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quinta-feira

ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD


ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD (Once upon a time in... Hollywood, 2019, Sony Pictures, 161min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Fred Raskin. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Nancy Haigh. Produção executiva: Jeffrey Chan, Georgia Kacandes, Yu Dong. Produção: David Heyman, Shannon McIntosh, Quentin Tarantino. Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Emile Hirsch, Margaret Qualley, Timothy Olyphant, Dakota Fanning, Bruce Dern, Al Pacino, Luke Perry, Costa Ronin, Lena Dunham, Kurt Russell, Rafal Zawierucha, Damon Herriman. Estreia: 21/5/2019 (Festival de Cannes)

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários. Edição de Som, Mixagem de Som

Vencedor de 2 Oscar: Ator (Brad Pitt), Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 3 Golden Globe Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Roteiro

Foi na madrugada de 6 de agosto de 1969 que um crime - violento e chocante em sua gratuidade - acabou, segundo a escritora Joan Didion, com o movimento hippie, a era do amor livre e a atmosfera dos anos 60 como um todo. Um grupo de seguidores do messiânico Charles Manson invadiu a casa da atriz Sharon Tate, grávida de oito meses do cineasta Roman Polanski (em alta com o sucesso de seu "O bebê de Rosemary", lançado no ano anterior) e a assassinou, juntamente com um grupo de amigos, deixando no local uma série de detalhes macabros que alimentaram as manchetes dos jornais por meses a fio. A investigação do crime, a prisão dos responsáveis e o julgamento midiático ocuparam a mente do mundo - e em especial dos EUA - por anos e ainda permanecem como uma lembrança trágica de uma época encerrada abruptamente com um banho de sangue. O trauma foi tanto que demorou meio século para que um grande estúdio de Hollywood finalmente rompesse o silêncio a respeito do assunto - e mesmo assim somente com o aval de um nome de prestígio, com coragem o suficiente para mexer em um vespeiro mantido sob uma redoma de respeito pelos envolvidos e pelo medo de um fracasso de bilheteria. Foi somente quando Quentin Tarantino anunciou que seu filme seguinte ao western "Os oito odiados" (2016) teria Sharon Tate como uma de suas personagens principais que a história (até então contada mal e porcamente em documentários e telefilmes de pouca repercussão) voltou a povoar o imaginário mundial - e despertar uma curiosidade que só fez aumentar conforme chegava a data de estreia.

Pensando em marcar a estreia de "Era uma vez em... Hollywood" para 6 de agosto de 2019, data em que o crime completaria 50 anos, Tarantino foi voto vencido quando a Sony Pictures - que ganhou os direitos de distribuição em uma disputa acirradíssima com a Warner, a Universal, a Paramount, a Lionsgate e Annapurna Pictures - preferiu adiantar a data para 26 de julho, pouco mais de dois meses depois do lançamento da produção no Festival de Cannes. Até que tal evento acontecesse, porém, muito foi dito, inventado, polemizado e misteriosamente escondido a respeito do filme. Com um roteiro secreto (lido apenas por parte da equipe de filmagem, como forma de evitar os dissabores que quase cancelaram "Os oito odiados" depois do vazamento de seu script) e notícias que chegavam aos poucos, "Era uma vez em... Hollywood" já era, muito antes de chegar às telas, uma das produções mais comentadas e esperadas da temporada - por inúmeras razões. Além do marketing espontâneo que qualquer trabalho de Tarantino gera, não era nada mal ter Brad Pitt e Leonardo DiCaprio nos papéis principais em uma trama que misturava, da forma como apenas o cineasta consegue fazer sem soar prolixo, a trajetória de Sharon Tate, a desilusão de um astro da antiga indústria com os novos tempos, a decadência de um gênero específico (o western), bastidores do cinema pelos olhos de um dublê e diálogos preciosos. Tido por Tarantino como seu filme mais pessoal - algo como "Roma" foi em relação a Alfonso Cuarón - e escrito em um período de cinco anos (nos quais o cineasta também o transformou em um romance, lançado em seguida à estreia), "Era uma vez em... Hollywood" provou que a espera valeu a pena, tanto em termos artísticos quanto comerciais. Com uma renda internacional que ultrapassou os 370 milhões de dólares, dez indicações ao Oscar (e duas categorias no bolso), o filme pode até não ter agradado a todo mundo - algo corriqueiro na filmografia de Tarantino -, mas é, inegavelmente, uma das obras cinematográficas mais importantes de seu tempo.


 Com um título inspirado em Sergio Leone e seus "Era uma vez no Oeste" (1968) e "Era uma vez na América" (1984), o nono filme de Tarantino - se as duas partes de "Kill Bill" forem consideradas apenas um único projeto - quase foi realizado em preto-e-branco e poderia ter estreado com uma duração de 4 horas e 20 minutos. Mas cinema é uma arte de concessões e do jeito que está, o filme é uma pequena obra-prima (mais uma na carreira do Tarantino diretor ). Tudo funciona perfeitamente - até mesmo o que parece gratuito tem ressonâncias bem mais profundas do que aparenta. Por trás dos longos diálogos (característica inconfundível do Tarantino roteirista) e das referências que podem soar como grego ao público médio, a trama é uma pérola de nostalgia, melancolia e pitadas generosas de uma ironia tão fina que pode até passar despercebida - ao menos até o clímax, tão inesperado e surpreendente que foi objeto de um pedido especial dos realizadores para que não fosse comentado pela imprensa ou pela plateia. Justificável: assim como em "Bastardos inglórios" (2009), Tarantino rege seu próprio universo, manda em seus próprios domínios, subverte as próprias regras e a história, se for preciso. Longe de desagradar aos puristas, encontra uma maneira de fazer com que a magia do cinema sempre se sobressaia - e sublinhe seu talento em encantar e decepcionar com a mesma intensidade.

O filme se passa em 1969, quando a Era de Ouro de Hollywood está em seus estertores. Longe de ainda ter a relevância que tinha na década de 1950, quando estrelava populares séries de western na televisão, Rick Dalton (vivido por Leonardo DiCaprio) paira sob uma Los Angeles a que mal reconhece, tentando encontrar uma maneira de manter uma carreira já tida como acabada. Vizinho do cineasta Roman Polanski (praticamente um símbolo de uma nova indústria, moderna e jovem), Dalton luta contra o próprio instinto de autodestruição enquanto relembra seus melhores momentos, ao lado de grandes atores e cercado de respeito e adulação. Invariavelmente acompanhado de seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt, vencedor do Oscar de ator coadjuvante) - bem mais confortável com as novas regras do jogo, a ponto de quase deixar-se envolver com um grupo de hippies bem mais jovens -, o ex-astro vê, aos poucos, uma nova Hollywood surgir diante de seus olhos. Enquanto isso, sua deslumbrante vizinha, Sharon Tate (Margot Robbie), começa a sentir o gostinho da fama e vislumbrar um brilhante futuro, tanto na carreira quanto na vida doméstica. Com visões distintas de sua época e de sua profissão, Dalton e Tate terão suas vidas cruzadas de forma totalmente inesperada e violenta.

Lançado no mesmo Festival de Cannes que 25 anos antes deu a Tarantino a Palma de Ouro e o aval necessário para que se tornasse um dos autores mais prestigiados do cinema norte-americano, "Era uma vez em... Hollywood" não saiu ileso a críticas e polêmicas. Se Debra Tate, irmã de Sharon, viu sua resistência ao projeto ruir ao encontrar Margot Robbie e reconhecer nela qualidades que a faziam lembrar da saudosa atriz, o mesmo não pode ser dito em relação às queixas de Shannon Lee, filha do ator Bruce Lee que não achou graça nenhuma na forma como o roteiro retratou seu pai - bastou uma única sequência para que Shannon considerasse tudo um insulto à memória do ator. Também foi alvo de críticas as liberdades artísticas tomadas pelo cineasta em relação à uma trama crucial para o roteiro: ao criar personagens novos na famigerada Família Manson (ou mesclar personagens reais com fictícios), Tarantino incomodou os puristas que esperavam uma descrição real dos crueis fatos de 6 de agosto de 1969 - que não tiveram interesse em perceber as reais intenções do diretor ao unir a realidade (ainda que alterada) com a fantasia: "Era uma vez em... Hollywood" não é um documentário sobre os assassinatos cometidos naquela fatídica noite - é uma comédia dramática sobre a união de dois mundos, sobre os meandros do destino e sobre a inexorabilidade do tempo até mesmo dentro de um universo que vende fantasia. É um filme com a cara de seu diretor - para o bem ou para o mal - e uma inteligente homenagem a uma atriz cujo futuro foi interrompido pela força do fanatismo. Como qualquer filme de Tarantino, não é para todos os públicos. Mas é sensacional!

sexta-feira

NOSSAS NOITES


NOSSAS NOITES (Our souls at night, 2017, Netflix, 103min) Direção: Ritesh Batra. Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber, romance de Kent Haruf. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: John F. Lyons. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Helen Britten. Produção executiva: Pauline Fischer, Ben Ormand. Produção: Finola Dwyer, Robert Redford, Erin Simms. Elenco: Jane Fonda, Robert Redford, Matthias Schoenaerts, Judy Greer, Bruce Dern, Phyllis Sommerville, Iain Armitage. Estreia: 01/9/2017 (Festival de Veneza)

O primeiro encontro profissional entre Jane Fonda e Robert Redford se deu em 1966, no filme "Caçada humana", dirigido por Arthur Penn e estrelado por Marlon Brando. No ano seguinte, estrelaram, no auge da beleza e da juventude, a comédia romântica "Descalços no parque", baseada em peça teatral de Neil Simon. Uma terceira parceria veio em 1979 com "O cavaleiro elétrico", dirigido por Sydney Pollack, e demorou quase quatro décadas para que uma nova colaboração chegasse até os fãs da dupla. Produzido pela Netflix, o drama romântico "Nossas noites" estreou no Festival de Veneza de 2017 e, se não fez o barulho que se poderia esperar de tal reunião isso se deve mais à despretensão do filme do que por sua possível falta de qualidades. Delicada e sensível, a adaptação do livro de Kent Haruf é um presente para um público em busca de histórias simples e bem contadas, com personagens com as quais é fácil se identificar de alguma maneira. E é claro que contar com a ajuda de Fonda e Redford não atrapalha em nada. Mesmo que não acrescente nada ao gênero e faça pouco pela carreira dos envolvidos, pode-se dizer, sem medo, que "Nossas noites" é um filme para aquecer o coração.

Sem medo de demonstrar a idade, Fonda e Redford são a principal fonte de interesse no filme dirigido pelo indiano Ritesh Batra, que ficou conhecido no Ocidente graças ao simpático "The lunchbox" (2013). Inteligente, Batra acerta em cheio a não tentar dissimular o tom quase melodramático da história e assumir seu dom para o romantismo exarcebado - ainda que pincelado com tons realistas e modernos. Fonda vive Addie Moore, uma viúva que, tentando amenizar a solidão, bate à porta de seu vizinho, Louis Waters (Redford), também viúvo, e faz a ele uma proposta inusitada: já que se conhecem há anos, ainda que superficialmente, por que não tentam dormir juntos na casa dela, como forma de fazer companhia um ao outro? A proposta é clara: não é sexo que Addie está procurando, e sim uma forma de conexão humana. Sem nada a perder, Louis aceita a nova amizade e os dois, aos poucos, começam a criar uma intimidade - ela ainda sofre com a morte precoce da filha, ainda criança, e ele tenta lidar com o sentimento de culpa de ter traído a esposa quando a filha ainda era pequena. Conforme vão se tornando mais próximos, porém, Abbie e Louis passam a ser o assunto da vizinhança - e não demoram a perceber que um sentimento muito forte está nascendo entre eles.


 

Como não poderia deixar de acontecer, no entanto, a felicidade do novo casal começa a incomodar, principalmente a Gene (Matthias Schoenaerts), filho de Abbie e ex-aluno de Louis: com o casamento em crise, Gene procura a mãe para pedir que ela fique um tempo com seu filho, Jamie (Iain Armitage), até que ele resolva sua vida. A presença do menino, ao contrário de afastá-la de seu novo amigo, faz com que Abbie o valorize ainda mais: juntos, os três formam uma nova e unida família, onde o respeito, o amor e o carinho são parte crucial da equação. Mas será que sua coragem em investir em um novo amor depois dos setenta anos valerá a pena? Ou os problemas do passado serão mais fortes que a busca pela felicidade já no outono da vida? O roteiro, escrito pelos mesmos Scott Neustadter e Michael H. Weber da comédia romântica "(500) dias com ela" (2009), não se aprofunda em tais questões, que surgem conforme a relação entre os protagonistas vai se tornando cada vez mais sincera. Assim como na vida, os problemas aparecem em cada esquina (e de tamanhos variados) e precisam ser resolvidos antes dos próximos passos, e os personagens lidam com eles sem grandes cenas dramáticas ou lágrimas desnecessárias. "Nossas noites" é um filme de pequenos momentos, de sentimentos reais e personagens que podem morar ao lado do espectador. Para uns é uma qualidade, para outros pode ser entediante.

A química entre Robert Redford - um dos produtores do filme - e Jane Fonda é preciosa. Despidos do glamour de estrelas de cinema, ambos entregam atuações comoventes, que envolvem o público sem fazer muito esforço. Apesar do início um tanto estranho - a proposta de Addie não é exatamente algo comum - e de certa demora em estabelecer obstáculos à nascente história de amor, "Nossas noites" entrega à audiência um produto com muito mais conteúdo do que boa parte de seus congêneres, normalmente dedicados à romances entre jovens fotogênicos em cenários paradisíacos. Addie e Louis vivem em uma cidadezinha do Colorado sem maiores atrativos e há muito não podem ser considerados símbolos sexuais, mas a história do escritor Kent Haruf, que morreu seis meses antes da publicação de seu livro - ressoa em qualquer lugar do mundo justamente por sua humanidade franca e honesta. Dirigido com sutileza e interpretado por dois dos maiores nomes do cinema hollywoodiano, "Nossas noites"" vale a pena. É como um chocolate quente no auge do inverno.

TRAMA MACABRA

TRAMA MACABRA (Plot family, 1976, Universal Pictures, 120min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Ernest Lehman, romance de Victor Canning. Fotografia: Leonard J. South. Montagem: J. Terry Williams. Música: John Williams. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/James W. Payne. Produção: Alfred Hitchcock. Elenco: Bruce Dern, Barbara Harris, William Devane, Karen Black, Ed Lauter, Cathleen Nesbit. Estreia: 21/3/76

O 53º e último filme do mestre do suspense - lançado quatro anos antes de sua morte, em 29 de abril de 1980 - pode ser considerado também sua mais atípica produção. Tudo bem que seu senso de humor frequentemente cruel ainda pode ser visto em algumas sequências, mas "Trama macabra" em quase nada lembra o auge do cinema de Alfred Hitchcock: sem grandes momentos de tensão, sem cenas antológicas e com personagens não exatamente carismáticos ou simpáticos, a adaptação do romance de Victor Canning feita por Ernest Lehman (colaborador do cineasta no bem mais lembrado "Intriga internacional", de 1959) é, na verdade, uma comédia de humor negro com alguns (poucos) lances de suspense e um elenco sem os grandes astros que frequentemente enfeitavam as obras do cineasta. Não deixa de ser um melancólico final de carreira para um dos maiores diretores da história do cinema.

A seu favor, pode-se dizer que, mesmo com falhas, "Trama macabra" ainda é uma obra divertida, inteligente e capaz de prender a atenção do público até seu final (um tanto anticlimático, mas coerente com seu desenvolvimento e de certa forma esperto em fugir do caminho que parecia tomar em sua primeira metade). Mesmo aos 75 anos de idade e com a saúde frágil, Hitchcock sabia como manipular as expectativas de sua plateia, e, se o resultado final dessa sua comédia de erros não é mais consistente, é justo supor que boa parte da culpa vem do fato de que o cineasta estava, então, privado de três de seus maiores e mais importantes colaboradores: o editor George Tomasini, o diretor de fotografia Robert Burks (que havia morrido em um incêndio) e o compositor Bernard Herrmann (demitido pela Universal Pictures depois de ter sua trilha para "Cortina rasgada" recusada pelo estúdio). Por mais brilhante que fosse, Hitch já não estava mais confortável em seu meio - desde "Marnie: confissões de uma ladra" (64) ele vinha perdendo sua comunicação com o público e, pior ainda, não se conformava com as mudanças radicais que haviam passado a ditar as regras da indústria. Sem os grandes astros do passado com que havia trabalhado, sem suas musas inspiradoras e sem seus parceiros habituais nos bastidores, o diretor realizou "Trama macabra" quase como uma forma de mostrar que ainda tinha suas cartas na manga e que sabia se reinventar.


Buscando inspiração na obra do cineasta alemão Ernst Lubitsch, conhecido em Hollywood por suas comédias sofisticadas, Hitchcock fez de "Trama macabra" um desvio na sua filmografia e, pela primeira vez desde "O terceiro tiro" (56) optou pela leveza como tom narrativo, deixando de lado as neuroses e paranoias de suas obras mais celebradas. Impossibilitado de contar com Al Pacino ou Jack Nicholson em um dos papéis principais - o primeiro estava em alta devido ao sucesso de "O poderoso chefão" (72) e sua continuação, e o segundo estava ocupado nas filmagens de "Um estranho no ninho" (75), que lhe daria o primeiro Oscar - e depois de descartar Goldie Hawn e Liza Minnelli para viver a protagonista, Hitchcock acertou em escalar os menos conhecidos Bruce Dern e Barbara Harris como o casal central de sua estória. Ela interpreta a falsa paranormal Blanche Tyler, que ganha a vida oferecendo consultas a pessoas interessadas em comunicar-se com seus entes queridos já mortos - e ele é seu namorado, George Lumley, um taxista que lhe passa todas as informações necessárias para que as fraudes funcionem. O filme começa quando uma das clientes de Blanche,  a milionária Julia Rainbird (Cathleen Nesbitt) pede sua ajuda para encontrar um sobrinho, abandonado ainda bebê e que agora ela pretende fazer seu herdeiro. Entusiasmados com a possibilidade de embolsar um bom dinheiro com a situação, Blanche e George entram de cabeça na investigação sobre o paradeiro do tal sobrinho - e descobrem que tem muita coisa errada na história. Enquanto isso, o ambicioso Arthur Adamson (William Devane) - dono de uma joalheria - segue uma rotina de sequestros para aumentar sua coleção de pedras preciosas e nem desconfia que é, na verdade, o futuro herdeiro de uma fortuna.

O roteiro de Ernest Lehman é inteligente e apresenta seus personagens de maneira a nunca permitir ao público a antecipação de seus próximos movimentos - até o embate final, um tudo ou nada que, apesar de prometer bastante, não chega a empolgar. Talvez o maior problema do filme seja justamente a opção de Hitchcock em forçar humor em momentos que poderiam alcançar grande potência dramática - uma perseguição automobilística, por exemplo, em que os personagens principais agem como se estivessem em uma produção da Disney e não correndo um sério perigo de morte. Essa falha, por mais proposital que seja, enfraquece o resultado final de "Trama macabra" a ponto de transformar o filme em uma obra esquecível e decepcionante - mas mesmo assim acima da média. Graças ao talento de Hitchcock em dominar as regras do seu próprio jogo, ele consegue transformar um filme menor em um entretenimento no mínimo agradável. Pouco para quem, como ele, assinou obras-primas incontestáveis - mas bem mais do muita gente já tentou realizar.

domingo

OS OITO ODIADOS

OS OITO ODIADOS (The hateful eight, 2015, Double Feature Films, 187min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Fred Raskin. Música: Ennio Morricone. Figurino: Courtney Hoffman. Direção de arte/cenários: Yohei Taneda/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Georgia Kacandes, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Richard N. Gladstein, Shannon McIntosh, Stacey Sher. Elenco: Kurt Russell, Samuel L. Jackson, Jennifer Jason Leigh, Walter Goggins, Bruce Dern, Michael Madsen, Tim Roth, Demián Bichir, James Parks, Channing Tatum. Estreia: 07/12/15

3 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Jennifer Jason Leigh), Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Trilha Sonora Original 

Já nem é mais novidade: a cada filme novo de Quentin Tarantino que chega às telas o mundo se divide entre aqueles que o incensam como um dos mais originais e inventivos cineastas norte-americanos já existentes e aqueles que questionam seu talento e criatividade, lançando mãos de críticas que - vá lá - até fazem certo sentido sob determinados pontos de vista. Porém, a verdade é que, independente do fato de gravitar sempre em um universo todo particular (aparentemente localizado em algum lugar entre os anos 70 e 80 e povoado de filmes de baixo orçamento e roteiros pra lá de bizarros), Tarantino é um dos poucos diretores em atividade no cinema americano ainda capazes de suscitar tanta discussão e despertar tanto interesse da mídia, do público e da crítica. E não poderia ser diferente em relação a "Os oito odiados", seu oitavo longa, que correu o sério risco de jamais ver a luz dos projetores quando teve seu roteiro vazado antes mesmo da fase de pré-produção. Furioso com o imprevisto - e coberto de razão - Tarantino quase desistiu do projeto mas, convencido pelo amigo Samuel L. Jackson (apaixonado pela história e pelos personagens), voltou atrás na decisão. Sorte dos fãs inveterados (que encontrarão no filme, em versão exagerada, tudo que o diretor sempre ofereceu em seus trabalhos anteriores) e azar dos detratores (que, se arriscarem uma sessão, podem correr o risco de uma overdose de longos diálogos, sangue aos borbotões e maneirismos técnicos que a tantos agrada e a tantos outros repele).

Revisitando um gênero caro à sua memória afetiva, o western (que já havia homenageado com propriedade no ótimo "Django livre"), Tarantino acrescenta a "Os oito odiados" um clima de mistério à Agatha Christie e um tom teatral que enfatiza como nunca sua facilidade absurda de criar diálogos inspiradíssimos e personagens antológicos em situações extremas. Situando sua trama em um período imediatamente posterior à Guerra de Secessão, o diretor joga o público direto no gélido frio do Wyoming, onde a diligência do caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell em um grande momento da carreira) encontra um concorrente, o famoso Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson mostrando porque é um dos maiores atores americanos de sua geração, especialmente quando dirigido por Tarantino). Warren pede que Ruth lhe dê uma carona (e aos cadáveres que ele pretende trocar por uma gorda quantia de dólares) até a cidade de Red Rock e não demora para juntar-se a ele e à sua prisioneira, Daisy Domergue (a sensacional Jennifer Jason Leigh) na difícil viagem rumo a seu destino. Domergue é uma assassina procurada que Ruth tem a intenção de entregar ao carrasco de Red Rock e todos eles se surpreendem quando, ainda no caminho em direção à cidade, eles dão de cara com Chris Mannix (Walton Goggins), que alega ser o novo xerife do local e que também pede ajuda para chegar até lá.

No meio do caminho, devido a uma nevasca, a diligência se vê obrigada a fazer uma parada inesperada na estalagem de Minnie Mink (Dana Gourrier), uma conhecida de Warren que, em viagem para visitar a mãe, deixou o local aos cuidados do mexicano Bob (Demian Bichir). Juntando-se aos demais hóspedes também presos na hospedaria - o carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o lacônico Joe Gage (Michael Madsen) e o veterano General Sandy Smithers (Bruce Dern) - os novos visitantes não demoram a perceber um clima de tensão e desconfiança no ar. O que ninguém sabe, porém, é que os comparsas de Daisy não tem a menor intenção de permitir que ela seja entregue e enforcada, e que tem um plano elaborado para resgatá-la antes de sua chegada a Red Rock. Caberá então ao perspicaz Major Warren descobrir quem do grupo reunido na hospedaria está ao lado da temida e debochada assassina.


"Os oito odiados" é Tarantino do primeiro frame - os créditos com o mesmo design dos letreiros já trai suas origens - ao último minuto - que chega somente depois de quase três horas de duração. Muitos reclamam da demora em começar a ação propriamente dita (tiros, sangue, violência), mas é difícil sentir-se incomodado ao ver em cena atores tão fantásticos - Samuel L. Jackson, Michael Madsen, Tim Roth, Bruce Dern e Jennifer Jason Leigh (os três primeiros repetindo a parceria com o diretor e Jennifer merecidamente indicada ao Oscar de coadjuvante) - desfilando seu talento pela tela. Com o auxílio luxuoso da bela fotografia de Robert Richardson (também indicada ao Oscar) e da sensacional trilha sonora do veterano Ennio Morricone (vencedor de sua primeira estatueta por seu trabalho), o filme realmente aparenta ter um problema de ritmo - só depois de uma hora e meia é que as coisas realmente começam a acontecer - mas basta olhar com atenção para perceber que nada é por acaso, nenhum diálogo é supérfluo e a longa duração serve para mergulhar o espectador na tensão indispensável ao clímax sanguinolento, de dar inveja à carnificina de "Cães de aluguel", filme de estreia de Tarantino e que o colocou, de primeira, no coração dos cinéfilos e da crítica.

Com uma violência estilizada que enfatiza seu humor nigérrimo - Jennifer Jason Leigh passa o filme inteiro sendo espancada, para horror das feministas - e o tom politicamente incorreto que sempre caracterizou a obra do diretor, "Os oito odiados" é a cara de seu criador. Seus diálogos são longos e expressivos. Sua violência é um misto de crueza e humor negro. Seu linguajar é cortante e realista, Não é uma obra-prima como "Pulp fiction, tempo de violência" ou "Bastardos inglórios", mas é mais uma declaração incontestável de um estilo cinematográfico que já está indelevelmente marcado na cultura popular norte-americana e mundial há pelo menos duas décadas, quer se goste ou não. Falem bem ou falem mal, é impossível ficar indiferente a um filme de Quentin Tarantino. E de quantos artistas se pode dizer o mesmo hoje em dia?

quarta-feira

AMARGO REGRESSO

AMARGO REGRESSO (Coming home, 1977, Jerome Hellman Productions, 127min) Direção: Hal Asbhy. Roteiro: Waldo Salt, Robert C. Jones, estória de Nancy Dowd. Fotografia: Haskell Wexler. Montagem: Don Zimmerman. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Michael Haller/George Gaines. Produção: Jerome Hellman. Elenco: Jane Fonda, Jon Voight, Bruce Dern, Penelope Milford, Robert Carradine. Estreia: 15/02/78

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Hal Asbhy), Ator (Jon Voight), Atriz (Jane Fonda), Ator Coadjuvante (Bruce Dern), Atriz Coadjuvante (Penelope Milford), Roteiro Original, Montagem
Vencedor de 3 Oscar: Ator (Jon Voight), Atriz (Jane Fonda), Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Jon Voight), Atriz/Drama (Jane Fonda)

Aguerrida militante contra a Guerra do Vietnã - o que lhe causou sérios problemas com o FBI, como ela mesma conta em sua autobiografia "Minha vida até agora" (Ed. Record) - a atriz Jane Fonda não apenas visitou o país como forma de entender os detalhes do sangrento conflito como empenhou-se em uma campanha para divulgar a maneira desumana com que os veteranos eram tratados pelo governo norte-americano. De inúmeras conversas com homens que voltaram aos EUA mutilados, paraplégicos e com sérios problemas psicológicos, surgiu a ideia de um filme que atingisse o público não através de discursos, mas de uma história dramática sobre pessoas comuns, que poderiam morar na casa ao lado do espectador. Sua tentativa de conscientizar a plateia - que contou com a ajuda de um ex-soldado chamado Ron Kovic, que estava tentando levar suas experiências para as telas em um filme chamado "Nascido em 4 de julho" - deu muito mais certo do que ela poderia imaginar. No mesmo ano em que outro filme sobre o Vietnã, "O franco-atirador", com uma visão mais conservadora da guerra, arrebatou os principais Oscar (filme e diretor para Michael Cimino), "Amargo regresso" saiu da festa da Academia com três estatuetas bastante importantes: ator, atriz e roteiro original. Era a prova inconteste de que o público americano estava mais do que disposto a ouvir e questionar um de seus maiores fracassos.

A ideia original de Fonda era contar com a direção do britânico John Schlesinger, que declinou do convite por considerar (acertadamente) que somente um cineasta norte-americano poderia contar a história explorando todas as suas nuances críticas e sentimentais. Entra em cena, então, Hal Ashby, dono de uma sensibilidade única, capaz de iluminar temas sombrios - como "Ensina-me a viver" (71), bizarra história de amor entre um adolescente e uma idosa - e criticar as instituições tradicionais - como visto em "A última missão" (73), estrelado por Jack Nicholson e que mirava a Marinha americana. Ciente das intenções sociopolíticas do roteiro desenvolvido por Waldo Salt e Robert C. Jones, Ashby abdicou da ironia característica de seus filmes anteriores para contar uma história de amor intensa e delicada, sem medo de expor com crueza e realismo todos os ângulos possíveis da trama, desde seu pacifismo explícito até seu foco na sexualidade de veteranos da guerra, algo até então nunca mostrado no cinema hollywoodiano. De forma poética e adulta, "Amargo regresso" conseguiu romper paradigmas e se tornou, com justiça, um dos filmes mais aclamados sobre o assunto, mostrando que Jane Fonda, mais do que uma militante de plantão, como a acusavam alguns detratores da época, ainda era uma atriz capaz de atrair público para as salas de cinema, mesmo em filmes com assuntos indigestos.


Em um grande momento da carreira, Fonda interpreta Sally Hyde, a esposa de um capitão do Exército americano que, sozinha em casa depois que o marido volta ao Vietnã, inicia um trabalho como voluntária em um hospital de veteranos. Chocada com a forma como muitos deles são tratados - praticamente ignorados pelo governo que os havia mandado para o conflito - ela reencontra, dentre os pacientes, um antigo colega de escola, Luke Martin (Jon Voight), paralisado da cintura para baixo e revoltado com sua situação. Convivendo com a jovem Violet (Penelope Milford, em papel oferecido à Meryl Streep e indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) - namorada de um soldado e irmã de um rapaz com sérios problemas psicológicos depois de ter voltado da Ásia - e tomando consciência de uma realidade que conhecia apenas pelos olhos miltaristas do marido (Bruce Dern, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), Sally acaba se apaixonando por Luke, iniciando um romance a que ela sente-se incapaz de resistir.

Em um papel oferecido a Sylvester Stallone, Jack Nicholson e Al Pacino, o ator Jon Voight tem o grande momento de sua carreira, com uma interpretação onde mescla indignação e doçura com uma maestria poucas vezes vista. Sua transformação no decorrer da trama - de veterano furioso a homem apaixonado e consciente de sua importância para evitar que seu drama se repita com outros jovens - é fascinante, e encontra eco em um desempenho tocante de Jane Fonda. Com uma atuação discreta e eficiente, ela faz jus a seu segundo Oscar - o primeiro foi consequência de seu trabalho em "Klute, o passado condena" (71) - sem precisar apelar para a lágrima fácil. Assim como acontece com o personagem de Voight, sua Sally Hyde passa por profundas mudanças do início ao fim do filme, e poucas intérpretes seriam capazes de apresentar tantas alterações de maneira tão sutil quanto Fonda, que transmite em cada cena a importância da mensagem pacifista da história contada. Quando estão juntos em cena, Fonda e Voight soltam faíscas - e sua cena de sexo, bem dirigida e de extremo bom-gosto, é daquelas de ficar para sempre na memória do espectador. Bonito, relevante e sensível, "Amargo regresso" é mais um marco na brilhante trajetória de Jane e um dos filmes mais importantes de sua época.

segunda-feira

MARNIE - CONFISSÕES DE UMA LADRA

MARNIE: CONFISSÕES DE UMA LADRA (Marnie, 1964, Universal Pictures, 130min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Jay Presson Allen, romance de Winston Graham. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Bernard Herrmann. Direção de arte/cenários: Robert F. Boyle/George Milo. Produção: Alfred Hitchcock. Elenco: Tippi Hedren, Sean Connery, Martin Gabel, Louise Latham, Diane Baker, Bruce Dern. Estreia: 09/7/64

Em 1962, uma das notícias mais quentes e surpreendentes que rolavam nos bastidores de Hollywood dizia respeito a uma possível volta de Grace Kelly às telas. Casada desde 1956 com o Príncipe Rainier III, do Condado de Mônaco, a bela e talentosa musa vencedora do Oscar por "Amar é sofrer" (54) estava em negociações com o cineasta Alfred Hitchcock - com quem havia realizado os inesquecíveis "Janela indiscreta" (54), "Disque M para matar" (54) e "Ladrão de casaca" (55) - para um retorno não definitivo, mas muito esperado pelo público, saudoso de uma das mais populares atrizes de sua época. Interessada no roteiro e disposta a dividir seu tempo entre as filmagens e suas responsabilidades como princesa, Kelly acabou desistindo da ideia, para tristeza dos fãs e alívio de todos que a cercavam no principado - que, como mostra o filme "Grace de Mônaco" (2014), de Olivier Dahan, passava por uma grave crise financeira e política e não via com bons olhos tal "excentricidade". É possível, também, que os conselheiros de Rainier não estivessem muito entusiasmados com a ideia de sua princesa voltar aos cinemas interpretando uma cleptomaníaca frígida e com traumas de infância bem pouco compatíveis com sua imagem pública. Era o fim de um sonho - e Kelly nunca mais faria nenhum outro filme.

A saída de Grace Kelly do elenco de "Marnie, confissões de uma ladra" não chegou a ser uma surpresa para Hitchcock, que, apesar de sua amizade com a atriz, sabia dos empecilhos que a impediam de aceitar seu convite. Com o papel principal sem dona, o cineasta começou, então, uma sofrida procura por alguém capaz de interpretar todas as nuances da personagem - e que aceitasse seus métodos algumas vezes heterodoxos de direção. Nomes como Eva Marie Saint - com quem ele havia trabalhado em "Intriga internacional" (59) - e Vera Miles - com quem o diretor mantinha uma relação de amor e ódio desde que ela havia engravidado pouco antes de começar a filmar "Um corpo que cai" (58) - foram levantados como hipóteses plausíveis, e até mesmo Marilyn Monroe foi cogitada, depois de ter demonstrado interesse no projeto. No final das contas, depois de estudar diversas possibilidades, Hitchcock acabou recorrendo à protagonista de seu filme anterior, "Os pássaros" (63) - e ofereceu à Tippi Hedren a maior personagem de sua carreira. Mesmo que pelo período de filmagens ela e o cineasta tenham se estranhado constantemente, o resultado final acabou por compensar qualquer problema: nunca a mãe de Melanie Griffith esteve tão bem em cena quanto nesse atípico drama de suspense, com conotações sexuais ousadas até mesmo para os liberais anos 60.


Baseado em um romance de Winston Graham - que declarou posteriormente que teria cedido da graça os direitos de sua obra à Hitchcock, dada a sua importância na história do cinema - "Marnie" começou a ser adaptado pelo mesmo Joseph Stefano que havia assinado "Psicose", um dos maiores sucessos de bilheteria do diretor. O roteiro de Stefano (com Grace Kelly em mente para a personagem-título) era mais próximo da obra original, mas acabou sendo deixado de lado quando a princesa deixou o projeto. Entre as alterações mais significativas do novo texto, sob o comando de Jay Presson Allen, estava a eliminação de um personagem crucial (um psiquiatra que ajudaria Marnie a enfrentar seus fantasmas do passado) e um segundo pretendente ao coração da protagonista, transformado, no filme, na cunhada de Mark (Sean Connery), a dedicada Lil (papel que foi cobiçado por Jane Fonda mas que acabou nas mãos de Diane Baker). Tendendo muito mais para o drama psicológico do que para o suspense, o roteiro final de "Marnie, confissões de uma ladra" acabou oferecendo à Hedren a chance de mostrar outra faceta de seu talento - e de comprovar Hitchcock como um cineasta capaz de buscar elementos de gêneros diversos para mesclar a seu universo particular.

O filme conta a complexa e estranha história de amor entre Marnie Edgar (Tippi Hedren), uma cleptomaníaca com sérios problemas de relacionamento com mãe, Bernice (Louise Latham), e o milionário Mark Rutland (Sean Connery já tentando ser mais do que James Bond, em papel cogitado para Paul Newman, Marlon Brando e Peter O'Toole). Sabendo dos problemas de Marnie, Mark se casa com ela ao invés de denunciá-la, mas descobre, na lua-de-mel, que roubar é o menor dos males da jovem esposa: acontecimentos traumáticos em seu passado a levam a recusar qualquer tipo de toque, além de ter ataques histéricos sempre que vê a cor vermelha. Disposto a ajudá-la a superar seus dramas, Mark lhe propõe repor tudo que ela roubou, desde que ela aceite ser analisada. Equilibrando cenas de puro suspense - um roubo de Marnie quase sendo descoberto por uma faxineira, por exemplo - com momentos que traem a tendência da época em utilizar-se da psicanálise como instrumento narrativo, Hitchcock abandona sua zona de conforto ao criar um protagonista masculino de índole dúbia - Mark praticamente estupra Marnie na lua-de-mel - e uma heroína tragicamente presa a um passado violento e brutal. Ao oferecer ao casal uma chance de redenção, o cineasta mostra que, no fundo, por trás de seu quase cinismo, ainda existia um romântico. A seu modo tortuoso, "Marnie, confissões de uma ladra" é, no fim das contas, um romance torturado e angustiante como somente Hitch conseguiria realizar.

quarta-feira

NEBRASKA

NEBRASKA (Nebraska, 2013, Paramount Vantage, 115min) Direção: Alexander Payne. Roteiro: Bob Nelson. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Kevin Tent. Música: Mark Orton. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Fontaine Beauchamp. Produção executiva: Doug Mankoff, George Parra, Neil Tabatznik, Julie M. Thompson. Produção: Albert Berger, Ron Yerxa. Elenco: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb, Bob Odenkirk, Stacy Keach. Estreia: 23/5/13 (Festival de Cannes)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alexander Payne), Ator (Bruce Dern), Atriz Coadjuvante (June Squibb), Roteiro Original, Fotografia
Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Ator (Bruce Dern) 

Alexander Payne é um cineasta que nutre um carinho todo especial por aquilo que a sociedade americana – tão cega em sua busca da perfeição – convencionou chamar de “perdedor”. Em maior ou menor grau, a grávida drogada de “Ruth em questão” (96), a estudante obsessiva de “Eleição” (99), o viúvo ranzinza de “As confissões e Schmidt” (02), os amigos em uma última viagem de solteiros de “Sideways, entre umas e outras” (05) e o pai de família que se descobre traído pela esposa em “Os descendentes” (11) são todos personagens deslocados de alguma forma em um mundo aparentemente hostil a qualquer tipo de fraqueza. “Nebraska”, filme com o qual Payne voltou à disputa do Oscar na cerimônia de 2014, volta a retratar tipos semelhantes. Pela primeira vez trabalhando com um roteiro alheio – Bob Nelson perdeu a estatueta dourada para Spike Jonze e seu genial “Ela” – o diretor, cuja marca registrada é o preciso equilíbrio entre o humor e a melancolia, consegue atingir o máximo de harmonia entre esses dois elementos em um filme brilhante, que além de emocionar e fazer rir, deu a Bruce Dern um dos melhores papéis de sua carreira – presente que o veterano ator retribuiu com uma interpretação avassaladora.
Injustamente derrotado no Oscar por Matthew McConaughey – por seu desempenho físico e pouco emocional em “Clube de Compras Dallas” – Dern dá um show na pele de Woodrow T. Grant, ou simplesmente Woody, um octogenário um tanto mau-humorado que leva uma vida pacata e sem sobressaltos na pequena cidade de Billings, no estado de Montana, ao lado da esposa, a atrevida Kate (June Squibb). Desorientado psicologicamente, ele recebe pelo correio uma carta que lhe avisa do prêmio de um milhão de dólares que ele precisa buscar em Lincoln, localizada em Nebraska. Sem dar ouvidos à família de que tudo não passa de uma propaganda sem nenhum valor real, Woody finca pé na ideia de viajar para resgatar sua bolada. Para não deixar o pai sozinho, seu filho caçula, David (Will Forte) – que passa por uma crise matrimonial e existencial – resolve acompanhá-lo, e os dois iniciam uma longa jornada estrada afora. Antes do final do caminho, porém, eles param na casa do irmão de Woody – pai de três filhos mal-encarados e pouco inteligentes – e David começa a conhecer um outro lado da personalidade do pai.
Caminhando pelas ruas enfadonhas da cidade, David não apenas percebe a mudança na forma como todos passam a tratar Woody depois que sabem que ele “ficou milionário” como descobre fatos desconhecidos não apenas por ele, mas também por seu irmão mais velho, Ross (Bob Odenkirk) – coisas como o seu relacionamento com outra mulher, o desejo de não ter tido o segundo filho e até uma certa generosidade com os amigos que não condiz com o tipo de pessoa que tornou-se. No centro de tudo está Ed Pegram (Stacy Keach), que insiste em cobrar uma dívida antiga – sendo que, segundo o velho e quase senil Woody, ele é quem lhe deve uma máquina compressora de ar, emprestada há décadas. O confronto entre esses dois seres totalmente díspares – o jovem Woody e quem ele é diante dos filhos – é o cerne de “Nebraska”, e Payne o trata com extrema delicadeza e altas doses de humor negro.




Sem deixar-se levar pelo patético da premissa inicial, que poderia resultar tanto em um dramalhão choroso sobre as limitações da terceira idade quanto em uma comédia pastelão a respeito da vida medíocre das cidades do interior, o roteiro de Bob Nelson é um primor de inteligência, sarcasmo, sensibilidade e clareza, que proporciona a seus atores a chance de um brilho sutil mas incandescente. Will Forte, um ator conhecido apenas por comédias televisivas, sustenta com firmeza um personagem que, em mãos menos capazes, poderia servir apenas como escada para o espetacular Bruce Dern – seu olhar cansado e desanimado reflete com exatidão uma multidão de homens que não se encaixam no mundo de bem-sucedidos super-heróis promovido pela sociedade norte-americana e sua tentativa de reatar os vínculos emocionais com o pai acabam por cativar o público sem que seja necessário apelar para as cenas de catarse tão comuns no cinema comercial hollywoodiano. June Squibb ameaça roubar a cena sempre que aparece, vivendo com perceptível gosto todas as nuances de sua Kate, uma aparentemente doce e compassiva dona-de-casa que mostra sua força em uma cena sensacional, onde desafia toda a família do marido, de olho em sua pretensa fortuna: sua indicação ao Oscar de atriz coadjuvante foi justíssima e, não fosse o forte desempenho da vencedora Lupita Nyong’O em “12 anos de escravidão”, sua vitória teria sido totalmente merecedora. Mas, apesar dos coadjuvantes impecáveis, é impossível não reconhecer que “Nebraska” é, sem dúvida, um show de Bruce Dern.
No inverno de sua carreira, Dern tornou-se o mais velho indicado ao Oscar de melhor ator da história, e fez jus à indicação. Mesmo na pele de um personagem não exatamente simpático ou meramente agradável, o veterano ator, pai da atriz Laura Dern, entrega um desempenho nunca aquém de extraordinário. Recitando os diálogos ácidos do roteiro de Nelson ou demonstrando com sutileza os efeitos do tempo sobre a razão de seu Woody, Bruce ganha a plateia não por ser um velhinho digno de compaixão, mas por fazer dele um homem comum, real, dotado mais de defeitos do que qualidades mas que, mesmo assim, merece uma nova chance de realizar seus sonhos – mesmo que, para isso, precise envolver toda a família em sua odisseia. Emoldurada pela deslumbrante fotografia em preto-e-branco de Phedon Papamichael que enfatiza o tom de aridez do interior dos EUA, a narrativa de Alexander Payne se equilibra magicamente no fio da navalha entre o riso e a lágrima, sem nunca, porém, buscar a gargalhada fácil: seu humor discreto e seco é o reflexo perfeito de sua emoção elegante e surpreendente. Quando os dois elementos se encontram na mesma cena é que fica evidente, até mesmo ao mais distraído espectador, o talento do cineasta em costurar, de forma quase invisível, uma coesão entre roteiro, elenco e diretor. Mesmo àqueles avessos a dramas familiares “Nebraska” é imperdível.
 Simples, delicado, muito engraçado e por vezes comovente, “Nebraska” é uma pequena obra-prima, realizada por um cineasta que entende de gente e de emoções, coisa cada vez mais rara em uma indústria muito mais inclinada a efeitos visuais e tiroteios do que a histórias sobre gente como a gente.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...