Mostrando postagens com marcador FILMES ESPANHÓIS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador FILMES ESPANHÓIS. Mostrar todas as postagens

segunda-feira

MÃES PARALELAS

 


MÃES PARALELAS (Madres paralelas, 2021, El Deseo/Pathé Films, 123min) Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: Teresa Font. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Paola Torres. Direção de arte/cenários: Antxón Gomez/Vicent Díaz. Produção: Agustin Almodóvar, Esther García. Elenco: Penélope Cruz, Milena Smit, Israel Elejalde, Aitana Sánchez-Gijón, Rossy de Palma. Estreia: 01/9/2021 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Penélope Cruz), Trilha Sonora Original

Os filmes do espanhol Pedro Almodóvar dificilmente podem ser resumidos em poucas palavras sem que se perda, no processo, todas as nuances de tramas raramente simples como podem parecer em um primeiro momento. "Mães paralelas" não foge à regra: o que a princípio soa como um mero melodrama (gênero no qual o diretor navega com conforto e experiência), se mostra, ao final, um poderoso estudo não apenas sobre a maternidade em si, mas também sobre relações familiares, sobre escolhas de vida e sobre o passado como força motriz para transformações no presente. Ao unir a história de duas desconhecidas que tem suas vidas transformadas pelo nascimento de seus bebês com uma trama a respeito de mortos pela ditadura franquista, Almodóvar se arrisca em um terreno novo - o drama político - sem abdicar de suas características mais notáveis (e que fizeram sua glória junto a cinéfilos e críticos).

"Mães paralelas" apresenta quase tudo aquilo que se pode esperar de um bom Almodóvar: personagens femininas fortes (com o bônus de uma atuação monstruosa de Penélope Cruz, a cada dia mais bonita e boa atriz), uma trama repleta de idas e vindas (que causa o terror de quem tenta resumir suas sinopses), uma trilha sonora marcante (indicada ao Oscar) e a capacidade de envolver o público sem muito esforço - além do retorno de sua parceria com a ótima Rossy de Palma. Voltando a um tema bastante caro a si mesmo - a maternidade -, o cineasta abre mão do deboche de suas produções mais anárquicas e aponta sua câmera em direção a uma história mais sombria e dramática, em que questões éticas e menções políticas caminham lado a lado sem que se atropelem ou ofusquem. Pode-se dizer que é um de seus filmes mais maduros e elegantes - o que, de certa forma, deixa pouco espaço para soluções mais catárticas e/ou lacrimosas. Pode soar um tanto anticlimático vindo de um diretor de sangue tão efervescente, mas não deixa de ser também um aceno a tempos mais delicados e sutis. "Mães paralelas" é um Almodóvar tanto atípico quando extremamente característico: um paradoxo que é, a seu modo, a cara de um dos mais fecundos e criativos realizadores da Europa desde a década de 1980.


A trama de "Mães paralelas" começa com o encontro de Janis (Penélope Cruz) e Ana (Milena Smit) em uma maternidade: a primeira, com 40 anos, está prestes a dar à luz ao filho de seu amante casado; a segunda, adolescente, tem uma relação difícil com a mãe, uma atriz retomando a carreira, e não conta com o apoio do pai do bebê. Algum tempo depois, as duas se reencontram em uma situação pouco comum - não convém dar mais detalhes para não estragar as surpresas que vão surgindo - e criam laços inesperados e profundos. Enquanto isso, Janis insiste em seu projeto profissional de buscar, com a ajuda do pai de sua filha, as ossadas de presos políticos desaparecidos durante o regime franquista. 

Mencionado em uma única linha de diálogo de "Carne trêmula" (1997) - e mesmo assim de forma bastante implícita -, o sangrento período, compreendido entre 1939 e 1976, em que Francisco Franco espalhou violência e repressão junto a seus opositores na sociedade espanhola, surge em "Mães paralelas" com importância crucial, ainda que isso só fique claro em seus instantes finais. O que pode parecer um tanto gratuito transforma-se, aos poucos, em mais uma prova da capacidade de Almodóvar em conduzir o espectador por caminhos imprevisíveis - e com mais camadas do que se pressupunha. Afinal, se o cerne de seu filme é a maternidade (símbolo maior de lar e família), não seria o reencontro com o passado uma forma de fazer as pazes com o futuro? Almodóvar não apresenta respostas, apenas aponta questões - como um bom artista em sintonia com a sensibilidade e a inteligência de sua plateia. Talvez tudo só faça sentido um bom tempo depois da sessão, mas não é essa perenidade que caracteriza o bom cinema?

quinta-feira

O BOM PATRÃO

 


O BOM PATRÃO (El buen patrón, 2021, Básculas Blanco/Crea SGR/ICAA, 116min) Direção e roteiro: Fernando León de Aranoa. Fotografia: Pau Esteve Birba. Montagem: Vanessa Marimbert. Música: Zeltia Montes. Figurino: Fernando García. Direção de arte/cenários: César Macarrón. Produção executiva: Pilar de Heras, Marisa Fernández Armenteros, Laura Fernández Espeso, Eva Garrido, Patricia de Muns. Produção: Fernando León de Aranoa, Javer Méndez, Jaume Roures. Elenco: Javier Bardem, Manolo Solo, Almudena Amor, Óscar de La Fuente, Sonia Almarcha, Fernando Albizu, Tarik Rimli. Estreia: 21/9/2021

A Balanças Blancos é uma tradicional fábrica, com décadas de história e a reputação de ser um dos ambientes de trabalho mais generosos do país. Seu presidente, Blanco (Javier Barden), inclusive, insiste em declarar que seus funcionários são como membros da família e que são eles os maiores responsáveis por seus sucesso e perenidade. Às vésperas da visita de uma comissão que poderá escolher a empresa para receber um diploma de excelência, porém, a aparência de exemplar tranquilidade do local começa a ruir. Em pouco mais de uma semana, caberá a Blanco lidar com uma série de problemas de ordem pessoal e profissional que põem em xeque sua capacidade de liderar não apenas seus empregados, mas principalmente suas relações familiares e de amizade. E tudo começa com dois acontecimentos aparentemente sem conexão: a tentativa de ajudar o filho delinquente de um antigo operário ao dar-lhe um emprego na loja da mulher e a demissão de outro empregado, que, revoltado, inicia uma manifestação na frente do prédio da empresa, acompanhado dos filhos pequenos e chamando cada vez mais a atenção da mídia.

Recordista histórico em indicações ao Goya - o Oscar espanhol -, com vinte indicações, "O bom patrão" levou seis estatuetas, incluindo melhor filme, direção, ator e roteiro original. Não chega a ser surpresa, quando se assiste à produção de Fernando León de Aranoa: um equilíbrio perfeito entre comédia e drama - com pitadas de suspense e uma dose generosa de crítica social -, o filme apresenta um protagonista falível e humanamente verossímil que ganha o público justamente por seus erros. Lógico que o carisma e o talento de Javier Bardem ajudam muito nesse quesito, mas o roteiro delicioso é tão repleto de camadas, de detalhes e de ironias que é difícil não se deixar envolver sem muito esforço. Contada em capítulos - cada um dedicado a um dia da atribulada semana de Blanco -, a trama de Aranoa vai se tornando, aos poucos, um acúmulo de situações problemáticas que apenas empurram a plateia em direção à empatia quase absoluta pelo personagem central, mesmo sendo ele desprovido de muitos escrúpulos. O que começa com um certo humor sombrio vai gradualmente assumindo contornos trágicos - e a direção firme do cineasta dribla magistralmente as armadilhas que surgem a cada cena, além de distanciar-se do tom de deboche explícito que a trama poderia assumir e aproximá-la de uma fábula repleta de cinismo sobre o mundo capitalista e a hipocrisia da sociedade como um todo.

 


Se não, vejamos: incomodado com a presença incômoda do ex-funcionário - que acampa, junto com os filhos, diante da fábrica, munido de um megafone e de uma vontade férrea de chamar toda a atenção possível da mídia -, Blanco faz o possível e o impossível para removê-lo da vista da comissão governamental, que pode aparecer a qualquer dia para inspecionar a empresa e confirmar seu status de exemplar. Para isso, não hesita em apelar para a lei - e até para meios heterodoxos e violentos a ponto de piorar ainda mais a situação. Não bastasse isso, o empresário precisa lidar com a queda de rendimento de seu braço direito, Miralles (Manolo Solo), que está deixando a crise em seu casamento atrapalhar a vida profissional - e é evidente que Blanco irá se intrometer nas relações extraconjugais do casal para tentar resolver as contendas, mesmo que para isso tenha que envolver outras pessoas na questão. Por fim, o incansável patrão se deixa seduzir pela nova estagiária, a jovem Liliana (Almudena Amor), apenas para descobrir que tal romance casual pode ter desdobramentos inusitados - e quase cruéis.

Dominado por um espetacular Javier Bardem - que apesar disso deixa espaço de sobra para interpretações superlativas de todo o elenco, mesmo aqueles em participações pequenas -, "O bom patrão" é uma amostra de que o cinema espanhol sobrevive muito bem mesmo sem a sombra de Pedro Almodóvar, seu maior representante junto ao público médio. Fernando León de Aranoa é um cineasta que conduz sua história com um visual sóbrio, um humor quase sofisticado e sutileza, deixando entrever nas entrelinhas uma crítica contundente ao sistema de classes e ao jogo social da burguesia - no discurso de Blanco, todos formam uma mesma família, mas na prática, conforme os interesses vão se revelando, as regras mudam e deixam notar um tecido que está esperando o primeiro puxão para romper completamente. Blanco tenta demonstrar, por todo o filme, uma falsa sensação de controle, mas não é preciso muito para que sua aflição transpire por uma série de atos desesperados que, ao invés de ajudar, apenas pioram o quadro. Os risos que "O bom patrão" desperta são nervosos, quase cínicos - e é isso que faz dele uma joia rara, um filme que, de modo inteligente, une o riso e a reflexão como forma de entretenimento da mais alta qualidade.

CONCORRÊNCIA OFICIAL


CONCORRÊNCIA OFICIAL (Competencia oficial, 2021, ICAA/Orange/RTVE, 115min) Direção: Mariano Cohn, Gastón Duprat. Roteiro: Andrés Duprat, Gastón Duprat, Mariano Cohn. Fotografia: Arnaud Valls Colomer. Montagem: Alberto del Campo. Figurino: Wanda Morales. Direção de arte/cenários: Alain Bainée/Sara Natividad. Produção executiva: Antonio Banderas, Penélope Cruz, Laura Férnadez Espeso, Oscar Martínez, Javier Méndez, Javier Pons. Produção: Jaume Roures. Elenco: Penélope Cruz, Antonio Banderas, Oscar Martínez, José Luiz Gómez. Estreia: 04/9/2021

O que fazer quando se chega aos 80 anos de idade, tem dinheiro de sobra e sonha em ter o nome para a posteridade? O empresário Humberto Suárez (José Luiz Gómez), depois de pensar em inúmeras possibilidades (como uma ponte, por exemplo) chega à conclusão de que o melhor negócio que pode fazer é financiar um filme. Mas não um filme qualquer, e sim um grande filme, o melhor que o dinheiro pode comprar. E é com esse objetivo que ele contrata a premiada Lola Cuevas (Penélope Cruz) para dirigir a adaptação de um célebre romance que tem todos os ingredientes para transformar-se em sucesso. Dona de uma personalidade bastante excêntrica, Lola embarca no projeto com a condição de contar, no elenco, com dois dos maiores atores do país: o prestigiado Iván Torres (Oscar Martínez) e o popular Félix Rivero (Antonio Banderas). O que nem Humberto nem os tarimbados atores poderiam imaginar é que os métodos de Lola para atingir a perfeição fogem muito do convencional - e transformam os ensaios em um inferno, fazendo emergir ressentimentos, inseguranças e sentimentos pouco nobres de todos os envolvidos no processo.

Dirigido pelos argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat, "Concorrência oficial" é um deleite para os fãs de cinema em geral e artistas em particular: ao mergulhar em um universo repleto de egos inflados e talentos superestimados, a dupla de cineastas e roteiristas brinca com o próprio métier sem nunca perder, apesar do tom de deboche, o respeito pelo cinema e seus realizadores. Ao retratar diretores egóicos, atores autocentrados e produtores sem o menor tino artístico, a trama surpreende o espectador com uma narrativa imprevisível e personagens repletos de camadas, reveladas aos poucos, conforme suas barreiras vão sendo demolidas a ferro, fogo e dinâmicas bizarras criadas por Lola - interpretada com perceptível prazer por Penélipe Cruz, uma das produtoras executivas do filme, ao lado de seus colegas de elenco. Com um visual exuberante que lembra seus melhores momentos com o espanhol Pedro Almodóvar - nitidamente uma influência na paleta de cores vivas e na excentricidade dos personagens -, Cruz deita e rola com diálogos saborosos, repletos de absurdos e referências à cultura pop. De maneira inteligente, os diretores conseguem até mesmo uma auto-citação: o romance adaptado por Cuevas, "Rivalidade", é de autoria de Daniel Mantovani, personagem do filme anterior dos realizadores, "Um cidadão ilustre", vivido pelo mesmo Oscar Martínez que interpreta aqui o celebrado Iván Torres.


 

Iván Torres é um ator de métodos clássicos, do tipo que cria um passado para os personagens que irá interpretar e mergulha profundamente em sua criação. A forma como lida com seu ofício bate de frente com a quase irresponsabilidade de Féliz Rivero, seu colega e rival, que leva a profissão bem menos a sério - e, paradoxalmente, é bem mais popular entre o público. O confronto entre dois estilos de atuação é a faísca procurada por Lola, que os escolhe justamente por sua radical diferença, que ela julga apropriada para a história de dois irmãos rivais. Enquanto ensaia cada linha de diálogo do roteiro - para enfado de ambos, cada um por uma razão diferente - e cria dinâmicas quase humilhantes para arrancar deles interpretações viscerais (a ponto de fazê-los ler o roteiro sob uma rocha que pesa toneladas e pode vir a desabar a qualquer momento), a polêmica diretora não percebe que, em determinado momento, torna-se também vítima de suas técnicas quando passa a questionar o que é verdade ou não na relação entre seus astros - o que pode até acarretar uma tragédia inesperada.

É difícil saber o que é mais precioso em "Concorrência oficial". Do roteiro, original e mordaz, à escalação do elenco, absolutamente certeira, tudo no filme de Cohn e Duprat funciona às mil maravilhas. O estranhamento do primeiro ato - quando Lola Cuevas inicia seu processo criativo - dá lugar, gradativamente, a uma trama recheada de ironias, brilhantemente abraçadas por seus atores, todos em estado de graça. Equilibrando-se entre o humor mais fino e o suspense por vezes inesperado, o filme transita com facilidade por diversos gêneros, extraindo o melhor de cada um deles para oferecer à plateia um banquete cuidadosamente preparado. Criticando o culto à celebridade ao mesmo tempo em que não perdoa o exagerado pedantismo de certa parcela da elite artística, a produção faz rir e pensar na mesma intensidade - é um programa inteligente e leve, que mostra, mais uma vez, a inegável qualidade do cinema argentino contemporâneo.

sexta-feira

UM CONTRATEMPO

UM CONTRATEMPO (Contratiempo, 2016, Atresmedia Cine/Think Studio/Nostromo Pictures, 106min) Direção e roteiro: Oriol Paulo. Fotografia: Xavi Giménez. Montagem: Jaume Martí. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Miguel Cervera. Direção de arte/cenários: Balter Gallart/Marta Bazaco, Idoia Esteban. Produção executiva: Sofia Fábregas, Joaquim Guedes. Produção: Mercedes Gamero, Adrián Guerra, Sandra Hermida, Mikel Lejarza, Eneko Lizagarra, Núria Valls. Elenco: Mario Casas, Ana Wagner, José Coronado, Bárbara Lennie, Francesc Orella. Estreia: 23/9/16

Nem só de Pedro Almodóvar vive o cinema espanhol contemporâneo. Não tão festejado quanto o veterano diretor, mas com grande prestígio junto ao público, Oriol Paulo tem se firmado como um dos mais interessantes realizadores do país, com filmes de suspense que mexem com a cabeça do espectador graças a roteiros engenhosos e uma evidente segurança na direção. Seu primeiro longa-metragem, "O corpo", foi lançado em 2012 e de cara conquistou as plateias. Sua segunda incursão na cadeira de diretor só chegou aos cinemas quatro anos mais tarde, mas a demora valeu a espera: "Um contratempo", assim como seu filme de estreia, é um quebra-cabeças empolgante, que apresenta à audiência uma trama intrigante e que só se revela completamente nos minutos finais - e que, apesar de surpreendente, é verossímil o bastante para deixar em cada espectador um sorriso de satisfação e a vontade de compartilhar a experiência com o maior número possível de pessoas.

É essencial, para melhor tirar proveito de "Um contratempo", que se saiba o menos possível de sua trama. Basta saber que ela gira em torno de Adrián Doria (Mario Casas), um empresário em ascensão que está em vias de ser julgado pelo assassinato de sua amante, Laura Vidal (Bárbara Lennie), vítima de um ataque violento em um quarto de hotel, onde estava hospedada junto com ele. Segundo Adrián, ele também foi vítima do assassino, mas não presenciou o crime por estar desmaiado. Para seu azar, a polícia havia descoberto que a porta do quarto e suas janelas estavam fechados no momento do homicídio, o que coloca todas as suspeitas em Adrián, que jura terminantemente que é inocente. Para salvá-lo da cadeia, só mesmo um defensor de primeira linha, e é aí que surge Virginia Goodman (Ana Wagner), uma sofisticada e inteligentíssima advogada criminalista que, nas poucas horas que existem até o depoimento de uma testemunha-chave. Exigente e minuciosa, Virginia tenta arrancar a verdade de seu novo cliente, que mantém sua declaração de inocência. Ao narrar todo o caso para Virginia, porém, Adrián revela outras peças da história - como um acidente de carro que pode ser a chave do mistério.


De forma fascinante, Oriol Paulo constrói sua trama em uma estrutura das mais intrigantes. A cada novo elemento que surge diante do espectador, mais seu enredo parece fugir da simples questão que envolve a descoberta da verdade sobre a morte de Laura. O cinesta/roteirista brinca com a definição temporal e apresenta sua estória em diferentes linhas: enquanto no presente Adrián conta seus passos para sua nova advogada, o passado surge em flashbacks que aumentam as possibilidades de desfecho. Controlando o suspense com extrema habilidade, Paulo joga limpo, mostrando suas cartas ao pouco, mas sem surgir com uma reviravolta completamente absurda: a verdade está praticamente diante dos olhos do público - mas somente em seu final empolgante se revela completamente. Para isso, colabora a trilha sonora de Fernando Velázquez e a edição caprichada de Jaume Martí, que exploram todas as nuances da trama e dos personagens, vividos, por sua vez, por um elenco impecável, em que se destacam Mario Casas e Bárbara Lennie em um duelo verbal dos mais inteligentes. Casas, principalmente, entrega uma atuação que combina vulnerabilidade, empáfia, tensão e medo em uma perfeita equação; Lennie, por sua vez, tem controle total de sua personagem, em um trabalho meticuloso de corpo e voz que se avoluma até o final surpreendente.

"Um contratempo" - que ganhou um remake indiano em 2019 com o nome de "Badla" (vingança) - é um filme de suspense policial capaz de agradar a todos os tipos de público, mas certamente soa muito apaixonante aos fãs do gênero. Sem efeitos visuais, tiros ou explosões, é um filme que exige atenção do espectador, mas jamais tenta ser mais do que entretenimento de qualidade. Menos aclamado que Almodóvar - um cineasta já aclamado por um tipo de filme completamente distinto -, Oriol Paulo tem tudo para crescer ainda mais e conquistar seu lugar junto à crítica e às plateias. Seu estilo já demonstrado em filmes anteriores e posteriores a "Um contratempo" comprova, sem espaço para dúvidas, que talento e inteligência não lhe faltam. Naturalmente abraçando um gênero considerado menor - ou pelo menos não tão aplaudido quanto o drama -, ele assume sua paixão em contar histórias imprevisíveis com personagens realistas e falhos. É um diretor para se ficar de olho!

segunda-feira

DURANTE A TORMENTA

DURANTE A TORMENTA (Durante la tormenta, 2018, Atresmedia Cine/Mirage Studio, 128min) Direção: Oriol Paulo. Roteiro: Oriol Paulo, Lara Sendim. Fotografia: Xavi Giménez. Montagem: Jaume Martí. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Anna Aguilà. Direção de arte/cenários: Balter Gallart/Marta Bazaco. Produção executiva: Sandra Hermida, Laura Rubirola. Produção: Mercedes Gamero, Mikel Lejarza, Eneko Lizagarra, Jesus Ulled Nadal. Elenco: Adriana Ugarte, Chino Darín, Javier Gutiérrez, Álvaro Morte, Nora Navas, Miquel Fernández, Clara Segura, Belén Rueda. Estreia: 13/11/18

Quem ainda não conhece a obra do cineasta espanhol Oriol Paulo não sabe o que está perdendo. Diretor de dois dos melhores filmes de suspense dos últimos anos, "Um contratempo" (2016) e "O corpo" (2012) - que prendem o espectador na poltrona do início ao fim com suas tramas engenhosas e reviravoltas surpreendentes -, ele volta agora ainda mais ambicioso. "Durante a tormenta" é quase como dois filmes em um só, misturando suspense e ficção científica com extrema habilidade e deixando o público ansioso à espera das próximas reviravoltas (algumas previsíveis, outras muito bem disfarçadas pelo roteiro complexo e ágil). Ao se utilizar de elementos consagrados de outros filmes do gênero, como a trilogia "De volta para o futuro" (85/90), e os subestimados "Alta frequência" (2000) e "Efeito borboleta" (2004), Paulo demonstra versatilidade e competência em seduzir sua plateia mesmo diante de uma trama quase absurda e inverossímil. Apoiado no talento da protagonista Adriana Ugarte (estrela de "Julieta", de Pedro Almodóvar), "Durante a tormenta" é, ao mesmo tempo, uma grata surpresa e a confirmação de um talento com tudo para explodir em um futuro muito próximo.

Nascido em Barcelona em 1975, Oriol Paulo estreou como cineasta aos 23 anos, com o média-metragem "McGuffin" (1998), mas ficou alguns anos trabalhando como roteirista e diretor de curtas e filmes para a televisão até que seu "O corpo" lhe rendeu uma indicação ao Goya de melhor diretor estreante. Seu trabalho seguinte, "Um contratempo", reafirmou um estilo narrativo próprio, que emula Alfred Hitchcock e Brian De Palma ao mesmo tempo em que lhe confere uma identidade particular - não apenas seus movimentos de câmera e o domínio da técnica são o ponto forte, mas também seus roteiros, construídos milimetricamente com o objetivo de surpreender a plateia. "Durante a tormenta" apresenta estas mesmas qualidades, mas de forma muito mais radical. Ainda existe a atenção aos detalhes e à construção impecável do clima de tensão, mas dessa vez o diretor ousa ainda mais nos desvios da trama, de forma a deixar qualquer um desconcertado. Como é normal em filmes do gênero, é provável que uma análise mais detalhada - e ranzinza - encontre falhas no roteiro, mas é inegável que, durante o tempo da sessão, é impossível despregar o olho da tela e não tentar adivinhar os próximos acontecimentos.


Como é de se esperar de um bom filme de suspense, quanto menos se sabe da trama, melhor, mas não atrapalha saber o básico: em 1989, no mesmo dia da queda do Muro de Berlim, um menino de 12 anos morre tragicamente pouco antes de uma violenta tormenta prevista para durar 72 horas. Vinte e cinco anos mais tarde, a enfermeira Vera (Adriana Ugarte) acaba de mudar-se para a casa do menino, junto com o marido, David (Álvaro Morte), e a filha pequena, Gloria. Uma nova tormenta está para acontecer, exatamente como no passado, e Vera, impressionada com a morte do primeiro morador e o assassinato ocorrido na casa em frente, acaba tendo contato, através de um antigo vídeo-cassete e uma fita gravada, com o jovem Nico (Julio Bohigas), pouco antes de sua morte. Misteriosamente ela consegue falar com ele e evitar o desfecho violento da situação - mas quando acorda, no dia seguinte, se descobre presa a uma outra vida, bastante diferente da anterior. Nessa nova vida, ela é médica, não está casada com David e tampouco tem uma filha. Desesperada, ela tenta reverter os acontecimentos, no que é parcialmente ajudada pelo Inspetor Leyra (Chino Darín, filho do ator Ricardo Darín). Nessa batalha, ela reencontra personagens importantes de sua "vida anterior" - e percebe que todas elas foram afetadas, de uma forma ou outra, por sua intervenção.

O roteiro de Paulo - redondo, inteligente, sutil - apresenta algumas explicações para o fenômeno retratado, mas felizmente não se aprofunda em nenhuma delas, deixando as conclusões para o espectador. Sua narrativa empolga principalmente porque consegue virar do avesso as certezas do público e dos personagens, com reviravoltas que dão novo sentido a cada um dos acontecimentos da primeira linha temporal. Buscar uma resposta definitiva para o ponto de partida é perder o encantamento que suas consequências trazem, uma viagem de montanha-russa repleta de surpresas e momentos de genuíno suspense. A trama policial - que se mantém como pano de fundo até o terço final - é a mais inesperada, mas é a trajetória de Vera em provar-se sã e ciente de todo o caos à sua volta que prende o público, que, angustiado como ela, tenta encontrar a maneira certa de resolver um problema aparentemente sem solução. Adriana Ugarte dá conta do recado com maestria, transmitindo todas as sensações conflitantes de sua personagem sem cair no exagero ou na caricatura. O mesmo pode se dizer do restante do elenco - discreto mas extremamente eficiente - e da edição, costurada com ritmo e enxuta na medida certa. Um filme imperdível, "Durante a tormenta" é tão bom que vale por dois.

sexta-feira

O CORPO

O CORPO (El cuerpo, 2012, Antena 3 Films/Canal + España, 108min) Direção: Orion Paulo. Roteiro: Orion Paulo, Lara Sendim. Fotografia: Oscar Faura. Montagem: Joan Manel Vilaseca. Música: Sergio Moure de Oteyza. Figurino: Maria Reyes. Direção de arte/cenários: Balter Gallart/Nuria Muni. Produção executiva: Pepes Torrescusa. Produção: Mercedes Gamero, Mikel Lejarza, Joaquín Padró, Mar Targarona. Elenco: José Coronado, Belén Rueda, Hugo Silva, Aura Garrido, Miquel Gelabert. Estreia: 04/10/12

Na primeira cena, um homem corre apavorado, sob uma chuva torrencial, e é atropelado na estrada, indo parar no hospital, em coma com diversas fraturas graves que o impedem de revelar às autoridades o motivo pelo qual ele abandonou seu posto como vigia de um necrotério de forma tão atribulada. Chamado para investigar o caso, o detetive Jaime Peña (José Coronado) descobre, logo que chega ao local, outro fato bastante estranho: o desaparecimento do corpo da empresária Mayka Villaverde Freire (Belén Rueda), recentemente vítima de um ataque cardíaco fatal. O necrotério se localiza perto de um bosque fechado, chove abundantemente e a sala onde ficam os cadáveres está trancado por dentro, o que deixa tudo ainda mais nebuloso. Sem saber por onde começar a investigação, Jaime chama o viúvo, Álex Ulloa Marcos (Hugo Silva) - e assim tem início um dos mais engenhosos e inteligentes filmes de suspense realizados pelo cinema espanhol. Dirigido e coescrito pelo jovem Oriol Paulo, "O corpo" é um daqueles filmes de prender a atenção da primeira à última cena - e deixar o espectador abismado com uma reviravolta final consistente e verossímil. Graças a um roteiro enxuto que equilibra sustos e personagens bem construídos, o público se vê mergulhado em uma trama onde nada é exatamente o que parece - e absolutamente qualquer diálogo tem importância fundamental no desenvolvimento do enredo.

A chegada de Álex ao necrotério - onde se vê à disposição do interrogatório de Jaime, desconfiado por alguma razão das declarações do viúvo - dá o pontapé inicial para um jogo de gato e rato dos mais instigantes. Jaime é um personagem rico em nuances: viúvo e com uma relação complicada com a filha que vive em Berlim, ele não consegue levar a vida adiante de maneira saudável, e vê no trabalho uma válvula de escape para seu drama particular. Certo de que Álex sabe mais do que aparenta em relação ao sumiço do corpo da esposa, ele não se permite falhar em sua caça à verdade - e o jovem, casado com uma mulher mais velha e poderosa, dá todos os motivos do mundo para que o veterano policial desconfie de suas atitudes. Conforme a ação avança, a plateia é informada de que ele vive um tórrido romance com Carla Miller (Aura Garrido) - e que tal caso extraconjugal pode ter relação com a morte de Mayka. Qual a conexão entre todos esses elementos é o grande trunfo do roteiro, que encontra na direção certeira de Paulo a tradução mais adequada. Como um herdeiro de Alfred Hitchcock - e qual diretor de filmes de suspense não o é? - o cineasta constrói uma teia de pistas falsas, informações desencontradas e personagens suspeitos para brindar a plateia com um entretenimento de primeira qualidade, que em nada fica a dever a produções hollywoodianas muito mais ambiciosas.


É óbvio, porém, que o elenco ajuda bastante. Belén Rueda desfila sua classe e charme na pele da sedutora milionária Mayka Villaverde, sempre mesclando doçura, paixão e um tom de mistério; Hugo Silva está à vontade como o pouco confiável Álex, um homem que pode ser tanto culpado quanto vítima; e José Coronado é a terceira peça fundamental do trio de protagonistas, um homem despedaçado por uma tragédia familiar que vê em sua obsessão em provar a culpa de Álex uma válvula de escape que pode levá-lo em direção a um caminho sem volta, perigoso e chocante. Oriol Paulo conduz seus atores com extrema precisão, arrancando de cada um deles o máximo de tensão com o mínimo de informações, desnorteando o espectador até os últimos minutos, quando o quebra-cabeças finalmente faz sentido - não de forma artificial como acontece na maioria dos filmes de trama preguiçosa, mas organicamente, com as pontas sendo amarradas com uma maestria digna de Agatha Christie. Como em uma peça de teatro milimetricamente arquitetada, os atores forjam uma sintonia que envolve o público até que ele esteja totalmente entregue às viradas da trama - no que são muito auxiliados pela trilha sonora discreta e eficiente e pela edição ágil na medida certa: não apressa os acontecimentos nem tampouco abusa de cenas longas e explicativas.

Uma gratíssima surpresa para fãs do gênero, "O corpo" é um filme que pode ser visto e revisto diversas vezes sem que nunca perca sua qualidade dramática. Mesmo que seu final já seja conhecido, o público pode acompanhar suas diversas camadas sempre descobrindo novos detalhes e aplaudindo a conjunção perfeita entre direção, elenco, roteiro e técnica. Em uma filmografia tão centrada em dramas e comédias como a espanhola, não deixa de ser um respiro louvável e uma demonstração de extrema inteligência e criatividade. Um filme imperdível!

segunda-feira

JULIETA

JULIETA (Julieta, 2016, El Deseo S/A, 99min) Direção: Pedro Almodóvar. Roteiro: Pedro Almodóvar, contos de Alice Munro. Fotografia: Jean Claude Carrieu. Montagem: José Salcedo. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Antxon Gómez/Federico G. Cambero. Produção: Agustin Almodóvar, Esther Garcia. Elenco: Emma Suárez, Adriana Ugarte, Daniel Grao, Inma Cuesta, Rossy de Palma, Dario Grandinetti, Michelle Jenner, Pilar Castro, Nathalia Poza, Susi Sánchez, Joaquín Notario, Priscilla Delgado. Estreia: 08/4/16

Depois de flertar com o suspense psicológico em "A pele que habito" (2011) e voltar às origens debochadas com "Os amantes passageiros" (2013), o cineasta espanhol Pedro Almodóvar estava devendo aos fãs um novo mergulho no denso universo feminino do melodrama - gênero que lhe proporcionou os maiores sucessos de crítica da carreira, como "Tudo sobre minha mãe" (99) e "Volver" (06), e do qual estava afastado desde "Abraços partidos" (09). Pois foi somente no Festival de Cannes de 2016 que ele presenteou o público com mais uma pequena obra de arte, um filme delicado e sensível sobre a alma humana e seus desvãos: inspirado em três contos da escritora canadense Alice Munro, "Julieta" saiu da Riviera Francesa sem nenhum prêmio, mas reconquistou o carinho da plateia graças à sua extrema delicadeza e força dramática. Ainda um exímio diretor e roteirista implacável, Almodóvar se debruça sobre a tristeza e a melancolia para contar as desventuras da personagem-título - interpretada com segurança por Emma Suárez e Adriana Ugarte - em meio a seus belíssimos enquadramentos e suas características cores vivas.

Renunciando totalmente ao humor podreira do início de sua carreira e que vez ou outra dava as caras em suas produções mais sérias, dessa vez Almodóvar resolveu apostar sem medo no drama explícito, sem espaço para respiros. Ainda mantém o flashback como peça fundamental de sua narrativa - algo que faz como poucos - e jamais abandona o cuidado extremo com o visual de suas cenas, valorizado pela fotografia de Jean Claude Carrieu, discreta o bastante para não chamar mais atenção do que a trama que se desenrola diante do espectador. O uso impactante do vermelho também continua parte indissociável de sua personalidade artística, bem como sua inacreditável capacidade de transformar o mais banal drama doméstico em um poderoso estudo sobre as emoções humanas. Amor, culpa, ciúme, inveja, solidão e desejo estão presentes em cada momento do filme, misturados pelas mãos mágicas do cineasta e interpretados por uma dupla de expressivas atrizes dividindo o papel central. Assim como todos os seus filmes anteriores, "Julieta" não é drama de uma única emoção - e Almodóvar faz com que o espectador sinta cada uma delas sem que para isso precise apelar para lágrimas e sorrisos fáceis.


A trama, aparentemente simples, começa quando Julieta (Emma Suárez), uma ex-professora de literatura grega em vias de deixar Madri com o namorado, o escultor Lorenzo (Dario Grandinetti, de "Fale com ela", também de Almodóvar), reencontra, na rua, a jovem Beatriz (Michelle Jenner), amiga de infância de sua única filha, Antía. O reencontro mexe profundamente com Julieta, que não vê nem tem notícias da filha há anos, desde que esta viajou para um retiro espiritual e nunca mais procurou a mãe. Desistindo de sair do país e voltando para o apartamento onde morava com a menina, Julieta entra em uma jornada através do tempo, relembrando sua história de amor e perda com Xoan (Daniel Grao), iniciada em uma viagem de trem e terminada tragicamente, de forma a deixar marcas indeléveis em sua alma. Dessas memórias - quando é interpretada por Adriana Ugarte - fazem parte outros personagens importantes, como a empregada doméstica Marian (Rossy de Palma, presença constante na obra do diretor) e a escultora Ava (Inma Cuesta), que, de um modo ou outro, são fundamentais no rumo dos acontecimentos.

Magistralmente executado - sem excessos e dotado de uma elegância quase inédita na carreira do cineasta - "Julieta" é um filme de notas menores, uma surpresa quando se trata do normalmente excêntrico Almodóvar. Apresentando emoções contidas e represadas, sua trama aposta no minimalismo, como refletindo o silêncio da protagonista diante de seu constante desespero. Ao fugir de sua zona de conforto e evitar catarses grandiosas, o diretor segue o caminho inverso de sua obra até aqui e surpreende positivamente, mostrando (mais uma vez) que, por trás do rebelde e escandaloso autor de "Mulheres à beira de um ataque de nervos" (88) existe um homem de sensibilidade rara quando se trata de conhecer a alma humana - em especial a feminina. Até mesmo o final - anti-climático para alguns, emocionante para outros - é quase uma antítese do Almodóvar histriônico ao que se está acostumado. E é sempre refrescante e empolgante perceber que um grande artista ainda tem o poder de se reinventar com tanta genialidade. Bravo, Almodóvar! Mais uma vez.

quinta-feira

OS AMANTES PASSAGEIROS

OS AMANTES PASSAGEIROS (Los amantes pasajeros, 2013, El Deseo, 96min) Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Fotografia: Jose Luis Alcaine. Montagem: José Salcedo. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Davidelfin, Tatiana Hernández. Direção de arte/cenários: Antxón Gómez/Clara Notari. Produção: Agustin Almodovar, Esther García. Elenco: Antonio Banderas, Penelope Cruz, Javier Camara, Cecilia Roth, Lola Dueñas, Antonio de la Torre, Raul Arévalo, Carlos Areces, Hugo Silva, Miguel Ángel Silvestre, Laya Martí, Paz Vega, Blanca Suárez. Estreia: 08/3/13

Depois de aventurar-se pelo lado negro da alma humana no denso "A pele que habito", Pedro Almodovar parece ter voltado às origens transgressoras e debochadas do início de sua carreira com "Os amantes passageiros". Despretensioso e abertamente escrachado, seu filme mostra que aquele senso de humor que era a essência de obras como "Labirinto de paixões" e "Pepi, Luci, Bom" continua intacto debaixo do verniz de cineasta sério e consagrado com dois Oscar. Centrado quase que exclusivamente em um único cenário - um avião com uma pane que ameaça a todos os tripulantes e passageiros - o roteiro de Almodovar usa e abusa de diálogos surreais, personagens ensandecidos (por nascimento ou pelo abuso de álcool e drogas) e atores velhos conhecidos do diretor, como Cecilia Roth, Lola Dueñas e Javier Camara - até mesmo Antonio Banderas e Penélope Cruz participam da brincadeira, em uma participação especial nos primeiros minutos de projeção.

Conforme o próprio trailer já deixava antever, "Os amantes passageiros" não se leva a sério - e nem pede à audiência que o faça. A começar pelo trio de protagonistas - comissários de bordo gays vividos por Javier Camara, Raúl Arévalo e Carlos Areces em atuações pra lá de inspiradas - tudo no filme pede que o público esqueça qualquer preconceito e se entregue sem medidas às loucuras do roteiro. Só mesmo assim - com total consciência da real essência do diretor - é que a experiência se torna ainda mais divertida. O Almodovar de "Os amores passageiros" está muito mais para o diretor trash e criativo de "Maus hábitos" e "O que fiz eu para merecer isto?" do que para o bem mais comportado (mas nem por isso menos genial) criador de "Tudo sobre minha mãe" e "Fale com ela". Estão em cena situações bizarras que combinam muito mais com a primeira fase de sua carreira - em que desafiava com humor e ironia o governo franquista - do que com seu momentos mais reflexivos, que lhe tornaram o cineasta espanhol mais respeitado desde Buñuel. É esse Almodovar original que consegue fazer com que o absurdo se torne crível, como nos melhores momentos de sua filmografia.


A trama começa com uma sequência aparentemente sem importância que reúne Antonio Banderas e Penélope Cruz como um casal de namorados que trabalha para uma companhia aérea e que, felizes com a notícia de uma gravidez, não percebe que falhou em um dos procedimentos de segurança antes do próximo voo. Tal erro só é percebido tarde demais, quando o avião já está a caminho da Cidade do México, com passageiros e tripulação a bordo e descobrindo, aos poucos, que podem estar em seus últimos momentos. Para aliviar a tensão, os comissários Joserra (Javier Camara), Fajas (Carlos Areces) e Ulloa (Raúl Arévalo) fazem o possível, dopando a segunda classe e promovendo shows de dublagem para os demais passageiros. Entre eles, inclui-se Norma Boss (Cecilia Roth), uma ex-atriz, hoje empresária no ramo da prostituição de luxo que está na mira de um assassino de aluguel, Ricardo Galán (Guilermo Toledo), um ator dividido entre duas mulheres, e Sr. Más (José Luís Torrijo), o presidente de um banco envolvido em um escândalo financeiro - além de um noivo (Miguel Ángel Silvestre, que depois faria sucesso na série "Sense8") que está em lua-de-mel e é cobiçado pela sensitiva Bruna (Lola Dueñas), que quer perder a virgindade antes de morrer, e pelo comissário Fajas. Enquanto os pobres passageiros não sabem, a princípio, o tamanho do perigo que correm, os pilotos estão mais preocupados com seus problemas conjugais e sexuais do que com a possibilidade de espatifar seu avião.

Livre da pressão de realizar mais um filme para agradar aos festivais de cinema e à crítica intelectualoide que tornou-o hype, Almodovar fez, com "Os amantes passageiros", o que há muito tempo seu público fiel vinha desejando: um trabalho anárquico, sem amarras e sem preocupações que não a de fazer rir. Talvez isso decepcione quem espera algo mais impactante, mas sem dúvida agrada a quem sabe quem realmente o realizador é. O humor de seu novo filme brinca com a sexualidade, com a religião, com drogas, com redes sociais e com a família com o mesmo cáustico senso de humor que vinha sendo deixado de lado há bons anos. É iconoclasta, é cafona, é gay ao extremo - que o diga a sequência musical onde os comissários dublam a canção "I'm so excited" (título do filme para o mercado de língua inglesa).  Mas é, também, engraçadíssimo, leve, despretensioso e Almodovar na veia. Não é nem de longe seu melhor trabalho, mas é infinitamente superior a qualquer comédia que se pretende engraçada mas tem medo de ousadias.

terça-feira

DE SALTO ALTO

DE SALTO ALTO (Tacones lejanos, 1991, El Deseo S/A, 112min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Alfredo Mayo. Montagem: José Salcedo. Música: Ryuichi Sakamoto. Figurino: José Maria de Cossío. Direção de arte/cenários: Pierre Thevenet/Julian Mateos. Produção executiva: Agustin Almodovar. Elenco: Victoria Abril, Marisa Paredes, Miguel Bosé, Ana Lizaran, Feodor Atkine. Estreia: 23/10/91

Quando estava na fase final de filmagens de "Ata-me" (90), filme seguinte ao imenso sucesso de "Mulheres à beira de um ataque de nervos" (88), que chegou a lhe dar uma inédita indicação ao Oscar de melhor produção estrangeira, o espanhol Pedro Almodovar já tinha em mente o argumento de seu novo projeto. A trama, que contaria a estória de duas irmãs precisando lidar com o reaparecimento de sua mãe tida como morta, acabou não vingando - pelo menos até 2006 quando o cineasta retomou o tema de forma mais burilada no excelente "Volver" - mas o diretor manteve na cabeça a ideia de falar sobre o relacionamento entre mãe e filha, assim como utilizar uma cena que adorava, onde uma apresentadora de telejornal confessava um crime em rede nacional. Surgia assim, a partir de uma ideia vaga e uma cena aparentemente aleatória, o roteiro de "De salto alto", o primeiro de seus filmes a mergulhar sem medo no melodrama rasgado - gênero com que ele ainda flertaria em "A flor do meu segredo" (96) e que lhe daria a consagração mundial com "Tudo sobre minha mãe" (99).

Quem estava acostumado com o estilo iconoclasta de Almodovar - e com seu humor todo particular - deve ter levado um susto ao deparar-se com seu novo filme, uma história de amor e solidão com tom sério e pouco afeito a brincadeiras (e mesmo quando elas aparecem soam dotadas de um cinismo que somente ele poderia apresentar sem parecer amargurado). Mesmo que mantenha algumas de suas maiores características bem explícitas - a desinibida cena de sexo entre Victoria Abril e Miguel Bosé é um exemplo, assim como o uso exemplar das cores e da trilha sonora - o diretor não hesita em conduzir o espectador a um outro nível emocional e sensorial, que superficialmente lembra a estrutura de uma telenovela mas que, em suas diversas camdas, fica entre a profundidade psicológica de Ingmar Bergman (citado em um belo diálogo) e a exuberância visual de Douglas Sirk (referência maior do diretor quando se fala em melodrama).


A protagonista de "De salto alto" é Becky Del Páramo (Marisa Paredes), cantora pop do passado e hoje grande dama da canção espanhola, cujo retorno a Madri depois de quinze anos serve como catalisador de profundas transformações na vida de sua filha única, Rebeca (Victoria Abril), a quem não vê desde criança, quando mudou-se para o México em busca de novos desafios profissionais. O relacionamento distante entre as duas está ainda mais complicado desde que Rebeca, apresentadora de um popular telejornal do país, casou-se com Manuel (Feodor Atkine), antigo amante de sua mãe. O casamento entre eles vai de mal a pior, principalmente porque Manuel ainda sente-se atraído por Becky - uma situação que acaba, mesmo sem querer, aproximando a jovem de Hugo (Miguel Bosé), um conhecido que faz shows vestido como uma drag queen em que imita sua mãe. O imbroglio familiar fica ainda mais complicado, porém, quando Manuel é assassinado com um tiro, o juiz encarregado do caso descobre que ele ainda mantinha um caso com a famosa cantora - e Rebeca assume a autoria do crime em rede nacional.

Desafiando as convenções do gênero policial - o "quem matou" acaba sendo um tema apenas incidental da narrativa - em favor de um viés melodramático, Pedro Almodovar costura sua trama através de dolorosas reminiscências familiares (através de flashbacks que elucidam a dúbia relação entre mãe e filha) que resultam em um presente opressivo e conflituoso. Poucas vezes até então seu cinema se permitiu mergulhar tão fundo na psicologia de seus personagens, seja através de diálogos brilhantes (recitados por Victoria Abril e Marisa Paredes em momento fundamental de suas carreiras), do figurino caprichado (que se utiliza da sofisticação das roupas Chanel para comentar a personalidade das protagonistas) e da música, escolhida a dedo - apesar da trilha sonora ter sido composta pelo veterano Ryuchi Sakamoto, o diretor optou por coalhar a estória com canções populares regravadas especialmente para o filme, como forma de sublinhar as emoções da trama. Até mesmo algumas ousadias como usar o mesmo ator - Miguel Bosé - para interpretar dois personagens (ou três, dependendo do ponto de vista) soa, mais do que um artíficio, como um golpe de mestre do cineasta, que embaralha suas cartas de forma a surpreender a plateia - coisa que também faz em um momento inusitado no meio do filme, quando um grupo de presidiárias, do nada, começa uma coreografia.

"De salto alto" foi, sem dúvida, o primeiro grande passo de Pedro Almodovar rumo à sofisticação narrativa com a qual seria reconhecido mundialmente em poucos anos. Substituindo o humor corrosivo e absurdo com que salpicava suas obras por um tom menos debochado mas ainda assim não totalmente desprovido de ironia e sarcasmo (mesmo que bem disfarçado por metáforas visuais e conceituais), o cineasta provou que tinha talento de sobra para sair de sua zona de conforto e buscar mais alcance com as estórias recheadas de personagens deliciosos que habitavam sua mente. O resultado dividiu a crítica, mas hoje, mais de duas décadas depois de seu lançamento, pode ser considerado, sem dúvida, um de seus filmes mais importantes.

segunda-feira

A PELE QUE HABITO

A PELE QUE HABITO (La piel que habito, 2011, El Deseo S/A, 120min) Direção: Pedro Almodovar. Roteiro: Pedro Almodovar, Agustín Almodovar, romance "Tarantula", de Thierry Jonquet. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: José Salcedo. Música: Alfredo Iglesias. Figurino: Paco Delgado. Direção de arte/cenários: Antxon Gómez/Vicente Díaz. Produção: Agustin Almodovar, Esther García. Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Álamo. Estreia: 19/5/11 (Festival de Cannes)
 

Em poucas cinematografias contemporâneas o sublime e o bizarro convivem tão em paz quanto na obra do espanhol Pedro Almodovar. Com mais intensidade em alguns filmes (“Maus hábitos”, “O que fiz eu para merecer isto?”, “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, “Kika”) e mais sutil em outros (“A flor do meu segredo”, “Volver”, “Abraços partidos”), essa mistura aparentemente impossível é uma das características mais marcantes do cineasta, já premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro (por “Tudo sobre minha mãe”) e roteiro original (por “Fale com ela”) e que é normalmente apontado como um especialista em personagens femininas de grande força dramática. Em “A pele que habito”, porém, ele mostra que é plenamente capaz de criar um protagonista masculino igualmente potente, além de experimentar, pela primeira vez em sua carreira, o mergulho em um filme de suspense. Tudo bem que “Matador” e “Má educação” tinham momentos que flertavam com o gênero, mas nenhum deles era tão ostensivamente cruel e sufocante quanto essa adaptação livre do romance “Tarântula”, de Thierry Jonquet, que mistura elementos de “Frankenstein”, de Mary Shelley e “O colecionador”, de John Fowles, para contar uma história de obsessão e vingança que, no fim das contas, combina à perfeição com a obra que o diretor vem construindo desde a década de 80.

A primeira ligação de “A pele que habito” com o passado de Almodovar vem com o reencontro com Antonio Banderas, ator-fetiche de seus primeiros filmes e com quem não trabalhava desde “Ata-me”, de 1990. Mais velho e mais maduro como ator – ainda que vez por outra escorregue no overacting – Banderas vive Robert Ledgard, um cirurgião plástico respeitado pelos colegas e pelos pacientes que dedica seu tempo ao desenvolvimento de uma pele sintética capaz de resistir a quaisquer tipos de agressão. Suas experiências polêmicas (e contra a lei) tem origem no trauma que viveu com a morte da esposa, vítima de um acidente de carro que a deixou desfigurada e resultou em seu suicídio. A tragédia – que teve ainda uma outra consequência devastadora envolvendo sua única filha – o faz tornar-se um homem obcecado por vingança, que acaba por envolver um jovem Vicente(Jan Cornet) em uma dedicada e violenta experiência.         
Com uma narrativa que usa e abusa de flashbacks que dão ao público a exata noção de causa/consequência dos atos de Robert, “A pele que habito” destoa um tanto dos filmes mais famosos de Almodovar por demorar a estabelecer a real história que deseja contar. É somente aos poucos que o roteiro vai oferecendo à plateia os elementos essenciais à compreensão da extensão da vingança de seu protagonista, um homem que, ao contrário do que dita a cartilha do cinema hollywoodiano, está longe de ser um herói assim como tampouco pode ser considerado um vilão: essa dualidade de seu personagem principal é um dos principais méritos do filme de Almodovar, que mais uma vez confere propriedades humanas a suas criações, livrando-as do maniqueísmo fácil e preguiçoso que domina boa parte do cinema comercial. Robert Ledgard pode ter suas razões para buscar uma vingança, mas a certo ponto da narrativa – graças principalmente à recusa do diretor em injetar uma culpa explícita em ... – é impossível que a plateia não fique em dúvida se tudo não está indo longe demais. E, acreditem, nem Almodovar nem seu protagonista parecem dispostos a poupar ninguém de seu pesadelo estético/sexual, que inclui a bela Vera (Elena Anaya).


O bom-humor tão louvado na obra de Almodovar – que sempre conseguiu alternar riso e lágrimas sem prejuízo do conjunto – praticamente inexiste em “A pele que habito”. Quando tenta dar uma aliviada ao tom extremamente sombrio e doentio da história, acaba por tropeçar – Zeca, o filho brasileiro de Marília (Marisa Paredes, outra habitual colaboradora do cineasta), empregada de Robert e sua aliada/cúmplice, chega à mansão do médico fantasiado de tigre, em uma desnecessária pretensão à comicidade distorcida de seus filmes anteriores. Apesar da presença de Zeca ser o catalisador de eventos que empurram a ação – e dão origem às reminiscências que finalmente explicam os motivos das atitudes do cirurgião – tal artifício soa fora de lugar. Em “Kika” funcionaria. Em “Mulheres à beira de um ataque de nervos” sublinharia o tom debochado. Em “A pele que habito” deixa a impressão de uma piada sem graça e fora de hora. É o único escorregão de um filme que, afora isso, é sufocante e desconfortável como uma visita ao dentista.
Sublinhado pela música tonitruante de Alberto Iglesias e pela cenografia inesperadamente asséptica – uma surpresa em se tratando de uma espécie de embaixador da estética kitsch – “A pele que habito” conduz o espectador a uma viagem por um labirinto de sensações conflitantes e de uma tensão nunca vista antes na obra do diretor. Sem medo de pegar pesado no suspense, Almodovar utiliza todo o seu talento na construção de um pesadelo incomodamente verossímil, apesar do aparente exagero da trama central. Se desperta o riso, é um riso nervoso, reação à crueldade da vingança de Roberto e à forma com que ela é realizada. Nem mesmo quando flerta descaradamente com o melodrama – gênero no qual o diretor é mestre – o filme deixa de ser desconcertante, prova do gênio de seu criador, um cineasta incapaz de gerar um filme medíocre mesmo quando se propõe a testar seus limites.
A crítica não foi tão generosa com “A pele que habito” como foi com as obras-primas de Almodovar – a saber, “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, “Carne trêmula”, “Tudo sobre minha mãe”, “Fale com ela” – e fez malabarismos para ver em seu filme defeitos que em produções hollywoodianas não parecem ser problema algum. Talvez a expectativa gerada pela reunião de Almodovar/Banderas/Marisa Paredes tenha sido seu maior algoz. Mas um dia provavelmente sua incursão no lado mais negro do ser humano até hoje será vista como o excelente filme que é, apesar de seus pecadilhos. “A pele que habito” não é um Almodovar típico – a despeito de seu final irônico - mas é um grande Almodovar.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...