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sábado

EU SEI O QUE VOCÊS FIZERAM NO VERÃO PASSADO

EU SEI O QUE VOCÊS FIZERAM NO VERÃO PASSADO (I know what you did last summer, 1997, TriStar/Columbia Pictures, 101min) Direção: Jim Gillespie. Roteiro: Kevin Williamson, romance de Lois Duncan. Fotografia: Denis Crossan. Montagem: Steve Mirkovich. Música: John Debney. Figurino: Catherine Adair. Direção de arte/cenários: Gary Wissner/James Edward Ferrell Jr.. Produção executiva: William S. Beasley. Produção: Stokely Chaffin, Erik Feig, Neal H. Moritz. Elenco: Jennifer Love Hewitt, Freddie Prinze Jr., Ryan Phillippe, Sarah Michelle Gellar, Anne Heche Estreia: 17/10/97

Na segunda metade dos anos 1990, poucos nomes em Hollywood eram tão quentes quanto o de Kevin Williamson. Autor do roteiro de "Pânico" (1996), o slasher movie que devolveu o prestígio (e o sucesso de bilheteria) a Wes Craven, ele ainda era o criador da série dramática "Dawson's Creek" (que revelou Katie Holmes e Michelle Williams) - e parecia que tudo que tinha seu nome era uma mina de ouro a ser explorada. Por isso, ninguém ficou surpreso quando a Columbia Pictures resolveu dar o sinal verde a "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado", adaptação do livro de Lois Duncan que Williamson já tentava vender antes mesmo da estreia do filme de Craven. Nas mãos do roteirista mais celebrado da época, o romance de Duncan foi totalmente modificado para melhor apetecer às plateias juvenis sedentas por sangue e transformou-se em outro êxito comercial. Com uma renda mundial de mais de 125 milhões de dólares, popularizou ainda mais seu jovem e atraente elenco e confirmou a estrela de Williamson - ao menos até o desgaste de sua fórmula e o decrescente interesse por seus trabalhos seguintes (de certa forma proporcional à qualidade deles). Feito para assustar e lucrar em cima de um gênero então renascido das trevas, o filme de estreia de Jim Gillespie - oriundo do mundo dos videoclipes - cumpre o que promete, mas soa (bastante) como um produto requentado e sem muita criatividade.

É claro que o público-alvo do filme não é exatamente exigente, e seu sucesso mundial confirma o fato. Seguindo à risca a receita de produções como a cinessérie "Sexta-feira 13" - a saber: muitos sustos, violência, sangue aos borbotões e um elenco fotogênico interpretando personagens rasos -, "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado" não apresenta novidades, mas ao menos tem a seu favor uma produção caprichada e alguns bons momentos de tensão. A história é derivativa e nem faz muito sentido no final das contas, mas ao menos a plateia que procura diversão no gênero não tem do que se queixar: as mortes são bem elaboradas, o suspense é razoavelmente bem construído e, como é frequente em filmes assim, os personagens são tão chatos e bobos que é difícil não torcer pelo assassino - seja ele quem for. E no caso do filme de Gillespie, pode-se dizer até que isso é o que menos interessa, já que o roteiro tem reviravoltas e pistas falsas em número suficiente para preencher os minutos entre um assassinato e outro mas acaba de forma anticlimática e forçada - já pensando em um novo capítulo.


A trama se passa em uma pequena cidade litorânea e começa no feriado de 4 de julho - no último verão em que quatro amigos ainda estarão juntos antes de começarem a faculdade. Depois de uma noite de diversão e bebidas, porém, um trágico acidente muda suas vidas para sempre. Único dos quatro a não estar bêbado, Ray (Freddie Prinze Jr.) acaba atropelando um desconhecido, para desespero do dono do carro, Barry (Ryan Phillippe), e de suas namoradas, Julie (Jennifer Love Hewitt) e Helen (Sarah Michelle Gellar). Com medo que o desastre atrapalhe seus planos para o futuro, o grupo resolve se livrar do corpo jogando-o no mar - e não mudam de ideia nem mesmo quando descobrem, talvez tarde demais, que a vítima ainda não estava morta. Fazendo um pacto de silêncio, eles decidem seguir suas vidas como se nada tivesse acontecido. Um ano mais tarde, no entanto, o passado volta para lhes assombrar: alguém não apenas sabe o que aconteceu na fatídica noite e está mandando recados para os quatro mas também está decidido a matar um por um dos jovens.

A partir daí, o roteiro de Kevin Williamson abandona o livro original e parte para a matança geral. O assassino - munido de um gancho no lugar de uma das mãos - sai à caça dos protagonistas sem dó nem piedade, e o grupo tenta, de todas as maneiras possíveis, descobrir sua identidade antes de se tornar a próxima vítima. Nessa busca, eles mergulham em histórias antigas da cidade, cruzam com tipos assustadores (como a mecânica interpretada por Anne Heche) e descobrem que ninguém está imune a suspeitas - nem mesmo eles próprios. O filme cria algumas sequências interessantes - o mínimo que se espera de um bom slasher - mas peca em fazer de seus personagens principais apenas estereótipos batidos (o galã, a princesa, a nerd e o pobre) e sem muita empatia. Ryan Phillippe e Sarah Michelle Gellar voltariam a atuar juntos em "Segundas intenções" (1999) - e ela se tornaria estrela da série de TV "Buffy: a caça-vampiros" - e Freddie Prinze Jr. apostaria em comédias românticas antes de sumir dos holofotes. Da mesma forma que Sarah Michelle, Jennifer Love Hewitt (que já fazia sucesso na televisão, como parte do elenco de "O quinteto") deu continuidade à carreira na telinha, estrelando "Ghost whisperer" e tentando emplacar como cantora - depois de participar das continuações cada vez piores do filme original. No final das contas, "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado" é uma sessão nostálgica e descerebrada de um período específico da indústria do terror em Hollywood - que atingiu seu ápice com "Pânico" e degenerou em produções totalmente desprovidas de charme e inteligência.

segunda-feira

A CONQUISTA DA HONRA

A CONQUISTA DA HONRA (Flags of our fathers, 2006, Warner Bros/DreamWorks Pictures, 135min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: William Broyles Jr., Paul Haggis, livro de James Bradley, Ron Powers. Fotografia: Tom Stern. Montagem: Joel Cox. Música: Clint Eastwood. Figurino: Deborah Hopper. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/Richard Goddard. Produção: Clint Eastwood, Robert Lorenz, Steven Spielberg. Elenco: Ryan Philippe, Jesse Bradford, Adam Beach, John Benjamin Hickey, Paul Walker, Barry Pepper, John Slattery, Jamie Bell, Robert Patrick, Melanie Linskey, Neal McDonough, Judith Ivey. Estreia: 20/10/06

2 indicações ao Oscar: Montagem de Som, Mixagem de Som

Publicado em maio de 2000, o livro "Flags of our fathers", de James Bradley e Ron Powers imediatamente chamou a atenção de um dos monstros sagrados do cinema americano, o eterno cowboy Clint Eastwood, sempre em busca de matéria-prima para seus filmes - de preferência quando existe a possibilidade de transformar as tramas em estatuetas douradas. Para sua decepção, porém, Eastwood descobriu que os direitos de filmagem do livro já não estavam mais disponíveis e estavam já em desenvolvimento sob o comando de outro mago do cinema, Steven Spielberg - que já tinha inclusive contratado roteirista para a adaptação. Mas como nem sempre as coisas caminham rapidamente em Hollywood, Eastwood viu a chance de assumir as rédeas do projeto quando, ao encontrar Spielberg em uma festa pós-Oscar 2004, soube que o autor de "A lista de Schindler" estava insatisfeito com os rumos da produção e em vias de abandonar seus planos de dirigí-la. Surgia, então, uma parceria inédita entre dois dos mais bem-sucedidos cineastas do cinemão americano: com Spielberg na produção e Eastwood na direção, "A conquista da honra" tornou-se metade de um ambicioso projeto do eterno Dirty Harry, que resolveu lançar praticamente ao mesmo tempo, um filme sobre a II Guerra Mundial sob o ponto de vista dos soldados japoneses, chamado "Cartas de Iwo Jima".

Com o enorme sucesso de crítica de "Iwo Jima", que chegou a ser indicado ao Oscar de melhor filme do ano - mas perdeu para "Os infiltrados", de Martin Scorsese - a história dos três jovens soldados que tem suas vidas transformadas quando se tornam ícones da campanha americana no campo de batalha acabou sendo deixada de lado e quase passou em brancas nuvens junto aos eleitores da Academia - aliás, a não ser que meras duas indicações na área de som podem ser consideradas relevantes, na verdade ela FOI sumariamente ignorada. Uma injustiça, já que, além de ser tecnicamente impecável, apresenta a ressonância dramática e sentimental sutil que é a marca registrada de Eastwood em seus melhores momentos - caso de "As pontes de Madison" e "Menina de ouro". Narrado de forma minimalista e delicada, "A conquista da honra" é um dos grandes filmes do cineasta, equilibrando sequências de guerra dirigidas com extrema competência com cenas que exploram de maneira discreta os traumas de um conflito bélico violento e arrasador.


A base do filme é a famosa fotografia tirada em 23 de fevereiro de 1945 por Joe Rosenthal na ilha de Iwo Jima e que mostra seis soldados americanos içando um bandeira dos EUA - uma imagem que, por sua força dramática, acaba sendo usada pelo governo como forma de levantar a moral do povo (combalida por vários anos de guerra) e realçar o heroísmo dos combatentes (muitos deles há muito tempo longe de seus lares). Como sempre acontece em situações como essa, porém, nem sempre a verdade chega inteira até o público: isso fica claro quando três dos jovens fotografados (os três que sobreviveram a várias batalhas posteriores à imagem) são retirados do front para participarem de uma excursão pelo país, com o objetivo de incrementar as vendas dos bônus de guerra. Sendo assim, o enfermeiro John 'Doc' Bradley (Ryan Philippe), o austero Rene Gagnon (Jesse Bradford) e o indígena Ira Hayes (Adam Beach) tornam-se ídolos de todo o país, mesmo escondendo dentro de si segredos e pesadelos que somente aqueles que testemunharam os confrontos são capazes de manter. Além disso, Hayes sente-se discriminado por sua origem indígena e Bradley sente-se profundamente incomodado com tamanha popularidade - fato que, conforme Gagnon irá descobrir bem cedo, não lhes trará a segurança que eles precisam.

Fugindo da tradicional estrutura dos filmes sobre a II Guerra e inserindo flashbacks na narrativa de forma a informar o público sobre os acontecimentos que levaram os protagonistas ao posto de heróis da nação - e frequentemente deixando bem claro que nem sempre a ética e a verdade andam juntas com os interesses da propaganda de guerra - "A conquista da honra" faz parte do conjunto de filmes revisionistas sobre o conflito, substituindo o tradicional orgulho da vitória pelo desconforto a respeito de suas consequências. Para isso, conta com um trabalho inspirado do grande elenco, onde destaca-se o ótimo Adam Beach, que constroi um Ira Hayes complexo e turbulento em seus confrontos pessoais (muitos dos quais advindos do fato de sua origem e do preconceito que ela acarreta em sua vida mesmo depois de sua "consagração" como herói). Até mesmo Ryan Philippe, normalmente um ator apático e sem carisma, consegue uma interpretação satisfatória, o que comprova o talento de Eastwood na direção de atores.

Sem o ranço patriótico que normalmente acompanha os filmes americanos sobre a II Guerra, "A conquista da honra", apesar do título, é um filme melancólico, triste e bem longe de ser uma apologia disfarçada à violência nacionalista. É um dos grandes filmes da carreira de Eastwood, um cineasta de extrema competência - mesmo que muitas vezes não consiga esconder um lado reacionário e conservador em excesso que o faz cometer barbaridades como "Sniper americano".

quinta-feira

ASSASSINATO EM GOSFORD PARK

ASSASSINATO EM GOSFORD PARK (Gosford Park, 2001, USA Films/Capitol Films, 137min) Direção: Robert Altman. Roteiro: Julian Fellowes. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Tim Squyres. Música: Patrick Doyle. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Stephen Altman/Anna Pinnock. Produção executiva: Jane Barclay, Sharon Harel, Robert Jones, Hannah Leader. Produção: Robert Altman, Bob Balaban, David Levy. Elenco: Maggie Smith, Michael Gambon, Kristin Scott Thomas, Camilla Rutherford, Charles Dance, Tom Hollander, Jeremy Northam, Bob Balaban, Ryan Phillipe, Stephen Fry, Kelly McDonald, Helen Mirren, Clive Owen, Eileen Atkins, Emily Watson, Derek Jacobi, Richard E. Grant. Estreia: 07/11/01 (Festival de Londres)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Altman), Atriz Coadjuvante (Helen Mirren), Atriz Coadjuvante (Maggie Smith), Roteiro Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Robert Altman) 

Uma luxuosa casa de campo inglesa pré-II Guerra. Um fim-de-semana festivo, com convidados elegantíssimos e criados dedicados mas um tanto ressentidos. Um anfitrião aparentemente generoso, mas dono de segredos pouco louváveis. Esnobes britânicos e "vulgares" americanos da terra do cinema. E um homicídio misterioso cometido na biblioteca obrigando um típico inspetor a penetrar em um mundo de meias-verdades, traições e romances escusos. Parece Agatha Christie, mas é apenas "Assassinato em Gosford Park", o filme que deu ao cineasta Robert Altman sua última indicação ao Oscar, em 2002. Seguindo sua prática de trabalhar com um numeroso elenco de nomes de primeira linha - aqui atores britânicos consagrados nos palcos - ele brinca com a tradição dos romances policiais em um filme que, apesar do título e das características marcantes de um gênero específico, é mais uma dura crítica ao sistema de classes inglês do que um mero whodunit.

Com base em uma ideia de Altman e do ator Bob Balaban, o roteirista Julian Fellowes - que acabou por ganhar uma estatueta da Academia e depois tornou-se o criador da aclamada série "Dowtown Abbey" - utilizou-se de seu vasto conhecimento sobre os hábitos da alta sociedade britânica dos anos 30 para escrever uma astuciosa história a respeito não apenas de um assassinato, mas das engrenagens que moviam/movem/moverão o dia-a-dia e a rotina de patrões e empregados nem sempre felizes com suas relações de poder e hierarquia. Sutilmente explicitando tais relações em cada cena (nenhum personagem é mostrado sem que um empregado esteja por perto, por exemplo), Altman conquistou a crítica também por espalhar por seu filme uma elegância que reflete com perfeição a frieza e a indiferença dos personagens em relação à tragédia ocorrida em um dos aposentos da mansão: para os serviçais importa mais manter o funcionamento das refeições; para os aristocratas, tudo não passa de mais um aborrecimento que interrompe um fim-de-semana já movimentado o bastante por intrigas de bastidores. Essa opção do diretor apenas confirma seu estilo inconfundível, que a tantos agrada e a outros tantos repele. "Assassinato em Gosford Park" pode fascinar ou ser simplesmente chato. Depende apenas do gosto do espectador.


A história se passa em novembro de 1932, na casa de campo do benemérito William McCordle (Michael Gambon), que recebe convidados para um fim-de-semana regado a uma caçada em sua propriedade e jantares refinados, criados pela veterana cozinheira Mrs. Croft (Eileen Atkins) e organizados pela rígida governanta, Mrs. Wilson (Helen Mirren). Casado com a esnobe Lady Sylvia (Kristin Scott Thomas), o aristocrata McCordle não é exatamente um homem gentil ou delicado, mas é tratado com deferência pelos convidados, uma vez que, em maior ou menor grau, todos eles precisam de seu dinheiro,seja para manter um estilo de vida sofisticado, financiar um filme, manter uma pensão tida erroneamente como vitalícia ou evitar uma falência. Enquanto no andar de cima o jogo de interesses corre solto e pouco sutil, na parte de baixo da mansão, os criados vivem seus próprios dramas - que se misturam aos dos patrões quando o anfitrião aparece morto e a polícia surge para investigar o caso.

Em um elenco repleto de grandes atores do teatro e do cinema britânicos (o americano Ryan Philippe interpreta o criado de um astro do cinema vivido por Jeremy Northam), é difícil dizer quem está melhor. Maggie Smith e Helen Mirren foram indicadas ao Oscar de coadjuvante - a primeira pela interpretação de uma dama antipática e interesseira que vive da pensão da vítima do homicídio e não esconde seu desprezo pelos americanos e por aqueles abaixo dela na escala social, e a segunda como a líder dos empregados que esconde um segredo doloroso sobre o passado de seu patrão - mas outros nomes se destacam diante dos lúcidos diálogos de Fellowes. É o caso de Kristin Scott Thomas, mais uma vez demonstrando seu imenso talento como Lady Sylvia - uma viúva pouco propensa a sofrer pela morte do marido - e Eileen Atkins, que somente no terço final da narrativa mostra o poder de sua personagem, até então relegada a um injusto segundo plano. Dirigidos como se estivessem em uma bela peça teatral, todos brindam o espectador com trabalhos discretos e minimalistas, valorizados pelo roteiro aparentemente simples mas repleto de camadas que somente a experiência de Altman conseguiria orquestrar.

"Assassinato em Gosford Park" concorreu a sete Oscar, mas bateu de frente com "Uma mente brilhante" e "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" na busca pelas estatuetas. Foi (mais) um retorno de Altman às boas graças da crítica e da Academia, fato que não se repetiria mais até sua morte em 2006. Pode-se dizer que foi um testamento à altura de uma carreira que sempre teimou em não respeitar convenções comerciais - ou então revirá-las a ponto de torná-las irreconhecíveis. Não é um filme para todos, e sim para seus fãs - que não são poucos.

segunda-feira

CRASH, NO LIMITE


CRASH, NO LIMITE (Crash, 2004, LionsGate Films, 112min) Direção: Paul Haggis. Roteiro Paul Haggis, Bobby Moresco. Fotografia: J. Michael Munro. Montagem: Hughes Winborne. Música: Mark Isham. Figurino: Linda Bass. Direção de arte/cenários: Laurence Bennett/Linda Sutton-Doll. Produção executiva: Marina Grasic, Jan Korbelin, Tom Nunan, Andrew Reimer. Produção: Don Cheadle, Paul Haggis, Mark R. Harris, Bobby Moresco, Cathy Schulman, Bob Yari. Elenco: Sandra Bullock, Brendan Fraser, Don Cheadle, Matt Dillon, Ryan Phillipe, Terrence Howard, Thandie Newton, Michael Peña, Loretta Devine, Jennifer Esposito, William Fichtner. Estreia: 21/4/05

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Paul Haggis), Ator Coadjuvante (Matt Dillon), Roteiro Original, Montagem, Canção ("In the deep")
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Montagem 

Era uma vez um filme convencional, repleto de clichês, com um elenco pretendendo ser levado a sério e com vontade de parecer profundo que, por causa da hipocrisia dos membros de mentalidade fechada da Academia de Hollywood ganhou o Oscar de Melhor Filme no mesmo ano em que a história de amor e preconceito entre dois cowboys gays levou todos os prêmios confiáveis distribuídos pelo mundo graças a sua qualidade e sensibilidade. Esse filme - o que em tese era corajoso por tratar de racismo e diferenças sociais em uma Los Angeles que servia de microcosmo do país - se chama "Crash, no limite" e, a despeito de algumas qualidades, não passa de um telefilme com grande elenco e roteiro superficial.

Co-escrito e dirigido por Paul Haggis - que despontou para a fama quando escreveu o roteiro do premiadíssimo "Menina de ouro", de Clint Eastwood - "Crash" é mais um filme que se utiliza da velha estrutura de histórias paralelas para disfarçar a falta de profundidade de suas personagens, todas elas construídas de forma mais a servir à narrativa do que qualquer outra coisa. Em comédias românticas o artifício funciona; em um filme que se propõe a discussões sérias é um pecado bastante grave, especialmente quando o assunto é palpitante e polêmico quanto aqui. No final, tudo se resume a uma tese ambiciosa, mas sem maiores fundamentos que a possam sustentar. Felizmente, nem tudo são pedras. Existem flores no meio do caminho e - apesar de não justificarem os elogios rasgados e tampouco o Oscar de melhor filme - elas conseguem ao menos tornar a missão de assistir ao filme de Haggis um passatempo no mínimo fluente.



Seguindo o estilo que Robert Altman consagrou em filmes como "Nashville" e "Short Cuts" - e com o qual não teve a mesma sorte em "Pret-à-porter" - "Crash" narra várias histórias que tem em comum os fatos de se passarem em Los Angeles e serem focadas no racismo (em várias nuances). Aos poucos o público é apresentado aos policiais Tom Hansen (Ryan Phillipe) - que está em vias de perder parte de sua inocência profissional - e John Ryan (Matt Dillon, inexplicavelmente indicado a um Oscar de coadjuvante) - que em menos de 24 horas tem a chance de se redimir diante da esposa (Thandie Newton) de um produtor de TV (Terrence Howard, excelente) com quem teve um comportamento reprovável. Também é apresentado à audiência o casal de ricaços Jean e Rick Cabot (Sandra Bullock e Brendan Fraser) - que depois de um assalto passam a desconfiar de qualquer um que não seja branco, anglo-saxão e protestante -, o trabalhador latino Daniel (Michael Peña) - que encontra dificuldades por ser de uma raça considerada "inferior" pelos moradores de sua cidade - e o detetive Graham Waters (Don Cheadle no melhor papel do filme), que precisa lidar com o irmão marginal e a mãe doente. Ao redor deles, outras personagens compõem um mosaico de preconceito e hipocrisia.

O roteiro de Haggis e Bobby Moresco apresenta suas personagens e tramas de maneira ágil e direta, mas
pecam por ter medo de ir até os limites do drama. Não há nenhum momento catártico em sua história, nenhum choque que tire o espectador de sua zona de conforto - como o faz "A outra história americana", por exemplo. Quando isso está perto de acontecer - em uma cena tensa entre Daniel, sua filha pequena e um cliente insatisfeito - os roteiristas preferem o caminho da espiritualidade e frustram a expectativa do público em testemunhar o que poderia ser um grande momento dramático. E quando tem a coragem de matar uma personagem fazem uma escolha pouco ousada - ainda que isso dê a Don Cheadle a chance de explorar o papel menos superficial de toda a trama.

Não é que "Crash, no limite" seja absurdamente ruim ou algo que o valha. É que levanta questões importantes sem discutí-las a contento e promete muito mais do que cumpre. Condena o que é realmente condenável mas não passa de um mero observador quase covarde. E nem é tão brilhantemente dirigido a ponto de fazer de Sandra Bullock e Ryan Phillipe atores convincentes. Sua falta de contundência é seu maior - e fatal - pecado. E, convenhamos, talvez tenha sido essa militância rasa que tanto encantou aos obtusos (para não dizer tacanhos) e os fez abraçar um filme apenas ok como melhor do que o extremamente superior "O segredo de Brokeback Mountain".

quinta-feira

SEGUNDAS INTENÇÕES


SEGUNDAS INTENÇÕES (Cruel intentions, 1999, Columbia TriStar Pictures, 97min) Direção: Roger Kumble. Roteiro: Roger Kumble, romance "As relações perigosas", de Choderlos de Laclos. Fotografia: Theo van de Sande. Montagem: Jeff Freeman. Música: Edward Shearmur. Figurino: Denise Wingate. Direção de arte/cenários: Jon Gary Steele/Tessa Posnansky. Produção executiva: Michael Fottrell. Produção: Neal H. Moritz. Elenco: Sarah Michelle Gellar, Ryan Philippe, Reese Witherspoon, Selma Blair, Louise Fletcher, Joshua Jackson, Eric Mabius, Sean Patrick Thomas, Swoosie Kurtz, Christine Baranski, Tara Reid. Estreia: 05/3/99

A história de “Segundas intenções” já frequentou as telas de cinema algumas vezes, sendo a mais notável a adaptação de Stephen  Frears de 1988 chamada adequadamente de “Ligações perigosas” e vencedora de 3 Oscar. No entanto, como é bem pouco provável que o público mais jovem – diga-se recém saído da adolescência – tenha sido atraído por uma trama passada na França pré-revolução, não deixa de ser interessante e oportunista – no bom sentido – que o roteirista e diretor Roger Kumble tenha tido a ideia de transferir a história de sexo, intrigas e vingança do escritor Choderlos de Laclos para a Nova York do final do século XX, com pequenas alterações e poucas ambições.

Sarah Michelle Gelar (da série de TV “Buffy, a caça-vampiros”) vive Kathryn, uma jovem milionária, viciada em cocaína e sexo, e hipócrita em todos os sentidos que não se conforma de ter sido abandonada pelo namorado, que agora está apaixonado por Cecile (Selma Blair, bela mas um tanto exagerada em sua caracterização), uma moça de família recém-saída de uma escola de freiras. Com a intenção de desmoralizá-la, Kathryn conta com a ajuda de Sebastian (Ryan Phillipe, nitidamente se divertindo com o papel), filho de seu padastro e com quem mantém uma relação quase incestuosa. Famoso por sua agitada e promíscua vida romântica, Sebastian acaba aceitando o desafio de seduzir Cecile, mas dedica mais atenção a uma missão que considera muito mais importante: convencer a virginal Anette (Reese Witherspoon) a entregar sua pureza a ele.



Utilizando de maneira exemplar uma trilha sonora moderna (Blur, Fatboy Slim, The Verve, Counting Crows, Placebo) e um elenco com nomes promissores e carismáticos, Kumble faz de seu “Segundas intenções” um filme ideal para seu público, ainda que corra o risco de desagradar os mais puristas, principalmente ao alterar o final da história, ainda que mantenha o tom de crítica à uma parcela da sociedade como acontece no livro e no filme de Frears. Enquanto no original a nobreza da França era o alvo da pena de Choderlos de Laclos, em sua versão século XXI a juventude elitista, vazia e fútil da geração de grifes e marcas famosas é que é posta na berlinda, ainda que dificilmente seja reconhecida por sua plateia, ansiosa por uma história sem maior profundidade.

Profundidade, aliás, é algo que o roteiro nem tenta atingir. Roger Kumble fez de seu filme uma história de desejo e vingança com doses de sexo (nada muito ousado, mas suficientemente atrativo) e bom humor, apesar do desfecho trágico e da seriedade com que Reese Witherspoon encara um papel difícil, em contraponto às atuações de Ryan Philippe (em seu melhor trabalho) e Sarah Michelle Gelar, que não precisam muito para deixarem claro sua satisfação em viver personagens tão cruéis. Eles ainda precisam comer muito feijão com arroz para chegarem aos pés de John Malkovich e Glenn Close - de quem herdaram seus papéis - mas colaboram bastante para o sucesso com que "Segundas intenções" atinge seus objetivos.

quarta-feira

CORAÇÕES APAIXONADOS

CORAÇÕES APAIXONADOS (Playing by heart, 1998, Miramax Films, 121min) Direção e roteiro: Willard Carroll. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Pietro Scalia. Música: John Barry. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Missy Stewart/Cindy Carr. Produção executiva: Guy East, Paul Feldsher, Nigel Sinclair, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Willard Carroll, Meg Liberman, Tom Wilhite. Elenco: Sean Connery, Gena Rowlands, Angelina Jolie, Ryan Philippe, Madeleine Stowe, Dennis Quaid, Gillian Anderson, Ellen Burstyn, Jay Mohr, Anthony Edwards, Jon Stewart, Patricia Clarkson. Estreia: 18/12/98

Filmes com várias estórias aparentemente independentes que se cruzam no final já fazem parte de quase um sub-gênero em Hollywood. De Robert Altman a Quentin Tarantino, vários diretores já se aventuraram, com resultados os mais variados, a assinar filmes assim. Por isso não deixa de ser surpreendente quando um exemplar do estilo consegue ultrapassar as expectativas e conquistar o espectador. Mesmo sendo escrito e dirigido pelo praticamente desconhecido Willard Carroll, o drama romântico "Corações apaixonados" é bom o suficiente para prender a atenção do público, contando para isso com uma equipe de causar inveja a qualquer veterano.

Por não ser exatamente um nome de peso, o cineasta cercou-se de um time de colaboradores de primeira linha. Do diretor de fotografia Vilmos Zsigmond (Oscar por "Contatos imediatos de terceiro grau") ao editor Pietro Scalia (Oscar por "JFK" e "Falcão negro em perigo"), passando pelo maestro John Barry e os experientes atores Sean Connery, Ellen Burstyn e Gena Rowlands, os créditos do filme são um desfile dos mais talentosos profissionais da sétima arte. No entanto, nada disso adiantaria se Carroll não tivesse em mãos um belo trunfo: o roteiro esperto e ágil. Inteligentemente, ele não criou um petardo emocional como "Magnólia" ou um besteirol ralo como "Pret-a-porter": dosando muito bem elementos comoventes com cenas de uma graça sincera e leve, o diretor conseguiu um equilíbrio raro, fazendo com que todas as estórias que conta sejam dignas de interesse, mesmo porque o elenco estava em dias inspirados.



Os veteranos Sean Connery e Gena Rowlands vivem Hannah e Paul, um casal que, às vésperas de completar 40 anos de casamento, se envolvem em uma crise quando a esposa, apresentadora de um programa de TV nos moldes de Ana Maria Braga descobre a foto de uma antiga paixão do marido. A química entre os atores é orgânica, e o texto é divertido e caloroso (poucas vezes se viu o James Bond mais famoso das telas tão à vontade). Angelina Jolie (pré-Oscar, pré-Brad Pitt e pré-símbolo sexual absoluto) e Ryan Philippe são Joan e Keenan, dois jovens que se conhecem em uma danceteria e passam a viver um romance titubeante graças à resistência do rapaz, oriunda de um traumatizante relacionamento anterior. Jolie é pura alegria de viver e carisma, em um papel feito sob medida, e Philippe se sai relativamente bem, sem precisar explorar o corpo, como fez em "Studio 54".

Madeleine Stowe e Anthony Edwards (da série "Plantão Médico") são os amantes Gracie e Roger, cuja relação nunca sai dos quartos de hotel, apesar dos apelos dele (talvez seja a trama menos interessante, ainda que revele uma pequena surpresa nas cenas finais). Gillian Anderson (da série "Arquivo X") interpreta a diretora de teatro Meredith, que tenta afastar o pretendente Trent (Jon Stewart) por medo de sofrer (e Anderson tem um insuspeito timing cômico). Dennis Quaid é Hugh, aparentemente um mentiroso contumaz que tenta seduzir mulheres em bares contando as mais absurdas histórias de tristeza (e o então marido de Meg Ryan deita e rola no papel, demonstrando um talento que viria a crescer ainda mais nos anos seguintes). E finalmente Ellen Burstyn é Mildred, uma mulher que acompanha os últimos momentos do filho Mark (Jay Mohr), vítima da AIDS. É a história mais triste do filme, mas contada com delicadeza e com a excelência de Burstyn.

Tentar adivinhar como essas estórias irão se cruzar é apenas um dos prazeres que se tem ao assistir a “Corações apaixonados”. Engraçado, comovente, romântico, é uma pequena pérola em meio às explosões e tiroteios que povoam as telas de cinema. Para ser descoberto!

STUDIO 54

STUDIO 54 (54, 1998, Miramax Films, 100min) Direção e roteiro: Mark Cristopher. Fotografia: Alexander Gruszynski. Montagem: Lee Percy. Música: Marco Beltrami. Figurino: Ellen Lutter. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Karen Wiesel. Produção executiva: Don Carmody, Bobby Cohen, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Ira Deutchman, Richard N. Gladstein, Dolly Hall. Elenco: Ryan Phillipe, Salma Hayek, Mike Myers, Neve Campbell, Breckin Meyer, Mark Ruffalo, Heather Matarazzo, Sela Ward. Estreia: 20/8/98

Entre 1977 e o início dos anos 80, nenhum lugar era mais quente e badalado em Nova York do que o Studio 54. Criada por Steve Rubell, ex-dono de restaurantes, era a discoteca mais cobiçada por todo mundo que sonhava com glamour, fama e diversão sem fim. Frequentada pelos grandes nomes do entretenimento, das artes e do esporte, misturava a "realeza" americana com a plebe, formada por todos aqueles desconhecidos que tinham a sorte de ser belos e/ou interessantes e passar pelo crivo de Rubell, que ficava em pessoa na porta do local, escolhendo quem merecia dançar até o amanhecer. Um dos mais interessantes e lendários locais da era disco, o Studio 54 deu origem também a um filme que, perto do que poderia ter sido, decepcionou crítica e público. Mas será que o diabo é tão ruim como pintam?

Em termos dramáticos, não se pode dizer que "Studio 54" - o filme - seja bom. O roteiro do também diretor Mark Cristopher é superficial ao extremo, não dando espaço para que suas personagens se desenvolvam a contento. Tudo é muito maniqueísta e quase tosco no desenho dos protagonistas, e suas atitudes nunca soam como verdadeiras e sim como estratégias dramáticas para que a história vá pra frente. Não dá para acreditar, por exemplo, no romance entre Shane (Ryan Philippe, bonito mas péssimo ator) e a atriz Julie Black (a sempre artificial Neve Campbell) nem tampouco na amizade entre ele e o casal Anita (Salma Hayek, linda mas limitada a uma personagem quase caricata) e Greg (Breckin Meyer, que faz o possível com o que tem em mãos). Apenas o Steve Rubell de Mike Myers convence, provando que o humorista é bem melhor ator dramático do que suspeitavam os fãs de "Austin Powers", sua criação mais conhecida.

Mas, se não dá pra acreditar muito na trama proposta por Cristopher, ao menos dá pra se divertir com o clima com que o diretor envolve seu projeto. Tudo, desde a trilha sonora dançante e repleta de clássicos da disco até o figurino caprichado de Ellen Lutter, convida a plateia a uma viagem no tempo, até uma época em que a permissividade sexual e comportamental estava em seu auge. É difícil não se ter uma nostalgia de um período em que, sim, a AIDS começava a pairar sobre a sociedade e as drogas iniciavam seu avassalador domínio sobre qualquer desavisado, mas que, ao mesmo tempo, concedia à população momentos de extrema alegria e diversão (ainda que depois tenha cobrado seu preço). O diretor é feliz em conseguir transmitir o clima de eterna festa da época (em especial quando recria as noitadas regadas a álcool e tóxicos da boate) na mesma medida em que falha em construir uma história mais consistente.


Mas, afinal, qual é a história de "Studio 54"? O protagonista é Shane O'Shea, um jovem morador de Nova Jersey que tem o sonho de tornar-se "alguém" em Nova York, assim como sua conterrânea, a atriz Julie Black (que, apesar de aparentar sucesso, também tenta se dar bem na carreira, nem que tenha que dormir com quem passar pelo seu caminho). Em seu caminho para o topo, ele chega até a famosa boate e, protegido pelo proprietário Steve Rubell e dono de um belo corpo e um belo rosto, torna-se conhecido dentro das altas rodas sociais e artísticas da cidade. Ambicioso, ele acaba entrando em rota de colisão com seus melhores amigos, o bartender Greg e sua mulher Anita (que sonha em ser uma cantora disco) e descobre, quase tarde demais, que existem coisas mais importantes do que fama e prestígio.

Sim, "Studio 54" também tem uma lição de moral, o que dá um certo gostinho de desmancha-prazeres. Cristopher não tem a coragem necessária de ir fundo em alguns temas que poderiam ter transformado o filme em uma experiência mais bem-sucedida (a sexualidade dúbia de Rubell, por exemplo, ou até mesmo a decadência moral e psicológica de seu protagonista). Também não explora a contento todo o sex-appeal de Ryan Philippe no auge de sua beleza ou o talento histriônico de Mike Myers - que mesmo assim, esquiva-se gloriosamente de todos os problemas do roteiro.

Em resumo, "Studio 54" é um daqueles filmes ruins que conquistam mais pelo que pretendia ser do que pelo que realmente é. Sem maiores expectativas dá pra assistir inúmeras vezes (principalmente para quem é fã do período retratado). Mas não é tão bom quanto poderia.

quinta-feira

TORMENTA

TORMENTA (White squall, 1996, Hollywood Pictures/Largo Entertainment, 129min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Todd Robinson, livro "The last voyage of the Albatross", de Charles Gieg Jr., Felix Sutton. Fotografia: Hugh Johnson. Montagem: Gerry Hambling. Música: Jeff Rona. Figurino: Rand Sagers. Direção de arte/cenários: Peter J. Hampton, Leslie Tomkins/Rand Sagers. Produção executiva: Ridley Scott. Produção: Mimi Polk Gitlin, Rocky Lang. Elenco: Jeff Bridges, Caroline Goodall, John Savage, Scott Wolf, Jeremy Sisto, Ryan Phillippe, Balthazar Getty, Ethan Embry, James Rebhorn. Estreia: 02/02/96

Não é querer fazer nenhum tipo de piada infame, mas "Sociedade dos poetas mortos" fez escola. Desde que o belo filme de Peter Weir lotou cinemas em 1989 um novo tipo de super-herói, sem poderes extra-terrenos ganhou o imaginário popular: professores dispostos a inspirar seu grupo de alunos. Em 1996, até mesmo o bem-sucedido Ridley Scott aderiu à tendência e realizou um de seus trabalhos menos conhecidos pelo grande público. Apesar do fracasso de bilheteria e das críticas apáticas, "Tormenta", baseado em uma história real, é um filme com uma qualidade acima da média, ainda que escorregue em alguns lugares-comuns e soe como uma espécie de cópia da obra-prima estrelada por Robin Williams.

O maior atrativo de "Tormenta" é Jeff Bridges. Bom ator como nunca, ele dá vida e substância a Skipper Sheldon, o capitão do Albatross, um barco-escola que, no ano de 1960, sai de Miami em direção ao Caribe com o objetivo de, no caminho, ensinar a seus oito tripulantes/alunos bem mais do que disciplinas acadêmicas: os adolescentes que embarcam na viagem liderada por ele tem por objetivo forjar seu caráter. Ajudado por sua esposa Alice (Caroline Goodall) - professora de Matemática e Ciências ,  seu companheiro de viagem McCrea (John Savage) - que dá aulas de Inglês e declama Shakespeare no café-da-manhã - e do jovem Shay Jennings (Jason Marsden), seu imediato, Skipper dá a seus oito discípulos lições de hombridade e integridade. A história, contada em off por um dos alunos, Chuck Gieg (Scott Wolf), sofre uma reviravolta quando um trágico acidente provocado por uma tormenta - a "white squall" do título original - faz vítimas fatais e o capitão é levado a julgamento por negligência.



A bem da verdade, a direção de Ridley Scott está longe do brilhantismo de seus melhores filmes, como "Blade Runner" e "Thelma & Louise". Quase burocrático, Scott ainda assim mantém o domínio narrativo, nunca permitindo que o tédio se manifeste. Em forma de anedotas cotidianas, a primeira parte do filme apresenta suas personagens de forma dinâmica e até carinhosa. Mesmo sendo mais estereótipos do que personagens multidimensionais, o traumatizado Gil Martin (Ryan Phillipe em início de carreira), o garoto-problema Dean Preston (Eric Michael Cole), o mimado Frank Beaumont (Jeremy Sisto) e até mesmo o sensível Chuck conquistam a plateia sem muito esforço. Sua segunda parte - cujo clímax é a apavorante tormenta, em uma sequência que dura angustiantes quinze minutos - perde um pouco a força: o julgamento de Skipper não é muito convincente, talvez por lembrar demais o filme de Peter Weir, com direito inclusive à catarse emocional, que, aliás, mostra a fragilidade de Scott Wolf como ator.

Revelado na série televisiva "O quinteto", Wolf foi louvado, na segunda metade da década de 90, como um novo Tom Cruise, mas sem o carisma do galã dos anos 80 e tampouco sem seu talento em escolher os projetos mais adequados, se perdeu no meio do caminho. Em "Tormenta" ele se esforça visivelmente, mas, mesmo tendo o papel mais importante dentre os jovens do elenco, se deixa eclipsar por colegas com personagens de menor destaque, como Ryan Phillipe e Jeremy Sisto. Quando contracena com Jeff Bridges, então, praticamente desaparece diante de sua presença maciça e dominante. Bridges, aliás, é o motivo primordial para que se assista ao filme, em mais uma interpretação sensacional.

Não é difícil entender porque "Tormenta" foi praticamente ignorado em seu lançamento. A trama é um tanto derivativa, o roteiro não apela para pieguices exageradas e Jeff Bridges, por melhor ator que seja, não é um chamariz de público. Nem mesmo o nome de Ridley Scott nos créditos foi capaz de lhe dar uma sorte maior. Mas é um entretenimento honesto, realizado com o capricho técnico que se espera do cineasta e tem uma história interessante e bem contada. Vale a pena uma espiada sem maiores expectativas.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...