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quinta-feira

PRESO NA ESCURIDÃO

 


PRESO NA ESCURIDÃO (Abre los ojos, 1997, Sogetel/Las Producciones de Escorpion/Les Films Alain Sarde, 119min) Direção e roteiro: Alejandro Amenábar. Fotografia: Hans Burmann. Montagem: María Elena de Rozas. Música: Alejandro Amenábar, Mariano Marín. Figurino: Concha Solera. Direção de arte/cenários: Wolfgang Burmann/Carola Angula. Produção: Fernando Bovaira, José Luis Cuerda. Elenco: Eduardo Noriega, Penélope Cruz, Fele Martínez, Chete Lera, Najwa Nimri. Estreia: 17/12/97

Quando "Os outros" estreou, em 2001, o mundo todo ficou embasbacado com o talento de seu diretor/roteirista/produtor, o chileno Alejandro Amenábar. Porém, se boa parte do público que lotou as salas de cinema tinha a sensação de estar descobrindo um novo talento, um outro tipo de plateia já sabia o que esperar do cineasta: aqueles que conheciam suas obras anteriores, o perturbador "Morte ao vivo"- que lhe rendeu o Goya de melhor diretor estreante de 1996 - e o surpreendente "Preso na escuridão", que, lançado em 1997, colocou seu nome no mapa dos mais promissores realizadores do final do século. Ao misturar romance, suspense e ficção científica de forma orgânica e intrigante, Amenábar não apenas chamou a atenção da crítica, mas também de gente poderosa: impressionado com a trama estrelada por Eduardo Noriega e Penélope Cruz (por quem também se encantaria romanticamente), o astro Tom Cruise assumiu a produção e a protagonização de um remake americano e financiou o primeiro filme do jovem diretor em Hollywood - justamente "Os outros", com sua então esposa Nicole Kidman. O casamento de Kidman e Cruise acabou (assim como o relacionamento do ator com Penélope Cruz), o remake "Vanilla sky" (2001) foi um fiasco artístico e Amenábar ganhou um Oscar em 2005 pelo impecável "Mar adentro", mas nenhum de seus filmes posteriores teve a mesma coragem narrativa de "Preso na escuridão".

A trama, que segundo o diretor, surgiu durante pesadelos oriundos de uma gripe, é propositalmente elíptica, repleta de simbolismos e peças soltas que só fazem sentido no desfecho - quando o quebra-cabeças finalmente é revelado em sua totalidade. Tudo gira em torno de César (Eduardo Noriega), um jovem que, aos 25 anos de idade, tem tudo que qualquer um poderia ambicionar: é bonito, rico, charmoso, invejado - até mesmo pelo melhor amigo, Pelayo (Fele Martinez) - e conquista, sem muito esforço, qualquer mulher que deseja. E são justamente duas mulheres que formam o ponto de virada em sua vida sem sobressaltos. A primeira é a bela Sofía (Penélope Cruz), a quem conhece na festa de seu aniversário - e por quem se apaixona perdidamente - e a outra é Nuria (Najwa Nirmi), uma ex-namorada possessiva e obcecada que, ao sentir-se rejeitada por ele, tenta matá-lo junto com ela em um violento acidente de carro. Vivo mas desfigurado, César passa sem sucesso por uma série de cirurgias plásticas, sem nunca voltar a ter o mesmo rosto de antes, o que o deixa deprimido e revoltado. As coisas começam a mudar, no entanto, depois de uma noite em que, bêbado, ele chega a desmaiar em uma sarjeta: de uma hora para outra, César se vê novamente com a aparência antiga, ao lado de Sofia e levando a vida que sempre sonhou. Uma tragédia, porém, mais uma vez altera seu destino, e caberá a ele - preso por homicídio - tentar montar o quebra-cabeças em que se transformou sua existência.

 

O roteiro de Amenábar é um primor - assim como sua direção, que evita a previsibilidade e mergulha o espectador em uma atmosfera de pesadelo constante. Contando com a inspirada atuação de Eduardo Noriega, que transita com talento entre o playboy inconsequente e a trágica vítima de um amor obsessivo, o cineasta conduz sua trama com extrema segurança, utilizando-se, para isso, de um visual que acentua a sensação de labirinto em que se encontram seus personagens. É digno de nota, também, a forma com que o cineasta embaralha as cartas de seu jogo ao multiplicar a nuances dramáticas de cada jogador, oferecendo a seu elenco (uma jovem Penélope Cruz incluída) uma série de possibilidades, como um jogo de espelhos que reflete vários prismas sem deixar exatamente claro qual deles é o real. A trilha sonora discreta - também composta pelo diretor - pontua com precisão cada diálogo, cada sequência, cada reviravolta, e a edição - fator crucial para a manutenção do suspense - costura o enredo sem deixar pontas soltas (e, ao mesmo tempo, sem precisar recorrer a explicações óbvias, mesmo no angustiante clímax). Mesclando elementos de thriller e ficção científica, Amenábar homenageia ambos os gêneros ao mesmo tempo em que insere, dentro deles, uma personalidade moderna e uma personalidade muito bem-vinda - coisa que o remake dirigido por Cameron Crowe não soube fazer justamente por deixar de lado o fator surpresa do original.

Um belo cartão de visitas de um cineasta corajoso, com boas ideias e um raro domínio do suspense, "Preso na escuridão" recebeu dez indicações ao Goya (o Oscar espanhol), incluindo melhor filme, diretor, roteiro e ator, e demonstrou a força do cinema realizado fora de Hollywood, sem necessidade de prender-se a obrigações comerciais ao mesmo tempo em que não abandona completamente elementos clássicos de gêneros queridos pelo público. E se não bastasse tudo isso, ainda foi o filme que apresentou a beleza de Penélope Cruz para audiências internacionais - ainda demoraria para que ela deixasse de ser apenas uma linda mulher para se tornar uma atriz de prestígio e respeito, mas quando Sofía aparece diante de César, com seu sorriso irresistível, ninguém na plateia é capaz de julgar o rapaz pelos atos obsessivos que virão a seguir. Poucas atrizes tem esse poder!

segunda-feira

MÃES PARALELAS

 


MÃES PARALELAS (Madres paralelas, 2021, El Deseo/Pathé Films, 123min) Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: Teresa Font. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Paola Torres. Direção de arte/cenários: Antxón Gomez/Vicent Díaz. Produção: Agustin Almodóvar, Esther García. Elenco: Penélope Cruz, Milena Smit, Israel Elejalde, Aitana Sánchez-Gijón, Rossy de Palma. Estreia: 01/9/2021 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Penélope Cruz), Trilha Sonora Original

Os filmes do espanhol Pedro Almodóvar dificilmente podem ser resumidos em poucas palavras sem que se perda, no processo, todas as nuances de tramas raramente simples como podem parecer em um primeiro momento. "Mães paralelas" não foge à regra: o que a princípio soa como um mero melodrama (gênero no qual o diretor navega com conforto e experiência), se mostra, ao final, um poderoso estudo não apenas sobre a maternidade em si, mas também sobre relações familiares, sobre escolhas de vida e sobre o passado como força motriz para transformações no presente. Ao unir a história de duas desconhecidas que tem suas vidas transformadas pelo nascimento de seus bebês com uma trama a respeito de mortos pela ditadura franquista, Almodóvar se arrisca em um terreno novo - o drama político - sem abdicar de suas características mais notáveis (e que fizeram sua glória junto a cinéfilos e críticos).

"Mães paralelas" apresenta quase tudo aquilo que se pode esperar de um bom Almodóvar: personagens femininas fortes (com o bônus de uma atuação monstruosa de Penélope Cruz, a cada dia mais bonita e boa atriz), uma trama repleta de idas e vindas (que causa o terror de quem tenta resumir suas sinopses), uma trilha sonora marcante (indicada ao Oscar) e a capacidade de envolver o público sem muito esforço - além do retorno de sua parceria com a ótima Rossy de Palma. Voltando a um tema bastante caro a si mesmo - a maternidade -, o cineasta abre mão do deboche de suas produções mais anárquicas e aponta sua câmera em direção a uma história mais sombria e dramática, em que questões éticas e menções políticas caminham lado a lado sem que se atropelem ou ofusquem. Pode-se dizer que é um de seus filmes mais maduros e elegantes - o que, de certa forma, deixa pouco espaço para soluções mais catárticas e/ou lacrimosas. Pode soar um tanto anticlimático vindo de um diretor de sangue tão efervescente, mas não deixa de ser também um aceno a tempos mais delicados e sutis. "Mães paralelas" é um Almodóvar tanto atípico quando extremamente característico: um paradoxo que é, a seu modo, a cara de um dos mais fecundos e criativos realizadores da Europa desde a década de 1980.


A trama de "Mães paralelas" começa com o encontro de Janis (Penélope Cruz) e Ana (Milena Smit) em uma maternidade: a primeira, com 40 anos, está prestes a dar à luz ao filho de seu amante casado; a segunda, adolescente, tem uma relação difícil com a mãe, uma atriz retomando a carreira, e não conta com o apoio do pai do bebê. Algum tempo depois, as duas se reencontram em uma situação pouco comum - não convém dar mais detalhes para não estragar as surpresas que vão surgindo - e criam laços inesperados e profundos. Enquanto isso, Janis insiste em seu projeto profissional de buscar, com a ajuda do pai de sua filha, as ossadas de presos políticos desaparecidos durante o regime franquista. 

Mencionado em uma única linha de diálogo de "Carne trêmula" (1997) - e mesmo assim de forma bastante implícita -, o sangrento período, compreendido entre 1939 e 1976, em que Francisco Franco espalhou violência e repressão junto a seus opositores na sociedade espanhola, surge em "Mães paralelas" com importância crucial, ainda que isso só fique claro em seus instantes finais. O que pode parecer um tanto gratuito transforma-se, aos poucos, em mais uma prova da capacidade de Almodóvar em conduzir o espectador por caminhos imprevisíveis - e com mais camadas do que se pressupunha. Afinal, se o cerne de seu filme é a maternidade (símbolo maior de lar e família), não seria o reencontro com o passado uma forma de fazer as pazes com o futuro? Almodóvar não apresenta respostas, apenas aponta questões - como um bom artista em sintonia com a sensibilidade e a inteligência de sua plateia. Talvez tudo só faça sentido um bom tempo depois da sessão, mas não é essa perenidade que caracteriza o bom cinema?

quinta-feira

CONCORRÊNCIA OFICIAL


CONCORRÊNCIA OFICIAL (Competencia oficial, 2021, ICAA/Orange/RTVE, 115min) Direção: Mariano Cohn, Gastón Duprat. Roteiro: Andrés Duprat, Gastón Duprat, Mariano Cohn. Fotografia: Arnaud Valls Colomer. Montagem: Alberto del Campo. Figurino: Wanda Morales. Direção de arte/cenários: Alain Bainée/Sara Natividad. Produção executiva: Antonio Banderas, Penélope Cruz, Laura Férnadez Espeso, Oscar Martínez, Javier Méndez, Javier Pons. Produção: Jaume Roures. Elenco: Penélope Cruz, Antonio Banderas, Oscar Martínez, José Luiz Gómez. Estreia: 04/9/2021

O que fazer quando se chega aos 80 anos de idade, tem dinheiro de sobra e sonha em ter o nome para a posteridade? O empresário Humberto Suárez (José Luiz Gómez), depois de pensar em inúmeras possibilidades (como uma ponte, por exemplo) chega à conclusão de que o melhor negócio que pode fazer é financiar um filme. Mas não um filme qualquer, e sim um grande filme, o melhor que o dinheiro pode comprar. E é com esse objetivo que ele contrata a premiada Lola Cuevas (Penélope Cruz) para dirigir a adaptação de um célebre romance que tem todos os ingredientes para transformar-se em sucesso. Dona de uma personalidade bastante excêntrica, Lola embarca no projeto com a condição de contar, no elenco, com dois dos maiores atores do país: o prestigiado Iván Torres (Oscar Martínez) e o popular Félix Rivero (Antonio Banderas). O que nem Humberto nem os tarimbados atores poderiam imaginar é que os métodos de Lola para atingir a perfeição fogem muito do convencional - e transformam os ensaios em um inferno, fazendo emergir ressentimentos, inseguranças e sentimentos pouco nobres de todos os envolvidos no processo.

Dirigido pelos argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat, "Concorrência oficial" é um deleite para os fãs de cinema em geral e artistas em particular: ao mergulhar em um universo repleto de egos inflados e talentos superestimados, a dupla de cineastas e roteiristas brinca com o próprio métier sem nunca perder, apesar do tom de deboche, o respeito pelo cinema e seus realizadores. Ao retratar diretores egóicos, atores autocentrados e produtores sem o menor tino artístico, a trama surpreende o espectador com uma narrativa imprevisível e personagens repletos de camadas, reveladas aos poucos, conforme suas barreiras vão sendo demolidas a ferro, fogo e dinâmicas bizarras criadas por Lola - interpretada com perceptível prazer por Penélipe Cruz, uma das produtoras executivas do filme, ao lado de seus colegas de elenco. Com um visual exuberante que lembra seus melhores momentos com o espanhol Pedro Almodóvar - nitidamente uma influência na paleta de cores vivas e na excentricidade dos personagens -, Cruz deita e rola com diálogos saborosos, repletos de absurdos e referências à cultura pop. De maneira inteligente, os diretores conseguem até mesmo uma auto-citação: o romance adaptado por Cuevas, "Rivalidade", é de autoria de Daniel Mantovani, personagem do filme anterior dos realizadores, "Um cidadão ilustre", vivido pelo mesmo Oscar Martínez que interpreta aqui o celebrado Iván Torres.


 

Iván Torres é um ator de métodos clássicos, do tipo que cria um passado para os personagens que irá interpretar e mergulha profundamente em sua criação. A forma como lida com seu ofício bate de frente com a quase irresponsabilidade de Féliz Rivero, seu colega e rival, que leva a profissão bem menos a sério - e, paradoxalmente, é bem mais popular entre o público. O confronto entre dois estilos de atuação é a faísca procurada por Lola, que os escolhe justamente por sua radical diferença, que ela julga apropriada para a história de dois irmãos rivais. Enquanto ensaia cada linha de diálogo do roteiro - para enfado de ambos, cada um por uma razão diferente - e cria dinâmicas quase humilhantes para arrancar deles interpretações viscerais (a ponto de fazê-los ler o roteiro sob uma rocha que pesa toneladas e pode vir a desabar a qualquer momento), a polêmica diretora não percebe que, em determinado momento, torna-se também vítima de suas técnicas quando passa a questionar o que é verdade ou não na relação entre seus astros - o que pode até acarretar uma tragédia inesperada.

É difícil saber o que é mais precioso em "Concorrência oficial". Do roteiro, original e mordaz, à escalação do elenco, absolutamente certeira, tudo no filme de Cohn e Duprat funciona às mil maravilhas. O estranhamento do primeiro ato - quando Lola Cuevas inicia seu processo criativo - dá lugar, gradativamente, a uma trama recheada de ironias, brilhantemente abraçadas por seus atores, todos em estado de graça. Equilibrando-se entre o humor mais fino e o suspense por vezes inesperado, o filme transita com facilidade por diversos gêneros, extraindo o melhor de cada um deles para oferecer à plateia um banquete cuidadosamente preparado. Criticando o culto à celebridade ao mesmo tempo em que não perdoa o exagerado pedantismo de certa parcela da elite artística, a produção faz rir e pensar na mesma intensidade - é um programa inteligente e leve, que mostra, mais uma vez, a inegável qualidade do cinema argentino contemporâneo.

terça-feira

ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE (2017)


ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE (Murder on the Orient Express, 2017, 20th Century Fox, 114min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Michael Green, romance de Agatha Christie. Fotografia: Haris Zambarloukos. Montagem: Mick Audsley. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Rebecca Alleway, Caroline Smith. Produção executiva: Matthew Jenkins, Dillon Kilvo, James Prichard, Aditya Sood, Hilary Strong. Produção: Kenneth Branagh, Mark Gordon, Judy Hofflund, Simon Kinberg, Michael Schaefer, Ridley Scott. Elenco: Kenneth Branagh, Judi Dench, Michelle Pfeiffer, Penelope Cruz, Johnny Depp, Leslie Odom Jr., Derek Jacobi, Josh Gad, Olivia Colman, Willem Dafoe. Estreia: 03/11/2017

Publicado em 1934 e considerado por leitores e críticos como um dos maiores romances policiais de todos os tempos, "Assassinato no Expresso do Oriente" não apenas consagrou definitivamente a inglesa Agatha Christie como "a rainha do crime" como também se mantém no inconsciente coletivo há quase um século. Sua trama, repleta de pistas falsas, ritmo ágil e um desenvolvimento intrigante, mostra o detetive Hercule Poirot no auge de sua perspicácia e apresenta um desfecho antológico - dos mais surpreendentes da prolífica carreira da escritora. Clássico absoluto do gênero, o livro ganhou uma adaptação caprichada em 1974 - quarenta anos após seu lançamento -, sob a direção de Sidney Lumet e um elenco internacional recheado de astros - de Albert Finney como Poirot a uma verdadeira constelação que incluía Lauren Bacall, Sean Connery, Jacqueline Bissett, Anthony Perkins, Maggie Smith e Ingrid Bergman, premiada com um Oscar de atriz coadjuvante. Em 2010, chegou à televisão em um episódio da série britânica "Poirot" - com o famoso investigador interpretado por David Suchet e nomes como Jessica Chastain, Barbara Hershey e Toby Jones emprestando credibilidade ao resultado final. E é de se perguntar por que, mesmo diante de duas versões aplaudidas e fiéis à fonte original, o irlandês Kenneth Branagh considerou necessária uma nova releitura. Pior ainda: em que momento o outrora celebrado cineasta achou cabíveis as alterações criminosas que seu filme - lançado no final de 2017 - fez na história concebida pela mente genial de Christie?

Os (inúmeros) fãs da escritora ficaram revoltados com as liberdades que o roteiro de Michael Green tomou em relação à obra original - tanto em termos da história em si (com personagens amalgamados) quanto pela descaracterização radical do protagonista Hercule Poirot. Retratado nos romances como um senhor de idade avançada, de modos finos e radicalmente contra qualquer tipo de violência - além de privilegiar o cérebro em detrimento de embates físicos -, Poirot viu sua versão cinematográfica rejuvenescer, emagrecer, ter um amor do passado (mostrado apenas em fotografia) e, pior do que tudo, se envolver em lutas, tiroteios e perseguições. É de lamentar que Kenneth Branagh - um ator de talento e sensibilidade o suficientes para que fosse uma espécie de embaixador de Shakespeare na Hollywood dos anos 1990 - tenha se deixado levar pelo ego, a ponto de fazer de seu detetive um super-herói que muito pouco lembra o ídolo dos leitores do gênero. Enquanto no livro Poirot ia aos poucos desvendando todos os meandros que levaram a um misterioso homicídio ocorrido em um dos meios de transporte mais sofisticados do mundo, no filme as conclusões são jogadas, quase como se o personagem tivesse dons paranormais. E se Poirot era, antes de qualquer coisa, um cavalheiro, no filme de Branagh ele não hesita em levantar a voz quando necessário - mesmo que isso destoe radicalmente de sua real personalidade. Não é preciso dizer que, mesmo sendo um bom ator, o ex-marido de Emma Thompson erra violentamente em sua composição.

E não é apenas isso. Como forma de agradar à patrulha do politicamente correto de Hollywood, o roteiro consegue a proeza (negativa) de transformar o coronel Arbuthnot em um médico negro (em uma fusão com outro personagem do livro, Constantine): por mais que se saiba a necessidade atual de inserir representatividade na mídia, é no mínimo equivocada a ideia de que um homem negro pudesse ser o passageiro do Expresso do Oriente em 1934. A inclusão de Leslie Odom Jr. no elenco pode ter tido boas intenções, mas o tiro acabou saindo pela culatra: a novidade soa deslocada, inverossímil e, pior ainda, constrangedora em sua tentativa de soar atual. Também não deu certo substituir as nacionalidades de outros personagens cruciais: a sueca Greta Ohlsson (vivida por Ingrid Bergman em 1974) virou Pilar Estravados na nova adaptação (e ficou com o rosto de Penélope Cruz, subaproveitada como todo o elenco), e o italiano Hardman transmutou-se no espanhol Biniamino Marquez (para ser interpretado por Manuel Garcia-Rulfo). São diferenças que em nada acrescentam ao material original e apenas enfatizam a vontade quase imatura de forçar uma identidade - um desejo que se estende também ao visual estilizado, que compreende a fotografia cinza-azulada de Haris Zambarloukos (que funciona apenas em parte) e os ângulos inusitados de câmera (que evitam o convencional a todo custo e cansam em diversos momentos). A direção de arte e o figurinos são deslumbrantes, mas é pouco diante de tantos erros - que enfraquecem as boas ideias de Branagh, como utilizar-se de espelhos para ilustrar a dubiedade dos personagens/suspeitos.

A trama em si é conhecida por quase todo mundo (ao menos os fãs do gênero a conhecem de longa data): durante uma viagem no tradicional Expresso do Oriente, o misterioso e pouco simpático Edward Ratchett (Johnny Depp forçado como sempre) é violentamente assassinado a facadas. O crime é ainda mais intrigante quando se descobre que as facadas são de tamanhos e intensidades diferentes, e outras pistas incoerentes deixam o trabalho do famoso detetive particular Hercule Poirot (um passageiro de última hora) ainda mais complicado. Os suspeitos - um grupo variado de passageiros em determinado vagão - parecem não ter nada em comum e aparentemente todos tem álibis indestrutíveis. A ideia inicial - de que o homicídio foi resultado de uma vingança relacionada à máfia - é deixada de lado, no entanto, quando Poirot descobre que Ratchett é, na verdade, o responsável pelo sequestro e assassinato de um bebê, alguns anos antes: resta, então, descobrir quem, dentre os passageiros, também está mentindo quanto à sua identidade.

Desperdiçando um elenco excepcional - que inclui os veteranos Judi Dench e Derek Jacobi, os consagrados Willem Dafoe, Penélope Cruz e Michelle Pfeiffer - e apostando na modernização de uma trama que já nasceu clássica, Kenneth Branagh simplesmente destruiu a obra original, destroçando inclusive a revelação sobre o nome do assassino em uma sequência morna e com um desfecho sofrível. Em pensar que ele continuará sua missão em estragar outras obras de Christie - "Morte sobre o Nilo" é o próximo da lista e sua menção nos últimos minutos do primeiro filme já aponta para mais distorções imperdoáveis - chega a dar calafrios. Matar uma obra dessa forma deveria ser crime!

quinta-feira

OS AMANTES PASSAGEIROS

OS AMANTES PASSAGEIROS (Los amantes pasajeros, 2013, El Deseo, 96min) Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Fotografia: Jose Luis Alcaine. Montagem: José Salcedo. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Davidelfin, Tatiana Hernández. Direção de arte/cenários: Antxón Gómez/Clara Notari. Produção: Agustin Almodovar, Esther García. Elenco: Antonio Banderas, Penelope Cruz, Javier Camara, Cecilia Roth, Lola Dueñas, Antonio de la Torre, Raul Arévalo, Carlos Areces, Hugo Silva, Miguel Ángel Silvestre, Laya Martí, Paz Vega, Blanca Suárez. Estreia: 08/3/13

Depois de aventurar-se pelo lado negro da alma humana no denso "A pele que habito", Pedro Almodovar parece ter voltado às origens transgressoras e debochadas do início de sua carreira com "Os amantes passageiros". Despretensioso e abertamente escrachado, seu filme mostra que aquele senso de humor que era a essência de obras como "Labirinto de paixões" e "Pepi, Luci, Bom" continua intacto debaixo do verniz de cineasta sério e consagrado com dois Oscar. Centrado quase que exclusivamente em um único cenário - um avião com uma pane que ameaça a todos os tripulantes e passageiros - o roteiro de Almodovar usa e abusa de diálogos surreais, personagens ensandecidos (por nascimento ou pelo abuso de álcool e drogas) e atores velhos conhecidos do diretor, como Cecilia Roth, Lola Dueñas e Javier Camara - até mesmo Antonio Banderas e Penélope Cruz participam da brincadeira, em uma participação especial nos primeiros minutos de projeção.

Conforme o próprio trailer já deixava antever, "Os amantes passageiros" não se leva a sério - e nem pede à audiência que o faça. A começar pelo trio de protagonistas - comissários de bordo gays vividos por Javier Camara, Raúl Arévalo e Carlos Areces em atuações pra lá de inspiradas - tudo no filme pede que o público esqueça qualquer preconceito e se entregue sem medidas às loucuras do roteiro. Só mesmo assim - com total consciência da real essência do diretor - é que a experiência se torna ainda mais divertida. O Almodovar de "Os amores passageiros" está muito mais para o diretor trash e criativo de "Maus hábitos" e "O que fiz eu para merecer isto?" do que para o bem mais comportado (mas nem por isso menos genial) criador de "Tudo sobre minha mãe" e "Fale com ela". Estão em cena situações bizarras que combinam muito mais com a primeira fase de sua carreira - em que desafiava com humor e ironia o governo franquista - do que com seu momentos mais reflexivos, que lhe tornaram o cineasta espanhol mais respeitado desde Buñuel. É esse Almodovar original que consegue fazer com que o absurdo se torne crível, como nos melhores momentos de sua filmografia.


A trama começa com uma sequência aparentemente sem importância que reúne Antonio Banderas e Penélope Cruz como um casal de namorados que trabalha para uma companhia aérea e que, felizes com a notícia de uma gravidez, não percebe que falhou em um dos procedimentos de segurança antes do próximo voo. Tal erro só é percebido tarde demais, quando o avião já está a caminho da Cidade do México, com passageiros e tripulação a bordo e descobrindo, aos poucos, que podem estar em seus últimos momentos. Para aliviar a tensão, os comissários Joserra (Javier Camara), Fajas (Carlos Areces) e Ulloa (Raúl Arévalo) fazem o possível, dopando a segunda classe e promovendo shows de dublagem para os demais passageiros. Entre eles, inclui-se Norma Boss (Cecilia Roth), uma ex-atriz, hoje empresária no ramo da prostituição de luxo que está na mira de um assassino de aluguel, Ricardo Galán (Guilermo Toledo), um ator dividido entre duas mulheres, e Sr. Más (José Luís Torrijo), o presidente de um banco envolvido em um escândalo financeiro - além de um noivo (Miguel Ángel Silvestre, que depois faria sucesso na série "Sense8") que está em lua-de-mel e é cobiçado pela sensitiva Bruna (Lola Dueñas), que quer perder a virgindade antes de morrer, e pelo comissário Fajas. Enquanto os pobres passageiros não sabem, a princípio, o tamanho do perigo que correm, os pilotos estão mais preocupados com seus problemas conjugais e sexuais do que com a possibilidade de espatifar seu avião.

Livre da pressão de realizar mais um filme para agradar aos festivais de cinema e à crítica intelectualoide que tornou-o hype, Almodovar fez, com "Os amantes passageiros", o que há muito tempo seu público fiel vinha desejando: um trabalho anárquico, sem amarras e sem preocupações que não a de fazer rir. Talvez isso decepcione quem espera algo mais impactante, mas sem dúvida agrada a quem sabe quem realmente o realizador é. O humor de seu novo filme brinca com a sexualidade, com a religião, com drogas, com redes sociais e com a família com o mesmo cáustico senso de humor que vinha sendo deixado de lado há bons anos. É iconoclasta, é cafona, é gay ao extremo - que o diga a sequência musical onde os comissários dublam a canção "I'm so excited" (título do filme para o mercado de língua inglesa).  Mas é, também, engraçadíssimo, leve, despretensioso e Almodovar na veia. Não é nem de longe seu melhor trabalho, mas é infinitamente superior a qualquer comédia que se pretende engraçada mas tem medo de ousadias.

segunda-feira

ABRAÇOS PARTIDOS




ABRAÇOS PARTIDOS (Los abrazos rotos, 2009, El Deseo SA, 127min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: José Salcedo. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Antxón Gómez/Marta Blasco, Pilar Revuelta. Produção: Agustin Almodovar, Esther García. Elenco: Penelope Cruz, Lluis Homar, Blanca Portillo, Tamar Novas, Angela Molina, Lola Dueñas, Rossy de Palma. Estreia: 17/3/09 (Barcelona)

"Abraços partidos", o 18º longa-metragem de Pedro Almodovar  proporciona a seu público um fato até então inédito em sua vitoriosa carreira: a autocitação. Não que isso seja um defeito, até porque qualquer citação de Almodovar sempre será bem-vinda, mas é que, quando se assiste às cenas de "Garotas e maletas" - o filme dentro do filme - dá uma saudade tremenda da época em que o diretor espanhol não se levava tão a sério e, mesmo não sendo tão respeitado como passou a ser depois de obras mais "maduras", fazia rir diante dos absurdos de seus roteiros e suas personagens iconoclastas e neuróticas. Talvez como forma de mostrar que por detrás do diretor sóbrio de "Fale com ela" e "Volver" ainda existe um enfant terrible, Almodovar encerra seu filme com sorrisos, depois de mais de duas horas de uma trágica história de amor que trai sua adoração e respeito pelo melodrama - já explícita em "A flor do meu segredo".

Como raríssimas ocasiões na carreira do cineasta, o protagonista é um homem. No caso, um roteirista cego chamado Harry Caine (que soa como hurricane - ou furacão) que vê seu passado literalmente bater-lhe à porta na figura de Ray X (Rubén Ochandiano), um aspirante à cineasta que quer contratar-lhe para escrever um roteiro. Caine recusa a oferta sem saber que o jovem tem uma forte ligação com a trágica história de seu torturado relacionamento com a bela Lena (Penelope Cruz, linda como nunca), a esposa de Ernesto Martel (José Luis Gómez), um empresário milionário que também foi o produtor de seu último (e inacabado, ao menos para ele, filme). Para saciar a curiosidade de Diego (Tamar Novas), filho de sua assistente Judit (Blanca Portillo), Caine passa a narrar os fatos que o levaram à cegueira e à aposentadoria como cineasta.


Contando sua história basicamente em flashbacks, Pedro Almodovar apresenta à sua audiência uma história de amor que difere em muito de tudo que ele mesmo contou anteriormente. Substituindo o sarcasmo e a ironia pela melancolia, ele se aproxima muito mais de "Fale com ela" do que "Mulheres à beira de um ataque de nervos" (inspiração para "Garotas e maletas"). Poucas vezes na obra do diretor o amor foi retratado de maneira tão séria e avassaladora, sem espaços para piadas ou até mesmo para sexo: talvez este seja seu filme menos calcado na sexualidade, um dos pilares de sua obra até então. O que pode afastar seu público fiel, portanto - as características marcantes de sua filmografia - pode aproximá-lo daqueles que ainda não se deixaram seduzir pela perfeição de seus filmes de 1998 pra cá, quando ele aprimorou seu estilo com inteligência e sensibilidade. "Abraços partidos", não fosse a presença de Penelope Cruz e a presença afetiva de Angela Molina, Lola Dueñas e Rossy de Palma (todas ex-colaboradoras de Pedro), poderia tranquilamente se passar por um filme de qualquer diretor, tamanha a neutralidade imposta por Almodovar na maior parte de suas duas horas de duração.

Essa neutralidade, porém, não quer dizer, de modo algum, que "Abraços partidos" não tenha personalidade. Pedro Almodovar sabe como ninguém utilizar as ferramentas à sua disposição para criar imagens e personagens que ficam para sempre na mente do espectador. Aqui, ele cria duas sequências antológicas: a hilariante cena em que o milionário Ernesto Martel descobre, através de uma dubladora, que sua amada Lena está tendo um caso com seu diretor e a belíssima tomada que mostra o casal em uma praia deserta, abraçados e totalmente inocentes da tragédia que viria a mudar suas vidas em pouco tempo. Se não fosse o bastasse a forma mágica como o cineasta conta sua história - seduzindo a plateia aos poucos - essas duas cenas (e "Garotas e maletas", é claro) já valeriam o espetáculo. Mas um Almodovar nunca oferece poucas sensações.

sexta-feira

NINE

NINE (Nine, 2009, The Weinstein Company, 118min) Direção: Rob Marshall. Roteiro: Michael Tolkin, Anthony Minghella, musical de Arthur Kopit, Maury Yeston, original de Mario Fratti. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Claire Simpson, Wyatt Smith. Música: Andrea Guerra. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: John Myhre/Gordon Sim. Produção executiva: Kelly Carmichael, Michael Dreyer, Ryan Kavanaugh, Tucker Toooley, Bob Weinstein. Produção: John DeLuca, Rob Marshall, Marc Platt, Harvey Weinstein. Elenco: Daniel Day-Lewis, Marion Cottilard, Nicole Kidman, Penelope Cruz, Judi Dench, Kate Hudson, Sophia Loren, Fergie Duhamel. Estreia: 03/12/09

4 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Penelope Cruz), Figurino, Direção de Arte/Cenários, Canção ("Take it all")


Tinha tudo para ser um espetáculo irretocável. Na direção, o homem responsável por carimbar o passaporte dos filmes musicais em direção às boas graças definitivas da crítica, do público e da Academia com o genial “Chicago”. Na liderança do elenco, um dos mais prestigiados e admirados atores de sua geração, Daniel Day-Lewis. Como as mulheres que o rodeiam desde a infância, uma seleção das melhores e mais importantes atrizes em atividade (desde as veteranas Judi Dench e Sophia Loren até a cantora pop Fergie, passando pelas oscarizadas Nicole Kidman, Penélope Cruz e Marion Cottilard). Como cenário, a velha Itália dos anos 60, em especial a antológica Cinecittá – palco dos maiores clássicos cinematográficos do país. E como trama, a adaptação de um sucesso da Broadway que homenageia um dos filmes mais aplaudidos do incensado Federico Fellini, o autobiográfico “8 ½”. Por que, então, com todos esses elementos infalíveis à disposição, o esperado “Nine” resultou tão morno? Tido como um dos favoritos ao Oscar 2010 antes mesmo de sua estreia, o filme de Rob Marshall – que fez barba, cabelo e bigode com seu “Chicago”, na cerimônia de 2003 – acabou decepcionando ao ficar de fora da lista nas categorias principais e, pior ainda, nem de longe repetir o êxito do musical anterior de seu diretor. Quando se assiste ao filme, porém, é impossível não perceber seu calcanhar de Aquiles. Apesar de plasticamente deslumbrante, “Nine” falha justamente no ponto central de um musical: suas canções.
           
Sem o deboche e a ironia que inundavam cada número musical de “Chicago”, Rob Marshall segue o caminho consagrado pelos palcos da Broadway e imprime a “Nine” um tom de seriedade nostálgica e auto-penitente que, não estivessem presentes em um musical, poderiam fazer do filme uma obra-prima. O problema é que, sempre que alguém começa a cantar – mesmo quando é Penélope Cruz exalando sensualidade ou Marion Cottilard injetando profundidade e angústia em uma personagem pouco desenvolvida por um roteiro que também peca pela superficialidade – o ritmo é seriamente comprometido. A edição – precisa em alguns momentos e seriamente equivocada em outros, quando desvaloriza algumas coreografias que precisavam ser mostradas na íntegra como forma de encantar a audiência – não dá conta em costurar todos os retalhos de memória de seu protagonista, truncando a agilidade da narrativa ao invés de empurrá-la para a frente. Diante disso, nem mesmo a brilhante direção de arte e os figurinos luxuosos (ambos merecidamente lembrados pela Academia) conseguem disfarçar a sensação de monotonia que percorre boa parte da projeção – a despeito de seu elenco empolgante e esforçado.
           
Daniel Day-Lewis, por exemplo, está mais uma vez estupendo. Ele vive Guido Contini, um cineasta consagrado que, em vias de começar seu novo trabalho – o nono junto com seu fiel produtor, daí o título original – se vê diante de uma situação até então inédita para ele: um colossal bloqueio criativo. Seu filme já tem título definido – “Itália” – uma protagonista escolhida – a bela e popular Claudia Jenssen (Nicole Kidman) – e uma equipe técnica pronta a começar os trabalhos, mas Guido, pressionado pelos executivos da indústria, pela amante casada , Claudia (Penélope Cruz) e pela esposa amorosa, Luisa (Marion Cottilard), não consegue nem ao menos começar a escrever o roteiro ou pensar em uma trama. Seu dilema – o mesmo que o personagem de Marcello Mastroianni vivia em “8 ½” – acaba por levá-lo a uma viagem inconsciente para dentro de suas memórias, o que fatalmente o põe diante de personagens femininas fortes e formadoras de sua personalidade, como a prostituta Saraghina (Fergie) – que encantava seus dias de criança – e sua calorosa mãe (Sophia Loren).



Não há nada de errado na forma como a trama intercala a realidade de Guido (um personagem torturado pela culpa católica e ao mesmo tempo incapaz de resistir às tentações libidinosas que cruzam seu caminho) com sua imaginação delirante – a atuação de Daniel Day-Lewis, aliás, é formidável, arriscando-se mais uma vez em um gênero até então inédito em sua carreira – nem mesmo o médico mulherengo de “A insustentável leveza do ser” (1988) era capaz de esconder, por medo da danação religiosa, o crucifixo de uma pensão barata na hora de transar com a amante. Porém, não há, no repertório do filme, nenhuma canção forte o bastante para empolgar a plateia, como havia, por exemplo, em “Chicago”. Marshall mantém seu extremo bom-gosto na ambientação de seu trabalho – a fotografia de Dion Beebe é um desbunde, sempre surpreendendo o público com ângulos e iluminações sofisticadas e classudas – mas frequentemente perde a mão no ritmo que impõe à sua narrativa. Mais uma vez ele recorre ao artifício (inteligente e eficaz) de situar os números musicais dentro da mente do protagonista – e como aqui trata-se de um cineasta, nada mais natural que ele veja tudo com luxo e glamour – mas dessa vez não há a ironia marota com que Roxy Hart enxergava as coisas em “Chicago”. E isso faz uma tremenda falta, ainda que a proposta de “Nine” seja, a rigor, bastante distinta de seu irmão mais velho.
            
Mas seria injusto falar em “Nine” sem destacar suas (muitas) qualidades. Mesmo que o elemento principal (a música) seja um tanto quanto enfadonho, o visual elaborado por Marshall e seus colaboradores é espantoso. Filmado na própria Cinecittá, “Nine” tem, em seu visual e seu espírito, a elegância e a sutileza do cinema europeu do período que retrata, seja no guarda-roupa detalhista ou nos cenários meticulosos capazes de encher os olhos da mais descolada plateia. Todos as apresentações musicais (aquelas mesmas que a edição por vezes picota para imprimir agilidade e acaba por enfraquecer) são bem coreografadas e interpretadas por atrizes tão talentosas que extraem o melhor de cada personagem para apresenta-las ao público como figuras interessantes (até a veneranda Judi Dench canta e dança, na pele de Lily, figurinista e confidente de Guido). Nicole Kidman – cujos dotes vocais já foram vistos e aprovados anteriormente em “Moulin rouge: o amor em vermelho” – está linda e delicada como a atriz desejada pelo diretor. Penélope Cruz quase rouba a cena como a amante sexy que dança lençóis de seda e tenta o suicídio (foi indicada ao Oscar de coadjuvante). Kate Hudson (na única personagem um tanto avulsa da trama) tem o número mais animado do filme, “Cinema italiano”. E Fergie usa e abusa de seus dotes de cantora pop para fazer das cenas de sua amante profissional um espetáculo energético e de extrema competência visual. Mas é Marion Cottilard quem dá o que falta a boa parte do vistoso filme de Rob Marshall: alma.
            
Dona de olhos expressivos e uma beleza delicada, a francesa Cottilard – que se transfigurou na cantora Edith Piaf e ganhou um Oscar merecidíssimo de melhor atriz por isso – serve como o contraponto romântico e pé no chão a seu artístico marido. Na pele de uma mulher que abandonou a carreira de atriz para viver para um marido pouco afeito à fidelidade conjugal, ela é dona de dois números musicais (uma das canções, “Take it all”, feita especialmente para o filme, concorreu ao Oscar) e de alguns dos diálogos mais fortes do filme – “Obrigada por me fazer ver que não sou especial!”, ela vomita ao perceber que nem mesmo os gestos românticos do início da relação entre eles eram exclusivos dela. Cottilard dá substância e emoção real à “Nine”, lembrando ao espectador que, mesmo por baixo da suntuosidade e da pompa criada pelo cinema, os sentimentos ainda são a melhor matéria-prima para uma boa história.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

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