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segunda-feira

FRENESI


FRENESI (Frenzy, 1972, Alfred J. Hithcock Productions/Universal Pictures, 116min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Anthony Shaffer, romance "Goodbye Piccadilly, Farwell Leicester Square", de Arthur La Bern. Fotografia:  Gil Taylor. Montagem: John Jympson. Música: Ron Goodwin. Figurino: Julie Harris. Direção de arte/cenários: Syd Cain. Produção: Alfred Hitchcock. Elenco: Jon Finch, Barry Foster, Barbara Leigh-Hunt. Estreia: 19/5/72

Penúltimo filme do mestre do suspense e seu retorno à Inglaterra natal, "Frenesi" é uma espécie de sumário das maiores obsessões de Alfred Hitchcock. Em pouco menos de duas horas, o cineasta convida o espectador a mergulhar em uma narrativa que mescla dois pontos focais essenciais à sua obra: as angústias de um inocente acusado por algo que não cometeu e a trajetória errática do verdadeiro criminoso, que engana todos à sua volta mas tem seu caminho iluminado pela câmera ora elegante, ora sufocante do diretor de fotografia Gil Taylor. Baseado no romance "Goodbye Piccadilly, Farewell Leicester Square, de Arthur La Ber,o 52º título da carreira de Hitchcock também apresenta, à sua maneira sombria e mórbida, uma homenagem à Londres de sua infância - mais precisamente o bairro de Convent Garden, com sua mixórdia de sons, transeuntes e memórias afetivas. Nada mais apropriado ao homem que viveu de deixar o público grudado na poltrona do que jogar luz no cenário de seus dias inocentes utilizando-o como palco de uma série de assassinatos brutais.

Deixando de lado o glamour que frequentemente envolvia seus filmes - cortesia normalmente de suas famosas loiras Grace Kelly, Ingrid Bergman e Tippi Hedren -, em Frenesi o cineasta britânico vira seu foco para uma série de personagens comuns e desprovidos de quaisquer qualidades extremas. Nada do ar torturado de Henry Fonda em "O homem errado" ou da elegância de Cary Grant em "Intriga internacional": o Richard Blaney interpretado por Jon Finch não busca a compaixão do público por ser bonito ou até mesmo simpático (problema da falta de carisma de Finch ou escolha deliberada de Hitchcock? Nunca saberemos ao certo). O assassino Bob Rusk (em papel oferecido a Michael Caine) tampouco tem o ar sedutor de um Norman Bates: nas mãos do ator Barry Foster, é um criminoso frio e atroz, sem nenhuma possibilidade de redenção ou empatia. Hitchcock não faz uso de sua capacidade espetacular de manipulação dramática em boa parte de sua narrativa, preferindo contar a história de forma quase fria e documental. O público torce que a verdade surja e liberte Blaney não porque ele é um galã de cinema ou porque é um ser humano exemplar, mas porque é inocente e ponto final. Da mesma forma, se Rusk demonstra ser desprezível ao trair o melhor amigo não é por esse motivo (pelo menos não apenas por ele) que o espectador deseja sua ruína: o que lhe faz ainda menos merecedor de solidariedade é o fato de estuprar e matar mulheres com a mesma frieza com que oferece uvas no mercado público.


Em "Frenesi", Hitchcok abdica de boa parte dos artifícios que o consagraram como mestre de seu ofício - não à toa seus colaboradores habituais não estão nos créditos -, mas mesmo assim não abre mão de exercitar um humor de que somente ele era capaz. Talvez na melhor sequência do filme, ele joga seu vilão em um caminhão de batatas, junto ao cadáver de sua última vítima, que tem em sua propriedade um objeto que pode lhe incriminar. Em longos minutos de silêncio, o cineasta demonstra um impecável senso de ritmo e concisão - e ainda consegue fazer com que a plateia torça (provavelmente inconscientemente) pelo sucesso do assassino, esquecendo, por alguns instantes, que ele foi capaz não apenas de colecionar uma série de mulheres mortas por estrangulamento como também de colocar a polícia atrás daquele que o considera seu amigo mais leal. Até que volte ao normal e relembre que Bob Rusk é vil, cruel e traiçoeiro, o público fica de respiração suspensa com a possibilidade de que ele seja descoberto. Ironias de que Hitchcock é professor!

Recebido entusiasticamente no Festival de Cannes de 1972 mas raramente lembrado como um dos destaques da carreira de Alfred Hitchcock - ainda que o prestigiado crítico Roger Ebert o tenha elogiado apaixonadamente em sua estreia -, "Frenesi" não agradou ao autor do romance que lhe deu origem (que foi relançado com o nome do filme para aproveitar o momento), foi taxado de misógino e até mesmo a filha do diretor o considerou tão perturbador que proibiu seus filhos de o assistirem por muitos anos. Mas é, provavelmente, o filme que melhor encerra a trajetória do cineasta em termos de cânone. Apresenta uma trama envolvente, personagens amorais, humor sombrio, sequências eletrizantes e uma técnica invejável - elementos nem todos presentes em seu derradeiro trabalho, "Trama macabra". Mesmo longe de seu auge criativo e furor narrativo, Hitch ainda ofereceu a seus fãs uma obra digna de figurar em sua vencedora filmografia.

quarta-feira

A PRIMEIRA NOITE DE TRANQUILIDADE


A PRIMEIRA NOITE DE TRANQUILIDADE (La prima notte di quete, 1972, Mondial Televisione Film/Adel Productions/Valoria Films, 132min) Direção: Valerio Zurlini. Roteiro: Valerio Zurlini Enrico Medioli, estória de Valerio Zurlini. Fotografia: Dario Di Palma. Montagem: Mario Morra. Música: Mario Nascimbene. Figurino: Luca Sabatelli. Direção de arte/cenários: Enrico Tovaglieri/Franco Gambarana. Elenco: Alain Delon, Sonia Petrova, Giancarlo Giannini, Renato Salvatori, Alida Valli, Salvo Randone, Lea Massari, Patrizia  Adiutori. Estreia: 18/10/72

Dentre os cineastas italianos celebrados nas décadas de 1960 e 1970, o nome do italiano Valerio Zurlini frequentemente é lembrado com o respeito reservado a Fellini, Bertolucci, Antonioni e Rosselini. Dono de um estilo discreto, que valorizava o visual em comunhão com um tom existencialista, Zurlini chegou a ganhar um prêmio no Festival de Veneza (em 1962, pelo filme “Dois destinos”, estrelado por Marcello Mastroianni e Jacques Perrin), mas sua obra mais conhecida – e ainda assim por uma parcela do público que nem de longe faz jus à sua qualidade dramática – é “A primeira noite de tranquilidade”. Lançado em 1972 como capítulo final da chamada Trilogia do Amor – que conta também com “Verão violento” (1959) e “A moça com a valise” (1961) -, o drama romântico estrelado por Alain Delon deixa claro ao espectador porque Zurlini era considerado o poeta da melancolia e da desilusão amorosa.

Delon, em uma das melhores atuações de sua carreira, vive Daniele Dominici, professor de Literatura que chega à pequena cidade de Rimini para substituir um colega de licença. Entediado com a rotina modorrenta do local – e com a falta generalizada de interesse por parte de seus alunos -, o novo professor se junta a um grupo que diminui as frustrações da vida com jogatina, festas em boates e bebedeiras. Sua vida, perdida em um cotidiano sem expectativas – e dividida com a esposa depressiva, com quem mantém um relacionamento puramente de aparências – sofre um baque quando ele percebe estar irremediavelmente atraído por Vanina (Sonia Petrova), uma bela e misteriosa aluna, namorada de um jovem milionário da cidade, que usa de seu poder econômico para humilhá-la sempre que possível. Apaixonado pela sensibilidade de Vanina e soterrado pela tristeza que o acompanha e sublinha a atmosfera melancólica de Rimini, Daniele vislumbra a possibilidade de finalmente encontrar um caminho que fuja da dor de sua existência. Porém, o que o atrai em Vanina é justamente o que pode lhes separar: uma visão pessimista da vida e a força avassaladora da realidade.

  

O inteligente roteiro de ”A primeira noite de tranquilidade” não se contenta apenas em contar uma história de amor ameaçada pela sensação de derrota: Zurlini espalha por seu filme referências literárias e artísticas que elevam sua produção a um nível intelectual acima da média. Através de conversas aparentemente banais, o público pode reconhecer citações de Stendhal, D.H. Lawrence, Dante, Shakespeare e Goethe (autor do poema que dá origem ao título original do filme) e o cineasta não hesita em utilizar-se de escultura renascentistas para ilustrar passagens de extrema beleza – até mesmo como metáfora das aspirações puras e utópicas de seus personagens. O estilo literário do cineasta fica bastante patente, da mesma forma, em sua opção de oferecer a seus atores longos diálogos, que contrastam com o ritmo veloz do cinema que entrava em voga nos anos 1970. Seus personagens se movem lentamente rumo à um destino que já julgam traçados anteriormente, e a edição não apressa sua jornada – pelo contrário, parece apenas contemplar, com olhos de ressaca, uma tragédia anunciada.

Relegado a um injusto segundo plano na história do cinema italiano – ao menos em termos de popularidade -, Valerio Zurlini transmite, em seu “A primeira noite de tranquilidade” um senso de inevitabilidade do destino que exala de cada cena, de cada diálogo, de cada personagem. A fascinante sequência em uma boate, em que Daniele e Vanina se encaram apaixonados, alheios ao caos à sua volta, talvez seja o melhor exemplo de seu estilo sensível e contundente: ao som da bela “Domani è un altro giorno”, na voz de Ornella Vanoni, seus protagonistas experimentam um momento de paz antes da tormenta – e convidam o espectador a juntar-se a eles em um mergulho triste e melancólico rumo à noite em que finalmente se pode dormir sem sonhar. “A primeira noite de tranquilidade” é uma pérola escondida no meio de dezenas de prouções europeias de seu tempo. Vale a pena procurá-la.

sábado

TUDO O QUE VOCÊ SEMPRE QUIS SABER SOBRE SEXO E TINHA MEDO DE PERGUNTAR

TUDO O QUE VOCÊ SEMPRE QUIS SABER SOBRE SEXO E TINHA MEDO DE PERGUNTAR (Everything you always wanted to know about sex * but were afraid to ask, 1972, United Artists, 88min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, livro de David Reuben. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: Eric Albertson. Música: Mundell Lowe. Direção de arte/cenários: Dale Hennesy/Marvin March. Produção executiva: Jack Brodsky, Elliot Gould. Produção: Charles H. Joffe. Elenco: Woody Allen, Gene Wilder, Burt Reynolds, Lynn Redgrave, Louise Lasser, John Carradine. Estreia: 06/8/72

Uma noite, enquanto assistia a uma reprise do programa de televisão "The Tonight Show Starring Johnny Carson", Woody Allen viu o médico David Reuben responder a uma pergunta do jornalista com uma piada sua, dizendo que sexo só era sujo quando feito da maneira certa. Um tanto indignado com a falta de crédito pela brincadeira, Allen teve, então, uma ideia que era um misto de vingança divertida e uma forma de dar continuidade à sua então ainda incipiente carreira no cinema: utilizar o livro de Reuben - com o prepotente título "Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo e tinha medo de perguntar" - como base para uma série de esquetes cômicos a respeito do assunto. Comprando os direitos da publicação, que estavam em poder da Paramount Pictures e do ator Elliot Gould (que ficou com o crédito de produtor executivo), Allen resolveu usar apenas o título do livro e de alguns capítulos e criar livremente sobre um tema extremamente popular, o que lhe rendeu um de seus maiores sucessos de público nos anos 70 - e logicamente desagradou ao doutor Reuben.

Se em seus filmes anteriores Allen ainda criava uma linha dramática - ainda que tênue - para contar suas piadas, em "Tudo o que você..." ele se livra de vez das amarras da narrativa tradicional para assumir sem medo seu objetivo de fazer rir descompromissadamente, sem preocupar-se em contar uma história com início, meio e fim (o que, de certa forma, deixava seus primeiros trabalhos um tanto irregulares). Sendo assim, ele convida a plateia a adentrar em um mundo surreal, que visita a Idade Média, o cinema existencialista italiano dos anos 60, a ficção científica de terror e os programas de entretenimento da televisão. Sem medo de brincar com tabus - homossexualidade, zoofilia, frigidez - o diretor/ator/roteirista pela primeira vez demonstra cuidado com outros aspectos da realização cinematográfica, como fotografia e edição, o que acabaria por refletir-se em seus filmes seguintes e lhe daria um Oscar em 1977 por "Noivo neurótico, noiva nervosa".


O filme começa com "Afrodisíacos funcionam?", segmento em que Allen interpreta um bobo-da-corte que, seguindo a orientação do fantasma de seu pai assassinado (citação explícita de "Hamlet"), resolve seduzir a Rainha (Lynn Redgrave) através de uma bebida afrodisíaca - e acaba esbarrando em um inesperado problema logístico que pode lhe custar a vida. Em seguida, é a vez de "O que é sodomia?", a surreal história de amor entre um médico, Doug Ross (Gene Wilder, brilhante), e uma ovelha - talvez o mais absurdo e engraçado dentre todos os pequenos contos. A terceira história é "Por que algumas mulheres não conseguem atingir o orgasmo?", homenagem de Allen ao cinema existencial de Michelangelo Antonioni, com ângulos criativos e um clima de densidade psicológica quebrada apenas pelo tom cômico impresso nos problemas conjugais entre um jovem casal (o diretor e sua ex-mulher Louise Lasser) que enfrentam a dificuldade da esposa em ter prazer em suas relações sexuais até finalmente descobrir a causa de tal questão. Logo depois, vem o bizarro "Travestis são homossexuais?", em que um pai de família tradicional e respeitável tem seu segredo (vestir-se de mulher às escondidas) revelado da maneira mais desagradável possível.

O filme segue com "O que são pervertidos sexuais?", em que Allen critica contundentemente os programas sensacionalistas de tv, retratando uma atração onde convidados tentam adivinhar a tara de pessoas alheias - e aqueles premiados tem seus desejos atendidos ao vivo. "Os experimentos dos médicos que fazem pesquisas sexuais são precisos?" mergulha o público em uma brincadeira com filmes de ficção científica trash ao contar as desventuras do pesquisador Victor Shakapopoulus (Allen) e da jornalista Helen Lacey (Heather Macrae) quando percebem que o famoso Dr. Bernardo (John Carradine), célebre por suas experiências na área da sexualidade, está criando um gigantesco seio que passa a aterrorizar uma pequena cidade local. Finalizando, "O que acontece na ejaculação" - curta que abriria o filme mas que foi deixado para o desfecho graças a vários conselhos que o consideravam o melhor segmento - mostra, de forma irônica, o funcionamento do organismo de um homem prestes a manter relações sexuais, desde o cérebro até seus espermatozoides, focalizando em um específico (também vivido pelo diretor), temeroso de seu destino fora do corpo. É um episódio genial, desde sua concepção até sua realização, divertida e inteligente, com a participação especial de Burt Reynolds.

No final das contas, "Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo e tinha medo de perguntar" é um dos mais bem-acabados filmes do início da carreira cinematográfica de Woody Allen. Equilibrando diálogos ágeis e espertos com a utilização competente das ferramentas do cinema, Allen deu um grande passo à frente, conquistando uma bilheteria razoável e o poder de realizar algumas de suas obras seminais da década de 70, que viriam logo após e o confirmariam como um dos mais importantes nomes de Hollywood. Mesmo com duas histórias fora do conjunto final - uma a respeito de masturbação, passada no período bíblico e outra sobre homossexualidade estrelada por um casal de aranhas - é uma comédia acima da média, que faz rir de um tema considerado complicado sem apelar para a baixaria ou a vulgaridade. Um clássico!

CABARET

CABARET (Cabaret, 1972, Allied Artists Pictures/ABC Pictures, 124min) Direção: Bob Fosse. Roteiro: Jay Allen, estórias de Christopher Isherwood, musical de Joe Masteroff, John Van Druten. Fotografia: Geoffrey Unsworth. Montagem: David Bretherton. Música: John Kander. Figurino: Charlotte Flemming. Direção de arte/cenários: Rolf Zehetbauer/Jurgen Kiebach. Produção: Cy Feuer. Elenco: Liza Minnelli, Michael York, Joel Grey, Marisa Berenson, Helmut Griem, Fritz Wepper. Estreia: 13/02/72

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Bob Fosse), Atriz (Liza Minnelli), Ator Coadjuvante (Joel Grey), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 8 Oscar: Diretor (Bob Fosse), Atriz (Liza Minnelli), Ator Coadjuvante (Joel Grey), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globe: Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Liza Minnelli), Ator Coadjuvante (Joel Grey)

Pode uma obra ser indicada a 10 estatuetas do Oscar elevar oito delas sem ficar justamente com a mais importante, a de melhor filme? Sim, especialmente se concorrer diretamente com a saga da família Corleone. Foi isso que aconteceu na cerimônia de 1973, quando a transposição para o cinema de "Cabaret", famoso e consagrado musical da Broadway viu suas esperanças de sair com todas as suas indicações convertidas em prêmios acabarem com a vitória de "O poderoso chefão" como melhor filme, ator e roteiro adaptado (a outra categoria em que tinha chances). Hoje em dia talvez seja inadmissível que a obra-prima de Francis Ford Coppola não tenha sido campeã também em número de Oscar, mas basta apenas uma sessão do filme de Bob Fosse para que se perceba que, a despeito da qualidade inimitável da primeira parte da história de Michael Corleone, "Cabaret" é realmente um grande filme, uma obra de arte que mistura com poesia sátira política, liberdade sexual, música e uma forte crítica social à decadente Alemanha pré-II Guerra. Não é pouco para um musical aparentemente inocente.

A trama se passa na Berlim de 1931, onde chega o estudante inglês Brian Roberts (Michael York) para terminar seus estudos. Ele se hospeda na mesma pensão onde mora a americana Sally Bowles (Liza Minnelli), uma das atrações do cabaret Kit Kat Club, uma casa noturna decadente cujo palco é liderado por um sinistro Mestre de Cerimônias (Joel Grey, defendendo na tela o mesmo papel que o havia consagrado nos palcos, nos anos 60). Alegre e despachada - e com muitos sonhos de vencer na vida - Sally torna-se a referência de Brian na Alemanha prestes a mergulhar no nazismo. Sua relação torna-se ainda mais próxima quando ambos se descobrem interessados no mesmo homem, o milionário Barão Maximiliam von Heune, que os acena com uma vida de prazeres luxuosos. Enquanto o triângulo nem tão amoroso assim se desenvolve, uma outra história de amor, verdadeira, acontece sob a sombra do nacionalismo de Hitler e envolve dois alunos de Brian, a judia Natalia Landauer (Marisa Berenson) e o católico Fritz Wendel, que esconde um segredo que pode modificar suas vidas.


Equilibrando números musicais fascinantes que, ao invés de atrapalhar o desenvolvimento da história, a ajuda com comentários irônicos e/ou informativos, Bob Fosse mostrou que sabia como ninguém construir uma narrativa criada para os vastos palcos da Broadway em formato de cinema, provando-se à altura do compromisso de dirigir um filme recusado por Gene Kelly e Billy Wilder. Coreógrafo experiente e dono de um olhar extremamente crítico e sagaz, ele ousa contar sua história sem nenhum tipo de julgamento moral, limitando-se a, no máximo, deixar que a música fale por ele. E ela é excepcional. Apesar de apenas cinco números do espetáculo terem sobrevivido na versão para as telas, a trilha sonora de "Cabaret" é envolvente e contagiante, com algumas canções já tornadas clássicas ("Money, money" e a música-título, em especial) interpretadas com verve e dinamismo por Joel Grey - que ganhou o Oscar mesmo disputando com três atores de "O poderoso chefão" - e Liza Minnelli, merecida vencedora do Oscar de melhor atriz. Filha de Judy Garland e do cineasta Vincent Minnelli, Liza é, até hoje, a única oscarizada da história a ter os dois pais também premiados pela Academia. Mas, como ela mesma declarou ao receber a estatueta, os méritos são realmente dela.

Na pele de Sally Bowles, Liza consegue ser transgressora, delicada, romântica, cínica e engraçada, além de cantar e dançar com uma desenvoltura raras. Não foi à toa que o escritor Christopher Isherwood - que criou a personagem em um conto - declarou que a única falha da atriz na sua composição foi fazer de Bowles uma artista tão talentosa, uma vez que a original era apenas medíocre. Na tela, Minnelli é uma explosão de talento, conquistando a plateia com seu humor particular, suas idiossincrasias e especialmente sua carência de amor, explicitadas em sua relação com Brian. As cenas em que ambos são obrigados a tomar decisões cruciais para seu futuro são de partir o coração, e até nesses momentos fica claro o cuidado de Fosse em não se deixar cair no piegas. Assim como não há excessos no humor do roteiro também não o há no drama. Esse perfeito equilíbrio - que ainda encontra espaço para comentar discretamente a situação política da Alemanha e sua iminente transformação em inimiga do mundo - é que dá a "Cabaret" sua aura de eterno.

segunda-feira

O ÚLTIMO TANGO EM PARIS

O ÚLTIMO TANGO EM PARIS (Ultimo tango a Parigi, 1972, United Artists, 136min) Direção: Bernardo Bertolucci. Roteiro: Franco Arcalli, Bernardo Bertolucci, ideia de Bernardo Bertolucci. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Franco Arcalli, Roberto Perpignani. Música: Gato Barbieri. Figurino: Gitt Magrini. Direção de arte/cenários: Philippe Turlure. Produção: Alberto Grimaldi. Elenco: Marlon Brando, Maria Schneider, Jean-Pierre Léaud. Estreia: 14/10/72

2 indicações ao Oscar: Diretor (Bernardo Bertolucci), Ator (Marlon Brando)

Como um filme idealizado como uma história de amor e obessão entre um casal homossexual e posteriormente alterado para um casal hetero, repleto de cenas de sexo cruas e quase desagradáveis e com um roteiro composto por alguns diálogos francamente pobres pode ter se transformado em um dos mais famosos filmes da história do cinema? A resposta é uma só: Marlon Brando. Um dos atores mais admirados de sua geração, Brando deu ao polêmico filme de Bernardo Bertolucci uma aura de arte que, não fosse por sua propalada presença, ele jamais teria. Violentamente atacado pela Igreja e por censores de toda a parte do mundo - inclusive do Brasil, onde foi manteve-se proibido por vários anos - como "pornográfico", "O último tango em Paris" também foi a bandeira levantada por todos que lutavam por liberdade de expressão nos difíceis anos 70. Uma pena, porém, que a luta tivesse uma bandeira tão chamativa mas ao mesmo tempo tão oca. Chocante o filme é, mas pelas razões erradas.

Dizer que o "O último tango em Paris" é pornográfico é exagero. Qualquer um que já tenha assistido a uma produção de sexo explícito sabe que as pretensas cenas quentes do filme de Bertolucci são quase pudicas. Tirando o fato de apresentar inúmeras sequências de nudez frontal de Schneider e os diálogos fortes não há nada de muito transgressor ou excitante - talvez a ideia de um encontro sexual anônimo em um apartamento vazio, mas só. A famigerada "cena da manteiga" ou o momento em que Paul - personagem de Brando - pede à amante que lhe enfie o dedo no ânus não são capazes de habitar os sonhos lúbricos de quem quer que seja, servindo apenas para reiterar o nível de degradação crescente dos personagens que, aliás, nunca ultrapassam o nível de superficialidade psicológica, ao contrário das centenas de admiradores.


Assim como Adrian Lyne fez 14 anos depois com seu "9 1/2 semanas de amor", Bertolucci não oferece a seu público maiores informações sobre seus protagonistas: sobre Paul, sabe-se apenas que é um americano quarentão que é proprietário de um hotel decadente e que acaba de ficar viúvo, depois do suicídio da mulher. A respeito de Jeanne o que se depreende é que ela é uma jovem em busca de um apartamento para morar com o namorado, o cineasta Tom (Jean-Pierre Léaud, o ator-fetiche de François Truffaut encarnando um diretor da nouvelle vague com os mesmos cacoetes de seu descobridor, na melhor sacada do filme). Os dois, Paul e Jeanne, se encontram fortuitamente em um apartamento para alugar e, sem maiores motivos do que simplesmente um tesão instantâneo e irrefreável, iniciam um relacionamento tórrido e desprovido de quaisquer outras intenções. Sem conhecimento de nada sobre a vida um do outro, eles passam a se encontrar regularmente.

E é só isso. Bertolucci conta com uma fotografia inspirada de Vittorio Storaro - influenciada pela obra de Francis Bacon - para ilustrar suas ideias, mas justamente o que falta são ideias. Brando, que improvisou boa parte de suas falas, fica zanzando pelos cenários declamando textos desconexos - que os babadores de ovo profissionais consideraram profundos e densos - quando não simplesmente ofensivos. À Schneider - atriz sem grande carisma que teve uma carreira irregular e não teve a sorte de cair nas graças da crítica - resta ser eclipsada pela atuação de seu célebre colega de cena, que desfila a interminável fila de vícios adquiridos no Actor's Studio como forma de disfarçar o fato de que seu personagem é desagradável e chato com seus discursos onde tenta desconstruir o amor, a família, a Igreja e todo e qualquer pilar da civilização organizada.

É engraçado perceber como os fãs de "O último tango em Paris" conseguem encontrar desculpas esfarrapadas até mesmo para seus erros técnicos - a equipe do filme refletida no vidro de um prédio, por exemplo, significa "mais um elemento de inquietação subliminar". É difícil assumir que - excetuando-se o fato de sua importância transgressora em uma época de sufocante opressão - o filme de Bertolucci não tem muito mais onde se apoiar a não ser em sua aura de escândalo. É importante? Talvez. Mas é bom? Apenas quando se tende a gostar do que foi convencionado chamar de "filme de arte".

quinta-feira

AMARGO PESADELO


AMARGO PESADELO (Deliverance, 1972, Warner Bros, 110min) Direção: John Boorman. Roteiro: James Dickey, baseado em seu romance homônimo. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Tom Priestly. Casting: Lynn Stalmaster. Produção: John Boorman. Elenco: Burt Reynolds, Jon Voight, Ned Beatty, Ronny Cox, Bill McKinney, Herbert "Cowboy" Coward. Estreia: 30/7/72

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Boorman), Montagem

Existe uma corrente de pensamento que afirma que a natureza, quando desafiada, é capaz de punições devastadoras. Exemplos de terremotos, maremotos e afins não faltam para, de certa forma, confirmar a teoria. No entanto, o castigo da natureza pode vir de forma menos escandalosa, como mostra "Amargo pesadelo", adaptação do romance de James Dickey que chegou aos cinemas em 1972 dirigido pelo inglês John Boorman. Ao confrontar quatro homens urbanos e auto-suficientes com um caudaloso rio repleto de corredeiras, uma mata pouco amistosa e montanheses sádicos, Dickey e Boorman criaram um dos filmes mais ousados do início da década de 70, repleto de uma violência física e psicológica quase impensável mesmo para os dias de hoje, com a plateia já anestesiada com a dieta sanguinária dos filmes de ação pós-Schwarzenegger. Mais do que simplesmente um filme violento, "Amargo pesadelo" é assustadoramente real e é isso que o torna tão especial a ponto de receber indicações ao Oscar de Melhor Filme e Diretor (para seu azar, justamente no mesmo ano de "O poderoso chefão" e "Cabaret").

Talvez o maior mérito do roteiro de "Amargo..." seja ter conseguido criar personagens verossímeis envolvidos em uma trama quase surreal: quatro amigos da cidade grande resolvem tirar um fim-de-semana longe das famílias e do agito da metrópole para contemplar a natureza. Seu objetivo, na verdade, é desafiar as violentas corredeiras de um rio que está em vias de ser transformado em lago devido à construção de uma represa. Liderados por Lewis (Burt Reynolds em papel recusado por Charlton Heston e Henry Fonda), eles desejam usufruir da bucólica paisagem antes de voltar às suas corridas rotinas. As coisas começam a sair do normal quando dois integrantes do grupo, Ed (Jon Voight) e Bobby (Ned Beatty) são atacados por dois truculentos montanheses. Amarrado em uma árvore, Ed presencia Bobby sendo estuprado por um dos criminosos, mas escapa de ser também abusado quando Lewis mata um dos agressores com uma flechada. É o início de uma angustiante jornada em direção ao desespero.


Depois que a tragédia começa, a natureza, que antes servia como paisagem e um perfeito exemplo de tranquilidade e paz, transforma-se, também ela, em uma vilã. Presos em um lugar que não conhecem, os amigos precisam decidir como agir com o cadáver de um homem em suas mãos e a ameaça de outro a suas costas. Dissonante do resto do grupo, que prefere esconder o corpo da vítima de Lewis, o último viajante, Drew (Ronny Cox) entra em conflito com eles, complicando ainda mais as coisas.

John Boorman não poupa ninguém em seu filme mais famoso e que quase lhe deu um Oscar. Apesar de ter pego mais leve do que no livro, ele explicita cenas que são chocantes e desagradáveis sem ter medo de afastar seu público. Quando, no terço final do filme, o desajeitado Ed assume a liderança da travessia, Boorman leva a plateia junto em sua desesperada luta pela sobrevivência e sanidade física, e para isso, conta com um elenco exemplar.

Apesar de Lee Marvin e Marlon Brando terem sido cotados para os papéis centrais, Burt Reynolds e Jon Voight apropriam-se das personagens com desenvoltura e inteligência. Logo em seguida Reynolds transformaria-se em êxito de bilheteria com filmes mais leves de aventura, enquanto Voight seguiria firme rumo à credibilidade artística que culminaria com um Oscar seis anos depois, por "Amargo regresso".

Lembrado por sua famosa cena onde Drew participa de um duelo de banjos com um caipira com problemas mentais, "Amargo pesadelo" tem um título nacional bastante apropriado. Se Kafka fosse escrever um romance passado junto à natureza, certamente seria como este.

quarta-feira

O PODEROSO CHEFÃO


O PODEROSO CHEFÃO (The godfather, 1972, Paramount
Pictures, 175min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo, baseado no romance de Mario Puzo. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: William Reynolds, Peter Zinner. Música: Nino Rota. Figurino: Anna Hill Johnstone. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Philip Smith. Casting: Louis DiGiaimo, Andrea Eastman, Fred Roos. Produção: Albert S. Ruddy. Elenco: Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall, Diane Keaton, John Cazale, Richard Castelano, Talia Shire, Sterling Hayden, John Marley, Al Lettieri, Abe Vigoda, Gianni Russo, Morgana King, Simonetta Stefanelli. Estreia: 24/3/72


11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator (Marlon Brando), Ator Coadjuvante (James Caan, Robert Duvall, Al Pacino), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Som
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Ator (Marlon Brando), Roteiro Adaptado
Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator/Drama (Marlon Brando), Roteiro, Trilha Sonora


Quantas vezes é preciso que um filme seja assistido para que deixe de hipnotizar sua audiência ou mesmo perca seu sabor de novidade? Se o filme em questão for "O poderoso chefão" ainda não existe uma resposta satisfatória a essa questão. Mesmo passados 38 anos de seu lançamento, a adaptação de Francis Ford Coppola para o livro de Mario Puzo ainda mantém intactos seu vigor, sua inteligência e sua aura de obra-prima absoluta. Um dos melhores filmes da história do cinema - se não O melhor - o início da saga da família Corleone é o mais perfeito exemplo de tudo que um filme deve ser para ficar marcado no inconsciente coletivo de forma indelével. Mas foi preciso muito esforço para que ele ficasse como é conhecido hoje em dia.

Não é novidade para ninguém a brava luta de Coppola para conseguir fazer com que a Paramount concordasse com as escalações de Marlon Brando como Vito Corleone - papel-chave na trama - e Al Pacino como Michael - o estúdio parecia querer qualquer um menos Pacino no papel do filho caçula do clã de mafiosos mais fascinante da história do cinema. Esse "qualquer um" incluía, entre outros, Warren Beatty, Jack Nicholson e Dustin Hoffman, além de James Caan, que ficou com o papel do filho mais passional de Don Corleone, Sonny. Toda a árdua batalha para Coppola finalmente fazer o filme do seu jeito está detalhada no disco de extras da exemplar edição comemorativa da saga, lançada em dvd, e, se por si só são interessantes o bastante para grudar o espectador no sofá de casa, servem apenas de aperitivo para o que realmente importa: a majestade do filme em si.


Pra quem ainda não sabe, "O poderoso chefão" começa em 1945, logo após o final da II Guerra Mundial. O jovem soldado Michael (Al Pacino no papel de sua vida) retorna à Nova York acompanhado da namorada, a professora Kay Adams (Diane Keaton), e chega a tempo do casamento de sua irmã caçula, Connie (Talia Shire, irmã do diretor) com o mau-caráter Carlo Rizzi (Gianni Russo). Sua chegada enche de alegria seu pai, Don Vito Corleone (um Marlon Brando com meros 47 anos e uma caracterização antológica), o chefão de uma das famílias mafiosas mais importantes da cidade. Quando Don Vito se recusa a juntar-se a outras famílias em negócios envolvendo drogas, acaba sofrendo um grave atentado que quase lhe tira a vida. Mesmo não querendo envolver-se nos negócios escusos do pai e dos irmãos, Michael não hesita em assassinar seus rivais e fugir para a Itália, onde se casa com a bela Apolonia (Simonetta Stefanelli). Quando mais uma vez retorna a seu país e sua casa, percebe estarrecido que não há como escapar da sina violenta de seu sangue, e assume a liderança dos Corleone.

Escolher a melhor cena de "O poderoso chefão" é tarefa ingrata e impossível. Coppola construiu seu filme como uma ópera grandiosa, grandiloquente, recheada de momentos de extrema violência ao lado de cenas dramaticamente estruturadas e interpretadas por um elenco onde ninguém está menos do que espetacular (não foi por acaso que 3 de seus coadjuvantes foram indicados ao Oscar). A fotografia escura de Gordon Willis (outro item questionado pelos executivos do estúdio durante as filmagens) expressa com maestria as ideias do roteiro, escrito a quatro mãos pelo diretor e pelo autor do romance em que baseia, Mario Puzo. A edição enxuta nunca deixa que se perceba que se trata de um épico de três horas de duração - que voam diante dos olhos incrédulos da plateia. A trilha sonora de Nino Rota é de uma pungência indescritível e até mesmo o glamour que o filme transmite - e que foi alvo de algumas críticas que não tinham do que reclamar da obra como um todo - tem um charme e um poder que muitos cineastas de hoje em dia dariam um braço para conseguir.

Qualquer coisa que se diga sobre "O poderoso chefão" é desnecessário. Inesquecível na pele de Don Corleone - que lhe deu o segundo Oscar, recusado através de uma índia mais falsa que nota de três dólares -, Marlon Brando é a cara dessa primeiro capítulo tão impecável que exigiu dois novos capítulos, em 1974 e 1990. A saga da família Corleone é mais do que simplesmente um filme de gângster. É o filme que mais se aproxima da perfeição em termos cinematográficos, e o culto a seu nome - por parte da crítica e do público - apenas confirma suas inumeráveis qualidades.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...