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sexta-feira

UMA NOITE FORA DE SÉRIE

 


UMA NOITE FORA DE SÉRIE (Date night, 2010, 20th Century Fox, 88min) Direção: Shawn Levy. Roteiro: Josh Klausner.  Fotografia: Dean Semler. Montagem: Dean Zimmerman. Música: Christophe Beck. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: David Gropman/Jay Hart. Produção executiva: Joe Caraciollo Jr., Josh McLaglen. Produção: Shawn Levy. Elenco: Steve Carell, Tina Fey, Mark Wahlberg, Taraji P. Henson, Mark Ruffalo, Kristen Wiig, Common, James Franco, Mila Kunis, Jimmi Simpson. Estreia: 06/4/2010

A grosso modo, comédias produzidas por Hollywood se dividem entre bobagens calcadas em piadas grosseiras e ofensivas - como os filmes dos irmãos Farrelly - ou um humor sofisticado e frequentemente esnobados por plateias pouco afeita a raciocinar antes de rir - caso do cinema de Woody Allen, por exemplo. Raramente o público adulto tem a possibilidade de divertir-se sem ser tratado como mentalmente incapaz ou alguém necessitado de um vasto repertório cultural. Por isso, filmes como "Uma noite fora de série" surgem e, sem fazer muito alarde, conquistam o espectador. Com uma bilheteria internacional de mais de 150 milhões de dólares - que cobriu com folga seu orçamento -, o filme dirigido pelo experiente Shawn Levy (que já tinha no currículo o bem-sucedido "Uma noite no museu", de 2006, e sua continuação, de 2009) demonstrou-se o veículo perfeito para o encontro de dois dos mais populares nomes da comédia norte-americana da primeira década dos anos 2000, Steve Carell e Tina Fey. Carismáticos, donos de um timing perfeito para o humor e com uma química invejável, eles compensam as eventuais falhas de ritmo e enfatizam cada bom momento do roteiro - bobo, mas adequado a suas principais qualidades.

Carell - cuja trajetória no cinema já apresentava êxitos comerciais como "O virgem de 40 anos" (2005) e sucessos de crítica, como o oscarizado "Pequena Miss Sunshine" (2006) - é excepcional em papéis que exploram sua fisionomia apatetada e seu talento para o humor físico. Fey - roteirista celebrada de programas como "Saturday Night Live" e filmes como "Meninas malvadas" (2004), mas até então subaproveitada no cinema - é dona de uma rara perspicácia cômica, sempre pronta para uma tirada inteligente e sarcástica. Juntos, os dois deitam e rolam em uma história que explora cada um de seus talentos. Eles vivem Phil e Claire Foster, um típico casal de classe média americana cujas maiores preocupações são o trabalho, o lar e os filhos. Com profissões não exatamente glamorosas - ele vende seguros e ela é corretora de imóveis - e uma rotina entediante, eles tem medo de ver seu casamento sucumbir à rotina, e resolvem, em uma noite que prometia apenas um respiro em seu dia-a-dia, buscar algo excitante e divertido. Com um ousadia inesperada, eles mentem os nomes para ficarem com uma reserva em um restaurante da moda em Nova York e acabam sendo confundidos com um casal que está na mira de um misterioso criminoso chamado Joe Miletto. Os capangas de Miletto, acreditando que eles estão de posse de um pen drive com informações perigosas, saem em seu encalço, e resta aos dois uma desenfreada corrida pela noite - que envolve gente influente, o verdadeiro casal de quem roubaram o nome e até um antigo (e tentador) cliente de Claire.

 

Sem apresentar maiores novidades em seu roteiro - na verdade um palco para os talentos de seus protagonistas -, "Uma noite fora de série" acerta em cheio ao assumir os clichês do gênero e brincar com eles sem o menor pudor. Com diálogos espertos e situações absurdas que vão se acumulando de forma rocambolesca, a trama serve quase como apenas um pretexto para Carell e Fey desfilarem sua desenvoltura e talento em fazer rir em qualquer circunstância. Seja fugindo do cruel vilão (interpretado com gosto por Ray Liotta) ou encurralando o casal responsável por seus infortúnios (vividos por James Franco e Mila Kunis em participações especiais), a dupla é responsável por 90% da diversão - e tiram de letra o desafio de segurar noventa minutos de uma produção que equilibra com destreza humor físico e piadas verbais que lhes servem como uma luva. Mesmo que o elenco apresente coadjuvantes de luxo do porte de Mark Ruffalo, Taraji P. Henson e Mark Whalberg, são eles que dão o tom do espetáculo - e o fazem com maestria, comprovando seus cacifes como astros - alguns anos depois, Carell investiria também em sua carreira como ator dramático e seria indicado ao Oscar por "Foxcatcher: a história que chocou o mundo" (2014), enquanto Tina Fey se tornaria roteirista de séries e especiais de TV que lhe dariam espaço para a ironia e o sarcasmo que lhe são característicos.

Uma prova de que o humor não precisa abdicar de inteligência para atingir o grande público, "Uma noite fora de série" é um meio-termo entre o que se espera de uma comédia tipicamente hollywoodiana e um programa de televisão iconoclasta e debochado. Agrada justamente por não tentar revolucionar o gênero e respeitar as regras do jogo, ao mesmo tempo em que não se deixa nivelar por um humor apelativo e adolescente. Pode não ter mudado a história do cinema - e talvez até seja um tanto esquecível -, mas é um passatempo honesto, bem-humorado e inofensivo.

quinta-feira

TOTALMENTE SELVAGEM

TOTALMENTE SELVAGEM (Something wild, 1986, Orion Pictures, 113min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: E. Max Frye. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Craig McKay. Música: Laurie Anderson, John Cale. Figurino: Norma Moriceau. Direção de arte/cenários: Norma Moriceau/Billy Reynolds. Produção executiva: Edward Saxon. Produção: Jonathan Demme, Kenneth Utt. Elenco: Jeff Daniels, Melanie Griffith, Ray Liotta, Margaret Colin. Estreia: 07/11/86

Menos de uma semana. Em uma indústria onde roteiros podem passar anos (e até décadas) no limbo, à espera de uma chance de chegar às telas, esse foi o tempo que levou para que um estudante de Cinema chamado E. Max Frye visse a amalucada história que havia escrito receber o sinal verde da Orion Pictures. Mais admirável ainda, o cineasta Jonathan Demme - já conhecido pelo oscarizado "Melvin e Howard" (1980) - não demorou mais do 24 horas para comprometer-se com o projeto, que por pouco não contou com Kevin Kline (então já conhecido por filmes como "A escolha de Sofia" e "O reencontro") no papel principal. Uma mistura de comédia romântica, road movie e filme de suspense, "Totalmente selvagem" caiu como uma luva no estilo quase anárquico de Demme, deu espaço a uma iniciante Melanie Griffith (revelada por Brian DePalma em "Dublé de corpo", de 1984) e conquistou a crítica arrebatando três indicações ao Golden Globe: ator e atriz em comédia/musical (para Jeff Daniels e Melanie) e ator coadjuvante (para Ray Liotta). Irreverente, inovador e irresistível, também direcionou o cineasta para um maior reconhecimento do grande público - o que acabaria por levá-lo a "De caso com a máfia" (1988) e ao enorme sucesso de "O silêncio dos inocentes" (1991).

O filme começa com uma canção original de David Byrne e logo leva o espectador a um café, onde é apresentado a Charles Driggs (Jeff Daniels), um executivo certinho cujas maior contravenção é sair sem pagar por suas refeições. Durante uma dessas travessuras, ele é surpreendido por Lulu (Melanie Griffith, de peruca chanel preta que remete à outra Lulu das telas, a Louise Brooks de "A caixa de Pandora", dirigido por G. W. Pabst em 1929). Sensual, bem-humorada e de espírito livre, Lulu oferece carona ao novo amigo - e ele logo se descobre sequestrado pela desconhecida, que o leva para um motel, o acorrenta à cama e o faz descobrir o prazer da irresponsabilidade. Avisando ao chefe que irá faltar ao trabalho, Charles aceita viajar com Lulu para sua cidade natal e ser apresentado à sua mãe como seu marido. Cada vez mais surpreso e encantado pela garota, Charles a acompanha à festa de reunião dos colegas de escola - e é lá que a aventura toma rumos inesperados, quando o ex-presidiário Ray (Ray Liotta), que acaba de sair da prisão, deixa bem claro que quer reconstruir o casamento a qualquer custo.


Subvertendo completamente o tom leve e descompromissado de seus dois primeiros terços - que lembram a premissa inicial do ótimo "Depois de horas" (1984), dirigido por Martin Scorsese e estrelado por Griffin Dunne e Rosana Arquette - a reta final de "Totalmente selvagem" conduz o público por um caminho violento e imprevisível, que oferece a Ray Liotta a chance de criar um vilão memorável - e que lhe rendeu o prêmio de melhor ator coadjuvante do ano pelos críticos de Boston. Seu Ray Sinclair (a princípio amigável e posteriormente um pesadelo em forma de ex-marido) é o ponto de virada no roteiro, revelando ao espectador (e aos demais personagens) verdades até então disfarçadas ou escondidas e empurrando o filme em direção a um perigoso abismo. Com uma segurança ímpar, Jonathan Demme não deixa o ritmo ou a coerência saírem dos trilhos, e substitui a trilha sonora vibrante do começo da narrativa por uma escolha acertada de ritmos mais sombrios, conforme a aventura de Charles e Lulu - já loura, frágil e traumatizada - em uma viagem de montanha-russa, repleta de momentos divertidos e situações arriscadas.

O elenco, além da revelação de Liotta - antes mesmo de seu melhor desempenho, como protagonista de "Os bons companheiros" (1990) -, cumpre com louvor a missão de entreter o público e dar veracidade à armadilhas criadas pelo roteiro. Melanie Griffith está talvez em seu melhor momento na carreira (melhor até do que em sua atuação indicada ao Oscar, por "Uma secretária de futuro", de 1988), convencendo tanto como a despudorada Lulu quanto sua personalidade mais submissa e doce, Audrey. Jeff Daniels, recém saído do sucesso de "A Rosa Púrpura do Cairo" (1985), de Woody Allen, aproveita com unhas e dentes a chance de mostrar seu timing cômico, seu lado galã sexy e seus dotes como herói - e apresenta uma química e tanto com Melanie. Como bônus, Jonathan Demme ainda dá pequenos papéis para cineastas independentes e cultuados, como John Waters e John Sayles, além de uma cena com a banda The Feelies, que anima a festa de reencontro dos amigos de Lulu/Audrey. Uma produção despretensiosa e simpática, "Totalmente selvagem" ainda tem a ousadia (dentro do universo do cinema menos comercial), de apresentar um final feliz à sua maneira - mostrando que, no fundo, Demme era um romântico, ainda que seu romantismo se apresentasse de forma pouco óbvia. Uma pérola dos anos 80

OBSESSÃO FATAL

OBSESSÃO FATAL (Unlawful entry, 1992, 20th Century Fox, 117min) Direção: Jonathan Kaplan. Roteiro: Lewis Colick, estória de George D. Putnam, John Katchmer, Lewis Colick. Fotografia: Jamie Anderson. Montagem: Curtiss Clayton. Música: James Horner. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Lawrence G. Paull/Rick Simpson. Produção: Charles Gordon. Elenco: Kurt Russell, Ray Liotta, Madeleine Stowe, Roger E. Mosley, Ken Lerner, Deborah Offner, Carmen Argenziano. Estreia: 26/6/92

Em 3 de março de 1991, um dos acontecimentos mais infames da história da polícia de Los Angeles rodou o mundo: o espancamento violento e cruel de Rodney King, um taxista negro, acusado de dirigir em alta velocidade, por quatro agentes brancos. A indignação apenas aumentou, quando, no final de abril de 1992, os policiais foram absolvidos por um júri popular: uma onda de rebeliões por toda a Califórnia durou três dias em que confrontos, incêndios, saques e depredações mostraram a revolta da população afro-americana, causando mortes e destruição - e resultando, de forma indireta, como uma espécie de compensação, na absolvição do ex-jogador de futebol O.J. Simpson por duplo homicídio, em 1995. Não era exatamente um período apropriado para a estreia de um filme que tratava justamente de abuso policial - mas mesmo assim, a 20th Century Fox correu o risco e lançou "Obsessão fatal", um suspense dirigido pelo veterano Jonathan Kaplan que não tinha medo de eleger como vilão alguém que deveria (ao menos no imaginário do cinema popular) ser o herói. A crítica se dividiu, o público também, e o filme arrecadou quase 60 milhões de dólares nas bilheterias. Nada mal para um filme que, mesmo longe de ser memorável, ousou em mostrar o outro lado da moeda - exatamente em uma época em que este lado se revelava tão dúbio.

Lançado no mesmo ano em que o cineasta Jonathan Kaplan também estreou seu "Love field: as barreiras do amor" - que deu à Michelle Pfeiffer uma indicação ao Oscar de melhor atriz -, "Obsessão fatal" é um filme de gênero, sem ambições de revolucionar o cinema ou chegar às cerimônias de premiação (ainda que Ray Liotta tenha sido indicado ao MTV Movia Awards na categoria de Melhor Vilão). Com personagens bem definidos entre bem e mal e uma narrativa clássica e sem sobressaltos, o roteiro segue o padrão dos filmes policiais hollywoodianos, inovando apenas na inversão de papéis e questionando até que ponto o cidadão comum está realmente a salvo quando nas mãos da autoridade oficial. Um questionamento importante - e que por pouco não foi enfatizado com a presença de Kevin Costner (então a personificação do homem americano médio) no elenco: assim como Jeff Bridges e Bill Pullman (pré-sucesso de "Independence Day"), Costner foi considerado para o papel principal do filme, que acabou nas mãos bastante competentes de Kurt Russell, e é de imaginar como seria a reação do público ao ver nas telas o seu herói patriota e de dignidade ilibada enfrentando o mal fardado. Levando-se em consideração o ponto de ebulição pelo qual passavam os EUA à época, porém, foi até melhor que o namoradinho da América (recém oscarizado por "Dança com lobos") tenha preferido um outro viés para tocar no inconsciente do país, estrelando o romance interracial "O guarda-costas", ao lado da cantora Whitney Houston, e levando multidões às salas de exibição.


Ray Liotta - que também não foi a escolha inicial para o papel do vilão, já que Mel Gibson, John Travolta, Tom Berenger e Charlie Sheen recusaram a proposta - dá seguimento a sua tendência em interpretar personagens ameaçadores com uma composição exata entre gentileza e violência (ao menos até o clímax um tanto exagerado). No filme de Kaplan, ele vive o policial Pete Davis, o atencioso agente da lei que ajuda o casal Carr em um momento de angústia, quando eles tem sua casa invadida por um estranho. Prestimoso ao extremo, ele orienta Michael (Kurt Russell) na instalação de sistemas de segurança e, aos poucos, torna-se um amigo sempre disposto a colaborar em qualquer circunstância. Elogiado por Carr a seus superiores, Davis passa inclusive a frequentar os mesmos ambientes do casal - especialmente porque sente-se irremediavelmente atraído pela bela Karen (Madeleine Stowe), com quem tenta iniciar um flerte. Tal constatação e um episódio de violência testemunhado por Michael faz com que ele resolva afastar-se do policial, mas esbarra em um grande problema: como proteger-se de alguém que deveria justamente ser a sua proteção?

Apesar do tema altamente inflamável, Jonathan Kaplan não se aprofunda na questão principal a ser discutida, preferindo seguir o caminho do entretenimento. Não é uma opção inválida, uma vez que sua intenção é apenas conduzir a plateia por duas horas de tensão, e ele o faz com relativo sucesso. Liotta deita e rola com seu personagem, enquanto sobra a Russell tomar a dianteira no posto de herói e defender a frágil e bela esposa - Madeleine Stowe, que tem a incumbência de dar vida ao menos ativo dos protagonistas e não faz feio. Entre mortos e feridos, todos se salvam. Mesmo que por vezes seja um tanto previsível, "Obsessão fatal" é um bom filme de suspense, que prende a atenção até os últimos minutos e, de quebra, desmonta a imagem superior e inquebrantável de autoridade constituída tão questionável no momento de sua estreia. Um filme que é, para o bem e para o mal, um retrato de sua época.

sexta-feira

O HOMEM DE GELO

O HOMEM DE GELO (The iceman, 2012, Millenium Films, 106min) Direção: Ariel Vromen. Roteiro: Ariel Vromen, Morgan Land, livro de Anthony Bruno, documentário "The Iceman Tapes: Conversations with a killer", de Jim Thebaut. Fotografia: Bobby Bukowski. Montagem: Danny Rafic. Música: Haim Mazar. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Nathan Amondson/Teresa Visinaire. Produção executiva: Rene Besson, Anthony Bruno, Boaz Davidson, Danny Dimbort, Mark Gill, Lati Grobman, Laura Rister, Trevor Short, Jim Thebaut, John Thompson. Produção: Ehud Bleiberg, Avi Lerner, Ariel Vromen. Elenco: Michael Shannon, Winona Ryder, Ray Liotta, Chris Evans, David Schwimmer, James Franco, Stephen Dorff. Estreia: 30/8/12 (Festival de Veneza)

Michael Shannon é um monstro de ator (no bom sentido): intenso, dedicado e frequentemente requisitado para papéis que exigem imponência ou certo grau de ameaça - graças a seu olhar penetrante e sua vaga semelhança física com Christopher Walken, por muito tempo o malucão preferido de Hollywood -, Shannon não poderia ter sido a melhor escolha para interpretar Richard Kuklinski, um dos assassinos mais conhecidos da história dos EUA, que por trás da fachada de homem de família respeitável, foi responsável por cerca de 200 mortes, a maioria delas encomendadas pelas cinco famílias mafiosas de Nova York. Dono do apelido de Homem de Gelo, por seu costume de congelar as vítimas por um tempo antes de desovar o corpo (dificultando assim a definição exata da data de suas mortes), Kuklinski foi tema de um documentário da HBO chamado "America undercover: The iceman tapes - conversations with a killer" e um livro escrito por Anthony Bruno. As duas obras acabaram por ser a base de "O homem de gelo", longa-metragem dirigido por Ariel Vromen que, contando com a atuação gigantesca de Shannon, acompanha a trajetória do protagonista desde seu início na vida do crime até sua prisão, em 1986. Narrado de forma convencional e com um roteiro que não explora a contento todas as possibilidades oferecidas pela história, o filme se vale do talento de seu ator principal e do elenco coadjuvante para manter a atenção do público até o final - ainda que nem mesmo seu clímax chegue a ser empolgante como poderia.

Sem explorar o passado traumático e cercado de violência de seu personagem central, o que certamente explicaria boa parte de sua personalidade calculista e quase apática em relação aos crimes que comete, "O homem de gelo" concentra-se basicamente na transformação de um homem comum em um dos maiores assassinos dos EUA. De dublador de filmes pornográficos a matador de aluguel, Kuklinski praticamente tinha uma vida dupla: de dia, era um respeitável pai de família, casado com a doce Deborah (Winona Ryder substituindo Maggie Gyllenhaal, que saiu do filme devido à gravidez) e pai de duas meninas; em horário comercial, um criminoso frio e implacável que trabalha para o perigoso Roy Demeo (Ray Liotta em papel oferecido a Benicio Del Toro). Sem importar-se muito em detalhar as mortes cometidas por Kuklinski, o roteiro vai contando sua história sem pressa, até chegar o momento em que o protagonista entra em rota de colisão com Demeo: trabalhando por conta própria ao lado do excêntrico Robert Pronge (Chris Evans, ótimo), ele vê a si e a família ameaçados, o que o obriga a entrar em um período de tensão e paranoia crescentes - especialmente porque ninguém de suas relações pessoais sabe a respeito de sua verdadeira profissão.


Dotado de uma estrutura narrativa simples e sem apelar para a violência excessiva - apesar do tema e do personagem central de certa forma exigirem tal opção -, "O homem de gelo" parece mais um telefilme do que uma produção para o cinema. Apesar do elenco talentoso, sua falta de ousadia em contar uma história tão repleta de possibilidades incomoda a um público já acostumado com o gênero e que busca algo mais do que um roteiro quadradinho e que deixa de lado questões importantes - como o fato de Kuklinski ser também violento em casa, frequentemente espancando a esposa. Até mesmo a razão de seu apelido (o congelamento de suas vítimas) é mencionado apenas brevemente, quase como se fosse algo sem importância. A direção de Ariel Vromen - responsável por produções da Netflix, Warner e Lionsgate, entre outros - não empolga em nenhum momento, nem mesmo no terço final, quando finalmente Kuklinski se vê encurralado pelas consequências de seus atos e precisa lidar com a pressão de estar no papel de possível vítima. Michael Shannon brilha em cada cena, mas não consegue escapar das armadilhas de um roteiro pouco inspirado.

No final das contas, "O homem de gelo" é um filme apenas correto, com poucos momentos memoráveis e que deixa a sensação de que poderia ter sido um grande trabalho caso não tivesse optado pelo convencionalismo excessivo. Uma pena que uma história tão rica de possibilidades tenha ficado no meio-termo adotado por seu diretor. Está longe de ser um filme ruim, mas tampouco é um filme que mereça destaque - exceto talvez pelo belo desempenho de Michael Shannon, que consegue ser melhor que o filme em si. Segura bem uma tarde chuvosa, mas não marca a vida de ninguém da plateia - quase uma decepção em se tratando do tema e do elenco.

O LUGAR ONDE TUDO TERMINA

O LUGAR ONDE TUDO TERMINA (The place beyond the pines, 2012, Sidney Kimmel Entertainment, 140min) Direção: Derek Cianfrance. Roteiro: Derek Cianfrance, Ben Coccio, estória de Derek Cianfrance, Ben Coccio, Darius Marder. Fotografia: Sean Bobbitt. Montagem: Jim Helton, Ron Patane. Música: Mike Patton. Figurino: Erin Benach. Direção de arte/cenários: Inbal Weinberg/Jasmine Ballou. Produção executiva: Matt Berenson, Jim Tauber, Bruce Toll. Produção: Sidney Kimmel, Alex Orlovsky, Jamie Patricof. Elenco: Ryan Gosling, Bradley Cooper, Eva Mendes, Rose Byrne, Bruce Greenwood, Ray Liotta, Emory Cohen, Dane DeHaan. Estreia: 07/9/12


Em 2011 o diretor Derek Cianfrance conquistou a crítica e os fãs de cinema com o dolorido “Namorados para sempre”, uma história de amor e perda amparada basicamente na força de sua dupla central, Michelle Williams (indicada ao Oscar por seu desempenho visceral) e Ryan Gosling. O tom claustrofóbico e nervoso do filme apontava para um cineasta pouco afeito à leveza do ser, e seu trabalho seguinte confirmou as suspeitas: apesar de não ser nem de longe tão pesado e denso quanto a obra anterior de Cianfrance, “O lugar onde tudo termina” também não é exatamente o trabalho de alguém que vê a vida com otimismo e alegria. Disfarçada sob as regras sólidas de um gênero clássico – o policial – sua nova trama discorre, sem discursos moralistas ou obviedades, sobre a força do destino e as consequências de cada escolha que se faz na vida. Com três atos bem definidos e com tons claramente distintos, o roteiro – coescrito pelo diretor ao lado de Bem Coccio e Darius Marder – conduz o espectador por praticamente três histórias, impulsionadas por um primeiro clímax impactante e surpreendente que, chegando ao final da primeira hora de projeção, muda corajosamente todos os rumos do que foi visto até então.
Quem dá o empurrão inicial na narrativa é Handsome Luke (Ryan Gosling), um ousado motoqueiro que viaja pelos EUA juntamente com um circo, se apresentando no Globo da Morte. Calado e introspectivo, ele vê sua trajetória errante sofrer um abalo quando retorna à pequena Schenactady, cidadezinha modorrenta do interior do país e reencontra Romina (Eva Mendes), com quem havia tido um romance poucos anos antes. Surpreso ao saber que é pai de um bebê, o rapaz pede demissão do circo e resolve permanecer na localidade, mesmo sabendo que sua ex-namorada já está reconstruindo a vida com outro homem. Para garantir um futuro seguro para o menino, Luke acaba por unir-se a um arrojado plano de assaltos a bancos onde sua moto tem importância crucial. É devido a essa sua nova e ilegal atividade que seu caminho cruza com o de Avery (Bradley Cooper), um jovem policial que, assim como ele, também está se iniciando nas artes da paternidade.




Quando Avery assume o protagonismo da história – depois de um confronto com Luke – o filme de Cianfrance abandona o tom de policial dramático para assumir uma outra faceta. Ferido em seu duelo com Luke, o rapaz (de família influente) torna-se herói da noite para o dia, mas se vê jogado em uma série de tarefas burocráticas que acabam por aproximá-lo de Romina e seu filho. Além disso, se envolve cada vez mais em uma espiral de corrupção que envolve seus colegas de departamento e é liderada pelo amedrontador Deluca (Ray Liotta). Para sair dessa situação pouco invejável, ele precisa desafiar a apatia de seus superiores e contar com a ajuda da esposa, Jennifer (Rose Byrne). A terceira e conclusiva fase do filme se passa quinze anos mais tarde, quando o filho rebelde de Avery, AJ (Emori Cohen), vai morar com o pai – já divorciado e politicamente em alta – e une-se a Jason (Dane Dehaan), o filho de Luke e Romina, em uma série de pequenas contravenções. O que poderia ser apenas um típico caso de “más companhias” se transforma, porém, em um trágico encontro que finalmente iguala bandido e mocinho.
É admirável a coragem de Derek Cianfrance em vários pontos de “O lugar onde tudo termina”. Primeiro, por não acomodar-se com o sucesso de crítica de sua obra anterior e romper com sua linguagem naturalista ao optar por uma obra que se enquadra facilmente no que convencionou-se chamar de “filme de gênero”. Depois, por, mesmo dentro das rígidas regras que uma produção assim impõe aos realizadores, usar de seus cânones mais consagrados não para agradar ao público com clichês previsíveis, mas para buscar novos caminhos narrativos. E por fim, por ter não apenas dois, mais três (!!) histórias dentro de uma única espinha dorsal – todas elas com começo, meio e fim bem delineados. Em uma época em que o espectador é atacado por todos os lados com roteiros que mal permitem o contato com os personagens (por sua vez frequentemente inverossímeis ou superficiais), não deixa de ser refrescante perceber o cuidado do diretor em fazer de todos aqueles que cruzam a tela pareçam reais e, dentro do possível, fujam do esperado. E para isso, é claro, ele conta com um elenco que entrega performances pra lá de inspiradas.
Ryan Gosling nem precisa ser citado: vindo de uma série de atuações brilhantes em filmes dos mais variados estilos, ele mais uma vez mostra porque é um dos melhores atores de sua geração, criando um Handsome Luke que, apesar de algumas semelhanças com seu misterioso personagem no soberbo “Drive”, conquista o público apesar de suas equivocadas decisões. Bradley Cooper – saindo de uma indicação ao Oscar de melhor ator por “O lado bom da vida” – assume um papel um tanto ingrato e consegue manter o interesse da audiência mesmo com a mudança quase brusca de foco da narrativa, e os jovens Emory Cohen e Dane Dehaan, apesar de não terem o carisma de seus pais na ficção tampouco comprometem o resultado, encerrando a odisseia de violência e angústia com grande competência. Mérito da direção segura mas discreta de Cianfrance, que não deixa, em momento algum, de perder as rédeas de sua história, e cria um interessante misto de drama e policial que é capaz de agradar a quem procura mais do que apenas uma série de tiros e explosões.     

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...