moradores do bairro, que, preconceituosos e
ignorantes, passam a perseguir a todos aqueles que julgam possíveis
suspeitos. Um deles, o jovem Richie (Adrien Brody), acaba por se tornar o
principal acusado, somente por vestir-se como punk, tocar rock em bares
pouco recomendáveis e, vez ou outra, prostituir-se.
Costurando
suas histórias com um ritmo cadenciado que jamais permite tempos mortos
em sua narrativa, Spike Lee constrói um potente estudo sobre a culpa e o
preconceito, jogando na mesma mistura uma sexualidade explosiva e
marginal - com direito a cenas de orgias e diálogos repletos de
palavrões - e uma violência tanto física quanto moral exasperantes.
Enquanto o criminoso Filho de Sam se vê torturado pelas vozes em sua
cabeça (que o impelem a matar), Richie é vítima de todos os tipos de
preconceito, que surgem dentro de sua própria casa e se estendem pelas
ruas de seu bairro. A forma como o roteiro trata Richie - um homem
inocente destruído por suspeitas aleatórias - lembra os clássicos de
Hitchcock, mas aquecidos a uma temperatura quase insuportável, refletida
na fotografia quase em tom documental de Ellen Kuras e no desenho de
som, que transforma a narrativa em um pesadelo kafkiano. Uma pena,
porém, que Lee não tenha mantido a ousadia até o final, refreando a
crueldade que poderia dar à mensagem do filme uma ênfase ainda mais
contundente.
Afora esse pequeno senão, "O verão de Sam"
tem de tudo para agradar a todos os paladares: é um filme policial
competente - ainda que o roteiro não se detenha nas investigações em si
-, é um drama romântico sensual, tem sequências musicais bem dirigidas
(calma, nada de cantorias, apenas coreografias bem elaboradas ao som de
música disco), um elenco bem dirigido e uma trilha sonora deliciosa com
sucessos da década de 70 - ABBA, The Who, Thelma Huston. Nem mesmo sua
longa duração - duas horas e meia - chega a ser um defeito, uma vez que a
edição tem um invejável senso de ritmo e a história nunca deixa de ser
interessante o bastante para manter a atenção da plateia. Um grande
filme, que se apropria de uma das mais assustadoras lendas da crônica
policial norte-americana para falar de pessoas comuns, vítimas da
ignorância e do preconceito. Vale a pena assistir ou revisitar.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade.
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sábado
terça-feira
ROMY & MICHELE
ROMY & MICHELE (Romy &
Michele's High School reunion, 1997, 92min) Direção: Robin Schiff.
Roteiro: Robin Schiff, peça teatral "The ladies room", de sua autoria.
Fotografia: Reynaldo Villalobos. Montagem: David Finfer. Música: Steve
Bartek, James Newton Howard. Figurino: Mona May. Direção de
arte/cenários: Mayne Berke/Jackie Carr. Produção executiva: Barry Kemp,
Robin Schiff. Produção: Laurence Mark. Elenco: Mira Sorvino, Lisa
Kudrow, Janeane Garofalo, Alan Cumming, Justin Theroux. Estreia: 25/4/97
Quando o sucesso da telessérie "Friends" começou a tornar-se um fenômeno de proporções globais, seus atores imediatamente embarcaram na tentativa de transferir sua popularidade para o cinema, tido como uma arte maior e de mais prestígio - fato que foi se transformando com o passar dos anos, quando a TV, graças aos canais por assinatura, atingiu o status que tem hoje. De suas três atrizes, apenas Courteney Cox se deu bem à época, mesmo que não fosse a protagonista absoluta de "Pânico" - que rendeu mais de 100 milhões de dólares nas bilheterias. Jennifer Aniston optou pela comédia romântica - gênero ao qual se mantém presa até hoje, com raras e louváveis exceções - com "Paixão de ocasião", que estreou em agosto de 1997 com sucesso razoável e Lisa Kudrow seguiu a regra do "em time que está ganhando não se mexe" e protagonizou "Romy & Michele", uma comédia baseada em uma peça de teatro que ela mesma protagonizava e que explorava sem limites o tipo de humor que a consagrou como a desmiolada Phoebe Buffay. Com uma renda inferior a 30 milhões, o filme de Robin Schiff - também autor do roteiro e da peça - acabou, com o tempo, virando uma espécie de cult movie, adorado pelos fãs de Kudrow e pelo humor bobalhão e ingênuo do roteiro, que diverte sem exigir nada dos neurônios.
No fundo uma crítica debochada à obsessão americana pelo sucesso, pela eterna juventude e pela beleza estética - além de uma carinhosa homenagem à amizade feminina - "Romy & Michele" é quase uma sucessão de quadros cômicos que, unidos por um roteiro quase óbvio, cria uma linha narrativa quase simplória mas que, visto seu objetivo único de fazer rir, mostra-se eficiente o bastante. Sem preocupar-se em aprofundar seus personagens, que estão em cena apenas para cumprir os papéis estereotipados planejados pelo roteiro, Schiff brinca com um dos maiores clichês do cinema americano - a festa de reencontro de alunos do ginásio - ao mesmo tempo que oferece ao público tiradas sarcásticas a respeito dos anos 80, da condição feminina nos anos 90 e até do culto à celebridade que alcançaria picos somente depois da entrada do século XXI. Sem poupar bom-humor e aproveitando-se de uma trilha sonora deliciosa, o filme é uma típica sessão da tarde descompromissada, capaz de arrancar gargalhadas mesmo que acabe se tornando posteriormente em mais um guilty pleasure.
Colegas e amigas desde a infância, Romy White (Mira Sorvino voltando ao tipo loira burra que lhe rendeu o Oscar de coadjuvante por "Poderosa Afrodite") e Michele Weinberg (Lisa Kudrow) moram juntas desde o fim da escola, em 1987. Sempre isoladas de todos os grupos - não eram as mais populares nem tampouco as nerds - elas saíram de sua cidade do interior e foram morar em Los Angeles, com o objetivo de levar um vida mais agitada e repleta de possibilidades. Dez anos depois, pouca coisa aconteceu. Romy trabalha como recepcionista em uma garagem, Michele está desempregada e ambas estão solteiras e sem reais expectativas de arrumar um namorado. Quando recebem o convite para o reencontro de sua turma do ginásio, porém, elas percebem que não podem aparecer diante dos colegas - todos eles provavelmente bem-sucedidos, casados e ricos - sem ostentar uma existência mais poderosa e glamourosa. Sendo assim, resolvem reinventar-se como duas executivas importantes - inventoras do post-it - para surpreender a todos que as subestimavam. O problema é quando a mal-humorada Heather Mooney (Janeane Garofalo), que sabe a verdade sobre as duas, aparece na festa.
Quem procura uma comédia sofisticada deve passar ao largo de "Romy & Michele". A missão do filme de Robin Schiff é unica e exclusivamente fazer rir, seja dos exageros visuais oitentistas, seja dos absurdos a que se submetem as pessoas para criarem uma imagem diante dos outros, seja da capacidade do ser humano em transformar pequenas crises em enormes problemas. Contando com uma dupla afinadíssima nos papeis principais e algumas piadas sensacionais que valem o filme inteiro, como a tirada de sarro em cima da canção-tema de "Footlose", a obra apresenta um resultado final irregular, mas engraçado o suficiente para garantir uma boa hora e meia de entretenimento descompromissado. Uma bola dentro na carreira de Lisa Kudrow, que mais tarde se mostraria uma atriz capaz de voos bem mais altos, como na comédia dramática "O oposto do sexo", de Don Roos, onde vive uma solteirona recalcada apaixonada pelo cunhado gay.
Quando o sucesso da telessérie "Friends" começou a tornar-se um fenômeno de proporções globais, seus atores imediatamente embarcaram na tentativa de transferir sua popularidade para o cinema, tido como uma arte maior e de mais prestígio - fato que foi se transformando com o passar dos anos, quando a TV, graças aos canais por assinatura, atingiu o status que tem hoje. De suas três atrizes, apenas Courteney Cox se deu bem à época, mesmo que não fosse a protagonista absoluta de "Pânico" - que rendeu mais de 100 milhões de dólares nas bilheterias. Jennifer Aniston optou pela comédia romântica - gênero ao qual se mantém presa até hoje, com raras e louváveis exceções - com "Paixão de ocasião", que estreou em agosto de 1997 com sucesso razoável e Lisa Kudrow seguiu a regra do "em time que está ganhando não se mexe" e protagonizou "Romy & Michele", uma comédia baseada em uma peça de teatro que ela mesma protagonizava e que explorava sem limites o tipo de humor que a consagrou como a desmiolada Phoebe Buffay. Com uma renda inferior a 30 milhões, o filme de Robin Schiff - também autor do roteiro e da peça - acabou, com o tempo, virando uma espécie de cult movie, adorado pelos fãs de Kudrow e pelo humor bobalhão e ingênuo do roteiro, que diverte sem exigir nada dos neurônios.
No fundo uma crítica debochada à obsessão americana pelo sucesso, pela eterna juventude e pela beleza estética - além de uma carinhosa homenagem à amizade feminina - "Romy & Michele" é quase uma sucessão de quadros cômicos que, unidos por um roteiro quase óbvio, cria uma linha narrativa quase simplória mas que, visto seu objetivo único de fazer rir, mostra-se eficiente o bastante. Sem preocupar-se em aprofundar seus personagens, que estão em cena apenas para cumprir os papéis estereotipados planejados pelo roteiro, Schiff brinca com um dos maiores clichês do cinema americano - a festa de reencontro de alunos do ginásio - ao mesmo tempo que oferece ao público tiradas sarcásticas a respeito dos anos 80, da condição feminina nos anos 90 e até do culto à celebridade que alcançaria picos somente depois da entrada do século XXI. Sem poupar bom-humor e aproveitando-se de uma trilha sonora deliciosa, o filme é uma típica sessão da tarde descompromissada, capaz de arrancar gargalhadas mesmo que acabe se tornando posteriormente em mais um guilty pleasure.
Colegas e amigas desde a infância, Romy White (Mira Sorvino voltando ao tipo loira burra que lhe rendeu o Oscar de coadjuvante por "Poderosa Afrodite") e Michele Weinberg (Lisa Kudrow) moram juntas desde o fim da escola, em 1987. Sempre isoladas de todos os grupos - não eram as mais populares nem tampouco as nerds - elas saíram de sua cidade do interior e foram morar em Los Angeles, com o objetivo de levar um vida mais agitada e repleta de possibilidades. Dez anos depois, pouca coisa aconteceu. Romy trabalha como recepcionista em uma garagem, Michele está desempregada e ambas estão solteiras e sem reais expectativas de arrumar um namorado. Quando recebem o convite para o reencontro de sua turma do ginásio, porém, elas percebem que não podem aparecer diante dos colegas - todos eles provavelmente bem-sucedidos, casados e ricos - sem ostentar uma existência mais poderosa e glamourosa. Sendo assim, resolvem reinventar-se como duas executivas importantes - inventoras do post-it - para surpreender a todos que as subestimavam. O problema é quando a mal-humorada Heather Mooney (Janeane Garofalo), que sabe a verdade sobre as duas, aparece na festa.
Quem procura uma comédia sofisticada deve passar ao largo de "Romy & Michele". A missão do filme de Robin Schiff é unica e exclusivamente fazer rir, seja dos exageros visuais oitentistas, seja dos absurdos a que se submetem as pessoas para criarem uma imagem diante dos outros, seja da capacidade do ser humano em transformar pequenas crises em enormes problemas. Contando com uma dupla afinadíssima nos papeis principais e algumas piadas sensacionais que valem o filme inteiro, como a tirada de sarro em cima da canção-tema de "Footlose", a obra apresenta um resultado final irregular, mas engraçado o suficiente para garantir uma boa hora e meia de entretenimento descompromissado. Uma bola dentro na carreira de Lisa Kudrow, que mais tarde se mostraria uma atriz capaz de voos bem mais altos, como na comédia dramática "O oposto do sexo", de Don Roos, onde vive uma solteirona recalcada apaixonada pelo cunhado gay.
sexta-feira
BRINCANDO DE SEDUZIR
BRINCANDO
DE SEDUZIR (Beautiful girls, 1996, Miramax Films, 112min) Direção: Ted
Demme. Roteiro: Scott Rosenberg. Fotografia: Adam Kimmel. Montagem:
Jeffrey Wolf. Música: David A. Stewart. Figurino: Lucy W. Corrigan.
Direção de arte/cenários: Dan Davis/Tracey A. Doyle. Produção executiva:
Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cary Woods. Elenco: Matt
Dillon, Timothy Hutton, Noah Emmerich, Michael Rapaport, Rosie
O'Donnell, Lauren Holly, Martha Plimpton, Max Perlich, Natalie Portman,
Mira Sorvino, Uma Thurman, Pruitt Taylor Vince, Sam Robards, David
Arquette, John Carrol Lynch. Estreia: 09/02/06
Esta é uma história real: na metade da década de 90, enquanto esperava por uma resposta em relação à sorte de um trabalho seu para um grande estúdio de Hollywood, o roteirista Scott Rosenberg voltou à sua cidade natal, no estado de Massachusetts, para fugir da tensão da situação. Lá, ao lado de amigos de infância, percebeu, quase como uma epifania, o quão imaturos todos eles eram, incapazes de aceitar o fato de que estavam chegando aos 30 anos e totalmente despreparados para assumirem compromissos sentimentais. Ciente de que tal estado de espírito também dizia respeito a quase todos os homens de sua geração - e talvez das anteriores e posteriores - Rosenberg partiu para a ação e escreveu "Brincando de seduzir", uma comédia cáustica, romântica e um tanto cínica sobre ele mesmo em particular e os homens em geral. Dirigido por Ted Demme - recém vindo do ácido "O árbitro" - e estrelado por um grupo de jovens atores e atrizes que se dividiam entre iniciantes e veteranos, o filme fez pouco barulho nas bilheterias, mas é, sem dúvida, um retrato fiel e - por que não? - encantador da amizade entre homens.
Willie Conway (Timothy Hutton caprichando no visual desleixado) toca pianos nos bares de Nova York enquanto espera sua grande chance de tornar-se rico e famoso. Namorando há anos a compreensiva advogada Tracy (Annabeth Gish), ele retorna à sua cidade natal para um reencontro com os colegas do ginasial, a quem não vê há anos - assim como seu pai e seu irmão caçula, que desde a morte de sua mãe entraram em uma rotina triste e sem expectativas. Chegando a seu destino, ele imediatamente conhece a nova vizinha, a adolescente Marty (Natalie Portman), que mesmo aos 14 anos, não hesita em flertar com o forasteiro - que, logicamente, sente-se atraído pelo frescor e juventude da menina. Seu desequilíbrio diante de um belo espécime do sexo feminino é compartilhado com seus outros amigos, conforme ele vai percebendo ao encontrá-los: Tommy (Matt Dillon), o galã da cidade, namora com a bela e dedicada Sharon (Mira Sorvino), mas mantém há tempos um caso com uma mulher casada, Darian (Lauren Holly). Seu sócio no negócio de limpar neve das calçadas é Paul (Michael Rapaport, sempre bom em papéis de homens bobalhões), que não se conforma com a traição da namorada, Jan (Martha Plimpton) e vinga-se dela atravancando sua garagem com detritos das tempestades que não param de chegar. O único da turma que parece feliz é Michael (Noah Emmerich), casado, pai de dois filhos e imune às tentações da carne - sempre ironizadas pela sarcástica Gina (Rosie O'Donnell). As noitadas regadas a bebida e reminiscências são abaladas, porém, com a chegada de Andera (Uma Thurman), a bela e independente prima de um amigo em comum que mexe com a libido de todos.
É difícil de acreditar que antes de "Brincando de seduzir" apenas um outro roteiro de Scott Rosenberg havia chegado às telas - e de um gênero totalmente distante, o policial "Coisas para se fazer em Denver quando você está morto", lançado em 1995. Dotado de ritmo, consistência dramática e personagens críveis e pateticamente humanos, o texto de Rosenberg flui com extrema naturalidade, chegando até ao espectador sem soar presunçoso ou autocomplacente. Mesmo quando toca em um assunto potencialmente perigoso - a atração do trintão Willie pela adolescente Marty - o roteiro substitui o peso de uma polêmica pela leveza da citação de Nabokov e sua Lolita. Ao defender a imaturidade masculina mesmo quando ela tem consequências pouco nobres ou altruístas, tanto Rosenberg quanto o diretor Ted Demme tem o cuidado de não parecerem machistas ou misóginos: eles parecem dizer, através dos diálogos certeiros e quase melancólicos em determinados momentos, que seus personagens não são maus, são apenas infantis e, portanto, dotados de um egoísmo inerente à sua condição. E para isso, eles contam com um elenco excelente, que se desincumbe com maestria das armadilhas de uma trama que prescinde de heróis ou vilões.
Timothy Hutton - que ganhou um Oscar de coadjuvante aos 19 anos por "Gente como a gente" (80) - sai-se bem como o desnorteado Willie, um homem perdido entre a juventude e a maturidade que vê no possível envolvimento com uma adolescente sua última chance de prender-se de vez ao passado. Uma Thurman desfila linda e carismática pela tela como a sedutora Andera e Michael Rapaport faz o papel de adorável paspalho que se tornaria sua marca registrada - o mesmo que acontece com Rosie O'Donnell, que rouba a cena com sua desbocada e realista Gina em pelo menos uma cena memorável, quando discursa sobre a ditadura da beleza feminina ideal dos homens (tema também de um diálogo brilhante proferido pelo personagem de Rapaport). Junto a eles, as duas oscarizadas Natalie Portman - ainda menina - e Mira Sorvino completam uma equipe iluminada, que vem suas cenas comentadas pela adequada e agradável trilha sonora de David A. Stewart.
Ah, o filme que Rosenberg escreveu antes de esconder-se em sua cidadezinha chegou às telas em 1997: era o blockbuster "Con Air, a rota da fuga"... que não tem, perceptivelmente, nada a ver com o delicioso "Brincando de seduzir".
Esta é uma história real: na metade da década de 90, enquanto esperava por uma resposta em relação à sorte de um trabalho seu para um grande estúdio de Hollywood, o roteirista Scott Rosenberg voltou à sua cidade natal, no estado de Massachusetts, para fugir da tensão da situação. Lá, ao lado de amigos de infância, percebeu, quase como uma epifania, o quão imaturos todos eles eram, incapazes de aceitar o fato de que estavam chegando aos 30 anos e totalmente despreparados para assumirem compromissos sentimentais. Ciente de que tal estado de espírito também dizia respeito a quase todos os homens de sua geração - e talvez das anteriores e posteriores - Rosenberg partiu para a ação e escreveu "Brincando de seduzir", uma comédia cáustica, romântica e um tanto cínica sobre ele mesmo em particular e os homens em geral. Dirigido por Ted Demme - recém vindo do ácido "O árbitro" - e estrelado por um grupo de jovens atores e atrizes que se dividiam entre iniciantes e veteranos, o filme fez pouco barulho nas bilheterias, mas é, sem dúvida, um retrato fiel e - por que não? - encantador da amizade entre homens.
Willie Conway (Timothy Hutton caprichando no visual desleixado) toca pianos nos bares de Nova York enquanto espera sua grande chance de tornar-se rico e famoso. Namorando há anos a compreensiva advogada Tracy (Annabeth Gish), ele retorna à sua cidade natal para um reencontro com os colegas do ginasial, a quem não vê há anos - assim como seu pai e seu irmão caçula, que desde a morte de sua mãe entraram em uma rotina triste e sem expectativas. Chegando a seu destino, ele imediatamente conhece a nova vizinha, a adolescente Marty (Natalie Portman), que mesmo aos 14 anos, não hesita em flertar com o forasteiro - que, logicamente, sente-se atraído pelo frescor e juventude da menina. Seu desequilíbrio diante de um belo espécime do sexo feminino é compartilhado com seus outros amigos, conforme ele vai percebendo ao encontrá-los: Tommy (Matt Dillon), o galã da cidade, namora com a bela e dedicada Sharon (Mira Sorvino), mas mantém há tempos um caso com uma mulher casada, Darian (Lauren Holly). Seu sócio no negócio de limpar neve das calçadas é Paul (Michael Rapaport, sempre bom em papéis de homens bobalhões), que não se conforma com a traição da namorada, Jan (Martha Plimpton) e vinga-se dela atravancando sua garagem com detritos das tempestades que não param de chegar. O único da turma que parece feliz é Michael (Noah Emmerich), casado, pai de dois filhos e imune às tentações da carne - sempre ironizadas pela sarcástica Gina (Rosie O'Donnell). As noitadas regadas a bebida e reminiscências são abaladas, porém, com a chegada de Andera (Uma Thurman), a bela e independente prima de um amigo em comum que mexe com a libido de todos.
É difícil de acreditar que antes de "Brincando de seduzir" apenas um outro roteiro de Scott Rosenberg havia chegado às telas - e de um gênero totalmente distante, o policial "Coisas para se fazer em Denver quando você está morto", lançado em 1995. Dotado de ritmo, consistência dramática e personagens críveis e pateticamente humanos, o texto de Rosenberg flui com extrema naturalidade, chegando até ao espectador sem soar presunçoso ou autocomplacente. Mesmo quando toca em um assunto potencialmente perigoso - a atração do trintão Willie pela adolescente Marty - o roteiro substitui o peso de uma polêmica pela leveza da citação de Nabokov e sua Lolita. Ao defender a imaturidade masculina mesmo quando ela tem consequências pouco nobres ou altruístas, tanto Rosenberg quanto o diretor Ted Demme tem o cuidado de não parecerem machistas ou misóginos: eles parecem dizer, através dos diálogos certeiros e quase melancólicos em determinados momentos, que seus personagens não são maus, são apenas infantis e, portanto, dotados de um egoísmo inerente à sua condição. E para isso, eles contam com um elenco excelente, que se desincumbe com maestria das armadilhas de uma trama que prescinde de heróis ou vilões.
Timothy Hutton - que ganhou um Oscar de coadjuvante aos 19 anos por "Gente como a gente" (80) - sai-se bem como o desnorteado Willie, um homem perdido entre a juventude e a maturidade que vê no possível envolvimento com uma adolescente sua última chance de prender-se de vez ao passado. Uma Thurman desfila linda e carismática pela tela como a sedutora Andera e Michael Rapaport faz o papel de adorável paspalho que se tornaria sua marca registrada - o mesmo que acontece com Rosie O'Donnell, que rouba a cena com sua desbocada e realista Gina em pelo menos uma cena memorável, quando discursa sobre a ditadura da beleza feminina ideal dos homens (tema também de um diálogo brilhante proferido pelo personagem de Rapaport). Junto a eles, as duas oscarizadas Natalie Portman - ainda menina - e Mira Sorvino completam uma equipe iluminada, que vem suas cenas comentadas pela adequada e agradável trilha sonora de David A. Stewart.
Ah, o filme que Rosenberg escreveu antes de esconder-se em sua cidadezinha chegou às telas em 1997: era o blockbuster "Con Air, a rota da fuga"... que não tem, perceptivelmente, nada a ver com o delicioso "Brincando de seduzir".
segunda-feira
QUIZ SHOW - A VERDADE DOS BASTIDORES
QUIZ
SHOW, A VERDADE DOS BASTIDORES (Quiz show, 1994, Hollywood
Pictures/Baltimore Pictures, 133min) Direção: Robert Redford. Roteiro:
Paul Attanasio, livro "Remembering America: a voice from the sixties",
de Richard N. Goodwin. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Stu
Linder. Música: Mark Isham. Figurino: Kathy O'Rear. Direção de
arte/cenários: Jon Huttman/Samara Schaffer. Produção executiva: Richard
Dreyfuss, Judith James, Frederick Zollo. Produção: Michael Jacobs,
Julian Krainin, Michael Zonik, Robert Redford. Elenco: Ralph Fiennes,
Rob Morrow, John Turturro, Paul Scofield, Christopher McDonald, David
Paymer, Hank Azaria, Mira Sorvino, Griffin Dunne, Martin Scorsese, Barry
Levinson. Estreia: 23/9/94
4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Redford), Ator Coadjuvante (Paul Scofield), Roteiro Adaptado
O ano é 1958. Um dos mais populares programas de TV dos EUA, apresentado pela NBC, é o game-show "Twenty-one", apresentando por Jack Barry (Christopher McDonald), onde dois candidatos duelam pela possibilidade de ganhar até 100 mil dólares respondendo a perguntas de conhecimento geral. Percebendo que o campeão das últimas semanas, Herbie Stempel (John Turturro) já não tem mais a resposta entusiasmada da plateia (a audiência estancou e parece que não há jeito de voltar a subir), os patrocinadores do programa resolvem retirá-lo do show e substituí-lo por alguém mais palatável ao gosto médio. Stempel, um judeu do Queens sem formação acadêmica e de aparência pouco admirável, acaba sendo deixado de lado por Charles Van Doren (Ralph Fiennes), um professor universitário de considerável herança intelectual - e dono de uma beleza que passa a encantar as mulheres. Enquanto Van Doren começa a acumular uma bela fortuna saindo vencedor dos programas de que participa, o antigo concorrente, sentindo-se traído pela produção da emissora, resolve expor a rede de mentiras que se passa nos bastidores. Segundo ele, os participantes escolhidos como os vencedores já recebem todas as respostas antes do início da atração, como forma de garantir sua vitória. Suas acusações chegam até os ouvidos de Dick Goodwin (Rob Morrow), um jovem idealista e ambicioso que trabalha no Congresso Americano, que resolve tirá-las a limpo.
Esse escândalo de manipulação da mídia - fato hoje tão corriqueiro que nem chega mais a ser notícia - ocorreu de verdade e foi o tema do livro "Remembering America: a voice from the sixties", escrito pelo próprio Goodwin e serviu de base para o quarto filme do ator Robert Redford como cineasta, "Quiz show, a verdade dos bastidores". Indicado para quatro estatuetas da Academia - incluindo melhor filme, direção e roteiro - o filme é uma reconstituição sóbria e clássica de um período americano anterior ao pesadelo em que o país mergulharia com o assassinato de John Kennedy em 1963, que traria a reboque a guerra do Vietnã e o recrudescimento dos conflitos raciais. A perda da inocência que estava em vias de ocorrer talvez tenha se deixado vislumbrar com a história do "Twenty-one", parece dizer Redford, que nem por isso parece julgar os fatos que apresenta. Como bom cineasta contador de histórias, ele apenas serve como narrador, deixando as conclusões - e as opiniões - com o público.
E Redford talvez nunca tenha estado melhor como cineasta do que em "Quiz show". Amparado por um roteiro seguro e repleto de nuances sociais e psicológicas - o filme engloba tanto os meandros das emissoras de tv quanto os dramas pessoais dos envolvidos com a tramoia - ele também tira de seus atores interpretações viscerais: Ralph Fiennes - vindo direto da indicação ao Oscar por "A lista de Schindler" (93) - constroi um Charles Van Doren minimalista, sutil, que fala com os olhos e transmite sua variada gama de sentimentos sem precisar apelar para o óbvio (assim como o faz também o veterano Paul Scofield na pele de seu pai, uma atuação que colocou-o na lista dos concorrentes à estatueta de coadjuvante), enquanto John Turturro brilha na pele do exagerado, falastrão e dramático Herbie Stempel: o contraste entre as duas atuações é um golpe de mestre do diretor, que deixa claro ao público as motivações dos competidores. Van Doren sucumbiu à fama, à glória e até mesmo à ingenuidade de achar que sua vitória ajudaria na educação do país. Stemple precisava de dinheiro, de atenção, de ter o reconhecimento por sua cultura. Ambos caíram em desgraça.
Realizado com capricho - a ambientação e os figurinos são impecáveis - e dirigido com elegância e discrição, "Quiz show" chegou ao Oscar 95 enfrentando pesos-pesados como "Forrest Gump, o contador de histórias" e "Pulp fiction, tempo de violência", o que talvez explique o fato de ter saído de mãos abanando da cerimônia. Mas também é bem possível que os eleitores da Academia não tenham gostado de perceber o quanto podem ser manipulados pela mídia. A verdade doi, mesmo que venha embrulhada em um belo e fascinante papel de presente.
4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Redford), Ator Coadjuvante (Paul Scofield), Roteiro Adaptado
O ano é 1958. Um dos mais populares programas de TV dos EUA, apresentado pela NBC, é o game-show "Twenty-one", apresentando por Jack Barry (Christopher McDonald), onde dois candidatos duelam pela possibilidade de ganhar até 100 mil dólares respondendo a perguntas de conhecimento geral. Percebendo que o campeão das últimas semanas, Herbie Stempel (John Turturro) já não tem mais a resposta entusiasmada da plateia (a audiência estancou e parece que não há jeito de voltar a subir), os patrocinadores do programa resolvem retirá-lo do show e substituí-lo por alguém mais palatável ao gosto médio. Stempel, um judeu do Queens sem formação acadêmica e de aparência pouco admirável, acaba sendo deixado de lado por Charles Van Doren (Ralph Fiennes), um professor universitário de considerável herança intelectual - e dono de uma beleza que passa a encantar as mulheres. Enquanto Van Doren começa a acumular uma bela fortuna saindo vencedor dos programas de que participa, o antigo concorrente, sentindo-se traído pela produção da emissora, resolve expor a rede de mentiras que se passa nos bastidores. Segundo ele, os participantes escolhidos como os vencedores já recebem todas as respostas antes do início da atração, como forma de garantir sua vitória. Suas acusações chegam até os ouvidos de Dick Goodwin (Rob Morrow), um jovem idealista e ambicioso que trabalha no Congresso Americano, que resolve tirá-las a limpo.
Esse escândalo de manipulação da mídia - fato hoje tão corriqueiro que nem chega mais a ser notícia - ocorreu de verdade e foi o tema do livro "Remembering America: a voice from the sixties", escrito pelo próprio Goodwin e serviu de base para o quarto filme do ator Robert Redford como cineasta, "Quiz show, a verdade dos bastidores". Indicado para quatro estatuetas da Academia - incluindo melhor filme, direção e roteiro - o filme é uma reconstituição sóbria e clássica de um período americano anterior ao pesadelo em que o país mergulharia com o assassinato de John Kennedy em 1963, que traria a reboque a guerra do Vietnã e o recrudescimento dos conflitos raciais. A perda da inocência que estava em vias de ocorrer talvez tenha se deixado vislumbrar com a história do "Twenty-one", parece dizer Redford, que nem por isso parece julgar os fatos que apresenta. Como bom cineasta contador de histórias, ele apenas serve como narrador, deixando as conclusões - e as opiniões - com o público.
E Redford talvez nunca tenha estado melhor como cineasta do que em "Quiz show". Amparado por um roteiro seguro e repleto de nuances sociais e psicológicas - o filme engloba tanto os meandros das emissoras de tv quanto os dramas pessoais dos envolvidos com a tramoia - ele também tira de seus atores interpretações viscerais: Ralph Fiennes - vindo direto da indicação ao Oscar por "A lista de Schindler" (93) - constroi um Charles Van Doren minimalista, sutil, que fala com os olhos e transmite sua variada gama de sentimentos sem precisar apelar para o óbvio (assim como o faz também o veterano Paul Scofield na pele de seu pai, uma atuação que colocou-o na lista dos concorrentes à estatueta de coadjuvante), enquanto John Turturro brilha na pele do exagerado, falastrão e dramático Herbie Stempel: o contraste entre as duas atuações é um golpe de mestre do diretor, que deixa claro ao público as motivações dos competidores. Van Doren sucumbiu à fama, à glória e até mesmo à ingenuidade de achar que sua vitória ajudaria na educação do país. Stemple precisava de dinheiro, de atenção, de ter o reconhecimento por sua cultura. Ambos caíram em desgraça.
Realizado com capricho - a ambientação e os figurinos são impecáveis - e dirigido com elegância e discrição, "Quiz show" chegou ao Oscar 95 enfrentando pesos-pesados como "Forrest Gump, o contador de histórias" e "Pulp fiction, tempo de violência", o que talvez explique o fato de ter saído de mãos abanando da cerimônia. Mas também é bem possível que os eleitores da Academia não tenham gostado de perceber o quanto podem ser manipulados pela mídia. A verdade doi, mesmo que venha embrulhada em um belo e fascinante papel de presente.
terça-feira
PODEROSA AFRODITE
2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Mira Sorvino), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Mira Sorvino)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Mira Sorvino)
Por mais paradoxal que seja essa afirmação, o escândalo envolvendo o nome de Woody Allen no início dos anos 90 - quando trocou a parceira amorosa e profissional Mia Farrow pela adolescente Sun-Yi Previn, filha adotiva dela - fez dele um cineasta mais leve. Filmes como "Misterioso assassinato em Manhattan" e "Tiros na Broadway" devolveram ao público o diretor bem-humorado de obras-primas como "Noivo neurótico, noiva nervosa" e "Zelig", em contraponto ao baixo-astral e pessimismo de "Crimes e pecados" e "Setembro", que por melhores que sejam, deixavam um gosto agridoce ao final da sessão. Essa fase 'de bem com a vida' de Allen encontra em "Poderosa Afrodite" seu auge. Otimista e alegre - sem nunca perder, no entanto, o olhar irônico do cineasta - o filme deu a Mira Sorvino o Oscar de atriz coadjuvante e agradou gregos e troianos. E sem trocadilho, é justamente um coro de tragédia grega que comenta e narra a curiosa história de Lenny Weintraub e sua busca pela mãe biológica de seu filho adotivo.
O próprio Allen interpreta o protagonista, depois de uma pausa em que foi substituído por John Cusack em "Tiros na Broadway". Lenny Weintraub é um comentarista esportivo que vive um casamento estável e amoroso com a marchand Amanda (Helena Bonham-Carter). Sua família se completa quando eles adotam Max, que, na infância, demonstra uma inteligência ímpar. Curioso a respeito das origens do filho, Lenny chega até sua mãe verdadeira, a bela Linda Ash (Mira Sorvino), uma ex-atriz de filmes pornô que ganha a vida como prostituta. Apesar de sexy e atraente, Linda é bastante limitada intelectualmente, o que não impede que uma atração surja entre ela e Lenny, que passa por uma crise em seu relacionamento. Para não cair na tentação, o jornalista resolve então bancar o cupido e arrumar um marido para Linda e tirá-la da vida fácil. O escolhido é o boxeador Kevin (Michael Rapaport), também pouco dotado de inteligência.

Assim como acontece nos melhores filmes do cineasta, "Poderosa Afrodite" é uma crítica ácida e sarcástica sobre as relações humanas. Sem a sofisticação de "Hannah e suas irmãs", por exemplo, é uma comédia que pode ser considerada romântica, ainda que esteja a anos luz de todas as características que regem o gênero. Pra começo de conversa, o romance entre Lenny e Linda não pode jamais ser chamado de uma história de amor, ao menos no sentido convencional do termo. O que acontece entre os dois é um belo golpe do destino - tema recorrente da obra do diretor - narrado por um genial coro de tragédia grega (o oráculo, por sua vez, assume a forma de um mendigo cego vivido por Jack Warden). Como acontece frequentemente nos filmes de Allen, um ciclo é fechado quando os créditos finais iniciam - e aqui isso acontece deliciosamente com a canção "When you smile". No mínimo, otimista!
E mais uma vez Woody Allen cercou-se de atores geniais. Helena-Bonham Carter sai do século XIX - cenário da vasta maioria de sua filmografia - para encarnar uma Amanda moderna, ciosa dos deveres de mãe, mas preocupada com os rumos de sua carreira e casamento (principalmente quando se envolve com outro homem, vivido pelo Robocop em pessoa, Peter Weller). Michael Rapaport é encantador como Kevin, alternando uma ingenuidade ululante com uma masculinidade latente. E Mira Sorvino rouba todas as cenas em que aparece com a genial construção de sua Linda Ash. Aproveitando cada hilária linha de diálogo oferecida por Allen, a filha do ator Paul Sorvino - que foi mais uma vítima da temível "síndrome do Oscar" - deita e rola com uma personagem que lhe cabe como uma luva. A voz estridente, o jeito de andar e até o visual de Linda foram ideias da atriz, acatadas com entusiasmo por Allen, que, assim, reafirma seu status de grande diretor de coadjuvantes.
"Poderosa Afrodite" é um dos filmes mais alto-astral da carreira de Woody Allen, e isso fica patente no humor que escorre de cada cena, de cada personagem, de cada situação. Allen estava feliz e fez sua plateia sorrir alegremente. Como diz a canção dos créditos finais, "quando você sorri, o mundo todo sorri com você...."
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