PEGANDO FOGO (Burnt, 2015, The Weinstein Company, 101min) Direção: John Wells. Roteiro: Steven Knight, estória de Michael Kalesniko. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Nick Moore. Música: Rob Simonsen. Figurino: Lyn Elizabeth Paolo. Direção de arte/cenários: David Gropman/Tina Jones. Produção executiva: David Glasser, Claire Rudnick Polstein, Gordon Ramsay, Dylan Sellers, Michael Shamberg, Kris Thykier, Harvey Weinstein, Bob Weinstein, Negeen Yazdi. Produção: Stacey Sher, Erwin Stoff, John Wells. Elenco: Bradley Cooper, Siena Miller, Daniel Bruhl, Omar Sy, Uma Thurman, Matthew Rhys, Alicia Vikander, Riccardo Scamarcio, Sam Keeley, Emma Thompson. Estreia: 18/10/15
Em cinema, definitivamente há males que vem para o bem. Senão vejamos: em 2008, um roteiro escrito por Steven Knight - indicado ao Oscar por "Coisas belas e sujas", de 2004 - chegou às mãos do cineasta David Fincher, um dos mais inventivos e consistentes cineastas de sua geração. A notícia seria ótima se o ator escalado por Fincher para estrelar o projeto não fosse Keanu Reeves, não exatamente um exemplo de talento dramático (e que estava com a carreira em franca decadência). Como as coisas em Hollywood não andam em um ritmo muito ágil, o projeto estagnou e Fincher pulou fora - e Reeves também não foi adiante. Foi somente em 2012 que Bradley Cooper foi anunciado no papel principal - antes que começasse a ser respeitado pela crítica e pela Academia, que lhe indicou por três anos consecutivos ao Oscar -, comandado por Derek Cianfrance. Cianfrance, elogiado pela direção de "Namorados para sempre" (2010), porém, também não durou muito no posto e foi substituído por John Wells, um nome pouco conhecido do grande público mas com anos de experiência no leme de episódios de séries consagradas, como "Plantão médico" e "West Wing" e em vias de lançar "Álbum de família", que colocaria novamente Meryl Streep e Julia Roberts no páreo por uma estatueta dourada. No final das contas, a desistência de Fincher e Cianfrance acabaram por fazer bem ao filme: "Pegando fogo" é uma obra que não se encaixaria em nenhuma das duas filmografias, mas é um ponto de sofisticação e versatilidade na carreira de Wells - e uma prova de que Cooper é realmente bem mais que um simples galã.
Na verdade, Cooper, no auge do carisma, é o ponto alto de "Pegando fogo", não apenas por conseguir a simpatia do público mesmo com um personagem repleto de defeitos, como pelo fato de não se deixar eclipsar por atores de talento comprovado, como Uma Thurman, Emma Thompson e Daniel Bruhl. Completamente à vontade em cena, ele deita e rola na pele de Adam Jones, um chef de cozinha ao mesmo tempo sedutor e arrogante, obcecado pela profissão e por seu objetivo de reconquistar o autorrespeito e a admiração dos colegas - principalmente daqueles com quem tem um relacionamento marcado por desavenças e supostas traições. Na medida certa entre o cinismo e uma escondida autopiedade, ele conquista a plateia justamente por ser tão falível (e por vezes quase desagradável), um desafio do qual seu intérprete consegue se desvencilhar com segurança ímpar. Cooper só não vai ainda mais longe porque o roteiro, mesmo ágil, esperto e sem espaço para lágrimas fáceis, não se aprofunda o bastante para lhe dar um material mais forte. Mesmo assim, Adam Jones e Bradley Cooper formam um par perfeito.
Jones é um chef de cozinha autodestrutivo e prepotente que, depois de praticamente acabar com sua brilhante e ascendente carreira, resolve recomeçar a vida. Deixando para trás seu vício em drogas - e uma dívida com traficantes franceses - ele volta à Londres com o objetivo claro de comandar um restaurante e alcançar as ambicionadas três estrelas Michelin (o santo graal da gastronomia mundial). O restaurante que ele escolhe para ser o palco de sua redenção é comandado por um antigo conhecido, Tony (Daniel Bruhl) - que aceita, a contragosto, ajudá-lo, mais por ser apaixonado por ele e saber de seu talento do que por confiar em sua sobriedade. Adam começa, então, uma jornada para montar o time perfeito, e para isso, reúne dois antigos colegas: Max (o galã italiano Riccardo Scamarcio) - que está saindo da cadeia - e Michel (Omar Sy, do sucesso francês "Intocáveis"), que perdeu tudo o que tinha graças a uma situação armada pelo próprio Adam. A eles juntam-se o jovem David (Sam Keeley) e a promissora Helene (Siena Miller), uma mãe solteira se torna sua maior pedra no sapato dentro da cozinha. Juntos, eles tentarão alcançar a almejada cotação máxima para o restaurante - enquanto o chef briga com seus demônios particulares e a atração que sente por Helene.
Editado com agilidade e elegância, "Pegando fogo" é um filme de visual deslumbrante - todas as cenas em que aparecem os pratos sendo montados e degustados é de dar água na boca - e ritmo agradável. Ao mesmo tempo em que se utiliza da gastronomia como pano de fundo para uma história de reconquista da autoestima, ela é peça fundamental para a narrativa, fornecendo os elementos dramáticos da trama e se mostrando em todo o seu glamour e suas misérias. Buscando o máximo de realismo para as cenas que se passam na cozinha, Wells apresenta sequências apetitosas com outras de grande tensão, que refletem tanto o desafio profissional dos personagens (sempre em constante pressão) quanto o mundo interior do protagonista, a um passo de um ataque de nervos. Bom diretor de atores, Wells comanda o espetáculo com leveza, mas extrai atuações inspiradas de todo o seu elenco - e ainda dá espaço para uma química excelente entre Cooper e Siena Miller, que ficou com um papel para o qual foram cogitadas Michelle Williams e Marion Cottilard. O casal de atores - que já foram um casal também em "Sniper americano" (2014) - valoriza cada momento juntos, e acrescenta um tom romântico a uma história de redenção e amadurecimento. Não é um filme inesquecível, mas é um passatempo acima da média, tornado ainda melhor graças a um elenco impecável e uma direção discreta e eficaz. Um bom entretenimento!
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quarta-feira
NINFOMANÍACA, VOLUME 1
NINFOMANÍACA, VOLUME 1 (Nymphomaniac: Vol. I, 2013, Zentropa
Entertainments, 117min) Direção e roteiro: Lars Von Trier. Fotografia:
Manuel Alberto Claro. Montagem: Morten Hojberg, Moly Marlene Stensgaard.
Figurino: Manon Rasmussen. Direção de arte/cenários: Simon Grau
Roney/Thorsten Sabel. Produção executiva: Peter Garde, Peter Aalbaek
Jensen. Produção: Louise Vesth. Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan
Skarsgard, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Uma Thurman,
Sophie Kennedy Clark, Connie Nielsen, Mia Goth. Estreia: 25/12/13
Lars Von Trier é um cineasta que não tem medo de polêmicas - e, a julgar por sua filmografia recheada de obras provocantes como "Anticristo", "Dogville" e "Ondas do destino" até as procura constantemente. Depois de ter sido banido do Festival de Cannes 2011 por declarações consideradas antissemitas - ele afirmou entender Hitler - o dinamarquês voltou às manchetes no final de 2013 graças a mais um projeto cinematográfico ousado e controverso: dividido em dois volumes lançados simultaneamente, "Ninfomaníaca" já despertava furiosas discussões ao redor do mundo antes mesmo de sua estreia. O motivo? Mais do que nunca, Trier dava munição de sobra a todos que sempre o acusavam de misoginia ao contar a dramática história de Joe, uma mulher cuja impossibilidade de resistir a seus desejos a leva a uma vida repleta de dor e sofrimento. Porém, mesmo que dê continuidade à linhagem de mártires femininas criadas pelo diretor, Joe é, ao mesmo tempo, vítima e heroína, dona de uma complexidade dramática de que só mesmo o talento da atriz Charlotte Gainsbourgh - parceira constante do diretor - conseguiria dar conta. O resultado é uma obra perturbadora como todos os trabalhos anteriores de Trier, mas bem menos "pornográfico" do que o marketing e a curiosidade do público previam.
Misturando matemática, música clássica e filosofia a uma receita explosiva por natureza, Lars Von Trier narra a saga de Joe através de flashbacks, quando ela conta sua história ao solidário Seligman (Stellan Skarsgard), que a encontra caída e extremamente ferida perto de sua casa. Sentindo que pode confiar no homem que a ajudou, Joe revela a ele sua trajetória sexual, que teve início já na infância em brincadeiras com uma amiga. Aos poucos, ela passa para situações mais intensas, como a traumática perda da virgindade com Jerôme (Shia LaBeouf), que a atormentará pela vida inteira. Enquanto discute teorias matemáticas com Seligman e ouve suas histórias sobre pescaria - hobby que ele compara ao vício dela - Joe também revela a importância de seu relacionamento com o pai amoroso (Christian Slater), a amizade competitiva com B (Sophie Kennedy Clark) - que a incentivava a praticar atos ousados como transar com todos os passageiros possíveis de um trem - e a forma como gerenciava uma vida preenchida por inúmeros casos sexuais concomitantes e que resultou em uma experiência pouco agradável com a esposa de um dos amantes (Uma Thurman). Dotada de extrema autocrítica, Joe prepara o espírito de Seligman para chegar até o clímax de sua história - e que a fez acabar espancada na porta de sua casa.
"Ninfomaníaca, volume 1" não é um filme erótico, apesar do que pode parecer ao público menos informado: tudo bem que Lars Von Trier não se furta a mostrar cenas bem mais ousadas do que acontece no cinema comercial, mas não existe gratuidade nas sequências que mostram as desventuras sexuais de sua protagonista. Mesmo em momentos mais explícitos, não é intenção do filme excitar o espectador, e sim retratar com o máximo de realismo a rotina de uma mulher presa a suas próprias armadilhas. Joe sabe desde cedo onde colocar o desejo que lhe acomete - e, a princípio, o faz sem culpa e com um prazer que não teria como passar em branco por um mundo machista e propenso a todo tipo de julgamentos morais. E o castigo por sua liberdade, como se poderia esperar de um filme assinado por Von Trier, vem sem piedade justamente quando ela sente-se disposta a entregar-se ao amor - em uma cena angustiante que prepara o público para a segunda parte, que levará a protagonista ao fundo do poço físico e moral.
Mesmo que seja o rosto de Charlotte Gainsbourgh que enfeite os cartazes de "Ninfomaníaca", é inegável que boa parte do impacto do filme se deve à performance corajosa e intensa de Stacy Martin, que se entrega sem medo ao desafio de interpretar a juventude de Joe mesmo em cenas pra lá de quentes. Com um rosto angelical que contrasta com a voracidade do desejo sexual de sua personagem, Martin cativa a plateia com um misto de conformismo e sensualidade, enquanto contracena com atores do porte de Uma Thurman, Christian Slater e Shia LaBeouf em dias inspiradíssimos. Fotografado com capricho e criativo na edição - que mantém a atenção da plateia do primeiro ao último minuto de projeção - o filme de Von Trier é um primeiro capítulo instigante, repleto das maiores qualidades do cinema do diretor (e também um prato cheio para seus detratores). Como filme é fascinante, e como discussão é ainda melhor, ainda que só faça sentido completo após o término do segundo volume.
Lars Von Trier é um cineasta que não tem medo de polêmicas - e, a julgar por sua filmografia recheada de obras provocantes como "Anticristo", "Dogville" e "Ondas do destino" até as procura constantemente. Depois de ter sido banido do Festival de Cannes 2011 por declarações consideradas antissemitas - ele afirmou entender Hitler - o dinamarquês voltou às manchetes no final de 2013 graças a mais um projeto cinematográfico ousado e controverso: dividido em dois volumes lançados simultaneamente, "Ninfomaníaca" já despertava furiosas discussões ao redor do mundo antes mesmo de sua estreia. O motivo? Mais do que nunca, Trier dava munição de sobra a todos que sempre o acusavam de misoginia ao contar a dramática história de Joe, uma mulher cuja impossibilidade de resistir a seus desejos a leva a uma vida repleta de dor e sofrimento. Porém, mesmo que dê continuidade à linhagem de mártires femininas criadas pelo diretor, Joe é, ao mesmo tempo, vítima e heroína, dona de uma complexidade dramática de que só mesmo o talento da atriz Charlotte Gainsbourgh - parceira constante do diretor - conseguiria dar conta. O resultado é uma obra perturbadora como todos os trabalhos anteriores de Trier, mas bem menos "pornográfico" do que o marketing e a curiosidade do público previam.
Misturando matemática, música clássica e filosofia a uma receita explosiva por natureza, Lars Von Trier narra a saga de Joe através de flashbacks, quando ela conta sua história ao solidário Seligman (Stellan Skarsgard), que a encontra caída e extremamente ferida perto de sua casa. Sentindo que pode confiar no homem que a ajudou, Joe revela a ele sua trajetória sexual, que teve início já na infância em brincadeiras com uma amiga. Aos poucos, ela passa para situações mais intensas, como a traumática perda da virgindade com Jerôme (Shia LaBeouf), que a atormentará pela vida inteira. Enquanto discute teorias matemáticas com Seligman e ouve suas histórias sobre pescaria - hobby que ele compara ao vício dela - Joe também revela a importância de seu relacionamento com o pai amoroso (Christian Slater), a amizade competitiva com B (Sophie Kennedy Clark) - que a incentivava a praticar atos ousados como transar com todos os passageiros possíveis de um trem - e a forma como gerenciava uma vida preenchida por inúmeros casos sexuais concomitantes e que resultou em uma experiência pouco agradável com a esposa de um dos amantes (Uma Thurman). Dotada de extrema autocrítica, Joe prepara o espírito de Seligman para chegar até o clímax de sua história - e que a fez acabar espancada na porta de sua casa.
"Ninfomaníaca, volume 1" não é um filme erótico, apesar do que pode parecer ao público menos informado: tudo bem que Lars Von Trier não se furta a mostrar cenas bem mais ousadas do que acontece no cinema comercial, mas não existe gratuidade nas sequências que mostram as desventuras sexuais de sua protagonista. Mesmo em momentos mais explícitos, não é intenção do filme excitar o espectador, e sim retratar com o máximo de realismo a rotina de uma mulher presa a suas próprias armadilhas. Joe sabe desde cedo onde colocar o desejo que lhe acomete - e, a princípio, o faz sem culpa e com um prazer que não teria como passar em branco por um mundo machista e propenso a todo tipo de julgamentos morais. E o castigo por sua liberdade, como se poderia esperar de um filme assinado por Von Trier, vem sem piedade justamente quando ela sente-se disposta a entregar-se ao amor - em uma cena angustiante que prepara o público para a segunda parte, que levará a protagonista ao fundo do poço físico e moral.
Mesmo que seja o rosto de Charlotte Gainsbourgh que enfeite os cartazes de "Ninfomaníaca", é inegável que boa parte do impacto do filme se deve à performance corajosa e intensa de Stacy Martin, que se entrega sem medo ao desafio de interpretar a juventude de Joe mesmo em cenas pra lá de quentes. Com um rosto angelical que contrasta com a voracidade do desejo sexual de sua personagem, Martin cativa a plateia com um misto de conformismo e sensualidade, enquanto contracena com atores do porte de Uma Thurman, Christian Slater e Shia LaBeouf em dias inspiradíssimos. Fotografado com capricho e criativo na edição - que mantém a atenção da plateia do primeiro ao último minuto de projeção - o filme de Von Trier é um primeiro capítulo instigante, repleto das maiores qualidades do cinema do diretor (e também um prato cheio para seus detratores). Como filme é fascinante, e como discussão é ainda melhor, ainda que só faça sentido completo após o término do segundo volume.
sábado
PARA MAIORES
PARA MAIORES (Movie 43, 2013, Relativity Media, 94min) Direção: Elizabeth Banks, Steven Brill, Steve Carr, Rusty Candief, James Duffy, Griffin Dunne, Peter Farrelly, Patrik Forsberg, Will Graham, James Gunn, Brett Ratner, Jonathan van Tulleken. Roteiro: Rocky Russo, Jeremy Sosenko, Ricky Blitt, Bill O'Malley, Will Graham, Jack Kukoda, Matt Portenoy, Claes Kjellstrom, Jonas Wittenmark, Tobias Carlson, Will Carlough, Jonathan van Tulleken, Elizabeth Shapiro, Patrik Forsberg, Olle Sarri, Jacob Fleisher, Greg Pritkin, James Gunn. Fotografia: Mattian Anderssonn Rudh, Frank G. DeMarco, Steve Gainer, Matthew F. Leonetti, Daryn Okada, William Rexer, Eric Scherbarth, Newton Thomas Sigel, Tim Suhrstedt. Montagem: Debra Chiate, Patrick J. Don Vito, Suzy Elmiger, Mark Helfrich, Craig Herring, Myron I. Kerstein, Joe Randall-Cutler, Sam Seig, Cara Silverman, Sandy S. Solowitz, Jonathan van Tulleken, Hakan Warn, Paul Zucker. Música: Tyler Bates, Christophe Beck, Leo Birenberg, William Goodrum, Dave Hodge. Figurino: Anna Bingemann, Nancy Ceo, Roseanne Fiedler, Florence Kemper, Judianna Makovsky, Sydney Maresca, Salvador Pérez Jr.. Direção de arte/cenários: Toby Corbett, Jade Healy, Nolan Hooper, Robb Wilson King, Dina Lipton, Happy Massee, Arlan Jay Vetter, Inbal Weinberg/Jasmine E. Ballou, Robert Covelman, Andrea Mae Fenton, Isaac Gabaeff, Amber Haley, Jean Landry, Lance Lombardo, Jessica Panuccio, Halina Siwolop. Produção executiva: Ron Burkle, Jason Felts, Tucker Tooley, Tim Williams. Produção: Peter Farrelly, Ryan Kavanaugh, John Penotti, Charles B. Wessler. Elenco: Hugh Jackman, Kate Winslet, Liev Schreiber, Naomi Watts, Anna Faris, Chris Pratt, Kieran Culkin, Emma Stone, Richard Gere, Kate Bosworth, Justin Long, Jason Sudeikis, Uma Thurman, Bobby Cannavale, Kristen Bell, Christopher Mintz-Plasse, Chloe Grace Moretz, Gerard Butler, Sean William Scott, Johnny Knoxville, Halle Berry, Stephen Merchant, Terrence Howard, Elizabeth Banks, Josh Duhamel. Estreia: 25/01/13
A primeira pergunta que surge na cabeça do espectador enquanto sobem os créditos finais da comédia "Para maiores" é a tradicional em casos do tipo: "Por que diabos atores tão bons e tão consagrados aceitaram fazer essa porcaria?" De fato a lista de nomes envolvidos no projeto é de causar inveja a qualquer diretor de elenco de Hollywood - há desde indicados e vencedores do Oscar, como Hugh Jackman, Kate Winslet e Halle Berry, até astros em franca ascensão, como Emma Stone, Chris Pratt e Chloe Grace Moretz - especialmente se for levado em consideração que o orçamento total não ultrapassou os seis milhões de dólares, o que normalmente não paga nem um terço do cachê de alguns dos atores escalados. Mas a gritaria quase unânime contra o filme - apedrejado sem dó nem piedade por crítica e público - não deixa de ser um tanto quanto exagerada. Ok, o humor de alguns quadros está realmente no limite do bom-gosto e nem sempre funciona como poderia. Tudo bem, a história que os liga é pífia e em muitos momentos tem-se a nítida impressão de que o roteiro foi escrito por um grupo de adolescentes escatológicos no auge da puberdade. Mas outros grandes sucessos de bilheteria também não eram exatamente assim? Não é à toa que um dos roteiristas e diretores do filme seja Peter Farrelly - um dos irmãos responsáveis por "Debi & Loide", que, apesar de ter o mesmo tipo de humor, serviu de trampolim milionário para a carreira de Jim Carrey.
Talvez o maior estranhamento em relação à "Para maiores" seja justamente o fato de contar com atores de prestígio e respeito se prestando a situações constrangedoras normalmente relegadas a elencos de segundo ou terceiro escalões. Não é sempre que se vê Hugh Jackman interpretando um homem com os testículos localizados no queixo ou Halle Berry fazendo guacamole com um seio. Sim, é esse o nível de humor do filme, que usa e abusa do politicamente incorreto e de algumas piadas francamente ofensivas para conquistar as gargalhadas da audiência. De acordo com a bilheteria - pouco mais de 8 milhões em casa, cerca de 23 no mercado internacional - nem todo mundo entendeu (ou quis entender) a brincadeira. O estigma de humor pouco sofisticado pesou mais do que o elenco milionário, mas não é difícil de imaginar que, deixando o preconceito de lado (junto com qualquer tipo de suscetibilidade), o público possa ter alguns bons momentos de diversão, mesmo que jamais assuma isso diante dos outros.
Quem quiser encarar o desafio de experimentar a brincadeira quase insana que é "Para maiores" tem que se preparar para quase tudo. Literalmente. Tudo começa quando dois adolescentes, em busca de vingança contra um amigo nerd, falam a ele sobre a existência de um filme maldito, proibido em todos os países do mundo e que só pode ser localizado no submundo da Internet. Tal premissa - boba como convém - serve como elo de ligação entre todos os esquetes da produção, que fazem as vezes de alguns dos filmes encontrados durante a procura dos jovens. A partir daí é bobagem atrás de bobagem, com níveis variáveis de graça e escatologia. Se não, vejamos: no primeiro encontro com um solteirão cobiçadíssimo (Hugh Jackman), uma mulher (Kate Winslet) descobre que ele tem uma particularidade física desconcertante; Naomi Watts e Liev Schreiber (casados na vida real) contam a um casal de amigos como fazem para fazer de seu lar o ambiente escolar ideal para o filho adolescente que estuda em casa; às vésperas de pedir sua namorada (Anna Faris) em casamento, rapaz (Chris Pratt, casado com Faris também atrás das câmeras) se surpreende com uma proposta pouco usual da moça para apimentar suas relações sexuais; caixa de um supermercado (Kieran Culkin) reencontra a namorada (Emma Stone) e resolve por a relação em pratos limpos esquecendo de desligar o microfone e faz todos os clientes de testemunhas de suas palavras pouco sutis.
A sessão de humor descompromissado segue adiante mostrando uma reunião de acionistas de um IPod em forma de boneca que vem mutilando os pênis dos usuários adolescentes e que encontra no diretor da empresa (Richard Gere) um empecilho para as mudanças necessárias solicitadas por uma colega do sexo oposto (Kate Bosworth); Justin Long aparece como Robin, que frequenta uma sessão de encontros-relâmpagos e dá de cara com Lois Lane (Uma Thurman), a Supergirl (Kristen Bell), o Batman (Jason Sudeikis) e o Superman (Bobby Cannavale); Chloe Grace Moretz é uma adolescente que tem a primeira menstruação na casa do namorado e, desesperada, não consegue a ajuda dele e do cunhado (Christopher Mintz-Plasse) para resolver o problema; para limpar a barra com o melhor amigo (Sean William Scott), Johnny Knoxville lhe dá de presente um duende irlandês desbocado e violento (Gerard Butler), o que irá lhes causar grandes dores de cabeça (e em outras partes do corpo); Halle Berry e Stephen Merchant se encontram às cegas e iniciam uma brincadeira de "Verdade ou desafio" que logo descamba para consequências impensáveis; Terrence Howard é um treinador de basquete dos anos 50 que tenta convencer seus atletas negros que eles tem possibilidade de vencer os rivais brancos somente porque são negros; e Elizabeth Banks (diretora do esquete estrelado por Chloe Grace Moretz) tenta, no último quadro, convencer seu noivo (Josh Duhamell) que o gato que ele trata como filho a odeia e nutre por ele sentimentos pouco fraternais e muito sexuais.
É de frequente mau-gosto? Sim. É ofensivo e por vezes inacreditável? Também. Mas "Para maiores" atinge plenamente seu objetivo de jogar para o alto o politicamente correto que vem minando a comédia no cinema e fazer rir, mesmo que de nervoso. Como cinema - em termos técnicos e narrativos - é uma nulidade, mas sua coragem em nadar contra a corrente merece ser louvada até mesmo por todos aqueles que rejeitam ferozmente seu resultado final. Não é uma comédia para todo mundo - pode-se até dizer que é para poucos, em um extremo oposto à sofisticação de Woody Allen, por exemplo - mas pode encontrar seu público, desde que este esteja disposto a mergulhar sem medo na baixaria explícita de um filme que jamais se leva a sério. Questão apenas de querer se arriscar!
A primeira pergunta que surge na cabeça do espectador enquanto sobem os créditos finais da comédia "Para maiores" é a tradicional em casos do tipo: "Por que diabos atores tão bons e tão consagrados aceitaram fazer essa porcaria?" De fato a lista de nomes envolvidos no projeto é de causar inveja a qualquer diretor de elenco de Hollywood - há desde indicados e vencedores do Oscar, como Hugh Jackman, Kate Winslet e Halle Berry, até astros em franca ascensão, como Emma Stone, Chris Pratt e Chloe Grace Moretz - especialmente se for levado em consideração que o orçamento total não ultrapassou os seis milhões de dólares, o que normalmente não paga nem um terço do cachê de alguns dos atores escalados. Mas a gritaria quase unânime contra o filme - apedrejado sem dó nem piedade por crítica e público - não deixa de ser um tanto quanto exagerada. Ok, o humor de alguns quadros está realmente no limite do bom-gosto e nem sempre funciona como poderia. Tudo bem, a história que os liga é pífia e em muitos momentos tem-se a nítida impressão de que o roteiro foi escrito por um grupo de adolescentes escatológicos no auge da puberdade. Mas outros grandes sucessos de bilheteria também não eram exatamente assim? Não é à toa que um dos roteiristas e diretores do filme seja Peter Farrelly - um dos irmãos responsáveis por "Debi & Loide", que, apesar de ter o mesmo tipo de humor, serviu de trampolim milionário para a carreira de Jim Carrey.
Talvez o maior estranhamento em relação à "Para maiores" seja justamente o fato de contar com atores de prestígio e respeito se prestando a situações constrangedoras normalmente relegadas a elencos de segundo ou terceiro escalões. Não é sempre que se vê Hugh Jackman interpretando um homem com os testículos localizados no queixo ou Halle Berry fazendo guacamole com um seio. Sim, é esse o nível de humor do filme, que usa e abusa do politicamente incorreto e de algumas piadas francamente ofensivas para conquistar as gargalhadas da audiência. De acordo com a bilheteria - pouco mais de 8 milhões em casa, cerca de 23 no mercado internacional - nem todo mundo entendeu (ou quis entender) a brincadeira. O estigma de humor pouco sofisticado pesou mais do que o elenco milionário, mas não é difícil de imaginar que, deixando o preconceito de lado (junto com qualquer tipo de suscetibilidade), o público possa ter alguns bons momentos de diversão, mesmo que jamais assuma isso diante dos outros.
Quem quiser encarar o desafio de experimentar a brincadeira quase insana que é "Para maiores" tem que se preparar para quase tudo. Literalmente. Tudo começa quando dois adolescentes, em busca de vingança contra um amigo nerd, falam a ele sobre a existência de um filme maldito, proibido em todos os países do mundo e que só pode ser localizado no submundo da Internet. Tal premissa - boba como convém - serve como elo de ligação entre todos os esquetes da produção, que fazem as vezes de alguns dos filmes encontrados durante a procura dos jovens. A partir daí é bobagem atrás de bobagem, com níveis variáveis de graça e escatologia. Se não, vejamos: no primeiro encontro com um solteirão cobiçadíssimo (Hugh Jackman), uma mulher (Kate Winslet) descobre que ele tem uma particularidade física desconcertante; Naomi Watts e Liev Schreiber (casados na vida real) contam a um casal de amigos como fazem para fazer de seu lar o ambiente escolar ideal para o filho adolescente que estuda em casa; às vésperas de pedir sua namorada (Anna Faris) em casamento, rapaz (Chris Pratt, casado com Faris também atrás das câmeras) se surpreende com uma proposta pouco usual da moça para apimentar suas relações sexuais; caixa de um supermercado (Kieran Culkin) reencontra a namorada (Emma Stone) e resolve por a relação em pratos limpos esquecendo de desligar o microfone e faz todos os clientes de testemunhas de suas palavras pouco sutis.
A sessão de humor descompromissado segue adiante mostrando uma reunião de acionistas de um IPod em forma de boneca que vem mutilando os pênis dos usuários adolescentes e que encontra no diretor da empresa (Richard Gere) um empecilho para as mudanças necessárias solicitadas por uma colega do sexo oposto (Kate Bosworth); Justin Long aparece como Robin, que frequenta uma sessão de encontros-relâmpagos e dá de cara com Lois Lane (Uma Thurman), a Supergirl (Kristen Bell), o Batman (Jason Sudeikis) e o Superman (Bobby Cannavale); Chloe Grace Moretz é uma adolescente que tem a primeira menstruação na casa do namorado e, desesperada, não consegue a ajuda dele e do cunhado (Christopher Mintz-Plasse) para resolver o problema; para limpar a barra com o melhor amigo (Sean William Scott), Johnny Knoxville lhe dá de presente um duende irlandês desbocado e violento (Gerard Butler), o que irá lhes causar grandes dores de cabeça (e em outras partes do corpo); Halle Berry e Stephen Merchant se encontram às cegas e iniciam uma brincadeira de "Verdade ou desafio" que logo descamba para consequências impensáveis; Terrence Howard é um treinador de basquete dos anos 50 que tenta convencer seus atletas negros que eles tem possibilidade de vencer os rivais brancos somente porque são negros; e Elizabeth Banks (diretora do esquete estrelado por Chloe Grace Moretz) tenta, no último quadro, convencer seu noivo (Josh Duhamell) que o gato que ele trata como filho a odeia e nutre por ele sentimentos pouco fraternais e muito sexuais.
É de frequente mau-gosto? Sim. É ofensivo e por vezes inacreditável? Também. Mas "Para maiores" atinge plenamente seu objetivo de jogar para o alto o politicamente correto que vem minando a comédia no cinema e fazer rir, mesmo que de nervoso. Como cinema - em termos técnicos e narrativos - é uma nulidade, mas sua coragem em nadar contra a corrente merece ser louvada até mesmo por todos aqueles que rejeitam ferozmente seu resultado final. Não é uma comédia para todo mundo - pode-se até dizer que é para poucos, em um extremo oposto à sofisticação de Woody Allen, por exemplo - mas pode encontrar seu público, desde que este esteja disposto a mergulhar sem medo na baixaria explícita de um filme que jamais se leva a sério. Questão apenas de querer se arriscar!
quarta-feira
GATTACA - EXPERIÊNCIA GENÉTICA
GATTACA
- EXPERIÊNCIA GENÉTICA (Gattaca, 1997, Columbia Pictures, 105min)
Direção e roteiro: Andrew Niccol. Fotografia: Slawomir Idziak. Montagem:
Lisa Zeno Churgin. Música: Michael Nyman. Figurino: Colleen Atwood.
Direção de arte/cenários: Jan Roelfs/Nancy Nye. Produção: Danny DeVito,
Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: Ethan Hawke, Uma Thurman, Alan
Arkin, Jude Law, Gore Vidal, Loren Dean, Xander Berkeley, Elias Koteas,
Blair Underwood, Ernest Borgnine, Tony Shalhoub. Estreia: 07/9/97
(Festival de Toronto)
Indicado ao Oscar de Melhor Direção de Arte/Cenários
Em um futuro não muito distante, a imensa maioria dos bebês da Terra serão gerados através de inseminação artificial, possibilitando a seus pais que gerem filhos perfeitos, sem doenças ou qualquer tipo de desvio genético. Nesse mundo, aqueles que, por infelicidade, nascerem de forma natural, são relegados a um destino menos auspicioso, sendo tratados como seres inferiores e portanto impossibilitados de uma vida profissional e pessoal plena. Um desses "filhos da fé" é Vincent Freeman (Ethan Hawke), que, nascido fora dos padrões científicos de sua época, sofre com as chances de desenvolver uma doença cardíaca que pode matá-lo aos trinta anos de idade. Sonhando viajar para o espaço - mesmo sabendo que isso é impossível devido à sua condição genética - ele ainda se tortura ao perceber no irmão caçula (gerado conforme as regras) toda a pureza que sempre quis. Decidido a provar a todos que é capaz de vencer na vida mesmo com suas limitações, ele sai de casa em busca de romper com a inércia de seu dia-a-dia e arruma emprego na Gattaca - uma empresa aeroespacial que provê viagens para fora do planeta. É trabalhando lá que ele descobre uma maneira de burlar o sistema, se passando por outra pessoa para realizar o seu sonho.
Assim começa "Gattaca, experiência genética", brilhante ficção científica escrita e dirigida pelo mesmo Andrew Niccol que criou um dos contos mais contundentes dos anos 90, "O show de Truman, o show da vida" - pelo qual foi indicado ao Oscar de roteiro original. Ao inserir uma clássica história policial em um universo distópico (ou seria utópico?) tão asséptico que soa como um pesadelo orwelliano, Niccol misturou dois gêneros queridos pelo público e cimentou-os com uma saudável discussão sobre os limites da ciência e a obsessão pela perfeição, temas pulsantes e inteligentes que transformam o que poderia ser apenas um competente entretenimento em um dos filmes mais interessantes de seu tempo - ainda que, como a maior parte das obras realmente relevantes dos anos 90, tenha sido um fracasso de bilheteria. Visualmente impactante - com um cenário seco e opressivo que transmite com exatidão a neutralidade impessoal do enredo e concorreu merecidamente ao Oscar - "Gattaca" acaba sendo mais lembrado, porém, por uma história de bastidores do que por seus méritos cinematográficos: foi durante suas filmagens que Uma Thurman e Ethan Hawke se tornaram um casal, em um relacionamento que durou até 2003.
Quando "Gattaca" começa, Vincent já está em vias de ser mandado à sua primeira viagem espacial, depois de anos trabalhando na empresa - e sendo devidamente testado diariamente com exames de sangue e urina. Homem de confiança de um dos diretores da missão, Josef (o escritor Gore Vidal em participação mais do que especial), Vincent esconde de todos um segredo que pode acabar com sua trajetória vitoriosa: ele assumiu a identidade de Jerome Morrow (Jude Law), um atleta geneticamente perfeito que ficou paraplégico depois de um acidente e que cede a ele, diariamente, todos os elementos necessários para que ele não seja descoberto. Assim, com o nome de Jerome, o jovem Vincent leva uma vida sempre no limiar do perigo, sendo obrigado a livrar-se constantemente de todos os resquícios corporais de sua antiga vida. Às vésperas de sua viagem, porém, seu segredo passa a correr o grande risco de ser revelado: um dos diretores da empresa é violentamente assassinado e um cílio de Vincent, encontrado em uma das salas do prédio o aponta como principal suspeito. Sua corrida passa a ser então para esconder sua identidade, provar sua inocência e esconder tudo da mulher por quem está apaixonado, a colega de trabalho Irene (Uma Thurman), que também tem um segredo a esconder de todos.
Fotografado com precisão por Slawomir Idziak (de "A liberdade é azul") - que tira de cada cena o máximo em informações e poesia - e editado como um filme policial cerebral dos anos 70, "Gattaca" foge dos clichês da ficção científica em apostar em um híbrido de gêneros, sendo bem-sucedido em todos eles. A inteligência de sua premissa central encontra eco em um roteiro com ritmo cadenciado, um desenho de produção impecável (a escada da casa de Jerome é em formato de uma espiral de DNA), uma direção discreta e um elenco formidável, no qual se destaca Ethan Hawke no papel principal e Jude Law como seu duplo - um personagem semelhante ao que Law desempenharia pouco tempo depois, em "O talentoso Ripley", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante e um belo empurrão na carreira. Elegante, sóbrio e acima de tudo extremamente pertinente à época em que foi realizado, o filme de Niccol é um dos melhores filmes subestimados dos anos 90.
Indicado ao Oscar de Melhor Direção de Arte/Cenários
Em um futuro não muito distante, a imensa maioria dos bebês da Terra serão gerados através de inseminação artificial, possibilitando a seus pais que gerem filhos perfeitos, sem doenças ou qualquer tipo de desvio genético. Nesse mundo, aqueles que, por infelicidade, nascerem de forma natural, são relegados a um destino menos auspicioso, sendo tratados como seres inferiores e portanto impossibilitados de uma vida profissional e pessoal plena. Um desses "filhos da fé" é Vincent Freeman (Ethan Hawke), que, nascido fora dos padrões científicos de sua época, sofre com as chances de desenvolver uma doença cardíaca que pode matá-lo aos trinta anos de idade. Sonhando viajar para o espaço - mesmo sabendo que isso é impossível devido à sua condição genética - ele ainda se tortura ao perceber no irmão caçula (gerado conforme as regras) toda a pureza que sempre quis. Decidido a provar a todos que é capaz de vencer na vida mesmo com suas limitações, ele sai de casa em busca de romper com a inércia de seu dia-a-dia e arruma emprego na Gattaca - uma empresa aeroespacial que provê viagens para fora do planeta. É trabalhando lá que ele descobre uma maneira de burlar o sistema, se passando por outra pessoa para realizar o seu sonho.
Assim começa "Gattaca, experiência genética", brilhante ficção científica escrita e dirigida pelo mesmo Andrew Niccol que criou um dos contos mais contundentes dos anos 90, "O show de Truman, o show da vida" - pelo qual foi indicado ao Oscar de roteiro original. Ao inserir uma clássica história policial em um universo distópico (ou seria utópico?) tão asséptico que soa como um pesadelo orwelliano, Niccol misturou dois gêneros queridos pelo público e cimentou-os com uma saudável discussão sobre os limites da ciência e a obsessão pela perfeição, temas pulsantes e inteligentes que transformam o que poderia ser apenas um competente entretenimento em um dos filmes mais interessantes de seu tempo - ainda que, como a maior parte das obras realmente relevantes dos anos 90, tenha sido um fracasso de bilheteria. Visualmente impactante - com um cenário seco e opressivo que transmite com exatidão a neutralidade impessoal do enredo e concorreu merecidamente ao Oscar - "Gattaca" acaba sendo mais lembrado, porém, por uma história de bastidores do que por seus méritos cinematográficos: foi durante suas filmagens que Uma Thurman e Ethan Hawke se tornaram um casal, em um relacionamento que durou até 2003.
Quando "Gattaca" começa, Vincent já está em vias de ser mandado à sua primeira viagem espacial, depois de anos trabalhando na empresa - e sendo devidamente testado diariamente com exames de sangue e urina. Homem de confiança de um dos diretores da missão, Josef (o escritor Gore Vidal em participação mais do que especial), Vincent esconde de todos um segredo que pode acabar com sua trajetória vitoriosa: ele assumiu a identidade de Jerome Morrow (Jude Law), um atleta geneticamente perfeito que ficou paraplégico depois de um acidente e que cede a ele, diariamente, todos os elementos necessários para que ele não seja descoberto. Assim, com o nome de Jerome, o jovem Vincent leva uma vida sempre no limiar do perigo, sendo obrigado a livrar-se constantemente de todos os resquícios corporais de sua antiga vida. Às vésperas de sua viagem, porém, seu segredo passa a correr o grande risco de ser revelado: um dos diretores da empresa é violentamente assassinado e um cílio de Vincent, encontrado em uma das salas do prédio o aponta como principal suspeito. Sua corrida passa a ser então para esconder sua identidade, provar sua inocência e esconder tudo da mulher por quem está apaixonado, a colega de trabalho Irene (Uma Thurman), que também tem um segredo a esconder de todos.
Fotografado com precisão por Slawomir Idziak (de "A liberdade é azul") - que tira de cada cena o máximo em informações e poesia - e editado como um filme policial cerebral dos anos 70, "Gattaca" foge dos clichês da ficção científica em apostar em um híbrido de gêneros, sendo bem-sucedido em todos eles. A inteligência de sua premissa central encontra eco em um roteiro com ritmo cadenciado, um desenho de produção impecável (a escada da casa de Jerome é em formato de uma espiral de DNA), uma direção discreta e um elenco formidável, no qual se destaca Ethan Hawke no papel principal e Jude Law como seu duplo - um personagem semelhante ao que Law desempenharia pouco tempo depois, em "O talentoso Ripley", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante e um belo empurrão na carreira. Elegante, sóbrio e acima de tudo extremamente pertinente à época em que foi realizado, o filme de Niccol é um dos melhores filmes subestimados dos anos 90.
sexta-feira
BRINCANDO DE SEDUZIR
BRINCANDO
DE SEDUZIR (Beautiful girls, 1996, Miramax Films, 112min) Direção: Ted
Demme. Roteiro: Scott Rosenberg. Fotografia: Adam Kimmel. Montagem:
Jeffrey Wolf. Música: David A. Stewart. Figurino: Lucy W. Corrigan.
Direção de arte/cenários: Dan Davis/Tracey A. Doyle. Produção executiva:
Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cary Woods. Elenco: Matt
Dillon, Timothy Hutton, Noah Emmerich, Michael Rapaport, Rosie
O'Donnell, Lauren Holly, Martha Plimpton, Max Perlich, Natalie Portman,
Mira Sorvino, Uma Thurman, Pruitt Taylor Vince, Sam Robards, David
Arquette, John Carrol Lynch. Estreia: 09/02/06
Esta é uma história real: na metade da década de 90, enquanto esperava por uma resposta em relação à sorte de um trabalho seu para um grande estúdio de Hollywood, o roteirista Scott Rosenberg voltou à sua cidade natal, no estado de Massachusetts, para fugir da tensão da situação. Lá, ao lado de amigos de infância, percebeu, quase como uma epifania, o quão imaturos todos eles eram, incapazes de aceitar o fato de que estavam chegando aos 30 anos e totalmente despreparados para assumirem compromissos sentimentais. Ciente de que tal estado de espírito também dizia respeito a quase todos os homens de sua geração - e talvez das anteriores e posteriores - Rosenberg partiu para a ação e escreveu "Brincando de seduzir", uma comédia cáustica, romântica e um tanto cínica sobre ele mesmo em particular e os homens em geral. Dirigido por Ted Demme - recém vindo do ácido "O árbitro" - e estrelado por um grupo de jovens atores e atrizes que se dividiam entre iniciantes e veteranos, o filme fez pouco barulho nas bilheterias, mas é, sem dúvida, um retrato fiel e - por que não? - encantador da amizade entre homens.
Willie Conway (Timothy Hutton caprichando no visual desleixado) toca pianos nos bares de Nova York enquanto espera sua grande chance de tornar-se rico e famoso. Namorando há anos a compreensiva advogada Tracy (Annabeth Gish), ele retorna à sua cidade natal para um reencontro com os colegas do ginasial, a quem não vê há anos - assim como seu pai e seu irmão caçula, que desde a morte de sua mãe entraram em uma rotina triste e sem expectativas. Chegando a seu destino, ele imediatamente conhece a nova vizinha, a adolescente Marty (Natalie Portman), que mesmo aos 14 anos, não hesita em flertar com o forasteiro - que, logicamente, sente-se atraído pelo frescor e juventude da menina. Seu desequilíbrio diante de um belo espécime do sexo feminino é compartilhado com seus outros amigos, conforme ele vai percebendo ao encontrá-los: Tommy (Matt Dillon), o galã da cidade, namora com a bela e dedicada Sharon (Mira Sorvino), mas mantém há tempos um caso com uma mulher casada, Darian (Lauren Holly). Seu sócio no negócio de limpar neve das calçadas é Paul (Michael Rapaport, sempre bom em papéis de homens bobalhões), que não se conforma com a traição da namorada, Jan (Martha Plimpton) e vinga-se dela atravancando sua garagem com detritos das tempestades que não param de chegar. O único da turma que parece feliz é Michael (Noah Emmerich), casado, pai de dois filhos e imune às tentações da carne - sempre ironizadas pela sarcástica Gina (Rosie O'Donnell). As noitadas regadas a bebida e reminiscências são abaladas, porém, com a chegada de Andera (Uma Thurman), a bela e independente prima de um amigo em comum que mexe com a libido de todos.
É difícil de acreditar que antes de "Brincando de seduzir" apenas um outro roteiro de Scott Rosenberg havia chegado às telas - e de um gênero totalmente distante, o policial "Coisas para se fazer em Denver quando você está morto", lançado em 1995. Dotado de ritmo, consistência dramática e personagens críveis e pateticamente humanos, o texto de Rosenberg flui com extrema naturalidade, chegando até ao espectador sem soar presunçoso ou autocomplacente. Mesmo quando toca em um assunto potencialmente perigoso - a atração do trintão Willie pela adolescente Marty - o roteiro substitui o peso de uma polêmica pela leveza da citação de Nabokov e sua Lolita. Ao defender a imaturidade masculina mesmo quando ela tem consequências pouco nobres ou altruístas, tanto Rosenberg quanto o diretor Ted Demme tem o cuidado de não parecerem machistas ou misóginos: eles parecem dizer, através dos diálogos certeiros e quase melancólicos em determinados momentos, que seus personagens não são maus, são apenas infantis e, portanto, dotados de um egoísmo inerente à sua condição. E para isso, eles contam com um elenco excelente, que se desincumbe com maestria das armadilhas de uma trama que prescinde de heróis ou vilões.
Timothy Hutton - que ganhou um Oscar de coadjuvante aos 19 anos por "Gente como a gente" (80) - sai-se bem como o desnorteado Willie, um homem perdido entre a juventude e a maturidade que vê no possível envolvimento com uma adolescente sua última chance de prender-se de vez ao passado. Uma Thurman desfila linda e carismática pela tela como a sedutora Andera e Michael Rapaport faz o papel de adorável paspalho que se tornaria sua marca registrada - o mesmo que acontece com Rosie O'Donnell, que rouba a cena com sua desbocada e realista Gina em pelo menos uma cena memorável, quando discursa sobre a ditadura da beleza feminina ideal dos homens (tema também de um diálogo brilhante proferido pelo personagem de Rapaport). Junto a eles, as duas oscarizadas Natalie Portman - ainda menina - e Mira Sorvino completam uma equipe iluminada, que vem suas cenas comentadas pela adequada e agradável trilha sonora de David A. Stewart.
Ah, o filme que Rosenberg escreveu antes de esconder-se em sua cidadezinha chegou às telas em 1997: era o blockbuster "Con Air, a rota da fuga"... que não tem, perceptivelmente, nada a ver com o delicioso "Brincando de seduzir".
Esta é uma história real: na metade da década de 90, enquanto esperava por uma resposta em relação à sorte de um trabalho seu para um grande estúdio de Hollywood, o roteirista Scott Rosenberg voltou à sua cidade natal, no estado de Massachusetts, para fugir da tensão da situação. Lá, ao lado de amigos de infância, percebeu, quase como uma epifania, o quão imaturos todos eles eram, incapazes de aceitar o fato de que estavam chegando aos 30 anos e totalmente despreparados para assumirem compromissos sentimentais. Ciente de que tal estado de espírito também dizia respeito a quase todos os homens de sua geração - e talvez das anteriores e posteriores - Rosenberg partiu para a ação e escreveu "Brincando de seduzir", uma comédia cáustica, romântica e um tanto cínica sobre ele mesmo em particular e os homens em geral. Dirigido por Ted Demme - recém vindo do ácido "O árbitro" - e estrelado por um grupo de jovens atores e atrizes que se dividiam entre iniciantes e veteranos, o filme fez pouco barulho nas bilheterias, mas é, sem dúvida, um retrato fiel e - por que não? - encantador da amizade entre homens.
Willie Conway (Timothy Hutton caprichando no visual desleixado) toca pianos nos bares de Nova York enquanto espera sua grande chance de tornar-se rico e famoso. Namorando há anos a compreensiva advogada Tracy (Annabeth Gish), ele retorna à sua cidade natal para um reencontro com os colegas do ginasial, a quem não vê há anos - assim como seu pai e seu irmão caçula, que desde a morte de sua mãe entraram em uma rotina triste e sem expectativas. Chegando a seu destino, ele imediatamente conhece a nova vizinha, a adolescente Marty (Natalie Portman), que mesmo aos 14 anos, não hesita em flertar com o forasteiro - que, logicamente, sente-se atraído pelo frescor e juventude da menina. Seu desequilíbrio diante de um belo espécime do sexo feminino é compartilhado com seus outros amigos, conforme ele vai percebendo ao encontrá-los: Tommy (Matt Dillon), o galã da cidade, namora com a bela e dedicada Sharon (Mira Sorvino), mas mantém há tempos um caso com uma mulher casada, Darian (Lauren Holly). Seu sócio no negócio de limpar neve das calçadas é Paul (Michael Rapaport, sempre bom em papéis de homens bobalhões), que não se conforma com a traição da namorada, Jan (Martha Plimpton) e vinga-se dela atravancando sua garagem com detritos das tempestades que não param de chegar. O único da turma que parece feliz é Michael (Noah Emmerich), casado, pai de dois filhos e imune às tentações da carne - sempre ironizadas pela sarcástica Gina (Rosie O'Donnell). As noitadas regadas a bebida e reminiscências são abaladas, porém, com a chegada de Andera (Uma Thurman), a bela e independente prima de um amigo em comum que mexe com a libido de todos.
É difícil de acreditar que antes de "Brincando de seduzir" apenas um outro roteiro de Scott Rosenberg havia chegado às telas - e de um gênero totalmente distante, o policial "Coisas para se fazer em Denver quando você está morto", lançado em 1995. Dotado de ritmo, consistência dramática e personagens críveis e pateticamente humanos, o texto de Rosenberg flui com extrema naturalidade, chegando até ao espectador sem soar presunçoso ou autocomplacente. Mesmo quando toca em um assunto potencialmente perigoso - a atração do trintão Willie pela adolescente Marty - o roteiro substitui o peso de uma polêmica pela leveza da citação de Nabokov e sua Lolita. Ao defender a imaturidade masculina mesmo quando ela tem consequências pouco nobres ou altruístas, tanto Rosenberg quanto o diretor Ted Demme tem o cuidado de não parecerem machistas ou misóginos: eles parecem dizer, através dos diálogos certeiros e quase melancólicos em determinados momentos, que seus personagens não são maus, são apenas infantis e, portanto, dotados de um egoísmo inerente à sua condição. E para isso, eles contam com um elenco excelente, que se desincumbe com maestria das armadilhas de uma trama que prescinde de heróis ou vilões.
Timothy Hutton - que ganhou um Oscar de coadjuvante aos 19 anos por "Gente como a gente" (80) - sai-se bem como o desnorteado Willie, um homem perdido entre a juventude e a maturidade que vê no possível envolvimento com uma adolescente sua última chance de prender-se de vez ao passado. Uma Thurman desfila linda e carismática pela tela como a sedutora Andera e Michael Rapaport faz o papel de adorável paspalho que se tornaria sua marca registrada - o mesmo que acontece com Rosie O'Donnell, que rouba a cena com sua desbocada e realista Gina em pelo menos uma cena memorável, quando discursa sobre a ditadura da beleza feminina ideal dos homens (tema também de um diálogo brilhante proferido pelo personagem de Rapaport). Junto a eles, as duas oscarizadas Natalie Portman - ainda menina - e Mira Sorvino completam uma equipe iluminada, que vem suas cenas comentadas pela adequada e agradável trilha sonora de David A. Stewart.
Ah, o filme que Rosenberg escreveu antes de esconder-se em sua cidadezinha chegou às telas em 1997: era o blockbuster "Con Air, a rota da fuga"... que não tem, perceptivelmente, nada a ver com o delicioso "Brincando de seduzir".
quarta-feira
POUCAS E BOAS
POUCAS E BOAS (Sweet and lowdown, 1999, Sweetland Films, 95min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Fei Zhao. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Laura Cunningham Bauer. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Jessica Lanier. Produção executiva: J.E. Beaucaire. Produção: Jean Doumanian. Elenco: Sean Penn, Samantha Morton, Uma Thurman, Anthony LaPaglia. Estreia: 04/9/99
2 indicações ao Oscar: Ator (Sean Penn), Atriz Coadjuvante (Samantha Morton)
No livro "Conversas com Woody Allen" o cineasta nova-iorquino repete inúmeras vezes que fala pouquíssimo com os atores de seus filmes durante as filmagens, acreditando que, com o talento que eles acrescentam à obra, não é preciso dirigi-los, no sentido literal da palavra. Se tudo não passa de uma série crise de modéstia, é preciso então louvar a forma com que Sean Penn - talvez o melhor ator americano de sua geração - entregou-se de corpo e alma a seu trabalho em "Poucas e boas", um projeto de estimação do diretor que, mesmo não estando entre seus trabalhos mais populares é fascinante, inteligente e emocionante como suas obras-primas mais conhecidas.
Em uma atuação impecável que equilibra com precisão a insanidade e a insegurança próprias dos gênios, Penn vive Emmet Ray, um dos mais intensos e talentosos violinistas dos anos 30 (que fica atrás apenas de Django Reinhardt, a quem idolatra a ponto de desmaiar sempre que se vê frente a ele). Excêntrico, com conexões no submundo, portador de uma certa ingenuidade disfarçada de indiferença e mulherengo, Ray tem sua vida contada em forma de semi-documentário, sendo analisado e narrado por fãs de jazz como o próprio Woody Allen. A pegadinha é que Ray nunca existiu, sendo apenas fruto da imaginação do diretor/roteirista, fã confesso de Reinhardt e que sempre sonhou em criar um filme que recriasse a era de ouro do gênero musical, com seus principais ícones como protagonistas. Levando-se em conta de que seus filmes não são exatamente máquinas de fazer dinheiro, pode-se concluir que "Poucas e boas" é a versão econômica de sua ambição. E ainda assim é muito, muito bom.
O roteiro de Allen não segue o padrão de uma cinebiografia, mostrando uma infância complicada ou problemas da adolescência e juventude de seu protagonista. Ele prefere focar-se em um período específico da vida de Ray, cujo talento imenso não o impede de ser obrigado a tocar para públicos que não sabem reconhecer o tamanho de sua arte - mas ao mesmo tempo o aproxima da alta sociedade de sua época, em especial da escritora Blanche (Uma Thurman), que vê nele a inspiração para um novo livro e acaba se casando com ele, em um romance destinado a fracassar graças ao gênio do músico - e seu narcisismo flagrante. Seduzida pelo estilo de vida aparentemente fascinante do violinista (que tem por hábito dar tiros nos ratos que vivem no lixão e ver trens passando por ele), Blanche é o oposto de Hattie (Samantha Morton), uma jovem lavadeira muda que, apaixonada por Ray, sofre com sua incapacidade de amar.
Se a forma com que Allen conduz sua narrativa imprime um ritmo ágil e mágico à época em que se passa a história (bem reconstituída visualmente, graças à direção de arte, ao figurino e à fotografia em tons neutros), muito dos méritos de sua qualidade vem de dois de seus atores centrais. Enquanto Penn usa e abusa de seus dons histriônicos, chegando a tocar violão de verdade em várias cenas e saindo-se extremamente bem tanto em sequências de humor quanto nos momentos mais comoventes (em especial no terço final da projeção), a maior revelação é a novata Samantha Morton, que rouba a cena com a silenciosa Hattie, capaz de quebrar a barreira do coração de Ray sem dizer uma única palavra, em uma ironia mestra que acrescenta uma camada a mais de profundidade ao filme. Morton - criada no interior rural da Inglaterra e que nem sabia quem era Woody Allen quando foi fazer o teste para o filme - foi indicada ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho, que lhe abriu as portas de Hollywood para outros trabalhos igualmente poderosos.
Um filme quase atípico na carreira de Woody Allen, "Poucas e boas" merecia uma recepção mais calorosa e justa. É comovente, é engraçado, é sutil e é inteligente. Se nada disso fosse o bastante, ainda tem Sean Penn, que transforma qualquer filme em uma obra imperdível.
2 indicações ao Oscar: Ator (Sean Penn), Atriz Coadjuvante (Samantha Morton)
No livro "Conversas com Woody Allen" o cineasta nova-iorquino repete inúmeras vezes que fala pouquíssimo com os atores de seus filmes durante as filmagens, acreditando que, com o talento que eles acrescentam à obra, não é preciso dirigi-los, no sentido literal da palavra. Se tudo não passa de uma série crise de modéstia, é preciso então louvar a forma com que Sean Penn - talvez o melhor ator americano de sua geração - entregou-se de corpo e alma a seu trabalho em "Poucas e boas", um projeto de estimação do diretor que, mesmo não estando entre seus trabalhos mais populares é fascinante, inteligente e emocionante como suas obras-primas mais conhecidas.
Em uma atuação impecável que equilibra com precisão a insanidade e a insegurança próprias dos gênios, Penn vive Emmet Ray, um dos mais intensos e talentosos violinistas dos anos 30 (que fica atrás apenas de Django Reinhardt, a quem idolatra a ponto de desmaiar sempre que se vê frente a ele). Excêntrico, com conexões no submundo, portador de uma certa ingenuidade disfarçada de indiferença e mulherengo, Ray tem sua vida contada em forma de semi-documentário, sendo analisado e narrado por fãs de jazz como o próprio Woody Allen. A pegadinha é que Ray nunca existiu, sendo apenas fruto da imaginação do diretor/roteirista, fã confesso de Reinhardt e que sempre sonhou em criar um filme que recriasse a era de ouro do gênero musical, com seus principais ícones como protagonistas. Levando-se em conta de que seus filmes não são exatamente máquinas de fazer dinheiro, pode-se concluir que "Poucas e boas" é a versão econômica de sua ambição. E ainda assim é muito, muito bom.
O roteiro de Allen não segue o padrão de uma cinebiografia, mostrando uma infância complicada ou problemas da adolescência e juventude de seu protagonista. Ele prefere focar-se em um período específico da vida de Ray, cujo talento imenso não o impede de ser obrigado a tocar para públicos que não sabem reconhecer o tamanho de sua arte - mas ao mesmo tempo o aproxima da alta sociedade de sua época, em especial da escritora Blanche (Uma Thurman), que vê nele a inspiração para um novo livro e acaba se casando com ele, em um romance destinado a fracassar graças ao gênio do músico - e seu narcisismo flagrante. Seduzida pelo estilo de vida aparentemente fascinante do violinista (que tem por hábito dar tiros nos ratos que vivem no lixão e ver trens passando por ele), Blanche é o oposto de Hattie (Samantha Morton), uma jovem lavadeira muda que, apaixonada por Ray, sofre com sua incapacidade de amar.
Se a forma com que Allen conduz sua narrativa imprime um ritmo ágil e mágico à época em que se passa a história (bem reconstituída visualmente, graças à direção de arte, ao figurino e à fotografia em tons neutros), muito dos méritos de sua qualidade vem de dois de seus atores centrais. Enquanto Penn usa e abusa de seus dons histriônicos, chegando a tocar violão de verdade em várias cenas e saindo-se extremamente bem tanto em sequências de humor quanto nos momentos mais comoventes (em especial no terço final da projeção), a maior revelação é a novata Samantha Morton, que rouba a cena com a silenciosa Hattie, capaz de quebrar a barreira do coração de Ray sem dizer uma única palavra, em uma ironia mestra que acrescenta uma camada a mais de profundidade ao filme. Morton - criada no interior rural da Inglaterra e que nem sabia quem era Woody Allen quando foi fazer o teste para o filme - foi indicada ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho, que lhe abriu as portas de Hollywood para outros trabalhos igualmente poderosos.
Um filme quase atípico na carreira de Woody Allen, "Poucas e boas" merecia uma recepção mais calorosa e justa. É comovente, é engraçado, é sutil e é inteligente. Se nada disso fosse o bastante, ainda tem Sean Penn, que transforma qualquer filme em uma obra imperdível.
TERAPIA DO AMOR
TERAPIA DO AMOR (Prime, 2005, Universal Pictures, 105min) Direção e roteiro: Ben Younger. Fotografia: William Rexer. Montagem: Kristina Boden. Música: Ryan Shore. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Carol Silverman. Produção executiva: Mark Gordon, Bob Yari. Produção: Jennifer Todd, Suzanne Todd. Elenco: Meryl Streep, Uma Thurman, Bryan Greenberg, Jon Abrahams. Estreia: 21/9/05 (Festival de San Diego)
A trama central é tão genial em sua simplicidade e em suas sacadas que é difícil acreditar que "Terapia do amor" demorou tanto tempo para ser realizado: uma mulher de trinta e poucos anos, recém divorciada, se apaixona por um rapaz bem mais jovem e é incentivada por sua terapeuta, uma judia fervorosa, que lhe empurra para os braços do rapaz que, sem que nenhuma das duas saiba, é seu filho. Com essa premissa aparentemente comum, o roteirista e diretor Ben Younger conseguiu um fato raro: dar a Meryl Streep um papel cômico. E não é preciso dizer que a veterana atriz tira de letra o desafio, roubando o filme todo para si apesar dos esforços da real protagonista, Uma Thurman.
Thurman - que substituiu Sandra Bullock na última hora depois que as mudanças no roteiro impostas pela atriz não foram aceitas - está á vontade como em poucas vezes em sua carreira na pele de Rafi Gardet, uma produtora fotográfica de 37 anos recém-divorciada que se apaixona perdidamente pelo jovem David Bloomberg (Bryan Greenberg), que sonha em tornar-se pintor profissional mas que é sufocado por uma família judia que o trata como uma criança - em especial sua mãe, a bem-sucedida terapeuta Lisa Metzger (Meryl Streep), que sonha em vê-lo casado com uma mulher de sua religião e com um trabalho mais formal. O que nem Rafi nem Lisa sabem é que Bryan é filho da médica que tanto encoraja sua paciente a encontrar um novo amor, mesmo que seja mais jovem. Quando a verdade vem à tona, decisões precisam ser tomadas e é aí que idade e fé mostram suas reais importâncias.

O maior mérito do filme do estreante Ben Younger - que escreveu o roteiro inspirado muito em sua própria vivência como um jovem judeu de Nova York - é tratar de assuntos delicados de forma irônica e engraçada sem nunca cair na sátira vazia ou no desrespeito. Tanto a abordagem das doutrinas judaicas - que dão origem a muitas e engraçadíssimas piadas - quanto a do relacionamento ameaçado pela diferença de idade são extremamente felizes. Nem mesmo quando deixa de lado o humor para concentrar-se no romance o filme de Younger perde seu foco, contando com a química entre Thurman e Greenberg como arma secreta quando Streep torna-se coadjuvante. Antes que isso aconteça, porém, o show é, mais uma vez, da veterana atriz.
Poucas vezes explorada pelas comédias até então, Meryl Streep mostra mais uma vez porque é a atriz das atrizes. Não é preciso muito tempo em cena para que ela roube descaradamente o filme, construindo uma supermãe judaica e uma terapeuta profissional com equilíbrio e um timing cômico preciso. A cena em que ela descobre que seu filhinho amado está de romance com uma mulher mais velha, gentia e divorciada é simplesmente genial principalmente por sua causa: nem é preciso diálogos para que seu desespero seja transmitido à plateia - da forma mais sutilmente engraçada possível. Dando humanidade à sua personagem, Streep impede que ela seja apenas um empecilho para a consumação do romance entre os protagonistas, tornando-se uma personagem tão rica quanto eles.
Valorizado ainda pelo final agridoce e realista, "Terapia do amor" é uma comédia romântica que foge do lugar-comum ao retratar não apenas uma história de amor, mas também seus reveses e suas alegrias. Engraçado, triste e capaz de despertar discussões - ainda que sem maiores profundidades - é um belo passatempo.
A trama central é tão genial em sua simplicidade e em suas sacadas que é difícil acreditar que "Terapia do amor" demorou tanto tempo para ser realizado: uma mulher de trinta e poucos anos, recém divorciada, se apaixona por um rapaz bem mais jovem e é incentivada por sua terapeuta, uma judia fervorosa, que lhe empurra para os braços do rapaz que, sem que nenhuma das duas saiba, é seu filho. Com essa premissa aparentemente comum, o roteirista e diretor Ben Younger conseguiu um fato raro: dar a Meryl Streep um papel cômico. E não é preciso dizer que a veterana atriz tira de letra o desafio, roubando o filme todo para si apesar dos esforços da real protagonista, Uma Thurman.
Thurman - que substituiu Sandra Bullock na última hora depois que as mudanças no roteiro impostas pela atriz não foram aceitas - está á vontade como em poucas vezes em sua carreira na pele de Rafi Gardet, uma produtora fotográfica de 37 anos recém-divorciada que se apaixona perdidamente pelo jovem David Bloomberg (Bryan Greenberg), que sonha em tornar-se pintor profissional mas que é sufocado por uma família judia que o trata como uma criança - em especial sua mãe, a bem-sucedida terapeuta Lisa Metzger (Meryl Streep), que sonha em vê-lo casado com uma mulher de sua religião e com um trabalho mais formal. O que nem Rafi nem Lisa sabem é que Bryan é filho da médica que tanto encoraja sua paciente a encontrar um novo amor, mesmo que seja mais jovem. Quando a verdade vem à tona, decisões precisam ser tomadas e é aí que idade e fé mostram suas reais importâncias.

O maior mérito do filme do estreante Ben Younger - que escreveu o roteiro inspirado muito em sua própria vivência como um jovem judeu de Nova York - é tratar de assuntos delicados de forma irônica e engraçada sem nunca cair na sátira vazia ou no desrespeito. Tanto a abordagem das doutrinas judaicas - que dão origem a muitas e engraçadíssimas piadas - quanto a do relacionamento ameaçado pela diferença de idade são extremamente felizes. Nem mesmo quando deixa de lado o humor para concentrar-se no romance o filme de Younger perde seu foco, contando com a química entre Thurman e Greenberg como arma secreta quando Streep torna-se coadjuvante. Antes que isso aconteça, porém, o show é, mais uma vez, da veterana atriz.
Poucas vezes explorada pelas comédias até então, Meryl Streep mostra mais uma vez porque é a atriz das atrizes. Não é preciso muito tempo em cena para que ela roube descaradamente o filme, construindo uma supermãe judaica e uma terapeuta profissional com equilíbrio e um timing cômico preciso. A cena em que ela descobre que seu filhinho amado está de romance com uma mulher mais velha, gentia e divorciada é simplesmente genial principalmente por sua causa: nem é preciso diálogos para que seu desespero seja transmitido à plateia - da forma mais sutilmente engraçada possível. Dando humanidade à sua personagem, Streep impede que ela seja apenas um empecilho para a consumação do romance entre os protagonistas, tornando-se uma personagem tão rica quanto eles.
Valorizado ainda pelo final agridoce e realista, "Terapia do amor" é uma comédia romântica que foge do lugar-comum ao retratar não apenas uma história de amor, mas também seus reveses e suas alegrias. Engraçado, triste e capaz de despertar discussões - ainda que sem maiores profundidades - é um belo passatempo.
segunda-feira
KILL BILL, V. 2
KILL BILL, V.2 (Kill Bill, v.2, 2004, Miramax Films, 136min) Direção: Quentin Tarantino. Roteiro: Quentin Tarantino, personagens criadas por Quentin Tarantino, Uma Thurman. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Sally Menke. Música: Robert Rodriguez. Figurino: Kumiko Ogawa, Catherine Marie Thomas. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Erica Steinberg, E. Benneth Walsh, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Uma Thurman, David Carradine, Daryl Hannah, Michael Madsen, Chia Hui Liu. Estreia: 16/4/04
Foram seis meses de uma espera exasperante por parte dos fãs e da crítica, e o segundo volume da saga da Noiva (Uma Thurman) em busca de vingança por sua quase morte estreou nos EUA cercado pela expectativa de sempre quando se trata de um filme dirigido por Quentin Tarantino. E mais uma vez o cineasta mais influente de seu tempo não decepcionou. Quem esperava mais da pancadaria generalizada do primeiro filme teve ao menos uma luta inesquecível. Quem procurava homenagens aos filmes japoneses citados em todas as entrevistas do diretor testemunhou cenas destinadas a clássicas. E quem tinha esperança de que os diálogos do roteirista fanático pelo universo pop - sua marca registrada desde sua estreia com "Cães de aluguel" - retornassem em grande estilo teve motivos de sobra para comemorar. Em suma, "Kill Bill, v.2" não é melhor nem pior do que seu primeiro capítulo: é o complemento ideal de um dos mais criativos produtos cinematográficos dos últimos anos.
Ao contrário do primeiro filme, em que a Noiva - que finalmente tem seu misterioso nome revelado nessa continuação - usava de toda a sua experiência como guerreira "ninja" para acabar com seus inimigos, sem muito espaço para conversa, dessa vez a coisa é bem diferente. Deixando um pouco de lado a ação desenfreada, a segunda parte da história da vingadora vivida com evidente satisfação por Uma Thurman mostra as origens de sua revolta, detalhando o ataque de seu ex-mentor e amante Bill (David Carradine finalmente dá as caras pra valer), seu treinamento com o mestre Pai Mei (Gordon Liu, ótimo), seu acerto de contas com os membros restantes do grupo de extermínio do qual participava (em atuações antológicas de Michael Madsen e Daryl Hannah) e o que talvez seja o clímax mais esperado do cinema em muito tempo: o tão aguardado encontro com seu algoz.

Em "Kill Bill, v.2", os diálogos deliciosos de Tarantino estão de volta (em especial em um longo monólogo de Bill acerca do Superman), sempre recitados com gosto e prazer por atores impecavelmente dirigidos e à vontade. Daryl Hannah, em especial, na pela da temível Ellie Driver, dá um show com sua atuação confortável e divertidíssima, ainda que suas cenas com Uma Thurman sejam as mais violentas do filme - se bem que a violência da sequência lembre muito mais desenhos animados do que programas de luta-livre. E, assim como em "Jackie Brown", o diretor/roteirista não tem pressa de contar sua história, dando tempo e espaço para suas personagens e seus atores extraírem sempre o melhor de cada cena, de cada enquadramento, de cada linha de diálogo.
Tudo bem que o desfecho do filme - entre Thurman e Carradine - talvez soe meio anti-climático, mas combina perfeitamente com a maneira com que ele vinha se encaminhando no roteiro. É um final um tanto melancólico, o que não deixa de ser surpreendente vindo de um cineasta irônico, irreverente e de sangue assumidamente pop. Mas é mais uma obra-prima a figurar no currículo de Quentin Tarantino, já um diretor essencial na história do cinema.
Foram seis meses de uma espera exasperante por parte dos fãs e da crítica, e o segundo volume da saga da Noiva (Uma Thurman) em busca de vingança por sua quase morte estreou nos EUA cercado pela expectativa de sempre quando se trata de um filme dirigido por Quentin Tarantino. E mais uma vez o cineasta mais influente de seu tempo não decepcionou. Quem esperava mais da pancadaria generalizada do primeiro filme teve ao menos uma luta inesquecível. Quem procurava homenagens aos filmes japoneses citados em todas as entrevistas do diretor testemunhou cenas destinadas a clássicas. E quem tinha esperança de que os diálogos do roteirista fanático pelo universo pop - sua marca registrada desde sua estreia com "Cães de aluguel" - retornassem em grande estilo teve motivos de sobra para comemorar. Em suma, "Kill Bill, v.2" não é melhor nem pior do que seu primeiro capítulo: é o complemento ideal de um dos mais criativos produtos cinematográficos dos últimos anos.
Ao contrário do primeiro filme, em que a Noiva - que finalmente tem seu misterioso nome revelado nessa continuação - usava de toda a sua experiência como guerreira "ninja" para acabar com seus inimigos, sem muito espaço para conversa, dessa vez a coisa é bem diferente. Deixando um pouco de lado a ação desenfreada, a segunda parte da história da vingadora vivida com evidente satisfação por Uma Thurman mostra as origens de sua revolta, detalhando o ataque de seu ex-mentor e amante Bill (David Carradine finalmente dá as caras pra valer), seu treinamento com o mestre Pai Mei (Gordon Liu, ótimo), seu acerto de contas com os membros restantes do grupo de extermínio do qual participava (em atuações antológicas de Michael Madsen e Daryl Hannah) e o que talvez seja o clímax mais esperado do cinema em muito tempo: o tão aguardado encontro com seu algoz.

Em "Kill Bill, v.2", os diálogos deliciosos de Tarantino estão de volta (em especial em um longo monólogo de Bill acerca do Superman), sempre recitados com gosto e prazer por atores impecavelmente dirigidos e à vontade. Daryl Hannah, em especial, na pela da temível Ellie Driver, dá um show com sua atuação confortável e divertidíssima, ainda que suas cenas com Uma Thurman sejam as mais violentas do filme - se bem que a violência da sequência lembre muito mais desenhos animados do que programas de luta-livre. E, assim como em "Jackie Brown", o diretor/roteirista não tem pressa de contar sua história, dando tempo e espaço para suas personagens e seus atores extraírem sempre o melhor de cada cena, de cada enquadramento, de cada linha de diálogo.
Tudo bem que o desfecho do filme - entre Thurman e Carradine - talvez soe meio anti-climático, mas combina perfeitamente com a maneira com que ele vinha se encaminhando no roteiro. É um final um tanto melancólico, o que não deixa de ser surpreendente vindo de um cineasta irônico, irreverente e de sangue assumidamente pop. Mas é mais uma obra-prima a figurar no currículo de Quentin Tarantino, já um diretor essencial na história do cinema.
KILL BILL, V.1
KILL BILL, V.1 (Kill Bill, v.1, 2003, Miramax Films, 111min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino, personagem criado por Quentin Tarantino e Uma Thurman. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Sally Menke. Música: The RZA. Figurino: Kumiko Ogawa, Catherine Thomas. Direção de arte/cenários: Yohei Taneda, David Wasco/Yoshihito Akatsuka, Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Erica Steinberg, E. Bennett Walsh, Bon Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Uma Thurman, Lucy Liu, Vivica A. Fox, Daryl Hannah, David Carradine, Michael Madsen, Julie Dreyfus, Chiaki Kuriyama, Sonny Chiba. Estreia: 10/10/03
Cinco anos depois do lançamento de seu filme anterior, "Jackie Brown" - que dividiu a crítica e seus fãs - o cultuado Quentin Tarantino surpreendeu meio mundo com "Kill Bill", uma sangrenta e violenta odisséia de vingança dividida em dois capítulos devido às exigências da Miramax Pictures. Quem esperava um produto típico do diretor levou um susto. Apesar de muitas características suas estarem presentes - diálogos rápidos, referências pop aos borbotões e a edição picotada - o quarto filme de Tarantino é de longe o mais ousado, divertido e radical trabalho de sua mente enlouquecida.
Desde a primeira cena, em preto-e-branco - em que a protagonista inicia seu calvário ao som da belíssima "Bang bang" na voz de Nancy Sinatra - até o final que desperta uma curiosidade atroz de ver logo sua continuação, "Kill Bill, v.1" é um presente aos fãs do cineasta em particular e de cinema como entretenimento em geral. Totalmente desdenhoso de verossimilhança, o universo criado por Tarantino em seu novo filme só faz sentido quando o bom-senso, a crítica e o mau-humor forem deixados de lado. Afinal de contas, suas personagens são capazes de matar quase 100 homens armados em poucos minutos, cabeças decepadas esguicham litros e mais litros de sangue e uma mulher que ficou anos em coma consegue viajar dos EUA ao Japão sem ter ao menos um emprego. Estando ciente dessa necessidade premente de ligar a "suspensão de realidade", basta entrar no clima e cair na diversão - isso se a concepção de diversão do espectador for a mesma do fiel público de Quentin Tarantino.
Tudo começa quando uma jovem grávida e vestida de noiva é violentamente atacada por um bando de matadores e entra em coma. Quatro anos depois, a tal jovem (vivida de forma inesquecível por Uma Thurman) acorda com sede de vingança. Fazendo uma lista com os nomes de todas as pessoas responsáveis por sua tragedia pessoal - todas elas parte de um grupo de extermínio do qual ela mesma fazia parte - ela sai em busca de cada um, disposta a matá-los pessoalmente até chegar ao chefe de todos: o temido Bill, pai da criança que ela esperava no momento do atentado.

A história de vingança seria comum e banal, se Quentin Tarantino não estivesse por trás do roteiro. A protagonista, criada pelo diretor e pela atriz Uma Thurman é, sem dúvida, uma das figuras icônicas de seu tempo. O uniforme amarelo usado por Thurman na mais famosa das sequências - quando ela simplesmente dizima um exército de seguranças utilizando apenas uma espada - foi claramente inspirado nos filmes de Bruce Lee, fonte obrigatória na qual Tarantino bebeu descaradamente. Aliás, homenagens não faltam no decorrer da projeção, principalmente a filmes orientais. Até mesmo a criativa e empolgante sequência em anime - para contar as origens de uma das personagens mais interessantes, O-Ren Shii (vivida por Lucy Liu) - faz parte das várias lembranças culturais do diretor.
Mas o que diferencia "Kill Bill, v.1" dos outros filmes do cineasta é a profusão de cenas de ação. Nem mesmo seu filme mais violento até então, "Cães de aluguel", tem tantas cenas de luta e sangue. Milimetricamente coreografadas, as lutas entre Uma Thurman e Vivica A. Fox - que literalmente joga o espectador na trama sem muitos rodeios - e Thurman e Lucy Liu - sem falar em várias outras de tirar o fôlego - não deixam espaço para questionamentos logísticos e/ou filosóficos. São momentos da mais pura adrenalina, com membros sendo decepados sem dó nem piedade, sangue jorrando generosamente e uma trilha sonora que somente os filmes do diretor conseguem tornar homogêneas - que tal "Please, don't let me be misunderstood" ilustrando uma cena belissimamente fotografada em um jardim japonês coberto de neve?
Aliás, outro ganho importante no conjunto final de "Kill Bill, v.1" é o acréscimo do diretor de fotografia Robert Richardson - vencedor do Oscar por "JFK". Substituindo o tradicional Andrzej Sekula, colaborador habitual da equipe de Tarantino, Richardson refinou o visual da obra, criando cenas de acabamento impecável que apenas reiteram o crescimento do autor de "Pulp fiction" como realizador. Em cada cena, em cada quadro nota-se nitidamente a forma como Quentin Tarantino se supera a cada trabalho. No primeiro volume de "Kill Bill" ele deixa um pouco de lado sua tendência à verborragia - mas não nos priva de criar personagens seriamente candidatas à antológicas, como a Elle Driver de Daryl Hannah (que terá bem mais destaque na segunda parte) e a segurança pessoal Gogo Yubari (que, vestida de colegial, já é um fetiche ambulante) - para concentrar-se na ação.
O segundo filme continuaria a saga da protagonista (cujo nome nunca é citado aqui) por sua vingança sangrenta e prometia ainda mais cenas inesquecíveis, além de finalmente apresentar a contento o infame Bill. E alguém conseguiu esperar calmamente depois da última frase do filme??
sábado
PULP FICTION - TEMPO DE VIOLÊNCIA
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator (John Travolta), Ator Coadjuvante (Samuel L. Jackson), Atriz Coadjuvante (Uma Thurman), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro Original
Palma de Ouro no Festival de Cannes (Melhor Filme)
Já faz mais de quinze anos que "Pulp fiction" levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e sua influência sobre o cinema americano - e mundial - ainda está longe de arrefecer. Primeiro filme de Quentin Tarantino depois de sua bombástica estreia - o violento "Cães de aluguel" - "Pulp fiction" pegou o mundo de surpresa ao subverter praticamente todas as regras pré-concebidas do cinemão comercial e apresentar um painel cru, engraçado e amoral de pessoas que circulam em um universo particularmente interessante ao cineasta. Desfilam pela tela - por cerca de duas horas e meia de duração - assassinos de aluguel, gângsteres de esquina, boxeadores fracassados e junkies irremediáveis. Vindo da cabeça de Tarantino - dono de um enciclopédico conhecimento sobre filmes B - não é de se estranhar nenhum detalhe de "Pulp fiction". O que é de deixar qualquer um surpreso é o fato do filme ter chegado pertinho de ganhar o Oscar máximo. Não chegou lá - ficou "apenas" com a estatueta de roteiro original - mas só concorrer ao lado de obras certinhas - excelentes, sem dúvida, mas pouco inovadoras - como "Forrest Gump" e "Um sonho de liberdade", já é motivo de choque.
Quentin Tarantino - assim como David Lynch e Pedro Almodovar - é uma espécie de deus de seu próprio universo. Em seus filmes qualquer coisa é possível, qualquer absurdo é compreensível e qualquer personagem é crível. Dentro de seu específico mundo - decorado e sonorizado com uma mistura de anos 60, 70 e 80 aparentemente sem nexo - ele conduz o espectador a situações bizarras sem dar espaço a questionamentos supérfluos. É somente dentro da obra sui generis do cineasta que matadores verborrágicos em vias de converter-se cruzam o caminho de foragidos ameaçados de morte que adiam a fuga para correr atrás de relíquias familiares - e que dão de cara com bizarros estupradores sadomasoquistas. Sim, isso é "Pulp fiction". Isso e muito mais.
Narrado fora de ordem cronológica - artifício que funciona à perfeição aqui, mas que virou quase uma praga em seu rastro, uma vez que qualquer filme "moderno" a utilizou sem parcimônia desde então - "Pulp fiction" começa apresentando um casal de assaltantes, Pumpkin (Tim Roth) e Honey Bunny (Amanda Plummer), que decide dar uma virada na vida e partir para ações mais ambiciosas e menos perigosas. Antes mesmo que sua história tenha um desfecho, o público é levado a conhecer Vincent Vega (John Travolta no mais consistente retorno de sua carreira) e Jules Winfield (Samuel L. Jackson), em vias de cumprir uma "missão" para seu chefe, o temível Marsellus Wallace (Ving Rhames). Tão logo o trabalho dos dois companheiros é finalizado, começa a história do encontro entre o desajeitado Vincent com Mia (Uma Thurman), a esposa de seu patrão, uma ex-atriz apaixonada por drogas pesadas que o leva a um pesadelo noturno ao sofrer uma overdose acidental. Em seguida, somos jogados na aventura de Butch Coolidge (Bruce Willis), um boxeador que, desafiando o combinado com seus contratadores - entregar uma importante luta - foge em disparada rumo aos braços da namorada, Fabienne (Maria de Medeiros), mas é obrigado a fazer uma retirada estratégica para recuperar o relógio de ouro que pertenceu a seu avô e a seu pai - só para ser vítima de um estranho sequestro ao lado de seu inimigo. E para finalizar tudo, Jules e Vincent são obrigados a chamar o eficiente Mr. Wolf (Harvey Keitel) para resolver um grave e sangrento acidente provocado com um tiro disparado sem querer.

Mesmo hoje, depois de dezenas de imitações baratas e sofríveis, "Pulp fiction" se mantém como revolucionário e impactante. Seu texto afiado (e principalmente repleto de uma naturalidade rara), sua trilha sonora sensacional (impossível não lembrar de sequências inteiras ao ouvir algumas de suas canções), sua absoluta falta de compromisso com o déja-vu e seu humor sardônico são marcas registradas de Tarantino e não são encontradas em quaisquer filmes que beberam de sua fonte. O estilo de Tarantino é legítimo, ao contrário de seus copiadores, e isso faz toda a diferença: o texto de "Pulp fiction soa orgânico e jamais forçado e encontra em seus atores os intérpretes ideais. E é nesse quesito que o cineasta mais influente da década de 90 se sobressai gritantemente: sem seu elenco, escalado a dedo, "Pulp fiction" provavelmente perderia muito de seu impacto.
Ainda que tenha sido John Travolta o mais festejado dos atores do filme - em um retorno que lhe deu uma merecida indicação ao Oscar - é difícil não se deixar fascinar pelos olhos hipnotizantes de Samuel L. Jackson (dono dos diálogos mais substanciais e cultuados da obra) ou seduzir pelo charme de Uma Thurman (que só aceitou fazer parte do elenco depois que o próprio diretor leu o roteiro todo pelo telefone). Tanto Jackson quanto Thurman concorreram à estatueta mais cobiçada do cinema e poderiam facilmente ter vencido. E é um duro golpe aos detratores que insistem em dizer que Tarantino não é bom diretor de atores ver o que ele consegue fazer com Bruce Willis, por exemplo, na melhor atuação de sua carreira, ou com Ving Rhames, um ator pouco conhecido alçado à categoria de assustador com sua performance como Marsellus Wallace - um gângster perigoso flagrado pelas câmeras hiperativas do cineasta em um momento de extrema fragilidade. E isso que nem é preciso falar de nomes consagrados como Harvey Keitel, Christopher Walken e Tim Roth, que apenas reiteram seu talento mesmo em pequenos papéis.
A força de "Pulp fiction" reside em suas inúmeras qualidades que, somadas, fazem dele o filme fundamental de sua época. Parte do inconsciente coletivo de uma legião de fãs da sétima arte, a obra-prima de Quentin Tarantino - se bem que quase todos os seus filmes o são - é um perfeito exemplo do quão inteligente, excitante e corajoso o cinema americano pode ser. Para ver, rever e trever, sempre com a mesma sensação de ineditismo.
sexta-feira
HENRY & JUNE
HENRY & JUNE (Henry & June, 1990, Walrus & Associates, 136min) Direção: Philip Kaufman. Roteiro: Philip Kaufman, Rose Kaufman, livro de Anais Nin. Fotografia: Phillippe Rousselot. Montagem: Dede Allen, Vivien Hillgrove Gilliam, William S. Scharf. Figurino: Yvone Sassinot de Nesle. Direção de arte: Guy-Claude François. Produção: Peter Kaufman. Elenco: Maria de Medeiros, Fred Ward, Uma Thurman, Richard E. Grant, Kevin Spacey. Estreia: 05/10/90
Indicado ao Oscar de Fotografia
Em 1934, Henry Miller publicou "Trópico de câncer", um dos livros mais influentes da literatura norte-americana do século XX. Proibido nos países de língua inglesa até 1961 e acusado de pornografia e obscenidade, o romance, narrado em primeira pessoa, é hoje considerado uma obra-prima incontestável. Em "Henry & June", adaptação das memórias da escritora Anais Nin - que viveu um romance tanto com Miller quanto com sua esposa, June, durante o processo de escrita do livro - "Trópico de câncer" é uma personagem a mais em uma história de amor, sedução, literatura e mais importante que tudo, a história de uma mulher em busca de sua sexualidade.
Dirigido por Philip Kaufman - experiente em histórias calcadas no erotismo, haja visto "A insustentável leveza do ser" - com seu habitual bom-gosto, "Henry & June" é um filme americano com cara de europeu; é ousado, é elegante, é inteligente e acerta em dar ênfase mais em seu clima e em seu elenco bem-escalado do que nos escândalos que o tema poderia suscitar - e suscitou! Lançado em 1990, o filme causou polêmica ao receber um selo "X" do órgão censor americano, o que o colocava no mesmo patamar de filmes pornográficos. Desnecessário dizer que a decisão deflagrou um movimento de artistas, todos em prol do filme de Kaufman. A grita toda em torno do assunto obrigou a criação de um selo um pouco menos agressivo, que permitia que menores de 17 anos pudessem assistir ao filme, desde que acompanhados por pais ou responsáveis - uma classificação que persiste ainda hoje.

Mas afinal de contas, o que "Henry & June" tem que tanto incomodou os pruridos da melindrosa moral americana? Além da aura de maldito que a obra de Henry Miller ainda tem nos EUA, é inegável que o filme de Kaufman tem um alto teor erótico. Não faltam corpos nus nas mais de duas horas de filme, assim como também sua atmosfera sensual vibra de forma quase palpável. A Paris do início dos anos 30 é vista através da lente caprichada de Philippe Rousselot - que obteve uma merecida indicação ao Oscar por seu trabalho - com mulheres e homens em constante busca pelo prazer. A câmera de Kaufman vasculha bares do submundo, casas de tolerância e becos mal iluminados com a mesma familiaridade com que flutua entre paisagens sofisticadas, e a impecável reconstituição de época contribui para o efeito quase onírico das memórias de Anais, uma mulher normal - apesar dos interesses incomuns, como defender a obra de DH Lawrence em um livro - que tem sua vida transformada através do encontro com um escritor grosseiro e rude, bem diferente dos modos suaves de seu marido, um banqueiro que, apesar de amoroso, não lhe desperta os instintos mais, digamos assim, básicos.
Vivida pela expressiva atriz portuguesa Maria de Medeiros, Anais Nin é apresentada como alguém que busca emoções em sua vida e que, apesar de não se chocar com escritos ditos pornográficos, como "O amante de Lady Chatterley", vive uma vida cômoda e sexualmente quase tediosa com o marido (interpretado por Richard E. Grant). Ao conhecer Henry Miller, já um homem maduro e sem o verniz de uma boa educação (retratado com quase perfeição por Fred Ward, um ator subaproveitado em Hollywood) e posteriormente sua sedutora mulher June (Uma Thurman possivelmente na melhor atuação de sua carreira pré-Quentin Tarantino), Anais passa a transitar em um mundo onde o hedonismo e a literatura convivem lado a lado. Liberta das amarras que a prendiam em um casamento aparentemente feliz, ela incentiva a publicação do livro de Miller e de quebra escreve o seu próprio, também retratando a misteriosa June.
É irônico perceber como uma plateia acostumada a violências gratuitas e sexo totalmente desprovido de sutileza como a americana consegue ser tão tacanha em casos como o de "Henry & June". As cenas de sexo entre Maria de Medeiros e Uma Thurman - dirigidas com competência e sensibilidade - chocaram a audiência que dois anos depois lotaria sessões e mais sessões de "Instinto selvagem", onde Sharon Stone se atracava com homens e mulheres com a mesma energia, mas sem a mesma sutileza. Talvez "Henry & June" toque em pontos mais sensíveis e de maneira mais contundente, ainda que jamais seja desprovido de beleza plástica e delicadeza. É um filme a ser louvado pelo que pretendia ser e pelo que se tornou - um libelo a favor da liberdade sexual e de expressão.
Indicado ao Oscar de Fotografia
Em 1934, Henry Miller publicou "Trópico de câncer", um dos livros mais influentes da literatura norte-americana do século XX. Proibido nos países de língua inglesa até 1961 e acusado de pornografia e obscenidade, o romance, narrado em primeira pessoa, é hoje considerado uma obra-prima incontestável. Em "Henry & June", adaptação das memórias da escritora Anais Nin - que viveu um romance tanto com Miller quanto com sua esposa, June, durante o processo de escrita do livro - "Trópico de câncer" é uma personagem a mais em uma história de amor, sedução, literatura e mais importante que tudo, a história de uma mulher em busca de sua sexualidade.
Dirigido por Philip Kaufman - experiente em histórias calcadas no erotismo, haja visto "A insustentável leveza do ser" - com seu habitual bom-gosto, "Henry & June" é um filme americano com cara de europeu; é ousado, é elegante, é inteligente e acerta em dar ênfase mais em seu clima e em seu elenco bem-escalado do que nos escândalos que o tema poderia suscitar - e suscitou! Lançado em 1990, o filme causou polêmica ao receber um selo "X" do órgão censor americano, o que o colocava no mesmo patamar de filmes pornográficos. Desnecessário dizer que a decisão deflagrou um movimento de artistas, todos em prol do filme de Kaufman. A grita toda em torno do assunto obrigou a criação de um selo um pouco menos agressivo, que permitia que menores de 17 anos pudessem assistir ao filme, desde que acompanhados por pais ou responsáveis - uma classificação que persiste ainda hoje.

Mas afinal de contas, o que "Henry & June" tem que tanto incomodou os pruridos da melindrosa moral americana? Além da aura de maldito que a obra de Henry Miller ainda tem nos EUA, é inegável que o filme de Kaufman tem um alto teor erótico. Não faltam corpos nus nas mais de duas horas de filme, assim como também sua atmosfera sensual vibra de forma quase palpável. A Paris do início dos anos 30 é vista através da lente caprichada de Philippe Rousselot - que obteve uma merecida indicação ao Oscar por seu trabalho - com mulheres e homens em constante busca pelo prazer. A câmera de Kaufman vasculha bares do submundo, casas de tolerância e becos mal iluminados com a mesma familiaridade com que flutua entre paisagens sofisticadas, e a impecável reconstituição de época contribui para o efeito quase onírico das memórias de Anais, uma mulher normal - apesar dos interesses incomuns, como defender a obra de DH Lawrence em um livro - que tem sua vida transformada através do encontro com um escritor grosseiro e rude, bem diferente dos modos suaves de seu marido, um banqueiro que, apesar de amoroso, não lhe desperta os instintos mais, digamos assim, básicos.
Vivida pela expressiva atriz portuguesa Maria de Medeiros, Anais Nin é apresentada como alguém que busca emoções em sua vida e que, apesar de não se chocar com escritos ditos pornográficos, como "O amante de Lady Chatterley", vive uma vida cômoda e sexualmente quase tediosa com o marido (interpretado por Richard E. Grant). Ao conhecer Henry Miller, já um homem maduro e sem o verniz de uma boa educação (retratado com quase perfeição por Fred Ward, um ator subaproveitado em Hollywood) e posteriormente sua sedutora mulher June (Uma Thurman possivelmente na melhor atuação de sua carreira pré-Quentin Tarantino), Anais passa a transitar em um mundo onde o hedonismo e a literatura convivem lado a lado. Liberta das amarras que a prendiam em um casamento aparentemente feliz, ela incentiva a publicação do livro de Miller e de quebra escreve o seu próprio, também retratando a misteriosa June.
É irônico perceber como uma plateia acostumada a violências gratuitas e sexo totalmente desprovido de sutileza como a americana consegue ser tão tacanha em casos como o de "Henry & June". As cenas de sexo entre Maria de Medeiros e Uma Thurman - dirigidas com competência e sensibilidade - chocaram a audiência que dois anos depois lotaria sessões e mais sessões de "Instinto selvagem", onde Sharon Stone se atracava com homens e mulheres com a mesma energia, mas sem a mesma sutileza. Talvez "Henry & June" toque em pontos mais sensíveis e de maneira mais contundente, ainda que jamais seja desprovido de beleza plástica e delicadeza. É um filme a ser louvado pelo que pretendia ser e pelo que se tornou - um libelo a favor da liberdade sexual e de expressão.
sábado
LIGAÇÕES PERIGOSAS

LIGAÇÕES PERIGOSAS (Dangerous liaisons, 1988, Warner Bros, 119min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Christopher Hampton, romance de Choderlos de Laclos, peça teatral de Christopher Hampton. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Mick Audsley. Música: George Fenton. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Gérard James. Casting: Howard Feuer, Juliet Taylor. Produção: Norma Heyman, Hank Moonjean. Elenco: Glenn Close, John Malkovich, Michelle Pfeiffer, Uma Thurman, Keanu Reeves, Swoosie Kurtz, Mildred Natwick. Estreia: 21/12/88
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Glenn Close), Atriz Coadjuvante (Michelle Pfeiffer), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor de 3 Oscar: Roteiro Adaptado, Figurino, Direção de arte/cenários
"Crueldade" é a palavra preferida da Marquesa de Merteuil. Uma mulher em um mundo dominado por homens, ela vê na sua possibilidade de manipular aqueles a quem considera inferiores sua vingança contra a humanidade em geral. Com o rosto de Glenn Close, ela é a personificação do mal em "Ligações perigosas", brilhante adaptação do romance epistolar de Choderlos de Laclos dirigida pelo inglês Stephen Frears e que concorreu a merecidos 7 Oscar em 1988. Escrito pelo mesmo Christopher Hampton que fez a transição do livro para os palcos londrinos, o roteiro excepcional (vencedor de uma estatueta dourada) consegue transpor para a tela, com perfeição, a futilidade, a maldade e a falta de escrúpulos de nobres franceses entediados que se divertem às custas do sofrimento alheio.
Na interpretação mais espantosa de sua carreira, Close interpreta uma venal Marquesa que, sentindo-se traída em seus brios por um antigo amante, propõe a seu colega de egocentrismo e vaidade Visconde de Valmont (John Malkovich) um jogo de sedução que ele quase descarta como sendo "fácil demais": levar para a cama a inocente e virginal Cécile de Volanges (Uma Thurman, em um papel para o qual foram testadas Drew Barrymore e Sarah Jessica Parker), que está de casamento marcado com um homem que não apenas abandonou a Marquesa como traiu-a com uma amante do Visconde. Para recuperar sua fama de conquistador, o cínico aristocrata concorda com o plano, mas também se dedica a uma sedução muito mais desafiadora. Encorajado por Merteuil - que lhe promete uma tórrida noite caso ele seja bem-sucedido em seus intentos - ele ambiciona levar para sua alcova a virtuosa Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer), uma mulher casada e religiosa.

Praticamente ao mesmo tempo em que "Ligações perigosas", uma outra versão da obra de Laclos também chegou aos cinemas. Dirigido pelo tcheco Milos Forman, "Valmont" não teve a mesma repercussão que o filme de Stephen Frears, apesar do elenco mais jovem (Annette Bening e Colin Firth foram os protagonistas, sendo que Bening substituiu Michelle Pfeiffer, que acertadamente preferiu viver outra personagem da história e foi indicada ao Oscar de coadjuvante por isso). Mas é certo que, mesmo com suas qualidades, a versão de Forman não tem o mesmo peso e a mesma qualidade quase literária e teatral da visão de Frears, injustamente deixado de lado na corrida ao Oscar de direção.
Apesar do roteiro de Hampton (inteligente e sagaz, mas nunca deixando de ser extremamente sexy) ser o sonho de qualquer cineasta que se preze, devido a suas inúmeras possibilidades, é Frears quem conduz com sutileza e elegância uma história calcada basicamente em sexo e suas consequências - quando foi publicado, em 1782, o romance que deu origem ao filme era considerado tão escandaloso que Maria Antonieta o lia às escondidas, com uma capa falsa. Esse conteúdo "picante" de "Ligações perigosas" é que faz, no entanto, que o filme seja tão, mas tão bom que deu origem a um filhote: sua versão modernizada, "Segundas intenções", com elenco adolescente, estreou em 1999 e fez grande sucesso junto a seu público alvo.
"Ligações perigosas" também pode se vangloriar de outras qualidades indispensáveis a um filme com suas pretensões artísticas - e essas qualidades também foram devidamente recompensadas com as estatuetas oferecidas pela Academia. A reconstituição de época é primorosa, tanto em termos visuais quanto quando se trata do comportamento da alta sociedade francesa pré-revolução. O cuidado de Frears em utilizar esses elementos para contribuir com a intrincada trama proposta pelo roteiro faz com que a plateia mergulhe intensamente nos sentimentos dos protagonistas, todos eles enredados em uma teia de luxúria e paixão desesperada.
Mas seria inútil um roteiro coeso e denso e um visual caprichado se Frears não tivesse escalado um elenco tão forte quanto o que escalou. Com exceção de um jovem Keanu Reeves que já mostrava a extrema fragilidade de seus dotes dramáticos, cada ator que surge em cena é de uma excelência a toda prova. Uma Thurman, jovial e ainda bela, apresenta a inocência de sua personagem com delicadeza e sensibilidade. Michelle Pfeiffer, linda como sempre, constrói a decadência amorosa de sua Madame de Tourvel com a firmeza de uma veterana e John Malkovich equilibra com maestria todas as nuances de um Visconde de Valmont venal, ególatra e até mesmo apaixonado. Sua ausência na lista dos indicados ao Oscar de melhor ator do ano ecoa a ausência de Frears na categoria de diretor. Mas é Glenn Close quem rouba descaradamente para si o filme todo, em uma atuação fascinante.
Depois de ter encarnado a psicótica Alex Forrest de "Atração fatal" e ter sido duramente criticada pelo exagero em sua interpretação - apesar da indicação ao Oscar - Close entrega, como a Marquesa de Merteuil uma atuação contida, discreta, quase silenciosa. Seu olhar de ódio, aliado a um tom de voz sussurrante e modos delicados enquanto maquina horrores em sua mente diabólica deram à atriz um dos papéis mais interessantes da história e ela não perde a oportunidade de mostrar seu talento. Em uma das cenais finais, em que ela simplesmente tropeça no salto do sapato diz mais - sem nenhuma palavra - do que páginas e páginas de diálogos seriam capazes. Suas conversas com Malkovich são, sem exagero nenhum, algumas das mais fascinantes que as telas de cinema mostraram ao público.
"Ligações perigosas" é uma aula de como contar uma história utilizando classe, inteligência e sutileza. É o melhor filme de Stephen Frears e injustamente foi preterido no Oscar pelo correto mas não ousado "Rain Man".
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