Mostrando postagens com marcador AVENTURA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador AVENTURA. Mostrar todas as postagens

sexta-feira

OS AGENTES DO DESTINO

 


OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto "Adjustment Team", de Philip K. Dick. Fotografia: John Toll. Montagem: Jay Rabinowitz. Música: Thomas Newman. Figurino: Kasia Walicka Maimone. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Susan Bode Tyson. Produção executiva: Isa Dick Hackett, Jonathan Górdon. Produção: Bill Carraro, Michael Hackett, Chris Moore, George Nolfi. Elenco: Matt Damon, Emily Blunt, Terence Stamp, Michael Kelly, Anthony Mackie, John Slattery. Estreia: 14/02/2011

Depois de perder uma eleição praticamente ganha para o Senado americano - devido à publicação de uma foto de sua juventude -, o carismático David Norris (Matt Damon) encontra, por acaso, a bela Elise Sellas (Emily Blunt), que sonha em tornar-se uma bailarina mundialmente famosa. Inspirado pelo otimismo da moça (e por um beijo trocado), Norris faz um discurso que imediatamente o faz voltar às graças dos eleitores e à disputa pelo Congresso. Ainda abismado com o encontro com Elise - de quem não sabe nem o nome -, o ambicioso político acaba a encontrando um mês depois, novamente sem esperar. O novo encontro faz nascer entre eles um romance promissor, mas o que Norris não sabe - e irá saber da pior maneira possível - é que a história desse nascente amor vai contra os planos do destino. Perseguido por um grupo misterioso de homens de preto - autointitulados Comitê de Ajuste -, David precisa decidir entre um brilhante futuro na política (o que deixaria Elise livre para realizar seus sonhos profissionais) ou a possibilidade de um final feliz com a mulher por quem está apaixonado. Para isso, ele recorre à ajuda de um dos agentes, o empático Harry Mitchell (Anthony Mackie) - principal responsável pelo desvio da rota programada para o destino do rapaz.

Sucesso apenas razoável de bilheteria, "Os agentes do destino", estreia do cineasta George Nolfi, chegou às telas com pedigree: baseado em conto de Philip K. Dick, o mesmo autor de clássicos da ficção científica, como "Blade Runner: o caçador de androides" e "O vingador do futuro", a produção estrelada por Matt Damon e Emily Blunt merecia sorte melhor. Elegante e ágil, inteligente e instigante, o filme de Nolfi consegue o equilíbrio quase perfeito entre um thriller e uma história de amor, evitando o caminho fácil das sequências de ação alucinantes e das explicações em excesso. Deixando que o espectador vá preenchendo as lacunas conforme elas vão aparecendo, o roteiro brinca com a percepção do público em relação a conceitos como destino, amor, livre arbítrio e futuro. Com efeitos visuais discretos que não chamam mais atenção que a trama e uma trilha sonora eficiente do veterano Thomas Newman, "Os agentes do destino" se beneficia, também, da química entre seus dois atores centrais. Era imprescindível para que a história funcionasse, que os intérpretes de David Norris e Elise Sellas convencessem o público de que desafiariam o que fosse para ficarem juntos, e, ótimos atores que são, Damon e Blunt fisgam o público já em seu primeiro contato - a ponto de, mesmo separados, jamais deixarem de ser a base de toda a trama.

 

Um dos roteiristas do estupendo "O ultimato Bourne" (2007), e portanto dono de pleno domínio de ritmo e narrativa, George Nolfi apresenta, em "Os agentes do destino", uma noção visual digna de veteranos. A elegância das sequências de ação demonstra um cuidado raro em não apenas deixar o espectador mergulhado na agonia de seus protagonistas, mas também em oferecer uma experiência mais rica em termos plásticos. Detalhes do figurino - como os chapéus que permitem o acesso ao mundo dos chamados agentes - e a fotografia eficiente mas que nunca chega a desviar a atenção da trama (cortesia do duplamente oscarizado John Toll) são exemplos claros do talento do cineasta em utilizar-se da imagem para contar a história com todos os elementos à sua disposição. Se o enredo criado por Dick em 1954 - e adaptado com total liberdade por Nolfi - já é interessante por si próprio, sua transposição para para as telas realça seus questionamentos éticos e atualiza a história, contrapondo em seu cerne a discussão entre o que é mais importante: o amor ou a carreira, a chance de um futuro alvissareiro ou a felicidade de um amor verdadeiro.

Sem exagerar nos efeitos visuais e conquistando o público mais por sua história do que pela aposta na adrenalina pura e simples, "Os agentes do destino" rendeu pouco mais de 127 milhões de dólares em sua carreira internacional, em um ano que viu, em seus dez maiores sucessos comerciais nove continuações e uma produção infantil com personagens já consagrados - "Os Smurfs". Competindo com Harry Potter, Jack Sparrow, Bella & Edward, Transformers, Ethan Hunt e Dominic Toretto, o conto de amor e rebeldia criada por Philip K. Dick não fez feio - principalmente por ser um respiro de criatividade e ineditismo em um universo saturado de marcas registradas. Pode não ser uma obra-prima e talvez nem mesmo uma produção memorável na filmografia de seus envolvidos, mas é digno, decente e francamente divertido.

OS VINGADORES


OS VINGADORES (The Avengers, 2012, Marvel Studios/Paramount Pictures, 143min) Direção: Joss Whedon. Roteiro: Joss Whedon, estória de Joss Whedon, Zak Penn. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Jeffrey Ford, Lisa Lassek. Música: Alan Silvestri. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: James Chinlund/Victor J. Zolfo. Produção executiva: Victoria Alonso, Louis D'Esposito, Jon Favreau, Alan Fine, Jeremy Latcham, Stan Lee, Patricia Whichter. Produção: Kevin Feige. Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Clark Gregg, Cobie Smulders, Stellan Skarsgaard, Samuel L. Jackson, Gwyneth Paltrow. Estreia: 04/5/2012

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais 

Primeiro filme da Marvel a ultrapassar a inacreditável marca de 1 bilhão de dólares nas bilheterias, "Os Vingadores" foi a coroação, sem espaço para dúvidas, de um projeto iniciado em 2008 com "Homem de ferro" - e que, por quatro anos, dominou o mercado do cinema comercial hollywoodiano. Com um orçamento estratosférico de estimados 220 milhões de dólares e um elenco repleto de indicados e vencedores do Oscar, o filme de Joss Whedon - diretor de episódios de séries de TV alçado à tela grande em uma prova de fogo - levou multidões às salas de exibição ao elevar à máxima potência uma receita com poucas chances de erro. Com um marketing agressivo que tornava impossível ignorar sua presença maciça e uma contagem regressiva que contava com outros cinco longas-metragens muito bem sucedidos financeiramente, a produção entregou a seu público-alvo exatamente o que ele esperava. Mas, para além disso, é um filme satisfatório ou apenas mais uma peça mercadológica esquecível e fugaz?

Logicamente quem vai ao cinema assistir a "Os Vingadores" não tem a menor intenção de testemunhar uma revolução narrativa ou estética, e vendo por esse prisma o filme de Joss Whedon é um sucesso: tudo que surge na tela é milimetricamente planejado para seguir a cartilha dos filmes de ação, estabelecendo com extrema clareza os dois opostos - bem e mal - e honrando seu orçamento em sequências espetaculares que renderam uma indicação ao Oscar de efeitos visuais. Sem precisar apresentar seus protagonistas - coisa que os cinco filmes anteriores já fizeram com êxito -, o roteiro, escrito pelo próprio diretor, utiliza boa parte de suas quase duas horas e meia para contar uma história (exagerada e inverossímil como se poderia esperar) através de explosões (pouco excitantes), lutas (bem coreografadas) e piadas (algumas inteligentes, outras apenas razoáveis). Com um elenco à vontade e entrosado, Whedon conduz uma sinfonia de destruição, onde a trama importa menos que o barulho, mas o faz com uma convicção tão plena que é difícil não se deixar envolver. Pode soar cansativo para aqueles menos entusiastas, porém alcança um patamar dos maiores dentro do gênero - principalmente em termos comerciais.

 


A trama de "Os Vingadores" tem ligação direta com as histórias dos primeiros filmes do universo criado pela Marvel, especialmente "Thor" (2011): o irmão do herdeiro do trono de Asgard, o invejoso Loki (Tom Hiddleston) chega à Terra e, com o objetivo de dominar o planeta, rouba o Tesseract - artefato alienígena de poder ilimitado - de dentro das instalações da S.H.I.E.L.D.. Com a ajuda do exército de uma raça conhecida como Chitauri, seu plano começa a incomodar Nick Fury (Samuel L. Jackson), o diretor da agência, que parte então para o ataque e reúne o maior grupo de super-heróis do mundo para evitar o pior. O encontro entre o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), o Capitão América (Chris Evans), o cientista Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo), Thor (Chris Hemsworth), a Viúva Negra (Scarlett Johansson) - e depois o Arqueiro Verde (Jeremy Renner) - precisa de ajustes, mas, ao deixar de lado suas diferenças, formam um time que irá salvar a humanidade de uma ameaça devastadora.

Último capítulo da primeira fase do Universo Cinematográfico Marvel, "Os Vingadores" é um filme-pipoca assumido, sem nenhuma intenção a não ser oferecer o mais puro entretenimento a sua plateia, que o aprovou sem ressalvas. Justiça seja feita, tem qualidades notáveis, especialmente no que diz respeito a seu elenco: todos, sem exceção, parecem se divertir a valer com seus personagens, e muitos deles fogem de respeitáveis carreiras de prestígio para se entregarem à mais lúdica das brincadeiras. Plenamente satisfatório dentro de seus objetivos, é um nítido produto de marketing, mas que ao menos respeita seus fãs e tenta conquistar espectadores menos afeitos ao gênero. Lançado quando ainda não havia um certo desgaste em sua fórmula, jogou à estratosfera as expectativas para os filmes subsequentes - nem todos tão bem recebidos quanto ele.

quarta-feira

CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR


CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR (Captain America: The first avenger, 2011, Marvel Studios/Paramount Pictures/Marvel Entertainment, 124min) Direção: Joe Johnston. Roteiro:Christopher Markus, Stephen McFeely, personagens criados por Stan Lee, Jack Kirby. Fotografia: Shelly Johnson. Montagem: Robert Dalva, Jeffrey Ford. Música: Alan Silvestri. Figurino: Anna B. Sheppard. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/John Bush. Produção executiva: Louis D'Esposito, Alan Fine, Nigel Gostelow, Joe Johnston, Stan Lee, David Maisel. Produção: Kevin Feige. Elenco: Chris Evans, Hugo Weaving, Sebastian Stan, Tommy Lee Jones, Stanley Tucci, Toby Jones, Dominic Cooper, Hayley Atwell, Richard Armitage, Samuel L. Jackson. Estreia: 19/7/2011

Criado como uma resposta à violência da Alemanha nazista, o Capitão América surgiu, segundo dizem, inspirado em um mito do folclore judeu, o Golem, um protetor contra a violência antissemita. Sua primeira aparição, em março de 1941 - esmurrando Adolf Hitler em pessoa - já causou polêmica e rendeu a seus criadores, Jack Kirby e Joe Simon, ameaças de grupos alinhados à política do chanceler alemão. O mais popular herói dos quadrinhos durante a II Guerra Mundial, porém, foi sendo deixado de lado após o fim do conflito e só voltou a ser aplaudido - dessa vez por uma nova geração - quando Kirby e Stan Lee o reuniu aos Vingadores, em março de 1964. O mais patriota dos heróis da Marvel, chegou perto de ter uma adaptação para os cinemas nos anos 1980 - com Jeff Bridges no papel principal -, mas foi somente com o sucesso dos dois filmes estrelados pelo Homem de Ferro e a definição de um projeto mais amplo da editora - que também originou "Thor" (2010) - que as telas (e o público) finalmente viram uma transposição digna da trajetória do soldado Steve Rogers. Com uma produção caprichada e uma renda internacional de mais de 370 milhões de dólares, "Capitão América" foi mais um passo certeiro da Marvel, e o último capítulo antes do ambicioso "Os Vingadores", lançado um ano mais tarde.

A trama - bastante fiel àquela revelada em um quadrinho lançado em janeiro de 1969 - começa em 1942 e acompanha o idealista e obstinado Steve Rogers (Chris Evans) em seu desejo de alistar-se ao exército americano e ajudar o país e os aliados na II Guerra Mundial. Franzino e pouco saudável, o jovem é repetidamente rejeitado em seus pedidos, ao contrário do que acontece com seu melhor amigo, Bucky Barnes (Sebastian Stan). Sua situação muda, no entanto, quando ele é escolhido pessoalmente pelo renomado cientista alemão Abraham Erskine (Stanley Tucci) para fazer parte de uma experiência secreta que almeja criar super soldados. Colaborando com os EUA depois que suas pesquisas foram roubadas por Johan Schmidt (Hugo Weaving), um nazista de alta patente e de métodos criminosos, Erskine vê no caráter de Rogers uma característica imprescindível para aqueles a quem deseja oferecer o soro que irá mudar os rumos da guerra. Quando o cientista é assassinado, no entanto, o projeto é deixado de lado e Rogers torna-se o Capitão América, uma simples peça de propaganda para o exército americano. Mas quando o pelotão do qual seu melhor amigo faz parte é capturado, Rogers desafia seus superiores e parte para seu resgate - batendo de frente com o perigoso Red Skull, líder da Hydra (organização terrorista ligada à Alemanha nazista). Para isso, ele conta com a tecnologia criada pelo milionário Howard Stark (Dominic Cooper).

Dirigido por Joe Johnston - escolhido graças a seu trabalho em "Rocketeer" (1991) e "O céu de outubro" (1999) -, "Capitão América" encontrou em Chris Evans seu intérprete ideal, mas foi somente depois de várias recusas que o ator (já conhecido do público de quadrinhos por ter vivido o Tocha Humana na adaptação de "Quarteto fantástico" (2005)) finalmente aceitou o desafio de encarnar um dos maiores ícones da cultura pop do século XX. Primeira escolha dos produtores, Evans hesitou por um bom tempo em adentrar o universo da Marvel - e nesse meio-tempo, abriu espaço para inúmeras outras possibilidades, que iam de Brad Pitt e Matthew McConaughey a Will Smith e Leonardo DiCaprio, passando por Sam Worthington e John Krasinski (que chegou a fazer teste de figurino mas desistiu da empreitada na última hora). Bonito e carismático, Evans nem precisa fazer muito esforço para convencer a plateia de seus atos de heroísmo - ao mesmo tempo em que também convence facilmente como o jovem frágil rejeitado por seus (poucos) dotes físicos. O que talvez seja pouco crível apenas é o relacionamento amoroso entre Steve e a agente britânica Peggy Carter (interpretada pela insossa Hayley Atwell) - apesar de ser um respiro em tantas cenas de ação, seu romance soa deslocado e pouco interessante, ao contrário da relação entre o protagonista e Bucky Barnes - personagem que será crucial na segunda aventura do herói.

Como é comum nos filmes da Marvel, a produção de "Capitão América: o primeiro vingador" é caprichada, tecnicamente impecável e milimetricamente calculada para conquistar todo tipo de plateia. Quando se detém a explorar as relações entre os personagens não vai além do básico - apesar de o elenco (que inclui Tommy Lee Jones e Samuel L. Jackson) arrancar o máximo de cada diálogo -, mas é evidente que o foco do roteiro são as sequências de ação (derivativas mas adequadas às expectativas de plateias sempre sedentas por adrenalina). No final das contas, é um filme que entrega o que promete e diverte a seu público-alvo independentemente da falta de criatividade de sua trama e seu desenvolvimento.

 

sexta-feira

THOR

 

THOR (Thor, 2011, Marvel Studios/Paramount Pictures/Marvel Entertainment, 115min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Ashley Edward Miller, Zack Stentz, Don Payne, estória de J. Michael Straczynski, Mark Protosevich, personagens criados por Stan Lee, Larry Lieber, Jack Kirby. Fotografia: Haris Zambarloukos. Montagem: Paul Rubell. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Lauri Gaffin. Produção executiva: Louis D'Esposito, Alan Fine, Stan Lee, David Maisel, Patricia Whitcher. Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Anthony Hopkins, Tom Hiddleston, Stellan Skarsgard, Kat Dennings, Clark Gregg, Colm Feore, Idris Elba, Rene Russo. Estreia: 17/4/2011 (Sidney)

 A princípio pode parecer bastante estranho que um cineasta de tanto prestígio quanto Kenneth Branagh - indicado aos Oscar de ator e diretor aos 29 anos, por "Henry V" (1989) - tenha sido o escolhido para comandar "Thor", uma produção nitidamente comercial que dava continuidade às adaptações para as telas dos super-heróis da Marvel, iniciadas com o sucesso estrondoso de "Homem de ferro" (2008). Porém, basta ver os conflitos familiares na origem do personagem para compreender as razões por tal escolha: famoso por suas transposições das peças de Shakespeare para o cinema, Branagh viu ecos da obra do bardo na relação entre os protagonistas e, como fã dos quadrinhos desde a infância, aceitou o desafio de imprimir uma visão artística a um produto meramente mercadológico. Não se pode dizer que conseguiu atingir totalmente seus objetivos, mas em termos financeiros - com quase 450 milhões de dólares arrecadados internacionalmente - deixou o estúdio plenamente satisfeito e deu mais um passo em direção a seu "Os Vingadores", lançado em 2012.

Como é comum em filmes de origem, "Thor" se dedica, em boa parte de suas quase duas horas de duração, a contar os motivos que levaram o protagonista a sair de seu planeta natal, Asgard, e chegar à Terra, onde irá, futuramente, fazer parte da S.H.I.E.L.D. - organização que será responsável pela reunião de todos os heróis da Marvel para fins de proteção do planeta. A trama começa narrando uma batalha, acontecida em 965 A.C., quando um exército de Asgard impede os temíveis Gigantes Gelados de transformarem a Terra em um planeta devastado através dos poderes do Tesseract (um artefato com poderes ilimitados). O objeto fica, então, em poder do rei de Asgard, o poderoso Odin (Anthony Hopkins em papel oferecido a Mel Gibson). Anos mais tarde, uma tentativa de invasão da sala onde está guardado o objeto causa uma ruptura no clã de Odin: para defender a paz, seu filho mais velho e herdeiro do trono, Thor (Chris Hemsworth), desafia as orientações paternas e se inssurge contra os invasores, causando o rompimento da antiga trégua. Como punição, Odin envia o rapaz para a Terra (Midgard) - sem o martelo que lhe concede seus poderes - mas não percebe que seu filho adotivo, o sorrateiro Loki (Tom Hiddleston), está em negociações com os inimigos do reino para que possa ser coroado o novo soberano. Na Terra, enquanto isso, Thor se apaixona pela bela cientista Jane Foster (Natalie Portman) - e terá que recuperar seu martelo para impedir a destruição do planeta, consequência das articulações de seu ressentido irmão.

 

Não é difícil perceber, no roteiro de "Thor", as tais relações com a obra de Shakespeare - o próprio Tom Hiddleston enxerga, em seu Loki, pontos de semelhança com Edmund, um dos personagens da clássica "O rei Lear". A difícil relação entre pai e filhos - detalhe que chamou a atenção de Anthony Hopkins e o fez aceitar o papel de Odin, saindo de uma quase aposentadoria - é o grande trunfo dramático do filme de Branagh, e um atrativo a mais em um filme que, do contrário, poderia resumir-se a apenas mais um show pirotécnico. Utilizando-se de elementos da mitologia nórdica - de forma explícita ou espalhadas em citações visuais e em diálogos aparentemente banais -, "Thor" é uma produção que oferece exatamente o que seu público-alvo procura, equilibrando sequências de ação com momentos que permitem o brilho de seu elenco, em especial Tom Hiddleston, que rouba a cena com seu Loki, ao mesmo tempo cruel e dotado de um senso de humor que conquista de imediato a plateia. E se Chris Hemsworth parece o intérprete ideal para viver o super-herói do título, ele teve - assim como Thor - de disputar o papel com... seu próprio irmão, Liam Hemsworth, que, quase como prêmio de consolação, foi viver um dos personagens principais da série "Jogos vorazes".

A disputa entre os Hemsworth, porém, foi apenas a reta final pela escolha do ator que iria personificar um dos mais icônicos ídolos dos quadrinhos. Um projeto que já datava de 1991, quando Stan Lee em pessoa aproximou-se de Sam Raimi - vindo do elogiado "Darkman: vingança sem rosto" (1990) - para dirigir uma adaptação a ser produzida pela 20th Century Fox, "Thor" só voltou a ser objeto de interesse de Hollywood com o êxito de "Homem de ferro" e a decisão da Marvel em criar todo um universo cinematográfico. Cineastas como Guillermo Del Toro e Steven Spielberg foram cogitados para comandar o filme - mas apenas com a contratação de Kenneth Branagh as coisas começaram a andar, e mesmo assim, a seleção para o protagonista movimentou a indústria. De astros consagrados como Brad Pitt e Daniel Craig a jovens promessas, como Channing Tatum, Charlie Hunnam e Joel Kinnaman, o papel do herdeiro do trono de Asgard esteve vago até que Chris - que já havia provado o gostinho da fama com "Star Trek" (2009) - finalmente entrou em cena e assumiu a bronca. O sucesso de bilheteria - e até a boa vontade da crítica - mostraram que o público aprovou a decisão.

terça-feira

SEM DESTINO

 


SEM DESTINO (Easy rider, 1969, Columbia Pictures, 95min) Direção: Dennis Hopper. Roteiro: Peter Fonda, Dennis Hopper, Terry Southern. Fotografia: Laszlo Kovacs. Montagem: Donn Cambern. Direção de arte: Jerry Kay. Produção executiva: Bert Schneider. Produção: Peter Fonda. Elenco: Peter Fonda, Dennis Hopper, Jack Nicholson, Karen Black, Toni Basil. Estreia: 12/5/69 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro Original

Se metade das histórias sobre sua produção são verdadeiras, é um milagre que "Sem destino" tenha chegado às telas, e, mais ainda, que tenha se tornado um dos filmes mais icônicos da história do cinema norte-americano. Considerado um marco inicial do que se convencionou chamar de Nova Hollywood - uma série de produções que iam de encontro à formalidade narrativa e estética da era dos estúdios -, o filme estrelado por Peter Fonda e Dennis Hooper custou uma ninharia (pouco mais de 350 mil dólares) e quase imediatamente adquiriu o status de cult, conquistando um público sedento por ver, nas salas escuras, um reflexo mais realista e menos dourado da sociedade do final dos anos 1960, onde drogas, violência e sexo livre conviviam - nem sempre pacificamente - com a hipocrisia do american way of life. Lançado no Festival de Cannes de 1969, depois de um longo processo de edição que condensou mais de três horas e meia  em palatáveis noventa e cinco minutos, "Sem destino" é um retrato cru e surpreendentemente pessimista de um dos períodos de maior ebulição social dos EUA.

Tendo como protagonistas dois anti-heróis que destoavam dos mocinhos românticos e éticos que povoavam (e limitavam) o cinema de então, "Sem destino" é um road movie no sentido mais literal do termo, ao conduzir o espectador por uma viagem que, mais do que simplesmente ter um objetivo concreto, serve como uma metáfora da liberdade, tão ansiada especialmente pelos jovens, revoltados pela escalada da violência na Guerra do Vietnã e ativos nas lutas pelos direitos civis. Utilizando moradores locais como atores e subvertendo as regras da indústria - a maioria das cenas externas foram filmadas com luz natural e os diálogos eram improvisados conforme orientações básicas -, o filme (que Roger Corman declinou de produzir, para seu arrependimento posterior) é surpreendentemente coeso e consistente, ao menos dentro de seus objetivos artísticos e ideológicos. Dirigido por um Dennis Hopper no auge de seu problema com drogas - o que causava constantes conflitos com a equipe e com o próprio colega de cena e produtor Peter Fonda -, "Sem destino" também inovou na construção de sua trilha sonora: ao contrário de usar música original, os comentários à ação surgiam de canções já consagradas de gente como Steppenwolf, The Byrds e The Band, cujo som remetiam imediatamente à atmosfera de liberdade proposta pelo roteiro, que aliás, também fugia do tradicional.

 

Há versões diferentes quando se trata de falar sobre o processo de escrita de "Sem destino": uma delas afirma que Fonda e Hopper escreveram um rascunho de aproximadamente doze páginas e improvisaram os diálogos durante as filmagens; em outra versão, o roteirista Terry Southern juntou-se aos dois protagonistas em um porão e, sob o efeito de maconha, ditaram o texto para um gravador; e por fim, Southern declarou que escreveu tudo sozinho e acrescentou o nome dos atores a pedido deles, encantados com o resultado final. O fato é que, apesar de uma inesperada indicação ao Oscar da categoria, o roteiro é mero pretexto para uma declaração de amor à liberdade. Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Dennis Hopper) são dois amigos hippies que, depois de vender uma partida de cocaína, resolvem empreender uma viagem de moto pelas estradas dos EUA, com o objetivo de chegar a Nova Orleans a tempo do Mardi Gras. Pelo caminho, eles encontram um país dividido entre pessoas ainda herméticas a estilos de vida alternativos e grupos buscando novas maneiras de encarara e realidade. É nesse segundo grupo que se encontra o jovem advogado George Hanson (Jack Nicholson, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), a quem conhecem em uma noite na cadeia.

Um indiscutível clássico da contracultura - e fundamental na história do cinema do século XX -, "Sem destino" se beneficiou, além de sua precisão cronológica, de uma dupla de atores centrais que são a cara de sua época. Foi um acerto de Peter Fonda em convencer Dennis Hopper a voltar a atuar, prometendo-lhe a cadeira de diretor se ele desistisse da ideia de abandonar o cinema para tornar-se professor: mesmo conduzindo os trabalhos de forma errática, o rebelde veterano (com 36 anos de idade durante as filmagens) desafiou chefes de estúdio, membros da equipe e até mesmo seu amigo/colega/produtor para imprimir sua personalidade ao produto acabado. Mesmo que talvez boa parte tenha sido sorte de principiante, é inegável que, com outro diretor, a história não teria sido a mesma.

segunda-feira

TREM-BALA


TREM-BALA (Bullet train, 2022, Sony Pictures Entertainment, 127min) Direção: David Leitch. Roteiro: Zak Olkewicz, romance de Kôtarô Isaka. Fotografia: Jonathan Sela. Montagem: Elisabet Ronaldsdóttir. Música: Dominic Lewis. Figurino: Sarah Evelyn. Direção de arte/cenários: David Scheunemann/Elizabeth Keenan. Produção executiva: Brent O'Connor, Ryosuke Saegusa, Kat Samick, Yuma Terada. Produção: Antoine Fuqua, David Leitch, Kelly McCormick. Elenco: Brad Pitt, Aaron Taylor-Johnson, Joey King, Brian Tyree-Henry, Andrew Koji, Hiroyuki Sanada, Michael Shannon, Bad Bunny, Logan Lerman, Sandra Bullock. Estreia: 18/7/2022 (Paris)

Publicado no Japão em 2010, o livro "Trem-bala", escrito por Kôtarô Isaka, tornou-se um fenômeno, com mais de 700 mil exemplares vendidos, e acabou, como não poderia deixar de ser, chamando a atenção de Hollywood. Com os direitos adquiridos pela Sony Pictures e produzido com um orçamento de 90 milhões de dólares, a intrincada história de cinco assassinos profissionais cujas missões se cruzam em uma inusitada viagem chegou às telas com um elenco de primeira linha, um diretor acostumado a sequências recheadas de adrenalina e a responsabilidade de devolver ao público o hábito de ir às salas de exibição depois do longo hiato provocado pela Covid-19. Com uma renda acumulada de quase 240 milhões de dólares internacionalmente, é difícil dizer que fracassou em seu intento - mas dividiu a crítica e não fez o barulho que se poderia esperar. Mesmo assim, o resultado final é um delicioso filme de ação, com inspirados momentos de humor e um visual dos mais caprichados dos últimos anos.

Na direção, que ficaria a cargo de Antoine Fuqua, o cineasta David Leitch, cujo currículo apresenta produções extremamente comerciais, como "Deadpool 2" (2018) e "Velozes e furiosos: Hobbs & Shaw (2019) - além do subestimado e estiloso "Atômica" (2017) - deixou de lado o tom mais sério proposto no projeto original para assumir sem medo o caos, o deboche e a ironia. Com diálogos rápidos, idas e vindas no tempo, cenas de luta empolgantes e personagens excêntricos, o roteiro de "Trem-bala" nem sempre é rigorosamente fiel a seu material original, mas até mesmo as alterações feitas na trama do livro servem com perfeição à visão iconoclasta de Leitch, que prescinde das definições levianas de heróis e vilões, algozes e vítimas: durante as pouco mais de duas horas de duração do filme, nada que é dito é completamente confiável e nenhuma verdade é absoluta. Tal opção pelo dúbio e pela diversão ao invés da sobriedade faz de "Trem-bala" um produto raro, um respiro muito bem-vindo a um gênero que normalmente falha em tal equilíbrio. E se a presença de Brad Pitt parece apontar para um filme calcado em um grande astro - e caro, com um cachê milionário de 20 milhões de dólares -, o desenvolvimento do roteiro insiste em sua principal característica: não há um personagem central além do trem que dá nome ao filme. 

A princípio até pode parecer que Pitt é o personagem principal da trama, já que é o maior nome do cartaz e o primeiro a surgir na tela, mas não demora para que fique perceptível que seu Ladybug é apenas uma peça em um tabuleiro repleto delas. Escalado por sua superior (cuja intérprete-surpresa surge apenas nos momentos finais) a recuperar uma maleta em um trem-bala que viaja de Tóquio a Kyoto, Ladybug - que está passando por momentos difíceis na carreira, sendo acusado de não conseguir lidar com a agressividade - embarca no veículo sem ter a menor ideia de que sua missão está longe de ser simples como parece. No mesmo local, estão outros dois assassinos de aluguel, Tangerine (Aaron Taylor-Johnson) e Lemon (Bryan Tyree Henry), e a misteriosa Prince (Joey King) - que apesar do nome, esconde uma identidade feminina e um violento trauma familiar. Contratados pelo infame mafioso White Death (Michael Shannon) para salvar seu jovem filho das mãos de sequestradores, Lemon e Tangerine acabam por cruzar o caminho de outros criminosos beligerantes e cruéis - e, no decorrer do caminho, alianças são feitas e desfeitas, fatos do passado são trazidos à tona, reviravoltas acontecem a cada parada e até uma cobra assassina parece fazer parte de uma trama cujos desdobramentos remetem a coincidências das mais bizarras.

"Trem-bala" é um filme com inúmeras qualidades, mas justamente elas podem incomodar parte dos espectadores. Seu humor - um tanto macabro e violento - não é exatamente convencional. A estrutura do roteiro - repleta de flashbacks e flash forwards -  obriga a uma atenção extra que poucos estão dispostos a conceder diante do cinema quase preguiçoso que vem sendo oferecido pelos grandes estúdios. A falta de um herói - por mais que Ladybug seja uma espécie de fio condutor da trama ele não é o protagonista absoluto - talvez confunda àqueles que buscam uma narrativa mais simples. E o visual elaborado (cortesia da fotografia admirável de Jonathan Sela) pode soar como excessivamente colorido e kitsch. Mas o fato é que, somadas todas as características que fazem dele um filme de ação que tenta fugir da pasteurização do gênero, o resultado é uma produção muito acima da média, que não perde o ritmo em momento algum, que apresenta personagens interessantes interpretados por um elenco impecável e que não hesita em oferecer sequências coreografadas com precisão cirúrgica. É divertido, inteligente e produzido com extrema competência. Quanto ao fato de ser baseado em um livro japonês e contar com atores ocidentais é uma outra discussão, mais séria e mais profunda que em nada atrapalha o prazer de ser envolvido por um filme por 127 minutos de entretenimento puro.

terça-feira

ÊXODO: DEUSES E REIS


ÊXODO: DEUSES E REIS (Exodus: Gods and Kings, 2014, 20th Century Fox, 150min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Adam Cooper, Bill Collage, Jeffrey Caine, Steven Zaillian. Fotografia: Darius Wolski. Montagem: Billy Rich. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Jandy Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Cecilia Bobak, Pilar Revuelta. Produção executiva: Hisham Soliman. Produção: Mark Albela, Peter Chernin, Mohamed El Raie, Mark Huffam, Denise O'Dell, Mchael Schaefer, Ridley Scott, Jenno Topping. Elenco: Christian Bale, Joel Edgerton, Ben Kingsley, John Turturro, Aaron Paul, Ben Mendelsohn, Sigourney Weaver, Hiam Abass, Ewen Bremner. Estreia: 03/12/2014 (Londres)

Houve um tempo em que Hollywood - e as plateias ao redor do mundo - tinham uma indisfarçada fascinação por produções épicas/religiosas. Com a chegada de um novo estilo cinematográfico, mais ágil e moderno (a partir do final dos anos 1960), o gênero saiu de moda, e parecia destinado apenas à nostalgia até que Ridley Scott mostrou que ele ainda tinha espaço, com o sucesso de público, de crítica e de Oscars de "Gladiador" (2000). A partir daí, estúdios e cineastas voltavam a apostar em filmes grandiosos, de orçamentos generosos e narrativas pomposas - desta vez com o apoio de efeitos visuais caprichados e astros de primeira grandeza. Nem todos deram certo, e nem mesmo o próprio Scott escapou de tropeços, como "Cruzada" (2005) e "Robin Hood" (2010). Em um meio termo entre o sucesso e o fracasso absoluto, o cineasta inglês tampouco foi exatamente feliz com sua visão da conhecida história de Moisés e sua luta para libertar o povo judeu da escravidão. "Êxodo: deuses e reis" não foi um êxito comercial - em parte consequência do orçamento milionário de 140 milhões de dólares - e falhou em conquistar a crítica como em seus melhores trabalhos. Lançado no mesmo ano em que Darren Aronofsky estreou seu "Noé" - igualmente controverso e também mais calcado na realidade do que no tom místico normalmente encontrados nos clássicos religiosos -, o filme de Scott esbarrou basicamente em sua indecisão entre ser uma jornada épica de ação ou uma discussão sobre Deus e seus desígnios. Sofrendo com um ritmo lento que faz a trama engrenar só depois da metade da projeção, "Êxodo: deuses e reis" acabou desperdiçando a chance de unir o melhor do passado - uma história à moda antiga - com o presente - efeitos especiais de última geração, algo que somente muito dinheiro pode comprar - e resultou em um filme apenas morno.

Christian Bale, que também era a primeira escolha de Aronofsky para interpretar seu Noé - que ficou com Russell Crowe - quase perdeu o papel de Moisés, por causa do excesso de peso adquirido para "Trapaça" (2013), mas acabou acrescentando outro herói a uma galeria que inclui nada menos que o homem-morcego na trilogia capitaneada por Christopher Nolan. Bale entrega uma atuação forte, mas tropeça em um roteiro que evita a emoção a todo custo - e em um personagem arrogante e pouco simpático, o que dificulta a empatia do público. Sorte sua que o Ramsés de Joel Edgerton é ainda pior, com ares de vilão cartunesco mas ainda assim dentro da proposta de Scott. Agnóstico assumido, o cineasta narra sua história sob um ponto de vista calcado em possibilidades reais - as sete pragas do Egito, por exemplo, encontram explicações científicas que as obras anteriores de Cecil B. de Mille jamais buscariam: são sequências muito interessantes, criadas com o bom gosto de quem já criou obras indeléveis como "Alien: o oitavo passageiro" (1979) e "Blade Runner: o caçador de androides" (1982), mas é pouco para seduzir uma plateia acostumada a ação incessante. E nesse ponto a produção peca - e muito.

 

Demora quase meia-hora para que "Êxodo: deuses e reis" comece realmente a contar sua história. Antes que Moisés descubra suas origens hebraicas - o que dá o pontapé inicial para seu declínio junto ao Faraó Seti (John Turturro) e posterior redenção junto a seu povo, que o escolhe como líder contra as tiranias impostas pelo novo governante, o cruel Ramsés. Até que finalmente Moisés resolva desafiar seu antigo "irmão", o filme desfila uma série de diálogos lentos e quase desnecessários, que testam a paciência do espectador mesmo diante da opulência da direção de arte e da fotografia deslumbrante de Darius Wolski. Sigourney Weaver - parceria constante de Scott - aparece pouco, depois de ter boa parte de suas cenas cortadas na edição final, e Ben Kingsley, apesar do papel de importância crucial, é subaproveitado, assim como Aaron Paul, em alta pela série "Breaking bad", que mal aparece, com um personagem aleatório e sem força narrativa. É paradoxal que o roteiro tente fazer do filme mais do que simplesmente um épico de imagens fortes e ao mesmo tempo falhe consistentemente em aprofundar as relações entre os personagens e até mesmo suas personalidades. Apenas a rivalidade de Moisés e Ramsés é desenvolvida - e mesmo assim sem maior densidade - e o casamento do protagonista com Nefertari (Golshifeth Farahani) ocupa lugar periférico na trama, servindo apenas como (mais) um ponto de ruptura entre as duas vidas de Moisés. E não deixa de ser frustrante assistir-se a duas horas de filme para que ele tenha um final tão anti-climático quanto o proposto pelos roteiristas, dentre os quais os previamente indicados ao Oscar Jeffrey Caine e Steven Zaillian - que chegou a levar uma estatueta para casa pelo sensível "A lista de Schindler" (1993).

Mas afinal de contas, "Èxodo: deuses e reis" é totalmente ruim? Jamais. O visual, como já afirmado, é impressionante, desde o design de produção até os efeitos visuais - ainda que nem mesmo eles desafiem o inesquecível "Os dez mandamentos" (1956) -, e Joel Edgerton deita e rola como Ramsés (assumindo um papel recusado por Javier Bardem e Oscar Isaac). Christian Bale tem a potência necessária para viver um Moisés inesquecível, e mesmo que sua criação seja um tanto arrogante demais para despertar a torcida do público, seu talento impede que o filme caia nos clichês do gênero. Além disso, algumas soluções criadas para uma versão menos religiosa e mais política são fascinantes, como fazer de Deus uma criança mimada (o que incomodou os mais ortodoxos) e dar explicações racionais (ou o mais perto possível disso) às pestes que assolam o Egito. São momentos como esses que quase salvam o filme de Scott - que, com uma edição mais enxuta e um trabalho melhor no desenvolvimento de seus personagens poderia ter facilmente alcançado um lugar de honra entre as grandes produções épicas de seu tempo. Como está é um filme bem realizado mas sem alma. Muito visual para pouco conteúdo. Uma pena!

segunda-feira

AVA

 


AVA (Ava, 2020, Voltage Pictures/Freckle Films/Leeding Media, 96min) Direção: Tate Taylor. Roteiro: Matthew Newton. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: Zach Staenberg. Música: Bear McCreary. Figurino: Megan Coates. Direção de arte/cenários: Molly Hughes/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Jonathan Deckter, William A. Earon, Erika Hampson, John Norris. Produção: Kelly Carmichael, Nicolas Chartier, Jessica Chastain, Dominic Rustam. Elenco: Jessica Chastain, John Malkovich, Colin Farrell, Common, Geena Davis, Jess Weixler, Ioan Gruffud, Joan Chen. Estreia: 02/7/2020 (Hungria)

Foi-se o tempo em que apenas homens monopolizavam o cinema de ação. Com o passar dos anos e a mudança nos hábitos do público, personagens femininas deixaram de ser apenas espectadoras passivas de sequências de adrenalina em profusão para se tornarem protagonistas de suas próprias aventuras. Agentes secretas, espiãs, matadoras de aluguel ou simplesmente defensoras do lar e da família, as mulheres passaram a donas do próprio destino - e atrizes como Angelina Jolie, Charlize Theron, Linda Hamilton, Jennifer Lawrence e Sigourney Weaver foram promovidas a estrelas de um gênero antes dominado por Stallone, Schwarzenegger, Van-Damme, Vin Diesel e Mel Gibson. Uma das mais recentes aquisições do estilo é Jessica Chastain. Linda, sexy e de constituição física aparentemente frágil, Chastain - mais conhecida por seus desempenhos dramáticos e por uma vitoriosa carreira nos palcos - assume, em "Ava", seu lado mais radical, e embarca sem receio em uma produção que aposta nos clichês como forma de segurar o espectador. Sem novidades e sem se aprofundar nos dramas pessoais de seus personagens centrais, o filme dirigido por Tate Taylor acabou por decepcionar os mais exigentes, mas consegue agradar aos entusiastas - da atriz e do gênero.

A produção de "Ava" não foi isenta de problemas. A mudança em seu nome original - "Eve" foi deixado de lado para que não houvesse confusão com a série "Killing Eve", também sobre matadoras de aluguel - foi o menor dos percalços. O principal deles, para preocupação dos produtores (Chastain incluída), foi a polêmica envolvendo o nome do roteirista Matthew Newton, também contratado como diretor: julgado em 2007 por violência doméstica contra a namorada (e absolvido sob a desculpa de sofrer de distúrbios psiquiátricos), Newton voltou a ser acusado por outras mulheres, desta vez de assédio sexual e abuso. A pressão das redes sociais foi pesada - Chastain chegou a ser questionada sobre o assunto, uma vez que é tida como uma das porta-vozes do movimento MeToo - e a cadeira de diretor não demorou a ficar vaga. Quem acabou assumindo o posto foi Tate Taylor - um cineasta competente mas nunca brilhante -, o nome responsável pelo oscarizado "Histórias cruzadas" (2011) e pelo sucesso "A garota no trem" (2016). Com Taylor no comando, "Ava" ficou nas mãos de um operário e não de um artista conhecido pela ousadia. A má notícia: não há quase nada no resultado final que não tenha sido visto em outras produções similares. A boa notícia: Taylor é um eficiente diretor de atores, e extrai interpretações primorosas de seu talentoso elenco mesmo sem ter um grande material em mãos.


O roteiro de Matthew Newton não se preocupa em aprofundar a psicologia ou o drama de seus personagens, preferindo centrar seu foco em uma trama um tanto quanto confusa sobre traição e lealdade no mundo dos matadores de aluguel. É assim que surge a história de Ava (Jessica Chastain, excelente tanto no drama como na porrada), uma bem-sucedida e talentosa assassina por contrato. Protegida pelo veterano Duke (John Malkovich) - que é, ao mesmo tempo, um mentor e uma figura paterna -, Ava se diferencia dos demais profissionais por sempre fugir dos rígidos protocolos da profissão ao buscar um mínimo de conexão com suas vítimas. Tal característica - e um atentado frustrado - acabam por colocá-la na mira de um dos líderes do grupo, Simon (Colin Farrell), que encomenda sua morte apesar dos clamores de Duke. Sem saber que está condenada pelos próprios  colegas, Ava se reaproxima da família de quem esteve afastada por oito anos, lutando contra o alcoolismo e o vício em drogas. Seu reencontro com o antigo namorado, Michael (Common), a põe em rota de colisão com a irmã, Judy (Jess Weixler), atual noiva do rapaz, e reacende os problemas com a mãe, Bobbi (Geena Davis).

Como era de se esperar, "Ava" tem nas sequências de ação o seu maior trunfo. Mesmo que o resultado esteja a anos-luz de distância da icônica trilogia Jason Bourne - só para citar um dos exemplares mais famosos do gênero - e a edição deixe a desejar, com um excesso de cortes que impede de aproveitar por inteiro as longas coreografias de luta, o filme de Taylor não decepciona por completo. Boa parte de sua qualidade está na escolha de um elenco que dá dignidade e consistência a uma trama frágil - e por vezes incompreensível. Jessica Chastain brilha como sempre, oferecendo nuances várias a uma personagem que em mãos erradas poderia ser apenas incoerente. Colin Farrell e John Malkovich protagonizam cenas de grande tensão com a tranquilidade de veteranos e até mesmo Geena Davis ressurge, em uma participação pequena mas emocionante - vale lembrar que Davis foi uma das pioneiras em tentar elevar as mulheres à protagonização de filmes de ação, com os malfadados "A ilha da garganta cortada" (1995) e " Despertar de um pesadelo" (1996). Divertido mas esquecível, "Ava" fica em um razoável meio-termo: agrada aos fãs do estilo mas dificilmente conquista novos adeptos.

domingo

HOMEM DE FERRO 2


HOMEM DE FERRO 2 (Iron Man 2, 2010, Paramount Pictures/Marvel Studios, 124min) Direção: Jon Favreau. Roteiro: Justin Theroux, personagens criados por Stan Lee, Don Heck, Larry Lieber, Jack Kirby. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Dan Lebental. Música: John Debney. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Lauri Gaffin. Produção executiva: Louis D'Esposito, Susan Downey, Jon Favreau, Alan Fine, Stan Lee, David Maisel, Denis L. Stewart. Produção: Kevin Feige. Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Mickey Rourke, Scarlett Johansson, Samuel L. Jackson, Jon Favreau, Don Cheadle, Sam Rockwell, John Slattery, Clark Gregg, Paul Bettany, Kate Mara. Estreia: 26/4/2010

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

Não foi surpresa para ninguém quando, mesmo com o primeiro "Homem de ferro" ainda em cartaz, um segundo capítulo foi confirmado pela Marvel. Com uma renda doméstica superior a 300 milhões de dólares (e uma bilheteria mundial de quase o dobro), a adaptação das aventuras de Tony Stark, o bilionário tornado super-herói, deu o pontapé inicial para a criação de um universo cinematográfico próprio, que daria origem a uma série de filmes extremamente bem-sucedidos em termos comerciais e de crítica. Confirmando a regra de quem em time que está ganhando não se mexe, o estúdio manteve Jon Favreau na direção, Robert Downey Jr. no papel-título (dessa vez com um salário compatível com sua importância no projeto) e Gwyneth Paltrow na pele de sua secretária/interesse amoroso Pepper Potts. A única baixa foi a substituição de Terrence Howard por Don Cheadle - uma intriga de bastidores que foi assunto por um bom tempo em publicações sobre o tema. Com um orçamento um pouco mais generoso que o primeiro filme e as expectativas nas alturas, "Homem de ferro 2" chegou às telas na primavera norte-americana de 2010 e, novamente para nenhuma surpresa, transformar-se em um dos campeões de bilheteria do ano. A boa notícia é que, apesar de seguir quase à risca o manual de roteiros de Hollywood, o filme de Favreau conseguiu manter o frescor do material original e revelou-se um entretenimento à altura, graças, em boa parte, ao enxuto e bem estruturado roteiro de Justin Theroux

Indicado por Downey Jr., com quem havia trabalhado no script da comédia "Trovão tropical" (2009), Theroux teve a vantagem de não precisar voltar às origens do personagem, tão bem contadas no primeiro capítulo. Dessa vez, a história se ampara em três frentes: na primeira, Stark precisa lidar com a pressão do governo norte-americano que insiste para que ele compartilhe de sua tecnologia para colaborar na defesa do país. Na segunda, ele se vê frente a frente com o desgaste de sua saúde, prejudicada por sua exposição ao material radoiativo que o mantém vivo. E, por fim, uma parte do passado de sua família vem à tona quando o físico russo Ivan Vanko - filho de um cientista que fora sócio de seu pai nas indústrias Stark - chega ao país para unir-se a Justin Hammer, seu principal rival nos negócios, e vingar-se do fato de ter sido deportado do país, acusado de traição. As três tramas caminham paralelamente durante o filme, para se encontrarem no ato final - que consegue ser mais empolgante que o original graças aos efeitos indicados ao Oscar e por sua integração natural ao enredo.


 E se a saída de Terrence Howard por questões salariais e artísticas - o estúdio sugeriu um corte de 80% do seu cachê, em relação ao primeiro filme, quando o ator teve um pagamento maior que o de Robert Downey Jr., e diminuição de seu personagem devido à insatisfação do diretor com seu desempenho - os acréscimos a essa segunda parte da saga do Homem de Ferro fizeram a festa para os espectadores.Na pele do principal vilão, Ivan Vanko, o primeiro acerto: em alta depois de sua indicação ao Oscar de melhor ator por "O lutador" (2008), Mickey Rourke entrou no elenco como um grande atrativo - mas depois da estreia reclamou a quem quisesse ouvir que suas melhores cenas haviam sido cortadas, e que tal situação havia tornado inútil toda a sua preparação anterior às filmagens (o que incluiu uma viagem à Rússia e treinamento físico específico). Para viver o rival de Stark, o empresário Justin Hammer, a escolha inicial de escalar Al Pacino foi substituída pela presença de Sam Rockwell, mais jovem e de maior diálogo com a plateia juvenil. E por fim, o melhor da festa: a presença de Scarlett Johansson como Natasha Romanov - que, como todo fã dos quadrinhos sabe, é o nome civil da Viúva Negra, personagem cuja importância vai se tornando cada vez maior no decorrer do lançamento dos outros filmes da Marvel. Anteriormente reservado para Emily Blunt, o papel ficou vago quando a atriz não conseguiu conciliar o trabalho com as filmagens de "As viagens de Gulliver", e não faltaram nomes cogitados para seu lugar: Angelina Jolie, Jessica Biel, Gemma Arterton e Jessica Alba estavam entre os boatos - assim como Natalie Portman (que depois estrelaria "Thor", de Kenneth Branagh) e Brie Larson (a Capitã Marvel em pessoa). Johansson tingiu os cabelos de ruivo, envolveu-se em treinamentos físicos antes e durante as filmagens, e surgiu como mais um elo do Homem de Ferro com a S.H.I.E.L.D. - que se tornará ponto crucial nos filmes seguintes da série.

Mais do que apenas um filme realizado para encher os cofres da Marvel - a esta altura já bem recheado -, "Homem de ferro 2" é, mais do que tudo, uma produção que estabelece ainda mais as fundações do universo cinematográfico da produtora, oferecendo ao público tudo que uma superprodução escapista e milionária pode oferecer. Tem bons momentos de humor (em boa parte graças ao carisma de Downey Jr., cada vez mais à vontade no papel principal), cenas de ação caprichadas e personagens coadjuvantes que não estão em cena como meros figurantes. Para quem gosta do gênero é um programa dos mais satisfatórios - em compensação, os detratores do cinemão comercial hollywoodiano continuarão torcendo o nariz para seus efeitos mirabolantes, piadas irônicas e mitologia própria. É uma questão de gosto - e os mais de 620 milhões de dólares arrecadados ao redor do mundo deixa bem claro que muita gente aprova as aventuras de Tony Stark.

segunda-feira

O INCRÍVEL HULK


O INCRÍVEL HULK (The Incredible Hulk, 2008, Universal Pictures/Marvel Enterprises, 112min) Direção: Louis Leterrier. Roteiro: Zak Penn, personagens criados por Stan Lee, Jack Kirby. Fotografia: Peter Menzies Jr.. Montagem: Rick Shaine, Vincent Tabaillon, John Wright. Música: Craig Armstrong. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Kirk M. Petrucelli/Monica Delfino, Carolyn "Cal" Loucks, Monica Rochlin. Produção executiva: Stan Lee, David Maisel, Jim Van Wyck. Produção: Avi Arad, Kevin Feige, Gale Anne Hurd. Elenco: Edward Norton, Liv Tyler, William Hurt, Tim Roth, Tim Blake Nelson, Ty Burrell. Estreia: 08/6/08

Em 2003 os fãs de quadrinhos foram surpreendidos com "Hulk", um olhar bastante peculiar sobre um dos personagens mais queridos e populares da Marvel: sob a direção do premiado Ang Lee (acostumado a assinar produções mais artísticas, como "Razão e sensibilidade", de 1995, e "O tigre e o dragão", de 2000, pelo qual levou seu primeiro Oscar), o super-herói verde tornou-se protagonista de um filme de ação com tendências existencialistas e, apesar da bilheteria mundial acima de 245 milhões de dólares, não chegou a entusiasmar o público e dividiu a crítica. As chances de uma sequência no mesmo tom cerebral, escrita por James Schamus - colaborador habitual de Lee - acabaram sendo abandonadas em 2005, no entanto, quando a Universal Pictures devolveu os direitos do personagem à Marvel. Já dedicada a criar seu Universo Cinematográfico, a Marvel aproveitou a oportunidade para dar uma nova chance ao cientista Bruce Banner e seu monstruoso alterego - com um viés mais próximo de suas pretensões comerciais e possibilidades mais concretas de fazer dele parte de um projeto maior. Para isso, não apenas Ang Lee foi dispensado da função de diretor - em uma estratégia corajosa, o estúdio aproveitou a recusa de Eric Bana em retornar ao papel-título para, ao invés de recomeçar do zero, fazer de "O incrível Hulk" uma mistura entre um reboot e uma continuação. Pode não ter repetido o êxito de "Homem de ferro" (2008) - primeiro filme do ambicioso plano da Marvel e sucesso imenso de bilheteria -, mas marcou presença de forma nada desprezível.

A saída de Bana do projeto abriu a porta para perspectivas interessantes - e nomes como Matthew McConaughey, David Duchovny (da série "Arquivo X") e Dominic Purcell (astro de "Prision break") foram cogitados para assumir a liderança do elenco. Em uma espécie de clarividência, o novo diretor, o cineasta francês Louis Leterrier, chegou a propor, sem sucesso, o nome de Mark Ruffalo para o papel principal, mas foi voto vencido junto aos executivos da Marvel: poucos anos depois Ruffalo tornou-se o mais celebrado intérprete do personagem mesmo sem ter um filme-solo. A recusa da Marvel em aceitar Ruffalo em "O incrível Hulk" tinha uma razão, no entanto, e bem forte: sua preferência por Edward Norton, fã dos quadrinhos e um ator de prestígio o suficiente para garantir a boa vontade da crítica e de parte do público avesso a filmes-evento. Apesar de conhecido por seu gênio forte - e por sua interferência nas decisões criativas dos filmes dos quais participava -, Norton já tinha duas indicações ao Oscar no currículo e não era um ator que se prestava facilmente a produções comerciais: sua presença seria um belo chamariz e deixaria bastante claro a todos a intenção da Marvel em ser levada muito a sério.

 

Como era de se esperar, Norton não apenas fez sua parte como ator - reescreveu várias cenas do roteiro de Zak Penn e dirigiu algumas sequências para ajudar a manter o cronograma de filmagens. Com locações no Rio de Janeiro e Toronto fazendo o papel de Manahattan (por questões de concessões comerciais oferecidas pelo prefeito local, David Miller, fã do personagem), "O incrível Hulk" sofreu várias alterações em relação a seu primeiro filme. Não apenas no visual escolhido pelo novo diretor (um verde mais escuro e um tamanho fixo para a criatura, por exemplo), mas também em sua tentativa de fazer dele um herói trágico sem abandonar seu propósito de entreter a plateia, ávida pelos melhores efeitos visuais que um orçamento de 150 milhões de dólares podem comprar. Para isso, a trama não perde tempo em estabelecer as origens do personagem - e conta com um vilão bastante interessante, interpretado pelo sempre ótimo (e frequentemente subestimado) Tim Roth. Da mesma forma, a relação entre Banner e Betty Ross (Liv Tyler substituindo Jennifer Connelly com competência e elegância) não precisa ser estabelecida desde o princípio - seu reencontro se dá em uma cena que resume perfeitamente o equilíbrio entre drama e ação que faltou ao primeiro filme. E é claro que ter William Hurt na pele do general Ross não atrapalha em nada: fã de Hulk, assim como seu filho e Edward Norton, Hurt é mais um elemento a emprestar prestígio à produção.

"O incrível Hulk" começa nas favelas do Rio de Janeiro, onde Bruce Banner está escondido depois dos catastróficos eventos do primeiro capítulo. Buscando incessantemente uma cura para sua condição, o cientista ainda precisa lidar com o fato de que forças militares lideradas pelo General Ross estão à sua procura, já que não pretendem abandonar o resultado de anos em estudos para a criação de um super soldado. Quando Banner retorna aos EUA, conta com o apoio da namorada, Betty (que, por caprichos do destino e dos roteiristas, é filha do general), para aproximar-se de um antídoto - uma questão que o colocará em rota de colisão com um monstro de poderes similares, criado justamente para enfrentá-lo e impedir sua deserção. O embate ente os dois é o centro do filme de Leterrier - que herdou a direção do filme depois que o comando de "Homem de ferro" foi parar nas mãos de Jon Favreau - e é bastante superior, em termos técnicos e emotivos, ao trabalho de Ang Lee, além de, é claro, deixar um espaço em aberto para as inevitáveis continuações ao lado de seus colegas vingadores. "O incrível Hulk" pode não ser um filme perfeito - mas funciona às mil maravilhas como entretenimento de qualidade.

sexta-feira

PAPILLON (1973)


PAPILLON (Papillon, 1973, Allied Artists/Columbia Pictures, 151min) Direção: Franklin J. Schaffner. Roteiro: Dalton Trumbo, Lorenzo Semple Jr., livro de Henri Charrière. Fotografia: Fred Koenekamp. Montagem: Robert Swink. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Anthony Powell. Direção de arte/cenários: Anthony Masters. Produção executiva: Ted Richmond. Produção: Franklin J. Schaffner. Elenco: Steve McQueen, Dustin Hoffman, Victor Jory, Don Gordon, Anthony Zerbe. Estreia: 16/12/73

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original

Era a receita para um grande sucesso. Um best-seller internacional de não-ficção. Um cineasta recém saído da consagração de uma chuva de Oscar. Um dos maiores e mais populares astros de Hollywood. E um ator em ascensão. Tudo estava a favor de "Papillon", adaptação do livro escrito por Henri Charrière que contava (com fartas licenças poéticas) seu período na famigerada Ilha do Diabo - uma das prisões mais seguras do mundo, localizada na Guiana Francesa. Depois de passar pelas mãos de Richard Brooks (que sonhava em ter Alain Delon e Jean-Paul Belmondo nos papéis centrais) e Roman Polanski (cujo projeto ruiu quando Warren Beatty recusou fazer parte do elenco), a produção finalmente chegou a Franklin J. Schaffner, que, do alto de seus Oscar de melhor filme e diretor por "Patton: rebelde ou herói?" (1970), pareceu a escolha mais acertada para transformar em imagens um roteiro que explorava tanto a relação de confiança e amizade os entre protagonistas quanto momentos da mais pura adrenalina. O resultado foi mais que positivo: elogios entusiasmados da crítica e sucesso de bilheteria. Porém, nem tudo foram flores durante as filmagens - e a esperança de colecionar mais algumas estatuetas morreu por motivos bem pouco relacionados à qualidade final da produção.

Os problemas começaram quando os produtores descobriram que, apesar da contratação de Dustin Hoffman pelo salário de 1,25 milhão de dólares, seu personagem no livro de Charrière era muito menor do que eles esperavam (uma questão que poderia ter sido evitada com uma leitura prévia do material original). A solução foi fazer com que o roteiro, escrito pelo premiado Dalton Trumbo e Loreno Semple Jr., expandisse sua importância no filme para acomodar o novo status de estrela do ator. E então, não bastassem os episódios de furtos nos sets construído na Jamaica (prejuízos que custaram cerca de trinta mil dólares à produção), uma crise de egos instalou-se nos bastidores quando chegou aos ouvidos de Hoffman (já então um ator considerado "difícil") a informação de que, apesar do mesmo destaque nos créditos que seu colega de cena Steve McQueen, seu salário era consideravelmente menor (a McQueen, já estabelecido como um dos grandes nomes de Hollywood, foram pagos 2 milhões de dólares). Tal revelação não ajudou em nada a relação entre os dois atores, que, a partir daí, tornou-se unicamente profissional, sem direito sequer a qualquer tipo de confraternização fora das câmeras. Nem mesmo a presença de Henri Charrière em pessoa nas filmagens ajudou a melhorar o clima, prejudicado pelo fato de que Schaffner e Trumbo ainda não estavam com o roteiro completo no início dos trabalhos: em encontros diários, os dois trabalhavam no que seria feito durante o dia de trabalho - o que resultou no fato de "Papillon" ter sido filmado quase todo em ordem cronológica, uma ajuda e tanto para o desempenho de seus atores.

 

E se Hoffman brilhou como o estelionatário Louis Dega, responsável por financiar as tentativas de fuga de seu companheiro Papillon, foi Steve McQueen quem recebeu os maiores elogios da crítica - principalmente por sua entrega ao papel a ponto de dispensar dublês em sequências perigosas. Porém, sua atuação, louvada unanimemente, não foi o suficiente para lhe garantir uma esperada indicação ao Oscar: apesar de concorrer ao Golden Globe de melhor ator dramático, McQueen se viu esnobado pela Academia e não demorou para que fofocas a respeito de sua vida pessoal servissem como explicação para a situação. Mulherengo contumaz, o ator não era bem visto pelos maridos da indústria, temerosos que seu charme viril pudesse causar o estrago que havia feito no casamento do produtor Robert Evans, um dos mais poderosos de então: durante as filmagens de "Os implacáveis" (1972), sua mulher, a atriz Ali McGraw, encantou-se pelo ator, seu colega de cena, e nem pensou duas vezes em pedir divórcio e abandonar os ambiciosos projetos do marido para viver sua história de amor. Certamente tal escândalo em um ambiente tão sexualmente hipócrita minou as chances de McQueen de ganhar uma estatueta, principalmente quando se percebe que "Papillon" foi seu último grande trabalho - ao menos o último a chamar a atenção do público e explorar seu carisma e talento em igual medida.

A despeito das questionáveis afirmações de Henri Charrière sobre seu período na prisão localizada na Guiana Francesa, a trama de "Papillon" empolga justamente pela presença de McQueen, um ator que se utilizava de um tom naturalista para aproximar-se do espectador mesmo em personagens de caráter duvidoso: mesmo que afirme ser inocente do homicídio que o condenou, o protagonista da história não oferece ao público maiores explicações sobre seu passado, deixando no ar toda e qualquer certeza a respeito de seu caráter. Ao roteiro tampouco interessa detalhes anteriores à sua condenação - o filme de Schaffner se dedica a equilibrar-se entre as tentativas de fuga de Papillon e suas consequências, muitas delas bastante violentas. O ritmo é um tanto problemático - uns vinte minutos a menos faria milagres pela narrativa - mas a química entre McQueen e Hoffman é admirável, especialmente quando se sabe da relação pouco amistosa entre ambos fora de cena. Com belas sequências de ação e bons momentos dramáticos, "Papillon" não chegou a ser visto por Carrière, morto de câncer no pulmão em julho de 1973, menos de seis meses antes da estreia, e nunca emplacou sua continuação, "Banco", nas telas. Mas tornou-se clássico o suficiente para merecer um remake em 2017, estrelado por Charlie Hunnam e Rami Malek. É um filme cult, ainda hoje capaz de envolver a plateia com seu misto de ação e homenagem à resistência humana.

domingo

EM RITMO DE FUGA

EM RITMO DE FUGA (Baby driver, 2017, TriStar Pictures, 113min) Direção e roteiro: EdgarWright. Fotografia: Bill Pope. Montagem: Jonathan Amos, Paul Machliss. Música: Steven Price. Figurino: Courtney Hoffman. Direção de arte/cenários: Marcus Rowland/Lance Totten. Produção executiva: James Biddle, Liza Chasin, Adam Merims, Rachel Prior, Edgar Wright, Michelle Wright. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Nira Park. Elenco: Ansel Elgort, Kevin Spacey, Jamie Foxx, Jon Hamm, Eiza González, John Bernthal, Lily James. Estreia: 11/3/2017 (South by Southwest Festival)

3 indicações ao Oscar: Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som

Em Hollywood nem tudo caminha com velocidade. Que o diga o cineasta/roteirista britânico Edgar Wright: foi em 1995 que ele começou a trabalhar no roteiro de um filme que misturava policial, romance e uma trilha sonora que, combinada com as sequências mais alucinantes, praticamente transformava o produto final em uma espécie de policial musical. De lá até o começo das filmagens, em 2016, Wright firmou seu nome em comédias como "Todo mundo quase morto" (2004), "Chumbo grosso"(2007) e "Scott Pilgrim contra o mundo" (2010), que brincavam com gêneros consagrados do cinema comercial - a saber, filmes de zumbis, tramas policiais e adaptações de HQ, respectivamente. Nesse meio tempo, sua ideia inicial foi transformada (ao menos sua primeira sequência) em um videoclipe de "Blue sky", da banda inglesa Mint Royale, em 2003, e somente em 2017 finalmente saiu do papel - quase uma década depois de ter recebido o sinal verde para tocar o projeto adiante - e chegou às telas como "Em ritmo de fuga", um dos melhores filmes da temporada, reconhecido com uma bilheteria inesperada de mais de 100 milhões de dólares no mercado doméstico (contra um custo baixo de pouco menos de 35 milhões) e três merecidíssimas indicações ao Oscar, que reconheceram algumas das maiores qualidades do filme - edição de som, mixagem de som e montagem.

A dupla de editores (Jonathan Amos e Paul Machliss) podem ter perdido o Oscar para "Dunkirk" (2017) - também um filme cuja edição é fator preponderante -, mas tiveram melhor sorte em outras disputas, como o BAFTA (o Oscar britânico) e as associações de críticos de Las Vegas, Los Angeles, São Francisco e Chicago. Não foram prêmios de consolação. A montagem de "Em ritmo de fuga" é das mais empolgantes realizadas em Hollywood em muito tempo - e não apenas porque é ágil e de tirar o fôlego do espectador, mas também (e principalmente) porque se utiliza de todos os elementos à sua disposição sem que se deixe deslumbrar pela forma em detrimento do conteúdo. A trama pode até parecer banal, mas Wright consegue a façanha de fazer com que soe extremamente original ao inserir um elemento crucial em seus momentos de mais adrenalina: ponto essencial para a narrativa de "Em ritmo de aventura", a música assume papel crucial na trajetória dos personagens (e, como forma de respeitá-la em absoluto, a própria edição se utiliza dela como base e ritmo). Por quase duas horas, o público é brindado com uma mistura exata entre músicas de primeira, perseguições milimetricamente calculadas pelo cineasta, personagens carismáticos e um tom que, mesmo diante da violência, nunca se torna sombrio em demasia. Ou seja, "Em ritmo de fuga" é o que se convenciona chamar de "filme de verão" do mercado norte-americano, mas está muitos degraus acima da média graças ao casamento perfeito entre suas partes.


Baby, o protagonista do filme, é um exímio motorista que, para pagar uma dívida contraída com um chefão do crime (interpretado por Kevin Spacey pouco antes de sua queda em desgraça na comunidade cinematográfica por acusações de assédio sexual), trabalha em assaltos planejados por ele: dotado de um talento preciso para fugas em alta velocidade, ele é o homem de confiança para tais eventos criminosos, mesmo que não seja um entusiasta a respeito. Enquanto se prepara para uma última missão antes de finalmente quitar seu débito, Baby se apaixona pela garçonete Debora (Lily James em papel que só não ficou com Emma Stone porque ela foi fazer "La La Land: cantando estações", que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz). Debora acaba se tornando o principal motivo pelo qual Baby deseja abandonar de vez seu "emprego", mas, como normalmente acontece, o jovem se vê arrastado para um assalto que dá muito errado - em parte graças ao pouco confiável Bats (Jamie Foxx) - e precisa salvar a própria pele, assim como livrar sua namorada e seu pai adotivo da rota de vingança do violento Buddy (Jon Hamm, da série "Mad Men"). Se a trama parece derivativa, basta conferir como o roteiro de Wright consegue jogar com todos os clichês e torná-los parte de uma produção caprichadíssima e emocionante.

O principal mérito de "Em ritmo de fuga" - cujo título original, "Baby driver", soa muito melhor - é, além do roteiro esperto e de sua união perfeita de elementos simples, a escolha de seu ator principal. Revelado no romântico "A culpa é das estrelas" (2014), o jovem Ansel Elgort está absolutamente perfeito no papel do complexo Baby. Dono de características próprias - sofre de um problema de audição causado por um acidente que vitimou seus pais, mora com um pai adotivo surdo-mudo, é monossilábico quando em ação e costuma gravar as reuniões de "trabalho" para remixar com suas músicas preferidas -, Baby é o herói que todo espectador pediu a Deus. Carismático, competente e cheio de boas intenções (ainda que soterradas por um currículo pouco recomendável), é ele quem conduz a plateia por vibrantes fugas - todas filmadas em Atlanta e quase sem auxílio de CGI - e rege uma sinfonia de velocidade capazes de deixar qualquer um de queixo caído. Envolto em uma embalagem atraente até mesmo para o público mais jovem - e mais atraído por continuações e adaptações de quadrinhos -, "Em ritmo de fuga" é o entretenimento mais que perfeito, e que será, sem dúvida, reconhecido no futuro como uma das pequenas obras-primas de sua geração.

quinta-feira

HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN


HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN (Harry Potter and the prisoner of Azkaban, 2004, Warner Bros, 142min) Direção: Alfonso Cuarón. Roteiro: Steve Kloves, romance de J.K. Rowling. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Steven Weisberg. Música: John Williams. Figurino: Jany Temine. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, Callum McDougall, Tanya Seghatchian. Produção: Chris Columbus, David Heyman, Mark Radcliffe. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Michael Gambon, Maggie Smith, Gary Oldman, Emma Thompson, Julie Walters, Alan Rickman, David Thewliss, Tom Felton, Richard Griffiths, Fiona Shaw, Julie Christie, Robbie Coltrane. Estreia: 23/5/2004

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Efeitos Visuais

Quando Chris Columbus voltou atrás em sua decisão de comandar todos os filmes da série "Harry Potter" - da qual ele já havia dirigido os dois primeiros - uma nova odisseia de bastidores começou. A Warner, afinal, tinha um investimento dos mais preciosos em mãos (os direitos de todos os sete livros da saga) para entregá-lo a qualquer um. Entre os candidatos a assumir as rédeas do terceiro capítulo da milionária obra da britânica J.K. Rowling, então, surgiram nomes tão díspares quanto M. Night Shyamalan e Marc Forster. O primeiro tinha no currículo o megasucesso "O sexto sentido" (1999), que havia lhe rendido indicações ao Oscar de filme, direção e roteiro; o outro havia sido responsável por "A última ceia" (2001), que deu à Hale Berry a estatueta de melhor atriz. A responsabilidade de estar à frente de um blockbuster dos mais esperados da temporada 2004, porém, não foi tão sedutora assim, e ambos declinaram do convite: Shyamalan para realizar "A vila" (2004), e Forster para assinar "Em busca da Terra do Nunca" (2004). Foi aí que entrou em cena o mexicano Guillermo Del Toro, cujo currículo até então (com filmes como "Mutação", de 1997, "A espinha do diabo", de 2001, e "Blade II: O caçador de vampiros", de 2002) pouco recomendava para uma produção cujo público-alvo era infanto-juvenil. Para surpresa de muitos, Del Toro recusou o convite para penetrar no mundo de Hogwarts, mas não sem antes recomendar um amigo: enquanto preferiu tocar adiante um projeto de estimação - a adaptação de "Hellboy", baseado nas HQs de Mike Mignola -, ele apontou para seu conterrâneo Alfonso Cuarón. Em um primeiro olhar, Cuarón não poderia estar mais distante de Harry Potter, com filmes como o sexy "E sua mãe também" - que havia lhe rendido uma indicação ao Oscar de roteiro original - no portfolio. No entanto, Cuarón também sabia ser sensível e apropriado aos espectadores juvenis, como mostrou em 1995, ao adaptar o clássico "A princesinha", de Frances Hodgson Burnett, com a dose certa de emoção e delicadeza.

Com Cuarón no comando - aprovado por Rowling, fã de seus trabalhos anteriores - e um orçamento de estimados 130 milhões de dólares, "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" começava a dar os primeiros passos da série em direção à seriedade que os últimos capítulos apresentariam. Com um visual diferente dos dois primeiros filmes - cortesia da bela fotografia de Michael Seresin - e com sequências inteiras filmadas com câmeras em movimento, o terceiro filme da série apresenta também diferenças no figurino (especialmente os protagonistas) e um ritmo que equilibra cenas de ação, suspense e até comédia (como sempre acontece no começo do filme, Potter sofre nas mãos de seus tios e resolve a situação da melhor maneira que pode, com a ajuda de seus dons de bruxo, é claro). O roteiro, novamente adaptado por Steve Kloves, apresenta ao espectador novos elementos da saga, como o misterioso Sirius Black (interpretado com gosto por Gary Oldman), o padrinho do protagonista, que foge da prisão de Azkaban e, segundo a lenda, tem o objetivo de assassinar Harry, uma vez que é um dos mais fiéis seguidores do temido Voldemort (Ralph Fiennes). O que acontece, porém, é que Potter acaba descobrindo que o que sempre foi tido como verdade pode muito bem ser apenas parte dela. Com a ajuda de Hermione (Emma Watson) e Ron (Rupert Grint) - assim como também de alguns professores que conhecem a real história de Black -, o adolescente enfrenta o ano letivo mais perigoso de sua vida, visto até mesmo pelas previsões da professora Trelwaney (Emma Thompson, em papel pequeno que ela tira de letra).


Substituindo o falecido Richard Harris no crucial papel do professor Dumbledore, que foi oferecido também a Ian McKellen, Peter O'Toole e Christopher Lee, mantém em alto nível o elenco coadjuvante da série. Nomes como Maggie Smith, Alan Rickman, Fiona Shaw e Julie Walters continuam servindo de apoio a seus jovens colegas de cena, com generosidade ímpar. Conforme a trajetória de Harry Potter vai ficando cada vez menos infantil e se aproxima de momentos bastante tensos e violentos, a importância do corpo docente de Hogwarts se torna ainda mais importante e presente - e é admirável que a direção de Cuarón seja sensível ao ritmo da trama: o cineasta acelera quando precisa e mantém-se delicada ao examinar a relação de Potter com os personagens a seu lado. Daniel Radcliffe - assim como seus colegas mais próximos - mostra um amadurecimento tanto físico quanto artístico: não é um grande ator, mas é difícil imaginar outro intérprete para o jovem bruxo, um dos personagens mais populares da literatura e do cinema, um perfeito exemplo de entretenimento divertido e realizado com extremo cuidado e talento.

E "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" é justamente isso: entretenimento de primeira, capaz de agradar aos fãs dos livros e até mesmo àqueles que nunca abriram uma página sequer da saga de Rowling. Apesar de tratar - metaforicamente - com temas como depressão (representada pelos aterrorizantes dementadores), o filme de Cuarón se mantém no limite entre a fantasia e o terror, que ficaria a cada filme mais próximo dos protagonistas. Único filme da saga a não alcançar (por pouco) a marca de 800 milhões de dólares de bilheteria mundial, "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" concorreu a dois Oscar (trilha sonora original e efeitos visuais) e provou que, a despeito das mudanças na cadeira de diretor, mantém uma coerência interna e uma qualidade à prova das grandes expectativas de seu público. Cuarón, que assumiu não ter lido nenhum dos livros quando convidado para comandar esse terceiro filme - e que levaria o Oscar de direção por "Gravidade" (2013) - mostrou-se uma escolha certeira, que manteve o alto nível da série e emprestou-lhe um prestígio que apenas colaborou para seu sucesso de crítica e público.

domingo

HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA

HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA (Harry Potter and the chamber of secrets, 2002, Warner Bros, 161min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: Steve Kloves, romance de J. K. Rowling. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Peter Honess. Música: John Williams. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, David Barron, Chris Columbus, Mark Radcliffe. Produção: David Heyman. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Richard Harris, Maggie Smith, Kenneth Branagh, Julie Walters, Alan Rickman, Robbie Coltrane, Jason Isaacs, Tom Felton. Estreia: 03/11/02

Quando "Harry Potter e a câmara secreta" estreou, no final de 2002, até mesmo o público que não acompanhava a saga do jovem bruxo em sua encarnação literária já conhecia seu universo mágico: graças à "Harry Potter e a pedra filosofal", o primeiro capítulo de uma coleção que prometia estender-se até um sétimo volume, o mundo inteiro estava tomado por uma febre que não atingia apenas seu público-alvo (o infantojuvenil), mas que havia se espalhado também entre aqueles adultos sem medo de entregar-se à fantasia. Com uma renda mundial de quase 980 milhões de dólares e elogiado pela maioria dos críticos, o filme de Chris Columbus - diretor também de "Esqueceram de mim" (1990) e "Uma babá quase perfeita" (1993) - estabeleceu as regras do jogo, apresentou seus personagens e confirmou o apelo comercial que há muito tempo as editoras já conheciam (e festejavam). Sem mexer em um time já ganhando, a Warner manteve a mesma equipe do primeiro filme para a realização do segundo e, para a surpresa de ninguém, voltou a cativar plateias ao redor do mundo - e mais uma vez chegou perto de um sucesso quase bilionário, com uma bilheteria de 88 milhões de dólares em seu fim-de-semana de estreia. 

Mais sombrio do que o primeiro filme - em uma transformação gradual da série, que vai ficando menos ingênua conforme a trama vai caminhando e os protagonistas vão de crianças a adolescentes, "Harry Potter e a câmara secreta" é o filme mais longo da série, a despeito do fato de o livro no qual ele é baseado é o segundo mais curto da saga, e começou a ser filmado apenas três dias após a estreia de "Harry Potter e a pedra filosofal". Tal pressa tinha motivo: não apenas o elenco infantil logo começaria a passar pela puberdade (a tragédia de qualquer produtor) como o ator Richard Harris, que vivia um personagem crucial nos filmes, Alvo Dumbledore - um dos professores mais importantes de Hogwarts e peça fundamental na trajetória do protagonista - estava com a saúde debilitada a ponto de ser quase afastado das filmagens; Harris morreu poucas semanas antes do lançamento do filme, e foi substituído, nas produções seguintes, por Michael Gambon. Com o elenco reforçado pela presença de Jason Isaacs e Kenneth Branagh, "Harry Potter e a câmara secreta" consegue uma façanha e tanto: mantém o alto nível de entretenimento do primeiro filme (se é que não o eleva) e agrada em cheio aos fãs dos livros.


"Harry Potter e a câmara secreta" começa com um tom leve, mas não demora a mergulhar aos poucos em uma tensa jornada: ainda na casa de seus tios, Potter é visitado por um atrapalhado elfo doméstico, Dobby (voz de Tony Jones), que não apenas coloca o bruxinho em péssimos lençóis, graças a suas interferências em outros membros da família. Sua aparição, no entanto, tem motivos bastante sinistros: segundo ele, coisas horríveis estão para acontecer em Hogwarts, e Potter deve evitar voltar à escola. É claro que seus avisos de nada adiantam: Potter retorna para mais um ano letivo, assim como seus melhores amigos, Ron e Hermione, e logo de cara percebe que os conselhos que não seguiu estavam mais do que certos. Vozes vindas das paredes, escritos de sangue com mensagens enigmáticas e alunos sendo petrificados sem motivo aparente levam Harry a uma investigação que revela muito mais do que ele esperava e remete à uma misteriosa câmara secreta, cujo histórico é ligado à presença malévola de Voldemort, que controla (não se sabe como) o lendário quarto da escola.

Assim como em "Harry Potter e a pedra filosofal", o segundo filme dirigido por Columbus ainda mostra seus protagonistas aprendendo a lidar com seus novos dons e lutando contra o mal, seja ele na forma de um apavorante guardião da câmara secreta, na pele do maquiavélico Draco Malfoy (Tom Felton) ou na figura pouco amistosa de Voldemort - além das dúbias ações do professor Severo Snape (Alan Rickman). A primeira metade do filme é dedicada a ilustrar os acontecimentos funestos que ameaçam fechar a escola, e sua segunda parte hipnotiza o espectador com revelações surpreendentes e constrói um clímax dos mais interessantes. Kenneth Branagh - substituindo Hugh Grant, que não pode participar do filme por problemas de agenda - é a melhor e mais acertada aquisição neste segundo capítulo, interpretando um falastrão e vaidoso Gilderoy Lockhart, professor que mostra sua real personalidade quando é chamado a desafiar o mal vindo do tétrico cômodo. É ele quem equilibra o tom entre a comédia (especialidade de Ron) e a tragédia (cortesia de Voldemort em si). O elenco juvenil se mostra mais à vontade nas peles dos protagonistas, e os veteranos do grupo (Harris, Maggie Smith, Julie Walters, Alan Rickman) aproveitam cada minuto em cena para provar que, mesmo em um filme direcionado a uma plateia menos madura, são capazes de roubar a cena - coisa que os efeitos visuais, discretos mas eficientíssimos, ajuda a ressaltar. Tão bom quanto o primeiro capítulo da saga, "Harry Potter e a câmara secreta" é, também, o último da série dirigido por Chris Columbus - um cineasta acostumado com o sucesso e com o diálogo com a audiência mais jovem. Columbus deu o pontapé inicial a um universo que se tornaria, a cada filme, mais e mais escuro e surpreendente.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...