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sexta-feira

OS VINGADORES


OS VINGADORES (The Avengers, 2012, Marvel Studios/Paramount Pictures, 143min) Direção: Joss Whedon. Roteiro: Joss Whedon, estória de Joss Whedon, Zak Penn. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Jeffrey Ford, Lisa Lassek. Música: Alan Silvestri. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: James Chinlund/Victor J. Zolfo. Produção executiva: Victoria Alonso, Louis D'Esposito, Jon Favreau, Alan Fine, Jeremy Latcham, Stan Lee, Patricia Whichter. Produção: Kevin Feige. Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Clark Gregg, Cobie Smulders, Stellan Skarsgaard, Samuel L. Jackson, Gwyneth Paltrow. Estreia: 04/5/2012

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais 

Primeiro filme da Marvel a ultrapassar a inacreditável marca de 1 bilhão de dólares nas bilheterias, "Os Vingadores" foi a coroação, sem espaço para dúvidas, de um projeto iniciado em 2008 com "Homem de ferro" - e que, por quatro anos, dominou o mercado do cinema comercial hollywoodiano. Com um orçamento estratosférico de estimados 220 milhões de dólares e um elenco repleto de indicados e vencedores do Oscar, o filme de Joss Whedon - diretor de episódios de séries de TV alçado à tela grande em uma prova de fogo - levou multidões às salas de exibição ao elevar à máxima potência uma receita com poucas chances de erro. Com um marketing agressivo que tornava impossível ignorar sua presença maciça e uma contagem regressiva que contava com outros cinco longas-metragens muito bem sucedidos financeiramente, a produção entregou a seu público-alvo exatamente o que ele esperava. Mas, para além disso, é um filme satisfatório ou apenas mais uma peça mercadológica esquecível e fugaz?

Logicamente quem vai ao cinema assistir a "Os Vingadores" não tem a menor intenção de testemunhar uma revolução narrativa ou estética, e vendo por esse prisma o filme de Joss Whedon é um sucesso: tudo que surge na tela é milimetricamente planejado para seguir a cartilha dos filmes de ação, estabelecendo com extrema clareza os dois opostos - bem e mal - e honrando seu orçamento em sequências espetaculares que renderam uma indicação ao Oscar de efeitos visuais. Sem precisar apresentar seus protagonistas - coisa que os cinco filmes anteriores já fizeram com êxito -, o roteiro, escrito pelo próprio diretor, utiliza boa parte de suas quase duas horas e meia para contar uma história (exagerada e inverossímil como se poderia esperar) através de explosões (pouco excitantes), lutas (bem coreografadas) e piadas (algumas inteligentes, outras apenas razoáveis). Com um elenco à vontade e entrosado, Whedon conduz uma sinfonia de destruição, onde a trama importa menos que o barulho, mas o faz com uma convicção tão plena que é difícil não se deixar envolver. Pode soar cansativo para aqueles menos entusiastas, porém alcança um patamar dos maiores dentro do gênero - principalmente em termos comerciais.

 


A trama de "Os Vingadores" tem ligação direta com as histórias dos primeiros filmes do universo criado pela Marvel, especialmente "Thor" (2011): o irmão do herdeiro do trono de Asgard, o invejoso Loki (Tom Hiddleston) chega à Terra e, com o objetivo de dominar o planeta, rouba o Tesseract - artefato alienígena de poder ilimitado - de dentro das instalações da S.H.I.E.L.D.. Com a ajuda do exército de uma raça conhecida como Chitauri, seu plano começa a incomodar Nick Fury (Samuel L. Jackson), o diretor da agência, que parte então para o ataque e reúne o maior grupo de super-heróis do mundo para evitar o pior. O encontro entre o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), o Capitão América (Chris Evans), o cientista Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo), Thor (Chris Hemsworth), a Viúva Negra (Scarlett Johansson) - e depois o Arqueiro Verde (Jeremy Renner) - precisa de ajustes, mas, ao deixar de lado suas diferenças, formam um time que irá salvar a humanidade de uma ameaça devastadora.

Último capítulo da primeira fase do Universo Cinematográfico Marvel, "Os Vingadores" é um filme-pipoca assumido, sem nenhuma intenção a não ser oferecer o mais puro entretenimento a sua plateia, que o aprovou sem ressalvas. Justiça seja feita, tem qualidades notáveis, especialmente no que diz respeito a seu elenco: todos, sem exceção, parecem se divertir a valer com seus personagens, e muitos deles fogem de respeitáveis carreiras de prestígio para se entregarem à mais lúdica das brincadeiras. Plenamente satisfatório dentro de seus objetivos, é um nítido produto de marketing, mas que ao menos respeita seus fãs e tenta conquistar espectadores menos afeitos ao gênero. Lançado quando ainda não havia um certo desgaste em sua fórmula, jogou à estratosfera as expectativas para os filmes subsequentes - nem todos tão bem recebidos quanto ele.

terça-feira

À BEIRA DO ABISMO

 


À BEIRA DO ABISMO (Man on a ledge, 2012, Summit Entertainment/Di Bonaventura Pictures, 102min) Direção: Asger Leth. Roteiro: Pablo F. Fenjves. Fotografia: Paul Cameron. Montagem: Kevin Stitt. Música: Henry Jackman. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Alec Hammond/Chryss Hionis. Produção executiva: Jane Myers, David Ready. Produção: Lorenzo di Bonaventura, Mark Vahradian. Elenco: Sam Worthington, Elizabeth Banks, Jamie Bell, Edward Burns, Ed Harris, Kyra Sedgwick, Anthony Mackie, William Sadler, Genesis Rodriguez, Titus Welliver. Estreia: 26/01/2012

Às vezes tudo que um fã de filmes policiais precisa é de uma trama despretensiosa, com um bom ponto de partida, um elenco de bons atores e, se possível, uma ou mais reviravoltas (que nem precisam fazer todo o sentido do mundo).  "À beira do abismo" oferece tudo isso, e, mesmo sem ter feito muito barulho nas bilheterias, cumpre exatamente o que promete. Mesmo que o roteiro não se esquive de clichês e a direção do dinamarquês Asger Leth nunca ultrapasse o status de correta, o resultado final não decepciona a quem procura uma sessão descompromissada e que prescinde de efeitos visuais milionários para envolver as plateias. Estrelado pelo então ascendente Sam Worthington - saído do sucesso de "Avatar" (2009) e a meses de liderar o elenco do remake de "Fúria de titãs" (2012) -, "À beira do abismo" é a prova de que o trivial frequentemente pode ser bastante eficaz.

A primeira cena do filme mostra um homem de cerca de 30 anos, chamado Walker, se hospedando no 21º andar de um hotel de Nova York. Depois de pedir uma farta - e cara - refeição, ele limpa todas as impressões digitais do quarto e simplesmente se dirige ao parapeito, com o claro objetivo de se jogar. Para que isso não aconteça (ou ao menos que seja adiado), ele pede a presença de Lydia Mercer (Elizabeth Banks), experiente em negociar com suicidas, que acaba de sair de uma situação traumática com vítimas. O que nem Lydia nem o encarregado do caso, Jack Dougherty (Edward Burns), sabem é que o tal homem se chama, na verdade, Nick Cassidy, e é um ex-policial que, condenado pelo roubo de um valiosíssimo diamante, fugiu do presídio depois do funeral do pai e tem o objetivo de provar sua inocência. Mais do que isso, durante o processo de negociação, acontece o roubo a uma joalheria de propriedade do milionário David Englander (Ed Harris), que também está em vias de apresentar à cidade um ambicioso projeto imobiliário. Será que os três fatos tem relação? Por que Cassidy escolheu justamente Mercer para tentar impedí-lo de jogar-se do prédio? E qual o plano do jovem Joey (Jamie Bell) para invadir silenciosamente a joalheria de Englander?

 

As respostas vão surgindo aos poucos, nem sempre de forma sutil, mas sempre de modo a empurrar adiante a história, como manda o manual dos roteiros de Hollywood. Boa parte dos segredos são desvelados antes mesmo da metade da sessão, que se dedica então a cenas de ação dirigidas com certa competência pelo dinamarquês Asger Leth, cujo currículo contava apenas com o documentário "Os fantasmas de Cité Soleil" (2006): nessa segunda fase, o filme abandona a narrativa fragmentada que havia adotado (com interessantes e empolgantes flashbacks) para abraçar com vontade o subgênero "filmes de golpe". Nem tudo funciona - o personagem de Ed Harris por vezes soa deslocado -, mas consegue manter o ritmo de forma admirável. Ecoando situações de "Um dia de cão" (1975) - as testemunhas populares como parte da ação, a cobertura midiática - e do clássico "Horas intermináveis" (1951), de Howard Hawks - a ideia central, tirada de uma reportagem sobre um caso de suicídio ocorrido em 1938 -, "À beira do abismo" ganha pontos ao não cair na armadilha de tentar ser engraçado (ainda que as interações entre Jamie Bell e Genesis Rodriguez sejam recheadas de falas de duplo sentido) e conquistar o público com um tom adulto que tampouco apela à violência tão comum no cinema policial.

A discrição da direção de Leth também é responsável por extrair de seu elenco desempenhos firmes - ainda que não exatamente memoráveis. Sam Worthington sai-se bem com um protagonista que não depende de efeitos digitais, mesclando força e fragilidade nas medidas adequadas, enquanto o jovem Jamie Bell destaca-se em um papel de anti-herói e Elizabeth Banks (em papel que quase ficou com Amy Adams) tem o carisma necessário para segurar dividir as principais cenas com Worthington sem parecer coadjuvante. É de lamentar apenas a forma como Ed Harris e Kyra Sedgwick (como a repórter Suzie Morales) são subaproveitados - especialmente Kyra, cuja personagem poderia ter rendido ótimos momentos. Tais pequenos problemas, no entanto, não chegam a atrapalhar a diversão. "À beira do abismo" é um entretenimento bastante decente, que deixa claro o potencial de seu ator central para além dos limites de Pandora.

sexta-feira

HELENO: O PRÍNCIPE MALDITO

 


HELENO: O PRÍNCIPE MALDITO (Heleno: O príncipe maldito, 2012, Downtown Filmes, 116min) Direção: José Henrique Fonseca. Roteiro: Felipe Bragança, Fernando Castets, José Henrique Fonseca, colaboração de L.G. Bayão, Roberto Ceuninck. Fotografia: Walter Carvalho. Montagem: Sérgio Mekler. Música: Berna Ceppas. Figurino: Rita Murtinho, Valeria Stefani. Direção de arte: Marlise Storchi. Produção executiva: Beto Bruno, Eliane Ferreira. Produção: José Henrique Fonseca, Eduardo Pop, Rodrigo Santoro, Rodrigo Teixeira. Elenco: Rodrigo Santoro, Alinne Moraes, Angie Cepeda, Othon Bastos, Erom Cordeiro, Herson Capri. Estreia: 30/3/2012

Décadas antes que jogadores de futebol se tornassem notícia mais por seus escândalos fora de campo do que por seu desempenho profissional - o que de certa forma já faz parte do cotidiano de quem acompanha o esporte -, um atleta talentoso e ídolo absoluto da torcida ilustrava páginas de jornais por seus ataques de estrelismo, suas rumorosas noitadas regadas a mulheres, álcool e drogas... e, nas horas vagas, por jogadas geniais que o marcaram indelevelmente no imaginário dos fãs. Heleno de Freitas, nascido em 1920 e morto em 1959 - com apenas 39 anos de idade - foi o maior ídolo alvinegro antes de Garrincha e um dos maiores artilheiros da história do Botafogo, além de formar, em 1945, junto com Zizinho, Jair da Rosa Pinto Tesourinha e Ademir de Menezes, um quinteto de ataque considerado como o melhor jamais escalado para a Seleção Brasileira. Suas façanhas profissionais, no entanto, por mais importantes, foram ofuscadas por seu comportamento errante nos bastidores - e sua luta contra os próprios demônios é o foco de "Heleno: o príncipe maldito", estupendo retrato de sua glória e decadência, sob a lente do cineasta José Henrique Fonseca e com a presença hipnotizante de Rodrigo Santoro no papel-título.

Heleno de Freitas não era um jogador de futebol comum. Filho do dono de um cafezal que também tinha negócios com papel e chapéus, tinha amigos na alta sociedade carioca, além de conviver com juristas, diplomatas e empresários. Formado em Direito pela UFRJ, foi descoberto quando jogava futebol na praia e tornou-se ídolo do Botafogo assim que chegou ao time, em 1940. Objeto de uma das maiores transações financeiras do futebol da época, chegou a jogar na Argentina antes de retornar ao Brasil - pelo Vasco da Gama - e dedicar seus últimos anos de carreira pulando de time em time (e arrumando problemas em todos eles). Casado com a bela Ilma (que no filme foi rebatizada como Sílvia e encontrou uma intérprete fabulosa em Alinne Moraes), Heleno nunca abandonou a boemia, as mulheres e os vícios em álcool e drogas como éter e lança-perfume - uma vida desregrada que cobrou um preço alto: internado em um sanatório nos últimos anos de sua vida, o ex-jogador viu a sífilis destruir completamente sua saúde física e mental, sofrendo de alucinações até seus momentos finais. 

Um dos produtores do filme, Santoro mais uma vez se entrega de corpo e alma, construindo um Heleno de Freitas sedutor e autodestrutivo na mesma medida, um homem capaz de encantar torcedores com a mesma desenvoltura com que passava as noites envolvido com todo tipo de excessos. Indo além da mera transformação física - que enfatiza o contraste entre seu auge como atleta e seu declínio como vítima de sífilis -, o ator busca a empatia do público através de uma atuação que evita ao máximo os clichês e encontra brechas emocionas mesmo tendo em mãos um personagem facilmente detestável. Poucos atores conseguiriam angariar simpatia para alguém tão arrogante e autocentrado, mas Santoro se aproveita de seu carisma e experiência para amenizar as características negativas de um anti-herói que era a cara de seu tempo. Sua química com Alinne Moraes (belíssima e sempre ótima atriz) amplia ainda mais o alcance catártico proposto pelo roteiro, que se sobressai como uma das mais dignas e bem cuidadas cinebiografias nacionais, enquanto foge da armadilha de um tema ainda pouco explorado a contento no cinema brasileiro, o futebol. E mesmo quando se propõe a investigar a maior paixão nacional, o filme de Fonseca não faz feio: graças à espetacular fotografia em preto-e-branco de Walter Carvalho e à edição precisa de Sérgio Mekler, "Heleno" é praticamente uma experiência imersiva, que simplesmente coloca o espectador no meio do gramado, acompanhando seu protagonista em decisivos momentos da carreira. São momentos em que a técnica se sobrepõe à emoção - e é impossível não se deixar conquistar pelo talento do cineasta em unir os dois extremos, especialmente quando são contrapostos de forma inteligente e elegante, com o auxílio luxuoso da maquiagem do mexicano Martin Macias Trujillo.

"Heleno" é um filme repleto de qualidades - técnicas e dramáticas. Isso não significa, porém, que não tem pequenos defeitos - que não comprometem o resultado final, mas o impedem de ser uma obra-prima. O excesso de vai-e-voltas do roteiro, por exemplo, atrapalha o ritmo - mas, ao mesmo tempo, sublinha a diferença entre o apogeu e a queda do jogador. A linha do tempo também não chega a ser exatamente clara, e quem não conhece detalhes e cronologia da história do atleta corre o risco de ficar perdido - mesmo que o roteiro tente ser o mais didático possível sem interromper o fluxo narrativo. Apesar disso, o visual deslumbrante e o elenco impecável - até mesmo nos menores papéis - comprovam o apurado senso estético e artístico de José Henrique Fonseca - filho do escritor Rubem Fonseca e com os ótimos "Traição" (1998) e "O homem do ano" (2003) no currículo. Um exemplo inequívoco das potencialidades do cinema brasileiro, "Heleno: o príncipe maldito" é também um ponto alto na carreira de Rodrigo Santoro.

domingo

CELESTE E JESSE PARA SEMPRE


CELESTE E JESSE PARA SEMPRE (Celeste & Jesse forever, 2012, Envision Media Arts/Team Todd/PalmStar Media, 92min) Direção: Lee Toland Krieger. Roteiro: Rashida Jones, Will McCormack. Fotografia: David Lanzenberg. Montagem: Yana Gorskaya, Jonathan Melin. Música: Zach Cowie, Sunny Levine. Figurino: Julia Caston. Direção de arte/cenários: Ian Phillips/Joseph Oxford. Produção executiva: Kevin Frakes, Rashida Jones, Will McCormack. Produção: Lee Nelson, Jennifer Todd, Suzanne Todd. Elenco: Rashida Jones, Andy Samberg, Elijah Wood, Will McCormack, Emma Roberts, Chris Messina, Chris Pine. Estreia: 20/01/2012 (Festival de Sundance)

Celeste e Jesse nasceram um para o outro. Amigos desde a escola, se descobriram almas gêmeas, se apaixonaram, se casaram e pareciam destinados a viverem felizes para sempre. Mas a vida é real e de viés, e como o amor nem sempre é o bastante, Celeste e Jesse estão se divorciando - principalmente porque ela não vê no marido a menor disposição de amadurecer e tornar-se o que ela considera um homem de verdade, digno de ser o pai de um filho seu. Apesar da separação, porém, Celeste e Jesse continuam grudados, morando praticamente juntos (ele ainda vive no estúdio nos fundos da casa dela) e enervando os amigos, que não se conformam com sua relação sui generis. A aparente tranquilidade entre Celeste e Jesse - que poderiam facilmente viver no limbo entre casamento e divórcio para o resto da vida - é quebrada, no entanto, quando o rapaz descobre que uma noite casual de sexo (quando já estava novamente solteiro) terá consequências bem mais sérias do que ele poderia esperar: subitamente, o infantil Jesse está em vias de tornar-se pai, e a exigente Celeste passa a questionar se a separação era o que ela realmente queria. Em crise no trabalho como analista de tendências e vendo o ex-marido avançando na carreira que deixava de lado durante seu relacionamento, ela tenta reconstruir a vida - mas talvez a missão não seja tão fácil quanto ela julgava.

Só de começar justamente pelo fim de um relacionamento - contrariando as regras das comédias românticas hollywoodianas e apostando na melancolia mais do que no encantamento -, "Celeste e Jesse para sempre" já merece ser aplaudido entusiasticamente. Porém, mais do que essa relativa ousadia da atriz e roteirista Rashida Jones (cansada da mesmice do gênero e disposta a enxergar os relacionamentos amorosos por ângulos menos óbvios), o filme estrelado pela própria Jones e por Andy Samberg (antes do estouro da série "Brooklyn Nine-nine") oferece ao público uma gama variada de sentimentos, que vão das risadas resultantes de piadas visuais e verbais e referências pop a algumas discretas lágrimas. Ao criar protagonistas críveis e dotados de falhas que os aproximam profundamente do espectador, o roteiro foge da idealização estéril das histórias de amor cinematográficas para entregar um sensível e (por que não?) incômodo estudo sobre relações humanas. Longe de ser um mergulho denso e sufocante ao estilo Ingmar Bergman, o filme de Lee Toland Krieger - que posteriormente assinaria episódios de séries como "Modern love", "Riverdale" e "Você" - é um exemplar típico do cinema independente norte-americano do começo dos anos 2000, como ""(500) dias com ela" (2009), de Marc Webb, com suas histórias agridoces e simpáticas dispostas a subverter um dos gêneros mais queridos e tradicionais de Hollywood. Distantes da aparência artificial dos símbolos sexuais que frequentam os romances açucarados realizados dentro dos domínios dos grandes estúdios, Jones e Samberg ainda tem a vantagem de serem excelentes intérpretes, dando consistência e veracidade a diálogos dolorosos (e também a outros, mais leves e menos marcantes).

 

"Celeste e Jesse para sempre" talvez deva muito de seu frescor e sua verdade ao fato de ter sido inspirado (muito livramente) no relacionamento dos dois roteiristas, Jones e Will McCormack (que marca presença no filme como um amigo do casal central): toda vez que o roteiro se concentra na relação dos protagonistas e deixa de lado as tramas paralelas desnecessárias (a estrelinha pop que remete a cantoras ao estilo Britney Spears, o amigo gay vivido por Elijah Wood) o filme alcança tons bem mais interessantes e sólidos. Mesmo que o humor por vezes soe um tanto deslocado (mas nunca vulgar ou pastelão em excesso), o equilíbrio entre drama e comédia é certeiro, permitindo ao público respiros aliviados enquanto acompanha as desventuras amorosas de um par que, perceptivelmente, funciona muito mais na teoria que na prática. É um toque de mestre dos roteiristas mostrar que Celeste e Jesse se amam mas estão, apesar de tanta sintonia em determinados pontos, em frequências diferentes no que mais importa - um detalhe crucial que é o algoz de seu relacionamento. Não há certo ou errado na situação (ainda que ela imprima um tom mais duro do que o simpático e quase bobalhão ex-marido) e justamente por isso as coisas funcionem tão bem a maior parte do tempo. É fácil dar razão à Celeste quando ela reclama da falta de ambição de Jesse, assim como não é difícil ficar ao lado dele quando ela resolve perceber que o ama justamente quando ele está finalmente tentando progredir emocionalmente.

São vários os momentos marcantes de "Celeste e Jesse para sempre": a constatação de Jesse que terá um filho e não será com a mulher que ama; o duro diálogo do ex-casal no meio da rua; o discurso de Celeste no casamento de uma amiga. São momentos que emocionam e tocam fundo no espectador - e que provavelmente foram responsáveis para que John Lasseter chamasse a dupla de roteiristas para criar a trama de "Toy story 4" (2019). Simples e complexo ao mesmo tempo (exatamente como a vida), o filme é uma comédia romântica sem açúcar - mas com personagens apaixonantes em suas falhas e equívocos. Uma pérola que comprova o talento de Rashida Jones atrás das câmeras e de Andy Samberg longe de sua tradicional persona boba. Para ver e rever de tempos em tempos.

A MULHER DE PRETO

A MULHER DE PRETO (The woman in black, 2012, Hammer Films/Cross Creek Pictures, 95min) Direção: James Watkins. Roteiro: Jane Goldman, romance de Susan Hill. Fotografia: Tim Maurice-Jones. Montagem: Jon Harris. Música: Marco Beltrami. Figurino: Keith Madden. Direção de arte/cenários: Kave Quinn/Niamh Coulter. Produção executiva: Tobin Armbrust, Neil Dunn, Guy East, Roy Lee, Xavier Marchand, Marc Schipper, Nigel Sinclair, Tyler Thompson. Produção: Richard Jackson, Simon Oakes, Brian Oliver. Elenco: Daniel Radcliffe, Ciarán Hinds, Janet McTeer, Shaun Dooley, Mary Stockley. Estreia: 03/02/12

Vultos assustadores. Ruídos inesperados. Mansões abandonadas. Brinquedos que funcionam sozinhos. Trágicas e inexplicáveis mortes de crianças. E uma atmosfera arrepiante. Com esses elementos tão caros aos clássicos filmes de terror, "A mulher de preto" chegou aos cinemas como uma bela homenagem às antigas produções inglesas da produtora Hammer (não por acaso uma das responsáveis por seu lançamento). Primeiro filme do ator Daniel Radcliffe depois do fim de seu compromisso com a série "Harry Potter", a adaptação do romance de Susan Hill - que já havia dado origem a um telefilme de 1989 - tem todos os ingredientes necessários para uma experiência inesquecível, mas acaba esbarrando justamente na sua falta de ousadia em fugir do óbvio e dos clichês. É uma produção que segue à risca todas as regras há muito estabelecidas - e consagradas junto aos fãs do gênero -, mas que carece de um sabor a mais, que o faça ultrapassar a média. Mesmo assim, não deixa de ser um entretenimento de extrema qualidade técnica e, o que é mais importante, que se leva a sério.

Nadando contra a corrente do cinema de terror contemporâneo, que não resiste a apelar para a autoironia ou a piadas sem graça, "A mulher de preto" convida a plateia em visitar um universo que fez a glória de estúdios como a própria Hammer e a Universal. Com um cuidadoso trabalho de reconstituição de época e ambientação - para o que colaboram muito a fotografia acinzentada de Tim Maurice-Jones e a trilha sonora caprichada de Marco Beltrami -, o segundo longa do diretor James Watkins tem a elegância de um horror vitoriano somado com a sofisticação de um orçamento relativamente generoso de 17 milhões de dólares (muito bem recompensado com uma renda mundial de mais de 125 milhões, em grande parte graças à presença de Radcliffe no elenco). Milimetricamente calculado para impressionar o espectador com seu visual e fisgá-lo com sustos nas horas certas - além de jamais descuidar da trama e mantê-la coerente dentro de seu contexto - o filme dificilmente irá decepcionar aos admiradores de histórias de fantasmas, por respeitar suas regras e tratá-las com inteligência e sobriedade.


Um talvez jovem demais Daniel Radcliffe vive o personagem principal, o advogado Arthur Kipps, traumatizado pela morte precoce da esposa no parto de seu único filho. Escalado por seu patrão para realizar um trabalho fora de Londres, ele vai, a contragosto, até o pequeno vilarejo de Cryphon Grifford para cuidar da papelada referente ao inventário de uma cliente recém falecida. Logo que chega no lugar, o rapaz percebe que há algo de estranho, uma vez que todos os moradores parecem desgostar profundamente da mansão da morta, chamada Eel Marsh. Nem mesmo os receptivos anfitriões de Arthur, Sam e Elizabeth Daily (Ciarán Hinds e Janet McTeer), demonstram entusiasmo por sua visita - perturbados pela morte trágica do único filho, ainda criança, eles sabem mais do que aparentam a respeito de perturbadoras visões que o advogado passa a ter dentro da vasta e escura propriedade onde começa a trabalhar. Quebrando com frequência o silêncio e a aparente calma do local, uma mulher de preto misteriosa e fantasmagórica leva Kipps a investigar mais a fundo a história da cidade, o que o leva a descobrir uma lenda aterrorizante que envolve a morte de uma série de crianças - que não parece dar sinal de querer parar.

 Tentando deixar para trás a imagem do doce bruxinho Harry Potter, que tanto foi uma bênção quanto um problema para sua carreira, tamanho o impacto nela, Daniel Radcliffe mostra-se um ator esforçado, mesmo que seu personagem talvez exigisse alguém com mais idade e mais peso dramático. Para sua sorte, ele é amparado pelos trabalhos delicados dos veteranos Ciarán Hinds e Janet McTeer - ela, em especial, apesar de poucas cenas, dá um show a cada aparição, na pele de uma mulher traumatizada pela perda trágica do filho. O clímax do filme - em que Kipps tenta resolver de vez a questão da personagem-título - carece de um pouco de força, mas o desfecho da trama (que deve contrariar alguns espectadores e empolgar outros) não deixa de ser corajoso, ainda que deixe aberta uma porta para a desnecessária continuação, lançada em 2014 sem seu astro principal como chamariz de bilheteria. No fim das contas, "A mulher de preto" é um filme de terror à moda antiga, bem realizado, honesto e elegante - mas que não se torna inesquecível exatamente por não buscar novidades dentro de um gênero já há muito necessitado de sangue novo. Um bom passatempo e a prova de que Daniel Radcliffe ainda pode oferecer muito.

sexta-feira

O HOMEM DE GELO

O HOMEM DE GELO (The iceman, 2012, Millenium Films, 106min) Direção: Ariel Vromen. Roteiro: Ariel Vromen, Morgan Land, livro de Anthony Bruno, documentário "The Iceman Tapes: Conversations with a killer", de Jim Thebaut. Fotografia: Bobby Bukowski. Montagem: Danny Rafic. Música: Haim Mazar. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Nathan Amondson/Teresa Visinaire. Produção executiva: Rene Besson, Anthony Bruno, Boaz Davidson, Danny Dimbort, Mark Gill, Lati Grobman, Laura Rister, Trevor Short, Jim Thebaut, John Thompson. Produção: Ehud Bleiberg, Avi Lerner, Ariel Vromen. Elenco: Michael Shannon, Winona Ryder, Ray Liotta, Chris Evans, David Schwimmer, James Franco, Stephen Dorff. Estreia: 30/8/12 (Festival de Veneza)

Michael Shannon é um monstro de ator (no bom sentido): intenso, dedicado e frequentemente requisitado para papéis que exigem imponência ou certo grau de ameaça - graças a seu olhar penetrante e sua vaga semelhança física com Christopher Walken, por muito tempo o malucão preferido de Hollywood -, Shannon não poderia ter sido a melhor escolha para interpretar Richard Kuklinski, um dos assassinos mais conhecidos da história dos EUA, que por trás da fachada de homem de família respeitável, foi responsável por cerca de 200 mortes, a maioria delas encomendadas pelas cinco famílias mafiosas de Nova York. Dono do apelido de Homem de Gelo, por seu costume de congelar as vítimas por um tempo antes de desovar o corpo (dificultando assim a definição exata da data de suas mortes), Kuklinski foi tema de um documentário da HBO chamado "America undercover: The iceman tapes - conversations with a killer" e um livro escrito por Anthony Bruno. As duas obras acabaram por ser a base de "O homem de gelo", longa-metragem dirigido por Ariel Vromen que, contando com a atuação gigantesca de Shannon, acompanha a trajetória do protagonista desde seu início na vida do crime até sua prisão, em 1986. Narrado de forma convencional e com um roteiro que não explora a contento todas as possibilidades oferecidas pela história, o filme se vale do talento de seu ator principal e do elenco coadjuvante para manter a atenção do público até o final - ainda que nem mesmo seu clímax chegue a ser empolgante como poderia.

Sem explorar o passado traumático e cercado de violência de seu personagem central, o que certamente explicaria boa parte de sua personalidade calculista e quase apática em relação aos crimes que comete, "O homem de gelo" concentra-se basicamente na transformação de um homem comum em um dos maiores assassinos dos EUA. De dublador de filmes pornográficos a matador de aluguel, Kuklinski praticamente tinha uma vida dupla: de dia, era um respeitável pai de família, casado com a doce Deborah (Winona Ryder substituindo Maggie Gyllenhaal, que saiu do filme devido à gravidez) e pai de duas meninas; em horário comercial, um criminoso frio e implacável que trabalha para o perigoso Roy Demeo (Ray Liotta em papel oferecido a Benicio Del Toro). Sem importar-se muito em detalhar as mortes cometidas por Kuklinski, o roteiro vai contando sua história sem pressa, até chegar o momento em que o protagonista entra em rota de colisão com Demeo: trabalhando por conta própria ao lado do excêntrico Robert Pronge (Chris Evans, ótimo), ele vê a si e a família ameaçados, o que o obriga a entrar em um período de tensão e paranoia crescentes - especialmente porque ninguém de suas relações pessoais sabe a respeito de sua verdadeira profissão.


Dotado de uma estrutura narrativa simples e sem apelar para a violência excessiva - apesar do tema e do personagem central de certa forma exigirem tal opção -, "O homem de gelo" parece mais um telefilme do que uma produção para o cinema. Apesar do elenco talentoso, sua falta de ousadia em contar uma história tão repleta de possibilidades incomoda a um público já acostumado com o gênero e que busca algo mais do que um roteiro quadradinho e que deixa de lado questões importantes - como o fato de Kuklinski ser também violento em casa, frequentemente espancando a esposa. Até mesmo a razão de seu apelido (o congelamento de suas vítimas) é mencionado apenas brevemente, quase como se fosse algo sem importância. A direção de Ariel Vromen - responsável por produções da Netflix, Warner e Lionsgate, entre outros - não empolga em nenhum momento, nem mesmo no terço final, quando finalmente Kuklinski se vê encurralado pelas consequências de seus atos e precisa lidar com a pressão de estar no papel de possível vítima. Michael Shannon brilha em cada cena, mas não consegue escapar das armadilhas de um roteiro pouco inspirado.

No final das contas, "O homem de gelo" é um filme apenas correto, com poucos momentos memoráveis e que deixa a sensação de que poderia ter sido um grande trabalho caso não tivesse optado pelo convencionalismo excessivo. Uma pena que uma história tão rica de possibilidades tenha ficado no meio-termo adotado por seu diretor. Está longe de ser um filme ruim, mas tampouco é um filme que mereça destaque - exceto talvez pelo belo desempenho de Michael Shannon, que consegue ser melhor que o filme em si. Segura bem uma tarde chuvosa, mas não marca a vida de ninguém da plateia - quase uma decepção em se tratando do tema e do elenco.

segunda-feira

PROMETHEUS

PROMETHEUS (Prometheus, 2012, 20th Century Fox, 124min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Jon Spaihts, Damon Lindelof, elementos criados por Dan O'Bannon, Ronald Shusett. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Pietro Scalia. Música: Marc Streitenfeld. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Sonja Klaus. Produção executiva: Michael Costigan, Michael Ellenberg, Mark Huffam, Damon Lindelof. Produção: David Giler, Walter Hill, Ridley Scott. Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Logan Marshal-Green, Charlize Theron, Guy Pearce, Idris Elba, Rafe Spall, Patrick Wilson. Estreia: 11/4/12

Em 1979, o filme "Alien: o oitavo passageiro" estreou e mudou a forma como o público e a crítica passaram a enxergar a ficção científica no cinema. Referência absoluta no gênero desde então, gerou fortunas com suas sequências - dirigidas por James Cameron (86), David Fincher (92) e Jean-Pierre Jeunet (98) - e nunca deixou de suscitar especulações a respeito de possíveis novas continuações. Demorou mais de três décadas, porém, para que seu diretor original, Ridley Scott, retomasse as rédeas do universo que ajudou a moldar. Para surpresa de muitos, porém, o cineasta inglês não retomou as aventuras da destemida Tenente Ripley, interpretada por Sigourney Weaver nos quatro primeiros capítulos da série: em "Prometheus", ele conta, de maneira elegante mas não menos tensa, fatos acontecidos décadas antes de tudo que foi mostrado no original, em uma jogada ousada e inteligente. Foi parcialmente bem-sucedido: nos EUA, a bilheteria foi apenas razoável (126 milhões de dólares contra o orçamento generoso de 130), mas no resto do mundo, aproveitando-se da fama de uma das marcas mais famosas de Hollywood, chegou perto de 280 milhões. Longe de ser também uma unanimidade entre a crítica, ficou no meio-termo entre aqueles que louvaram a coragem do diretor em fugir do óbvio e aqueles que esperavam muito mais do reencontro do criador com a criatura. Mas, afinal, "Prometheus" é um bom filme ou apenas um mero caça-níqueis de luxo?


Há duas maneiras de se assistir e julgar "Prometheus": como um espectador neófito, a quem todo o universo criado nos quatro primeiros filmes simplesmente inexiste (e a quem portanto tudo é novidade, como um filme qualquer do gênero), ou como um fã da série, ansioso por conhecer as origens de um dos monstros mais longevos da ficção científica cinematográfica (e, consequentemente, muito mais exigente quando se trata do assunto). Para ambas as tribos, o roteiro oferece belos momentos de ação e suspense - tudo orquestrado com a elegância natural de Ridley Scott e um visual estonteante, cortesia da bela fotografia de Dariusz Wolski e da extraordinária direção de arte, concebida a partir do filme original de 1979, mas mostrada ao público do século XXI com todo o requinte que um orçamento generoso e efeitos visuais caprichados podem proporcionar. Porém, ao tentar abraçar esses dois mundos, Scott acabou por ficar no meio do caminho entre a claustrofobia do primeiro capítulo e o senso de espetáculo que James Cameron injetou na continuação de 1986. Coerentemente, em seus dois primeiros atos - em que a atmosfera de tensão sobrepõe-se à ação graficamente violenta - Scott mostra-se mais à vontade em conduzir sua narrativa, dosando com parcimônia momentos mais contemplativos com sequências que dão pistas sobre o que virá pela frente, quando seus personagens finalmente serão obrigados a encarar que não estão sozinhos no universo - e, pior ainda, o estão dividindo com uma espécie não exatamente amistosa.


A trama de "Prometheus" se passa em 2093 - vinte e nove anos antes, portanto, dos acontecimentos do primeiro "Alien". A dupla de arqueologistas Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) faz parte da seleta tripulação escolhida pelo milionário Peter Weyland (Guy Pearce sob pesadíssima maquiagem) para explorar vida extra-terrestre, uma vez que foram responsáveis por encontrar, em uma remota ilha da Escócia algum tempo antes, desenhos rupestres que confirmam suas teorias de há recados para a humanidade desde tempos imemoriais. Depois de hibernar por alguns anos, o grupo de cientistas desembarca em um planeta desconhecido, com a missão de encontrar aqueles que acredita-se ser os criadores da raça humana. A diretora da missão, a ambiciosa Meredith Vickers (Charlize Theron), os proíbe de qualquer contato com tais seres e permanece na nave, ao contrário de David (Michael Fassbender), um androide perfeitamente construído para conviver entre os humanos que é o homem de confiança de Weyland. Assim como em "Alien", eles encontram o que não deveriam encontrar, e sobem a bordo de posse da cabeça de um humanoide que encontram no planeta. Durante a investigação que busca mais detalhes sobre o encontrado, uma série de violentos incidentes que vitimam os cientistas fazem com que Vickers e Shaw entrem em conflito sobre como lidar com a situação e de que forma podem sair com vida do planeta - e ao mesmo tempo manter a salvo as descobertas que seus estudos realizaram.

Assim como acontece em todos os episódios da série "Alien", a trama de "Prometheus" gira em torno de um alienígena assassino que vai trucidando cada um dos personagens, normalmente apresentados com pouca profundidade pelo roteiro. No filme de Scott não é diferente. Com exceção da protagonista vivida por Noomi Rapace (a estrela da versão sueca de "Os homens que não amavam as mulheres"), nenhum dos tripulantes da nave é explorado além de um nível superficial pelo roteiro - até mesmo o romance entre Elizabeth e Charlie é tratado sem muito cuidado, apesar da boa química entre os atores. Charlize Theron está bem na pele da ambiciosa Meredith Vickers, mas não tem muito o que fazer além de servir de um empecilho a mais na missão de seus colegas de viagem. Sobra, então, a Michael Fassbender roubar a cena mais uma vez: como o androide David, ele chama a atenção da plateia desde sua primeira cena, transmitindo com perfeição todas as nuances de um personagem que, mesmo não sendo humano, apresenta muito mais complexidades do que se poderia esperar. É Fassbender quem dá o toque de mais sensibilidade de um filme que, apesar de alguns exageros inverossímeis (que tal uma personagem sair correndo depois de uma cesareana?), diverte e impressiona pela qualidade técnica. Não chega a ser um "Alien: o oitavo passageiro" - mas algum dos filmes da série chega?

sexta-feira

O CORPO

O CORPO (El cuerpo, 2012, Antena 3 Films/Canal + España, 108min) Direção: Orion Paulo. Roteiro: Orion Paulo, Lara Sendim. Fotografia: Oscar Faura. Montagem: Joan Manel Vilaseca. Música: Sergio Moure de Oteyza. Figurino: Maria Reyes. Direção de arte/cenários: Balter Gallart/Nuria Muni. Produção executiva: Pepes Torrescusa. Produção: Mercedes Gamero, Mikel Lejarza, Joaquín Padró, Mar Targarona. Elenco: José Coronado, Belén Rueda, Hugo Silva, Aura Garrido, Miquel Gelabert. Estreia: 04/10/12

Na primeira cena, um homem corre apavorado, sob uma chuva torrencial, e é atropelado na estrada, indo parar no hospital, em coma com diversas fraturas graves que o impedem de revelar às autoridades o motivo pelo qual ele abandonou seu posto como vigia de um necrotério de forma tão atribulada. Chamado para investigar o caso, o detetive Jaime Peña (José Coronado) descobre, logo que chega ao local, outro fato bastante estranho: o desaparecimento do corpo da empresária Mayka Villaverde Freire (Belén Rueda), recentemente vítima de um ataque cardíaco fatal. O necrotério se localiza perto de um bosque fechado, chove abundantemente e a sala onde ficam os cadáveres está trancado por dentro, o que deixa tudo ainda mais nebuloso. Sem saber por onde começar a investigação, Jaime chama o viúvo, Álex Ulloa Marcos (Hugo Silva) - e assim tem início um dos mais engenhosos e inteligentes filmes de suspense realizados pelo cinema espanhol. Dirigido e coescrito pelo jovem Oriol Paulo, "O corpo" é um daqueles filmes de prender a atenção da primeira à última cena - e deixar o espectador abismado com uma reviravolta final consistente e verossímil. Graças a um roteiro enxuto que equilibra sustos e personagens bem construídos, o público se vê mergulhado em uma trama onde nada é exatamente o que parece - e absolutamente qualquer diálogo tem importância fundamental no desenvolvimento do enredo.

A chegada de Álex ao necrotério - onde se vê à disposição do interrogatório de Jaime, desconfiado por alguma razão das declarações do viúvo - dá o pontapé inicial para um jogo de gato e rato dos mais instigantes. Jaime é um personagem rico em nuances: viúvo e com uma relação complicada com a filha que vive em Berlim, ele não consegue levar a vida adiante de maneira saudável, e vê no trabalho uma válvula de escape para seu drama particular. Certo de que Álex sabe mais do que aparenta em relação ao sumiço do corpo da esposa, ele não se permite falhar em sua caça à verdade - e o jovem, casado com uma mulher mais velha e poderosa, dá todos os motivos do mundo para que o veterano policial desconfie de suas atitudes. Conforme a ação avança, a plateia é informada de que ele vive um tórrido romance com Carla Miller (Aura Garrido) - e que tal caso extraconjugal pode ter relação com a morte de Mayka. Qual a conexão entre todos esses elementos é o grande trunfo do roteiro, que encontra na direção certeira de Paulo a tradução mais adequada. Como um herdeiro de Alfred Hitchcock - e qual diretor de filmes de suspense não o é? - o cineasta constrói uma teia de pistas falsas, informações desencontradas e personagens suspeitos para brindar a plateia com um entretenimento de primeira qualidade, que em nada fica a dever a produções hollywoodianas muito mais ambiciosas.


É óbvio, porém, que o elenco ajuda bastante. Belén Rueda desfila sua classe e charme na pele da sedutora milionária Mayka Villaverde, sempre mesclando doçura, paixão e um tom de mistério; Hugo Silva está à vontade como o pouco confiável Álex, um homem que pode ser tanto culpado quanto vítima; e José Coronado é a terceira peça fundamental do trio de protagonistas, um homem despedaçado por uma tragédia familiar que vê em sua obsessão em provar a culpa de Álex uma válvula de escape que pode levá-lo em direção a um caminho sem volta, perigoso e chocante. Oriol Paulo conduz seus atores com extrema precisão, arrancando de cada um deles o máximo de tensão com o mínimo de informações, desnorteando o espectador até os últimos minutos, quando o quebra-cabeças finalmente faz sentido - não de forma artificial como acontece na maioria dos filmes de trama preguiçosa, mas organicamente, com as pontas sendo amarradas com uma maestria digna de Agatha Christie. Como em uma peça de teatro milimetricamente arquitetada, os atores forjam uma sintonia que envolve o público até que ele esteja totalmente entregue às viradas da trama - no que são muito auxiliados pela trilha sonora discreta e eficiente e pela edição ágil na medida certa: não apressa os acontecimentos nem tampouco abusa de cenas longas e explicativas.

Uma gratíssima surpresa para fãs do gênero, "O corpo" é um filme que pode ser visto e revisto diversas vezes sem que nunca perca sua qualidade dramática. Mesmo que seu final já seja conhecido, o público pode acompanhar suas diversas camadas sempre descobrindo novos detalhes e aplaudindo a conjunção perfeita entre direção, elenco, roteiro e técnica. Em uma filmografia tão centrada em dramas e comédias como a espanhola, não deixa de ser um respiro louvável e uma demonstração de extrema inteligência e criatividade. Um filme imperdível!

terça-feira

AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL

AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL (The perks of being a wallflower, 2012, Summit Entertainment, 102min) Direção: Stephen Chbosky. Roteiro: Stephen Chbosky, romance de sua autoria. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Mary Jo Markey. Música: Michael Brook. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Inbal Weinberg/Merissa Lombardo. Produção executiva: Stephen Chbosky, James Powers. Produção: Lianne Halfon, John Malkovich, Russell Smith. Elenco: Logan Lerman, Emma Watson, Ezra Miller, Paul Rudd, Dylan McDermott, Melanie Linskey, Joan Cusack, Johnny Simmons, Mae Whitman, Kate Walsh. Estreia: 08/9/12 (Festival de Toronto)

Sempre que um livro ou filme tenta "definir" uma geração ou descrevê-la com intenções sociológicas corre o sério risco de uma generalização oca e simplista. A sorte é que, apesar da desvantagem numérica, para cada dezena de bombas metidas a profundas surge uma pérola capaz de devolver aos cinéfilos a esperança e o sorriso. É o que acontece com "As vantagens de ser invisível", a delicada, terna e sensível adaptação de um romance... delicado, terno e sensível, que narra as aventuras de um adolescente desajustado quando finalmente encontra em uma dupla de meio-irmãos a turma pela qual sempre ansiou. Escrito e dirigido pelo mesmo Stephen Chbosky que escreveu o livro que lhe deu origem, o filme conquista o espectador principalmente por jamais tentar parecer mais do que é: um simples entretenimento de qualidade - ainda que justamente essa sua discrição o eleve acima da média do gênero e o faça ser interessante até mesmo por quem já saiu da faixa etária de seu público-alvo há um bom tempo.

O protagonista do filme é o tímido Charlie (interpretado com sutileza e talento por Logan Lerman), um rapaz de 16 anos com um pesado histórico de problemas psicológicos, que carrega consigo o trauma da morte de uma tia querida (Melanie Linskey, a paixão de Kate Winslet em "Almas gêmeas") e um profundo desajuste ao mundo que o cerca. Inteligente e dedicado, ele chega em uma escola nova e logo faz amizade com o professor de Inglês (Paul Rudd), que se comunica com ele através de alguns livros clássicos que o fazem perceber o mundo à sua volta. Mas o que acaba sendo mais importante que tudo é seu encontro com Sam (Emma Watson, deixando a Hermione da série "Harry Potter" pra trás) e Patrick (Ezra Miller, de "Precisamos falar sobre o Kevin"), dois jovens que não se importam em seguir as regras pré-estabelecidas e, por consequência, não chegam a ser os mais populares da escola: ela vem de uma série de fofocas a respeito de seu comportamento promíscuo e ele vive um relacionamento escondido com o esportista Brad (Johnny Simmons) e não faz questão de esconder sua sexualidade. Ao lado dos novos amigos - em especial Sam, por quem se apaixona - Charlie passa a ter uma nova visão da vida e de si mesmo.


Apesar de sua trama não parecer exatamente empolgante - e chegar perigosamente perto de todos os clichês que sufocam o gênero - "As vantagens de ser invisível" tem a seu favor a delicadeza com que Chbosky trata suas personagens e a maneira com que jamais as julga. Mesmo que as atitudes de Sam e Patrick (e até mesmo algumas de Charlie) não sejam exemplares, elas não soam artificiais nem tampouco forçadas, boa parte devido à sensibilidade com que o escritor/cineasta conduz as interpretações de seu elenco juvenil. Enquanto Emma Watson demonstra uma segurança de veterana a despeito de sua pouca idade e Ezra Miller exercita novamente sua veia rebelde, o novato Logan Lerman seduz a audiência com uma aura de inocência convincente como poucas vezes o cinema registrou. É difícil ficar imune ao charme e à beleza de suas cenas com Watson, que transmitem a sensação exata do primeiro amor e das descobertas a respeito da vida e das relações - o que a bela trilha sonora ainda reitera com precisão, em especial quando David Bowie solta a voz na bela "Heroes", que ilustra com perfeição os sentimentos dos protagonistas e sintomaticamente comenta uma das mais belas sequências do filme.

Tratando de assuntos polêmicos - drogas, homossexualidade, rebeldia juvenil - com respeito e nunca ultrapassando os limites do bom-gosto e da discrição, Chbosky faz um gol de placa já em sua segunda incursão às telas, e demonstra habilidade em dirigir seus atores - vale lembrar que o elenco ainda inclui Joan Cusack e Dylan McDermott, que, mesmo em papéis pequenos, se saem bastante bem. Feito com o objetivo de não decepcionar os (muitos) fãs do livro, "As vantagens de ser invisível" acaba por se tornar independente de sua origem literária: é um dos grandes pequenos filmes de 2012.

segunda-feira

PAIXÃO

PAIXÃO (Passion, 2012, SBS Productions/Integral Film/France 2 Cinéma, 102min) Direção: Brian De Palma. Roteiro: Brian De Palma, roteiro original de Natalie Carter, Alain Corneau. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: François Gedigier. Música: Pino Donaggio. Figurino: Karen Muller-Serreau. Direção de arte/cenários: Cornelia Ott/Ute Bergk. Produção: Said Ben Said. Elenco: Rachel McAdams, Noomi Rapace, Karoline Herfurth, Paul Anderson, Dominic Raacke, Rainer Block, Benjamin Sadler. Estreia: 07/9/12 (Festival de Veneza)

A carreira de Brian De Palma sempre sofreu de inconstância, tanto em termos de qualidade quanto em termos de sucesso popular. A cada "Carrie, a estranha" (76) e "Os intocáveis" (87) que fazia, surgiam atrocidades massacradas pela crítica, como "A fogueira das vaidades" (90) e "Dália negra" (2006) - sem falar naqueles que ficavam no meio-termo, como "Pecados de guerra" (89) e "O pagamento final" (94). Seu remake do filme francês "Crime de amor", estrelado por Kristin Scott Thomas em 2010, porém, conseguiu a façanha de ser imperdoavelmente fraco como cinema e ter passado em brancas nuvens pelas bilheterias, mesmo tendo estreado no prestigiado Festival de Veneza de 2012. Rebatizado como "Paixão" e com pouquíssimas alterações em relação à sua origem, o filme é uma trama de suspense cujo cenário é o competitivo mundo da publicidade, mas apesar de seu visual elegante e do enredo promissor, é uma sucessão de sequências anticlimáticas e inverossimilhanças capazes de incomodar até ao mais benevolente espectador.

Por mais talentosa que seja, Rachel McAdams não tem o jogo de cintura suficiente para herdar o papel que foi da esplêndida Scott Thomas no filme de Alain Corneau - que morreu poucos dias antes do lançamento de seu filme. Na versão de De Palma, a protagonista não apenas rejuvenesceu como ganhou também uma agressividade sexual mais explícita, a pedido da própria McAdams e de sua parceira de cena, Noomi Rapace - a Lisbeth Salander da trilogia sueca "Millenium". McAdmas deixa um pouco de lado a imagem construída em uma série de comédias e dramas românticos para investir pesado em Christine Stanford, uma publicitária ambiciosa e manipuladora que não hesita em tomar para si as ideias de sua nova assistente, Isabelle James (Rapace), com o objetivo de conquistar um lugar de mais poder na agência onde trabalha. Seu estilo arrojado e seco estende-se também a seu casamento com Dirk Harriman (Paul Anderson, em papel que seria de Dominic Cooper), repleto de fantasias sexuais bizarras. Quando, durante uma viagem a negócios o sedutor Dirk convence Isabelle a passar a noite com ele, as caras da relação entre chefe e assistente são embaralhadas e um imprevisível jogo de dominação - com o poder constantemente alternado - começa, levando as duas executivas a um perigoso caminho.


Elegantemente conduzido pelo cineasta - cuja experiência em criar climas de suspense com movimentos de câmera fluidos e quase imperceptíveis - "Paixão" é uma obra que deve muito de seu resultado final a uma coleção de fetiches elencados pelo roteiro: dominação, lesbianismo e adultério são elementos indissociáveis da trama concebida por Corneau e Natalie Carter (que colaborou com De Palma na adaptação para a refilmagem). Mantendo constantemente a dubiedade a respeito de suas duas protagonistas, De Palma confunde o público a cada momento, transferindo de uma para a outra a condução dos desvios da narrativa, em um artifício interessante mas que carece de maior força. Ao optar por não dar a nenhuma delas uma personalidade simpática - ambas sofrem de uma total falta de empatia - o veterano diretor se arrisca em não conquistar a plateia... e perde no jogo. Nem McAdams nem Rapace (ótima nas adaptações dos livros de Stieg Larsson mas péssima aqui) tem nuances o bastante para lidar com as complexidades de suas personagens, deixando tudo nas mãos da técnica de De Palma e no visual estonteante criado pelo diretor de fotografia José Luis Alcaine (que tem no currículo trabalhos com Pedro Almodóvar). A estética apurada, contudo, não basta - e o filme deixa a péssima sensação de muita beleza e pouco conteúdo.

É decepcionante ver como De Palma - que passou de célebre imitador de Hitchcock a um nome de peso dentro da indústria hollywoodiana - parece patinar dentro das armadilhas que ele mesmo criou para si, em "Paixão". Seus criativos movimentos de câmera e sua atenção em transformar a edição em peça fundamental da narrativa continuam intactos, mostrando o fabuloso cineasta que ele é. Porém, falta consistência dramática e sinceridade na forma como ele trata suas personagens: existe a nítida impressão de que elas servem unicamente para dar margem às reviravoltas do enredo, que inclui desvio de dinheiro, humilhações públicas e toda sorte de manipulação - de ambos os lados da tela. A surpresa do final, inclusive, é previsível e sem maior impacto, parte devido à falta de segurança do diretor em manter o pulso firme de sua história, parte graças às atuações um tanto mecânicas de suas atrizes centrais, em momento pouco feliz das carreiras. "Paixão" pode agradar aos menos exigentes, mas é um De Palma muito aquém do que se deve esperar dele.

domingo

NO (No, 2012, Participant Media/Funny Balloons, 118min) Direção: Pablo Larraín. Roteiro: Pedro Peirano, peça teatral de Antonio Skármeta. Fotografia: Sergio Armstrong. Montagem: Andrea Chignoli. Música: Carlos Cabezas. Figurino: Francisca Román. Direção de arte/cenários: Estefania Larrain/María Eugenia Hederra. Produção executiva: Juan Ignacio Correa, Mariane Hartard, Rocío Jadue, Jonathan King. Produção: Daniel Marc Dreifuss, Juan de Dios Larraín, Pablo Larraín. Elenco: Gael García Bernal, Alfredo Castro, Luis Gnecco, Néstor Cantillana, Antonia Zegers, Elsa Poblete. Estreia: 18/5/12 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Entre 1973 e 1988, o Chile viveu sob uma feroz ditadura militar, representada na figura do General Augusto Pinochet, que assumiu a presidência depois de derrubar, através de um golpe de estado, o eleito Salvador Allende. Sob forte pressão popular - e acreditando que jamais sairia derrotado de uma eleição depois de tanto tempo no comando - o ditador aceitou, então, a proposta de realização de um plebiscito que decidiria sua continuidade ou não como chefe do país. Como parte do processo, uma campanha televisionada no período de 27 dias, com quinze minutos de duração para cada time. Seria democrático se o governo não tivesse muito mais recursos do que a oposição - mas a luta pela justiça encontra forças na adversidade, na paixão de seus militantes e na busca constante pela liberdade. Essa é a mensagem por trás de "No", belo trabalho do cineasta Pablo Larraín, indicado ao Oscar 2012 de melhor filme estrangeiro. Baseado em uma peça teatral escrita pelo mesmo Antonio Skármeta de "O carteiro e o poeta", o filme de Larraín é centrado basicamente na batalha dos opositores ao regime, que, mesmo dispondo de pouco dinheiro e apoio oficial, conseguiram derrubar um dos mais sangrentos e vis golpes de estado da história da América Latina.

A trama centra-se em René Saavedra (o sempre ótimo Gael García Bernal), publicitário jovem e talentoso, que é convidado para participar da organização da campanha pelo "Não" - que, vitoriosa, obrigaria o governo a clamar por novas eleições diretas. Filho de exilados políticos, o rapaz hesita em aceitar a proposta mesmo sendo simpático à causa, especialmente porque seu patrão, Lucho Guzmán (Alfredo Castro), é um dos diretores da campanha oposta. Sabendo que está mexendo com um vespeiro, porém, René aceita o desafio e passa a colaborar com a criação de uma série de pequenos filmes que celebram a alegria e a liberdade - em oposição ao que muitos participantes da campanha desejam, por considerar o assunto sério demais para ser tratado com leveza. Conforme o tempo vai passando e as diferenças criativas vão sendo superadas (ou não), o governo começa a perceber que talvez tenha sido uma péssima ideia dar voz a seus inimigos, principalmente em rede nacional.


Para dar mais realismo às cenas, Larraín, em seu projeto mais acessível ao grande público - depois de sucessos de crítica mais densos e herméticos, como "Tony Manero" (2008) e "Post Mortem" (2010) - utilizou-se de câmeras utilizadas no final da década de 80, criando sequências que parecem realmente ter saído do momento histórico que retrata. Intercalando cenas do filme com imagens das campanhas reais, o cineasta insere o espectador dentro da jornada de René e seus companheiros rumo à liberdade tão sonhada. Sem disfarçar sua simpatia pelo fim da ditadura, o roteiro questiona os argumentos daqueles favoráveis ao regime sem, no entanto, apelar para o didatismo ou o panfletário, acreditando plenamente na força da história e seus desdobramentos. Ao impor a narrativa sob a ótica de Saavedra - um cidadão comum, que viveu todos os problemas da ditadura sem estar nos bastidores do poder - Larraín enfatiza o óbvio: um regime ditatorial e opressor afeta a todos, por mais que se tenha a ilusão de liberdade e progresso. Quando decide comprar a briga pelo "Não", o protagonista compra também uma série de consequências que podem destruir sua carreira e sua família, e sua coragem é que lhe transforma em herói - ao menos um herói do dia-a-dia, capaz de, com pequenos gestos, transformar seu pedaço de mundo e aqueles a seu redor. Não deixa de ser surpreendente que o diretor desse conto de esperança seja Larraín, um cineasta pouco afeito a delicadezas e finais felizes.

Empolgante como um thriller político - mas sem o peso de um Costa-Gavras ou Oliver Stone - "No" é uma produção pequena em ambição mas grandiosa em resultados. A indicação ao Oscar foi apenas consequência de um trabalho cuidadoso, apaixonado e inteligente, capaz de conquistar até mesmo àqueles avessos a qualquer tipo de filme do gênero. Com um roteiro fluido e esperto, uma direção discreta que jamais comete excessos e um elenco impecável - liderado por um inspirado Gael García Bernal, perfeito em viver tipos comuns - é uma pequena obra-prima do cinema chileno, competente em todos os aspectos e fascinante como drama humano e social. Uma mostra e tanto do novo cinema latino-americano.

quinta-feira

LAURENCE ANYWAYS

LAURENCE ANYWAYS (Laurence anyways, 2012, Lyla Films/MK 2 Productions, 168min) Direção e roteiro: Xavier Dolan. Fotografia: Yves Bélanger. Montagem: Xavier Dolan. Música: Noia. Figurino: François Barbeau, Xavier Dolan. Direção de arte/cenários: Anne Pritchard/Louis Dandonneau, Pascale Deschênes. Produção executiva: Xavier Dolan, Gus Van Sant. Produção: Charles Gillibert, Nathanael Karmitz, Lyse Lafontaine. Elenco: Melvil Poupaud, Suzanne Clément, Nathalie Baye, Monica Chokri, Sophie Faucher, Emmanuel Schwartz. Estreia: 18/5/12 (Festival de Cannes)

O que fazer se, com apenas 22 anos de idade, você já realizou dois filmes elogiados pela crítica, premiados em festivais de prestígio como Cannes e é considerado um dos maiores talentos do cinema de seu país? Se seu nome for Xavier Dolan, a resposta óbvia é: fazer um filme ainda mais ambicioso, que trate de um assunto tabu e que enfatize ainda mais as características de sua filmografia até então. Com todos esses elementos, "Laurence anyways" faz todo o sentido dentro do universo artístico de Dolan, um menino-prodígio alçado à condição de gênio tão prematuramente que, como era de se esperar, arrumou tanto detratores ferozes quanto fãs devotos. E seu terceiro filme apenas serviu para fomentar ainda mais as discussões a respeito de seu talento: afinal, ele é um cineasta realmente dotado ou apenas um rapaz de sorte adotado por uma parcela da crítica sedenta por novidades? Para delírio de ambas as facções, "Laurence anyways" dá munição aos dois lados.

Como nos dois primeiros filmes de Dolan, em "Laurence anyways" há uma preocupação extrema com o visual: desde a fotografia deslumbrante de Yves Bélanger até os cenários e os figurinos (supervisionados pelo próprio diretor), tudo é cuidadosamente planejado para causar o máximo e impacto dramático e estético. Com uma profusão de belíssimas sequências em câmera lenta que enfatizam o universo particular de seus personagens - assim como seus estados de espírito - o cineasta cria metáforas visuais poéticas e inteligentes, mas em alguns momentos tropeça na redundância e em sua dificuldade de enxugar a narrativa, desnecessariamente longa a ponto de testar a paciência do espectador. No entanto, esse excesso de virtuosismo não impede a plateia de compreender e se envolver com o drama de seus protagonistas, complexos e dotados de dimensões raras no cinema contemporâneo, tão propenso a dedicar-se a personagens maniqueístas e simplórios. Ajuda muito, nesse ponto, que Dolan conte com dois ótimos atores principais, Melvin Poupaud (substituindo Louis Garrell, o escolhido inicial) e principalmente Suzanne Clément.


O roteiro de Dolan acompanha dez anos na vida de um casal atípico - ainda que apaixonado e em plena sintonia emocional e cultural. Laurence Alia (Melvin Poupaud em atuação brilhante em sua discrição) é um professor de literatura e Fred (Suzanne Clément) uma atriz tentando um lugar ao sol. Seu relacionamento franco e honesto sofre um duro golpe quando o rapaz resolve dar vazão a uma antiga necessidade de sua alma e passa a assumir uma identidade feminina. Apesar de chocada com a novidade, Fred tenta apoiar o marido, enfrentando o preconceito da sociedade e as próprias dúvidas em relação ao destino de seu relacionamento. Enquanto isso, Laurence gradualmente vai se tornando uma outra pessoa, dedicada à poesia e discriminada pela hipocrisia da sociedade em que antigamente vivia - o que inclui até mesmo sua mãe, Julienne (Nathalie Baye). Com o passar do tempo, Laurence e Fred chegam à conclusão de que a separação é o melhor caminho, mas o forte sentimento que nutrem um pelo outro os impede de cortar definitivamente o laço que os une - e nem mesmo novos relacionamentos parecem empecilhos para sua inegável química.

Fascinante em seu retrato de um personagem transsexual antes que o tema se tornasse comum até na televisão - em séries como "Transparent" e "Sense8" - "Laurence anyways" inova também em não discutir de forma definitiva a sexualidade de seu protagonista, preferindo deixar no ar a forma com que ele lida com o assunto. Laurence não é gay - ele é um homem com identidade feminina, uma discussão que assumiu relevância social enorme do lançamento do filme até hoje. O fato de vestir-se de mulher não significa que ele não tenha tesão em Fred, que, no entanto, sofre com a ambiguidade da situação mas mantém-se leal até onde seu coração permite. Todas as sequências que mostram suas tentativas de permanecer ao lado do homem que ama são de cortar o coração - a mostra definitiva de que Dolan, apesar da juventude e da tendência exibicionista, também sabe como falar à alma do espectador e criar personagens críveis e humanos. Afora isso, o final amargo/realista é de apertar o peito de todos aqueles que se deixarem cativar pela angústia e pela coragem dos protagonistas. Dolan não é um gênio - ainda tem muito o que aprender - mas tampouco é fogo de palha. Existe muito talento no rapaz e ele ainda vai dar muito o que falar.

quarta-feira

PARA SEMPRE

PARA SEMPRE (The vow, 2012, Screen Gems/Spyglass Entertainment, 104min) Direção: Michael Sucsy. Roteiro: Jason Katims, Abby Kohn, Marc Silverstein, estória de Stuart Sender. Fotografia: Rogier Stoffers. Montagem: Melissa Kent, Nancy Richardson. Música: Michael Brook, Rachel Portman. Figurino: Alex Kavanaugh. Direção de arte/cenários: Kallina Ivanov/Jaro Dick. Produção executiva: Susan Cooper, J. Miles Dale, Austin Hearst. Produção: Gary Barber, Roger Birnbaum, Jonathan Glickman, Paul Taublieb. Elenco: Rachel McAdams, Channing Tatum, Jessica Lange, Sam Neil, Scott Speedman, Wendy Creyston. Estreia: 09/02/12

Dois fatores específicos justificam a bilheteria doméstica acima dos 120 milhões de dólares do apenas razoável "Para sempre", estreia do diretor Michael Sucsy no cinema depois do sucesso de "Grey Gardens" - estrelado por Jessica Lange e Drew Barrymore - na televisão americana: o romantismo incurável de uma considerável parcela do público (que salvo raras exceções lota as salas quando o assunto são histórias de amor) e o carisma de sua dupla central, formada por atores em franca ascensão dentro da indústria: Channing Tatum (em vias de arrastar multidões aos cinemas com "Anjos da lei" e "Magic Mike") e Rachel McAdams (bela, encantadora e boa atriz a ponto de estrelar um dos melhores Woody Allens desde sempre, "Meia-noite em Paris"). Só mesmo essas duas razões podem explicar o êxito de uma produção que, a despeito de ser visualmente atraente, não acrescenta nada de novo ao gênero. Baseado em uma história real, o roteiro não escapa das armadilhas, e é preciso aplaudir a força do casal de protagonistas em tentar dar veracidade e emoção à coleção de clichês que desfilam pela tela.

"Para sempre" conta um história que lembra a comédia "Como se fosse a primeira vez", lançada no final dos anos 90. Porém, enquanto no divertido filme estrelado por Adam Sandler e Drew Barrymore  o tom cômico levava a trama sem maiores sobressaltos, nessa versão melodramática a missão é bem mais difícil: um acidente de carro leva a jovem Paige (Rachel McAdams) a uma amnésia parcial que a faz esquecer completamente os últimos quatro anos de sua vida, justamente o período em que se relacionou com o apaixonado Leo (Channing Tatum). A condição médica da moça acaba servindo perfeitamente aos planos de seus pais (Sam Neill e Jessica Lange, fazendo o possível com o pouco que lhes é oferecido pelo roteiro), que tinham-na visto afastar-se do seio familiar anos antes, depois de abandonar a faculdade de Direito para ingressar em uma Escola de Arte (e de ter rompido com eles devido a um fato mantido em segredo por todos). Sem lembrar-se de seu casamento com Leo - e nem mesmo de tê-lo conhecido - Paige recomeça sua vida se reaproximando do ex-noivo, Jeremy (Scott Speedman), mas o rapaz não tem o menor plano de deixar o amor de sua vida escapar e faz de tudo para reconquistá-la, apesar de tudo lhe dizer que a batalha já está perdida.


A sucessão de clichês que inunda "Para sempre" chega a ser desanimadora. Tudo bem que dramas românticos não são exatamente cenários apropriados para experimentos estilísticos ou artísticos, mas nada justifica a preguiça da direção ou do roteiro, apoiado basicamente em cenas pretensamente emocionantes que só funcionam para aqueles que adoram esbaldar-se em histórias de amor. No entanto, mesmo que não exista aqui a química notável que havia entre a mesma Rachel McAdams e Ryan Gosling em "Diário de uma paixão" - o melhor exemplo de um romance clichê que conseguiu sobressair-se à sua origem literária menor (livro de Nicholas Sparks) graças ao elenco bem escalado e à sensibilidade de um cineasta talentoso - é visível o esforço e a garra do casal de protagonistas, infelizmente subaproveitados ao extremo. McAdams, por exemplo, fica o filme todo sendo usada como um joguete, de lá pra cá - e nem é bom comentar "o grande segredo" que a levou a romper com os pais, de uma frivolidade inacreditável.

Feito exclusivamente para quem não consegue sobreviver sem um dramalhão romântico, "Para sempre" é capaz de suprir as expectativas de seu público-alvo. É bonito, é direto e simples. Mas está muito longe de ser inesquecível, principalmente por não apresentar nada de novo à audiência - que, por sua vez, provavelmente não irá se importar com tanta fragilidade artística.

ALABAMA MONROE

ALABAMA MONROE (The broken circle breakdown, 2012, Menuet Producties/Topkaki Films, 111min) Direção: Felix van Groeningen. Roteiro: Carl Joos, Felix van Groeningen, peça teatral "The Broken Circle Breakdown featuring the Cover-Ups of Alabama", de Johan Heldenbergh, Mieke Dobbels, colaboração de Charlotte Vandermeesch. Fotografia: Ruben Impens. Montagem: Nico Leunen. Música: Bjorn Eriksson. Figurino: Ann Lauwerys. Direção de arte/cenários: Kurt Rigolle. Produção: Dirk Impens. Elenco: Johan Heldenbergh, Veerle Baetens, Nell Cattrysse, Geert Van Rampelberg. Estreia: 10/10/12

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

O bluegrass é um dos gêneros musicais característicos do sul dos EUA e se utiliza basicamente de instrumentos acústicos como violão, banjo e baixo acústico. Tendo suas raízes na música tradicional das ilhas britânicas, na música rural negra, no jazz e nos blues, ele é relativamente pouco conhecido no Brasil, mas é um das bases dramáticas de "Alabama Monroe", representante oficial da Bélgica na corrida pelo Oscar 2014 - e que perdeu a estatueta para o italiano "A grande beleza". Baseado em uma peça teatral de Mieke Dobbels e Johan Heldenbergh (que interpreta o principal papel masculino), o filme de Felix Van Groeningen acabou se tornando o favorito popular ao prêmio graças principalmente à sua impressionante comunicação com a plateia, que, sem exceção, termina a sessão aos prantos, emocionada com um filme que equilibra com maestria uma devastadora história de amor e perda com uma trilha sonora impactante e uma discussão sempre pertinente sobre a importância da fé e da religião nas relações interpessoais - sem que para isso precise abdicar de uma estrutura dramática das mais interessantes e envolventes dos últimos anos.

Com a narrativa fora de ordem cronológica - artifício cada vez mais comum no cinema moderno, mas que quase nunca é utilizado de maneira orgânica como aqui - "Alabama Monroe" conta a história de amor improvável entre Didier (Heldenbergh), integrante de uma banda de bluegrass, ateu e romântico e Elise (a ótima e expressiva Veerle Baetens), uma tatuadora católica mas realista e que tem no corpo as marcas de seus antigos amores. Juntos, os dois vivem uma relação passional e feliz, que é abençoada com a chega de uma filha - a encantadora Maybelle - e ameaçada com a sombra de um câncer agressivo que balança suas crenças e certezas. Forçados a lidar com uma situação triste e inesperada, eles também precisam entender um ao outro - o que parece ser um desafio ainda mais complicado e frustrante conforme a dor vai se tornando cada vez mais avassaladora.


Contando com um roteiro inteligente cujas engrenagens não são tão óbvias como acontece com a grande maioria dos filmes que buscam a emoção do espectador, "Alabama Monroe" não se propõe apenas a comover ou contar sua história. Por trás do drama vivido por Didier e Elise encontra-se uma profunda discussão teológica que contrapõe - sem julgamentos de valor - o ateísmo renitente do músico e a arraigada fé da tatuadora, assim como também levanta questionamentos sobre o amor, a perda e as variadas formas de lidar com a dor e a desilusão. A edição ágil - que mescla com inteligência flashbacks com fast-forwards - não esconde, felizmente, alguns diálogos fortes e emocionantes em sua crueza: ao contrário, é pouco provável que a audiência esqueça facilmente a brutal discussão entre os protagonistas sobre suas possíveis culpas na tragédia que se abate sobre eles ou o discurso abertamente crédulo de Didier depois de um show - e que acaba preparando o terreno para o final devastador, capaz de estraçalhar qualquer coração.

Talvez "Alabama Monroe" seja um tanto depressivo e pessimista para quem busca apenas um divertimento rápido. Mas aquele público que procura no cinema algo mais do que entretenimento certamente sairá da sessão com o coração transbordando - de tristeza, de dor e principalmente de uma boa dose de realismo que só a sétima arte (com seu poder de embelezar o desespero com poesia) consegue proporcionar. É um dos grandes filmes da década e se tornará ainda melhor com o passar do tempo. Coisas de bom cinema.

quinta-feira

RAUL: O INÍCIO, O FIM E O MEIO

RAUL: O INÍCIO, O FIM E O MEIO (Raul: o início, o fim e o meio, 2012, A.F. Cinema e Vídeo/Elixir Entretenimento, ) Direção: Walter Carvalho. Roteiro: Walter Gudel. Fotografia: Lula Carvalho. Montagem: Pablo Ribeiro. Produção: Denis Feijão. Estreia: 23/3/12

Não é preciso ser fã do rock indefinível criado por seu protagonista para se gostar de "Raul: o início, o fim e o meio", documentário de Walter Carvalho sobre um dos mais polêmicos astros da música brasileira, que escapava facilmente de qualquer rótulo que porventura o mercado quisesse lhe impor. Basta gostar de história da cultura popular nacional - ou de documentários inteligentes - para se deixar envolver. Ao contrário do filme anterior de Carvalho - um dos mais renomados diretores de fotografia do cinema nacional - que contava a vida do roqueiro Cazuza em tom ficcional, esse seu trabalho é resultado de uma pesquisa que consumiu mais de dois anos de sua vida, além de entrevistas com mais de 90 pessoas que tiveram algum tipo de contato com Seixas. O resultado é um filme emocionante, engraçado, nostálgico e revelador, ainda que felizmente não tenha a intenção de "definir" seu personagem principal.

Inserido em uma tradição recente da cinematografia nacional - que vem trazendo à luz nomes esquecidos e/ou injustiçados do cancioneiro popular brasileiro, como "Loki" (sobre Arnaldo Baptista) e "Ninguém sabe o duro que eu dei" (genial trabalho sobre Wilson Simonal) - "Raul: o início, o fim e o meio" tem a seu favor o carisma de seu investigado, um artista cuja obra rica e surpreendente ainda hoje mantém-se viva graças a legiões de fãs apaixonados e à contemporaneidade de sua música, que se presta a inúmeras leituras. É impossível para qualquer brasileiro nunca ter escutado ou cantarolado Seixas, e essa espécie de "inconsciente coletivo" apenas ajuda o filme, que, através de depoimentos de gente que realmente tem o que contar sobre o artista, cria um mosaico tão vasto sobre sua personalidade que, ao término da sessão não apenas um Raul fica na mente do público e sim vários: tudo depende do olho do espectador.


Entremeadas às canções saudosas de Seixas - e a seleção de Carvalho é fenomenal - existe depoimentos de todas as suas companheiras (e, com a exceção de sua primeira mulher, Edith, todas ainda mantém um perceptível carinho por ele), de seus amigos de infância, de suas filhas, de fãs, de colegas de trabalho e, como não poderia deixar de ser, de dois polêmicos parceiros: Paulo Coelho e Marcelo Nova. Enquanto o primeiro dá um longo depoimento sobre sua relação com Raul - e não tem medo aí de assumir que apresentou a eles todas as drogas possíveis, além de conduzi-lo ao estranho mundo da contracultura - o segundo tem que lidar com as acusações de alguns fãs e amigos do compositor de que foi o responsável por sua morte precoce (enquanto outras vozes, como Caetano Veloso, o defendem, acreditando em seu relacionamento de admiração genuína). Doente, Seixas morreu aos 44 anos - mas aparentando bem mais - depois de uma tourné de 50 shows com Nova (que o resgatou de um triste "chega pra lá" da indústria fonográfica).

Como filme, "Raul: o início, o fim e o meio" é o que se propõe a ser: um documento sobre um dos mais criativos e verdadeiros artistas pop do Brasil, que misturou Elvis Presley a Luiz Gonzaga sem jamais deixar de imprimir sua personalidade forte. E é inteligente ao optar por não chegar a nenhuma conclusão, o que seria no mínimo incoerente com a própria arte de Raul, que se intitulava uma "metamorfose ambulante". Seja como "carimbador maluco" (que o apresentou a uma nova geração de fãs), como "maluco beleza" ou como o criador de uma "sociedade alternativa", ele deixou sua marca indelével na cultura musical nacional. E não deixa de ser uma obrigação assistir à sua história. Ele é, definitivamente, a mosca que não para de pousar na nossa sopa (que o diga Paulo Coelho em uma cena destinada à antológica do filme). E nós não cansamos desse zunido...

domingo

O QUARTETO

O QUARTETO (Quartet, 2012, Headline Pictures/BBC Films, 98min) Direção: Dustin Hoffman. Roteiro: Ronald Harwood, peça teatral de sua autoria. Fotografia: John de Borman. Montagem: Barney Pilling. Música: Dario Marianelli. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Sarah Wittle. Produção executiva: Christoph Daniel, Jamie Laurenson, Xavier Marchand, Marc Schmidheiny, Thorsten Schumacher, Dickon Stainer, Dario Suter. Produção: Finola Dwyer, Stewart Mackinnon. Elenco: Maggie Smith, Tom Courtenay, Pauline Collins, Michael Gambon, Billy Connolly, Gwyneth Jones, Sheridan Smith. Estreia: 09/9/12 (Festival de Toronto)

Um dos maiores atores de sua geração, Dustin Hoffman tem seu nome nos créditos de alguns dos filmes fundamentais da história do cinema, como "A primeira noite de um homem", "Sob o domínio do medo", "Todos os homens do presidente", "Tootsie" e dezenas de outros - isso sem contar nas duas produções que lhe deram o Oscar, "Kramer X Kramer" e "Rain Man". Com isso em vista, é difícil acreditar que somente em 2012 ele tenha finalmente utilizado toda a experiência adquirida em décadas de carreira para fazer sua estreia na direção. Porém, quando se assiste a seu primeiro filme, "O quarteto", é impossível não pensar que essa demora foi providencial. Dotado de uma maturidade profissional que o impede de cometer excessos ou cair na armadilha do egocentrismo, Hoffman entrega à plateia uma deliciosa ode à arte, à experiência e à amizade, embalada por uma trilha sonora à base de clássicos absolutos e estrelada por um elenco de veteranos visivelmente à vontade em seus papéis.

O roteiro de Ronald Harwood - premiado com o Oscar por "O pianista" - é baseado em uma peça teatral de sua própria autoria e, nas sensíveis mãos de Hoffman, vira uma declarada homenagem a todos os artistas que, mesmo longe dos palcos, ainda tem a música e o dom no coração e na alma. Assim são os moradores da Beecham House, uma casa de repouso para artistas aposentados que, como sempre acontece com lugares assim, sofre com a constante falta de patrocínio para manter-se. Para arrecadar um dinheiro que pode aliviar as finanças por um bom tempo, os moradores costumam realizar um concerto anual - no dia do aniversário de Giuseppe Verdi - e assim conquistar a simpatia e a atenção do público em geral. A paz e a tranquilidade comuns à rotina da casa são perturbados, no entanto, com a chegada de Jean Horton (Maggie Smith, fantástica mais uma vez), uma festejada cantora lírica afastada dos holofotes há décadas para manter a aura de diva. Sua entrada em cena entusiasma seus antigos colegas, que resolvem convidá-la para juntar-se a eles em uma apresentação de "Rigoletto". A recusa de Jean em tomar parte da programação, porém, não diz respeito somente a seu medo de fracassar em público, e sim a seu reencontro com Reggie (Tom Courtenay), com quem foi brevemente casada no passado e por quem ainda nutre fortes sentimentos.


Contando sua história de forma serena - com a ajuda da trilha sonora da melhor qualidade - Dustin Hoffman faz uso exemplar dos diálogos ora sardônicos ora sensíveis do roteiro de Harwood, deixando que cada ator os transforme em pequenas pérolas. Pauline Collins quase rouba a cena como a doce Cissy Robson - uma artista delicada e à beira da demência - e Billy Connolly tira proveito da personalidade dionisíaca de seu Wilf Bond para deitar e rolar com tiradas engraçadíssimas a respeito do ato de envelhecer e perder toda a libido da juventude. Tom Courtenay é o mais contido do quarteto, principalmente porque seu Reggie serve como o contraponto sensato do grupo, e suas cenas com Maggie Smith (indicada ao Golden Globe por seu desempenho) banham de humanidade e sensibilidade uma trama que tem nesses elementos sua principal qualidade. Sem apelar para piadas vulgares ou dramas forçados, o filme de Hoffman conquista principalmente pelo otimismo.

Assim como "O exótico Hotel Marigold" jogava luz sobre personagens cujo perfil etário é o oposto do que reina em Hollywood, "O quarteto" tem orgulho do histórico de seus atores e personagens. Hoffman faz questão de homenagear, nos créditos finais, todos os artistas aposentados que fazem parte do elenco de apoio de seu filme, como uma forma de enfatizar ainda mais sua admiração por sua obra. Falando de velhice, nostalgia e arte sem recorrer à melancolia, Dustin Hoffman faz de sua estreia na cadeira de diretor uma ensolarada e carinhosa cortesia à experiência e ao talento. "O quarteto" é uma delícia de se assistir e revela que o "pequeno grande homem" parece ser tão bom atrás das telas quanto diante delas. Bravo!

sábado

A ESCOLHA PERFEITA

A ESCOLHA PERFEITA (Pitch perfect, 2012, Brownston Pictures/Gold Circle Films, 112min) Direção: Jason Moore. Roteiro: Kay Cannon, romance de Mickey Rapkin. Fotografia: Julio Macat. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: Christophe Beck, Mark Kilian. Figurino: Salvador Perez. Direção de arte/cenários: Barry Robison/David Hack. Produção executiva: Scott Niemeyer. Produção: Elizabeth Banks, Paul Brooks, Max Handelman. Elenco: Anna Kendrick, Skylar Astin, Elizabeth Banks, Ben Platt, Brittany Snow, Anna Camp, Rebel Wilson, Alexis Knapp, Ester Dean, Adam Devine, John Michael Higgins. Estreia: 28/9/12

Sabe aquela tarde chuvosa em que só dá vontade de assistir a um filme bem boboca pra relaxar e ficar de bem com a vida? Pois é justamente para dias assim que foi feito "A escolha perfeita", uma deliciosa comédia musical que, quase do nada, tornou-se um grande sucesso de bilheteria nos EUA, arrecadando mais de 60 milhões de dólares contra um orçamento relativamente baixo de apenas 17 milhões - e dando origem a uma sequência, lançada em 2015. Lembrando em vários momentos a bem-sucedida série de TV "Glee", o filme do estreante Jason Moore - que comandou episódios de "Dawson's Creek" e "Brothers and sisters", entre outros seriados - é engraçado, leve e não tem medo de abraçar velhos clichês do gênero "filme de faculdade", transformando-os em trunfos ao invés de deixá-los se tornarem problemas.

Escrito por Kay Cannon, roteirista de "30 rock" - o que já dá uma pequena ideia do tipo de humor do filme - e baseado em um livro do jornalista Mickey Rapkin (que acompanhou uma disputa semelhante a que acontece na trama), "A escolha perfeita" une uma trilha sonora antenada e alto-astral a um elenco afiado e diálogos ácidos, que o distingue tanto de seu irmão televisivo quanto da maioria das produções musicais que vem chegando às telas com frequência desde que "Moulin Rouge" revitalizou o gênero, em 2001. Mas que não se espere um musical tradicional, daqueles em que as personagens começam a cantar do nada. Em "A escolha perfeita" a música é mais uma protagonista do que um acompanhamento - o que deixa tudo ainda mais divertido.


Quem lidera o elenco é a ótima Anna Kendrick - que equilibra no currículo a sofrível saga "Crepúsculo" e uma merecida indicação ao Oscar de coadjuvante por "Amor sem escalas". Ela vive Beca, uma aspirante a DJ que entra na universidade com o objetivo único de agradar ao pai, professor de Literatura Comparada. Assim que chega - e arruma um trabalho como assistente da rádio local - ela acaba indo parar em um grupo de alunas que tem por missão vencer o concurso nacional de música a capella depois de um vexame no ano anterior. Ao lado das patricinhas Chloe (Brittany Snow) e Aubrey (Anna Camp) e de várias outras colegas menos favorecidas fisicamente - como a divertida Fat Amy (Rebel Wilson), Beca tenta transformar o repertório rígido do grupo em algo mais empolgante e acaba se envolvendo com Jesse (Skylar Astin), que faz parte do grupo rival - o que é terminantemente proibido pelas regras impostas por suas líderes.

Mesmo que nem ao menos tente aprofundar suas personagens - em especial as coadjuvantes, que tem como função quase única divertir o espectador com diálogos inteligentes e sarcásticos que não poupam o universo popular jovem contemporâneo- o roteiro de Cannon tem a seu favor o perfeito equilíbrio entre música e humor, entre o moderno e o nostálgico (representado pela bela homenagem ao já clássico "Clube dos cinco", de John Hughes). Funciona em todos os níveis a que se propõe, entretendo sem exigir mais de seu público do que o desejo de duas horas de diversão. Perfeito para uma tarde tediosa ou para escapar do calor em uma sala com ar-condicionado.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...