A GAROTA DO ADEUS (The goodbye girl, 1977, Warner Bros/MGM Pictures, 111min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Neil Simon. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: John F. Burnett. Música: Dave Grusin. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Jerry Wunderlich. Produção: Ray Stark. Elenco: Richard Dreyfuss, Marsha Mason, Quinn Cummings, Paul Benedict, Barbara Rhoades. Estreia: 27/11/77
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Richard Dreyfuss), Atriz (Marsha Mason), Atriz Coadjuvante (Quinn Cummings), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Richard Dreyfuss)
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Comédia/Musical, Ator em Comédia/Musical (Richard Dreyfuss), Atriz em Comédia/Musical (Marsha Mason), Roteiro
Certamente o ano de 1977 significa um marco divisor na carreira de Richard Dreyfuss: não apenas ele estrelou o enorme sucesso de bilheteria "Contatos imediatos de terceiro grau" - dirigido por seu amigo Steven Spielberg - como esteve no topo do cartaz da primeira comédia romântica a chegar à marca de 100 milhões de dólares de bilheteria - e que, de quebra, lhe rendeu o Golden Globe e o Oscar de melhor ator na tenra idade de 30 anos de idade (um recorde que durou até 2003, quando Adrien Brody levou a estatueta para casa aos 29, por "O pianista"). Escrita pelo dramaturgo Neil Simon diretamente para o cinema - e reescrita em seis semanas depois que sua primeira tentativa de sair do papel falhou miseravelmente com a saída de Robert De Niro e Mike Nichols do projeto -, "A garota do adeus" é uma deliciosa história de amor, contada com sofisticação e o excepcional senso de ironia do autor, um dos mais consagrados nomes do teatro norte-americano. Indicado a cinco Oscar, incluindo melhor filme e roteiro original, é uma produção que mantém o frescor mesmo quarenta anos após seu lançamento - mérito principalmente do texto ágil, da direção precisa de Herbert Ross e da química rara entre seus protagonistas.
Inspirado, segundo consta, nos anos em que Dustin Hoffman (que esteve interessado no papel) lutava para vencer na carreira de ator, o roteiro de "A garota do adeus" sofreu profundas transformações entre o início de sua produção - com De Niro como astro e Nichols como diretor - até que finalmente chegasse às telas com Richard Dreyfuss e Marsha Mason no elenco e Herbert Ross na direção. Em uma situação rara na década de 70, seu estúdio, a Warner Bros, só concordou em levar o projeto adiante (depois da mudança da equipe) quando a MGM aceitou a proposta de dividir os custos do orçamento. Suas dúvidas em relação às possibilidades financeiras do filme tinham a ver com o fato de não haver nele um grande chamariz de bilheteria: apesar da presença de Dreyfuss no papel principal masculino (depois dos êxitos de "Tubarão" (75) e "Contatos imediatos" (77)), a produção não tinha as qualidades que estavam fazendo os grandes sucessos comerciais da época - a saber: efeitos visuais, campanhas agressivas de marketing, rostos consagrados e premiados. Mesmo quando o protagonista foi oferecido a Jack Nicholson e James Caan (ambos bastante populares), não havia, segundo o próprio Neil Simon, nada que fizesse crer que o filme fosse cair nas graças do grande público como, inesperadamente, aconteceu. Sucesso de bilheteria e crítica, "A garota do adeus" serviu como uma luva nos desejos da mesma plateia que havia lotado as salas de cinema meses antes com "Star Wars". A acolhida calorosa ao filme foi unânime - e o Oscar de melhor ator dado a Richard Dreyfuss foi apenas a cereja de um bolo muito saboroso.
Abraçado entusiasticamente também pelos eleitores do Golden Globe - que lhe deu as estatuetas de melhor filme, ator e atriz na subcategoria comédia/musical e roteiro -, "A garota do adeus" chegou ao Oscar com moral o suficiente para encarar de frente seus maiores (e mais poderosos) rivais, como o próprio "Star Wars", o grande vencedor do ano, "Noivo neurótico, noiva nervosa", e até mesmo um filme dirigido pelo mesmo Herbert Ross - "Momento de decisão", que apesar de chegar à cerimônia com pinta de favorito, saiu de mãos abanando. Concorreu a cinco prêmios - Ross foi indicado por "Momento de decisão", mas a pequena Quinn Cummings foi lembrada na categoria de atriz coadjuvante - e a vitória de Dreyfuss deixou para trás nomes como os de Richard Burton, Woody Allen e Marcello Mastroianni. Não deixa de ser justo, uma vez que sua presença carismática é um dos pontos altos do filme - a própria Marsha Mason reconhece que Elliot Garfield, o ator tentando um lugar ao sol enquanto lida com uma surpresa inesperada em seu caminho, é um personagem muito mais interessante do que sua Paula McFadden, uma dançarina divorciada que, após o fim de seu último relacionamento, herda um problema que transforma radicalmente sua vida.
O nome do problema de Paula é Elliot Garfield, e ele é um ator ambicioso que chega em Nova York para estrelar uma montagem moderna de "Ricardo III", de Shakespeare - uma montagem pouco ortodoxa e de gosto duvidoso. Assim que chega no apartamento que locou de um amigo, ele descobre que o lugar já está ocupado: a própria Paula fica chocada ao perceber que tem poucos dias para sair do imóvel - mas acaba fazendo um trato com o jovem intruso, que aos poucos começa a conquistar a amizade de sua filha e até mesmo seu coração, ainda que ela tenha jurado a si mesma nunca mais se envolver com outro ator. O romance hesitante entre os dois é atrapalhado também pelas inconstâncias da carreira de Elliot e as batalhas de Paula. Com essa estória simples e sem maiores novidades, Herber Ross cativa a plateia com simpatia, se amparando nos diálogos inteligentes e bem-humorados de Neil Simon e na química entre Dreyfuss, Mason e a pequena Quinn Cummings - sempre em vias de roubar a cena. Uma sessão da tarde descompromissada e muito acima da média, "A garota do adeus" é uma espécie de precursor das comédias românticas estreladas por Meg Ryan na década de 90 - com um gostinho de nostalgia que acrescenta ainda mais tempero à receita. Diversão garantida!
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade.
Mostrando postagens com marcador 1977. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1977. Mostrar todas as postagens
segunda-feira
domingo
UM DIA MUITO ESPECIAL
UM DIA MUITO ESPECIAL (Una giornata particolare, 1977, Compagnia
Cinematografica Champion, 106min) Direção: Ettore Scola. Roteiro: Ettore
Scola, Ruggero Maccari. Fotografia: Pasqualino De Santis. Montagem:
Raimondo Crociani. Música: Armando Trovaioli. Figurino: Enrico
Sabbatini. Direção de arte/cenários: Luciano Ricceri. Produção: Carlo
Ponti. Elenco: Marcello Mastroianni, Sophia Loren, John Vernon,
Françoise Berd. Estreia: 19/5/77 (Festival de Cannes)
2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Ator (Marcello Mastroianni)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro
Menos celebrado que Federico Fellini e menos polêmico que Pier Paolo Pasolini e menos radical que Roberto Rossellini, o cineasta Ettore Scola pode ser considerado o mais poético dentre os diretores que colocaram a Itália no mapa do cinema internacional a partir dos anos 40. Sem abrir mão da crítica social que marcou o neorrealismo e buscando sempre o enfoque humanista em suas histórias, Scola acabou por assinar alguns dos mais brilhantes filmes realizados na Europa a partir de sua estreia, em 1964, com "Fala-se de mulheres". Da lista de suas realizações mais respeitadas, fazem parte de sua obra produções como "Nós que nos amávamos tanto" (74), "Feios, sujos e malvados" (75), "Casanova e a Revolução" (82), "O baile" (83) e "A viagem do Capitão Tornado" (90). Por melhores que todos sejam, no entanto, poucos conseguiram atingir o equilíbrio perfeito entre o drama intimista e a preocupação histórica de "Um dia muito especial", que lhe deu o Golden Globe de melhor filme estrangeiro de 1977, uma indicação ao Oscar na mesma categoria (e de quebra uma para Marcello Mastroianni) e um César (o Oscar francês). Centrando seu foco em um par de protagonistas em dias iluminados, Scola faz de um prédio de apartamentos da classe operária da Roma de 1938, um microcosmo de seu país - e quiçá do mundo, prestes a entrar em uma sangrenta guerra.
Com uma estrutura teatral mas jamais cansativa ou verborrágica em excesso, "Um dia muito especial" se passa no dia em que Adolf Hitler chegou à Roma, com o objetivo de encontrar-se com o presidente de então, Benito Mussolini. A guerra ainda não era uma certeza, mas a sombra do nazismo já começava a se espalhar pela Europa. Um dos entusiastas das ideias do ditador alemão é Emanuele (John Vernon), que aproveita sua visita ao país para, junto com milhares de conterrâneos, saudá-lo nas ruas da capital. Emanuele é casado com a dona-de-casa Antonietta (Sophia Loren), que aproveita a ausência do marido e dos seis filhos para alguns momentos de solidão que é incapaz de manter em sua apressada rotina. O que poderia ser apenas um dia normal, porém, se revela bastante atípico quando ela vai parar no apartamento de um vizinho, Gabriele (Marcello Mastroianni), em busca de seu passarinho de estimação. Gabriele é um locutor de rádio intelectual e discreto que não demora a fazer amizade com a bela matriarca, com quem consegue, surpreendentemente, encontrar uma conexão emocional e profunda. A verdade é que a solitária e carente Antonietta sente-se atraída pelos modos educados e gentis de Gabriele, que tem motivos de sobra para estar precisando de um ombro amigo: homossexual, ele acaba de ser demitido e está esperando pelos guardas que irão levá-lo para um campo de prisioneiros.
Apresentando seus personagens e dramas aos poucos, com elegância e sutileza, Ettore Scola - também coautor do roteiro, ao lado de Ruggero Maccari - apresenta também, de forma inteligente, alguns outros moradores do edifício onde moram Antonietta e Gabriele, pessoas aparentemente comuns mas dotadas de uma mesquinharia atroz que explica, em boa parte, os rumos tomados pela Itália nos anos seguintes, quando o país aliou-se com a Alemanha. O cineasta não faz a menor questão de esconder sua simpatia pelos protagonistas, imbuindo-os de um certo tom de resiliência que imediatamente os coloca no patamar de heróis silenciosos. Antonietta encara a falta de sensibilidade do marido e dos filhos e não encontra tempo nem ao menos de ler um livro - sem falar na ausência absoluta de romantismo e cavalheirismo de seu relacionamento. Gabriele, por sua vez, está vendo sua vida ser completamente destruída pela arbitrariedade do preconceito em relação à sua orientação sexual. São dois seres perdidos, tristes e necessitados de compaixão e carinho, que se encontram em um período curto mas forte o bastante para fortalecer seu senso de sobrevivência em dias difíceis que virão.
Amparando-se basicamente no trabalho de extrema sensibilidade de seus atores - a indicação de Mastroianni ao Oscar não foi mera homenagem da Academia - e em seu texto conciso e delicado, Scola apresenta um trabalho que foge dos clichês românticos ou do tratamento dado pelo cinema à homossexualidade, tratando do assunto com respeito e naturalidade. O romance entre seus personagens - mais do que simplesmente físico ou emocional - é fruto de sua extrema necessidade de afeto e compreensão, não de desejos vulgares ou lascívia adolescente. Antonietta vê em Gabriele a antítese de seu marido brutal, quase cruel. Gabriele vê na vizinha uma válvula de escape, um bote salva-vidas que pode lhe fazer respirar antes da tragédia iminente que bate à sua porta. São personagens tristes, mas carregados de uma humanidade de que somente o cinema europeu - Scola à frente - é capaz de retratar sem apelar para sentimentalismos ou estilizações. Seu cinema fascina justamente por tratar de pessoas de carne e osso, com sentimentos à flor da pele, e "Um dia muito especial" talvez seja a síntese mais terna de sua filmografia. Um belo filme, valorizado pela fotografia árida de Pasqualino De Santis e por seus intérpretes espetaculares.
2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Ator (Marcello Mastroianni)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro
Menos celebrado que Federico Fellini e menos polêmico que Pier Paolo Pasolini e menos radical que Roberto Rossellini, o cineasta Ettore Scola pode ser considerado o mais poético dentre os diretores que colocaram a Itália no mapa do cinema internacional a partir dos anos 40. Sem abrir mão da crítica social que marcou o neorrealismo e buscando sempre o enfoque humanista em suas histórias, Scola acabou por assinar alguns dos mais brilhantes filmes realizados na Europa a partir de sua estreia, em 1964, com "Fala-se de mulheres". Da lista de suas realizações mais respeitadas, fazem parte de sua obra produções como "Nós que nos amávamos tanto" (74), "Feios, sujos e malvados" (75), "Casanova e a Revolução" (82), "O baile" (83) e "A viagem do Capitão Tornado" (90). Por melhores que todos sejam, no entanto, poucos conseguiram atingir o equilíbrio perfeito entre o drama intimista e a preocupação histórica de "Um dia muito especial", que lhe deu o Golden Globe de melhor filme estrangeiro de 1977, uma indicação ao Oscar na mesma categoria (e de quebra uma para Marcello Mastroianni) e um César (o Oscar francês). Centrando seu foco em um par de protagonistas em dias iluminados, Scola faz de um prédio de apartamentos da classe operária da Roma de 1938, um microcosmo de seu país - e quiçá do mundo, prestes a entrar em uma sangrenta guerra.
Com uma estrutura teatral mas jamais cansativa ou verborrágica em excesso, "Um dia muito especial" se passa no dia em que Adolf Hitler chegou à Roma, com o objetivo de encontrar-se com o presidente de então, Benito Mussolini. A guerra ainda não era uma certeza, mas a sombra do nazismo já começava a se espalhar pela Europa. Um dos entusiastas das ideias do ditador alemão é Emanuele (John Vernon), que aproveita sua visita ao país para, junto com milhares de conterrâneos, saudá-lo nas ruas da capital. Emanuele é casado com a dona-de-casa Antonietta (Sophia Loren), que aproveita a ausência do marido e dos seis filhos para alguns momentos de solidão que é incapaz de manter em sua apressada rotina. O que poderia ser apenas um dia normal, porém, se revela bastante atípico quando ela vai parar no apartamento de um vizinho, Gabriele (Marcello Mastroianni), em busca de seu passarinho de estimação. Gabriele é um locutor de rádio intelectual e discreto que não demora a fazer amizade com a bela matriarca, com quem consegue, surpreendentemente, encontrar uma conexão emocional e profunda. A verdade é que a solitária e carente Antonietta sente-se atraída pelos modos educados e gentis de Gabriele, que tem motivos de sobra para estar precisando de um ombro amigo: homossexual, ele acaba de ser demitido e está esperando pelos guardas que irão levá-lo para um campo de prisioneiros.
Apresentando seus personagens e dramas aos poucos, com elegância e sutileza, Ettore Scola - também coautor do roteiro, ao lado de Ruggero Maccari - apresenta também, de forma inteligente, alguns outros moradores do edifício onde moram Antonietta e Gabriele, pessoas aparentemente comuns mas dotadas de uma mesquinharia atroz que explica, em boa parte, os rumos tomados pela Itália nos anos seguintes, quando o país aliou-se com a Alemanha. O cineasta não faz a menor questão de esconder sua simpatia pelos protagonistas, imbuindo-os de um certo tom de resiliência que imediatamente os coloca no patamar de heróis silenciosos. Antonietta encara a falta de sensibilidade do marido e dos filhos e não encontra tempo nem ao menos de ler um livro - sem falar na ausência absoluta de romantismo e cavalheirismo de seu relacionamento. Gabriele, por sua vez, está vendo sua vida ser completamente destruída pela arbitrariedade do preconceito em relação à sua orientação sexual. São dois seres perdidos, tristes e necessitados de compaixão e carinho, que se encontram em um período curto mas forte o bastante para fortalecer seu senso de sobrevivência em dias difíceis que virão.
Amparando-se basicamente no trabalho de extrema sensibilidade de seus atores - a indicação de Mastroianni ao Oscar não foi mera homenagem da Academia - e em seu texto conciso e delicado, Scola apresenta um trabalho que foge dos clichês românticos ou do tratamento dado pelo cinema à homossexualidade, tratando do assunto com respeito e naturalidade. O romance entre seus personagens - mais do que simplesmente físico ou emocional - é fruto de sua extrema necessidade de afeto e compreensão, não de desejos vulgares ou lascívia adolescente. Antonietta vê em Gabriele a antítese de seu marido brutal, quase cruel. Gabriele vê na vizinha uma válvula de escape, um bote salva-vidas que pode lhe fazer respirar antes da tragédia iminente que bate à sua porta. São personagens tristes, mas carregados de uma humanidade de que somente o cinema europeu - Scola à frente - é capaz de retratar sem apelar para sentimentalismos ou estilizações. Seu cinema fascina justamente por tratar de pessoas de carne e osso, com sentimentos à flor da pele, e "Um dia muito especial" talvez seja a síntese mais terna de sua filmografia. Um belo filme, valorizado pela fotografia árida de Pasqualino De Santis e por seus intérpretes espetaculares.
sábado
NEW YORK, NEW YORK
NEW YORK, NEW YORK (New York, New York, 1977, United Artists, 155min)
Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Earl Mac Rauch, Mardik Martin,
estória de Earl Mac Rauch. Fotografia: Lászlo Kovács. Montagem: B.
Lovitt, David Ramirez, Tom Rolf. Figurino: Theadora Van Runkle. Direção
de arte/cenários: Boris Leven/Robert DeVestel, Ruby R. Levitt. Produção:
Robert Chartoff, Irwin Winkler. Elenco: Liza Minnelli, Robert De Niro,
Lionel Stander, Barry Primus, Mary Kay Place. Estreia: 21/6/77
No final dos anos 60 e início dos 70, um grupo de jovens cineastas - dentre os quais nomes que se tornariam consagrados, como Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg - invadiram Hollywood com um jeito novo de fazer cinema, moderno, arrojado e conectado aos anseios de um público também jovem e disposto a ver nas telas um retrato mais apurado de suas próprias vidas. Como detalhado no livro "Como a geração sexo, drogas e rock'n'roll salvou Hollywood: Easy Riders Raging Bulls", de Peter Biskind (Ed. Intrinseca, tradução de Ana Maria Bahiana), filmes como "Bonny & Clyde: uma rajada de balas" (68), de Arthur Penn, e "Sem destino" (67), de Dennis Hooper, deixaram para trás um estilo considerado ultrapassado pelas plateias adeptas da contracultura e abriram as portas para atores com menos glamour e mais talento para tipos comuns, como Al Pacino, Robert DeNiro e Dustin Hoffman. A velha Hollywood, com suas grandes produções, estúdios poderosos e astros maiores que a vida, estava morrendo e deixando espaço para a jovem guarda. Não deixou de ser um interessante paradoxo, no entanto, quando, em 1976, um dos mais destacados membros dessa nova realeza, Martin Scorsese, decidiu que seu novo filme - depois dos sucessos de crítica "Alice não mora mais aqui" (74) e "Taxi driver" (76) - não apenas homenagearia o modo "antigo" de fazer cinema como dialogaria com ele em termos visuais, dramáticos e temáticos. Um choque entre dois mundos aparentemente irreconciliáveis, "New York, New York" estreou no verão de 1977 sob uma saraivada de críticas negativas e saiu de cena com uma bilheteria tão decepcionante que empurrou seu diretor a uma depressão severa do qual só recuperou-se com o prestígio e os Oscar de "Touro indomável" (80). Mas, afinal de contas, tal fracasso foi merecido ou se faz necessária uma revisão, quarenta anos depois de seu lançamento?
Em primeiro lugar é preciso que se diga que Martin Scorsese é um cineasta de talento superlativo, capaz de transformar qualquer material em algo digno de ser filmado e assistido. Fã incondicional e assumido da velha Hollywood, além de um estudioso dedicado e protetor aguerrido de sua história, Scorsese assumiu sem medo o risco de recriá-la nas telas mesmo diante de um panorama cultural que seguia um caminho inverso. Sua ideia de recriar em estúdio uma Nova York dos anos 40 e contar uma história de amor através de um gênero em agonia - o musical - acabou se provando uma luta inglória. O excesso de estilização, tanto no visual quanto na atuação dos atores, não encontrou resposta junto ao público (que preferiu lotar os cinemas para assistir "Star Wars", de George Lucas) e confundiu a crítica. Nem todo mundo encontrou no filme do diretor as referências explícitas à era de ouro dos estúdios e, quem encontrou preferiu dar de ombros. Nem tudo funciona no filme. Porém, quando funciona, o curioso encontro entre duas gerações distintas - com o belo colorido da fotografia de Lászlo Kovács e a direção de arte milagrosa como moldura da trama central - é o perfeito exemplo do quão talentoso Scorsese é, ao regurgitar, com elegância e inteligência, todos os ingredientes que fizeram a fama de gente como Vincent Minnelli. A conexão entre "New York, New York" e Minnelli é tamanha que, em uma jogada quase metalinguística, Scorsese ofereceu o principal papel feminino do filme, o da talentosa Francine Evans, à filha do diretor com Judy Garland. Em uma interpretação que remete à de sua mãe no célebre "Nasce uma estrela", Liza Minelli - a essa altura já premiada com um Oscar que Garland nunca recebeu - é mais um elo de ligação entre o antigo e o moderno, entre o passado e o presente, entre o naturalismo anos 70 e a estilização dos anos 40. Liza está soberba, assim como seu parceiro de cena Robert DeNiro, mas é inegável que lhes falta o essencial em uma trama romântica: química.
Usando e abusando daquela que seria uma das maiores características de sua filmografia - a improvisação de seus atores - Martin Scorsese deixou nas mãos de seus editores um pesadelo em forma de celulóide. Ao contrário do que aconteceria depois em sua carreira, onde o improviso seria uma qualidade orgânica, em "New York, New York" tal orientação tornou-se um dos problemas mais graves do resultado final: com um roteiro apenas esboçado, o filme acaba muitas vezes ficando repetitivo, intercalando discussões intermináveis entre seus protagonistas com números musicais que emulam com categoria e sofisticação os maiores clássicos do gênero. Realizado nos mesmos estúdios da MGM onde Judy Garland reinou na década de 40, o filme de Scorsese contou com antigos colaboradores da atriz, o que certamente ajudou na ambientação e na caracterização da personagem, uma talentosa cantora que se envolve com um igualmente talentoso saxofonista e vê sua história de amor ameaçada pela competição e pelos altos e baixos da carreira. Minnelli exala carisma por toda a projeção e encontra em Robert DeNiro um parceiro à altura, mas, como o próprio cineasta reconhece, em nenhum momento existe a fagulha necessária para tornar suas cenas tão grandes como poderiam ser. Talvez culpa do exagero na estilização, talvez culpa da confiança demasiada na dupla de astros. O fato, porém, é que falta em "New York, New York" o toque de mestre de seu diretor, ainda relativamente iniciante.
Cortado em vários minutos para seu lançamento - de quatro horas para 153 minutos e depois para 136, sempre sem o sucesso esperado - "New York, New York" alcançou sua edição final com 163 minutos, com a sequência "Happy endings" (talvez a mais claramente inspirada no cinemão clássico americano) completa. É um filme que precisa ser apreciado mais por suas intenções do que exatamente por seu resultado final, irregular e desnecessariamente longo. Por mais que seja sempre um prazer ver DeNiro e Liza Minnelli em cena e que tenha lançado a clássica canção-título que ficou imortal na voz de Frank Sinatra, é um espetáculo que nem sempre atinge os tons desejados - mas que quando alcança, mostra o melhor de dois mundos do cinema hollywoodiano. Em outras palavras, um Scorsese menor ainda é um grande Scorsese.
No final dos anos 60 e início dos 70, um grupo de jovens cineastas - dentre os quais nomes que se tornariam consagrados, como Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg - invadiram Hollywood com um jeito novo de fazer cinema, moderno, arrojado e conectado aos anseios de um público também jovem e disposto a ver nas telas um retrato mais apurado de suas próprias vidas. Como detalhado no livro "Como a geração sexo, drogas e rock'n'roll salvou Hollywood: Easy Riders Raging Bulls", de Peter Biskind (Ed. Intrinseca, tradução de Ana Maria Bahiana), filmes como "Bonny & Clyde: uma rajada de balas" (68), de Arthur Penn, e "Sem destino" (67), de Dennis Hooper, deixaram para trás um estilo considerado ultrapassado pelas plateias adeptas da contracultura e abriram as portas para atores com menos glamour e mais talento para tipos comuns, como Al Pacino, Robert DeNiro e Dustin Hoffman. A velha Hollywood, com suas grandes produções, estúdios poderosos e astros maiores que a vida, estava morrendo e deixando espaço para a jovem guarda. Não deixou de ser um interessante paradoxo, no entanto, quando, em 1976, um dos mais destacados membros dessa nova realeza, Martin Scorsese, decidiu que seu novo filme - depois dos sucessos de crítica "Alice não mora mais aqui" (74) e "Taxi driver" (76) - não apenas homenagearia o modo "antigo" de fazer cinema como dialogaria com ele em termos visuais, dramáticos e temáticos. Um choque entre dois mundos aparentemente irreconciliáveis, "New York, New York" estreou no verão de 1977 sob uma saraivada de críticas negativas e saiu de cena com uma bilheteria tão decepcionante que empurrou seu diretor a uma depressão severa do qual só recuperou-se com o prestígio e os Oscar de "Touro indomável" (80). Mas, afinal de contas, tal fracasso foi merecido ou se faz necessária uma revisão, quarenta anos depois de seu lançamento?
Em primeiro lugar é preciso que se diga que Martin Scorsese é um cineasta de talento superlativo, capaz de transformar qualquer material em algo digno de ser filmado e assistido. Fã incondicional e assumido da velha Hollywood, além de um estudioso dedicado e protetor aguerrido de sua história, Scorsese assumiu sem medo o risco de recriá-la nas telas mesmo diante de um panorama cultural que seguia um caminho inverso. Sua ideia de recriar em estúdio uma Nova York dos anos 40 e contar uma história de amor através de um gênero em agonia - o musical - acabou se provando uma luta inglória. O excesso de estilização, tanto no visual quanto na atuação dos atores, não encontrou resposta junto ao público (que preferiu lotar os cinemas para assistir "Star Wars", de George Lucas) e confundiu a crítica. Nem todo mundo encontrou no filme do diretor as referências explícitas à era de ouro dos estúdios e, quem encontrou preferiu dar de ombros. Nem tudo funciona no filme. Porém, quando funciona, o curioso encontro entre duas gerações distintas - com o belo colorido da fotografia de Lászlo Kovács e a direção de arte milagrosa como moldura da trama central - é o perfeito exemplo do quão talentoso Scorsese é, ao regurgitar, com elegância e inteligência, todos os ingredientes que fizeram a fama de gente como Vincent Minnelli. A conexão entre "New York, New York" e Minnelli é tamanha que, em uma jogada quase metalinguística, Scorsese ofereceu o principal papel feminino do filme, o da talentosa Francine Evans, à filha do diretor com Judy Garland. Em uma interpretação que remete à de sua mãe no célebre "Nasce uma estrela", Liza Minelli - a essa altura já premiada com um Oscar que Garland nunca recebeu - é mais um elo de ligação entre o antigo e o moderno, entre o passado e o presente, entre o naturalismo anos 70 e a estilização dos anos 40. Liza está soberba, assim como seu parceiro de cena Robert DeNiro, mas é inegável que lhes falta o essencial em uma trama romântica: química.
Usando e abusando daquela que seria uma das maiores características de sua filmografia - a improvisação de seus atores - Martin Scorsese deixou nas mãos de seus editores um pesadelo em forma de celulóide. Ao contrário do que aconteceria depois em sua carreira, onde o improviso seria uma qualidade orgânica, em "New York, New York" tal orientação tornou-se um dos problemas mais graves do resultado final: com um roteiro apenas esboçado, o filme acaba muitas vezes ficando repetitivo, intercalando discussões intermináveis entre seus protagonistas com números musicais que emulam com categoria e sofisticação os maiores clássicos do gênero. Realizado nos mesmos estúdios da MGM onde Judy Garland reinou na década de 40, o filme de Scorsese contou com antigos colaboradores da atriz, o que certamente ajudou na ambientação e na caracterização da personagem, uma talentosa cantora que se envolve com um igualmente talentoso saxofonista e vê sua história de amor ameaçada pela competição e pelos altos e baixos da carreira. Minnelli exala carisma por toda a projeção e encontra em Robert DeNiro um parceiro à altura, mas, como o próprio cineasta reconhece, em nenhum momento existe a fagulha necessária para tornar suas cenas tão grandes como poderiam ser. Talvez culpa do exagero na estilização, talvez culpa da confiança demasiada na dupla de astros. O fato, porém, é que falta em "New York, New York" o toque de mestre de seu diretor, ainda relativamente iniciante.
Cortado em vários minutos para seu lançamento - de quatro horas para 153 minutos e depois para 136, sempre sem o sucesso esperado - "New York, New York" alcançou sua edição final com 163 minutos, com a sequência "Happy endings" (talvez a mais claramente inspirada no cinemão clássico americano) completa. É um filme que precisa ser apreciado mais por suas intenções do que exatamente por seu resultado final, irregular e desnecessariamente longo. Por mais que seja sempre um prazer ver DeNiro e Liza Minnelli em cena e que tenha lançado a clássica canção-título que ficou imortal na voz de Frank Sinatra, é um espetáculo que nem sempre atinge os tons desejados - mas que quando alcança, mostra o melhor de dois mundos do cinema hollywoodiano. Em outras palavras, um Scorsese menor ainda é um grande Scorsese.
segunda-feira
À PROCURA DE MR. GOODBAR
À PROCURA DE MR. GOODBAR (Looking for Mr. Goodbar, 1977, Paramount Pictures, 136min) Direção: Richard Brooks. Roteiro: Richard Brooks, romance de Judith Rossner. Fotografia: William A. Fraker. Montagem: George Greenville. Música: Artie Kane. Direção de arte/cenários: Edward Carfagno/Ruby Levitt. Produção: Freddie Fields. Elenco: Diane Keaton, Tuesday Weld, Richard Gere, William Atherton, Richard Kiley, Tom Berenger. Estreia: 19/10/77
2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Tuesday Weld), Fotografia
Theresa Dunn é uma jovem professora de ensino fundamental para crianças surdas-mudas. Católica, filha de pais rígidos e torturada por um passado metida em hospitais devido a uma escoliose que mantém sua auto-estima em níveis bastante baixos para quem é tão inteligente e atraente, ela começa uma vida dupla depois do fim traumático do relacionamento com um professor casado: de dia, é uma dedicada mestra, que luta por melhores condições para seus alunos carentes; à noite, frequenta bares de solteiros, consome drogas e se envolve com homens desconhecidos, a quem leva para seu apartamento em busca de prazer efêmero. O que a leva a essa dualidade é sua extrema solidão e tendência à auto-destruição, disfarçadas por uma aparência saudável e acima de qualquer suspeita.
Theresa Dunn é a protagonista de "À procura de Mr. Goodbar", que chegou às telas americanas em 1977 baseado no romance de mesmo nome de Judith Rossner - por sua vez inspirado na história real de Roseann Quinn, também uma professora do primário cuja vida errante e fora dos padrões de moralidade vigentes à classe média norte-americana nos anos 70 a levou a um beco sem saída de violência e desespero. Interpretada magistralmente por uma Diane Keaton no auge da carreira - ela levou o Oscar no mesmo ano por um papel mais palatável ao gosto da Academia em "Noivo neurótico, noiva nervosa" - Theresa é uma personagem complexa, forte e repleta de nuances, que só mesmo uma atriz do porte de Keaton conseguiria atingir. Entregue a ousadas cenas de sexo - em especial se for levado em conta o ano de produção - a ex-musa de Woody Allen também brilha em momentos dramáticos, em especial em seus confrontos com a família cristã e com o amante viciado em drogas vivido por um iniciante e sempre canastrão Richard Gere.
Dirigido por Richard Brooks - que já havia demonstrado seu gosto por falar de sexo em "Gata em teto de zinco quente" (58) - depois que nomes consagrados como Roman Polanski, Mike Nichols e Sydney Pollack recusaram a oferta, "À procura de Mr. Goodbar" leva a audiência junto com a protagonista a uma constante e febril busca pelo paraíso artificial do sexo casual, em bares enfumaçados, em banheiros públicos onde se consegue qualquer tipo de droga, em boates gays e até mesmo em orgias domésticas (sua irmã, vivida pela indicada ao Oscar Tuesday Weld tampouco é um exemplo de decência e retidão moral), tudo fotografado com precisão por William A. Frakes - também indicado ao Oscar. A edição fragmentada de George Greenville serve com perfeição para mostrar o universo dicotômico da vida de Theresa, intercalando as cenas pacíficas e solares de sua vida profissional com a claustrofobia da vida noturna, que oferece tanto orgasmos fugazes quanto grandes perigos, escondidos em sorrisos fotogênicos.
A descida de Theresa Dunn rumo ao inferno dos encontros casuais, regados à droga e violência, pode parecer um tanto moralista em seu final, mas Richard Brooks não é um cineasta inclinado a sentenças definitivas, haja visto ter conseguido encontrar alma até mesmo nos assassinos de sua obra-prima "À sangue-frio" (67). O olhar que lança sobre a trajetória de sua protagonista é além de qualquer julgamento, quase documental em sua objetividade de mostrar a vida como ela é. Os lances de alívio - como as cenas em que Theresa imagina situações que fogem de sua realidade - servem como contrapeso para uma história por si só triste, forte e angustiante o bastante para prescindir de artifícios desnecessários. É tenso. É pesado. Mas é um grande filme, infelizmente nunca lançado em DVD.
2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Tuesday Weld), Fotografia
Theresa Dunn é uma jovem professora de ensino fundamental para crianças surdas-mudas. Católica, filha de pais rígidos e torturada por um passado metida em hospitais devido a uma escoliose que mantém sua auto-estima em níveis bastante baixos para quem é tão inteligente e atraente, ela começa uma vida dupla depois do fim traumático do relacionamento com um professor casado: de dia, é uma dedicada mestra, que luta por melhores condições para seus alunos carentes; à noite, frequenta bares de solteiros, consome drogas e se envolve com homens desconhecidos, a quem leva para seu apartamento em busca de prazer efêmero. O que a leva a essa dualidade é sua extrema solidão e tendência à auto-destruição, disfarçadas por uma aparência saudável e acima de qualquer suspeita.
Theresa Dunn é a protagonista de "À procura de Mr. Goodbar", que chegou às telas americanas em 1977 baseado no romance de mesmo nome de Judith Rossner - por sua vez inspirado na história real de Roseann Quinn, também uma professora do primário cuja vida errante e fora dos padrões de moralidade vigentes à classe média norte-americana nos anos 70 a levou a um beco sem saída de violência e desespero. Interpretada magistralmente por uma Diane Keaton no auge da carreira - ela levou o Oscar no mesmo ano por um papel mais palatável ao gosto da Academia em "Noivo neurótico, noiva nervosa" - Theresa é uma personagem complexa, forte e repleta de nuances, que só mesmo uma atriz do porte de Keaton conseguiria atingir. Entregue a ousadas cenas de sexo - em especial se for levado em conta o ano de produção - a ex-musa de Woody Allen também brilha em momentos dramáticos, em especial em seus confrontos com a família cristã e com o amante viciado em drogas vivido por um iniciante e sempre canastrão Richard Gere.
Dirigido por Richard Brooks - que já havia demonstrado seu gosto por falar de sexo em "Gata em teto de zinco quente" (58) - depois que nomes consagrados como Roman Polanski, Mike Nichols e Sydney Pollack recusaram a oferta, "À procura de Mr. Goodbar" leva a audiência junto com a protagonista a uma constante e febril busca pelo paraíso artificial do sexo casual, em bares enfumaçados, em banheiros públicos onde se consegue qualquer tipo de droga, em boates gays e até mesmo em orgias domésticas (sua irmã, vivida pela indicada ao Oscar Tuesday Weld tampouco é um exemplo de decência e retidão moral), tudo fotografado com precisão por William A. Frakes - também indicado ao Oscar. A edição fragmentada de George Greenville serve com perfeição para mostrar o universo dicotômico da vida de Theresa, intercalando as cenas pacíficas e solares de sua vida profissional com a claustrofobia da vida noturna, que oferece tanto orgasmos fugazes quanto grandes perigos, escondidos em sorrisos fotogênicos.
A descida de Theresa Dunn rumo ao inferno dos encontros casuais, regados à droga e violência, pode parecer um tanto moralista em seu final, mas Richard Brooks não é um cineasta inclinado a sentenças definitivas, haja visto ter conseguido encontrar alma até mesmo nos assassinos de sua obra-prima "À sangue-frio" (67). O olhar que lança sobre a trajetória de sua protagonista é além de qualquer julgamento, quase documental em sua objetividade de mostrar a vida como ela é. Os lances de alívio - como as cenas em que Theresa imagina situações que fogem de sua realidade - servem como contrapeso para uma história por si só triste, forte e angustiante o bastante para prescindir de artifícios desnecessários. É tenso. É pesado. Mas é um grande filme, infelizmente nunca lançado em DVD.
terça-feira
OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE

OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE (Saturday night fever, 1977, Paramount Pictures, 118min) Direção: John Badham. Roteiro: Norman Wexler, baseado no artigo de Nik Cohn. Fotografia: Ralf D. Bode. Montagem: David Rawlins. Música: Bee Gees. Figurino: Patrizia Von Brandenstein. Direção de arte/cenários: Charles Bailey/George Detitta. Casting: Shirley Rich. Produção executiva: Kevin McCormick. Produção: Robert Stigwood. Elenco: John Travolta, Karen Lynn Gorney, Barry Miller, Joseph Cali, Paul Pape, Donna Pescow, Fran Drescher, Martin Shakar. Estreia: 14/12/77
Indicado ao Oscar de Melhor Ator (John Travolta)
Em 1977, o jornalista Nik Cohn escreveu uma matéria chamada "Tribal rites of the new Saturday night", onde descrevia como jovens entediados e sem maiores perspectivas de futuro tornavam-se pessoas mais divertidas e admiradas quando saiam para dançar nas discotecas dos subúrbios nova-iorquinos. Anos mais tarde, ele confessou que sua "matéria de não-ficção" era pura invenção, mas aí já era tarde e o estrago já estava feito. Adaptado para o cinema com o nome de "Embalos de sábado à noite", seu artigo já havia sido o responsável pelo "boom" das discotecas no mundo todo e transformado a imagem de John Travolta fazendo seus passos de dança vestido com um paletó branco em um ícone inestimável para toda uma geração de cinéfilos.
Desde a primeira cena de "Embalos...", onde somos apresentados ao malemolente Tony Manero, fica impossível dissociar a personagem do ator e da persona John Travolta (já famoso nos EUA devido ao filme "O garoto da bolha de plástico", feito para a TV americana). Dono de um ritmo próprio de andar, com sapatos bem cuidados e uma ginga malandra, Manero é o retrato típico da juventude descrita por Cohn em seu artigo e pelo roteiro de Norman Wexler. Aos 19 anos, trabalhando em uma loja de tintas e sem maiores ambições na vida, ele é apenas mais um filho de uma família de italianos falastrões cujo maior orgulho é o filho padre. Quase ignorado em casa, Manero é praticamente um deus quando, aos sábados, chega na discoteca 2001 Odissey e, na pista de dança, transforma-se no mais desejado dos homens. Egocêntrico e auto-suficiente, ele é, naquele microcosmo, tudo que deveria ser no dia-a-dia mas não consegue devido à sua falta de instrução e interesse.
Tony é, em seus momentos de sub-celebridade, um hedonista, capaz de renegar friamente as investidas da doce Annette (Donna Pescow), apaixonada por ele e disposta a qualquer sacrifício para ser sua parceira de dança ("você transa com elas e elas logo querem te arrastar pra pista de dança", reclama ele, em uma das frases mais luminosas do roteiro). Tony não quer amar, ele quer ser amado e admirado mais do que tudo e por isso, quando encontra a igualmente ambiciosa Stephanie (Karen Lynn Gorney) sua vida sofre uma espécie de revés. Ao contrário do que sempre acontece, dessa vez é ele quem tem de convencê-la a ser seu par no concurso de dança. É ele quem se sente diminuído perante o quase esnobismo dela. E é ele começa a se perceber como uma pessoa sem maiores atrativos além daqueles mostrados ao som da música disco.

A música, aliás, é quase uma personagem central do filme, dirigido por John Badham. As inúmeras canções compostas pelos Bee Gees para ele (desde a clássica "Stayin' alive" dos créditos iniciais até a melancólica "How deep is your love" pro final) comentam a ação tanto quanto linhas de diálogo, dando ao público explicações sobre os sentimentos dos protagonistas e a oportunidade de ouvir uma das trilhas sonoras mais vendidas da história. Subvertendo as regras dos musicais tradicionais, onde as personagens param tudo e começam a cantar, aqui a música faz parte do conjunto, sendo inseparável do roteiro, do figurino antológico e das belas sequências de dança - que transformaram John Travolta em astro e lhe deram uma surpreendente indicação ao Oscar de melhor ator.
De certa forma, no entanto, a indicação de Travolta ao Oscar é a comprovação de que realmente ele é a alma do filme. Ao assistir-se a "Os embalos..." fica difícil acreditar que foi durante suas filmagens que o ator passou por um dos momentos mais tristes de sua vida pessoal: a morte da então namorada Diana Hyland, vítima de câncer. E fica também difícil crer que o diretor queria mostrar as elaboradas coreografias apenas em close (depois de treinar arduamente por meses a fio, Travolta convenceu-o do contrário, para alegria das festas de embalo que se seguiriam mundo afora após o lançamento do filme).
"Os embalos de sábado à noite" tem um roteiro frágil, que não sustenta uma olhada mais detalhada - apesar de tentar se aprofundar em personagens secundários, nunca chega a dar material para seu elenco de apoio. Mas é a cara de seu tempo, um filme sem maiores pretensões que ficou marcado no inconsciente coletivo e também o que mudou a forma como as trilhas sonoras eram vistas no mercado musical. Levando tudo isso em conta - e mais o fato de que inspirou o sucesso da novela global "Dancin' days" - é inegável sua importância, ainda que mais comercial do que artística, à história do cinema de entretenimento.
segunda-feira
CONTATOS IMEDIATOS DE TERCEIRO GRAU

CONTATOS IMEDIATOS DE TERCEIRO GRAU (Close encounters of the third kind, 1977, Columbia Pictures, 135min) Direção e roteiro: Steven Spielberg. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Direção de arte/cenários: Joe Alves/Phil Abramson. Casting: Shari Rhodes, Juliet Taylor. Produção: Michael Phillips, Julia Phillips. Elenco: Richard Dreyfuss, Melinda Dillon, François Truffaut, Teri Garr, Bob Balaban, Lance Henriksen. Estreia: 15/11/77
8 indicações ao Oscar: Diretor (Steven Spielberg), Atriz Coadjuvante (Melinda Dillon), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Oscar: Fotografia e Efeitos Sonoros (especial)
Seis meses depois que George Lucas revolucionou os filmes de ficção científica com seu "Star Wars" - que se tornaria um dos maiores sucessos da história do cinema - seu amigo Steven Spielberg mostrou ao mundo uma nova visão do gênero. Com um ponto de vista totalmente diferente do que as aventuras de Luke Skywalker contra a Estrela da Morte - que bem ou mal soa um tanto infantilóide -, "Contatos imediatos de terceiro grau" conta uma história bem menos fantasiosa, ainda que esteja longe de ser chamada de realista. Grande sucesso de bilheteria, foi o segundo êxito consecutivo do diretor, que começava a tornar-se o mais bem sucedido cineasta de sua geração.
"Contatos" se utiliza de pessoas normais, que vivem vidas comuns, para contar sua história. Uma delas é Roy Neary (Richard Dreyfuss), um técnico em eletricidade que vive com a mulher (Teri Garr) e os filhos em uma cidade tranquila dos EUA. Em uma noite em que a energia da cidade simplesmente acabou ele tem a visão de um disco-voador e, apesar da desconfiança da família, descobre que várias outras pessoas da região também testemunharam o evento. Entre as pessoas que acreditam em sua história está Jillian Guiler (Melinda Dillon), uma mãe solteira que logo em seguida tem seu filho sequestrado por uma nave espacial. Tornando-se obcecado pela visão, Roy logo vê seu casamento entrar em crise, mas, ao lado de Jillian, descobre que o governo sabe muito mais do que quer revelar. Juntos, eles decidem ir até Devil's Peak, lugar onde, de acordo com as pistas deixadas pelos aliens, haverá um contato entre a Terra e eles.

Em "Contatos imediatos de terceiro grau" Steven Spielberg dá seu primeiro passo na direção de mostrar alienígenas pacíficos e bonzinhos (como o faria com mais propriedade ainda em "ET", cinco anos depois). Ainda que não se saiba as verdadeiras intenções dos visitantes até seus minutos finais (empolgantes, diga-se de passagem), o diretor/roteirista consegue manter o clima de suspense em um nível tolerável, senão quase morno. Em nenhum momento do filme existe a intenção de provocar sustos (como em seu sucesso anterior "Tubarão") ou mostrar sequências de ação (como o faria em seu filme seguinte, "Caçadores da Arca Perdida"). Aqui, Spielberg equilibra drama familiar, pesquisa científica e um suspense agradável, que vai envolvendo o público aos poucos, até chegar em seu clímax emocionante.
E é realmente emocionante a maneira com que o roteiro (originalmente concebido por Paul Schrader) se desenrola frente ao espectador. Tudo começa misteriosamente, quando um avião desaparecido durante a II Guerra subitamente aparece, com todos os seus tripulantes fisicamente intactos. Depois, há o blecaute. Mais tarde, a visita das naves espaciais. O sequestro do filho de Jillian. A descoberta de um canto secreto praticado na Índia, aparentemente mandado do céu (e que o menino abduzido tocava em seu instrumento de brincadeira). A obsessão de Roy com uma forma específica que se lhe revela a forma da montanha onde os extra-terrestres aparecerão para comunicar-se. Tudo é colocado bem devagar, na hora certa, sem pressa (daí a duração um tanto exagerada do filme). Em alguns momentos tem-se a impressão de que a história não está andando. E ai se chega à sequência final.
Logicamente tudo que aconteceu antes das cenas finais de "Contatos imediatos" foi apenas uma preparação para elas. A impressionante música composta por John Williams para o filme torna-se personagem indispensável no diálogo travado entre os humanos e seus misteriosos visitantes (diálogo liderado pela personagem do cineasta francês François Trufaut): é impossível ouvir os acordes da trilha de Williams sem lembrar imediatamente do filme de Spielberg (assim como acontece com todas as partituras do compositor para a obra do cineasta). Nos minutos finais de "Contatos" tudo parece maior, mais caprichado, mais detalhado. A bela fotografia de Vilmos Zsigmond é adequada ao clima de tensão e surpresa criado pela trama e nem mesmo o encerramento da história (que Spielberg já declarou que seria diferente se ele fizesse o filme nos dias de hoje) soa forçado. Tecnicamente perfeito, "Contatos" usa de seus efeitos visuais com parcimônia, concentrando seu esforço maior em construir uma boa e verossímil narrativa do que em surpreender com tecnologia de ponta.
Longe de ser o melhor filme de Steven Spielberg, "Contatos imediatos de terceiro grau" é uma divertida e admiravelmente bem contada sessão da tarde, capaz de seduzir os fãs do gênero e encantar aqueles que preferem histórias mais humanas. É um filme otimista, do tempo em que o cineasta ainda era o Peter Pan que a mídia descreveu. E como tal, não ofende nem machuca ninguém. Uma diversão de primeira categoria!
domingo
MOMENTO DE DECISÃO

MOMENTO DE DECISÃO (The turning point, 1977, 20th Century Fox, 119min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Arthur Laurents. Fotografia: Robert Surtees. Montagem: William Reynolds. Figurino: Tony Faso, Albert Wolski. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Marvin March. Casting: David Graham, Juliet Taylor. Produção executiva: Nora Kaye. Produção: Arthur Laurents, Herbert Ross. Elenco: Shirley MacLaine, Anne Bancroft, Tom Skerrit, Leslie Browne, Mikhail Baryshnikov, Martha Scott, Alexandra Danilova. Estreia: 14/11/77
11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Herbert Ross), Atriz (Anne Bancroft, Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Mikhail Baryshnikov), Atriz Coadjuvante (Leslie Browne), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Direção de arte, Som
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Herbert Ross)
No início de 1978, o cineasta americano Herbert Ross se viu em uma situação um tanto rara em seu meio, ainda que de certa forma bastante agradável. Seus dois trabalhos lançados no ano anterior concorriam ao Oscar de Melhor Filme, tornando-o rival dele mesmo. A comédia romântica "A garota do adeus" deu o prêmio de melhor ator a Richard Dreyfuss, enquanto sua maior aposta, o drama familiar "Momento de decisão" saiu da cerimônia de mãos abanando, apesar de suas generosas 11 indicações à estatueta. No entanto, sua fragorosa derrota - que faz dele, até hoje, empatado com "A cor púrpura", de Steven Spielberg, o maior perdedor da história do Oscar - no entanto, não espelha suas inúmeras qualidades. Tivesse tido mais sorte na noite que consagrou Woody Allen e seu "Noivo neurótico, noiva nervosa", o filme de Ross certamente estaria eternizado como um dos mais consistentes dramas sobre os bastidores do balé, mesmo que o utilize apenas como pano de fundo de uma história humana e envolvente.
Escrito por Arthur Laurents (o mesmo roteirista de "Nosso amor de ontem"), "Momento de decisão" conta a história de duas mulheres de mundos aparentemente diferentes mas que possuem dentro delas muito mais em comum do que aparentam. Shirley MacLaine (deixando de lado o frescor juvenil de filmes como "Se meu apartamento falasse") vive Deedee Rodgers, uma dona-de-casa que abandonou uma promissora carreira como bailarina profissional para dedicar-se à família. Ao lado do marido (Tom Skerrit), cuida de uma escola de dança, enquanto vê o tempo passar e os filhos - dois dos quais também nutrem a mesma paixão pelo balé - crescerem. Sua amiga de juventude, Emma Jacklin (Anne Bancroft, elegantíssima e a excelente atriz de sempre) é exatamente seu contrário. Ao abdicar da vida pessoal para cuidar da carreira, tornou-se uma admirada, famosa e invejada bailarina, protagonista dos maiores clássicos coreografados para os palcos. Quando as duas se reencontram, o conflito se instala logo que as doces lembranças começam a realmente soar como lembranças; Emilia (Leslie Browne) é aceita na companhia de Emma e resolve morar em Nova York. Temerosa com essa mudança tão radical na vida da filha, Deedee decide acompanhá-la, mas a proximidade com seu passado e com Emma a faz questionar suas escolhas, o que leva as duas a uma dura batalha emocional pelo amor e pela atenção da adolescente.
É notável a maneira com que Laurents consegue equilibrar os dois polos de seu roteiro sem torná-lo maniqueísta ou apelar para o dramalhão choroso. Suas duas protagonistas soam verdadeiras e honestas, sem o ranço dos melodramas familiares que poluem as telas de cinema em busca de premiações. Deedee é uma mulher realizada com sua vida familiar, mas que não consegue deixar de lado as dúvidas sobre a opção que fez para seu futuro, principalmente quando surge diante de seus olhos um dèja-vu de sua história, protagonizado por sua filha. Emma, por sua vez, atingiu o ápice de sua carreira, o máximo de sucesso que poderia almejar, mas esbarra no beco sem saída de um amanhã incerto quanto à dança e solitário quanto a relações familiares. Entre as duas, no epicentro do furacão, Emilia tenta seguir seu próprio caminho, que se complica quando ela se apaixona por Yuri (Mikhail Baryshnikov), um bailarino russo com quem divide os palcos e suas primeiras noites.
"Momento de decisão" tinha tudo para ser um daqueles filmes lacrimosos que testam a paciência do espectador. Mas Herbert Ross não foi indicado ao Oscar à toa. Contando com o estofo de suas grandes atrizes centrais (Audrey Hepburn chegou a cobiçar o papel que ficou com Anne Bancroft), ele criou uma história sobre sonhos destruídos, segundas chances e a força inquebrável da amizade sem abusar dos clichês que tinha à disposição. O clímax poderoso - que acontece logo depois dos belíssimos números musicais que contam inclusive com a participação da brasileira Marcia Haydée - apenas comprova a força de sua trama e de seu elenco. Elegante, sofisticado mas nunca chato ou aborrecido, é um filme que merece uma revisão, nem que seja para que seja feita justiça a sua dupla principal.
sábado
NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA

NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA (Annie Hall, 1977, United Artists, 93min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Wendy Greene Bricmont, Ralph Rosenblum. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Robert Drumheller, Justin Scoppa Jr. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut. Produção: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Tony Roberts, Carol Kane, Shelley Duvall, Colleen Drewhurst, Christopher Walken. Estreia: 20/4/77
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Ator (Woody Allen), Atriz (Diane Keaton), Roteiro Original
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Atriz (Diane Keaton), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Diane Keaton)
Quando lançou "Noivo neurótico, noiva nervosa", em 1977, Woody Allen já não era nenhum iniciante. Já havia lançado sete filmes, todos comédias bastante elogiadas pela crítica, mas relegadas à espécie de limbo que é reservado ao gênero. Foi preciso que o mais neurótico dos cineastas nova-iorquinos incluísse toques de romantismo em sua obra para finalmente levar pra casa o Oscar de melhor filme, direção e roteiro. Mesmo que tenha fugido do padrão de sua obra até então, normalmente direcionada a um público específico, "Noivo neurótico" talvez seja o filme que melhor define sua carreira a partir daí. Já estão presentes em sua deliciosa comédia romântica (sim, ele também tem uma alma romântica) todos os elementos que que o cineasta iria amadurecer em seus inúmeros trabalhos posteriores, em maior ou menor grau: o humor geralmente judeu, neurótico, erudito e sofisticado que angariou tanto fãs fiéis quando detratores ferozes.
Basicamente “Noivo neurótico, noiva nervosa” é uma história de amor, sem tirar nem pôr. O protagonista Alvyn Singer (o próprio Allen praticamente inaugurando sua persona mundialmente conhecida) é um humorista infeliz com sua carreira na TV que se apaixona pela levemente neurótica Annie Hall (Diane Keaton, que viveu um romance com o diretor, inspirou a personagem e levou o Oscar de melhor atriz), que tenta tornar-se cantora. O romance dos dois evolui à medida em que eles passam a se conhecer melhor, mas as diferenças entre os dois começam a tornar-se empecilhos no caminho de sua felicidade. Nesse meio tempo, ela conhece um empresário musical (vivido pelo cantor Paul Simon) e ele tenta reconhecer em seus relacionamentos passados os sinais que o levaram à crise.

O que diferencia “Annie Hall” (o título original soa infinitamente melhor do que o nome equivocado da versão nacional, uma vez que os protagonistas nunca foram noivos) das outras comédias românticas é o fato de que, além de Allen estar anos-luz da imagem do galã dos tradicionais exemplares do gênero, suas personagens enfrentam problemas mais próximos da realidade do que seus congêneres. Nada de tramas rocambolescas ou vilões estereotipados (apesar do primeiro esboço do roteiro falar sobre um crime em primeiro lugar e deixar o romance em segundo plano). O que leva o romance de Alvyn e Annie à exaustão é a própria vida, com seus caminhos às vezes tão complicados. E a dor do fim de um relacionamento também pode servir como motivo de criação, a exemplo do protagonista, que escreve uma peça de teatro tentando resolver sua conflituosa e ao mesmo tempo carinhosa relação com sua amada - o que de certa forma também foi feito por Woody, uma vez que Annie, sua protagonista feminina é claramente inspirada em Diane Keaton (cujo nome verdadeiro é Diane Hall e tem o apelido de Annie). Keaton, inclusive, utiliza de suas próprias roupas em cena (e seu figurino foi bastante imitado na época, diga-se de passagem).
A criatividade do roteiro de Allen fica evidente em momentos de grandes ideias, como o desenho animado que defende as madrastas das histórias infantis, as legendas explicando os pensamentos das personagens enquanto travam sua primeira conversa e a cena em que Annie está literalmente com o pensamento longe de sua transa com o namorado. Isso sem falar em alguns das tiradas mais inspiradas e engraçadas da carreira do diretor ("Em Los Angeles eles não jogam o lixo fora, eles reciclam em forma de programas de televisão", vocifera Alvyn quando obrigado a visitar a Califórnia).
Anos depois de seu lançamento, “Noivo neurótico, noiva nervosa” pode ter perdido parte de seu frescor e de seu senso de novidade, mas os diálogos espertos escritos por Woody Allen e a bela homenagem feita à Diane, em um papel sob medida continuam tão atuais quanto em sua estreia.
Assinar:
Postagens (Atom)
O PREÇO DA TRAIÇÃO
O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...
-
FRAGMENTADO (Split, 2016, Universal Pictures, 117min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Michael Gioulakis. Montagem: Luke...
-
PSICOPATA AMERICANO (American psycho, 2000, Lions Gate Films, 102min ) Direção: Mary Harron. Roteiro: Mary Harron, Guinevere Turner, r...
-
O SILÊNCIO DOS INOCENTES (The silence of the lambs, 1991, Orion Pictures, 118min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Ted Tally, romance de ...








