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segunda-feira

AVA

 


AVA (Ava, 2020, Voltage Pictures/Freckle Films/Leeding Media, 96min) Direção: Tate Taylor. Roteiro: Matthew Newton. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: Zach Staenberg. Música: Bear McCreary. Figurino: Megan Coates. Direção de arte/cenários: Molly Hughes/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Jonathan Deckter, William A. Earon, Erika Hampson, John Norris. Produção: Kelly Carmichael, Nicolas Chartier, Jessica Chastain, Dominic Rustam. Elenco: Jessica Chastain, John Malkovich, Colin Farrell, Common, Geena Davis, Jess Weixler, Ioan Gruffud, Joan Chen. Estreia: 02/7/2020 (Hungria)

Foi-se o tempo em que apenas homens monopolizavam o cinema de ação. Com o passar dos anos e a mudança nos hábitos do público, personagens femininas deixaram de ser apenas espectadoras passivas de sequências de adrenalina em profusão para se tornarem protagonistas de suas próprias aventuras. Agentes secretas, espiãs, matadoras de aluguel ou simplesmente defensoras do lar e da família, as mulheres passaram a donas do próprio destino - e atrizes como Angelina Jolie, Charlize Theron, Linda Hamilton, Jennifer Lawrence e Sigourney Weaver foram promovidas a estrelas de um gênero antes dominado por Stallone, Schwarzenegger, Van-Damme, Vin Diesel e Mel Gibson. Uma das mais recentes aquisições do estilo é Jessica Chastain. Linda, sexy e de constituição física aparentemente frágil, Chastain - mais conhecida por seus desempenhos dramáticos e por uma vitoriosa carreira nos palcos - assume, em "Ava", seu lado mais radical, e embarca sem receio em uma produção que aposta nos clichês como forma de segurar o espectador. Sem novidades e sem se aprofundar nos dramas pessoais de seus personagens centrais, o filme dirigido por Tate Taylor acabou por decepcionar os mais exigentes, mas consegue agradar aos entusiastas - da atriz e do gênero.

A produção de "Ava" não foi isenta de problemas. A mudança em seu nome original - "Eve" foi deixado de lado para que não houvesse confusão com a série "Killing Eve", também sobre matadoras de aluguel - foi o menor dos percalços. O principal deles, para preocupação dos produtores (Chastain incluída), foi a polêmica envolvendo o nome do roteirista Matthew Newton, também contratado como diretor: julgado em 2007 por violência doméstica contra a namorada (e absolvido sob a desculpa de sofrer de distúrbios psiquiátricos), Newton voltou a ser acusado por outras mulheres, desta vez de assédio sexual e abuso. A pressão das redes sociais foi pesada - Chastain chegou a ser questionada sobre o assunto, uma vez que é tida como uma das porta-vozes do movimento MeToo - e a cadeira de diretor não demorou a ficar vaga. Quem acabou assumindo o posto foi Tate Taylor - um cineasta competente mas nunca brilhante -, o nome responsável pelo oscarizado "Histórias cruzadas" (2011) e pelo sucesso "A garota no trem" (2016). Com Taylor no comando, "Ava" ficou nas mãos de um operário e não de um artista conhecido pela ousadia. A má notícia: não há quase nada no resultado final que não tenha sido visto em outras produções similares. A boa notícia: Taylor é um eficiente diretor de atores, e extrai interpretações primorosas de seu talentoso elenco mesmo sem ter um grande material em mãos.


O roteiro de Matthew Newton não se preocupa em aprofundar a psicologia ou o drama de seus personagens, preferindo centrar seu foco em uma trama um tanto quanto confusa sobre traição e lealdade no mundo dos matadores de aluguel. É assim que surge a história de Ava (Jessica Chastain, excelente tanto no drama como na porrada), uma bem-sucedida e talentosa assassina por contrato. Protegida pelo veterano Duke (John Malkovich) - que é, ao mesmo tempo, um mentor e uma figura paterna -, Ava se diferencia dos demais profissionais por sempre fugir dos rígidos protocolos da profissão ao buscar um mínimo de conexão com suas vítimas. Tal característica - e um atentado frustrado - acabam por colocá-la na mira de um dos líderes do grupo, Simon (Colin Farrell), que encomenda sua morte apesar dos clamores de Duke. Sem saber que está condenada pelos próprios  colegas, Ava se reaproxima da família de quem esteve afastada por oito anos, lutando contra o alcoolismo e o vício em drogas. Seu reencontro com o antigo namorado, Michael (Common), a põe em rota de colisão com a irmã, Judy (Jess Weixler), atual noiva do rapaz, e reacende os problemas com a mãe, Bobbi (Geena Davis).

Como era de se esperar, "Ava" tem nas sequências de ação o seu maior trunfo. Mesmo que o resultado esteja a anos-luz de distância da icônica trilogia Jason Bourne - só para citar um dos exemplares mais famosos do gênero - e a edição deixe a desejar, com um excesso de cortes que impede de aproveitar por inteiro as longas coreografias de luta, o filme de Taylor não decepciona por completo. Boa parte de sua qualidade está na escolha de um elenco que dá dignidade e consistência a uma trama frágil - e por vezes incompreensível. Jessica Chastain brilha como sempre, oferecendo nuances várias a uma personagem que em mãos erradas poderia ser apenas incoerente. Colin Farrell e John Malkovich protagonizam cenas de grande tensão com a tranquilidade de veteranos e até mesmo Geena Davis ressurge, em uma participação pequena mas emocionante - vale lembrar que Davis foi uma das pioneiras em tentar elevar as mulheres à protagonização de filmes de ação, com os malfadados "A ilha da garganta cortada" (1995) e " Despertar de um pesadelo" (1996). Divertido mas esquecível, "Ava" fica em um razoável meio-termo: agrada aos fãs do estilo mas dificilmente conquista novos adeptos.

UMA EQUIPE MUITO ESPECIAL

UMA EQUIPE MUITO ESPECIAL (A league of their own, 1992, Columbia Pictures, 128min) Direção: Penny Marshall. Roteiro: Lowell Ganz, Babaloo Mandel, estória de Kim Wilson, Kelly Kandaele. Fotografia: Miroslav Ondricek. Montagem: Adam Bernardi, George Bowers. Música: Hans Zimmer. Figurino: Cynthia Flynt. Direção de arte/cenários: Bill Groom/George DeTitta Jr.. Produção executiva: Penny Marshall. Produção: Elliot Abbot, Robert Greenhut. Elenco: Tom Hanks, Geena Davis, Lori Petty, Madonna, Rosie O'Donnell, Bill Pullman, David Straithairn, Jon Lovitz, Garry Marshall. Estreia: 01/7/92

No auge da II Guerra, enquanto a maioria dos homens americanos estavam defendendo o país nas trincheiras inimigas, restava às mulheres manter os EUA, até mesmo em funções até então consideradas masculinas. E se nessa época havia fazendeiras, caminhoneiras e empresárias, por que não jogadoras de baseball? Um dos esportes mais amados pelo público ianque, ele estava em sérias dificuldades com o êxodo de seus mais populares jogadores, que estavam jogando por suas vidas nas mais distantes plagas. Com medo de perder as generosas bilheterias que o jogo lhes proporcionava, os empresários tiveram então uma ideia brilhante: criar uma liga feminina de baseball, com o objetivo de manter acesa a chama até o retorno dos (esperava-se) vencedores soldados. Assim começa "Uma equipe muito especial", a divertida comédia que Penny Marshall - diretora dos sucessos "Quero ser grande" (88) e "Tempo de despertar" (90) - fez alcançar mais de 100 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico no verão de 1992. Sucesso de público e crítica, o filme cria uma história de ficção em cima de uma situação verídica (a criação de tal liga) que até então era desconhecida da maior parte dos americanos e faz rir e emociona com um roteiro enxuto escrito pela dupla mais quente da época, Baballo Mandel e Lowell Ganz.

A trama criada pelos roteiristas começa em 1943, no Oregon, quando o descobridor de talentos Ernie Capadino (Jon Lovitz) propõe à talentosa Dotti Hinson (Geena Davis em momento especialíssimo da carreira, acumulando sucesso atrás de sucesso) que o acompanhe para um teste em Chicago: se aprovada, ela entraria em um time de baseball profissional com um salário tentador (ao menos para uma fazendeira cujos dias se resumem a ordenhar vacas, cuidar da casa, esperar que o marido retorne da guerra e ocasionalmente jogar com um grupo de amigas). Dottie a princípio recusa o convite, mas acaba aceitando a proposta, desde que possa levar junto sua irmã caçula, Kit (Lori Petty), com quem mantém uma relação carinhosa porém de certa rivalidade. Em pouco tempo, ambas estão escaladas para serem treinadas por Jimmy Dugan (Tom Hanks, divertidíssimo), que, de uma lenda do esporte acabou por tornar-se um pária por seu vício em álcool. Juntamente com outras mulheres igualmente talentosas, elas encaram o machismo do mundo esportivo - antes de jogadoras elas são tratadas como fêmeas, que precisam saber comportar-se socialmente e manter-se atraentes fisicamente - e iniciam uma bem-sucedida carreira.


O fio condutor da história de "Uma equipe muito especial" - a amizade e a competitividade entre Dotti e Kit - é apenas desculpa para Penny Marshall divertir o público com piadas sutis e ácidas sobre o comportamento feminino da década de 40 e o universo machista e ganancioso do baseball. Enquanto Dotti está vivenciando apenas uma fase de sua vida, que ela pretende que volte aos eixos quando seu marido (Bill Pullman) retornar do conflito, suas colegas tem no jogo e no campeonato o centro de suas existências. É somente ao lado das demais jogadoras que Doris Murphy (Rosie O'Donnell) sente-se enturmada, que a desbocada e liberal Mae Mordabito (Madonna) pode ser quem ela realmente é, que a feiosa Marla (Megan Cavanagh) sente-se valorizada (mesmo que nos documentários sobre o time ela seja sempre filmada de longe para não atrapalhar a ideia de que todas as atletas da liga são bonitas e sensuais). Essa espécie de família que é criada a partir da união entre todas elas é o que dá ao filme seu sabor especial, mesclando momentos de humor com cenas quase comoventes - em especial quando uma das jogadoras recebe a triste notícia da morte de seu marido. Buscando um humor simples e familiar, ela atinge o espectador aos poucos, até mesmo aquele que entende de baseball tanto quanto de física quântica.

"Uma equipe muito especial" talvez seja apenas mais um filme de esportes americanos feito para americanos, mas é impossível negar as qualidades que o fazem conquistar também o público internacional. O timing cômico do roteiro é invejável (todas as cenas com o filho obeso de uma das jogadoras é sensacional), a direção é convencional mas eficaz, a trilha sonora de Hans Zimmer cumpre sua função com louvor (e tem direito até a uma canção feita especialmente por Madonna, "This used to be my playground", que concorreu ao Golden Globe) e o elenco está em dias inspirados. Tom Hanks engordou para o papel e construiu um Jimmy Dugan irascível e ao mesmo encantador; Geena Davis pegou o papel de Debra Winger dias antes do início das filmagens e tornou-se exímia jogadora; e até Madonna sai-se bem como a sexy Mae Topa Tudo (o que dá origem a uma ótima piada). No final das contas, é uma comédia acima da média, capaz de arrancar sorrisos até do mais exigente espectador.

terça-feira

NÃO TENHO TROCO

NÃO TENHO TROCO (Quick change, 1990, Devoted Pictures, 89min) Direção: Howard Franklin, Bill Murray. Roteiro: Howard Franklin, romance de Jay Cronley. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Alan Heim. Música: Randy Edelman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: David Gropman/Susan Bode. Produção executiva: Frederic Golchan. Produção: Robert Greenhut, Bill Murray. Elenco: Bill Murray, Geena Davis, Randy Quaid, Jason Robards, Tony Shalhoub. Estreia: 13/7/90

Uma dose de "Um dia de cão" (75), de Sidney Lumet. Pitadas da comédia juvenil "Uma noite de aventuras" (87), de Chris Columbus. E muito da paranoia bizarra de "Depois de horas" (85), de Martin Scorsese. Assim pode ser definida a comédia "Não tenho troco", estreia - e até hoje única experiência - do ator Bill Murray como diretor. Trabalhando em conjunto com o também cineasta Howard Franklin com base em um livro de Jay Cronley que já havia sido adaptado para o cinema em 1985 com Jean-Paul Belmondo e Kim Catrall nos papéis centrais, Murray demonstrou que, além de um ator superlativo e frequentemente subestimado ao ser limitado ao nicho do humor, é também capaz de destacar-se por trás das câmeras. Dotado de um ritmo invejável e de piadas inteligentes, "Não tenho troco" é um passatempo dos mais agradáveis, que tem no humor despretensioso a sua maior qualidade.


Murray brilha como sempre no papel principal desde a sequência de abertura, em que, vestido de palhaço - com direito a balões e tudo - atravessa Nova York de metrô até chegar a um banco prestes a encerrar suas atividades diárias. Logo que entra no local, ele anuncia um assalto, trancafia os clientes em um cofre e passa a negociar a libertação dos reféns com o chefe da polícia, o ambicioso Ratzinger (Jason Robards, comprando a brincadeira com extrema simpatia). Não demora muito, porém, para que o público perceba, antes de qualquer autoridade policial, que o plano do palhaço é bem mais simples do que exigir tratores e helicópteros. Enquanto todos tentam desesperadamente cumprir tudo que lhes é pedido, o assaltante, que se chama Grimm, já saiu do prédio com o dinheiro escondido nas roupas - nas suas e nas de dois cúmplices que estavam disfarçados de reféns: sua namorada Phyllis (Geena Davis) e seu melhor amigo, o inconsequente Loomis (Randy Quaid). E é justamente Loomis que, por acidente, atrapalha o plano perfeito do trio que se vê, a partir de então, em rota de fuga, tentando alcançar o aeroporto para sair do país.


As tentativas de Grimm, Phyllis e Loomis de fugir da polícia em uma Nova York noturna, cheia de personagens amalucados e uma sensação de perigo (amenizada pelo tom cômico do roteiro) preenche os dois terços finais do filme de Murray e Franklin. Povoada por personagens à beira do surreal - como um taxista estrangeiro incapaz de compreender a mais simples das ordens, interpretado por um então novato Tony Shalhoub - e de situações de deixar qualquer cidadão à beira do desespero, a trajetória do trio ainda é dificultada pelos problemas românticos entre Grimm e Phyllis, cujo relacionamento enfrenta (ainda que unilateralmente) uma encruzilhada que terá o poder de definir de vez seu desfecho. Enquanto isso, resta ao público divertir-se com suas confusões, torcer por seu sucesso e, de quebra, acompanhar algumas sequências que equilibram com maestria um senso de humor negro com um elenco em dias inspirados (em especial Geena Davis, que acumulava com graça um sucesso atrás do outro).

Pouco lembrado dentro da filmografia de Murray e Geena Davis, "Não tenho troco" é uma grata surpresa para quem procura comédias realmente engraçadas e um ótimo programa para quem deseja relembrar como Hollywood preferiu trocar o humor sutil pelas grosserias adolescentes que se tornariam quase uma praga na década seguinte. É ligeiro, é sem contra-indicações e deixa qualquer um sorrindo à toa.

sexta-feira

O TURISTA ACIDENTAL

O TURISTA ACIDENTAL (The accidental tourist, 1988, Warner Bros, 121min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Lawrence Kasdan, Frank Galati, romance de Anne Tyler. Fotografia: John Bailey. Montagem: Carol Littleton. Música: John Williams. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Bo Welch, Cricket Rowland. Produção executiva: Phyllis Carlyle, John Malkovich. Produção: Michael Grillo, Lawrence Kasdan, Charles Okun. Elenco: William Hurt, Kathleen Turner, Geena Davis, Bill Pullman, Amy Wright, David Ogden Stiers, Ed Begley Jr.. Estreia: 23/12/88

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Geena Davis), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Geena Davis)

A expectativa era grande em torno do reencontro entre o cineasta Lawrence Kasdan e a dupla de atores William Hurt e Kathleen Turner, afinal, eles haviam incendiado as telas de cinema sete anos antes com o neo-noir "Corpos ardentes" (81), que embora tenha fracassado nas bilheterias, tornou-se referência no gênero thriller erótico pouco depois - chegando a gerar inúmeras imitações, quase nunca tão boas quanto ele. Acontece que tal expectativa acabou sendo o maior problema enfrentado por "O turista acidental", drama familiar baseado no best-seller de Anne Tyler e que foi o projeto que marcou a reunião do talentoso trio: misturar um livro de sucesso, um cineasta competente, uma atriz em alta (Turner já havia concorrido ao Oscar por "Peggy Sue, o passado à espera" (86)) e um ator oscarizado (por "O beijo da mulher-aranha" (85)) só poderia dar coisa boa, e ninguém esperava o contrário. Mas, apesar de todos os ingredientes estarem disponíveis, o filme não obteve o resultado esperado. Mesmo tendo concorrido ao Oscar de melhor filme do ano - em uma indicação até hoje pouco compreensível - e ter sido premiado pela Associação de Críticos de Nova York, o filme de Kasdan peca por ser um drama irregular, que alterna momentos brilhantes com outros simplesmente aborrecidos.

Apesar do nome de Turner aparecer no cartaz com o mesmo destaque que Hurt - certamente uma estratégia de marketing - é o ator, que emplacou uma sucessão de indicações ao Oscar (em 85, 86 e 87) que carrega o filme nas costas, como o protagonista absoluto da trama criada por Tyler. Ele interpreta Macon Leary, um escritor de guias de viagem para executivos torturado pela morte violenta do filho adolescente e que vê seu casamento aparentemente estável com a bela Sarah (Kathleen Turner) acabar melancolicamente. Vivendo seus dias sem maior entusiasmo - e voltando a conviver com sua estranha família, com quem mantém uma relação quase distante - Macon tem sua rotina alterada quando conhece Muriel Pritchett (Geena Davis), uma jovem amalucada que trabalha no hotel para cães onde ele deixou seu animal de estimação durante uma viagem. Os dois - ele retraído, tenso e incapaz de lidar com os sentimentos em torno da perda do filho e ela excêntrica, alegre e corajosamente criando seu filho pequeno sozinha - acabam por formar um inusitado casal, que será ameaçado por suas diferenças, pelas circunstâncias sociais e, pior ainda, pelo retorno de Sarah, que resolve tentar uma nova chance para seu casamento.


A boa ideia do roteiro de Kasdan e Frank Galati - indicados ao Oscar da categoria - de ilustrar passagens dos livros de Leary (que faz sugestões práticas aos leitores de como carregar pouca bagagem, por exemplo) com momentos de sua vida é realmente interessante, fazendo um bem-vindo contraponto entre o que é teoria e realidade. As metáforas do livro de Tyler parecem intactas em sua transposição para o cinema e Kasdan é, comprovadamente um roteirista de mão cheia, capaz de escrever diálogos que soam naturais mesmo com personagens que beiram o surreal, como a doidivanas Muriel, que Geena Davis interpreta com graça e propriedade mesmo não tendo sido a primeira escolha para o papel - Jessica Lange, Ellen Barkin e Laura Dern estavam à sua frente. Optando pela discrição da atuação em contraste com o quase exagero das atitudes da personagem, Davis (que no mesmo ano estava no elenco do blockbuster "Os fantasmas se divertem") equilibra os dois pontos de Muriel a ponto de fazer com que o público acredite que, por exemplo, ela é capaz de sair de seu país de uma hora para outra apenas para encontrar o ex-namorado. Talvez tenha sido essa sutileza da interpretação a responsável pelo Oscar de coadjuvante que Davis papou de nomes mais fortes, como Sigourney Weaver, Michelle Pfeiffer e Frances McDormand.

"O turista acidental" é um filme americano de alma europeia. Seu drama, apesar de devastador, não se revela em catárticas cenas lacrimosas e sim na tristeza profundamente enraizada de Macon Leary, que prefere isolar-se do mundo e das emoções a ter que enfrentá-las corajosamente. Lawrence Kasdan não se permite nem ao menos explorar mais detalhadamente a origem da tragédia do casal central, optando, ao invés disso, por flashes rápidos do acontecido (mais como forma de situar a plateia do que para buscar a comoção rasteira). Esses acertos, porém, esbarram em cenas desnecessárias (como quase todas as que envolvem a família de Macon, inclusive retratando o romance nascente entre sua irmã e seu chefe, vivido por um ainda desconhecido Bill Pullman) que tiram o foco, a energia e o ritmo do filme. Fosse mais econômico certamente ele teria criado uma pequena obra-prima. Como está, seu filme é, longe de ruim, apenas correto e sóbrio - e, considerando a explosão sensual de "Corpos ardentes", a quase frieza de "O turista acidental" não deixa de ser um interessante paradoxo que mostra sua versatilidade e competência.

OS FANTASMAS SE DIVERTEM

OS FANTASMAS SE DIVERTEM (Beetlejuice, 1988, Geffen Company, 92min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Michael McDowell, Warren Skaaren, estória de Michael McDowell, Larry Wilson. Fotografia: Thomas Ackerman. Montagem: Jane Kurson. Música: Danny Elfman. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Catherine Mann. Produção: Michael Bender, Richard Hashimoto, Larry Wilson. Elenco: Alec Baldwin, Geena Davis, Winona Ryder, Michael Keaton, Catherine O'Hara, Jeffrey Jones, Glenn Shadix. Estreia: 29/3/88

Vencedor do Oscar de Maquiagem

Era uma vez o roteiro de um filme de terror cujo protagonista era um demônio cujo objetivo era se disfarçar-se de humano para interagir com duas famílias normais, matar uma delas e estuprar a filha adolescente de outra. Conforme os anos iam passando e o roteiro ia sendo reescrito, as coisas começavam a mudar, até que um dia, com a entrada de Tim Burton no projeto, o que seria um apavorante exercício de horror transmutou-se em uma comédia de humor negro repleta das bizarrices e excentricidades que fariam a fama do diretor no futuro - a despeito de seu desvio para o cinemão comercial com os dois primeiros capítulos de "Batman" que ele comandou e encheram os bolsos da Warner Bros.. Visualmente criativo e dotado de um senso de ironia e mordacidade poucas vezes vistos nascidos dentro dos estúdios de Hollywood, "Os fantasmas se divertem" ainda teve um belo desempenho nas bilheterias americanas, arrecadando mais de 70 milhões de dólares contra um custo estimado de 15 milhões, e dobrou até mesmo os conservadores eleitores da Academia, arrebatando o Oscar de maquiagem, um trabalho artesanal que remava contra a maré dos dispendiosos efeitos visuais pós-"Star Wars".

Visto hoje, à luz dos anos, "Os fantasmas se divertem" é um típico filme de Tim Burton, que na época ainda era um talento pouco reconhecido, tendo dirigido apenas "As grandes aventuras de Pee-Wee" (85). O visual kitsch misturado com personagens excêntricos e tramas que desafiam os padrões de normalidade do american way of life estão no âmago de sua filmografia e são elementos cruciais em sua história sobre um casal de fantasmas camaradas que tentam, de todas as maneiras possíveis e imagináveis, retomar sua casa das mãos de uma família mais apavorante do que eles mesmos. Pontuado pela trilha sonora de Danny Elfman - que se tornaria colaborador habitual de Burton - o filme consegue a façanha de agradar ao público adulto da mesma forma com que conquista a plateia infantil, com suas brincadeiras visuais, humor insano e um elenco de personalidade que começa com um Michael Keaton pré-Batman na pele do asqueroso, lunático e francamente desagradável personagem-título, o bio-exorcista (!!) Beetlejuice e apresenta uma jovem Winona Ryder começando a carreira e Geena Davis no mesmo ano em que surpreendeu Hollywood levando o Oscar de coadjuvante por "O turista acidental".


Davis - que já tinha o sucesso de "A mosca" no currículo - interpreta Barbara, uma das metades do casal Maitland, completado pelo dedicado Adam (Alec Baldwin). Apaixonados um pelo outro e pela casa que construiram, eles morrem inesperadamente em um acidente de carro e não só precisam lidar com a nova realidade, mas também com o fato de que seu lar agora pertence à excêntrica família Deetz, que chegaram até mesmo a contratar um decorador para deixá-lo de acordo com sua personalidade. A mãe da família, Delia (Catherine O'Hara, substituindo Anjelica Huston com graça e timing perfeito) é uma bizarra escultora dada a aceitar conselhos de seu guru, e a filha do casal, Lydia (Winona Ryder) é a única que percebe que alguma coisa está errada no local. Desesperados com a possibilidade de serem obrigados a assistir seu sonho de consumo transformar-se em pesadelo, o casal Maitland acaba tendo que recorrer a Beetlejuice, um exorcista de seres vivos. Porém, uma vez que eles descobrem que o estranho ser é mais aterrador ainda do que os Deetz, somente a jovem Lydia pode ajudá-los.

Resumir a trama de "Os fantasmas se divertem" é tarefa inglória, uma vez que o roteiro não se furta a brincar com as expectativas do público, alternando-se entre o humor escrachado de Beetlejuice, a ironia quase sutil do núcleo da família Deetz e a impotência do casal Maitland diante de circunstâncias tão estranhas para eles quanto para o público. Tim Burton deita e rola com as inúmeras possibilidades oferecidas pela trama, oferecendo tanto efeitos especiais criados com técnicas quase primitivas quanto brincadeiras visuais que se equilibram entre o grotesco e o francamente engraçado. Para isso, ele conta com uma equipe digna dos maiores elogios, como o músico Danny Elfman e o designer de produção Bo Welch, que criou cenários perceptivelmente fakes que combinam com o tom artesanal do conceito do cineasta - não à toa, Burton dirigiria alguns anos depois, a cinebiografia de "Ed Wood", cujos filmes também eram quase um elogio ao kitsch e ao falso. Além deles, o elenco não é menos que espetacular: se Michael Keaton tem aqui a maior chance de mostrar-se um ator bancável (fato que comprovaria em seus trabalhos seguintes com o diretor, na pele do homem-morcego), Winona Ryder dava os primeiros passos de uma carreira que amadureceria bastante na década seguinte e Geena Davis também se fazia notar com ótima química com Alec Baldwin. No entanto, é difícil não destacar o trabalho de Catherine O'Hara, genial como Delia Deetz - é inesquecível, por exemplo, a sequência em que a família é assombrada por Beetlejuice durante um jantar com convidados e é obrigada a dançar a ritmada "Day-O (The Banana Boat Song)".

"Os fantasmas se divertem" é uma espécie de cartão de visitas de Tim Burton para Hollywood. Deu certo, como ficou comprovado com sua carreira bem-sucedida desde então. E é, também, um inventário das obsessões, das piadas e dos conceitos de seu diretor, um dos mais autorais e respeitados de uma terra tão pródiga em sepultar a criatividade alheia.

segunda-feira

A MOSCA

A MOSCA (The fly, 1986, SLM Productions/Brooksfilms/20th Century Fox, 96min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Charles Edward Pogue, David Cronenberg, conto de George Langelaan. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Elinor Rose Galbraith. Produção: Stuart Cornfeld. Elenco: Jeff Goldblum, Geena Davis, John Getz, Joy Boushel. Estreia: 15/8/86

Vencedor do Oscar de Maquiagem

Em 1958, uma aterrorizante ficção científica estrelada por Vincent Price, "A mosca da cabeça branca", tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria de seu estúdio (20th Century Fox). Quase trinta anos mais tarde, o conto de George Langelaan que a inspirou voltou a assustar - ou mais precisamente enojar - a audiência: com mais recursos de tecnologia, um cineasta inclinado a exagerar no horror visual, mais dinheiro que seu antecessor e rebatizado simplesmente como "A mosca", a reinvenção do canadense David Cronenberg da história de Langelaan novamente levou multidões aos cinemas (custou estimados 15 milhões de dólares e rendeu mais de 40 somente no mercado doméstico), rendeu uma continuação inferior e deu ao ator Jeff Goldblum o papel mais marcante de sua carreira - e que quase foi parar nas mãos de Michael Keaton - além de dar à sua então namorada Geena Davis um de seus primeiros papéis importantes.

A história de "A mosca" é bem típica dos clichês das ficções científicas paranóicas dos anos 50, mas recheada com efeitos visuais e de maquiagem extremamente eficientes (a maquiagem de Chris Walas chegou a levar o Oscar da categoria) e refogada com uma violência gráfica que trai a presença de Cronenberg por trás do projeto (como seria o filme sob o comando de Tim Burton, o primeiro diretor a ser considerado, é uma incógnita). Substituindo os sustos por sequências de nojeira explícita - característica que havia abandonado em seu filme anterior, "A hora da zona morta" (83) - o cineasta leva o espectador a uma viagem pelo pesadelo maior de qualquer cientista (tornar-se vítima involuntária do próprio trabalho) sem pausas para respirar. E poucas vezes o conceito de cientista maluco foi levado a circunstâncias tão extremas como as mostradas na trágica história do cientista maluco (e não o são todos?) Seth Brundle.


Brundle é, como todos os cientistas retratados na ficção, um ser antissocial, dedicado quase que às raias da obsessão por sua nova experiência: uma máquina de teletransporte que irá, segundo ele mesmo, revolucionar a ciência mundial. Registrando suas experiências lado a lado com a jornalista Veronica Quaife (Geena Davis) - com quem eventualmente acaba se relacionando também amorosamente - ele esbarra em algumas dificuldades técnicas, como a impossibilidade de teletransportar seres vivos (em uma de suas tentativas ele acaba virando um babuíno literalmente pelo avesso). Suas experiências, porém, começam a dar resultado e, em uma noite em que está alcoolizado e enciumado da relação de Veronica com um ex-namorado que também é seu editor, Brundle resolve testar seus experimentos nele mesmo. Sem que perceba, junto com ele na máquina de teletransporte entra uma mosca. Em seguida, depois de considerar a experiência um êxito, ele começa a perceber mudanças em seu organismo (força física avantajada, fòlego maior, exagerada necessidade de açúcar e pelos duros que crescem através de um ferimento nas costas). Quando as coisas começam a sair do controle - ele começa a perder os dentes e as unhas, por exemplo - ele investiga o registro de suas atividades no computador e descobre estarrecido que suas moléculas foram fundidas às do inseto, o que acabará por levá-lo a uma metamorfose completa.

Se até então o filme de Cronenberg apenas flertava com o horror, a partir daí não existe mais limites para sua fascinação pelo doentio. O diretor aproveita o roteiro para expor sem subterfúgios algumas das cenas mais nojentas do cinema da década de 80 (e quiçá de muito tempo depois): babuínos eviscerados, vômitos, pus, membros podres, fraturas expostas... tudo que pode servir à trama enquanto perturba a plateia é utilizado por ele que, no entanto, em momento algum deixa de lado sua preocupação em manter a coerência interna da história, principalmente em termos de personagens: mesmo quando se vê em vias de transformar-se de vez em uma mosca, Brundle ainda tem laivos de ser humano, apaixonado por Veronica e preocupado com o bebê que ela espera. Ela, por sua vez, se vê dividida entre manter a lealdade ao homem que ama mesmo quando ele não passa mais de um arremedo do que foi (e passa a ameaçá-la com mais uma de suas ideias radicais). Para isso, conta muito a química entre Jeff Goldblum e Geena Davis (um casal de verdade à época das filmagens) e o talento inquestionável do cineasta em arrancar de seus atores interpretações convincentes mesmo em situações que beiram o surreal - característica que ele ainda exploraria muito mais futuramente, em filmes bastante controversos.

"A mosca" é um grande filme de ficção científica por vários motivos. Primeiro, porque se leva a sério, coisa que muitas produções contemporâneas não fazem. Depois, porque é tecnicamente competente a ponto de ainda hoje impressionar pelos efeitos e pela maquiagem. E por fim, tem uma história forte e personagens críveis, que não soam como estereótipos mal-desenvolvidos, além de contar com bons atores defendendo seus papéis. O fracasso de sua continuação não chega a surpreender, uma vez que não tem todos esses elementos. Melhor ficar com a primeira parte e se impressionar em como se mantém atual apesar da tecnologia.

quarta-feira

HERÓI POR ACIDENTE

HERÓI POR ACIDENTE (Hero, 1992, Columbia Pictures, 117min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: David Webb Peoples, história de Laura Ziskin, Alvin Sargent, David Webb Peoples. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Mick Audsley. Música: George Fenton. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Casting: Howard Feuer, Juliet Taylor. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo. Produção: Laura Ziskin. Elenco: Dustin Hoffman, Geena Davis, Andy Garcia, Joan Cusack, Chevy Chase, Stephen Tobolowski, Tom Arnold. Estreia: 02/10/92

"Quando a lenda é mais interessante do que a história, publica-se a lenda." A célebre frase, dita no filme "O homem que matou o facínora", parece ser o lema que orienta o roteiro de "Herói por acidente", ácida e cínica comédia dirigida pelo inglês Stephen Frears que falhou vergonhosamente em suas intenções de arrebatar prêmios nas cerimônias de 1992. Uma espécie de sátira ao estilo Frank Capra - repleto de ironias, mas sem as lições de moral dos filmes deste - o filme escrito por David Webb Peoples (autor de "Os imperdoáveis") não encontrou nem mesmo sua audiência, estacionando em uma bilheteria de menos de 20 milhões de dólares, a despeito de seu cartaz estampar os nomes de Dustin Hoffman e Geena Davis - ela então no auge da carreira depois do sucesso de "Thelma & Louise".

Davis interpreta Gale Gayley, uma repórter dedicada e ambiciosa, capaz de entrevistar suicidas momentos antes de seus atos finais. Durante um vôo de volta de Nova York - onde havia ido para receber um prêmio - seu avião sofre um acidente e os passageiros são resgatados por um homem misterioso, com o rosto sujo de lama e sem um pé de sapato. Não demora para que esse herói receba, na mídia, o apelido de "O anjo do vôo 104" e passe a ser procurado para entrevistas e glórias. Quando uma recompensa de 1 milhão de dólares é oferecida, porém, o novo astro surge: o mendigo John Bubber (Andy Garcia) assume o posto e torna-se ídolo das multidões, chegando inclusive a ensaiar um romance com a repórter. O problema maior é que Bubber não é o verdadeiro salvador: quem realmente merece as honras é Bernie LaPlante (Dustin Hoffman), um homem que vive de expedientes, sem emprego fixo e que foi parar na cadeia logo depois do acidente, acusado de revender objetos roubados. LaPlante tenta provar que ele é o verdadeiro herói, mas tem que lutar contra o fato de que Bubber é bonito, simpático e bem mais apropriado às intenções da mídia.

Um feroz ataque à futilidade da mídia, "Herói por acidente" esbarra, em certos momentos, em um cinismo exagerado. Ainda que a intenção do roteiro seja justamente ampliar os erros cometidos em nome do sucesso - afinal de contas é isso que faz uma comédia - às vezes a coisa parece sair do controle. Excelente diretor, Frears escorrega em carregar nas tintas das personagens, a ponto de nem mesmo o público saber discernir entre o que é verdadeiro ou não em suas personalidades. O romance entre Gale e John Bubber, por exemplo, não encanta justamente por esse motivo. Por melhores atores que sejam, Geena Davis e Andy Garcia saem-se muito melhor nas sequências menos dramáticas do filme - Garcia está sublime em seus momentos de demagogia explícita (ainda que o roteiro nem sempre se decida se ele é honesto ou não em suas intenções).

Mas Dustin Hoffman, mais uma vez, brilha intensamente. Apesar de manter alguns tiques de seu "Rain Man", ele dá a seu Bernie LaPlante nuances que o fazem driblar as armadilhas do roteiro um tanto maniqueísta. O protagonista criado por David Peoples não tem nada que o faça ser mais do que um ser humano um tanto desagradável, um pai relapso (mas amoroso) e um ex-marido decepcionante. Ainda assim, o carisma de Hoffman contorna as falhas de caráter de sua personagem, levando o público a torcer por sua vitória. A longa sequência em que ele conversa com um suicida John Bubber é um primor de inteligência, e seu diálogo esperto e realista compensa plenamente os percalços do roteiro até então.

Dizer que "Herói por acidente" é ruim é um pecado, bem como incensá-lo como uma obra-prima. É um filme de rara inteligência e sarcasmo, mas que resvala em alguns exageros. Não mereceu ser ignorado e deve ser redescoberto, ao menos para que a crítica furiosa que faz ao quarto poder não caia no vazio.

quinta-feira

THELMA & LOUISE

THELMA & LOUISE (Thelma & Louise, 1991, MGM Pictures, 130min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Callie Khouri. Fotografia: Adrian Biddle. Montagem: Thom Noble. Música: Hans Zimmer. Figurino: Elizabeth McBride. Direção de arte/cenários: Norris Spencer/Anne Ahrens. Casting: Louis Di Giaimo. Produção: Mimi Polk, Ridley Scott. Elenco: Susan Sarandon, Geena Davis, Harvey Keitel, Michael Madsen, Christopher McDonald, Brad Pitt, Stephen Tobolowsky. Estreia: 24/5/91

6 indicações ao Oscar: Diretor (Ridley Scott), Atriz (Geena Davis, Susan Sarandon), Roteiro Original, Fotografia, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Roteiro

Em uma das cenas de "Thelma & Louise" - excepcional filme de Ridley Scott indicado a 6 Oscar - uma possível testemunha de um violento assassinato faz a seguinte declaração: "Eu sou uma garçonete. Se isso não faz de mim uma especialista na natureza humana então não sei de nada." Pode até parecer uma declaração um tanto exagerada, mas se levarmos em consideração que o roteiro do filme - premiado com uma merecidíssima estatueta - foi escrita por Callie Khouri, uma ex-garçonete, é impossível não deixar de concordar com sua afirmação. Afinal, se há uma qualidade que se destaca no filme de Scott - repleto delas, diga-se de passagem - é a extrema humanidade que emana em cada uma das personagens que desfila pela tela, sejam elas de destaque ou não.


O roteiro de "Thelma & Louise" é, definitivamente, um primor de concisão, ritmo e - pasmem! - bom-humor. Apesar da premissa um tanto barra-pesada, a história criada por Khouri - que nunca mais teve a mesma sorte em seus projetos posteriores - tem o bom-senso de nunca deixar que tudo caia no depressivo ou no desnecessariamente trágico. Mesmo quando estão nos piores momentos de sua vida, as protagonistas jamais caem na armadilha da auto-compaixão: responsabilidade do script esperto, da trilha sonora marcante de Hans Zimmer, da edição ágil e da direção perfeita de Ridley Scott - que se viu disputando o Oscar com Oliver Stone (por "JFK") e Jonathan Demme (por "O silêncio dos inocentes"). Saiu sem o prêmio nas mãos, mas muitos elogios da crítica e do público: "Thelma & Louise" é um clássico absoluto desde sua estreia, uma espécie de "Butch Cassidy & Sundance Kid" pós-feminista e um dos melhores filmes da década de 90.

Louise (Susan Sarandon, excepcional) é uma garçonete que vive uma relação aberta com Jimmy (Michael Madsen), um músico itinerante. Thelma (Geena Davis no melhor momento de sua carreira) é uma dona-de-casa frustrada e dominada pelo marido troglodita Darryl (Christopher MacDonald, tirando o máximo do potencial cômico de sua personagem). Amigas de longa data, as duas resolvem passar um fim-de-semana na casa de campo de um dos chefes de Louise e partem com o franco objetivo de esquecer, por um mínimo de tempo, suas vidas um tanto tediosas. Sua viagem, que era para ser divertida, esbarra em um grande problema, porém: em sua primeira parada em um bar, Thelma bebe demais e só escapa de ser estuprada quando Louise mata o agressor com um tiro. Apavoradas, elas decidem não recorrer à polícia - por motivos óbvios - e as circunstâncias acabam levando-as a optar para uma fuga para o México. A única pessoa que tenta ajudá-las é o experiente policial Hal (Harvey Keitel).



"Thelma & Louise" é, em seu formato, um road-movie dos melhores. A belíssima fotografia de Adrian Biddle aproveita a beleza árida do Colorado para reiterar a vida deserta das protagonistas, que encontram sentido em sua existência somente quando são obrigadas a embarcar em uma aventura inesperada. Em seu caminho rumo à liberdade (física e interna), a madura Louise e a ingênua Thelma tomam contato com todas as formas possíveis de seres humanos e até mesmo com seus próprios corpos - Thelma chega a envolver-se em uma rápida aventura sexual com um caroneiro mau-caráter, vivido por Brad Pitt estreando no cinema com o pé direito. Apesar de alguns exageros na construção de estereótipos masculinos - que nunca deixam de ser bastante verossímeis, aliás - o roteiro de Callie Khouri encanta também pela ousadia de seu final agridoce - um final que Susan Sarandon exigiu que se mantivesse mesmo com a pressão do estúdio para que fosse alterado.

Mas "Thelma & Louise" é, acima de tudo, Susan Sarandon e Geena Davis. Apesar da extensa lista de atrizes cotadas para viver as personagens em seus vários anos de pré-produção, é impossível imaginar quem traduziria melhor que as duas a gama imensa de sentimentos das protagonistas. Indicadas ao Oscar - que perderam para Jodie Foster - elas são inesquecíveis com suas atuações extraordinárias, carismáticas e poderosas. Seria inconcebível premiar uma em detrimento da outra - ainda que o trabalho de Sarandon seja menos óbvio - mas sem dúvida nenhuma qualquer espectador que tenha tido a oportunidade de assistir ao filme - e foram muitos - sabe que um prêmio é desnecessário nesse caso. O que importa é o sentimento de imortalidade que as duas forjaram em suas inseparáveis e corajosas amigas.

terça-feira

TOOTSIE


TOOTSIE (Tootsie, 1982, Columbia Pictures, 116min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Murray Schisgal, Larry Gelbart, história de Don McGuire e Larry Gelbart. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Fredrick Steinkamp, William Steinkamp. Música: Dave Grusin. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Peter Larkin/Tom Tonery. Casting: Toni Howard, Lynn Stalmaster. Produção executiva: Charles Evans. Produção: Sydney Pollack, Dick Richards. Elenco: Dustin Hoffman, Jessica Lange, Dabney Coleman, Teri Garr, Charles Durning, Sydney Pollack, Bill Murray, Geena Davis. Estreia: 17/12/82

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sydney Pollack), Ator (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Teri Garr, Jessica Lange), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Canção ("It might be you"), Som
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Jessica Lange)
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Ator/Comédia ou Musical (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Jessica Lange)


De um lado, uma história sobre um tenista que desiste da operação de mudança de sexo, contentando-se em vestir-se de mulher. Do outro, a história de um ator desempregado que encontra trabalho como atriz em uma telenovela. No meio disso tudo, a ideia do ator Dustin Hoffman de interpretar ao mesmo tempo um homem e uma mulher, vinda da época em que filmava "Kramer X Kramer". Dessa mistura de ideias surgiu uma das comédias mais brilhantes da década de 80, que misturava humor de vaudeville, romance, sátira ao feminismo e uma feroz crítica à futilidade do mundo teatral: "Tootsie", dirigida por Sydney Pollack e que recebeu generosas 10 indicações ao Oscar em 1982.

Hoffman, em mais uma brilhante interpretação, vive Michael Dorsey, um ator tão talentoso quanto genioso que atravessa um difícil período de dois anos sem trabalho. Insatisfeito com o emprego de garçom, ele sonha em produzir uma peça escrita por seu colega de apartamento, Jeff Slater (Bill Murray), mas não encontra quem queira lhe oferecer uma chance nos palcos, nem mesmo com a ajuda de seu agente (o diretor Sydney Pollack, com um segundo contra-cheque como ator). Ao acompanhar a amiga Sandy (Teri Garr) a uma audição, que vai escolher a atriz para participar de uma telenovela vespertina, ele tem ideia de vestir-se de mulher e tentar o papel. Com o nome de Dorothy Michaels, ele não apenas é contratado como torna-se um ícone dos novos direitos femininos ao enfrentar o domínio masculino no programa. Seu sucesso começa a incomodá-lo quando ele passa a ser assediado por Lesley (Charles Durning), o pai de sua colega de elenco, Julie Nichols (Jessica Lange), por quem ele se apaixona.


O quiproquó criado pelo roteiro indicado ao Oscar é de uma delícia shakespereana. Assim como em "A comédia dos erros", Michael/Dorothy se vê enredado em uma confusão que se complica a cada cena. Ao tentar aproximar-se de Julie, ele se afasta de Sandy, que tem por ele intenções bem pouco profissionais, e encara a rejeição ao ser confundida com uma lésbica. Não consegue sair do elenco da novela graças a seu êxito impressionante e um contrato milionário. E não consegue desvencilhar-se de Lesley sem revelar a ele sua verdadeira identidade. Inteligente, sarcástico e de um bom-humor contagiante, o script se aproveita do verdadeiro show de Hoffman, que pinta e borda em um papel que lhe proporciona todas as chances de mostrar - mais uma vez - seu imenso talento.

O trabalho de composição de Hoffman, aliás, é digno de figurar em qualquer antologia de grandes atuações do cinema. Não apenas o genial figurino de Ruth Morley e a maquiagem sutil mas eficaz, mas todo o conjunto criado pelo ator é impressionante. O tom da voz de Dorothy Michaels (para a qual Hoffman contou com o auxílio de Meryl Streep), seu sotaque, seu modo de andar fazem parte de um contexto que empurra o espectador em direção ao universo quase surreal proposto por Pollack. E o ator - que perdeu o Oscar para Ben Kingsley em "Gandhi" - tem a sorte suprema de contar com um elenco coadjuvante igualmente de se tirar o chapéu.

Em cena em "Tootsie", Dustin Hoffman é cercado por atores em dias inspirados, que pontuam com precisão seu espetáculo particular. Bill Murray - que improvisou todas as suas falas -, Charles Durning e Sydney Pollack estão em alguns de seus melhores momentos e Teri Garr demonstra um timing cômico irrepreensível. Jessica Lange, na pele da doce Julie Nichols teve ainda mais sorte e levou o Oscar de atriz coadjuvante no mesmo ano em que concorria também na categoria principal pelo filme "Frances". Donos de uma química perfeita, eles formam uma equipe vitoriosa que transformam o delicioso texto em uma delirante comédia romântica.

Aliás, é preciso dar grande crédito ao roteiro de "Tootsie". O seu perfeito equilíbrio entre piadas relacionadas ao mundo artístico e seu tom delicado de contar uma história de amor cativa a audiência sem apelar para risadas fáceis e nem mesmo para o piegas. É bastante sintomático, inclusive, que não haja, durante suas quase duas horas de duração, nenhum beijo entre seus protagonistas, o que não impede de forma alguma a credibilidade de seus sentimentos.

No fim das contas "Tootsie" continua se mantendo como uma das mais admiráveis comédias realizadas em Hollywood, capaz de encantar o público de hoje com a mesma sutileza de quase trinta anos atrás.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...