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quarta-feira

O VIRGEM DE 40 ANOS

 


O VIRGEM DE 40 ANOS (The 40 year old virgin, 2005, 116min) Direção: Judd Apatow. Roteiro: Judd Apatow, Steve Carell. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Brent White. Música: Lyle Workman. Figurino: Debra McGuire. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/K.C. Fox. Produção executiva: Steve Carell, Jon Poll. Produção: Judd Apatow, Shauna Robertson, Clayton Townsend. Elenco: Steve Carell, Catherine Keener, Paul Rudd, Romany Malco, Seth Rogen, Elizabeth Banks, Leslie Mann, Jane Lynch, Kat Dennings, Jonah Hill, Mindy Kaling. Estreia: 19/8/2005 

Fazia pouco menos de seis meses que a versão norte-americana da série "The office" havia estreado nos EUA quando "O virgem de 40 anos" chegou às telas. Era a primeira oportunidade do ator Steve Carell como protagonista no cinema - depois de ter roubado a cena em "Todo poderoso" (2003) e ter trabalhado com Woody Allen (em "Melinda e Melinda") - e havia certo receio de que o humor quase vulgar do filme de Judd Apatow (também em sua primeira incursão fora do circuito de televisão) pudesse ofender às plateias mais suscetíveis e, por consequência, afundasse nas bilheterias. Tudo, porém, não passou de um medo infundado: graças principalmente ao carisma inconteste de Carell, a comédia romântica mais inusitada da temporada encheu os bolsos da Universal (mais de 175 milhões de dólares de arrecadação mundial), abriu caminho para a consagração do seriado estrelado por seu ator central a partir da segunda temporada e apresentou Apatow como o diretor ideal de comédias adultas no começo dos anos 2000. Com um elenco coadjuvante recheado de nomes que fariam parte do imaginário do gênero pelos anos seguintes - como Paul Rudd e Seth Rogen -, o filme acabou por tornar-se, também, um capítulo importantíssimo nas carreiras de todos os envolvidos. 

Carell já tinha 43 anos de idade, dez anos de casado e dois filhos quando apresentou ao mundo o tímido e desajeitado Andy Stitzer, um homem cuja vida gira em torno de um emprego sonolento em uma loja de aparelhos eletrônicos, partidas de videogame e bonecos colecionáveis que são sua maior paixão. Seus amigos são seus colegas de trabalho, e suas relações com o sexo oposto nunca ultrapassam o nível mais superficial - para não dizer que elas praticamente não existem. Para Andy a vida parece ter chegado a um patamar do qual jamais sairá, e de certa forma ele chega a se conformar com o fato, ao menos até ter sua situação amorosa nula descoberta por seus companheiros profissionais. Surpresos (mas não muito) ao perceberem sua total inexperiência no campo sexual, David (Paul Rudd), Jay (Romani Malco) e Cal (Seth Rogen) se unem, então, em uma força-tarefa para resolver o problema do amigo. Nesse meio-tempo - onde encontra mulheres dos mais variados tipos e com as mais variadas expectativas -, Andy tenta lidar com um sentimento novo: a atração/paixão por Trish (Catherine Keener), uma mulher madura que nem de longe desconfia de sua condição de virgem.

 

Repleto de momentos cômicos inspirados - vários deles improvisados por um elenco coeso e homogêneo -, "O virgem de 40 anos" conseguiu a proeza de equilibrar o humor quase ofensivo de Judd Apatow, centrado em piadas de duplo sentido, trocadilhos infames e tiradas a respeito de sexo sem o menor pudor, com um tom de comédia romântica adulta, com personagens convivendo com angústias condizentes (ao menos em parte) com uma faixa etária muito acima da média para o gênero. Abaixo da camada mais óbvia da trama, existe, pairando como uma névoa de melancolia, as preocupações com a solidão, com o amadurecimento, com as relações pessoais em um mundo em constante evolução. O roteiro (coescrito por Apatow e Carell) não tem por objetivo discutir a sério nenhum desses temas, mas de certa forma os apresenta em um nível subjacente bastante interessante - e que em nenhum momento sobrepuja seu principal ponto: fazer rir com situações que beiram o ridículo e que escapam milagrosamente do excesso por mérito de seus intérpretes. Steve Carell mescla o humor histérico e o tom quase triste de Andy com uma maestria que seria ainda mais desenvolvida em trabalhos seguintes - como em "Foxcatcher: a história que chocou o mundo", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, dez anos mais tarde - e Catherine Keener oferece uma base sólida de seriedade à trama, sem que a faça perder o ritmo (e chegou a ser premiada pelos críticos de Boston e Los Angeles). Além deles, o trio de amigos de Andy conquistam o público sem fazer esforço - não à toa são um dos grandes destaques do filme, com personagens mais ricos do que se poderia pressupor: são eles os responsáveis pelo contraste entre a teoria e a prática que sustenta a trama.

Mesmo que vez ou outra apele para um humor quase chulo - o que preocupou Steve Carell no início da produção -, "O virgem de 40 anos" acerta ao brindar o espectador com um nível de inteligência e autoironia que raramente se vê nas comédias hollywoodianas. Em muitos momentos ele soa exatamente o que é - uma comédia tipicamente fruto de seu tempo e sua geografia -, mas consegue, ao mesmo tempo, soar universal e atemporal em seu retrato de uma masculinidade a um passo da toxicidade e da imaturidade geracional. Mas nem mesmo seus pequenos desvios de rota esconde sua principal qualidade: fazer rir descompromissadamente enquanto fala de assuntos sérios (ou nem tão sérios assim).  

O ÂNCORA: A LENDA DE RON BURGUNDY

 


O ÂNCORA: A LENDA DE RON BURGUNDY (Anchorman: the legend of Ron Burgundy, 2004, DreamWorks Pictures/Apatow Productions, 94min) Direção: Adam McKay. Roteiro: Adam McKay, Will Ferrell. Fotografia: Thomas E. Ackerman. Montagem: Brent White. Música: Alex Wurman. Figurino: Debra McGuire. Direção de arte/cenários: Clayton R. Hartley/Jan Pascale. Produção executiva: Shauna Robertson, David O. Russell. Produção: Judd Apatow. Elenco: Will Ferrell, Christina Applegate, Paul Rudd, Steve Carell, David Koechner, Fred Willard, Seth Rogen, Vince Vaughn, Ben Stiller, Owen Wilson, Kathryn Hahn, Jack Black, Tim Robbins. Estreia: 28/6/2004

Na segunda metade da década de 1970 nenhum jornalista era mais importante e prestigiado em San Diego do que Ron Burgundy, âncora do programa de maior audiência da televisão regional, admirado pelo público e desejado pelas mulheres. Em uma emissora dominada por uma mentalidade machista, ele era o símbolo máximo de uma sociedade ainda impermeável às conquistas profissionais femininas. Porém, seu poder considerado definitivo sofreu um baque violento com a chegada de Veronica Corningstone, uma repórter dedicada e ambiciosa da Carolina do Norte, decidida a buscar seu lugar ao sol como o primeiro nome do telejornal. A disputa entre os dois - e o inesperado romance entre eles - movimentou os bastidores do telejornalismo da época, e precipitou a ascensão das mulheres no mercado de notícias televisivas. Uma história empolgante - mas que existiu apenas nas mentes dos roteiristas Will Ferrell e Adam McKay, responsáveis por "O âncora: a lenda de Ron Burgundy", uma comédia despretensiosa que, depois de ter sido esnobada diversas vezes pelo estúdio (a DreamWorks), surpreendeu ao ultrapassar a marca de 80 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico (EUA e Canadá) e tornar-se cult por parte do público a ponto de render uma continuação, lançada mais dez anos depois. Com um humor que beira o ofensivo e flerta abertamente com a estupidez, o filme é ideal para quem gosta de rir sem precisar ligar o cérebro - mas, paradoxalmente, faz um crítica sagaz ao machismo e à indústria do jornalismo televisivo.

Com um elenco que é praticamente um quem é quem do humor norte-americano do começo dos anos 2000 - incluindo um Steve Carrel pré-estrelato - e participações especiais de nomes como Tim Robbins, Jack Black e Ben Stiller, "O âncora" parte de uma estrutura clássica narrativa para permitir a seus atores todo tipo de improviso, ampliando consideravelmente seu tom debochado e anárquico. Will Ferrell - também um dos autores do roteiro - deita e rola com um personagem sob medida para seu humor histriônico, que a tantos agrada e a muitos outros repele, e encontra no carisma de Christina Applegate um equilíbrio muito bem-vindo. Juntos em cena, os dois ilustram com perfeição o casamento entre a comédia rasgada e um romantismo que, por mais distorcido que seja, ameniza os exageros de uma produção que não tem medo de ir fundo na palhaçada e não poupa nada nem ninguém. Adam McKay - que pouco mais de uma década depois levaria um Oscar de roteiro por "A grande aposta" (2015), que também lhe renderia uma indicação à estatueta de direção - demonstra segurança ao comandar o que poderia facilmente transformar-se em um absoluto caos: com atores craques no improviso, ele mantém uma surpreendente coesão no desenvolvimento da narrativa mesmo diante de situações propensas ao bizarro.



Se Ron Burgundy é o retrato perfeito do líder de um universo falocêntrico e egoísta, seu séquito de colaboradores/admiradores/amigos não fica atrás - e é um grande mérito que seus intérpretes tenham sido tão bem escalados. Paul Rudd vive Brian Fantana, um repórter de campo mulherengo e que considera irresistíveis suas qualidades físicas e suas táticas amorosas; Steve Carell dá vida a Brick Tamland, o responsável pela divulgação da previsão de tempo e com o raciocínio lento além da conta; e David Koechner é o ator ideal para criar Champion Kind, especialista em esportes e dono de um talento natural para a grosseria. Agindo como uma gangue de adolescentes rebeldes, o grupo não apenas é uma metralhadora giratória de absurdos verbais como também volta e meia se envolve em brigas físicas com o time da emissora rival, liderado por Wes Mantooth (Vince Vaughn), cuja principal ameaça é fisgar o primeiro lugar na audiência. Quando Veronica entra em cena, conquistá-la (e impedi-la de chegar à bancada do telejornal) passa a ser o objetivo principal de todos - e nem mesmo a aparentemente dócil forasteira parece imune a tal desejo. A forma com que McKay e Ferrell demonstram tais anseios (através de momentos que brincam até mesmo com filmes musicais e melodramas) é o que faz de "O âncora" uma pérola: é difícil não se deixar conquistar por pelo menos uma das táticas do roteiro, que abrange todos os tipos de comédia sem cair na falta de foco ou ritmo.

Apesar de ser engraçadíssimo e apresentar um elenco impecável, "O âncora" não chega a ser uma unanimidade. Seu humor pouco sutil pode não agradar a quem busca comédias sofisticadas ou menos explícitas - apesar de o roteiro apresentar nuances raras no típico besteirol americano -, e Will Ferrell, apesar de seu talento cômico preciso, não é exatamente um astro muito popular fora dos Estados Unidos. Mas o filme de McKay é a demonstração, além de qualquer dúvida, de que é possível fazer rir equilibrando inteligência, sarcasmo e um pouquinho de escatologia. Pena que demorou dez anos para que ganhasse um segundo - e igualmente divertido - segundo capítulo.

terça-feira

AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL

AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL (The perks of being a wallflower, 2012, Summit Entertainment, 102min) Direção: Stephen Chbosky. Roteiro: Stephen Chbosky, romance de sua autoria. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Mary Jo Markey. Música: Michael Brook. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Inbal Weinberg/Merissa Lombardo. Produção executiva: Stephen Chbosky, James Powers. Produção: Lianne Halfon, John Malkovich, Russell Smith. Elenco: Logan Lerman, Emma Watson, Ezra Miller, Paul Rudd, Dylan McDermott, Melanie Linskey, Joan Cusack, Johnny Simmons, Mae Whitman, Kate Walsh. Estreia: 08/9/12 (Festival de Toronto)

Sempre que um livro ou filme tenta "definir" uma geração ou descrevê-la com intenções sociológicas corre o sério risco de uma generalização oca e simplista. A sorte é que, apesar da desvantagem numérica, para cada dezena de bombas metidas a profundas surge uma pérola capaz de devolver aos cinéfilos a esperança e o sorriso. É o que acontece com "As vantagens de ser invisível", a delicada, terna e sensível adaptação de um romance... delicado, terno e sensível, que narra as aventuras de um adolescente desajustado quando finalmente encontra em uma dupla de meio-irmãos a turma pela qual sempre ansiou. Escrito e dirigido pelo mesmo Stephen Chbosky que escreveu o livro que lhe deu origem, o filme conquista o espectador principalmente por jamais tentar parecer mais do que é: um simples entretenimento de qualidade - ainda que justamente essa sua discrição o eleve acima da média do gênero e o faça ser interessante até mesmo por quem já saiu da faixa etária de seu público-alvo há um bom tempo.

O protagonista do filme é o tímido Charlie (interpretado com sutileza e talento por Logan Lerman), um rapaz de 16 anos com um pesado histórico de problemas psicológicos, que carrega consigo o trauma da morte de uma tia querida (Melanie Linskey, a paixão de Kate Winslet em "Almas gêmeas") e um profundo desajuste ao mundo que o cerca. Inteligente e dedicado, ele chega em uma escola nova e logo faz amizade com o professor de Inglês (Paul Rudd), que se comunica com ele através de alguns livros clássicos que o fazem perceber o mundo à sua volta. Mas o que acaba sendo mais importante que tudo é seu encontro com Sam (Emma Watson, deixando a Hermione da série "Harry Potter" pra trás) e Patrick (Ezra Miller, de "Precisamos falar sobre o Kevin"), dois jovens que não se importam em seguir as regras pré-estabelecidas e, por consequência, não chegam a ser os mais populares da escola: ela vem de uma série de fofocas a respeito de seu comportamento promíscuo e ele vive um relacionamento escondido com o esportista Brad (Johnny Simmons) e não faz questão de esconder sua sexualidade. Ao lado dos novos amigos - em especial Sam, por quem se apaixona - Charlie passa a ter uma nova visão da vida e de si mesmo.


Apesar de sua trama não parecer exatamente empolgante - e chegar perigosamente perto de todos os clichês que sufocam o gênero - "As vantagens de ser invisível" tem a seu favor a delicadeza com que Chbosky trata suas personagens e a maneira com que jamais as julga. Mesmo que as atitudes de Sam e Patrick (e até mesmo algumas de Charlie) não sejam exemplares, elas não soam artificiais nem tampouco forçadas, boa parte devido à sensibilidade com que o escritor/cineasta conduz as interpretações de seu elenco juvenil. Enquanto Emma Watson demonstra uma segurança de veterana a despeito de sua pouca idade e Ezra Miller exercita novamente sua veia rebelde, o novato Logan Lerman seduz a audiência com uma aura de inocência convincente como poucas vezes o cinema registrou. É difícil ficar imune ao charme e à beleza de suas cenas com Watson, que transmitem a sensação exata do primeiro amor e das descobertas a respeito da vida e das relações - o que a bela trilha sonora ainda reitera com precisão, em especial quando David Bowie solta a voz na bela "Heroes", que ilustra com perfeição os sentimentos dos protagonistas e sintomaticamente comenta uma das mais belas sequências do filme.

Tratando de assuntos polêmicos - drogas, homossexualidade, rebeldia juvenil - com respeito e nunca ultrapassando os limites do bom-gosto e da discrição, Chbosky faz um gol de placa já em sua segunda incursão às telas, e demonstra habilidade em dirigir seus atores - vale lembrar que o elenco ainda inclui Joan Cusack e Dylan McDermott, que, mesmo em papéis pequenos, se saem bastante bem. Feito com o objetivo de não decepcionar os (muitos) fãs do livro, "As vantagens de ser invisível" acaba por se tornar independente de sua origem literária: é um dos grandes pequenos filmes de 2012.

sexta-feira

REGRAS DA VIDA

REGRAS DA VIDA (The cider house rules, 1999, Miramax Films, 126min) Direção: Lasse Halstrom. Roteiro: John Irving, romance de sua autoria. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: Rachel Portman. Figurino: Renée Ehrilch Kalfus. Direção de arte/cenários: David Gropman/Beth Rubino. Produção executiva: Bobby Cohen, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Richard N. Gladstein. Elenco: Tobey Maguire, Michael Caine, Charlize Theron, Paul Rudd, Delroy Lindo, Erikah Badu, Kate Nelligan, Kathy Baker, Jane Alexander, Kieran Culkin. Estreia: 21/10/99

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Lasse Halstrom),  Ator Coadjuvante (Michael Caine), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Michael Caine), Roteiro Adaptado

Só Deus sabe porque Michael Caine aceita fazer boa parte dos filmes dos quais participa. Entre dezenas de obras senão execráveis ao menos descartáveis, o ator inglês acerta majestosamente vez ou outra. Quando isso acontece, ele faz coisas como "Hannah e suas irmãs", que lhe rendeu um Oscar de coadjuvante em 1986 e este "Regras da vida", que lhe rendeu uma segunda estatueta na mesma categoria, 13 anos depois.

Dessa vez, ao contrário da primeira, ele não vive um homem de meia-idade canalha e apaixonado pela cunhada mais nova. Agora ele vive Wilbur Larch, um médico obstetra que, em uma cidade pequena do Maine dos anos 40, comanda um orfanato e ajuda jovens a interromper gestações indesejadas, o que causa algumas discussões com seu braço-direito, o jovem Homer Wells (Tobey Maguire), um órfão que aprendeu o ofício de seu mentor mas que hesita tenazmente em seguir sua carreira. A desculpa que Homer precisava para sair do orfanato em busca de uma vida própria surge quando um belo casal pede ajuda ao dr. Larch. Encantado com a deslumbrante Candy (Charlize Theron) e empolgado com a ideia de trabalhar na colheita de maçãs da fazenda do soldado Willy (Paul Rudd), o rapaz abandona seu passado e inicia uma nova fase de sua existência. Tomando contato com outros trabalhadores - e testemunhando histórias bastante tristes, como a do veterado Sr. Rose (Delroy Lindo) e de sua filha (a cantora Erykha Badu estreando como atriz) - Wells acaba se envolvendo romanticamente com Candy, mas uma tragedia envolvendo o namorado da moça ameaça os separar.



O escritor John Irving adaptou seu próprio romance de maneira singular (e levou um merecido Oscar pelo feito). Repleto de uma delicadeza e de uma melancolia únicas, o filme, dirigido pelo sueco Lasse Halstrom, comove justamente por tratar de temas polêmicos - aborto, incesto - de maneira discreta, sem maiores arroubos de criatividade ou buscando a lágrima fácil. O elenco infantil rouba todas as cenas das quais participa (e depois de 40 minutos, quando o orfanato deixa de ser o centro da história dá uma saudade dos pequenos...) e demonstra uma naturalidade que muitos astros adultos dariam um braço para ter. Charlize Theron faz pouco mais do que desfilar sua beleza deslumbrante pela tela. Tobey Maguire segura bem seu primeiro protagonista antes de encarar a série "Homem-aranha", mas é Michael Caine quem emerge brilhante com sua feliz interpretação de um homem vitorioso sentimentalmente e cuja felicidade consiste em dar paz aos outros. É um trabalho sensacional que cobre "Regras da vida" de qualidade e emoção verdadeiras.

Belo e comovente, "Regras da vida" é o perfeito exemplo de um drama honesto e adulto que não precisa apelar para golpes baixos para conquistar o público.

A RAZÃO DO MEU AFETO


A RAZÃO DO MEU AFETO (The object of my affection, 1998, 20th Century Fox, 111min) Direção: Nicholas Hytner. Roteiro: Stephen McCauley, romance de Wendy Wasserstein. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Tariq Anwar. Música: George Fenton. Figurino: John A. Dunn. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Susan Bode. Produção: Laurence Mark. Elenco: Jennifer Aniston, Paul Rudd, Nigel Hawthorne, Steve Zahn, Allison Janney, Alan Alda, Tim Daly, John Pankow, Amo Gulinello. Estreia: 17/4/98

De todo o elenco da bem-sucedida série de TV "Friends", quem tentou com mais afinco uma carreira cinematográfica foi Jennifer Aniston. Mesmo que seu trabalho na série ainda seja seu ponto mais alto, não se pode reclamar de "A razão do meu afeto", uma delicada comédia romântica, dirigida pelo prestigiado Nicholas Hytner de "As bruxas de Salem", que tem sua premissa central em uma relação sui-generis entre uma jovem heterossexual e seu melhor amigo gay.

Tentando - e em vários momentos até conseguindo - afastar-se dos maneirismos de Rachel Green,  sua personagem mais conhecida, Aniston vive Nina Borowski, uma assistente social que vive no Brooklyn, namora por inércia um advogado mais velho (John Pankow) e que tem que lidar com os ataques de esnobismo da irmã bem-sucedida, casada com um famoso editor (um casal vivido com propriedade e bom-humor por Allison Janney e Alan Alda). Em um dos jantares promovidos para uní-la com um dos amigos do casal, ele conhece George (Paul Rudd), um professor do primário cujo relacionamento com Joley(Tim Daly), um médico metido a sedutor, acaba de terminar. Sensibilizada com a situação do jovem, ela o convida para dividir seu apartamento. Os dois iniciam uma bela amizade e quando ela se descobre grávida, decide romper o namoro e chama o rapaz para ajudá-la na criação do bebê. A estranha família está formada, mas quando George se envolve com Paul (Amo Guilinello), um aspirante a ator, o delicado equilíbrio se desfaz e ela descobre que está apaixonada por ele.




Um dos maiores méritos de "A razão do meu afeto" é o retrato sem estereótipos da comunidade gay. Ainda que certos clichês insistam em aparecer - o crítico de teatro, homossexual da terceira idade vivido com maestria por Nigel Hawthorne consegue escapar das armadilhas com admirável competência - eles são tratados com naturalidade, respeito e um bom humor contagiante. A própria relação entre os protagonistas - que caminha no fio da navalha em cada cena - é mostrada sem apelar para a vulgaridade e/ou complacência, encontrando em seus atores as encarnações perfeitas. Paul Rudd está encantador como o doce e romântico George, justificando a paixão que desperta em Nina, e o veterano Hawhtorne (indicado ao Oscar por "As loucuras do Rei George", também assinado por Nicholas Hytner) por pouco não rouba o filme para si (além de ser o dono das falas mais consistentes do roteiro, baseado em romance de Wendy Wasserstein). Ao lado deles, Jennifer Aniston demonstra uma segurança poucas vezes vista em seus trabalhos para o cinema.

Ao fugir também do obrigatório final feliz - ao menos do clássico final feliz das tradicionais comédias românticas - o filme de Hytner demonstra uma maturidade que falta a dezenas de outros produtos que tentam ser modernos ao tratar de um assunto tão carente de bons filmes. No final das contas, "A razão do meu afeto" é um perfeito exemplo do gênero, com um belo par central, diálogos inteligentes mas nunca intelectualizados e uma deliciosa trilha sonora, que inclui uma delicada regravação de Sting para a clássica "You were meant for me", conhecida graças à "Cantando na chuva". É um filme que merece ser descoberto por uma plateia maior do que os nichos LGBT e fãs de "Friends".

domingo

ROMEU + JULIETA

ROMEU + JULIETA (William Shakespeare's Romeo and Juliet, 1996, 20th Century Fox, 120min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jill Bilcock. Música: Nellee Hooper. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Catherine Martin/Brigitte Broch. Produção: Baz Luhrmann, Gabriella Martinelli. Elenco: Leonardo DiCaprio, Claire Danes, John Leguizamo, Paul Rudd, Pete Postletwhaite, Paul Sorvino, Brian Dennehy, Diane Venora, Christina Pickles, Harold Perrineau Jr., Vondie Curtis-Hall, Miriam Margoyles, Jamie Kennedy, Jesse Bradford. Estreia: 01/11/96

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários
Festival de Berlim - Melhor Diretor (Baz Luhrmann), Melhor Ator (Leonardo DiCaprio) 

A primeira cena já dá uma pista sobre o que vem pela frente: em vez de empolados arautos em roupas de época, uma apresentadora de telejornal anuncia o que a plateia verá nas próximas duas horas. Com uma montagem frenética e ruidosa, Baz Luhrmann desconstrói o preconceito contra a tradição e entrega sua versão lisérgica, sexy e violenta de uma das mais famosas histórias de amor da história do teatro. "Romeu + Julieta" é mais do que uma refilmagem da mais clássica obra de Shakespeare: é a reinvenção em formato MTV de uma trama universal que vem emocionando gerações há muitos séculos. E como não poderia deixar de ser, a ousadia do cineasta australiano encontrou tanto admiradores apaixonados quanto detratores ferrenhos.

Não é de admirar que os puristas tenham se chocado com a coragem de Luhrmann (diretor do divertidamente brega "Vem dançar comigo"): apesar de manter o texto de Shakespeare intacto, ele substituiu espadas por armas de grosso calibre, transformou Mercúcio em uma drag-queen negra, apresenta um padre Lourenço tatuado e, no primeiro encontro do casal de protagonistas, o herói (vivido por um Leonardo DiCaprio em vias de tornar-se coqueluche mundial graças à "Titanic") está sob o efeito de ecstasy. Somadas a uma edição alucinante, um desenho de som que atinge os mais altos decibéis e uma direção de arte que eleva o kitsch a um status de arte (algo que Luhrmann já havia feito antes, e atingiria seu ápice em "Moulin Rouge" cinco anos depois), essas "transgressões" do cineasta australiano fizeram de "Romeu + Julieta" um dos filmes mais comentados do início da segunda metade da década de 90.

Para quem não sabe do que se trata - ou seja, quem não esteve no planeta Terra nos últimos quatrocentos anos - "Romeu + Julieta" (assim mesmo, com um sinal de adição ao invés do tradicional '&') conta a trágica história de amor proibida entre Romeu Montéquio (Leonardo DiCaprio) e Julieta Capuleto (a ótima Claire Danes). Herdeiros únicos de duas famílias cuja inimizade já vem de longa data - e que se transmite aos agredados dos clãs - eles se conhecem e se apaixonam durante uma festa à fantasia na Mansão Capuleto. Cientes dos problemas que seu romance irá enfrentar, o jovem casal conta com a ajuda do Frei Lourenço (Pete Postletwhaite), que acredita que o nascente amor poderá finalmente trazer paz à cidade de Verona (aqui transposta da Itália para uma praia ao estilo Miami). Mas as coisas saem do controle quando um primo de Julieta, Teobaldo (John Leguizamo) mata Mercúcio (Harold Perrineau Jr., da série "Lost"), melhor amigo de Romeu, o que precipitará uma tragédia de grandes proporções.


Quem espera ver na versão de Baz Luhrmann a delicadeza lírica da idealizada por Franco Zefirelli em 1968 certamente levará um susto. Na concepção anos 90 da história do bardo não há espaço para tempos mortos e até mesmo os belíssimos diálogos românticos entre os protagonistas são declamados de uma forma que soa nova, moderna e jamais vista. A famosa cena do balcão, por exemplo, tem lugar na piscina da casa de Julieta, filmada com precisão por Lurhmann e seu diretor de fotografia Donald McAlpine, aqui realizando um trabalho excepcional que explora a luz natural com sensibilidade ímpar: o auge do amor entre Romeu e Julieta é colorido, romântico, com belos crepúsculos, mas quando a desgraça se aproxima é a chuva agressiva e a noite mais negra que tomam seu lugar. E na dolorosa cena final é impressionante a soma perfeita entre o cenário ultra-colorido, a fotografia sóbria, a trilha sonora delicada de Neellee Hooper e as interpretações perfeitas do casal central. A química entre DiCaprio e Claire Danes (saindo da série de TV "Minha vida de cão") é tão sensacional que dá pra perdoar facilmente os momentos iniciais do filme, tão rápidos e barulhentos que talvez incomodem o público mais tradicional - e vale lembrar que Natalie Portman quase ficou com o papel de Julieta, só sendo substituída por Danes porque é baixinha demais perto de seu galã, o que, segundo a produção, poderia soar como pedofilia...

Mesmo com seus pequenos defeitos - mais culpa do estilo exagerado de seu diretor do que por falta de talento ou ambição - "Romeu + Julieta" cumpre tudo o que promete: é comovente, é moderno, tem uma trilha sonora espetacular - o filme se encerra com a magnífica "Exit music (for a film), do grupo inglês Radiohead - e preparou Leonardo DiCaprio para o megaestrelato que viria muito a seguir. Um drama romântico indispensável"

AS PATRICINHAS DE BEVERLY HILLS

AS PATRICINHAS DE BEVERLY HILLS (Clueless, 1995, Paramount Pictures, 97min) Direção e roteiro: Amy Heckerling. Fotografia: Bill Pope. Montagem: Debra Chiate. Música: David Kitay. Figurino: Mona May. Direção de arte/cenários: Steven Jordan/Amy Wells. Produção: Robert Lawrence, Scott Rudin. Elenco: Alicia Silverstone, Paul Rudd, Brittany Murphy, Stacey Dash, Donald Faison, Breckin Meyer, Jeremy Sisto, Dan Hedaya, Wallace Shawn, Justin Walker. Estreia: 19/7/95

Cher Horowitz é uma adolescente de 16 anos que divide seu tempo entre a escola, passeios ao shopping e festas com os amigos, em especial a igualmente bem-nascida Dionne (Stacey Dash). Suas maiores preocupações na vida são cuidar da alimentação de seu pai, um advogado bem-sucedido (Dan Hedaya), escolher a roupa adequada para cada ocasião e, em último lugar, encontrar a pessoa certa para entregar sua virgindade. Enquanto isso não acontece, ela tenta resolver a vida amorosa das pessoas que a cercam, em especial Tai (Brittany Murphy), uma nova colega desajeitada e sem traquejo social, a quem ela considera sua principal missão. Preocupada em ensinar-lhe bons modos e arranjar-lhe um namorado, Cher nem desconfia que sua própria vida romântica está prestes a sofrer uma reviravolta e que o amor de sua vida está bem mais perto que ela imagina.

Se a história de "As patricinhas de Beverly Hills" parece familiar é porque sua trama não é exatamente original. É que a diretora e roteirista Amy Heckerling - da comédia "Picardias estudantis" - inspirou-se descaradamente no romance "Emma", de Jane Austen, publicado pela primeira vez em 1815. E por incrível que pareça, as aventuras e desventuras românticas de uma inglesa do século XIX soou absolutamente moderna mesmo duzentos anos depois de seu lançamento. Utilizando fielmente a estrutura e os elementos básicos do romance de Austen - que também em 1995 teve uma adaptação oficial estrelada por Gwyneth Paltrow - Hecklerling criou uma ácida e deliciosa crítica (ainda que carinhosa) à juventude um tanto fútil, consumista e vazia do final de século.

Mas a crítica velada (ou nem tanto) de Heckerling não foi a principal responsável pelo grande sucesso que o filme fez, uma vez que a maioria absoluta do público que frequentou as salas de cinema para assistir o filme provavelmente nem sabia que seu roteiro seria premiado pelo National Board of Review e indicado pelo sindicato de roteiristas. Pode ser meio bobo e não agradar a quem vai ao cinema atrás de elocubrações, mas é uma hora e meia de diversão leve e - por que não? - bastante inteligente, principalmente se comparado a outros produtos do gênero. E isso tudo embalado por uma atuação inspiradíssima de Alicia Silverstone, no auge da popularidade e do frescor juvenil.


Silverstone é quem comanda a festa. Sua Cher orquestra toda a sinfonia de festas, angústias e paixonites que aparentam ser definitivas de sua faixa etária sem nunca deixar de ser charmosa e sensível. Cher desfila por cenários deslumbrantes, usa roupas caras, dirige um carro do último tipo mas no fundo é uma adolescente assombrada pelas mesmas dúvidas de qualquer um na sua idade: ela quer ser amada por alguém que valha a pena e, nesse caminho tortuoso rumo à felicidade românticas esbarra em candidatos que foram genialmente adaptados da obra de Austen. Estão ali o don juan adolescente Elton (Jeremy Sisto), o suspeito Christian (Justin Walker) e até mesmo Josh (Paul Rudd), filho da ex-mulher de seu pai, por quem ela nutre estranhos sentimentos de repulsa. Todas são personagens do romance, devidamente ajustados por Heckerling de maneira genial. E não deixa de ser interessante ver o início da carreira de Jeremy Sisto - que faria sucesso com a série "A sete palmos" -, Paul Rudd (em franca atividade no cinema) e Brittany Murphy, precocemente morta em um bom momento da carreira.

Somados à trilha sonora pop contagiante - que inclui David Bowie, No Doubt, Radiohead, Supergrass e Jewell - e a um clima que remete fatalmente aos tempos de escola, "As patricinhas de Beverly Hills" é uma delícia, uma sessão da tarde agradável, engraçada e que é a cara de sua geração. Um clássico juvenil dos anos 90, apesar dos preconceitos dos 'cultos'.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...