MATO
SEM CACHORRO (Mato sem cachorro, 2013, Lupa Filmes/Mixer/Globo Filmes,
101min) Direção: Pedro Amorim. Roteiro: André Pereira, argumento de
Vitor Leite, colaboração de Pedro Amorim, Malu Miranda. Fotografia:
Gustavo Habda. Montagem: Pedro Amorim, Natara Ney. Música: Rica Amabis.
Figurino: Marcelo Pies. Direção de arte/cenários: Tiago Marques
Teixeira/Odair Zani. Produção executiva: Eliane Ferreira, Lili Nogueira.
Produção: Malu Miranda. Elenco: Bruno Gagliasso, Leandra Leal, Danilo
Gentili, Gabriela Duarte, Angela Leal, Rafinha Bastos, Flávio
Migliaccio, Joaquim Lopes, Enrique Diaz, Sandy, Sidney Magal, Fausto
Fawcett. Estreia: 04/10/13
No cinema nacional, a
menção ao gênero comédia romântica imediatamente remete a tramas que
giram em torno de mulheres desesperadas atrás de um casamento ou
da independência sexual. Em termos de bilheteria dá certo, como mostram
os números de filmes como "De pernas para o ar" e "Os homens são de
Marte... e é pra lá que eu vou". Paradoxalmente, porém, falta nessas
produções tanto o ponto de vista masculino (os homens são, via de regra,
tratados como coadjuvantes de luxo) quanto o romantismo (qualquer
momento em que ele poderia aparecer é normalmente substituído por
piadas, muitas vezes sem graça). São essas lacunas que "Mato sem
cachorro" tenta preencher. Escrito e dirigido por Pedro Amorim, o filme
estrelado por Bruno Gagliasso e Leandra Leal consegue a proeza de fazer a
plateia rir sem esquecer seu principal objetivo: contar uma história de
amor. Equilibrando momentos de delicadeza com outros de humor quase
escatológico, seu roteiro conquista o público justamente pela ousadia de
misturar elementos tão díspares em um gênero tão perigosamente sujeito a
ficar engessado a receitas insossas. De personalidade própria e humor
particular, "Mato sem cachorro" é um achado dentro do cinema comercial
brasileiro.
A trama em si é simples e direta como
convém: o produtor musical Deco (um Bruno Gagliasso leve e distante dos
personagens densos a que o público está acostumado) e a diretora de
rádio Zoé (Leandra Leal a quilômetros de distância da assustadora Rosa
de "O lobo atrás da porta") se apaixonam perdidamente no dia em que
conhecem Guto, um adorável cãozinho que sofre de uma condição rara
chamada narcolepsia canina - que o faz desmaiar a cada estado de maior
excitação. Os três passam a formar uma família feliz até que, um ano e
meio depois, o romance acaba e deixa o rapaz na pior, morando com o
primo Leléo (Danilo Gentili, dono de algumas das melhores piadas mas por
vezes um tanto exagerado no humor rasteiro) e incapaz de seguir a vida.
Ao descobrir que Zoé está de namorado novo - o dono de uma estética
canina chamado Fernando (Enrique Diaz, sensacional) - Deco resolve tomar
o que é seu e sequestra Guto. As consequências de tal gesto - que o
obrigará inclusive a produzir a banda do irmão de Zoé, um achado musical
responsável por alguns dos melhores momentos do filme - tanto podem
aproximá-lo da mulher que ama quanto afastá-los de vez. E, no meio do
caminho, Amorim aproveita para desconstruir algumas imagens quase
intocáveis do mundo artístico nacional.
Da
cantora Sandy fazendo o papel dela mesma - e brigando com um policial
durante um teste de bafômetro - até Gabriela Duarte - famosa por papéis
românticos e aqui encarando uma desbocada pouco afeita a sutilezas -
"Mato sem cachorro" faz desfilar na tela rostos conhecidos do grande
público em aparições rápidas e eficientes em despertar o riso ou a
surpresa. Angela Leal (mãe de Leandra na vida real) interpreta a mãe de
Zoé, Rafinha Bastos surge em cena como um médico veterinário pouco
paciente, Marcelo Tas vive os dois diretores gêmeos da rádio onde
trabalha a protagonista e até mesmo Elke Maravilha dá as caras, no papel
sem falas da senhora idosa que empresta o prédio para os ensaios da
banda produzida por Deco - despida do glamour e dos excessos que
marcaram sua carreira, Elke está irreconhecível (e é um atrativo a mais
para um filme que ainda conta com Sidney Magal e Fausto Fawcett como
eles mesmos). Não bastasse tudo isso, o trabalho de Amorim é uma comédia
realmente engraçada, um romance que funciona e tem uma trilha sonora
deliciosa.
Misturando Sidney Magal, Waldick Soriano,
Radiohead e Sandy & Junior, Wando, Joan Jett e John Lennon no
mesmo balaio, "Mato sem cachorro" assume sem medo sua veia pop, buscando
uma aproximação direta com o público através de seus ícones e
referências. Algumas vezes escorrega no excesso de palavrões
desnecessários e nem sempre explora a contento algumas subtramas que
poderiam ser interessantes (caso da radialista interpretada por Letícia
Isnard e o medo que tem dos ouvintes mais agressivos), mas cumpre com
louvor a promessas que faz. Além do mais, tem um atrativo extra para os
amantes de cães, que irão se esbaldar com o carisma de Guto e as
aventuras pelas quais ele obriga seus donos a passarem para encontrar um
final feliz. Um raro exemplar de cinema comercial brasileiro que não
deixa em seu final um sentimento de frustração. Vale a pena experimentar
e se divertir nem que seja para comprovar o talento imenso de seus dois
atores centrais.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade.
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segunda-feira
quinta-feira
O LOBO ATRÁS DA PORTA
O
LOBO ATRÁS DA PORTA (O lobo atrás da porta, 2013, Gullane Filmes,
101min) Direção e roteiro: Fernando Coimbra. Fotografia: Lula Carvalho.
Montagem: Karen Akerman. Figurino: Valeria Stefani. Produção: Caio
Gullane, Fabiano Gullane, Débora Ivanov, Gabriel Lacerda. Elenco:
Leandra Leal, Milhem Cortaz, Fabíula Nascimento, Juliano Cazarré,
Thalita Carauta. Estreia: 11/9/13 (Festival de Toronto)
Já sem a aura de preconceito que o prejudicava em termos de bilheteria, o cinema nacional estabilizou-se no mercado com produções que encontraram um diálogo com a plateia, seja através de filmes com o viés realista de "Cidade de Deus" e "Tropa de elite" - que também foram merecidamente incensados pela crítica mundial - ou de comédias rasas e superficiais, como "Se eu fosse você" e "De pernas para o ar" - cópias mal-ajambradas de sessões da tarde hollywoodianas. No meio desse confronto entre gêneros já estabelecidos dentro de uma indústria ainda incipiente, nada como uma obra que ouse fugir do já testado e aprovado. Apostando no suspense e fugindo do previsível, o cineasta e roteirista Fernando Coimbra surpreende a plateia com o denso e aterrador "O lobo atrás da porta", que bebe na fonte de filmes consagrados como "Atração fatal" e na história real da famosa Fera da Penha - que virou manchete de jornal nos anos 70 - para construir um dos mais marcantes produtos do cinema brasileiro dos últimos anos.
Quem comanda o show é Leandra Leal, uma das atrizes mais competentes de sua geração, que dá vida à complexa Rosa, uma jovem aparentemente normal que entra em desespero quando percebe que está perdendo o amor de Bernardo (Milhem Cortaz), o homem casado com quem tem um avassalador romance. Com medo de ser abandonada, ela começa uma insuspeita amizade com a esposa dele, a desconfiada Sylvia (Fabíula Nascimento) - até que o desaparecimento da filha pequena do casal embaralha todas as cartas do jogo e ilumina uma relação composta de amor, desejo e uma ponta de humilhação que acaba por levar a todos a um caminho sem volta em direção à ruína. Construindo sua narrativa de forma a parecer um quebra-cabeças, com as peças se encaixando aos poucos até o angustiante desfecho, Coimbra fez por merecer os prêmios do Grand Prix do Cinema Nacional, de onde "O lobo" saiu reconhecido em sete categorias - filme, direção, atriz, roteiro, atriz coadjuvante (Thalita Carauta), fotografia e montagem - e, de quebra, mostrou ao público que nem só de produções puramente comerciais ou experimentais vive o cinema nacional.
Sem medo de ir fundo na construção do suspense que cerca o destino de seus protagonistas - e contando com a ajuda fundamental de um elenco escolhido a dedo que dá extrema credibilidade à cada cena - Fernando Coimbra se recusa a apontar vilões ou defender quaisquer atitudes de seus personagens. Evitando julgamentos morais ou sentimentalismos desnecessários, o cineasta acompanha a dolorosa busca de Sylvia e Bernardo por sua filha com uma câmera discreta e silenciosa, testemunha tanto dos arroubos sensuais entre Bernardo e Rosa quanto dos desvãos de sua história - ações impensadas que resultam em reações das mais angustiantes já retratadas pelo cinema brasileiro. Sem enfatizar desnecessariamente o suspense em uma trama já banhada de tensão desde as primeiras cenas, Coimbra faz uso inteligente da edição, prendendo a atenção do público até seus momentos decisivos - e ao contrário do que se poderia esperar de um filme com tal grau de claustrofobia emocional, ele faz questão de mostrar constantemente seus personagens em espaços abertos e ensolarados (paradoxalmente, são as cenas românticas que se passam em ambientes fechados e escuros, uma metáfora adequada aos sentimentos dúbios da protagonista). A fotografia de Lula Carvalho acerta em não chamar mais a atenção do que a história, e o elenco coadjuvante é um espetáculo à parte.
Ator de talento pouco explorado na televisão - onde frequentemente é relegado à alívio cômico - Juliano Cazarré vive um delegado que tenta colocar uma ordem nas contradições que encontra no caso, mas é Thalita Carauta quem mais surpreende: na pele de uma "amiga" de Rosa que tem papel fundamental no desenrolar da trama, a atriz deixa de lado o estigma de comediante para entregar um desempenho impecável e assustador, capaz de fazer qualquer um olhar com desconfiança redobrada os silêncios e a tranquilidade dos subúrbios e dos bairros mais familiares de sua cidade. Ao contar uma história simples, com personagens críveis e humanos, Fernando Coimbra conseguiu um feito e tanto: incutir medo na audiência sem apelar para monstros ou assassinos seriais. Seu filme parece dizer, a cada momento, que o perigo pode estar em qualquer esquina. Sensacional!
Já sem a aura de preconceito que o prejudicava em termos de bilheteria, o cinema nacional estabilizou-se no mercado com produções que encontraram um diálogo com a plateia, seja através de filmes com o viés realista de "Cidade de Deus" e "Tropa de elite" - que também foram merecidamente incensados pela crítica mundial - ou de comédias rasas e superficiais, como "Se eu fosse você" e "De pernas para o ar" - cópias mal-ajambradas de sessões da tarde hollywoodianas. No meio desse confronto entre gêneros já estabelecidos dentro de uma indústria ainda incipiente, nada como uma obra que ouse fugir do já testado e aprovado. Apostando no suspense e fugindo do previsível, o cineasta e roteirista Fernando Coimbra surpreende a plateia com o denso e aterrador "O lobo atrás da porta", que bebe na fonte de filmes consagrados como "Atração fatal" e na história real da famosa Fera da Penha - que virou manchete de jornal nos anos 70 - para construir um dos mais marcantes produtos do cinema brasileiro dos últimos anos.
Quem comanda o show é Leandra Leal, uma das atrizes mais competentes de sua geração, que dá vida à complexa Rosa, uma jovem aparentemente normal que entra em desespero quando percebe que está perdendo o amor de Bernardo (Milhem Cortaz), o homem casado com quem tem um avassalador romance. Com medo de ser abandonada, ela começa uma insuspeita amizade com a esposa dele, a desconfiada Sylvia (Fabíula Nascimento) - até que o desaparecimento da filha pequena do casal embaralha todas as cartas do jogo e ilumina uma relação composta de amor, desejo e uma ponta de humilhação que acaba por levar a todos a um caminho sem volta em direção à ruína. Construindo sua narrativa de forma a parecer um quebra-cabeças, com as peças se encaixando aos poucos até o angustiante desfecho, Coimbra fez por merecer os prêmios do Grand Prix do Cinema Nacional, de onde "O lobo" saiu reconhecido em sete categorias - filme, direção, atriz, roteiro, atriz coadjuvante (Thalita Carauta), fotografia e montagem - e, de quebra, mostrou ao público que nem só de produções puramente comerciais ou experimentais vive o cinema nacional.
Sem medo de ir fundo na construção do suspense que cerca o destino de seus protagonistas - e contando com a ajuda fundamental de um elenco escolhido a dedo que dá extrema credibilidade à cada cena - Fernando Coimbra se recusa a apontar vilões ou defender quaisquer atitudes de seus personagens. Evitando julgamentos morais ou sentimentalismos desnecessários, o cineasta acompanha a dolorosa busca de Sylvia e Bernardo por sua filha com uma câmera discreta e silenciosa, testemunha tanto dos arroubos sensuais entre Bernardo e Rosa quanto dos desvãos de sua história - ações impensadas que resultam em reações das mais angustiantes já retratadas pelo cinema brasileiro. Sem enfatizar desnecessariamente o suspense em uma trama já banhada de tensão desde as primeiras cenas, Coimbra faz uso inteligente da edição, prendendo a atenção do público até seus momentos decisivos - e ao contrário do que se poderia esperar de um filme com tal grau de claustrofobia emocional, ele faz questão de mostrar constantemente seus personagens em espaços abertos e ensolarados (paradoxalmente, são as cenas românticas que se passam em ambientes fechados e escuros, uma metáfora adequada aos sentimentos dúbios da protagonista). A fotografia de Lula Carvalho acerta em não chamar mais a atenção do que a história, e o elenco coadjuvante é um espetáculo à parte.
Ator de talento pouco explorado na televisão - onde frequentemente é relegado à alívio cômico - Juliano Cazarré vive um delegado que tenta colocar uma ordem nas contradições que encontra no caso, mas é Thalita Carauta quem mais surpreende: na pele de uma "amiga" de Rosa que tem papel fundamental no desenrolar da trama, a atriz deixa de lado o estigma de comediante para entregar um desempenho impecável e assustador, capaz de fazer qualquer um olhar com desconfiança redobrada os silêncios e a tranquilidade dos subúrbios e dos bairros mais familiares de sua cidade. Ao contar uma história simples, com personagens críveis e humanos, Fernando Coimbra conseguiu um feito e tanto: incutir medo na audiência sem apelar para monstros ou assassinos seriais. Seu filme parece dizer, a cada momento, que o perigo pode estar em qualquer esquina. Sensacional!
segunda-feira
O HOMEM QUE COPIAVA
O
HOMEM QUE COPIAVA (O homem que copiava, 2003, Casa de Cinema de Porto
Alegre/Sony Pictures, 124min) Direção e roteiro: Jorge Furtado.
Fotografia: Alex Sernambi. Montagem: Giba Assis Brasil. Figurino:
Rosângela Cortinhas. Direção de arte/cenários: Fiapo Barth/Silvia
Guerra, Bolivar Lauda, Marnei Pereira. Produção executiva: Nora Goulart,
Luciana Tomasi. Elenco: Lázaro Ramos, Leandra Leal, Luana Piovani,
Pedro Cardoso, Júlio Andrade, Paulo José. Estreia: 13/6/03
Depois de testar seu talento como realizador de longas-metragens com o simpático e despretensioso "Houve uma vez dois verões", o cineasta gaúcho Jorge Furtado - conhecido pela coleção de prêmios acumulados pelo curta "Ilha das flores" - fez o que todo mundo esperava que ele fizesse: deu mais um passo à frente em sua brilhante carreira. Mais ambicioso - em termos artísticos e narrativos - e mais comercial - por ter em seu elenco nomes conhecidos nacionalmente, como Lázaro Ramos, Leandra Leal e Luana Piovani - "O homem que copiava" consegue ser ainda melhor do que o primeiro filme de Furtado, com uma trama inteligente e repleta de desdobramentos que torna impossível ao espectador adivinhar o que vem pela frente. Utilizando-se de diferentes linguagens para contar sua história de amor e contravenção, Furtado apresenta um misto de comédia, romance e filme policial que lhe assegura, sem favor nenhum, como um dos mais criativos cineastas brasileiros de sua geração - e isso sem deixar de lado seu estilo próprio e suas raízes.
O personagem central do filme é André (Lázaro Ramos), um jovem de classe média baixa que mora em Porto Alegre e trabalha como operador de fotocopiadora - ou simplesmente como "o cara do xerox". Ganhando um salário que não lhe permite quase nenhuma espécie de luxo, ele sonha ganhar a vida como desenhista, enquanto leva uma rotina pacata entre o trabalho e o lar, que divide com a mãe e a paixão por Sílvia (Leandra Leal), uma jovem que mora no prédio em frente ao seu e que espiona com seu binóculo comprado com a economia de um ano de salário. Tentando aproximar-se da garota - que trabalha em uma loja de roupas femininas - ele acaba caindo na tentação de falsificar uma nota de 50 reais com a nova máquina de cópias coloridas de seu patrão. O que poderia ser apenas uma escorregadela ética acaba, porém, se transformando em algo maior quando entra em cena o ambicioso e pouco inteligente Cardoso (Pedro Cardoso, sensacional), que, na tentativa de seduzir a bela Marinês (Luana Piovani) - colega de André - convence o rapaz a manter-se no ramo. Quando o tímido e desajeitado homem da copiadora troca a nota de 50 reais em um estabelecimento comercial, tem início uma série de eventos imprevisíveis e perigosos que ameaçam a integridade dos quatro.
Imprevisível e extremamente divertido - Furtado é um mestre em diálogos inteligentes e bem-humorados - "O homem que copiava" funciona em todos os níveis narrativos que apresenta, graças ao ritmo ágil imposto pela edição do competente Giba Assis Brasil (também cineasta) e ao roteiro recheado de reviravoltas, desvios e saltos cronológicos que, ao invés de confundir o público, apenas aumenta sua curiosidade em relação ao destino de seus protagonistas - todos eles fracassados em maior ou menor grau, e todos eles em busca da redenção financeira que seu ato desonesto pode lhes acarretar. Em um de seus maiores méritos, o roteiro abdica de qualquer tipo de julgamento moral, cobrindo André e companhia de um manto de isenção que praticamente ignora o fato de que todos estão cometendo graves infrações à lei (acredite, falsificar uma nota de 50 dólares é apenas o começo de tudo). Em especial dando à André uma aura de inocência quase infantil - característica que Lázaro Ramos aproveita com extrema sensibilidade - o filme foge das discussões sociopolíticas para manter seu foco no que realmente interessa: uma história boa o bastante para prender o espectador do início ao fim.
E se boa parte dos méritos de "O homem que copiava" é do Jorge Furtado roteirista, não é possível esquecer que também digno de elogios é o Jorge Furtado diretor de atores: até mesmo Luana Piovani está convincente em cena, na pele da exuberante Marinês, objeto de desejo do ambicioso Cardoso e que acaba entrando no esquema como parte importante do desenrolar da trama. Leandra Leal também se destaca, criando uma Sílvia aparentemente passiva que, em um momento crucial, se transforma em uma mocinha das mais interessantes do cinema nacional moderno - tudo sem perder a coerência dramática ou o nível da interpretação. E Pedro Cardoso, mesmo repetindo o estilo de interpretação que lhe deu fama, sai-se extraordinariamente bem, com uma química impecável com Lázaro Ramos em cenas memoráveis, de um humor sutil e perspicaz.
Empolgante, brilhante e divertido, "O homem que copiava" é um dos melhores filmes brasileiros desde a retomada, apesar de muitas vezes ser esquecido nas listas feitas por críticos e ditos especialistas. A anos-luz da estética marginal do cinema de Chico Assis ou das produções pasteurizadas da Globo Filmes, é um meio-termo altamente satisfatório entre os dois estilos. É popular sem ser medíocre, é inteligente sem ser pedante e é bem acabado sem deixar que isso se torne seu maior atrativo. É, enfim, um programaço.
Depois de testar seu talento como realizador de longas-metragens com o simpático e despretensioso "Houve uma vez dois verões", o cineasta gaúcho Jorge Furtado - conhecido pela coleção de prêmios acumulados pelo curta "Ilha das flores" - fez o que todo mundo esperava que ele fizesse: deu mais um passo à frente em sua brilhante carreira. Mais ambicioso - em termos artísticos e narrativos - e mais comercial - por ter em seu elenco nomes conhecidos nacionalmente, como Lázaro Ramos, Leandra Leal e Luana Piovani - "O homem que copiava" consegue ser ainda melhor do que o primeiro filme de Furtado, com uma trama inteligente e repleta de desdobramentos que torna impossível ao espectador adivinhar o que vem pela frente. Utilizando-se de diferentes linguagens para contar sua história de amor e contravenção, Furtado apresenta um misto de comédia, romance e filme policial que lhe assegura, sem favor nenhum, como um dos mais criativos cineastas brasileiros de sua geração - e isso sem deixar de lado seu estilo próprio e suas raízes.
O personagem central do filme é André (Lázaro Ramos), um jovem de classe média baixa que mora em Porto Alegre e trabalha como operador de fotocopiadora - ou simplesmente como "o cara do xerox". Ganhando um salário que não lhe permite quase nenhuma espécie de luxo, ele sonha ganhar a vida como desenhista, enquanto leva uma rotina pacata entre o trabalho e o lar, que divide com a mãe e a paixão por Sílvia (Leandra Leal), uma jovem que mora no prédio em frente ao seu e que espiona com seu binóculo comprado com a economia de um ano de salário. Tentando aproximar-se da garota - que trabalha em uma loja de roupas femininas - ele acaba caindo na tentação de falsificar uma nota de 50 reais com a nova máquina de cópias coloridas de seu patrão. O que poderia ser apenas uma escorregadela ética acaba, porém, se transformando em algo maior quando entra em cena o ambicioso e pouco inteligente Cardoso (Pedro Cardoso, sensacional), que, na tentativa de seduzir a bela Marinês (Luana Piovani) - colega de André - convence o rapaz a manter-se no ramo. Quando o tímido e desajeitado homem da copiadora troca a nota de 50 reais em um estabelecimento comercial, tem início uma série de eventos imprevisíveis e perigosos que ameaçam a integridade dos quatro.
Imprevisível e extremamente divertido - Furtado é um mestre em diálogos inteligentes e bem-humorados - "O homem que copiava" funciona em todos os níveis narrativos que apresenta, graças ao ritmo ágil imposto pela edição do competente Giba Assis Brasil (também cineasta) e ao roteiro recheado de reviravoltas, desvios e saltos cronológicos que, ao invés de confundir o público, apenas aumenta sua curiosidade em relação ao destino de seus protagonistas - todos eles fracassados em maior ou menor grau, e todos eles em busca da redenção financeira que seu ato desonesto pode lhes acarretar. Em um de seus maiores méritos, o roteiro abdica de qualquer tipo de julgamento moral, cobrindo André e companhia de um manto de isenção que praticamente ignora o fato de que todos estão cometendo graves infrações à lei (acredite, falsificar uma nota de 50 dólares é apenas o começo de tudo). Em especial dando à André uma aura de inocência quase infantil - característica que Lázaro Ramos aproveita com extrema sensibilidade - o filme foge das discussões sociopolíticas para manter seu foco no que realmente interessa: uma história boa o bastante para prender o espectador do início ao fim.
E se boa parte dos méritos de "O homem que copiava" é do Jorge Furtado roteirista, não é possível esquecer que também digno de elogios é o Jorge Furtado diretor de atores: até mesmo Luana Piovani está convincente em cena, na pele da exuberante Marinês, objeto de desejo do ambicioso Cardoso e que acaba entrando no esquema como parte importante do desenrolar da trama. Leandra Leal também se destaca, criando uma Sílvia aparentemente passiva que, em um momento crucial, se transforma em uma mocinha das mais interessantes do cinema nacional moderno - tudo sem perder a coerência dramática ou o nível da interpretação. E Pedro Cardoso, mesmo repetindo o estilo de interpretação que lhe deu fama, sai-se extraordinariamente bem, com uma química impecável com Lázaro Ramos em cenas memoráveis, de um humor sutil e perspicaz.
Empolgante, brilhante e divertido, "O homem que copiava" é um dos melhores filmes brasileiros desde a retomada, apesar de muitas vezes ser esquecido nas listas feitas por críticos e ditos especialistas. A anos-luz da estética marginal do cinema de Chico Assis ou das produções pasteurizadas da Globo Filmes, é um meio-termo altamente satisfatório entre os dois estilos. É popular sem ser medíocre, é inteligente sem ser pedante e é bem acabado sem deixar que isso se torne seu maior atrativo. É, enfim, um programaço.
terça-feira
ZUZU ANGEL
Praticamente um especialista em cinebiografias políticas nacionais, o cineasta Sergio Rezende tem no currículo filmes importantes, como "O homem da capa preta", "Lamarca" e "Mauá - O imperador e o rei". Dando continuidade a seu invejável currículo, "Zuzu Angel" dá um passo a frente em sua obra, injetando emoção e dor a uma técnica competente e eficaz. Evitando contar a vida inteira da estilista brasileira que dá nome ao filme e preferindo focar sua atenção a um determinado período de tempo - mais precisamente na história de sua trágica busca pela verdade a respeito do único filho homem, preso pela ditadura militar que manchou de sangue e pólvora a história do Brasil de 1964 a 1979.
Contando com uma caprichada reconstituição de época, Rezende joga o espectador em seu filme, aproximando-o corajosamente do drama de Zuzu (uma bela e competentíssima Patrícia Pillar) sem rodeios e sem medo de parecer sentimental. Mesclando um thriller político eletrizante com momentos de pura emoção - em especial quando estão em cena Patrícia e Daniel de Oliveira, que vive seu filho, Stuart Angel - o filme de Rezende, co-escrito em parceria com Marcos Bernstein atinge a plateia sem maiores dificuldades. Linear e claro, o roteiro não se furta a apontar culpados e eleger sua protagonista como heroína, mas foge do maniqueísmo por uma razão bastante simples: ela o é, como sua trajetória deixa bem explícito.

Uma das estilistas nacionais mais respeitadas no exterior, Zuzu Angel - mãe da jornalista e atriz Hildegard Angel, interpretada por Regiane Alves no filme - estava no auge de sua carreira quando uma sombra negra ofuscou seu sucesso. Seu único filho, Stuart (mais um grande trabalho de Daniel de Oliveira), é preso pelo DOPS, que nega a operação e se recusa a informar seu paradeiro. Desesperada - e contando com a ajuda velada de testemunhas temerosas - ela parte em busca de informações e, quando finalmente se conforma com a ideia da morte do rapaz, de seu corpo. Nesse meio tempo, passa a ser acuada, ameaçada e desacreditada pelos órgãos do governo, chegando inclusive a tentar chamar a atenção internacional, através do contato com Kissinger. Utilizando até mesmo suas coleções como forma de expressão, ela inspirou Chico Buarque a compor a bela "Angélica" - canção extraordinária que encerra o filme melancolicamente.
Realizado como drama político, mas sem as intermináveis cenas de burocratas discutindo em volta de uma mesa, "Zuz Angel" tem a seu favor a força de sua história (recente, real e brutal) e um elenco espetacular. Patrícia Pillar brilha soberana com uma atuação sutil mas extremamente realista, que atrai a empatia do público sem maiores esforços. Daniel de Oliveira e Leandra Leal (ela como a esposa de Stuart, que também é capturada pela ditadura) estão perfeitos em sua mescla de inocência e pavor. E até mesmo Elke Maravilha - personagem da história real que aqui faz uma ponta afetiva como cantora de uma boate - se sai bem, apesar de sua caracterização na tela (na pele da insossa Luana Piovani) carecer de força e veracidade.
Um dos filmes brasileiros mais bem acabados, interessantes e pungentes da chamada retomada iniciada no início dos anos 90, "Zuzu Angel" é mais um belo gol de placa de Sergio Rezende - que ainda conta com a participação especialíssima de Paulo Betti vivendo o mesmo Lamarca do filme que fizeram juntos em 1994.
segunda-feira
CAZUZA, O TEMPO NÃO PARA
CAZUZA, O TEMPO NÃO PARA (Brasil, 2004, 98min) Direção: Walter Carvalho, Sandra Werneck. Roteiro: Fernando Bonassi, Victor Navas, livro de Lucinha Araújo. Fotografia: Walter Carvalho. Montagem: Sérgio Mekler. Música: Cazuza, Guto Graça Mello. Figurino: Cláudia Kopke. Direção de arte: Cláudio Amaral Peixoto. Produção executiva: Flávio R. Tambellini. Produção: Daniel Filho. Elenco: Daniel Oliveira, Marieta Severo, Reginaldo Faria, Emílio de Mello, Andrea Beltrão, Leandra Leal, Cadu Fávero, Maria Flor. Estreia: 11/6/04
Cinebiografias de astros e estrelas da música são constantes no mercado internacional, mas eram quase inexistentes no cinema brasileiro. Por isso não deixa de ser louvável a realização de "Cazuza, o tempo não para", que conta a brilhante trajetória do cantor e compositor carioca que morreu de AIDS aos 32 anos.,, em 1990, no auge da criatividade e popularidade. Baseado livremente no livro "Só as mães são felizes", co-escrito pela mãe do cantor, Lucinha Araújo e pela jornalista Regina Echeverria, o filme, dirigido por Sandra Werneck e Walter Carvalho (ele um dos maiores diretores de fotografia do cinema brazuca) faz, em hora e meia de projeção, uma merecidíssima homenagem ao artista, mas acaba se perdendo, em alguns momentos, em um roteiro bastante superficial.
Vivido por um inacreditável Daniel de Oliveira, Cazuza era o filho único de um executivo da indústria musical, João Araújo (Reginaldo Faria) e de uma dona-de-casa que vez ou outra cantava para os amigos, Lucinha Araújo (a sempre espetacular Marieta Severo). Rebelde, bissexual, chegado em farras com álcool e drogas, ele liderou a banda de rock Barão Vermelho e justamente quando atingiu a fama, resolveu tentar uma carreira-solo que coincidiu com a descoberta de sua doença fatal. O filme acompanha sua trajetória e mostra sua amizade e parceria com o roqueiro Frejat (Cadu Fávero) e com o empresário Ezequiel Neves (em um afetado trabalho de Emilio de Mello), dando prioridade a seu período de intensa criação artística.

Na verdade o problema maior do roteiro do filme é a superficialidade com que trata de algumas personagens, que entram e saem de cena sem maiores especificações, além da omissão de passagens importantes da vida do cantor - seu relacionamento pessoal e profissional com Ney Matogrosso, por exemplo, não é sequer mencionado, apesar de ter sido vital para sua carreira - e nem mesmo sua relação com a mãe, tema central do livro que inspirou o filme é explorada a contento. Essa falha crucial enfraquece o resultado final, mesmo que a intenção do projeto tenha sido focar-se principalmente na obra musical de Cazuza. E quanto a isso, justiça seja feita, não tem erro. Mais do que uma simples trilha sonora, a música do cantor é uma personagem a mais, e das mais importantes.
Os números musicais que permeiam o filme comentam a ação sem em momento algum atrapalhar a narrativa - mesmo porque o projeto é quase um presente aos fãs. Canções emblemáticas da trajetória do cantor em carreira-solo ou ainda na companhia do grupo Barão Vermelho desfilam pela tela em apresentações vívidas e reproduzidas com a maior perfeição possível, principalmente graças à maior qualidade do filme: o ator Daniel de Oliveira. Pouco conhecido do público à época das filmagens, o jovem mineiro praticamente incorpora o protagonista, em uma atuação que surpreende pela garra e pela dedicação. Mesmo com os óbvios problemas de roteiro, Daniel paira acima de tudo, em uma interpretação antológica e impecável que deixaria o próprio Cazuza extremamente orgulhoso.
Cinebiografias de astros e estrelas da música são constantes no mercado internacional, mas eram quase inexistentes no cinema brasileiro. Por isso não deixa de ser louvável a realização de "Cazuza, o tempo não para", que conta a brilhante trajetória do cantor e compositor carioca que morreu de AIDS aos 32 anos.,, em 1990, no auge da criatividade e popularidade. Baseado livremente no livro "Só as mães são felizes", co-escrito pela mãe do cantor, Lucinha Araújo e pela jornalista Regina Echeverria, o filme, dirigido por Sandra Werneck e Walter Carvalho (ele um dos maiores diretores de fotografia do cinema brazuca) faz, em hora e meia de projeção, uma merecidíssima homenagem ao artista, mas acaba se perdendo, em alguns momentos, em um roteiro bastante superficial.
Vivido por um inacreditável Daniel de Oliveira, Cazuza era o filho único de um executivo da indústria musical, João Araújo (Reginaldo Faria) e de uma dona-de-casa que vez ou outra cantava para os amigos, Lucinha Araújo (a sempre espetacular Marieta Severo). Rebelde, bissexual, chegado em farras com álcool e drogas, ele liderou a banda de rock Barão Vermelho e justamente quando atingiu a fama, resolveu tentar uma carreira-solo que coincidiu com a descoberta de sua doença fatal. O filme acompanha sua trajetória e mostra sua amizade e parceria com o roqueiro Frejat (Cadu Fávero) e com o empresário Ezequiel Neves (em um afetado trabalho de Emilio de Mello), dando prioridade a seu período de intensa criação artística.

Na verdade o problema maior do roteiro do filme é a superficialidade com que trata de algumas personagens, que entram e saem de cena sem maiores especificações, além da omissão de passagens importantes da vida do cantor - seu relacionamento pessoal e profissional com Ney Matogrosso, por exemplo, não é sequer mencionado, apesar de ter sido vital para sua carreira - e nem mesmo sua relação com a mãe, tema central do livro que inspirou o filme é explorada a contento. Essa falha crucial enfraquece o resultado final, mesmo que a intenção do projeto tenha sido focar-se principalmente na obra musical de Cazuza. E quanto a isso, justiça seja feita, não tem erro. Mais do que uma simples trilha sonora, a música do cantor é uma personagem a mais, e das mais importantes.
Os números musicais que permeiam o filme comentam a ação sem em momento algum atrapalhar a narrativa - mesmo porque o projeto é quase um presente aos fãs. Canções emblemáticas da trajetória do cantor em carreira-solo ou ainda na companhia do grupo Barão Vermelho desfilam pela tela em apresentações vívidas e reproduzidas com a maior perfeição possível, principalmente graças à maior qualidade do filme: o ator Daniel de Oliveira. Pouco conhecido do público à época das filmagens, o jovem mineiro praticamente incorpora o protagonista, em uma atuação que surpreende pela garra e pela dedicação. Mesmo com os óbvios problemas de roteiro, Daniel paira acima de tudo, em uma interpretação antológica e impecável que deixaria o próprio Cazuza extremamente orgulhoso.
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