GREMLINS (Gremlins, 1984, Warner Bros, 106min) Direção: Joe Dante. Roteiro: Chris Columbus. Fotografia: John Hora. Montagem: Tina Hirsch. Música: Jerry Goldsmith. Direção de arte/cenários: James H. Spencer/Jackie Carr. Produção executiva: Steven Spielberg, Kathleen Kennedy, Frank Marshall. Produção: Michel Finnell. Elenco: Zach Galligan, Phoebe Cates, Corey Feldman, Hoyt Axon, Frances Lee McCain, Polly Holliday. Estreia: 08/6/84
No verão norte-americano de 1984, os cinemas dos EUA foram dominados por animaizinhos estranhos, de origem misteriosa e que, caso não cumpridas as regras para seu bem-estar, se transformavam - de dóceis e encantadores - em criaturas vorazes, cruéis e debochadas. Eram os gremlins, protagonistas de um dos maiores sucessos de bilheteria da década de 1980. Dirigido por Joe Dante, escrito por Chris Columbus e produzido por Steven Spielberg no auge de sua imaginação criativa, "Gremlins" acabou por se tornar um ícone de sua época, um misto de comédia e horror que pegou todo mundo de surpresa com seu senso de humor macabro. Quarta maior bilheteria de um ano que também apresentou ao público os sucessos "Os Caça-fantamas" e "Indiana Jones e o templo da perdição" (este último dirigido pelo mesmo Spielberg que foi seu produtor executivo), o filme de Dante também atingiu, com o passar do tempo, o status de cult por excelência, um filme amado por diversas gerações e que, a despeito de seu jeitão trash, ainda mantém, mesmo depois de mais de trinta anos de idade, o frescor e a originalidade de sua estreia.
A ideia inicial era de fazer "Gremlins" um filme de horror, mas quando o roteiro de Chris Columbus - ainda sem os dois filmes de "Esqueceram de mim" no currículo - chegou às mãos de Steven Spielberg, o já consagrado cineasta achou que era melhor transformar a trama em uma produção dirigida a um público mais jovem. Depois de algumas importantes alterações - inclusive com a exclusão de cenas mais violentas -, Spielberg encontrou em Joe Dante o diretor ideal para a empreitada: conhecido como um fiel discípulo de Roger Corman e alguém capaz de trabalhar com orçamentos apertados, Dante havia chamado a atenção de Spielberg com "Grito de horror" (1981) e parecia a escolha mais apropria - antes disso, até mesmo Tim Burton, ainda sem nenhum longa na carreira havia chamado a atenção do produtor, sendo deixado de lado justamente por sua inexperiência. Com Dante no barco, junto com o roteiro de Columbus e a supervisão atenta de Spielberg, "Gremlins" começou a tomar forma. Se na fase de testes de elenco nomes como os de Emilio Estevez e Judd Nelson foram recusados para o papel que ficou com Zach Galligan, o processo de filmagens obrigou a decisões criativas que modificaram razoavelmente o script de Columbus. Foi por decisão de Spielberg, por exemplo, a divisão entre o bem e o mal, representada pelo terno Gizmo e seus agressivos filhotes (em especial o líder, Stripe) - o criador de "ET: O extraterrestre" (1982) sabia que o público precisaria se identificar com algum dos bichinhos. E a regra de não expor os personagens-título à luz surgiu de uma prosaica falta de confiança de Dante (e da Amblin Entertainment) nos efeitos especiais da época - algo que o próprio Spielberg havia experimentado na pele, durante as filmagens de "Tubarão" (1975).
Quarta maior bilheteria de 1984, "Gremlins" se passa às vésperas do Natal, quando o jovem Billy (Zach Galligan) ganha, de presente do pai, um encantador e desconhecido animalzinho encontrado em posse de um chinês idoso e hesitante. O bichinho - um mogwai, segundo o experiente oriental - é capaz de conquistar o coração até do mais empedernido ser humano, mas, para manter-se dessa forma, seu dono precisa cuidar de três regras importantíssimas: eles não podem ser expostos à luz, não podem ser molhados e muito menos comer depois da meia-noite. Não é preciso ser especialista em cinema para imaginar que as normas não serão cumpridas e que o doce Gizmo será testemunha da proliferação de seus irmãos anarquistas e cruéis. Em bando e vorazes, os gremlins tomam conta da cidade e caberá a Billy e sua paixonite, Kate (Phoebe Cates), resolver a bagunça generalizada. Mesclando um humor sinistro e momentos de suspense, Joe Dante conduz a plateia a uma montanha-russa constante - e que poderia ter sido ainda maior caso a versão original, de 160 minutos, tivesse sido aprovada pela Warner. O estúdio, aliás, teve certos problemas com os órgãos de censura dos EUA, que consideravam o filme pouco palatável para plateias menores de 13 anos: junto com "Indiana Jones e o templo da perdição", o filme de Joe Dante praticamente obrigou a MPAA (Motion Pictures Association of America) a criar uma nova classificação (PG-13), que permitia a entrada de menores de 13 anos desde que acompanhados dos pais.
Divertido e feito com o simples objetivo de entreter, "Gremlins" deu frutos: não apenas teve uma segunda parte, lançada em 1990 e novamente dirigida por Joe Dante, como aproximou dois cérebros criativos. Encantado com o trabalho de Chris Columbus no roteiro do filme, Steven Spielberg esteve envolvido em dois de seus futuros projetos, "O enigma da pirâmide" (dirigido por Barry Levinson) e "Os Goonies" (comandado por Richard Donner), ambos lançados em 1985. Além disso, "Gremlins" - neologismo criado pelo escritor Roald Dahl em seu "Gremlin Lore" - ficou na mente daqueles que o assistiram em seu lançamento como uma diversão um tanto insana, capaz de tirar sarro de coros de Natal, "Branca de Neve e os sete anões" e o american way of life. No fundo, é uma sessão da tarde para quem não tem paciência para filmes água com açúcar.
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HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA
HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA (Harry Potter and the chamber of secrets, 2002, Warner Bros, 161min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: Steve Kloves, romance de J. K. Rowling. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Peter Honess. Música: John Williams. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, David Barron, Chris Columbus, Mark Radcliffe. Produção: David Heyman. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Richard Harris, Maggie Smith, Kenneth Branagh, Julie Walters, Alan Rickman, Robbie Coltrane, Jason Isaacs, Tom Felton. Estreia: 03/11/02
Quando "Harry Potter e a câmara secreta" estreou, no final de 2002, até mesmo o público que não acompanhava a saga do jovem bruxo em sua encarnação literária já conhecia seu universo mágico: graças à "Harry Potter e a pedra filosofal", o primeiro capítulo de uma coleção que prometia estender-se até um sétimo volume, o mundo inteiro estava tomado por uma febre que não atingia apenas seu público-alvo (o infantojuvenil), mas que havia se espalhado também entre aqueles adultos sem medo de entregar-se à fantasia. Com uma renda mundial de quase 980 milhões de dólares e elogiado pela maioria dos críticos, o filme de Chris Columbus - diretor também de "Esqueceram de mim" (1990) e "Uma babá quase perfeita" (1993) - estabeleceu as regras do jogo, apresentou seus personagens e confirmou o apelo comercial que há muito tempo as editoras já conheciam (e festejavam). Sem mexer em um time já ganhando, a Warner manteve a mesma equipe do primeiro filme para a realização do segundo e, para a surpresa de ninguém, voltou a cativar plateias ao redor do mundo - e mais uma vez chegou perto de um sucesso quase bilionário, com uma bilheteria de 88 milhões de dólares em seu fim-de-semana de estreia.
Mais sombrio do que o primeiro filme - em uma transformação gradual da série, que vai ficando menos ingênua conforme a trama vai caminhando e os protagonistas vão de crianças a adolescentes, "Harry Potter e a câmara secreta" é o filme mais longo da série, a despeito do fato de o livro no qual ele é baseado é o segundo mais curto da saga, e começou a ser filmado apenas três dias após a estreia de "Harry Potter e a pedra filosofal". Tal pressa tinha motivo: não apenas o elenco infantil logo começaria a passar pela puberdade (a tragédia de qualquer produtor) como o ator Richard Harris, que vivia um personagem crucial nos filmes, Alvo Dumbledore - um dos professores mais importantes de Hogwarts e peça fundamental na trajetória do protagonista - estava com a saúde debilitada a ponto de ser quase afastado das filmagens; Harris morreu poucas semanas antes do lançamento do filme, e foi substituído, nas produções seguintes, por Michael Gambon. Com o elenco reforçado pela presença de Jason Isaacs e Kenneth Branagh, "Harry Potter e a câmara secreta" consegue uma façanha e tanto: mantém o alto nível de entretenimento do primeiro filme (se é que não o eleva) e agrada em cheio aos fãs dos livros.
"Harry Potter e a câmara secreta" começa com um tom leve, mas não demora a mergulhar aos poucos em uma tensa jornada: ainda na casa de seus tios, Potter é visitado por um atrapalhado elfo doméstico, Dobby (voz de Tony Jones), que não apenas coloca o bruxinho em péssimos lençóis, graças a suas interferências em outros membros da família. Sua aparição, no entanto, tem motivos bastante sinistros: segundo ele, coisas horríveis estão para acontecer em Hogwarts, e Potter deve evitar voltar à escola. É claro que seus avisos de nada adiantam: Potter retorna para mais um ano letivo, assim como seus melhores amigos, Ron e Hermione, e logo de cara percebe que os conselhos que não seguiu estavam mais do que certos. Vozes vindas das paredes, escritos de sangue com mensagens enigmáticas e alunos sendo petrificados sem motivo aparente levam Harry a uma investigação que revela muito mais do que ele esperava e remete à uma misteriosa câmara secreta, cujo histórico é ligado à presença malévola de Voldemort, que controla (não se sabe como) o lendário quarto da escola.
Assim como em "Harry Potter e a pedra filosofal", o segundo filme dirigido por Columbus ainda mostra seus protagonistas aprendendo a lidar com seus novos dons e lutando contra o mal, seja ele na forma de um apavorante guardião da câmara secreta, na pele do maquiavélico Draco Malfoy (Tom Felton) ou na figura pouco amistosa de Voldemort - além das dúbias ações do professor Severo Snape (Alan Rickman). A primeira metade do filme é dedicada a ilustrar os acontecimentos funestos que ameaçam fechar a escola, e sua segunda parte hipnotiza o espectador com revelações surpreendentes e constrói um clímax dos mais interessantes. Kenneth Branagh - substituindo Hugh Grant, que não pode participar do filme por problemas de agenda - é a melhor e mais acertada aquisição neste segundo capítulo, interpretando um falastrão e vaidoso Gilderoy Lockhart, professor que mostra sua real personalidade quando é chamado a desafiar o mal vindo do tétrico cômodo. É ele quem equilibra o tom entre a comédia (especialidade de Ron) e a tragédia (cortesia de Voldemort em si). O elenco juvenil se mostra mais à vontade nas peles dos protagonistas, e os veteranos do grupo (Harris, Maggie Smith, Julie Walters, Alan Rickman) aproveitam cada minuto em cena para provar que, mesmo em um filme direcionado a uma plateia menos madura, são capazes de roubar a cena - coisa que os efeitos visuais, discretos mas eficientíssimos, ajuda a ressaltar. Tão bom quanto o primeiro capítulo da saga, "Harry Potter e a câmara secreta" é, também, o último da série dirigido por Chris Columbus - um cineasta acostumado com o sucesso e com o diálogo com a audiência mais jovem. Columbus deu o pontapé inicial a um universo que se tornaria, a cada filme, mais e mais escuro e surpreendente.
Quando "Harry Potter e a câmara secreta" estreou, no final de 2002, até mesmo o público que não acompanhava a saga do jovem bruxo em sua encarnação literária já conhecia seu universo mágico: graças à "Harry Potter e a pedra filosofal", o primeiro capítulo de uma coleção que prometia estender-se até um sétimo volume, o mundo inteiro estava tomado por uma febre que não atingia apenas seu público-alvo (o infantojuvenil), mas que havia se espalhado também entre aqueles adultos sem medo de entregar-se à fantasia. Com uma renda mundial de quase 980 milhões de dólares e elogiado pela maioria dos críticos, o filme de Chris Columbus - diretor também de "Esqueceram de mim" (1990) e "Uma babá quase perfeita" (1993) - estabeleceu as regras do jogo, apresentou seus personagens e confirmou o apelo comercial que há muito tempo as editoras já conheciam (e festejavam). Sem mexer em um time já ganhando, a Warner manteve a mesma equipe do primeiro filme para a realização do segundo e, para a surpresa de ninguém, voltou a cativar plateias ao redor do mundo - e mais uma vez chegou perto de um sucesso quase bilionário, com uma bilheteria de 88 milhões de dólares em seu fim-de-semana de estreia.
Mais sombrio do que o primeiro filme - em uma transformação gradual da série, que vai ficando menos ingênua conforme a trama vai caminhando e os protagonistas vão de crianças a adolescentes, "Harry Potter e a câmara secreta" é o filme mais longo da série, a despeito do fato de o livro no qual ele é baseado é o segundo mais curto da saga, e começou a ser filmado apenas três dias após a estreia de "Harry Potter e a pedra filosofal". Tal pressa tinha motivo: não apenas o elenco infantil logo começaria a passar pela puberdade (a tragédia de qualquer produtor) como o ator Richard Harris, que vivia um personagem crucial nos filmes, Alvo Dumbledore - um dos professores mais importantes de Hogwarts e peça fundamental na trajetória do protagonista - estava com a saúde debilitada a ponto de ser quase afastado das filmagens; Harris morreu poucas semanas antes do lançamento do filme, e foi substituído, nas produções seguintes, por Michael Gambon. Com o elenco reforçado pela presença de Jason Isaacs e Kenneth Branagh, "Harry Potter e a câmara secreta" consegue uma façanha e tanto: mantém o alto nível de entretenimento do primeiro filme (se é que não o eleva) e agrada em cheio aos fãs dos livros.
"Harry Potter e a câmara secreta" começa com um tom leve, mas não demora a mergulhar aos poucos em uma tensa jornada: ainda na casa de seus tios, Potter é visitado por um atrapalhado elfo doméstico, Dobby (voz de Tony Jones), que não apenas coloca o bruxinho em péssimos lençóis, graças a suas interferências em outros membros da família. Sua aparição, no entanto, tem motivos bastante sinistros: segundo ele, coisas horríveis estão para acontecer em Hogwarts, e Potter deve evitar voltar à escola. É claro que seus avisos de nada adiantam: Potter retorna para mais um ano letivo, assim como seus melhores amigos, Ron e Hermione, e logo de cara percebe que os conselhos que não seguiu estavam mais do que certos. Vozes vindas das paredes, escritos de sangue com mensagens enigmáticas e alunos sendo petrificados sem motivo aparente levam Harry a uma investigação que revela muito mais do que ele esperava e remete à uma misteriosa câmara secreta, cujo histórico é ligado à presença malévola de Voldemort, que controla (não se sabe como) o lendário quarto da escola.
Assim como em "Harry Potter e a pedra filosofal", o segundo filme dirigido por Columbus ainda mostra seus protagonistas aprendendo a lidar com seus novos dons e lutando contra o mal, seja ele na forma de um apavorante guardião da câmara secreta, na pele do maquiavélico Draco Malfoy (Tom Felton) ou na figura pouco amistosa de Voldemort - além das dúbias ações do professor Severo Snape (Alan Rickman). A primeira metade do filme é dedicada a ilustrar os acontecimentos funestos que ameaçam fechar a escola, e sua segunda parte hipnotiza o espectador com revelações surpreendentes e constrói um clímax dos mais interessantes. Kenneth Branagh - substituindo Hugh Grant, que não pode participar do filme por problemas de agenda - é a melhor e mais acertada aquisição neste segundo capítulo, interpretando um falastrão e vaidoso Gilderoy Lockhart, professor que mostra sua real personalidade quando é chamado a desafiar o mal vindo do tétrico cômodo. É ele quem equilibra o tom entre a comédia (especialidade de Ron) e a tragédia (cortesia de Voldemort em si). O elenco juvenil se mostra mais à vontade nas peles dos protagonistas, e os veteranos do grupo (Harris, Maggie Smith, Julie Walters, Alan Rickman) aproveitam cada minuto em cena para provar que, mesmo em um filme direcionado a uma plateia menos madura, são capazes de roubar a cena - coisa que os efeitos visuais, discretos mas eficientíssimos, ajuda a ressaltar. Tão bom quanto o primeiro capítulo da saga, "Harry Potter e a câmara secreta" é, também, o último da série dirigido por Chris Columbus - um cineasta acostumado com o sucesso e com o diálogo com a audiência mais jovem. Columbus deu o pontapé inicial a um universo que se tornaria, a cada filme, mais e mais escuro e surpreendente.
quarta-feira
HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL
HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (Harry Potter and the sorcere's stone, 2001, Warner Bros, 152min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: Steve Kloves, romance de J. K. Rowling. Fotografia: John Seale. Montagem: Richard Francis-Bruce. Música: John Williams. Figurino: Juddiana Makovsky. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, Chris Columbus, Duncan Henderson, Mark Radcliffe. Produção: David Heyman. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Richard Harris, Maggie Smith, Alan Rickman, Ian Hart, Julie Walters, John Hurt, Robbie Coltrane, Fiona Shaw, Richard Griffiths, Harry Melling. Estreia: 04/11/2001
3 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Não tinha como dar errado: o primeiro volume de um fenômeno editorial que só crescia a cada livro lançado, um cineasta acostumado a lidar com potenciais blockbusters e todo o capricho que um generoso orçamento de cerca de 125 milhões de dólares pode comprar. Além disso, um marketing poderoso, uma pré-produção que enchia de expectativas os fãs mais ardorosos, e um elenco que reunia jovens iniciantes com veteranos acima de qualquer suspeita. "Harry Potter e a pedra filosofal" não era apenas mais um filme, era um evento de enormes proporções e uma aposta certeira da Warner para bater de frente com outro fenômeno literário que também chegava às telas de cinema: o ambicioso "O Senhor dos Anéis". Mesmo com um público-alvo mais jovem do que aquele dos filmes de Peter Jackson que começavam sua trajetória nas salas de exibição, a comparação entre as duas produções não era completamente equivocada: ambos os filmes davam o pontapé inicial em séries que tanto poderiam passar à história como imensos sucessos ou avassaladores fracassos. Para o bem de todos e felicidade geral dos estúdios, porém, os leitores fiéis - e os neófitos curiosos - correram para os cinemas, e os críticos, normalmente bem avessos à superproduções, aplaudiram de pé e ficaram ansiosos pelo próximo capítulo.
A trajetória de "Harry Potter e a pedra filosofal" para passar das páginas escritas pela britânica J. K. Rowling para os cinemas do mundo inteiro já começou com uma batalha campal para que o estúdio chegasse ao nome mais apropriado para sentar na cadeira de diretor. Rowling sugeriu o nome do excêntrico Terry Gilliam - e provavelmente por seu histórico irregular o cineasta foi dispensado pela Warner. A princípio, o estúdio pensava em transformar os livros em um filme de animação - uma providência que evitaria os problemas que poderiam ter com o elenco infantil, que fatalmente cresceriam durante a produção dos (então) sete livros. Steven Spielberg até demonstrou interesse na primeira fase de negociações, mas acabou recusando o trabalho por, segundo boatos de bastidores, considerá-lo "fácil demais" - o que não deixa de ser verdade, haja visto seu vasto currículo de filmes-evento. A saída de Spielberg do projeto o levou novamente à estaca zero, e sua sugestão para a empreitada, M. Night Shyamalan, tampouco teve sucesso nas negociações. Nomes de vários estilos começaram a pipocar na imprensa especializada como sendo de prováveis diretores do primeiro filme - dos mais sérios (Jonathan Demme, Alan Parker, Peter Weir) aos mais apropriados para desenvolver um universo mais divertido e mais próximo à obra literária (Ivan Reitman, Rob Reiner, Brad Silberling). Quem acabou levando a melhor, no entanto, foi um diretor já acostumado com sucessos de bilheteria infantojuvenis: Chris Columbus, o homem por trás de "Esqueceram de mim" (90) e "Uma babá quase perfeita" (92) se apaixonou pelos livros de Rowling através de sua filha, e insistiu tanto com os executivos da Warner que acabou ganhando o trabalho - não apenas para o primeiro filme, mas também para o segundo.
Mas se encontrar um diretor que agradasse à escritora e respeitasse o desejo do estúdio de uma produção comercialmente viável foi difícil, o pior ainda estava por vir: o elenco. Rowling exigia que os atores escolhidos para o filme fossem britânicos, o que logo de cara excluía alguns fãs do livro que sonhavam em fazer parte do espetáculo, como Robin Williams, Rosie O'Donnell. Rowling em pessoa escolheu Alan Rickman (Severo Snape), Maggie Smith (McGonnagal) e Robbie Coltrane (Hagrid) para papéis fundamentais na trama, e o irlandês Richard Harris (única exceção permitida pela escritora) para viver o sábio Albus Dombledore, mas a grande questão no momento era uma só: quem irá interpretar os fiéis amigos do protagonista e, principalmente, quem emprestaria seu rosto a Harry Potter pela próxima década? Chris Columbus tinha uma ideia bastante clara a esse respeito, e sempre que perguntado sobre o assunto pelos executivos da Warner, mostrava cenas de uma adaptação televisiva de Charles Dickens, "David Copperfield" (1999) e apontava para o jovem Daniel Radcliffe como o intérprete ideal. Foram mais de 5000 testes até que finalmente a diretora de elenco do filme conseguiu o que o diretor mais desejava: convencer os pais do rapaz para que aprovassem sua participação no projeto. Para interpretar seus dois leais companheiros foram escolhidos Rupert Grint (Ronnie Weasley) e Emma Watson (Hermione Granger). No papel do rival de Potter na escola Howgrats de bruxaria, o escolhido foi Tom Felton, que havia feito o teste para viver Harry. E o resto é de conhecimento internacional.
Filmado na Inglaterra e na Escócia entre setembro de 2000 e março de 2001, "Harry Potter e a pedra filosofal" acabou se tornando um capítulo de estreia dos mais empolgantes. Somado ao senso de ritmo e humor de Columbus, o roteiro de Steve Kloves acertou em cheio ao introduzir sua trama e seus personagens de maneira fluida e sem pressa: com 152 minutos de duração, o filme mantém o espectador atento dos primeiros (e cômicos) momentos até seu clímax - um jogo de xadrez sinistro onde o mal começa a mostrar a que veio, fato que irá se aprofundar nos demais filmes (e livros), que vão se tornando gradualmente sombrios. A química entre o elenco de novatos e veteranos é impecável e o visual foi lembrado pela Academia com uma indicação aos Oscar de direção de arte e figurino - a trilha sonora, do onipresente John Williams também foi indicada. Aplaudido pela crítica e pelos fãs mais exigentes, "Harry Potter e a pedra filosofal" arrecadou quase 1 bilhão de dólares pelo mundo - foi a maior bilheteria do ano - e abriu as portas para os demais filmes da série, cada vez menos infantil e mais empolgante. Uma produção infanto-juvenil que ultrapassa sua definição mais óbvia e conquista também a plateia mais velha, o filme de Chris Columbus é um entretenimento dos mais bem-sucedidos, e se não foi levado tão a sério quanto seu rival direto - "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" - ao menos se mantém fresco e agradável mesmo depois de quase vinte anos. Um clássico instantâneo!
3 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Não tinha como dar errado: o primeiro volume de um fenômeno editorial que só crescia a cada livro lançado, um cineasta acostumado a lidar com potenciais blockbusters e todo o capricho que um generoso orçamento de cerca de 125 milhões de dólares pode comprar. Além disso, um marketing poderoso, uma pré-produção que enchia de expectativas os fãs mais ardorosos, e um elenco que reunia jovens iniciantes com veteranos acima de qualquer suspeita. "Harry Potter e a pedra filosofal" não era apenas mais um filme, era um evento de enormes proporções e uma aposta certeira da Warner para bater de frente com outro fenômeno literário que também chegava às telas de cinema: o ambicioso "O Senhor dos Anéis". Mesmo com um público-alvo mais jovem do que aquele dos filmes de Peter Jackson que começavam sua trajetória nas salas de exibição, a comparação entre as duas produções não era completamente equivocada: ambos os filmes davam o pontapé inicial em séries que tanto poderiam passar à história como imensos sucessos ou avassaladores fracassos. Para o bem de todos e felicidade geral dos estúdios, porém, os leitores fiéis - e os neófitos curiosos - correram para os cinemas, e os críticos, normalmente bem avessos à superproduções, aplaudiram de pé e ficaram ansiosos pelo próximo capítulo.
A trajetória de "Harry Potter e a pedra filosofal" para passar das páginas escritas pela britânica J. K. Rowling para os cinemas do mundo inteiro já começou com uma batalha campal para que o estúdio chegasse ao nome mais apropriado para sentar na cadeira de diretor. Rowling sugeriu o nome do excêntrico Terry Gilliam - e provavelmente por seu histórico irregular o cineasta foi dispensado pela Warner. A princípio, o estúdio pensava em transformar os livros em um filme de animação - uma providência que evitaria os problemas que poderiam ter com o elenco infantil, que fatalmente cresceriam durante a produção dos (então) sete livros. Steven Spielberg até demonstrou interesse na primeira fase de negociações, mas acabou recusando o trabalho por, segundo boatos de bastidores, considerá-lo "fácil demais" - o que não deixa de ser verdade, haja visto seu vasto currículo de filmes-evento. A saída de Spielberg do projeto o levou novamente à estaca zero, e sua sugestão para a empreitada, M. Night Shyamalan, tampouco teve sucesso nas negociações. Nomes de vários estilos começaram a pipocar na imprensa especializada como sendo de prováveis diretores do primeiro filme - dos mais sérios (Jonathan Demme, Alan Parker, Peter Weir) aos mais apropriados para desenvolver um universo mais divertido e mais próximo à obra literária (Ivan Reitman, Rob Reiner, Brad Silberling). Quem acabou levando a melhor, no entanto, foi um diretor já acostumado com sucessos de bilheteria infantojuvenis: Chris Columbus, o homem por trás de "Esqueceram de mim" (90) e "Uma babá quase perfeita" (92) se apaixonou pelos livros de Rowling através de sua filha, e insistiu tanto com os executivos da Warner que acabou ganhando o trabalho - não apenas para o primeiro filme, mas também para o segundo.
Mas se encontrar um diretor que agradasse à escritora e respeitasse o desejo do estúdio de uma produção comercialmente viável foi difícil, o pior ainda estava por vir: o elenco. Rowling exigia que os atores escolhidos para o filme fossem britânicos, o que logo de cara excluía alguns fãs do livro que sonhavam em fazer parte do espetáculo, como Robin Williams, Rosie O'Donnell. Rowling em pessoa escolheu Alan Rickman (Severo Snape), Maggie Smith (McGonnagal) e Robbie Coltrane (Hagrid) para papéis fundamentais na trama, e o irlandês Richard Harris (única exceção permitida pela escritora) para viver o sábio Albus Dombledore, mas a grande questão no momento era uma só: quem irá interpretar os fiéis amigos do protagonista e, principalmente, quem emprestaria seu rosto a Harry Potter pela próxima década? Chris Columbus tinha uma ideia bastante clara a esse respeito, e sempre que perguntado sobre o assunto pelos executivos da Warner, mostrava cenas de uma adaptação televisiva de Charles Dickens, "David Copperfield" (1999) e apontava para o jovem Daniel Radcliffe como o intérprete ideal. Foram mais de 5000 testes até que finalmente a diretora de elenco do filme conseguiu o que o diretor mais desejava: convencer os pais do rapaz para que aprovassem sua participação no projeto. Para interpretar seus dois leais companheiros foram escolhidos Rupert Grint (Ronnie Weasley) e Emma Watson (Hermione Granger). No papel do rival de Potter na escola Howgrats de bruxaria, o escolhido foi Tom Felton, que havia feito o teste para viver Harry. E o resto é de conhecimento internacional.
Filmado na Inglaterra e na Escócia entre setembro de 2000 e março de 2001, "Harry Potter e a pedra filosofal" acabou se tornando um capítulo de estreia dos mais empolgantes. Somado ao senso de ritmo e humor de Columbus, o roteiro de Steve Kloves acertou em cheio ao introduzir sua trama e seus personagens de maneira fluida e sem pressa: com 152 minutos de duração, o filme mantém o espectador atento dos primeiros (e cômicos) momentos até seu clímax - um jogo de xadrez sinistro onde o mal começa a mostrar a que veio, fato que irá se aprofundar nos demais filmes (e livros), que vão se tornando gradualmente sombrios. A química entre o elenco de novatos e veteranos é impecável e o visual foi lembrado pela Academia com uma indicação aos Oscar de direção de arte e figurino - a trilha sonora, do onipresente John Williams também foi indicada. Aplaudido pela crítica e pelos fãs mais exigentes, "Harry Potter e a pedra filosofal" arrecadou quase 1 bilhão de dólares pelo mundo - foi a maior bilheteria do ano - e abriu as portas para os demais filmes da série, cada vez menos infantil e mais empolgante. Uma produção infanto-juvenil que ultrapassa sua definição mais óbvia e conquista também a plateia mais velha, o filme de Chris Columbus é um entretenimento dos mais bem-sucedidos, e se não foi levado tão a sério quanto seu rival direto - "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" - ao menos se mantém fresco e agradável mesmo depois de quase vinte anos. Um clássico instantâneo!
sábado
UMA BABÁ QUASE PERFEITA
UMA
BABÁ QUASE PERFEITA (Mrs. Doubtfire, 1993, 20th Century Fox, 125min)
Direção: Chris Columbus. Roteiro: Randi Mayem Singer, Leslie Dixon,
romance "Alias Madame Doubtfire", de Anne Fine. Fotografia: Donald
McAlpine. Montagem: Raja Gosnell. Música: Howard Shore. Figurino: Marit
Allen. Direção de arte/cenários: Angelo Graham/Garrett Lewis. Produção
executiva: Matthew Rushton. Produção: Mark Radcliffe, Robin Williams.
Elenco: Robin Williams, Sally Field, Pierce Brosnan, Harvey Fierstein,
Lisa Jakub, Matthew Lawrence, Mara Wilson, Robert Prosky. Estreia:
24/11/93
Vencedor do Oscar de Melhor Maquiagem
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Melhor Ator Comédia/Musical (Robin Williams)
Em 1992, o ator Robin Williams foi do céu ao inferno em termos de bilheteria: enquanto a anti-belicista comédia "Toys, a revolta dos brinquedos", de Barry Levinson não despertou o interesse de ninguém da plateia e saiu de cartaz como se nunca tivesse existido, a animação "Aladim" se tornou um dos maiores sucessos comerciais do ano e lhe rendeu um Golden Globe especial pela dublagem do gênio da lâmpada, uma dos maiores (senão a maior) qualidade da produção. Esse seu talento para a improvisação e para o humor escrachado já havia sido o maior responsável por sua primeira indicação ao Oscar, em 1987, por "Bom dia, Vietnã", do mesmo Levinson, mas parecia ter sumido em seus trabalhos seguintes no cinema, onde explorou (muito bem) seu lado de ator dramático. Indicado outras duas vezes ao Oscar de melhor ator - pelo inesquecível "Sociedade dos poetas mortos" (90) e pelo lúdico "O pescador de ilusões" (91) - Williams devia a seu público uma comédia que lhe devolvesse o status de humorista que havia conquistado nos palcos americanos. Foi então que ele apareceu com "Uma babá quase perfeita", um filme pequeno (25 milhões de dólares de orçamento) que acabou sua carreira nos cinemas americanos com mais de 200 milhões arrecadados e dois Golden Globes na prateleira: melhor comédia e melhor ator em comédia/musical.
Dirigido por Chris Columbus - um especialista em filmes para a família que tinha entre seus êxitos o mastodôntico sucesso "Esqueceram de mim" (90) - "Uma babá quase perfeita" tem como objetivo puro e único o entretenimento, sem ambições outras que não fazer a plateia rir do começo ao fim. Com Williams em cena, isso não é nada difícil. Dotado de um histrionismo nato e um timing cômico impecável, ele deita e rola na pele de Daniel Hillard, um ator desempregado que passa pelo pior período de sua vida: não apenas ele está sem trabalhar no que ama (e é obrigado a um serviço pouco empolgante nos bastidores de uma emissora de TV local) como acaba de se divorciar da esposa, Miranda (Sally Field), uma bem-sucedida arquiteta que cansou-se sua pretensa irresponsabilidade. Inconformado com a determinação judicial que lhe permite ver seus três filhos apenas uma vez por semana, Daniel tem uma ideia maquiavélica: sabendo que Miranda está à procura de uma governanta que fique com as crianças no período pós-escola, ele cria, com a ajuda de seu irmão maquiador e seu talento para a atuação, a babá perfeita: Mrs. Doubtfire, uma inglesa sessentona, de modos rígidos e dona de um currículo invejável. Obviamente Miranda cai de amores pela nova empregada - e Daniel aproveita a situação para colocar areia no novo interesse romântico da ex-mulher, o antigo namorado Stuart (Pierce Brosnan).
Desvencilhando-se facilmente do estigma de ser um filme de uma piada só, "Uma babá quase perfeita" consegue, ao mesmo tempo, ser uma comédia pastelão da melhor estirpe - com Williams vendo seus seios de mentira pegando fogo, sua máscara voando pela janela e sua dentadura caindo dentro de um copo de vinho no meio de um jantar - e um sofisticado manancial de citações culturais contemporâneas vindas da metralhadora giratória que é o ator - são lembrados, visual ou verbalmente, Barbra Streisand, "Psicose", "Crepúsculo dos deuses" e "Dança com lobos", entre outros. Essa mescla de humor popular com a sutileza da comédia referencial talvez tenha sido, ao lado do talento de seu protagonista, o responsável pelo filme ter agradado tanto e à tanta gente. É difícil escapar das risadas em "Uma babá quase perfeita", seja das palhaçadas visuais criadas por Columbus e Williams ou pelo crescendo de situações embaraçosas que o roteiro vai criando crescentemente até o clímax - engraçadíssimo - em um restaurante sofisticado, onde Daniel (e Mrs. Doubtfire) estão presentes ao mesmo tempo. Só vendo para entender.
Contando ainda com a simpatia natural de Sally Field como Miranda Hillard e o futuro 007 Pierce Brosnan como o rival do protagonista - além de uma maquiagem extraordinária que levou o Oscar da categoria - "Uma babá quase perfeita" ainda arruma espaço para a emoção: dificilmente filhos de pais separados conseguem segurar as lágrimas em seus momentos finais, repletos de uma sinceridade ímpar que conquistaram milhares de espectadores pelo mundo. Uma feliz reunião de ingenuidade, bom humor e o talento único de Robin Williams em fazer rir e chorar, é um filme sem contra-indicações, capaz de agradar aos pais, aos filhos e aos mau-humorados de plantão. Um triunfo do humor.
Vencedor do Oscar de Melhor Maquiagem
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Melhor Ator Comédia/Musical (Robin Williams)
Em 1992, o ator Robin Williams foi do céu ao inferno em termos de bilheteria: enquanto a anti-belicista comédia "Toys, a revolta dos brinquedos", de Barry Levinson não despertou o interesse de ninguém da plateia e saiu de cartaz como se nunca tivesse existido, a animação "Aladim" se tornou um dos maiores sucessos comerciais do ano e lhe rendeu um Golden Globe especial pela dublagem do gênio da lâmpada, uma dos maiores (senão a maior) qualidade da produção. Esse seu talento para a improvisação e para o humor escrachado já havia sido o maior responsável por sua primeira indicação ao Oscar, em 1987, por "Bom dia, Vietnã", do mesmo Levinson, mas parecia ter sumido em seus trabalhos seguintes no cinema, onde explorou (muito bem) seu lado de ator dramático. Indicado outras duas vezes ao Oscar de melhor ator - pelo inesquecível "Sociedade dos poetas mortos" (90) e pelo lúdico "O pescador de ilusões" (91) - Williams devia a seu público uma comédia que lhe devolvesse o status de humorista que havia conquistado nos palcos americanos. Foi então que ele apareceu com "Uma babá quase perfeita", um filme pequeno (25 milhões de dólares de orçamento) que acabou sua carreira nos cinemas americanos com mais de 200 milhões arrecadados e dois Golden Globes na prateleira: melhor comédia e melhor ator em comédia/musical.
Dirigido por Chris Columbus - um especialista em filmes para a família que tinha entre seus êxitos o mastodôntico sucesso "Esqueceram de mim" (90) - "Uma babá quase perfeita" tem como objetivo puro e único o entretenimento, sem ambições outras que não fazer a plateia rir do começo ao fim. Com Williams em cena, isso não é nada difícil. Dotado de um histrionismo nato e um timing cômico impecável, ele deita e rola na pele de Daniel Hillard, um ator desempregado que passa pelo pior período de sua vida: não apenas ele está sem trabalhar no que ama (e é obrigado a um serviço pouco empolgante nos bastidores de uma emissora de TV local) como acaba de se divorciar da esposa, Miranda (Sally Field), uma bem-sucedida arquiteta que cansou-se sua pretensa irresponsabilidade. Inconformado com a determinação judicial que lhe permite ver seus três filhos apenas uma vez por semana, Daniel tem uma ideia maquiavélica: sabendo que Miranda está à procura de uma governanta que fique com as crianças no período pós-escola, ele cria, com a ajuda de seu irmão maquiador e seu talento para a atuação, a babá perfeita: Mrs. Doubtfire, uma inglesa sessentona, de modos rígidos e dona de um currículo invejável. Obviamente Miranda cai de amores pela nova empregada - e Daniel aproveita a situação para colocar areia no novo interesse romântico da ex-mulher, o antigo namorado Stuart (Pierce Brosnan).
Desvencilhando-se facilmente do estigma de ser um filme de uma piada só, "Uma babá quase perfeita" consegue, ao mesmo tempo, ser uma comédia pastelão da melhor estirpe - com Williams vendo seus seios de mentira pegando fogo, sua máscara voando pela janela e sua dentadura caindo dentro de um copo de vinho no meio de um jantar - e um sofisticado manancial de citações culturais contemporâneas vindas da metralhadora giratória que é o ator - são lembrados, visual ou verbalmente, Barbra Streisand, "Psicose", "Crepúsculo dos deuses" e "Dança com lobos", entre outros. Essa mescla de humor popular com a sutileza da comédia referencial talvez tenha sido, ao lado do talento de seu protagonista, o responsável pelo filme ter agradado tanto e à tanta gente. É difícil escapar das risadas em "Uma babá quase perfeita", seja das palhaçadas visuais criadas por Columbus e Williams ou pelo crescendo de situações embaraçosas que o roteiro vai criando crescentemente até o clímax - engraçadíssimo - em um restaurante sofisticado, onde Daniel (e Mrs. Doubtfire) estão presentes ao mesmo tempo. Só vendo para entender.
Contando ainda com a simpatia natural de Sally Field como Miranda Hillard e o futuro 007 Pierce Brosnan como o rival do protagonista - além de uma maquiagem extraordinária que levou o Oscar da categoria - "Uma babá quase perfeita" ainda arruma espaço para a emoção: dificilmente filhos de pais separados conseguem segurar as lágrimas em seus momentos finais, repletos de uma sinceridade ímpar que conquistaram milhares de espectadores pelo mundo. Uma feliz reunião de ingenuidade, bom humor e o talento único de Robin Williams em fazer rir e chorar, é um filme sem contra-indicações, capaz de agradar aos pais, aos filhos e aos mau-humorados de plantão. Um triunfo do humor.
domingo
UMA NOITE DE AVENTURAS
UMA NOITE DE AVENTURAS (Adventures in babysitting, 1987,
Touchstone Pictures, 102min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: David
Simkins. Fotografia: Ric Waite. Montagem: Fredric Steinkamp, William
Steinkamp. Música: Michael Kamen. Figurino: Judith R. Gellman. Direção
de arte/cenários: Todd Hallowell/Dan May. Produção: Debra Hill, Lynda
Obst. Elenco: Elisabeth Shue, George Newbern, Keith Coogan, Maia
Brewton, Anthony Rapp, Vincent D'Onofrio, Penelope Ann Miller, Bradley
Whitford. Estreia: 01/7/87
Antes de surpreender público e crítica com sua madura e sofrida interpretação da prostituta Sera em "Despedida em Las Vegas" - que a indicou ao Oscar de melhor atriz e confirmou-a como uma das grandes promessas de sua geração - a bela Elisabeth Shue passou pela prova de fogo de uma iniciante: foi o interesse romântico do protagonista, tanto de filmes bobos, como "Cocktail" (88), com Tom Cruise, como o de produções de sucesso como as duas últimas partes da série "De volta para o futuro". Antes disso, porém, ela já demonstrava talento e segurança em níveis suficientes para segurar um papel principal, como mostra a divertida comédia "Uma noite de aventuras", uma odisseia urbana juvenil dirigida por Chris Columbus - protegido de Steven Spielberg que havia feito sucesso com "Os goonies" (85) e se consagraria posteriormente como diretor de filmes cultuados, como "Esqueceram de mim" (90), "Uma babá quase perfeita" (92) e os dois primeiros capítulos da cinessérie "Harry Potter". Encarando um papel que teve, entre suas possíveis intérpretes Sharon Stone (ainda uma ilustre desconhecida), Michelle Pfeiffer (que preferiu dividir a cena com Jack Nicholson em "As bruxas de Eastwick"), Brooke Shields, Andie MacDowell e até mesmo Jodie Foster, Shue dá um banho de carisma e timing cômico, em papel que explora todas as suas qualidades de atriz então dando os primeiros passos da carreira.
Na verdade, o projeto de "Uma noite de aventuras" não era nada novo quando chegou às telas, no segundo semestre de 1987. Iniciado nos anos 60 e abandonado na década seguinte, ele teria, em seus primeiros dias de desenvolvimento, a protagonização de Jane Fonda, que foi substituída por sua sobrinha Bridget, quando uma nova possibilidade de realização surgiu no horizonte, já nos anos 80. A jovem Fonda preferiu recusar a oferta de estrelar o filme - e testes acabaram escolhendo Shue, cujo maior sucesso do currículo era "Karatê Kid, a hora da verdade" (84), onde ela fazia, é claro, a namoradinha do herói, vivido por Ralph Macchio. Na obra de Columbus, porém, é seu nome que encabeça os créditos e se o filme funciona é porque é fácil identificar-se e gostar de sua personagem, uma jovem comum que se vê envolvida em uma série de eventos bizarros e até assustadores em uma noite que tinha tudo para ser tranquila. É evidente, porém, que em se tratando de um filme dirigido por Columbus e lançado pela Touchstone Pictures (subsidiária adulta da Disney), até mesmo o que é bizarro e assustador é tratado com leveza e bom humor.
Chris Parker, a personagem de Shue, é uma jovem que, depois de ter o encontro com seu namorado cancelado, aceita o trabalho de servir de babysitter à esperta Sara (Maia Brewton), filha caçula de uma família de amigos. Quem fica feliz com a notícia é Brad (Keith Coogan), o adolescente em fase de ebulição que é apaixonado por Chris e tenta aparentar maturidade para conquistá-la. A noite, que começa pacificamente, logo dá sinais de que será um tanto conturbada quando Brenda (Penelope Ann Miller), amiga de Chris, telefona para ela da rodoviária, depois de fugir de casa. Para ajudar a amiga, Chris embarca em seu carro antigo acompanhada não só de Brad e Sara, mas também do melhor amigo do rapaz, Daryl (Anthony Rapp), que acaba de descobrir que a coelhinha do mês da Playboy é idêntica à babá de seu amigo. No caminho para a rodoviária, Chris e companhia irão entrar em uma aventura que inclui violentos ladrões de carros, um motorista de guincho que tem um gancho no lugar da mão - e uma esposa adúltera, um grupo de cantores de blues (na sequência mais inspirada do filme) e um mecânico que, segundo a criativa Sara, é o poderoso Thor em pessoa (Vincent D'Onofrio em começo de carreira).
Dotado de um ritmo ágil e inteligente, que nunca deixa o interesse da audiência diminuir, "Uma noite de aventuras" é a típica comédia juvenil que honra o gênero, entretendo sem apelar para a grosseria ou a vulgaridade. Todas as piadas do filme - e elas funcionam divinamente - são bem estruturadas, de acordo com um roteiro que vai equilibrando tanto as desventuras da babá Chris quanto de sua amiga Brenda, além de dar espaço também para os coadjuvantes infantis, que não desperdiçam nenhuma oportunidade para dar sua colaboração a uma história que não perde o pique nem mesmo quando ameaça resvalar para o romantismo à moda John Hughes. Cativante desde sua primeira sequência - Elisabeth Shue dublando "And then he kissed me", da banda The Crystals - até seus créditos finais, "Uma noite de aventuras" é um programa perfeito para uma tarde chuvosa, na companhia de brigadeiro e coca-cola.
Antes de surpreender público e crítica com sua madura e sofrida interpretação da prostituta Sera em "Despedida em Las Vegas" - que a indicou ao Oscar de melhor atriz e confirmou-a como uma das grandes promessas de sua geração - a bela Elisabeth Shue passou pela prova de fogo de uma iniciante: foi o interesse romântico do protagonista, tanto de filmes bobos, como "Cocktail" (88), com Tom Cruise, como o de produções de sucesso como as duas últimas partes da série "De volta para o futuro". Antes disso, porém, ela já demonstrava talento e segurança em níveis suficientes para segurar um papel principal, como mostra a divertida comédia "Uma noite de aventuras", uma odisseia urbana juvenil dirigida por Chris Columbus - protegido de Steven Spielberg que havia feito sucesso com "Os goonies" (85) e se consagraria posteriormente como diretor de filmes cultuados, como "Esqueceram de mim" (90), "Uma babá quase perfeita" (92) e os dois primeiros capítulos da cinessérie "Harry Potter". Encarando um papel que teve, entre suas possíveis intérpretes Sharon Stone (ainda uma ilustre desconhecida), Michelle Pfeiffer (que preferiu dividir a cena com Jack Nicholson em "As bruxas de Eastwick"), Brooke Shields, Andie MacDowell e até mesmo Jodie Foster, Shue dá um banho de carisma e timing cômico, em papel que explora todas as suas qualidades de atriz então dando os primeiros passos da carreira.
Na verdade, o projeto de "Uma noite de aventuras" não era nada novo quando chegou às telas, no segundo semestre de 1987. Iniciado nos anos 60 e abandonado na década seguinte, ele teria, em seus primeiros dias de desenvolvimento, a protagonização de Jane Fonda, que foi substituída por sua sobrinha Bridget, quando uma nova possibilidade de realização surgiu no horizonte, já nos anos 80. A jovem Fonda preferiu recusar a oferta de estrelar o filme - e testes acabaram escolhendo Shue, cujo maior sucesso do currículo era "Karatê Kid, a hora da verdade" (84), onde ela fazia, é claro, a namoradinha do herói, vivido por Ralph Macchio. Na obra de Columbus, porém, é seu nome que encabeça os créditos e se o filme funciona é porque é fácil identificar-se e gostar de sua personagem, uma jovem comum que se vê envolvida em uma série de eventos bizarros e até assustadores em uma noite que tinha tudo para ser tranquila. É evidente, porém, que em se tratando de um filme dirigido por Columbus e lançado pela Touchstone Pictures (subsidiária adulta da Disney), até mesmo o que é bizarro e assustador é tratado com leveza e bom humor.
Chris Parker, a personagem de Shue, é uma jovem que, depois de ter o encontro com seu namorado cancelado, aceita o trabalho de servir de babysitter à esperta Sara (Maia Brewton), filha caçula de uma família de amigos. Quem fica feliz com a notícia é Brad (Keith Coogan), o adolescente em fase de ebulição que é apaixonado por Chris e tenta aparentar maturidade para conquistá-la. A noite, que começa pacificamente, logo dá sinais de que será um tanto conturbada quando Brenda (Penelope Ann Miller), amiga de Chris, telefona para ela da rodoviária, depois de fugir de casa. Para ajudar a amiga, Chris embarca em seu carro antigo acompanhada não só de Brad e Sara, mas também do melhor amigo do rapaz, Daryl (Anthony Rapp), que acaba de descobrir que a coelhinha do mês da Playboy é idêntica à babá de seu amigo. No caminho para a rodoviária, Chris e companhia irão entrar em uma aventura que inclui violentos ladrões de carros, um motorista de guincho que tem um gancho no lugar da mão - e uma esposa adúltera, um grupo de cantores de blues (na sequência mais inspirada do filme) e um mecânico que, segundo a criativa Sara, é o poderoso Thor em pessoa (Vincent D'Onofrio em começo de carreira).
Dotado de um ritmo ágil e inteligente, que nunca deixa o interesse da audiência diminuir, "Uma noite de aventuras" é a típica comédia juvenil que honra o gênero, entretendo sem apelar para a grosseria ou a vulgaridade. Todas as piadas do filme - e elas funcionam divinamente - são bem estruturadas, de acordo com um roteiro que vai equilibrando tanto as desventuras da babá Chris quanto de sua amiga Brenda, além de dar espaço também para os coadjuvantes infantis, que não desperdiçam nenhuma oportunidade para dar sua colaboração a uma história que não perde o pique nem mesmo quando ameaça resvalar para o romantismo à moda John Hughes. Cativante desde sua primeira sequência - Elisabeth Shue dublando "And then he kissed me", da banda The Crystals - até seus créditos finais, "Uma noite de aventuras" é um programa perfeito para uma tarde chuvosa, na companhia de brigadeiro e coca-cola.
segunda-feira
LADO A LADO
De um lado uma das maiores estrelas de Hollywood. De outro, uma atriz de prestígio, vencedora do Oscar. Entre elas, um ator respeitado por seu talento e sua personalidade. Comandando a todos, um cineasta experiente em dialogar de forma direta com seu público, sem firulas e maneirismos. Não tinha como dar errado. E não deu. "Lado a lado", dirigido pelo mesmo Chris Columbus do megasucesso "Esqueceram de mim", reuniu Julia Roberts, Susan Sarandon e Ed Harris em um drama familiar que, apesar de contar com uma doença terminal entre suas tramas, jamais escorrega para o sentimentalismo barato. Pode até ser acusado de ser superficial (e de certo modo o é), mas sua opção em não buscar a lágrima exagerada do público mostrou-se acertada, o que sua bilheteria de quase 160 milhões de dólares apenas comprovou em números.
A trama é simples: a bem-sucedida fotógrafa de moda Isabel Kelly (Julia Roberts, linda) vive um relacionamento estável e caloroso com Luke Harrison (Ed Harris), um homem mais velho mas apaixonado e dedicado. A relação tranquila entre os dois só é atrapalhada pela resistência dos dois filhos de seu primeiro casamento, a pré-adolescente Anna (Jena Malone) e o pequeno Ben (Liam Aiken), que tem verdadeira adoração pela mãe, Jackie (Susan Sarandon). Uma mulher que abandonou a carreira de editora para dedicar-se ao casamento e à família, Jackie não aceita o novo romance do ex-marido com Isabel e incentiva os filhos a sabotarem todas as tentativas da jovem de aproximar-se deles. A relação conflituosa entre todos sofre uma reviravolta quando Jackie descobre sofrer de um câncer intratável. A partir daí, ela começa a trabalhar uma forma de fazer com que seus filhos não apenas aceitem a nova mulher de seu pai, mas que também a respeitem como uma nova mãe.

O roteiro de "Lado a lado" é bastante leve, apesar de ter uma segunda metade que poderia facilmente descambar para o dramalhão. Columbus não exagera na sacarina, sempre cuidando em tratar com delicadeza até mesmo as cenas mais emocionantes, defendidas com garra por suas duas atrizes centrais, também produtoras executivas do filme. São elas, do alto de seu carisma, que sustentam as pequenas falhas do roteiro, um tanto superficial mas adequado a suas pretensões comerciais. Logicamente não era do interesse do estúdio mostrar Sarandon definhando em cena - o que afugentaria a audiência - e, levando-se isso em consideração, o resultado final cumpre o que promete: é ágil, comovente e por vezes até caloroso. O fato de ser plasticamente asséptico - as casas são lindas, a doença é apenas mencionada e nunca mostrada em todas as suas proporções, não há ninguém que não seja lindo ou carismático - atrapalha um pouco em fazê-lo ser levado a sério, mas mais uma vez surge a pergunta: o público-alvo tem esse tipo de preocupação estética?
"Lado a lado" é um filme estritamente comercial e dentro dessa restrição é um produto de grande qualidade. Fotografado luminosamente, com uma trilha sonora moderna e vibrante e um elenco irretocável (onde destaca-se também a pequena grande atriz Jena Malone), é um filme feito para emocionar. E, mesmo que poupe a audiência de um vale de lágrimas (como "Laços de ternura", por exemplo), atinge seus objetivos com extrema eficácia.
quinta-feira
OS GOONIES
OS GOONIES (The goonies, 1985, Warner Bros, 114min) Direção: Richard Donner. Roteiro: Chris Columbus, história de Steven Spielberg. Fotografia: Nick McLean. Montagem: Michael Kahn. Música: Dave Grusin. Figurino: Richard LaMotte. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Linda DeScenna. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Judy Taylor. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Produção: Harvey Bernhard, Richard Donner. Elenco: Sean Astin, Josh Brolin, Jeff Cohen, Corey Feldman, Kerri Green, Martha Plimpton, Ke Huy Quan, John Matuszak, Robert Davi, Joe Pantoliano, Anne Ramsey. Estreia: 07/6/85
Uma das maiores alegrias que o cinema pode proporcionar a uma pessoa é a possibilidade de uma viagem no tempo. Às vezes literalmente, em outras em espírito. E é justamente isso que faz esse “Os Goonies”, uma das mais divertidas brincadeiras criadas pelo mago Steven Spielberg, aqui atuando como autor da história desenvolvida pelo diretor Chris Columbus. Utilizando de sua nostalgia explícita, aqui o criador de ET dá vazão a suas memórias dos filmes de piratas, gênero praticamente inexistente no imaginário popular desde a morte de Errol Flynn - mas que ganhou novo fôlego com a série "Piratas do Caribe", quase vinte anos depois.
Os Goonies do título são um grupo de pré-adolescentes cujas famílias estão às vésperas de ser obrigadas a abandonar seus lares, despejados por tubarões da especulação imobiliária. Tristes e entedidados, eles acabam descobrindo um mapa segundo o qual encontrarão o tesouro de um pirata chamado Willy Caolho. Liderados pelo asmático Mickey (Sean Astin) e por seu irmão mais velho, Brand (Josh Brolin), eles fogem de casa e partem em busca da fortuna que os ajudaria a permanecer em suas casas. Além de armadilhas criadas por Willy, no entanto, eles terão que encarar os Frattelli, uma família de criminosos formada pela despótica Mama (Anne Ramsey) e por dois atrapalhados assaltantes (vividos por Joe Pantoliano e Robert Davi antecipando em alguns anos as piadas visuais que Columbus refinaria em "Esqueceram de mim").

A esperteza do roteiro de Columbus foi a de pôr em cena personagens que agradam em cheio seu público-alvo. Além da delicadeza de Mickey e do ar sedutor de Brand, estão em cena todos os tipos necessários: há o inventor Data (Ke Huy Quan, de “Indiana Jones e o templo da perdição”), o engraçadinho Mouth (Corey Feldman), as donzelas em perigo Andy (Kerri Green) e Stef (Martha Plimpton) e o assustado Chunk (Jeff Cohen, dono das cenas mais engraçadas), que faz amizade com aquele que acaba se tornando o personagem mais carismático e marcante do filme, o deformado Sloth, rejeitado pela família Frattelli devido a sua aparência, mas que se revela uma alma carinhosa e meiga, bem ao gosto do produtor Spielberg.
Dono de um ritmo alucinante, boas piadas e uma trilha sonora irresistível que conta inclusive com uma canção original de Cindy Lauper, “Os Goonies” é um programa para deixar o lado crítico descansando e encarar uma hora e meia de cinema escapista como pouco se faz hoje em dia. Bons tempos que cinema para a pré-adolescência não apelava para vampiros melancólicos...
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