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quarta-feira

O VIRGEM DE 40 ANOS

 


O VIRGEM DE 40 ANOS (The 40 year old virgin, 2005, 116min) Direção: Judd Apatow. Roteiro: Judd Apatow, Steve Carell. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Brent White. Música: Lyle Workman. Figurino: Debra McGuire. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/K.C. Fox. Produção executiva: Steve Carell, Jon Poll. Produção: Judd Apatow, Shauna Robertson, Clayton Townsend. Elenco: Steve Carell, Catherine Keener, Paul Rudd, Romany Malco, Seth Rogen, Elizabeth Banks, Leslie Mann, Jane Lynch, Kat Dennings, Jonah Hill, Mindy Kaling. Estreia: 19/8/2005 

Fazia pouco menos de seis meses que a versão norte-americana da série "The office" havia estreado nos EUA quando "O virgem de 40 anos" chegou às telas. Era a primeira oportunidade do ator Steve Carell como protagonista no cinema - depois de ter roubado a cena em "Todo poderoso" (2003) e ter trabalhado com Woody Allen (em "Melinda e Melinda") - e havia certo receio de que o humor quase vulgar do filme de Judd Apatow (também em sua primeira incursão fora do circuito de televisão) pudesse ofender às plateias mais suscetíveis e, por consequência, afundasse nas bilheterias. Tudo, porém, não passou de um medo infundado: graças principalmente ao carisma inconteste de Carell, a comédia romântica mais inusitada da temporada encheu os bolsos da Universal (mais de 175 milhões de dólares de arrecadação mundial), abriu caminho para a consagração do seriado estrelado por seu ator central a partir da segunda temporada e apresentou Apatow como o diretor ideal de comédias adultas no começo dos anos 2000. Com um elenco coadjuvante recheado de nomes que fariam parte do imaginário do gênero pelos anos seguintes - como Paul Rudd e Seth Rogen -, o filme acabou por tornar-se, também, um capítulo importantíssimo nas carreiras de todos os envolvidos. 

Carell já tinha 43 anos de idade, dez anos de casado e dois filhos quando apresentou ao mundo o tímido e desajeitado Andy Stitzer, um homem cuja vida gira em torno de um emprego sonolento em uma loja de aparelhos eletrônicos, partidas de videogame e bonecos colecionáveis que são sua maior paixão. Seus amigos são seus colegas de trabalho, e suas relações com o sexo oposto nunca ultrapassam o nível mais superficial - para não dizer que elas praticamente não existem. Para Andy a vida parece ter chegado a um patamar do qual jamais sairá, e de certa forma ele chega a se conformar com o fato, ao menos até ter sua situação amorosa nula descoberta por seus companheiros profissionais. Surpresos (mas não muito) ao perceberem sua total inexperiência no campo sexual, David (Paul Rudd), Jay (Romani Malco) e Cal (Seth Rogen) se unem, então, em uma força-tarefa para resolver o problema do amigo. Nesse meio-tempo - onde encontra mulheres dos mais variados tipos e com as mais variadas expectativas -, Andy tenta lidar com um sentimento novo: a atração/paixão por Trish (Catherine Keener), uma mulher madura que nem de longe desconfia de sua condição de virgem.

 

Repleto de momentos cômicos inspirados - vários deles improvisados por um elenco coeso e homogêneo -, "O virgem de 40 anos" conseguiu a proeza de equilibrar o humor quase ofensivo de Judd Apatow, centrado em piadas de duplo sentido, trocadilhos infames e tiradas a respeito de sexo sem o menor pudor, com um tom de comédia romântica adulta, com personagens convivendo com angústias condizentes (ao menos em parte) com uma faixa etária muito acima da média para o gênero. Abaixo da camada mais óbvia da trama, existe, pairando como uma névoa de melancolia, as preocupações com a solidão, com o amadurecimento, com as relações pessoais em um mundo em constante evolução. O roteiro (coescrito por Apatow e Carell) não tem por objetivo discutir a sério nenhum desses temas, mas de certa forma os apresenta em um nível subjacente bastante interessante - e que em nenhum momento sobrepuja seu principal ponto: fazer rir com situações que beiram o ridículo e que escapam milagrosamente do excesso por mérito de seus intérpretes. Steve Carell mescla o humor histérico e o tom quase triste de Andy com uma maestria que seria ainda mais desenvolvida em trabalhos seguintes - como em "Foxcatcher: a história que chocou o mundo", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, dez anos mais tarde - e Catherine Keener oferece uma base sólida de seriedade à trama, sem que a faça perder o ritmo (e chegou a ser premiada pelos críticos de Boston e Los Angeles). Além deles, o trio de amigos de Andy conquistam o público sem fazer esforço - não à toa são um dos grandes destaques do filme, com personagens mais ricos do que se poderia pressupor: são eles os responsáveis pelo contraste entre a teoria e a prática que sustenta a trama.

Mesmo que vez ou outra apele para um humor quase chulo - o que preocupou Steve Carell no início da produção -, "O virgem de 40 anos" acerta ao brindar o espectador com um nível de inteligência e autoironia que raramente se vê nas comédias hollywoodianas. Em muitos momentos ele soa exatamente o que é - uma comédia tipicamente fruto de seu tempo e sua geografia -, mas consegue, ao mesmo tempo, soar universal e atemporal em seu retrato de uma masculinidade a um passo da toxicidade e da imaturidade geracional. Mas nem mesmo seus pequenos desvios de rota esconde sua principal qualidade: fazer rir descompromissadamente enquanto fala de assuntos sérios (ou nem tão sérios assim).  

segunda-feira

MORRA, SMOOCHY, MORRA


MORRA, SMOOCHY, MORRA (Death to Smoochy, 2002, Warner Bros/FilmFour, 109min) Direção: Danny DeVito. Roteiro: Adam Resnick. Fotografia: Anastas N. Michos. Montagem: Jon Poll. Música: David Newman. Figurino: Jane Ruhm. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Enrico Campana. Produção: Andrew Lazar, Peter Macgregor Scott. Elenco: Robin Williams, Edward Norton, Catherine Keener, Danny DeVito, Jon Stewart, Pam Ferris, Harvey Weinstein. Estreia: 28/02/2002

A carreira de Danny DeVito como diretor trai, sem sombra de dúvida, um apreço pelo lado sombrio da vida. Foi assim em sua estreia, "Joga a mamãe do trem" (1987), no sucesso "A guerra dos Roses" (1989), e até mesmo no infantil "Matilda" (1996) - sem falar na cinebiografia "Hoffa: um homem, uma lenda" (1992), onde falou sério pela primeira vez em sua trajetória como diretor. Tendo em vista seu currículo e sua tendência ao humor mórbido, portanto, não chega a ser surpresa que ele tenha assinado "Morra, Smoochy, morra", o inusitado encontro entre Robin Williams e Edward Norton que fracassou nas bilheterias e desconcertou boa parte da crítica. Uma mistura nem sempre eficiente entre comédia e suspense, o filme ensaia uma crítica à indústria do entretenimento infantil e à obsessão pela fama, mas falha em seu principal objetivo: conquistar o espectador. Por vezes exagerado e desnecessariamente confuso - e quase indeciso em sua mescla de gêneros, o filme de DeVito parte de uma premissa interessante e parece não saber exatamente o que fazer com ela. Para sua sorte, conta com o talento mais do que comprovado de seus atores centrais (especialmente Norton, raramente visto em comédias).

Tudo começa quando Randolph Smiley (Robin Williams), popular apresentador de um programa de televisão direcionado ao público infantil, é demitido graças a seu recém descoberto costume de aceitar suborno para privilegiar algumas crianças em detrimento de outras. Sua saída da programação abre espaço, então, para a chegada de Sheldon Mopes (Edward Norton), contratado para, com seu personagem Smoochy - um rinoceronte cor-de-rosa -, preencher o horário na programação. Idealista, ingênuo e bem-intencionado, Sheldon nem de longe imagina que, apesar das promessas da emissora, ele não passa de uma peça em uma vasta engrenagem comercial. Enquanto tenta transmitir mensagens positivas e educativas em seu programa, nos bastidores ele é visto apenas como objeto de marketing - algo que a executiva Nora Wells (Catherine Keener) tenta esconder a todo custo. Não bastasse tal ruído na comunicação, Sheldon passa a ser o alvo de Randolph, que, obcecado por ter sido substituído, arma diversas formas de acabar com seu rival - nem que seja através de assassinato.

 

Considerado o pior filme de 2002 pelo respeitado crítico Roger Ebert, "Morra, Smoochy, morra" é, realmente, uma produção bastante problemática. Nem mesmo Robin Williams - que ficou com o papel depois que Jim Carrey preferiu fazer o igualmente pouco celebrado "Cine Majestic" - é capaz de dar consistência a um roteiro indeciso, que impede o público de ter qualquer tipo de empatia por seus protagonistas - seja ele qual for. Danny DeVito, que já alcançou bons resultados em produções anteriores, aqui demonstra ter perdido a mão em suas tentativas de fazer rir de situações aparentemente dramáticas e/ou trágicas, entregando soluções pouco efetivas para os conflitos e apostando em um visual carregado de cores que contrastam com o tom escuro da trama.e causam mais estranhamento que admiração. É perceptível, no entanto, a entrega de Edward Norton a um personagem atípico em sua carreira: na pele do ingênuo Sheldon Mopes - cujo otimismo e positividade chegam a irritar ao mais feliz dos seres humanos -, o ator consegue destacar-se mesmo estando ao lado de um craque do humor como Williams. E Catherine Keener também surpreende, dando dignidade a uma personagem cujos objetivos e reais intenções estão sempre no limiar entre a honestidade e o cinismo.

Tornado cult com o passar do tempo - algo que normalmente acontece quando uma produção encontra um público disposto a abraçá-la a despeito (ou justamente por causa) de seus equívocos -, "Morra, Smoochy, morra" passou à história como um passo em falso no currículo de seus astros, acostumados ao sucesso e ao prestígio de boa parte de suas trajetórias. Pouco lembrado mesmo pelos maiores fãs de Williams e Norton, também machucou a carreira de Danny DeVito - que só voltaria à cadeira de diretor cinco anos mais tarde com "Duplex" - mais um exemplar de seu humor sombrio, mas dessa vez iluminado pelas presenças de Ben Stiller e Drew Barrymore. Uma comédia que não consegue sustentar a contento sua piada única, "Morra, Smoochy, morra" mergulha no camp - mas não é capaz de assumir completamente sua aura trash.

 

À PROCURA DO AMOR

 


À PROCURA DO AMOR (Enough said, 2013, Fox Searchlights Pictures, 93min) Direção e roteiro: Nicole Holofcener. Fotografia: Xavier Grobet. Montagem: Robert Frazen. Música: Marcelo Zavros. Figurino: Leah Katznelson. Direção de arte/cenários: Keith Cunningham/Douglas Mowat. Produção executiva: Chrisann Verges. Produção: Stefanie Azpiazu, Anthony Bregman. Elenco: Julia Louis-Dreyfus, James Gandolfini, Catherine Keener, Toni Collette, Ben Falcone, Tracey Fairaway, Tavi Gevinson. Estreia: 07/9/2013 (Festival de Toronto)

No dia 17 de junho de 2013, os fãs de cinema em geral - e da série "Família Soprano" em particular - foram surpreendidos com a notícia da morte precoce, aos 51 anos, do ator James Gandolfini, vítima de um infarto fulminante durante uma viagem à Roma. Sua partida inesperada, além de deixar o público órfão de um ator de grande carisma, o impediu de colher os louros por seus dois últimos trabalhos. "A entrega" - cujas filmagens acabaram um mês antes de sua morte - só estreou em setembro de 2014 no Festival de Toronto, mas um ano antes, no mesmo festival, as plateias tiveram a oportunidade de conhecer um lado menos sombrio e violento do célebre intérprete de Tony Soprano: lançado pela Fox Searchlight Pictures, "À procura do amor" apresentava um Gandolfini doce e capaz de fazer suspirar as mulheres mais românticas. Sim, a produção escrita e dirigida por Nicole Holofcener era uma comédia romântica. Adulta, um tanto mais realista e com personagens mais verossímeis, mas ainda assim uma comédia romântica, com todos os elementos clássicos do gênero. E, para alegria de todos, uma produção deliciosa, daquelas de deixar qualquer um com um sorriso no rosto.

Eva (Julia Louis-Dreyfus) trabalha como massagista a domicílio e está em crise com a iminente viagem de sua filha adolescente, Ellen (Tracey Fairaway), para a faculdade. Separada e pouco otimista em relação a possíveis relacionamentos, ela se vê surpreendida com a inesperada atração que passa a sentir por Albert (James Gandolfini), um homem que, a princípio, não tem nada a ver com o que ela procura em homens. De meia-idade, acima do peso, igualmente separado e prestes a ver a filha sair de casa, Albert acaba a conquistando pelo humor, pela gentileza e pela química que surge entre eles. O romance nascente e promissor, no entanto, sofre um baque quando Eva descobre que seu novo príncipe encantado é o ex-marido de Marianne (Catherine Keener), uma nova cliente, que divide com ela fatos poucos lisonjeiros a seu respeito (sem imaginar do incipiente namoro entre os dois). Influenciada pelas conversas com Marianne - uma poetisa a quem tem em alta conta -, Eva começa a questionar seus sentimentos e as percepções sobre Albert, que nem de longe sonha que a relação está ameaçada por uma visão unilateral (e um tanto injusta de sua pessoa).

Autora de filmes cujo foco são personagens críveis e humanos, como "Amigas com dinheiro" (2006) e "Sentimento de culpa" (2010), Nicole Holofcener faz um gol de placa com "À procura do amor": sem buscar catarses exageradas e fugindo da artificialidade comum a comédias românticas, faz de seu filme uma pérola dirigida a uma fatia do público frequentemente alijada dos maiores sucessos do gênero. Sua escolha por dois atores atípicos como protagonistas - ao lado de sua constante colaboradora, Catherine Keener - é, paradoxalmente, seu maior acerto. Julia Louis-Dreyfus é uma força da natureza, uma atriz que consegue ir do humor ao drama sem maior esforço, dotando sua Eva de nuances e idiossincrasias que a aproximam do espectador até mesmo quando comete erros bobos e desnecessários. Gandolfini, por sua vez, deixa antever uma faceta solar e agradável, raramente percebida em suas atuações anteriores (com a possível exceção do pouco lembrado "A mexicana") e acabou por merecer aplausos unânimes por sua sutileza em dar vida a um personagem a anos-luz de sua mais famosa criação. A química entre os dois é precisa e conduz a trama com um ritmo próprio, que é costurado sem pressa e à base de diálogos inteligentes e perspicazes - além de um elenco coadjuvante onde brilha também a sempre ótima Toni Collette.

Ao driblar os clichês que deixam quase todas as comédias românticas com o mesmo tom de artificialidade, Holofcener imprime a "À procura do amor" uma organicidade rara - mérito de seu roteiro que flui com extrema felicidade tanto em momentos mais leves quanto naqueles que exigem do elenco uma carga maior de dramaticidade (ainda que jamais em exagero). Uma cineasta que encoraja o improviso em seus trabalhos, Nicole extrai de Gandolfini e Louis-Dreyfus desempenhos que soam absolutamente reais - e, por consequência, bem distantes de suas personas até então mais conhecidas. Calorosos, humanos e falíveis, Eva e Albert são o mais próximo que personagens de cinema podem chegar de seu público - e isso se deve primordialmente graças a seus intérpretes, em estado de graça da primeira à última cena. "À procura do amor" é ouro.

terça-feira

8MM: OITO MILÍMETROS



8MM: OITO MILÍMETROS (8mm, 1999, Columbia Pictures, 123min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Andrew Kevin Walker. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Mark Stevens. Música: Mychael Danna. Figurino: Mona May. Direção de arte/cenários: Gary Wissner/Gary Fettis. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo. Produção: Judy Hofflund, Gavin Polone, Joel Schumacher. Elenco: Nicolas Cage, Joaquin Phoenix, James Gandolfini, Peter Stormare, Catherine Keener, Anthony Heald. Estreia: 19/02/99 (Festival de Berlim)

Quando o projeto de "8mm: oito milímetros" chegou à Sony Pictures, no final dos anos 1990, era, ao mesmo tempo, extremamente promissor (para os fãs de um cinema adulto e corajoso) e potencialmente perigoso (para um estúdio cioso de suas finanças): escrito pelo mesmo Andrew Kevin Walker que deu ao mundo o primoroso "Seven: os sete crimes capitais" (1995), o roteiro do filme mergulhava o protagonista no sombrio universo dos snuff movies (produções amadoras em que assassinatos são cometidos diante da câmera) e conduzia a plateia em um labirinto de medo, repulsa e violência. A ideia era fazer um filme perturbador, sem grandes concessões comerciais e, se possível, buscando um público mais adulto e exigente. Porém, quando finalmente chegou às telas, em fevereiro de 1999, com um atraso de dois meses em relação a seu cronograma original, "8mm" em pouco lembrava sua gênese: dirigido por Joel Schumacher e estrelado por Nicolas Cage no auge do sucesso popular, o filme apresentou-se aos espectadores como um filme policial competente e sério, mas bem longe da ousadia pretendida por seu criador: ficou no meio do caminho entre o thriller claustrofóbico que sonhava ser e o filme de ação formulaico capaz de amealhar fortunas que era a pretensão de seu estúdio.

Antes que o explosivo material chegasse às mãos de Joel Schumacher - ainda não recuperado das rumorosas críticas a seu "Batman & Robin" (1997) e disposto a correr riscos profissionais em produções que fugissem de blockbusters previsíveis -, nomes fortes da indústria chegaram a ser cogitados pela Sony Pictures. Caso de Paul Verhoeven, William Friedkin e até mesmo David Fincher, que poderia repetir a parceria com o roteirista Andrew Kevin Walker. Quando Schumacher embarcou, a ideia do estúdio ainda era manter o tom pesado do roteiro original e apostar em uma produção radicalmente oposta ao mainstream - e para isso contavam com a presença do ator Russell Crowe no elenco: alçado à categoria de astro graças ao merecido sucesso de "Los Angeles: cidade proibida" (1997), Crowe poderia oferecer ao filme uma credibilidade rara e equilibrar os riscos de rejeição de uma plateia não acostumada a radicalidades. No entanto, em Hollywood raramente as coisas caminham da forma previsível, e depois de um bom tempo à procura de um astro para encabeçar o elenco - e gente como Mel Gibson, John Travolta, Bruce Willis e Nick Nolte chegaram a ser lembrados pelos produtores -, um nome forte surgiu no horizonte. Recentemente premiado com o Oscar de melhor ator por "Despedida em Las Vegas" (1995) e estampando os cartazes de êxitos de bilheteria, como "A outra face" (1997) e "Cidade dos anjos" (1998), Nicolas Cage demonstrava interesse em assumir a protagonização do longa e, com isso, aumentar suas chances de lotar as salas de exibição. O dilema de Schumacher estava armado: uma produção mais barata, quase experimental, com um ator de prestígio, ou um filme policial tradicional, de orçamento generoso, com um astro de primeira grandeza? Não é preciso ser especialista em mercado para adivinhar a opção da Sony Pictures.

 

A entrada da Cage no projeto, no entanto, não significou o fim dos problemas. Indignado com as mudanças propostas por Schumacher para atenuar o tom sombrio do roteiro, Andrew Kevin Walker simplesmente abandonou o projeto, deixando as alterações nas mãos do diretor e de Nicholas Kazan. Ciente de que tais mudanças se faziam necessárias para que o orçamento de estimados 40 milhões de dólares se pagasse nas bilheterias, Schumacher deixou de lado o desejo de chocar a plateia e abraçou a ideia de realizar mais um sucesso financeiro. Não se pode dizer que falhou, mas os quase 100 milhões arrecadados internacionalmente dizem mais sobre seu potencial comercial do que a respeito de suas qualidades artísticas. É óbvio que o diretor consegue se sair bem na condução do filme - há muito mais nele de "Um dia de fúria" (1992) do que de suas versões de Batman, por exemplo -, mas sua falha em escapar dos clichês não deixa de incomodar. Enquanto acompanha o protagonista em sua busca pela verdade e conduz o espectador em um universo insalubre e desconfortável, o cineasta demonstra uma maturidade e um senso de ritmo e tensão admiráveis - auxiliado pela presença de um Joaquin Phoenix ainda jovem mas já extremamente eficiente, em papel recusado por Mark Wahlberg, Mas é perceptível também a quebra de coerência no terço final, quando o roteiro parte da ação cerebral para o confronto físico: é razoavelmente climático, mas formulaico e previsível em excesso. Agrada ao público que busca uma catarse, mas frustra àqueles que esperam desfechos menos banais.

"8mm" ocupa, dentro da carreira de Joel Schumacher, um lugar interessante: foge de seus dramas lacrimosos e superficiais, passa longe de seus equivocados filmes de super-heróis e ousa um pouco mais que suas boas adaptações de John Grisham, mas não chega à quase perfeição de "Um dia de fúria" - esta sim uma produção corajosa e consistente. A trama que leva o detetive particular Tom Welles (interpretado por um Nicolas Cage correto mas sem maiores lances de genialidade) a penetrar no mundo da pornografia ilegal é interessante e se demonstra sufocante por boa parte das duas horas de projeção, e é impossível não perceber a excelência da trilha sonora de Mychael Danna e a inteligência da edição de Mark Stevens - truncada, não óbvia, desconfortável. São elementos que se destacam em uma produção acima da média mas que não alcança jamais todo o potencial de sua proposta inicial. Uma pena que não houve a coragem necessária para seguir à risca o roteiro de Andrew Kevin Walker e manter Russell Crowe no papel central: história poderia ter sido feita.

quinta-feira

CORRA!

CORRA! (Get out, 2017, Universal Pictures/Blum House Pictures, 104min) Direção e roteiro: Jordan Peele. Fotografia: Toby Oliver. Montagem: Gregory Plotkin. Música: Michael Abels. Figurino: Nadine Haders. Direção de arte/cenários: Rusty Smith/Leonard R. Spears. Produção executiva: Raymond Mansfield, Shaun Redick, Couper Samuelson, Jeanette Volturno. Produção: Jason Blum, Edward H. Hamm Jr., Sean McKittrick, Jordan Peele. Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Bradley Whitford, Catherine Keener, Caleb Landry Jones, Marcus Henderson, Betty Gabriel. Estreia: 23/01/17 (Festival de Sundance)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jordan Peele), Ator (Daniel Kaluuya), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original 

Primeiro foi o sucesso comercial: realizado com meros 4,5 milhões de dólares, ele arrecadou mais de 250 milhões pelo mundo. Depois, veio o aplauso da crítica, que o colocou como o mais bem avaliado filme de 2017 no confiável site Rotten Tomatoes. E por fim, a consagração da própria indústria, quando, das quatro importantes indicações ao Oscar (incluindo filme e direção), saiu da cerimônia de premiação com a estatueta de roteiro original. Para um filme de gênero considerado "menor" e lançado quase um ano antes de sua vitória junto à Academia, "Corra!" saiu-se muito melhor do que se poderia esperar, principalmente se for levado em consideração que algumas de suas características não são exatamente comuns aos grandes sucessos de bilheteria e prêmios. Filme de estreia do afro-americano Jordan Peele, conhecido nos EUA por seus trabalhos cômicos, estrelado por um ator negro (Daniel Kaluuya, indicado ao Oscar por seu desempenho) e de um gênero que pouco frequenta listas de indicados e/ou vencedores de grandes premiações (o suspense), "Corra!" pode ser considerado, sem favor algum, um fenômeno. De sua estreia no Festival de Sundance, em janeiro de 2017, até seu Oscar, mais de um ano depois, o filme foi quebrando recordes, paradigmas e preconceitos, chegando ao final de sua carreira nos cinemas como uma unanimidade. O melhor de tudo, porém, é que, deixando-se de lado o hype e o marketing, o filme de Peele continua extraordinário, não perdendo seu frescor e sua inteligência mesmo quando revisto - dessa vez sem as surpresas de uma primeira sessão, mas com a possibilidade de perceber cada detalhe imaginado pela mente de Peele.

Estranhamente relegado à categoria "comédia/musical" pelos eleitores do Golden Globe, "Corra!" até pode ser visto como uma sátira hiperbólica aos filmes de horror - normalmente estrelados por atores brancos e recheados de clichês. Porém, em uma visão mais abrangente, o filme de Jordan Peele é não apenas um filme de suspense arrebatador, mas também uma aberta crítica social ao racismo velado da sociedade norte-americana, ainda que em tons surrealistas. Escrito pelo cineasta antes que o movimento "Black Lives Matter" voltasse a ser assunto do momento nos EUA, o roteiro de "Corra!" não evita os elementos mais básicos do cinema de terror, mas os recicla de forma esperta e atual, inserindo em sua trama discussões bastante sérias a respeito da forma como os negros são vistos pelos brancos. A princípio de maneira sutil e aos poucos mais abertamente, a narrativa vai deixando claro ao espectador que a história que está sendo contada diante de seus olhos não é somente a trajetória de um homem acossado pela família da namorada, mas também a angústia de toda uma raça frente a séculos de preconceito e violência. Parece sério demais para um filme com ambições comerciais e que quase foi estrelado por Eddie Murphy, certo? Mas acontece que um dos maiores méritos de "Corra!" é justamente este: falar de um tema absolutamente crucial sem que pareça estar levantando bandeiras ou forjando discursos inflamados.


Filmado em apenas 23 dias, "Corra!" é uma prova (mais uma) de que talento é muito mais importante do que orçamentos generosos. Sem astros de primeira grandeza no elenco e efeitos visuais discretos e inseridos objetivamente, o filme é calcado basicamente no roteiro (em boa parte improvisado pelos atores) e no clima de tensão construído por Peele de forma gradativa e sufocante. No começo, tudo parece apenas estranho e incômodo, quando o protagonista, Chris Washington (Daniel Kaluuya), um jovem fotógrafo, chega até a elegante propriedade dos pais de sua namorada, Rose Armitage (Allison Williams), onde irá passar o fim-de-semana. Apesar de muito bem recebido pelos Armitage, que fazem questão de declarar sua naturalidade em relação ao fato da filha branca namorar um rapaz negro, Chris não consegue ficar completamente à vontade, especialmente por perceber nos empregados da mansão (todos negros) um comportamento bastante perturbador. A situação fica ainda mais bizarra quando ele é hipnotizado pela sogra, Missy (Catherine Keener), e passa a ter certeza de que há algo de muito perigoso acontecendo à sua volta.

Jordan Peele conduz sua trama de maneira a apresentar seus elementos e reviravoltas ao mesmo tempo para Chris e para o espectador, construindo, assim, uma tensão que vai se avolumando até o final, climático e violento. Mesmo o alívio cômico do filme, na figura de Rod (Lil Rel Howery), melhor amigo de Chris, não chega a evitar a sensação de desconforto que o filme transmite desde o princípio. Mérito também da trilha sonora impecável de Michael Abels, do desenho de som instigante, e da interpretação exata de todo o elenco - que inclui Bradley Whitford como Dan, o pai de Rose, um neurocirurgião de fundamental importância para o desfecho da narrativa. O roteiro, igualmente preciso em liberar informações frequentes que só irão fazer completo sentido no final, lembra a série "Além da imaginação" - não por coincidência, Peele assumiu a apresentação de uma nova temporada da série, lançada em 2019. E se o público compra a ideia central da trama, é necessário que a interpretação visceral de Daniel Kaluuya seja considerada fator preponderante para tal: na pele de Chris Washington, o jovem ator simplesmente domina a cena, entregando uma performance corajosa e surpreendente, aliando carisma e talento com garra de veterano. É graças a ele que o suspense funciona e que a plateia chega ao final da sessão com a ótima sensação de ter sido tragada por uma história forte e emocionante - e que, de quebra, ainda faz pensar e suscita discussões importantes. De quantos filmes se pode falar isso ultimamente?

domingo

UM CRIME AMERICANO

UM CRIME AMERICANO (An american crime, 2007, First Look Entertainment/Killer Films, 98min) Direção: Tommy O'Haver. Roteiro: Tommy O'Haver, Irene Turner. Fotografia: Byron Shah. Montagem: Melissa Kent. Música: Alan Lazar. Figurino: Alix Hester. Direção de arte/cenários: Nathan Amondson/Lisa Alkofer. Produção executiva: Pamela Koffler, Richard Shore, Ruth Vitale, John Wells. Produção: Katie Roumel, Kevin Turen, Christine Vachon, Henry Winterstern. Elenco: Ellen Page, Catherine Keener, James Franco, Bradley Whitford, Hayley McFarland, Nick Searcy, Ari Graynor, Evan Peters. Estreia: 19/01/07 (Festival de Sundance)

No começo dos anos 80 já havia uma movimentação entre os produtores de Hollywood para levar às telas a trágica e inacreditável história da jovem Sylvia Likens - um projeto abortado pela recusa de sua irmã, Jennie, em reviver tal pesadelo. A morte de Jennie em 2004, no entanto, reacendeu o desejo de Hollywood na ideia de transformar em arte um dos mais repugnantes crimes acontecidos nos EUA e, segundo o procurador público do caso, o mais terrível cometido no estado de Indiana. Conduzido com extrema seriedade e o máximo de fidelidade possível por Tommy O'Haver, experiente em tramas mais leves, como a comédia gay "O beijo hollywoodiano de Billy" (98) e o fantasioso "Uma garota encantada", estrelado por Anne Hathaway, mas novato em explorar o lado mais sombrio do ser humano, "Um crime americano" é um filme que choca, causa revolta e indignação e não é facilmente digerível. Mas é, também, um cruel retrato da maldade humana e de até onde pode chegar a falta de compaixão. Tocando ainda em outros temais polêmicos, como alienação parental e hipocrisia religiosa, o roteiro do diretor e de Irene Turner facilmente ultrapassa a definição de drama para adentrar sem hesitação no terreno do suspense psicológico mais perturbador - contando, para isso, com atuações assombrosas de Ellen Page e Catherine Keener.

A trama começa em 1965, quando duas adolescentes, Sylvia (Ellen Page) e Jennie Likens (Hayley McFarland) são deixadas por seus pais, artistas de circo, na casa da praticamente desconhecida Gertrude Baniszewski (Catherine Keener) - mãe de seis filhos que se oferece para cuidar das meninas por um tempo mediante o pagamento de vinte dólares por semana. Aceitando a generosa oferta como forma de viajarem e tentarem consertar um casamento em crise, Lester (Nick Searcy) e Betty (Romy Rosemont) partem, confiando nos talentos de Gertrude como mãe e dona-de-casa. O que eles não sabem, porém, é que ela não é tão perfeita como parece: doente crônica e com uma vida amorosa no mínimo complicada - com romances com homens mais jovens que a exploram financeiramente - a extremosa mãe na verdade é uma mulher à beira de um ataque de nervos - o que fica evidente quando o primeiro pagamento dos Likens chega atrasado e ela surra violentamente as duas hóspedes. A situação vai se complicando quando sua filha mais velha, Paula (Ari Grainor), se descobre grávida do namorado casado e, para desviar a atenção, acusa Sylvia de inventar rumores a seu respeito. Dotada de uma fúria incontrolável, Gertrude inicia uma série de cruéis sessões de tortura com a menina, envolvendo nisso não apenas todos os seus filhos mas também alguns jovens da vizinhança - que passam a visitar Sylvia como se fosse um animal do zoológico e participar dos atos de violência, que incluem abuso sexual, agressões físicas e até uma tatuagem feita com ferro quente.


Não é uma história fácil de contar e muito menos agradável, mas é louvável como o cineasta consegue fugir da morbidez excessiva e dos exageros de uma narrativa gráfica demais. Mesmo sem amenizar o sofrimento de Sylvia - que, segundo consta nos autos do processo, que inspiraram o roteiro, foi ainda mais profundo - O'Haver poupa a plateia o máximo possível, preferindo construir um clima de claustrofobia e injustiça acima da necessidade de explicitar com imagens o tamanho das barbaridades impostas à jovem protagonista. Sugerindo mais do que mostrando, o diretor atinge um nível ainda maior de tensão e desespero, convidando cada um dos espectadores a mergulhar em um mundo repleto de crueldade que só não é completamente inacreditável porque realmente aconteceu. Sem tentar dourar a pílula ou justificar os atos de Gertrude ao culpar seus problemas emocionais e financeiros como principal responsável pela tragédia, o roteiro consegue ainda assim dar um certo ar humano à odiosa personagem, principalmente por contar com a presença de Catherine Keener no papel: evitando a compaixão fácil ou a monstruosidade gratuita, a atriz duas vezes indicada ao Oscar de coadjuvante - por "Quero ser John Malkovich" (99) e "Capote" (2005) - apavora só de aparecer na tela, com seu olhar frio e jeito calmo de falar, que contrastam com o turbilhão de sua mente. Ellen Page não fica atrás: sua Sylvia é de uma fragilidade de porcelana, o que torna tudo ainda mais imperdoável e inexplicável - a não ser quando se leva em conta que a jovem talvez tenha sido vítima justamente por ser jovem, bonita e livre, coisas que sua mãe postiça não mais era capaz de ser.

Contando em um acertado tom de drama familiar que vai se transformando aos poucos em um pesadelo de tons acentuadamente mais fortes a cada cena, "Um crime americano" peca apenas por sua falta de ousadia visual: com uma fotografia discreta quase ao ponto da invisibilidade e uma reconstituição de época cuidadosa mas igualmente simples, o filme de O'Haver parece concentrar seu foco exclusivamente em sua trama, sem preocupar-se muito com a forma. Por vezes, seu filme parece mais uma obra realizada para a televisão do que para o cinema - culpa também da estrutura narrativa, que se utiliza do julgamento de Gertrude como ponto de apoio para uma série de flashbacks que vai, então, elucidando de forma didática os acontecimentos brutais que chocaram o país na década de 60. Amparado no trabalho iluminado de suas atrizes e de seu elenco coadjuvante - em que aparecem também James Franco como um dos namorados exploradores da mãe solteira e Evan Peters (da série "American Horror Story") como um vizinho gorducho e romanticamente interessado em Sylvia até o ponto em que o interesse se transforma em revolta - "Um crime americano" é pesado e denso, mas revela um lado obscuro do ser humano que incomoda e perturba a qualquer espectador. Um belo trabalho!

quarta-feira

CAPITÃO PHILLIPS

CAPITÃO PHILLIPS (Captain Phillips, 2013, Scott Rudin Productions/Michael De Luca Productions, 134min) Direção: Paul Greengrass. Roteiro: Billy Ray, luvro "A Captain's duty: somali pirates, Navy SEALS and dangerous days at sea", de Richard Phillips, Stephan Talty. Fotografia: Barry Ackroyd. Montagem: Christopher Rouse. Música: Henry Jackman. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Paul Kirby/Dominic Capoon. Produção executiva: Eli Bush, Gregory Goodman, Kevin Spacey. Produção: Dana Brunetti, Michael De Luca, Scott Rudin. Elenco: Tom Hanks, Catherine Keener, Barkhad Abdi, Barkhad Abdirahman, Faysal Ahmed, Mahat M. Ali, Michael Chernus, David Warshofsky, Corey Johnson, Chris Mulkey. Estreia: 27/9/13 (Festival de Nova York)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Barkhad Abdi), Roteiro Adaptado, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som

Doze anos depois de sua última indicação ao Oscar de melhor ator - pelo filme "Náufrago" - Tom Hanks tinha tudo para repetir a sensação de ver seu nome anunciado quando os indicados da Academia para os melhores de 2013 foram divulgados. Seu trabalho no filme "Capitão Phillips", dirigido por Paul Greengrass já o havia garantido nas listas do Golden Globe e do Screen Actors Guild, mas o fato é que, para surpresa de muitos - e mostrando que os eleitores cometem injustiças até mesmo com seus aparentemente queridinhos - ele acabou sendo deixado de fora (alguém realmente acha que Christian Bale estava melhor em "Trapaça"?).  Melhor que o retorno de Hanks às telas e às cerimônias de premiação em si, porém, é o fato de que todos os elogios que recebeu por seu desempenho no filme de Greengrass foram absolutamente justos. Na pele de um homem preso em uma situação extrema e de grande perigo, o duplamente oscarizado ator apresentou seu melhor desempenho em anos, em um filme dirigido com grande competência - e que acabou sendo lembrado em seis categorias, incluindo melhor filme do ano (mas não de melhor diretor, vai entender...).

Uma história real, "Capitão Phillips" se passa em 2009, quando o capitão do título - vivido por um Tom Hanks maduro e tentando deixar de lado sua marcante simpatia - inicia uma viagem com seu Maersk Alabama com o objetivo de levar comida, água e remédios para a população de Mombasa, na Somália. No meio do caminho, porém, o navio é abordado por um grupo de piratas somalianos, que não hesitam em invadir a embarcação para levar dinheiro a seu chefe. Liderados pelo violento Abduwali Muse (Barkhad Abdi), que vê na situação a chance de mostrar seu valor diante dos compatriotas, os homens exigem mais do que os marinheiros americanos possuem na embarcação, o que os leva a um tenso impasse, que resulta na fuga dos criminosos, que levam Phillips como refém e iniciam uma tensa negociação com a Marinha americana.


Dirigido com energia por Greengrass - que tem experiência em filmes de ação, como comprovam os dois últimos capítulos da trilogia Bourne estrelados por Matt Damon e o elogiado "Voo United 93", que lhe deu uma indicação ao Oscar em 2007 - e interpretado com absoluta entrega por um elenco sempre à flor da pele, "Capitão Phillips" surpreendeu nas bilheterias americanas, ultrapassando a barreira dos 100 milhões de dólares de arrecadação. Realizado por um modesto orçamento de 55 milhões (levando-se em consideração a presença de Hanks e o detalhismo da produção), o filme também colheu elogios pela atuação de Barkhad Abdi, ator somaliano que levou uma indicação à estatueta de ator coadjuvante. Estreante, Abdi - que trabalhava como motorista e nunca teve ambições de tornar-se ator - encara Hanks em confrontamentos de grande força dramática e, apesar de demonstrar sua falta de experiência, consegue manter o nível de tensão nas alturas, o que por si já é bastante difícil, principalmente se for levado em conta o fato de que muitas cenas passadas em um bote salva-vidas foram realmente filmadas em uma minúscula e claustrofóbica réplica.

Quanto à Hanks, pouco precisa ser dito. Um dos mais carismáticos astros do cinema americano em atividade, ele dá a seu Capitão Phillips a medida exata de heroísmo, humanidade e ousadia que fazem com que o papel lhe caiba como uma luva. Em um ano em que também interpretou um discreto Walt Disney no delicado "Walt nos bastidores de 'Mary Poppins'" - onde atua ao lado de Emma Thompson - ele mostrou que fazia mais falta do que parecia.

MESMO SE NADA DER CERTO

MESMO SE NADA DER CERTO (Begin again, 2013, Exclusive Media Group/Sycamore Pictures, 104min) Direção e roteiro: John Carney. Fotografia: Yaron Orbach. Montagem: Andrew Marcus. Música: Gregg Alexander. Figurino: Arjun Bhasin. Direção de arte/cenários: Chad Keith/Kris Moran. Produção executiva: Guy East, Sam Hoffman, Ben Nearn, Tom Rice, Marc Schipper, Nigel Sinclair, Molly Smith. Produção: Judd Appatow, Tobin Armsbrust, Anthony Bregman. Elenco: Mark Ruffalo, Keira Knightley, Adam Levine, James Corden, Hailee Steinfeld, Catherine Keener, Cee Lo Green. Estreia: 07/9/13 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Lost stars")

Em 2007, o cineasta John Carney conquistou o mundo com a história de um amor platônico regado à música folk e estrelado por ilustres desconhecidos: "Apenas uma vez" tornou-se cult, ganhou o Oscar de melhor canção e mostrou que nem só de grandes produções hollywoodianas vive o cinema romântico. Seis anos depois, com um orçamento um pouco mais generoso - e um elenco formado por indicados ao Oscar bem conhecidos do grande público - Carney mostrou que seu sucesso não foi apenas sorte de principiante. "Mesmo se nada der certo" é um delicioso drama romântico musical, recheado de belas canções, momentos encantadores, diálogos certeiros e personagens cativantes, capazes de deixar qualquer espectador com um enorme sorriso nos lábios ao final da sessão. E para isso não é preciso nem mesmo um único beijo na boca entre os protagonistas.

A primeira - e fascinante - cena do filme mostra a jovem inglesa Gretta (Keira Knightley) sendo praticamente obrigada a subir ao palco de um bar com música ao vivo de Nova York para mostrar uma canção de sua autoria. Quem se empolga com sua apresentação, apesar da tristeza inerente que vem da música, é Dan (Mark Ruffalo), sócio de uma gravadora independente que imediatamente propõe a ela um contrato de exclusividade. Acontece que as coisas não são exatamente como parecem, como logo ficará claro. Dan acaba de ser demitido da própria empresa, está separado da mulher, Miriam (Catherine Keener), e vive um relacionamento distante com a filha adolescente, Violet (Hailee Steinfeld). Gretta está em vias de embarcar de volta à Inglaterra, de onde saiu ao lado do namorado, Dave (Adam Levine, vocalista da banda pop Maroon 5) apenas para ser tratada como mera assistente durante a gravação de seu álbum - e pior ainda, ser trocada por outra mulher. Ambos se sentindo no pior momento de suas vidas, eles tem a ideia de gravar um disco ao ar livre, pelas ruas de Nova York, como forma de dar a volta por cima. Surge, então, uma amizade profunda, baseada na admiração e empatia.


Os acertos são muitos em "Mesmo se nada der certo": mesmo com o mísero orçamento de cerca de oito milhões de dólares - o que não paga nem a divulgação de certos blockbusters - John Carney conseguiu fazer um filme que em momento algum parece barato ou feito às pressas. A química entre Mark Ruffalo (sempre ótimo em papéis de perdedor) e Keira Knightley (em papel que quase foi parar nas mãos da cantora Adele) é excelente, e a atriz consegue até mesmo disfarçar sua tendência em fazer caras e bocas. Adam Levine sai-se muito bem no papel de Dave, ainda que não pareça que lhe tenha sido um grande desafio viver nas telas um personagem que pode muito bem ter semelhanças com sua rotina real (e a ele cabe a interpretação da bela "Lost stars", indicada ao Oscar de melhor canção). E os coadjuvantes de luxo - Catherine Keener, Hailee Steinfeld e até o colega de Levine na bancada do "The Voice" americano, Cee Lo Green - oferecem um ingrediente a mais em uma receita deliciosa.

É brilhante, por exemplo, a sequência em que Dan e Gretta caminham pelas ruas de Nova York ouvindo música pelo fone de ouvido e compartilhando seu gosto um com o outro - é uma das cenas mais românticas dos últimos anos mesmo que eles mal se toquem durante todo o tempo. E todas as cenas que mostram a gravação do álbum de Gretta pela cidade é de uma delicadeza ímpar, que mostra o extremo bom-gosto do cineasta e sua capacidade de transformar o mais simples metal em ouro puro. Essa alquimia rara é sua maior qualidade como diretor e roteirista - e a paixão que demonstra por seus personagens e pela música transcende a tela até chegar ao público, que, sem escolha, se deixa seduzir alegremente por suas histórias de recomeços e novas chances. Um filme encantador!

sábado

NA NATUREZA SELVAGEM


NA NATUREZA SELVAGEM (Into the wild, 2007, Paramount Vantage, 148min) Direção: Sean Penn. Roteiro: Sean Penn, livro de Jon Krakauer. Fotografia: Eric Gautier. Montagem: Jay Cassidy. Música: Michael Brook, Kaki King, Eddie Vedder. Figurino: Mary Claire Hannan. Direção de arte/cenários: Derek Hill/Danielle Berman, Christopher Nelly. Produção executiva: David Blocker, Frank Hildebrand, John J. Kelly. Produção: Art Linson, Sean Penn, Bill Pohlad. Elenco: Emile Hirsch, William Hurt, Marcia Gay Harden, Jena Malone, Hal Holbrook, Vince Vaughn, Catherine Keener, Kristen Stewart. Estreia: 01/9/07 (Festival de Telluride)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Hal Holbrook), Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção ("Guaranteed")

Que Sean Penn é um ator superlativo qualquer fã de cinema sabe. Mas que por detrás da persona agressiva com que ficou conhecido nos anos 80 - quando era casado com Madonna e tinha por hobby espancar paparazzi - existe um cineasta sensível e talentoso pouca gente sabia até o lançamento de "Na natureza selvagem", adaptação do livro de Jon Krakauer. Tudo bem que ele já tinha três filmes no currículo, mas pouca gente notou "Unidos pelo sangue" (91), "Acerto final" (95) e "A promessa" (01), por mais qualidades que eles tivessem. Mas foi somente com a história triste/pungente/libertadora de Christopher McCandless, jovem que abandona uma vida abastada para buscar um contato com a liberdade que só mesmo a natureza poderia lhe oferecer é que Penn carimbou de vez seu passaporte rumo ao panteão dos grandes cineastas.

Depois de um flerte de mais de uma década com a história de McCandless, Penn finalmente conseguiu o apoio da família do rapaz para realizar um dos filmes mais emocionantes e pungentes a chegar às telas dos cinemas no século XXI. Versando sobre liberdade pessoal, o amor à natureza e a importância das relações interpessoais, "Na natureza selvagem" é um espetáculo de delicadeza, inteligência e sensibilidade, valorizado por um roteiro maduro, um elenco excepcional - que consegue arrancar atuações convincentes até mesmo de Kirsten Stewart e Vince Vaughn - e uma trilha sonora que, mais do que comentar a ação, é uma personagem importante e onipresente.


Vivido por um sensacional Emile Hirsch - que ficou com o papel felizmente recusado por Leonardo DiCaprio - o jovem Christopher McCandless salta das páginas do livro de Krakauer para ganhar uma dimensão de herói moderno, um homem capaz de correr atrás de uma vida que fuja de tudo que ele sempre desprezou em relação aos pais (William Hurt e Marcia Gay Harden) e à sociedade em geral. Livrando-se dos cartões de crédito, do nome verdadeiro (e assumindo o pseudônimo de Alexander Supertramp) e das amarras de qualquer tipo de relacionamento (inclusive com a irmã com quem se dá bem, interpretada por Jena Malone), ele parte em busca da realização pessoal junto à natureza. Logicamente, sem preparo algum para tal aventura, ele passa por situações nada convencionais e bastante arriscadas, somente para descobrir, surpreso, que são as pessoas - e o carinho que surge entre elas - que dá sentido à vida. "A felicidade só é real quando compartilhada" é o que ele aprende, talvez tarde demais.

Pontuado por uma belíssima trilha sonora, composta por canções deslumbrantes de Eddie Vedder (da banda Pearl Jam) que ilustram com extraordinária perfeição as cenas captadas pelo editor de fotografia Eric Gautier e editadas com maestria por Jay Cassidy, "Na natureza selvagem" emociona por proporcionar ao espectador uma viagem para dentro de seus próprios desejos de fuga de uma realidade massacrante e muitas vezes estéril. Alexander Supertramp vive, na tela, tudo que o público sonha em realizar mas tem medo (ou acomodação em demasia). As lágrimas que brotam ao final da projeção - e elas surgem, com toda certeza - limpam a alma, espelham vontades e, mais do que tudo, são a catarse mais absoluta de que o bom cinema é capaz.

"Na natureza selvagem" é uma obra-prima. Lindo, delicado, emocionante, inesquecível. E que atire a primeira pedra quem não se arrepiar com a fantástica atuação do veterano Hal Holbrook como Ron Franz, o aposentado que se oferece para adotar o protagonista em uma cena devastadora. Para ver, rever, trever e chorar sempre.

quinta-feira

CAPOTE

CAPOTE (Capote, 2005, Columbia TriStar, 114min) Direção: Bennett Miller. Roteiro: Dan Futterman, livro de Gerald Clarke. Figurino: Adam Kimmel. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Mychael Danna. Figurino: Kasia Walicka Maimone. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Maryam Decter, Scott Rossell. Produção executiva: Dan Futterman, Philip Seymour Hoffman, Kerry Rock, Danny Rosett. Produção: Caroline Baron, Michael Ohoven, William Vince. Elenco: Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Clifton Collins Jr., Chris Cooper, Amy Ryan, Bruce Greenwood, Bob Balaban. Estreia: 30/9/05

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Bennett Miller), Ator (Philip Seymour Hoffman), Atriz Coadjuvante (Catherine Keener), Roteiro Adaptado

Em 30 de setembro de 2005, dia em que o escritor Truman Capote completaria 81 anos, estreou nas telas americanas aquele que provavelmente poderia ser um de seus maiores presentes. Com base na extensa biografia escrita por Gerald Clarke - porém limitando sua trama ao período em que ele envolveu-se de forma quase insana na criação de sua mais famosa obra, o livro "À sangue frio" - estreou o filme "Capote", que encontrou no ator Philip Seymour Hoffman sua encarnação mais perfeita. Também produtor executivo do filme, Hoffman simplesmente encarnou a personalidade polêmica do escritor/jornalista mais célebre de seu tempo, provocando um verdadeiro arrastão na temporada de premiações - que culminou com um merecido Oscar de melhor ator.

Realizado praticamente ao mesmo tempo que "Confidencial" - onde o ator Toby Jones encarnou o protagonista e Sandra Bullock desfilou sua apatia como Harper Lee - "Capote" é um filme repleto de qualidades, a começar pela direção sensível de Bennett Miller e o roteiro conciso e inteligente do também ator Dan Futterman (que depois viveria o jornalista Daniel Pearl em "O preço da coragem", ao lado de Angelina Jolie). O filme começa com o assassinato de uma família no Kansas, cometido sem motivo aparente. Subitamente interessado pela notícia, o jornalista - afeminado, excêntrico e dotado de um senso de humor muitas vezes agressivo - parte para a pequena cidade de Holcomb acompanhado da amiga escritora Harper Lee (Catherine Keener, discreta e inexplicavelmente indicada a um Oscar por seu trabalho) com o objetivo de escrever uma matéria sobre o caso. Fascinado com a tragédia, Capote fica ainda mais entusiasmado quando conhece os assassinos, em especial Perry Smith (Clifton Collins Jr., ótimo), com quem sente uma estranha conexão. Mergulhando cada vez em suas pesquisas, ele acaba decidindo escrever não mais uma matéria e sim um livro sobre o caso. O que seria apenas alguns dias de trabalho acaba se tornando quase uma obsessão de anos.



O roteiro de Futterman concentra-se bastante na relação entre Capote e Perry, o que lhe dá a chance de explorar a contento a personalidade conflitante de seu protagonista e, ao mesmo tempo, criar um paralelo interessante entre ele e um assassino que, à primeira vista, nada tem em comum com ele. A forma com que tanto o roteiro quanto a direção conduzem a narrativa é um primor de sutileza e discrição, valorizado pelo desempenho formidável de Philip Seymour Hoffman e pela surpreendentemente emotiva atuação de Clifton Collins Jr., que dá à sua personagem uma textura ainda mais contundente do que no clássico "À sangue-frio", realizado nos anos 60, com os fatos ainda quentinhos no inconsciente americano. O distanciamento temporal também ajuda à plateia a ter uma visão menos passional do tema do filme e analisar "Capote" não como um semi-documentário (como o magnífico trabalho de Richard Brooks), mas como um filme que poderia tranquilamente ser uma obra de ficção - mistura essa que o próprio escritor inaugurou na literatura, criando o gênero "romance de não-ficção".

Equilibrando-se admiravelmente entre os bastidores da realização de uma das mais importantes obras literárias americanas do século XX e o estudo da personalidade festiva e melancólica de um dos autores essenciais de sua época, "Capote" é um filme que cresce a cada revisão, graças a sua seriedade em tratar de temas complexos e à interpretação assombrosa de Phillip Seymour Hoffman, no grande papel de sua vida.

terça-feira

A INTÉRPRETE

A INTÉRPRETE (The interpreter, 2005, Universal Pictures, 128min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Charles Randolph, Scott Frank, Steven Zaillina, estória de Martin Stellman, Brian Ward. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: William Steinkamp. Música: James Newton Howard. Figurino: Sarah Edwards. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Beth A. Rubino. Produção executiva: G. Mac Brown, Anthony Minghella. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Kevin Misher. Elenco: Sean Penn, Nicole Kidman, Catherine Keener, Jesper Christensen, Yvan Attal. Estreia: 04/4/05

Depois dos sucessos comerciais de "Moulin Rouge" e "Os outros", do Oscar por "As horas" e do sucesso crítico do difícil "Dogville", a bela Nicole Kidman nem precisava provar mais nada pra ninguém. Saindo direto do set de filmagens do tenebroso "Mulheres perfeitas", ela chegou até "A intérprete", que viria a ser o último filme dirigido pelo prestigiado Sydney Pollack - e o primeiro a ser filmado dentro das dependências da sede das Nações Unidas, em Nova York. Um thriller político com inteligência acima da média, "A intérprete" também não fez feio nas bilheterias mundiais, chegando a mais de 160 milhões de dólares - contra seu custo relativamente alto de 80 milhões. Mas se consegue prender a atenção do público também não chega a ser tão brilhante quanto poderia, escorregando em uma correção política típica de sua época.

Linda como sempre, Kidman - que assinou o contrato mesmo sem ler o roteiro, depois que sua amiga Naomi Watts abriu mão dele em seu nome - vive Silvia Broome, uma talentosa intérprete das Nações Unidas que passa a correr perigo de morte depois de ouvir (sem querer) que um chefe de estado africano que está prestes a visitar os EUA em um congresso será alvo de um atentado. Posta sob a proteção do agente federal Tobin Keller (Sean Penn em um papel atípico em sua carreira), porém, Silvia passa de possível vítima a possível suspeita de estar envolvida na conspiração, uma vez que mistérios sobre seu passado vêem à tona. Recuperando-se de uma tragédia pessoal, Keller começa a se aproximar de sua protegida, mesmo sabendo que ela pode não ser tão inocente quanto alega.



O roteiro de "A intérprete" - que tem o dedo do oscarizado Steven Zaillian e do competente Scott Frank - peca principalmente por não ir mais fundo na suas possibilidades de suspense, preferindo focar sua atenção nos problemas pessoais de Keller e na sua relação com Silvia, privando o público de uma história que poderia render bem mais se tivesse se concentrado na trama política e no suspense - algo que "O pacificador", também estrelado por Kidman, fez com maestria. Sempre que Pollack dirige sua atenção para cenas de tensão - o que felizmente acontece algumas vezes - seu filme cresce, dando ao espectador momentos de grande impacto emocional. É o que acontece, por exemplo, quando Silvia embarca em um ônibus onde o potencial alvo dos terroristas se encontra: são minutos construídos com inteligência singular que faz lembrar o Pollack do conceituado "Três dias de Condor", filme de 1975 estrelado por Robert Redford e Faye Dunaway que virou referência no gênero.

Mas é preciso, acima de tudo, louvar "A intérprete" por sua coragem em ser discreto, elegante e inteligente, ao rejeitar a receita cenas de ação + sangue + efeitos visuais. Com sua sutileza característica, Pollack oferece à audiência um espetáculo que mexe mais com o cérebro do que a maioria dos filmes do gênero, onde a violência é tanta que nem chega a incomodar. Se a química entre Kidman e Penn é quase inexistente a despeito de seu enorme talento isso não se torna um problema maior porque a história contada independe de sua relação. São os segredos e angústias de Silvia Broome que interessam ao espectador e Kidman sai-se muito bem mais uma vez em conquistar o público. No final das contas, o último filme de Pollack cumpre seu papel com louvor e deixa saudade de um cineasta que legou ao mundo grandes obras.

quinta-feira

QUERO SER JOHN MALKOVICH


QUERO SER JOHN MALKOVICH (Being John Malkovich, 1999, Gramercy Pictures, 112min) Direção: Spike Jonze. Roteiro: Charlie Kaufman. Fotografia: Lance Acord. Montagem: Eric Zumbrunnen. Música: Carter Burwell. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Charlie Kaufman, Michael Kuhn. Produção: Steve Golin, Vincent Landay, Sandy Stern, Michael Stipe. Elenco: John Cusack, Catherine Keener, Cameron Diaz, John Malkovich, Mary Kay Place, Charlie Sheen. Estreia: 29/10/99

3 indicações ao Oscar: Diretor (Spike Jonze), Atriz Coadjuvante (Catherine Keener), Roteiro Original


Quando se diz que um filme é bizarro a imagem que normalmente vem à mente é a de alguma cena criada pelo Monthy Phyton - grupo inglês capaz de contar as piadas mais surreais de maneira mais simples. No entanto, depois de apenas alguns minutos de "Quero ser John Malkovich", o conceito de bizarro no cinema atinge um novo patamar. Disparado o dono do roteiro mais tresloucado do final do milênio, o filme do então estreante Spike Jonze (egresso dos videoclipes e visto como ator em "Três reis") passa longe do trivial e, se assusta uma parcela do público ao negar-se a concessões comerciais, imediatamente marca seu lugar como uma das mais alvissareiras estreias do cinema americano de todos os tempos.

John Cusack, desgrenhado e fugindo como o diabo da cruz de um visual de galã vive Craig Schwartz, um rapaz desempregado que tenta ganhar a vida com seus impressionantes shows de marionetes. Casado com Dotty (uma Cameron Diaz irreconhecível), uma amante incondicional de animais, ele vive uma vida sem graça até que encontra trabalho como arquivista em uma empresa localizada no 7 ½ andar (!!) de um prédio comercial. Encantado com Maxine (Catherine Keener), uma colega de trabalho, ele tem sua existência transformada ao descobrir, sem querer, um portal que dá diretamente no cérebro do ator John Malkovich. Unindo-se à ambiciosa Maxine, ele começa a cobrar 200 dólares por pessoa que queira passar 15 minutos dentro da mente do ator – e depois ser jogado à beira de uma rodovia em Nova Jérsei. As coisas se complicam para ele quando sua mulher também entra no cérebro de Malkovich, descobre que sempre quis ser um homem – e se apaixona por Maxine.


Não há nenhuma linha do roteiro delirante de Charlie Kaufman que seja convencional, banal ou previsível. Desde os diálogos surreais - o documentário sobre a criação do 7 1/2º andar beira a perfeição de um pesadelo - até os cenários inacreditáveis, tudo no filme de Jonze clama por atenção. Até mesmo a participação do próprio John Malkovich em cenas pretensamente constrangedoras mostram que se está diante de um diretor e de um roteirista sem medo de embarcar em uma jornada sem precedentes em termos de humor. A coragem do elenco também é notável - em especial uma horrenda Cameron Diaz - e a participação especial de nomes como Sean Penn e David Fincher apenas reitera o nível de qualidade de um filme que jamais busca a risada fácil.

"Quero ser John Malkovich" é um dos filmes essenciais do final da década de 90, por sua criatividade, sua inteligência e por oferecer à plateia muito mais do que comédias simples oferecem a cada lançamento. Pode não agradar a todo mundo, mas ninguém pode acusá-lo de ser comum.

sexta-feira

IRRESISTÍVEL PAIXÃO

IRRESISTÍVEL PAIXÃO (Out of sight, 1998, Universal Pictures, 123min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Scott Frank, romance de Elmore Leonard. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Anne V. Coates. Música: David Holmes. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Gary Frutkoff/Maggie Martin. Produção executiva: Barry Sonnenfeld, John Hardy. Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: George Clooney, Jennifer Lopez, Ving Rhames, Don Cheadle, Catherine Keener, Steve Zahn, Dennis Farina, Albert Brooks, Luis Guzman, Viola Davis. Estreia: 26/6/98

2 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Montagem

Em 1998, o escritor norte-americano Elmore Leonard estava na crista da onda. Barry Levinson havia dirigido "O nome do jogo", elogiado pela crítica e premiado com um Golden Globe. O cultuado Quentin Tarantino tinha realizado "Jackie Brown" baseado em seu romance "Run Punch" e feito um trabalho excepcional. Para completar o quadro só faltava mesmo um diretor cult: Steven Soderbergh, premiado em Cannes com seu "sexo, mentiras e videotape" em 1988 deu às tramas de Leonard a sofisticação que faltava ao humor negro de Levinson e à violência de Tarantino. "Irresistível paixão" é um policial romântico com alto grau de sensualidade, tudo graças à química impecável entre Jennifer Lopez e George Clooney.

Jack Foley (vivido com o charme habitual de Clooney, exercitando seu lado Cary Grant anos 90) é um assaltante de bancos profissional. Durante uma fuga de uma de suas condenações, ao lado de seu parceiro de todas as horas, Buddy Bragg (Ving Rhames), ele acaba ficando preso no porta-malas de um carro junto com Karen Sisco (a belíssima Lopez, melhor atriz do que se poderia esperar), uma agente do FBI que estava na penitenciária por acaso. Surge uma atração irresistível entre eles, mas logicamente eles se afastam sem consumar o desejo nascido de maneira tão absurda. Sem conseguir esquecer um do outro, eles vêem seus caminhos novamente cruzados quando, no processo de dar um de seus grandes golpes, Foley esbarra novamente em Karen, que, fascinada, se divide entre os novos sentimentos e os deveres profissionais.



Não é preciso ser um expert em cinema para perceber que "Irresistível paixão" foge dos padrões habituais do cinema policial. Primeiro, não há um herói típico, de moral ilibada e incorruptível. Depois, o mocinho é um criminoso, apesar de esbanjar charme e não abusar da violência. E por fim, em muitos momentos a plateia se vê torcendo por ele e por seu romance complicado com a policial. Além disso, o filme de Soderbergh deita e rola em uma edição inteligente, que privilegia as idas e voltas do roteiro, deixando o público sempre à espera dos próximos acontecimentos (que além de tudo são bastante imprevisíveis). E além da trama divertida e envolvente, o cineasta mostra-se, mais uma vez, um exímio diretor de atores, todos eles fantásticos (com a exceção, novamente, de Michael Keaton, que repete sua atuação pifia de "Jackie Brown" na pele do mesmo policial Ray Nicolette).

O elenco coadjuvante de "Irresistível paixão" é um de seus maiores trunfos. Um irreconhecível Albert Brooks vive um milionário que, depois de passar uma temporada na prisão, torna-se uma vítima em potencial das armações de Foley; Don Cheadle brilha como o marginal Maurice Miller e Steve Zahn volta a divertir a audiência como o atrapalhado Glenn Michaels. Mas não há como falar do filme sem que venha imediatamente à mente o excelente trabalho de sua dupla central. Linda, sensual e convincente mesmo como uma policial, Jennifer Lopez tem aqui um dos maiores destaques de sua carreira. E Clooney aproveita a desenvoltura da parceira para construir um Jack Foley que ele mesmo considera uma de suas melhores atuações.

"Irresistível paixão" é um divertido entretenimento de classe e categoria. Inteligente, sarcasticamente engraçado e absolutamente sexy, é um filme que, apesar da bilheteria decepcionante, merece ser descoberto e aplaudido por sua criatividade e por seu elenco impecável.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...