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quinta-feira

MULHER NOTA MIL


MULHER NOTA 1000 (Weird science, 1985, Universal Pictures, 94min) Direção e roteiro: John Hughes. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Montagem: Chris Lebenzon, Scott Wallace, Mark Warner. Música: Ira Newborn. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: John W. Corso/Jennifer Polito. Produção: Joel Silver. Elenco: Anthony Michael Hall, Kelly LeBrock, Ilan Mitchel-Smith, Bill Paxton, Robert Downey Jr., Suzanne Snyder, Judie Aronson, Robert Rusler. Estreia: 02/8/85

Não houve adolescente dos anos 1980 que não tenha sido afetado por John Hughes. Diretor de filmes seminais como "Gatinhas e gatões (1984) e "Curtindo a vida adoidado" (1986), ele não apenas virou referência obrigatória a qualquer cineasta com pretensões de adentrar o terreno das comédias românticas teen como revelou nomes que atravessaram a década extremamente populares - como Molly Ringwald e Matthew Broderick. Nenhum filme com sua assinatura, porém, foi tão bem-sucedido em retratar as dúvidas, dores e amores juvenis quanto "Clube dos cinco" (1985), hoje considerado um clássico do gênero. O que pouca gente sabe, no entanto, é que, se não fosse uma de suas comédias menos ambiciosas, sua obra-prima poderia nem existir. Explica-se: "Clube dos cinco" só foi aprovado pelos executivos da Universal Pictures mediante a promessa de Hughes dirigir, antes, um filme de apelo mais fácil junto às plateias. Surgia assim, "Mulher nota mil", uma comédia que pode ser descrita como uma mistura de "Frankenstein" com "Porky's" - por mais que essa cruza possa soar estapafúrdia.

Os dois protagonistas de "Mulher nota mil" são Gary (Anthony Michael Hall) e Wyatt (Ilan Mitchel-Smith), estudantes do ensino médio, nerds de carteirinha e, como não poderia ser diferente, totalmente sem jeito quando se trata de relações amorosas. Frustrados em suas tentativas de serem percebidos pelo sexo oposto como algo mais que alvos dos valentões da escola, os dois adolescentes aproveitam um fim de semana sem os pais na casa de Wyatt para fazer uma experiência no computador do rapaz. Inspirados por uma sessão antiga de "Frankenstein", eles alimentam o aparelho com imagens do que consideram a mulher dos seus sonhos. O que parecia não estar funcionando, porém, se converte em realidade depois de uma tempestade elétrica que faz nascer a estonteante Lisa (Kelly LeBrock, a dama de vermelho em carne e osso): a encarnação dos sonhos lúbricos dos garotos, a bela e pouco recatada nova hóspede acaba por servir como mestre de cerimônias de um mundo completamente desconhecido por eles, repleto de festas, bebidas e uma autoconfiança com a qual eles apenas sonham.

 

Com o roteiro escrito em apenas dois dias, "Mulher nota mil" é, logicamente, nada mais do que uma diversão rápida e despretensiosa. O que faz dele especial é justamente o toque de mestre de Hughes em fazer de seus personagens tipos adoráveis e de fácil identificação com o público. Anthony Michael Hall, que colaborou com o diretor em "Gatinhas e gatões" e "Clube dos cinco", antes de fazer uma série de escolhas erradas que o levaram ao ostracismo, é a perfeita imagem do nerd adolescente desesperado, enquanto Ilan Michael-Smith (que abandonou a carreira nos anos 1990 para assumir como professor de Inglês em uma universidade do Texas) representa um lado mais doce e gentil. A química dos dois jovens atores com Kelly Le Brock é precisa - LeBrok, que ganhou o papel para o qual também foram testadas Demi Moore e Robin Wright, não precisa fazer muito mais do que ser linda e atraente, o que ela faz sem esforço. No elenco jovem não deixa de ser curioso perceber Bill Paxton e Robert Downey Jr. em papéis secundários - o primeiro como o irmão mais velho de Wyatt, e o segundo como um dos algozes da dupla de protagonistas.

"Mulher nota mil" é uma sessão da tarde à moda antiga. Seu visual oitentista, sua trilha sonora de rock e a presença de atores que eram a cara da época são deliciosamente cafonas, e a trama, que descamba para o escatológico e o surreal na segunda metade, impede que ele se leva a sério demais. Uma série de TV inspirada no filme e estrelada por Vanessa Angel, estreou em 1994 e durou cinco temporadas, apesar de não ser muito lembrada pelo público. Talvez porque sua essência pertença definitivamente aos anos 1980 e porque a mágica de John Hughes não funcione tão bem sem que ele esteja no comando criativo do projeto. Considerado um filme menor na carreira do cineasta, é um antídoto perfeito para qualquer filme que exija mais do cérebro do espectador.

domingo

APOLLO 13: DO DESASTRE AO TRIUNFO

APOLLO 13: DO DESASTRE AO TRIUNFO (Apollo 13, 1995, Universal Pictures, 140min) Direção: Ron Howard. Roteiro: William Broyles Jr., Al Reinert, livro de Jim Lovell, Jeffrey Kluger. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Dan Henley, Mike Hill. Música: James Horner. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Merideth Boswell. Produção executiva: Todd Hallowell. Produção: Brian Grazer. Elenco: Tom Hanks, Bill Paxton, Kevin Bacon, Ed Harris, Gary Sinise, Kathleen Quinlan, Xander Berkeley, Loren Dean, Todd Louiso. Estreia: 22/6/95

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Ed Harris), Atriz Coadjuvante (Kathleen Quinlan), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Direção de Arte/Cenários, Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Oscar: Montagem, Som 

Em abril de 1970, o mundo parou graças à viagem de uma missão norte-americana à Lua. Não porque estivesse curioso sobre a viagem em si - Neil Armstrong já havia dado seus passos por lá no ano anterior e o interesse da mídia pela nova aventura da NASA não era dos maiores -, mas justamente porque o que era esperado ser um sucesso previsível acabou se tornando um pesadelo para os astronautas, suas famílias e os engenheiros responsáveis pelos cálculos que levaram à crise. A inesperada explosão em um dos tanques de oxigênio, ocorrida antes que a tripulação chegasse a seu destino, obrigou a um retorno imediato, com o risco iminente de um desfecho trágico - os três pilotos poderiam morrer de frio, sufocados pela falta de ar, envenenados pelo gás carbônico liberado por eles mesmos ou até incinerados ao entrar na atmosfera terrestre. De repente, o que era tratado com desdém por parte da população transformou-se em interesse internacional - e um desastre em potencial virou uma história de superação mais poderosa que qualquer roteiro que pudesse ser criado por Hollywood. E, levando-se em conta a avidez da indústria em capitalizar em cima de narrativas tão impactantes, até que demorou para que a trajetória da Apollo 13 chegasse aos cinemas: somente em 1995, duas décadas e meia depois dos fatos é que finalmente o astronauta Jim Lovell se veria retratado nas telas - mas, como forma de compensação, se veria interpretado por um dos maiores astros de sua geração: Tom Hanks.

Quando "Apollo 13: do desastre ao triunfo" chegou aos cinemas, sob a direção de Ron Howard, em pleno verão norte-americano, Hanks ainda estava saboreando seu segundo Oscar consecutivo de melhor ator, pelo megasucesso "Forrest Gump: o contador de histórias", de Robert Zemeckis. Não há dúvidas de que sua presença ajudou o filme de Howard a tornar-se um enorme êxito comercial, com mais de 170 milhões de dólares arrecadados somente no mercado doméstico (e mais de 350 milhões ao redor do mundo), mas também é certo de que o marketing da Universal Pictures, o talento do diretor em contar histórias que agradam a todos os tipos de público e o fabuloso empurrão da Academia, com nove indicações à estatueta dourada (incluindo melhor filme mas não diretor e ator, para surpresa de muitos). Tudo bem que, no final das contas, Mel Gibson e seu "Coração valente" acabaram se dando melhor na cerimônia do Oscar - deixando apenas os prêmios de edição e som para o filme de Howard -, mas, a esse ponto, a popularidade de "Apollo 13" já estava nas alturas e não precisava de qualquer espécie de selo de aprovação. Mesmo assim, o Screen Actors Guild fez sua parte, lhe conferindo duas láureas: melhor elenco e melhor ator coadjuvante (Ed Harris, também indicado ao Oscar e ao Golden Globe por seu desempenho como Gene Kranz, líder da missão em Houston).


Amparado no maior realismo possível de obter com um orçamento generoso, Ron Howard e sua equipe fizeram de "Apollo 13" um filme tecnicamente impecável - para as rápidas cenas em que a falta de gravidade é mostrada dentro da cápsula espacial, por exemplo, foi utilizado um avião com que a própria NASA trabalha para o treinamento de seus astronautas, que conseguem flutuar por cerca de 23 segundos a cada mergulho no ar. Os efeitos visuais (que perderam o Oscar para "Babe: o porquinho atrapalhado") são sutis, mas tão perfeitos que o próprio Jim Lovell, ao assistir ao filme, julgou que algumas imagens fossem cedidas pela agência norte-americana. Sublinhadas pela trilha sonora épica de James Horner, tais sequências enchem os olhos da plateia e equilibram a tensão e a angústia de seus personagens - nenhum deles especialmente dotado de uma profundidade dramática além da necessária para envolver o espectador. A opção do roteiro em concentrar praticamente toda a ação durante o período em que os protagonistas estavam completamente focados em sua missão é válida - problemas familiares e/ou outros conflitos são praticamente ignorados pelo roteiro, baseado no livro de Lovell e Jeffrey Kluver - e impede o filme de estender-se em excesso ou abusar de uma prolixidade que lhe seria prejudicial em termos de adrenalina. Tal medida não atrapalha, por exemplo, Kathleen Quinlan, que concorreu à estatueta de coadjuvante por sua atuação como Marilyn, a esposa de Lovell, dividida entre o desespero de ver o marido correndo o risco de não voltar vivo para casa e a resiliência necessária para não desabar diante das câmeras de televisão - repentinamente dispostas a dar espaço para a viagem que a princípio não despertara seu interesse.

Mas "Apollo 13" não é o show de um homem só - ou de uma técnica narrativa milimetricamente criada para deixar a plateia com os nervos à flor da pele até os últimos minutos. Como ex-ator mirim, Ron Howard sabe muito bem como explorar o melhor de cada um de seu elenco, repleto de rostos conhecidos do grande público. Tom Hanks lidera o elenco com o carisma habitual, mas divide a maior parte de seu tempo em cena com Bill Paxton e Kevin Bacon, igualmente competentes em transmitir toda a vasta gama de sensações experimentada por seus personagens. Em Terra, além de Kathleen Quinlan e Ed Harris, quem tem suprema importância em ajudar os desventurados protagonistas é Gary Sinise, que, na pele de Ken Mattingly - um astronauta que ficou de fora da missão na última hora -, reprisa sua parceria com Hanks, iniciada em "Forrest Gump". Equilibrando sua linha narrativa entre a técnica e a emoção, Howard criou um filme perfeito para todos os públicos - e já declarou de que se trata do filme preferido dentre todos os que já realizou. Se ufanismo pode incomodar um pouco, mas é inegável que "Apollo 13: do desastre ao triunfo" é, realmente, bem mais um triunfo do que um desastre.

quinta-feira

O ÚLTIMO JANTAR

O ÚLTIMO JANTAR (The last supper, 1995, Columbia Pictures, 92min) Direção: Stacy Title. Roteiro: Dan Rosen. Fotografia: Paul Cameron. Montagem: Luis Colina. Música: Mark Mothersbaugh. Figurino: Leesa Evans. Direção de arte/cenários: Linda Burton/Dea Jensen. Produção executiva: David Cooper. Produção: Matt Cooper, Larry Weinberg. Elenco: Cameron Diaz, Ron Eldard, Annabeth Gish, Jonathan Penner, Courtney B. Vance,  Bill Paxton, Ron Perlman, Nora Dunn, Charles Durning, Jason Alexander. Estreia: 08/9/95 (Festival de Toronto)

Poucos gêneros são tão subestimados no cinema quanto a comédia de humor negro: frequentemente incompreendidas pela plateia (mesmo quando incensadas pela crítica), elas acabam sendo relegadas a segundo plano, como um meio-termo entre o pastelão que lota os cinemas e as comédias mais sofisticadas que costumam ganhar um ou outro prêmio da Academia. É justamente nesse nicho de mercado que se situa "O último jantar", pequena pérola lançada no Festival de Toronto de 1995, passou praticamente em branco pelas telas e ainda não teve a sorte de ser descoberta pelo grande público. Em tempos sombrios como o que vivemos, não deixa de ser confortante perceber que ainda existe gente capaz de pensar com clareza e sobriedade sobre os perigos do radicalismo social e político. Tratando o assunto com leveza e imparcialidade, o roteiro de Dan Rosen leva o espectador a questionar as próprias certezas - e de quebra, dá seu tiro de misericórdia com um toque de ironia espetacular, que abala qualquer alicerce politicamente correto.

Dirigido por Stacy Title - que depois deu seguimento à carreira com filmes de terror - "O último jantar" é uma comédia de sutilezas, que aposta basicamente em uma única situação para levar seu humor até as últimas consequências. Quem comanda a trama é um grupo de estudantes universitários de tendências políticas liberais e que dividem uma casa em uma pequena cidade do estado de Iowa que está com os nervos à flor da pele graças ao desaparecimento de uma criança. Inteligentes, articulados e bem informados, os cinco amigos tem o costume de receber para jantar, todos os domingos, pessoas com quem possam discutir assuntos polêmicos e relevantes - e assim manter o pensamento crítico e a mente aberta. Em uma noite particularmente chuvosa, porém, a rotina é quebrada involuntariamente quando o convidado é o desconhecido Zach (Bill Paxton), que deu carona a um deles, Pete (Ron Eldard), em seu caminhão. Durante a refeição, Zach não apenas se mostra totalmente contrário a tudo que eles pensam como também se torna agressivo e violento, o que resulta em um trágico assassinato. A princípio apavorados com a situação, aos poucos os amigos resolvem enterrar o corpo no quintal e esquecer o assunto. Tudo estaria relativamente em paz se o acontecimento não lhes desse uma bizarra ideia: e se, ao invés de apenas conversar com aqueles que tem pensamentos contrários aos seus eles os envenenassem?


A partir daí, o filme de Title vira uma sinistra brincadeira, onde os protagonistas escolhem suas prováveis vítimas entre as criaturas mais conservadoras e desprezíveis da região para tentar, sempre em vão, demovê-las de suas ideias pequenas e salvá-las de uma morte que elas nem sabem que está à espreita. Um padre (Charles Durning) que culpa os homossexuais pela AIDS, um machista radical (Mark Harmon) que prega a supremacia masculina e um feroz ativista contra o meio-ambiente (Jason Alexander) são alguns dos desavisados que caem nas mãos dos cada vez mais justiceiros companheiros de cruzada, que, subitamente, passam a entrar em conflito interno. Considerando que estão indo longe demais, Jude (Cameron Diaz, antes de ser catapultada para a fama) tenta fazer os amigos pararem com as execuções, mas encontra resistência principalmente em Luke (Courtney B, Vance), que considera seus atos como pura justiça. A situação só piora de vez quando, devido ao atraso de seu voo, uma celebridade controversa e extremamente perigosa (Ron Perlman) senta-se à mesa do grupo - e subverte completamente o roteiro da noite.

Ao elaborar um filme que, além de divertir, desperta questionamentos de extrema importância - afinal, o que diferencia os fascistas dos ditos "liberais"? - "O último jantar" dá um passo à frente em comparação com as comédias normalmente acéfalas que normalmente chegam ao mercado. Mesmo que não se aprofunde nos debates que provoque (o que não é sua intenção, diga-se de passagem), o roteiro faz o próprio espectador por em xeque suas convicções e certezas absolutas. Com um humor certeiro e nunca apelativo, o filme encontra na direção eficiente e simples de Stacy Title a comandante ideal - a cineasta jamais tenta sobrepujar sua história com malabarismos desnecessários de câmera ou artifícios de edição. Sua condução da trama é simples e clássica, contrastando inteligentemente com os tons surreais do roteiro. Com um elenco coeso - o resto do grupo de protagonistas é formado pelo casal Paulie (Annabeth Gish) e Marc (Jonathan Penner) - e um tema contundente, "O último jantar" deveria ser obrigatório.

O ABUTRE

O ABUTRE (Nightcrawler, 2014, Bold Films/Sierra-Affinity, 117min) Direção e roteiro: Dan Gilroy. Fotografia: Robert Elswitt. Montagem: John Gilroy. Música: James Newton Howard. Figurino: Amy Westcott. Direção de arte/cenários: Kevin Kavanaugh/Meg Everist. Produção executiva: Betsy Danbury, Gary Michael Walters. Produção: Jennifer Fox, Tony Gilroy, Jake Gyllenhaal, David Lancaster, Michel Litvak. Elenco: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Bill Paxton, Riz Ahmed. Estreia: 05/9/14 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Em 1976, o cineasta Sidney Lumet lançou um dos mais contundentes ataques ao sensacionalismo da mídia, o já clássico "Rede de intrigas", que deu o Oscar de melhor atriz à Faye Dunaway e de melhor ator (póstumo) a Peter Finch. Quase quatro décadas depois, as coisas não mudaram muito (se é que não pioraram ainda mais) no universo do jornalismo, e o roteirista Dan Gilroy - de "O legado Bourne" - fez sua estreia na direção com mais um ataque feroz contra os urubus do quarto poder. Escorado em uma atuação impressionante de Jake Gyllenhaal, o suspense "O abutre" é um soco na boca do estômago da plateia, colocando-a como testemunha e cúmplice de seu protagonista, um dos mais psicóticos personagens surgidos nas telas de Hollywood em muito tempo.

Assustadoramente magro e visualmente chocante, Gyllenhaal - injustamente esquecido pela Academia que preferiu Bradley Cooper e a soporífera patriotada de "Sniper americano" - interpreta Louis Bloom, um jovem que descobre, meio por acaso, uma forma de ganhar dinheiro explorando a desgraça alheia: vender imagens de acidentes de carro, tiroteios, assassinatos e outros tipos de violência às emissoras de televisão que as veiculam diariamente, como parte de uma dieta sombria e grotesca. Comprando uma câmera amadora e contratando a preço de banana um assistente que não tem onde cair morto - o ingênuo Rick (Riz Ahmed) - Bloom passa a disputar a primazia das desgraças com um veterano das ruas, o também ambicioso Joe Loder (Bill Paxton), e torna-se, com o tempo, fornecedor quase oficial de uma pequena emissora da cidade, cuja diretora de telejornalismo, Nina (Rene Russo), tem uma elástica noção de ética. Quando percebe que pode ganhar ainda mais dinheiro manipulando as cenas dos crimes para torná-las mais atraentes para o telespectador, o rapaz não hesita em ultrapassar todos os limites, chegando até mesmo a esconder informações da polícia para aumentar seu poder de negociação junto à imprensa.


Como uma espécie de Travis Bickle - personagem de Robert De Niro em "Touro indomável" - Louis Bloom é um lobo solitário e perigoso, um misantropo doentio fruto de seu próprio tempo: enquanto Bickle era um veterano da guerra do Vietnã, Bloom é vítima de uma sociedade desesperada pelo êxito e pela vitória, conforme ele deixa claro em seus discursos constantes copiados de manuais de sucesso profissional. Levando uma vida patética e tediosa, ele encontra em sua nova "carreira" não apenas um jeito de ganhar dinheiro, mas de ser notado, respeitado e amado - nem que seja através de chantagem. Seus métodos pouco ortodoxos - pra não dizer tão criminosos quanto os atos que registra com sua câmera - o levam em direção a um precipício do qual ele parece não ter medo, e que fica cada vez mais atrelado à sua necessidade patológica de fama e atenção. Suas armas não são visíveis e é aí que o roteiro de Gilroy (indicado ao Oscar) mostra sua força: aparentemente um simples peão, Louis Bloom é a representação clara e inequívoca de uma imprensa crescentemente cruel e desumana, um monstro incapaz de esconder sua própria face e disposto a sacrificar o que for preciso para atingir seus objetivos egocêntricos. Em um período onde a mídia mais uma vez dita a ordem das coisas em nível mundial, "O abutre" é um filme obrigatório.

E se por seu teor político-social o filme de Dan Gilroy - irmão de Tony, o diretor de "Conduta de risco" - é nada menos que essencial, como cinema também não é nada desprezível. Filmado basicamente à noite (o que enfatiza seu tom sombrio e sublinha o suspense crescente da trama), o trágico e violento conto do cineasta leva o espectador a uma excursão angustiante pelo lado pouco glamouroso de Los Angeles e dos bastidores da televisão - mostrados sob uma luz realista e pouco lisonjeira e valorizados pela bela atuação de Rene Russo (esposa do diretor e em um de seus melhores trabalhos) e pela revelação do jovem Riz Ahmed, que pontuam com perfeição o show de Jake Gyllenhaal, em uma interpretação antológica e fascinante que transforma cada cena em um espetáculo à parte. "O abutre", com seu senso de realidade e inteligência, é um dos melhores filmes da temporada 2014, infelizmente não devidamente reconhecido como tal pelas cerimônias de premiação.

domingo

A MÃO DO DIABO

A MÃO DO DIABO (Frailty, 2001, David Kirschner Productions/American Entertainment, 100min) Direção: Bill Paxton. Roteiro: Brent Hanley. Fotografia: Bill Butler. Montagem: Arnold Glassman. Música: Brian Tyler. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Nelson Coates/Linda Lee Sutton. Produção executiva: Tom Huckabee, Karen Loop, Tom Ortenberg, Michael Paseornek. Produção: David Blocker, David Kirschner, Corey Sienega. Elenco: Bill Paxton, Matthew McConaughey, Powers Booth, Matt O'Leary, Jeremy Sumpter, Levi Kreis, Luke Askew. Estreia: 17/11/01

Ator de inúmeros sucessos de bilheteria, muitos deles sob o comando de James Cameron - "Aliens, o resgate", "True lies", "Titanic" - Bill Paxton fez sua estreia como diretor em um gênero inesperado: o suspense. Uma história de violência, fé e amor entre pai e filhos, "A mão do diabo" foi aplaudido entusiasticamente tanto por Cameron quanto por nomes consagrados como Sam Raimi e Stephen King, e mostrou em Paxton um talento surpreendente em explorar com discrição e sutileza uma trama que, em mãos menos discretas, poderia descambar para a sanguinolência excessiva. Assumindo também um dos papéis principais da história, ele consegue inclusive disfarçar suas fragilidades como ator, desviando o foco da narrativa para o ótimo adolescente Matt O'Leary, que tem a difícil tarefa de guiar uma trama densa e repleta de possibilidades dramáticas que também deu a Matthew McConaughey um dos melhores papéis de sua carreira pré-Oscar.

McConaughey vive Fenton Meiks, um homem que chega à sede do FBI em Dallas, durante uma noite chuvosa, querendo conversar com o agente Wesley Doyle (Powers Boothe), responsável pela investigação de uma série de crimes cometida por um serial killer chamado "A mão de Deus". Segundo Meiks, o autor dos crimes é seu irmão caçula, Adam, e os motivos dos assassinatos remetem à sua infância, quando seu pai (Bill Paxton) os obrigou a testemunhar e participar de várias mortes, de acordo com ele devido à orientação divina. Viúvo e pai dedicado, o até então tranquilo e carinhoso pai de família transformou-se em um anjo exterminador, matando a machadadas todos aqueles constantes na lista enviada por Deus. Chocado com a história contada pelo inesperado informante, o policial aceita levá-lo até o local onde estão enterradas algumas das vítimas do criminoso - e a trama então dá sua virada (coerente e apropriada).


Com um roteiro enxuto e com doses exatas de suspense e drama, "A mão do diabo" tem uma grande vantagem em relação a outros filmes do gênero: não cai na tentação de ser engraçadinho. A direção de Paxton, segura e clássica, não recorre a momentos de alívio cômico, concentrando-se exclusivamente na narração de sua história, de forma a envolver o espectador desde suas primeiras cenas até o final - aterrador mas nunca além dos limites do bom gosto. Como uma boa história de detetive temperada com sobrenatural (ou não, dependendo do ponto de vista), o filme conquista também pela suavidade com que apresenta sequências que poderiam facilmente escorregar em uma violência redundante. Utilizando-se de uma fotografia em tons sóbrios, Paxton ameniza a crueldade de suas cenas justificando-as através das palavras do protagonista, um tipo messiânico que tanto pode estar nitidamente enlouquecendo quanto mostrando-se um escolhido de Deus para limpar o mundo. Essa dualidade, que se mantém até o final da projeção, é outro acerto gigantesco da produção, por permitir ao espectador tomar parte no processo de compreensão da trama.

E se Paxton não é exatamente um grande ator, como diretor ele consegue a façanha de extrair de seu elenco interpretações do mesmo nível do roteiro. Matthew McConaughey sai-se muito bem como o misterioso Fendon Meiks, enquanto cabe a Powers Boothe o ingrato papel de ouvinte - até a reviravolta final, que vira o jogo e transforma o filme em um duelo dos mais empolgantes (sem que para isso seja necessário um orçamento milionário ou efeitos especiais mirabolantes). Mas quem se destaca é mesmo Matt O'Leary, que empresta a seu adolescente Fenton Meiks uma força dramática que vai se avolumando no decorrer da narrativa até assumir o papel de heroi em uma das cenas mais arrepiantes da produção - que fará ainda mais sentido nos momentos finais da história.

Contando sua história à moda antiga - se dedicando aos personagens mais do que aos sustos - Bill Paxton faz de "A mão do diabo" um dos grandes filmes de suspense de seu tempo. Uma pena que, até hoje, o ator não voltou para o banco de diretor.

terça-feira

UM PLANO SIMPLES

UM PLANO SIMPLES (A simple plan, 1998, Paramount Pictures/Mutual Film Company, 121min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: Scott B. Smith, romance homônimo de Scott B. Smith. Fotografia: Alar Kivilo. Montagem: Eric L. Beason, Arthur Coburn. Música: Danny Efman. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Hilton Rosemarin. Produção executiva: Mark Gordon, Gary Levinsohn. Produção: James Jacks, Adam Schroeder. Elenco: Bill Paxton, Bridget Fonda, Billy Bob Thornton, Gary Cole, Brent Briscoe. Estreia: 12/9/98 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Billy Bob Thornton), Roteiro Adaptado

Depois de tornar-se um dos diretores mais cultuados do gênero terror com sua trilogia "Evil dead" e poucos anos antes de conquistar as plateias do mundo todo com os três filmes do Homem-aranha, o cineasta Sam Raimi mostrou que também fica à vontade brincando com outros gêneros cinematográficos ao assinar a direção de "Um plano simples", um drama de suspense inteligente e surpreendente que se utiliza de uma situação quase clichê - um grupo de pessoas vendo sua ética e honestidade postas à prova diante de uma fortuna inesperada e não exatamente limpa - para prender a atenção do público da primeira à última cena graças a uma condução de atores discreta e eficaz e a um roteiro costurado com precisão - e não injustamente indicado ao Oscar da categoria. Baseado em um romance de Scott B. Smith cujos direitos foram comprados por Mike Nichols em 1994, o filme passou pelas mãos de diversos cineastas - como John Boorman e John Dahl - antes de finalmente chegar até Raimi, que imprimiu a ele um tom pessimista e sério que destoava de sua obra até então e pegou até mesmo os fãs de surpresa com sua violência crua e a ausência total de sua marca registrada: o senso de humor negro.

Elegendo como protagonistas dois irmãos não exatamente brilhantes intelectualmente e a esposa grávida de um deles, o roteiro de "Um plano simples" logo de cara mostra que seus personagens não são heróis, vilões ou tampouco capazes de qualquer tipo de superação moral ou ética. Hank Mitchell (Bill Paxton possivelmente no melhor desempenho de sua carreira) trabalha como balconista de um armazém em uma pequena cidade do interior dos EUA. Casado com Sarah (Bridget Fonda em papel oferecido à Laura Dern) e à espera do primeiro filho, ele leva uma vida monótona e sem maiores expectativas até o dia em que, junto com o irmão, Jacob (Billy Bob Thornton, indicado ao Oscar de coadjuvante) e o melhor amigo, Lou (Gary Cole), encontra um avião caído em uma reserva florestal coberta de neve - e dentro dele, além do piloto morto, a pequena fortuna de 4,4 milhões de dólares. Acreditando tratar-se do dinheiro sujo de um resgate, o trio decide ficar com a grana, mas combinam escondê-la até que seja seguro utilizá-la sem despertar suspeitas. Logicamente, porém, as coisas não saem como o esperado: tanto Lou quanto Jacob tem pressa em ficar com sua parte, o que acaba por precipitar uma série de incidentes violentos que compromete a segurança e a liberdade de todos os envolvidos no caso.


A maior qualidade do texto de Smith - adaptado pelo próprio autor para as telas - é a forma com que ele vai explorando paulatinamente o crescimento do mal e da ganância dentro de pessoas até então tidas como pacíficas e honestas. Sarah, por exemplo, como uma Lady Macbeth caipira, vai minando a cabeça de Hank, sendo a autora da maior parte das ideias que acabam por tornar suas vidas um pesadelo sangrento e cruel. Mesmo grávida - e portanto, aparentando uma fragilidade que não existe - ela é quem acaba por se tornar a mais fria e cerebral do grupo, a ponto de ignorar os elos familiares que a unem a Jacob, um homem com problemas mentais que tem por objetivo puro e simples reconstruir a fazenda dos pais e recuperar os dias de paz de seu passado. Os empecilhos irônicos postos diante dos protagonistas pelo roteiro e pela direção esperta e dotada de ritmo próprio de Sam Raimi empurram "Um plano simples" em direção a um final previsivelmente trágico, mas ainda assim consegue fugir do óbvio ao evitar inteligentemente tanto o moralismo quanto o cinismo. Seu desfecho, coerente e verossímil - artigos raros no cinemão americano - pode não agradar a todos, mas é, inegavelmente, bem construído e crível.

E se Billy Bob Thorton foi o único ator do elenco a ser lembrado pela Academia - algo um tanto questionável, uma vez que muitas vezes seu desempenho chega perto da caricatura, como já havia acontecido com seu outro trabalho indicado ao Oscar, "Na corda bamba" - vale destacar a qualidade da atuação de Bill Paxton e Bridget Fonda, que seguram seus papéis com garra e dão a eles uma diversidade de sentimentos que enriquece muito o argumento original. Na pele de Hank e Sarah eles mostram o quanto o ser humano está propenso a alterar seus princípios quanto posto diante de um dilema moral tão fascinante e tentador. Sua humanidade é um ponto alto do filme de Sam Raimi - e o que dá a ele uma transcendência inesperada a uma obra de um gênero normalmente relegado a entretenimento barato.

TWISTER

TWISTER (Twister, 1996, Warner Bros/Universal Pictures/Amblin Entertainment, 118min) Direção: Jan De Bont. Roteiro: Michael Chrichton, Anne-Marie Martin. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Michael Kahn. Música: Mark Mancina. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Joseph Nemec III/Ron Reiss. Produção executiva: Laurie MacDonald, Gerald R. Molen, Walter Parkes, Steven Spielberg. Produção: Ian Bryce, Michael Chrichton, Kathleen Kennedy. Elenco: Helen Hunt, Bill Paxton, Cary Elwes, Jami Gertz, Philip Seymour Hoffman, Lois Smith, Alan Ruck, Todd Field, Abraham Benrubi. Estreia: 10/5/96

2 indicações ao Oscar: Melhor Som, Melhores Efeitos Visuais

Steven Spielberg é apenas o produtor executivo - através de sua Amblin Entertainment - mas é impossível assistir-se a "Twister" sem ver seu dedo em cada detalhe. Os efeitos visuais caprichados, a trama familiar de razoável importância no contexto dramático, a violência extremamente comedida para não chocar o espectador e o ritmo acelerado, sem tempos mortos, são características que fizeram de seus filmes sucessos inegáveis de crítica e bilheteria, e todas elas estão presentes no segundo filme de Jan De Bont - diretor de fotografia alçado à condição de cineasta bem-sucedido depois do inesperado êxito de seu "Velocidade máxima" (94). Mergulhando a plateia em uma montanha-russa divertida e desprovida de quaisquer elocubrações intelectuais, De Bont acertou novamente, proporcionando à audiência duas horas de um delicioso cinema-pipoca.

A trama, como convém a esse tipo de filme, é simples e direta (apesar de um dos roteiristas ser o escritor de ficção científica Michael Chrichton): um grupo de cientistas, liderado pela decidida Jo Harding (Helen Hunt), tem como objetivo perseguir uma série de tornados que vem castigando a região de Oklahoma para colocar, dentro de um deles, um dispositivo que irá permitir que sejam estudados e, por consequência, previstos a tempo de avisar suas possíveis vítimas. Traumatizada por ter testemunhado a morte do pai em um ataque do mais violento dos tornados, Jo é obcecada em atingir sua meta profissional, mas justamente quando está em vias de conseguir sucesso - várias violentas tempestades estão em seu caminho - ela reencontra seu ex-marido, Bill (Bill Paxton), que deseja que ela assine os documentos de seu divórcio. Não bastasse isso, seu maior rival e ex-colega de trabalho, Jonas Miller (Cary Elwes) - que roubou a ideia de sua invenção - também está disposto a chamar para si o êxito da tarefa.


Temperado com efeitos visuais ainda hoje impressionantes - que perderam o Oscar para o previsível "Independence day" - e uma química perfeita entre seus protagonistas (Hunt ainda não havia ganho o Oscar por "Melhor é impossível" e Paxton já era um dos atores preferidos de James Cameron), "Twister" diverte justamente por saber equilibrar com perfeição todos os ingredientes que sempre fizeram o sucesso dos filmes de Spielberg. Sabendo que grande parte de seu público seria de adolescentes e jovens, o roteiro evita ao máximo qualquer tipo de violência gráfica, por mais que seja difícil imaginar um filme sobre tornados sem destruição em massa e mortes a granel. Sendo assim, que não se espere realismo nesse particular do filme: por mais que os ciclones sejam apavorantemente reais, suas consequências são mostradas de forma discreta e nenhuma morte chocante é exposta aos olhos da plateia: assim como em "Jurassic Park" (sintomaticamente dirigido por Spielberg) o perigo é sempre barrado pelos limites do cinema: todos sofrem de tensão e nervosismo, mas com a certeza aconchegante de que nada irá ultrapassar as telas.

É esse o tipo de filme que "Twister" é: um entretenimento direto e eficaz, daqueles que fazem o espectador torcer pelos protagonistas, se abismar com os efeitos de última geração e, no caso, reconhecer, no elenco coadjuvante, nomes que se tornariam famosos pouco tempo depois, como Philip Seymour Hoffman, ou que conheceram o gostinho da fama nos anos 80 antes de desaparecerem em filmes menores (como Alan Ruck, o melhor amigo de Matthew Broderick em "Curtindo a vida adoidado" e Jami Gertz, a mocinha de "Garotos perdidos"). "Twister" é um filme com a marca de Spielberg, com tudo que isso tem de positivo e negativo. Mas é, acima de tudo, um filme que cumpre o que promete: duas horas de diversão pura e quase ingênua.

sábado

TITANIC

TITANIC (Titanic, 1997, 20th Century Fox/Paramount Pictures/Lighstorm Entertainment, 194min) Direção e roteiro: James Cameron. Fotografia: Russell Carpenter. Montagem: James Cameron, Richard A. Harris, Conrad Buff. Música: James Horner. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Peter Lamont/Michael Ford. Produção executiva: Rae Sanchini. Produção: James Cameron, Jon Landau. Elenco: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Kathy Bates, Billy Zane, Gloria Stuart, Bill Paxton, Frances Fisher, Suzy Amis, Victor Garber. Estreia: 14/12/97

14 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (James Cameron), Atriz (Kate Winslet), Atriz Coadjuvante (Gloria Stuart), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Canção Original ("My heart will go on"), Figurino, Direção de arte/cenários, Efeitos Visuais, Maquiagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 11 Oscar: Melhor Filme, Diretor (James Cameron), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Canção Original ("My heart will go on"), Figurino, Direção de arte/cenários, Efeitos Visuais, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (James Cameron), Trilha Sonora Original, Canção Original ("My heart will go on")

Impossível falar em "Titanic" e não afogar-se em números, com o perdão do infame trocadilho. O mais caro filme da história (ao custo de cerca de 200 milhões de dólares), o mais rentável (quase 2 bilhões arrecadados pelo mundo), o recordista em indicações ao Oscar (14, empatado com "A malvada"), o recordista em estatuetas (11, ao lado de "Ben-hur" e "O retorno do rei")... Números e recordes à parte, no entanto, a obra-prima de James Cameron também é, necessário reconhecer, uma das provas de tudo que Hollywood pode oferecer em termos de entretenimento de qualidade. Pode-se falar mal à vontade, mas a história de amor entre o pobretão Jack Dawson e a socialite falida Rose DeWitt Butaker mexe com o coração dos mais sensíveis e o trágico naufrágio oferece adrenalina suficiente aos fãs de filmes de ação. E é justamente esse equilíbrio entre o romance e a catástrofe o ingrediente secreto que transformou o filme de Cameron em fenômeno.

À luz da distância é fácil falar mal de "Titanic". Muitos críticos torcem o nariz para o que consideram uma historinha de amor e tragédia realizada com assustadora competência técnica mas vazia de conteúdo emocional (como se a morte de centenas de pessoas não fosse dramático o bastante). É lógico que, para aqueles que procuram dramas com psicologismos complexos, "Titanic" é absurdamente frívolo, quase banal. Porém, para aqueles que, como a maioria esmagadora dos frequentadores de cinema, procura apenas uma boa história contada de maneira impecável, o romance narrado por Cameron (demonstrando-se um diretor sensível que petardos de ação como os primeiros "O exterminador do futuro" pouco deixavam à mostra) é uma obra-prima absoluta, capaz de emocionar e impressionar em medidas idênticas.



Para quem não sabe - ou seja, para quem voltou à Terra de algum outro planeta - o filme conta a história de amor entre Jack Dawson (Leonardo DiCaprio, em uma atuação carismática) e Rose De Witt Buttaker (Kate Winslet, linda e convincente). Ele é um artista que vive um dia da cada vez, ela uma socialite em vias de entrar em um casamento por conveniência. Eles se conhecem a bordo do Titanic, o maior transatlântico do mundo, em sua viagem inaugural. Enquanto vivem um romance de sonhos - ainda que ameaçado pela diferença social e pelo noivo violento de Rose - eles nem imaginam que o inafundável navio está prestes a morrer no fundo do mar. Ao esbarrar em um iceberg, o Titanic naufraga inexoravelmente, fazendo centenas de vítimas (a maior parte nas classes menos favorecidas). Mais do que proteger seu amor, portanto, Jack e Rose lutam pela própria sobrevivência, testemunhando uma das maiores catástrofes da história.

James Cameron foi de extrema inteligência ao contar sua história da maneira mais simples possível, com uma linguagem que atinge a todo tipo de plateia, independente de classe social ou cultural. A simplicidade do roteiro também dá espaço ao que realmente chama a atenção em "Titanic": a sua supremacia absoluta em termos técnicos e visuais. É difícil ficar indiferente aos efeitos especiais concebidos pelo diretor - que já os havia revolucionado com "O segredo do abismo" e "O exterminador do futuro 2" - e pela grandiosidade do projeto em si. A fotografia exuberante, a reconstituição de época detalhista e o som impecável ficam menores quando assistidos sem o clima de uma sala de cinema (problemas que Blu-ray e TVS de alta definição estão resolvendo maravilhosamente), mas é inegável que tudo no filme é feito para impressionar, para deixar de queixo caído até o mais assíduo cinéfilo. E, convenhamos, o faz com perfeição.

Também é preciso aplaudir o senso de ritmo do cineasta e roteirista. Mesmo que "Titanic" utilize mais de três horas para contar sua história, em nenhum momento torna-se monótono ou cansativo. Logicamente sua primeira parte é mais lenta, ao apresentar as personagens e estabelecer o tom romântico da narrativa - e é nessa primeira hora que DiCaprio e Kate Winslet brilham com suas inspiradas atuações. Quando o naufrágio assume a protagonização, na segunda metade da projeção, o público já está apaixonado por Jack e Rose e embarca sem medo em sua aventura rumo a uma tragédia de proporções gigantescas. E, se deixar a racionalidade de lado, provavelmente irá se emocionar às lágrimas com seu desfecho.

"Titanic" é um clássico de nascimento. Poucas vezes o cinema americano conseguiu unir com tanto talento uma narrativa clássica, uma história real, personagens carismáticos e uma técnica tão brilhante. Falar sobre seu efeito junto à cultura mundial e analisar friamente suas qualidades e defeitos (que existem, é claro) não interfere em absoluto em sua importância na história da sétima arte. É um filme de cabeceira para românticos inveterados.

segunda-feira

TRUE LIES

TRUE LIES (True lies, 1994, 20th Century Fox/Lighstorm Entertainment, 141min) Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron, basedo no roteiro "La totale", de Claude Zidi, Simon Michael, Didier Kaminka. Fotografia: Russell Carpenter. Montagem: Conrad Buff, Mark Goldblatt, Richard A. Harris. Música: Brad Fiedel. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Peter Lamont/Cindy Carr. Produção executiva: Lawrence Kasanoff, Rae Sanchini, Robert Shriver. Produção: Stephanie Austin, James Cameron. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Jamie Lee Curtis, Tom Arnold, Bill Paxton, Tia Carrére, Charlton Heston, Art Malik, Grant Heslov. Estreia: 15/7/94. Bilheteria EUA: U$ 146.261.000

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Jamie Lee Curtis)

Em 1994 a carreira de Arnold Schwarzenegger estava por um fio. O fracasso comercial de "O último grande herói", em que ele brincava com sua imagem de astro de filmes de ação o havia colocado em uma situação delicada dentro de uma indústria onde tudo é medido por dólares. Para recuperar seu prestígio - e uma bilheteria respeitável - ele reuniu-se ao cineasta que melhor havia sabido lidar com seu talento dramático limitado em seus maiores êxitos financeiros, os dois capítulos iniciais de "O exterminador do futuro". Com James Cameron na direção e Schwarza na liderança do elenco não havia como "True lies" dar errado. E não deu. Mesmo com um orçamento de 120 milhões de dólares, a refilmagem da desconhecida comédia francesa "La totale" - obviamente inchada com efeitos visuais de primeira qualidade - devolveu ao ator seu status de grande herói das telas, além de ter brindado o público com um dos mais divertidos filmes de sua carreira.

Brincando de James Bond, Schwarzenegger tem em "True lies" seu melhor papel, no qual ele consegue ultrapassar suas limitações e atingir um patamar inédito em sua carreira. Como Harry Tasker, um agente secreto do governo americano envolvido em uma perigosa trama de terrorismo nuclear, o monossilábico Exterminador não apenas explode automóveis, mas anda a cavalo pelo Central Park (e dentro de um elevador), pilota um avião de caça, fala árabe e dança tango. Tudo enquanto tenta salvar seu casamento.

Tasker é um agente do governo americano que esconde até mesmo da família sua verdadeira profissão. Sob o disfarce de um tedioso vendedor de computadores, ele leva uma vida repleta de adrenalina enquanto sua esposa, Helen (Jamie Lee Curtis) acredita que ele é um burocrata sonolento. Durante um de seus perigosos trabalhos, no entanto, Harry descobre que sua mulher está se envolvendo com outro homem, em busca de mais emoção para sua vida. Para salvar seu casamento, ele inventa uma missão para ela, mas eles acabam tendo que lidar de verdade com uma ameaça de terroristas árabes.


"True lies" é tudo que o cinema de entretenimento holywoodiano pode oferecer. É divertido do início ao fim, equilibrando com maestria sequências de ação realmente empolgantes com momentos extremamente engraçados. Jamie Lee Curtis - merecidamente premiada com o Golden Globe de melhor atriz em comédia ou musical - rouba a cena descaradamente, explorando cada diálogo e cada possibilidade de sua personagem. A cena em que Helen precisa forjar um striptease, por exemplo, é um primor de bom humor e tanto Curtis quanto Schwarzenegger deitam e rolam na pele de personagens que parecem feitos sob medida.  Tom Arnold e Bill Paxton, em papéis coadjuvantes, também colaboram para o alto astral do filme que, mesmo falando sobre assuntos um tanto polêmicos jamais deixa de ser o que se propõe: uma aventura delirante, alucinante e muito, muito cara.

O orçamento milionário de "True lies", ao contrário do que acontece em muitos filmes, é plenamente justificável quando se assiste a cada uma de suas cenas. Cada centavo gasto por Cameron - um cineasta com grande tendência à megalomania - é visível nas telas. Os 120 milhões gastos - que dariam para produzir quase quatro filmes como "Velocidade máxima" - nunca parecem supérfluos nas mãos de Cameron, que cuida de cada detalhe com mão de ferro. Pode ser um inferno para quem trabalha com ele, mas para o público que assiste a seus filmes, esse detalhismo todo faz toda a diferença.

É impossível não gostar de "True lies". Quem procura uma comédia irá dar altas gargalhadas com as desventuras do casal Tasker. Quem busca um filme de ação ficará grudado na poltrona ao assistir sequências criativas e aparentemente impossíveis. E quem gosta de esquecer dos problemas por duas horas de duração vai ter 140 minutos da diversão mais competente que o dinheiro pode comprar. Se todos os filmes de ação fossem como "True lies" o mundo seria um lugar mais inteligente.

quinta-feira

ALIENS, O RESGATE


ALIENS, O RESGATE (Aliens, 1986, 20th Century Fox, 137min) Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron, história de James Cameron, David Giler e Walter Hill, personagens criados por Dan O'Bannon e Ronald Shusett. Fotografia: Adrian Biddle. Montagem: Ray Lovejoy. Música: James Horner. Figurino: Emma Porteous. Direção de arte/cenários: Peter Lamont/Crispian Sallis. Produção executiva: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill. Produção: Gale Anne Hurd. Elenco: Sigourney Weaver, Carrie Henn, Michael Biehn, Lance Henriksen, Paul Reiser, Bill Paxton, William Hoppe. Estreia: 18/7/86

7 indicações ao Oscar: Atriz (Sigourney Weaver), Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Oscar: Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais


Em 1979, o filme "Alien, o oitavo passageiro" empolgou plateias do mundo inteiro ao misturar com equilíbrio perfeito elementos de ficção científica com ingredientes de filmes de terror. O resultado foi uma bilheteria espantosa, sucesso de crítica e um inevitável segundo capítulo. Dirigida por James Cameron - vindo do grande êxito de "O exterminador do futuro" - , a continuação do filme de Ridley Scott abandonou a sensação claustrofóbica do original, substituindo-a pelas melhores cenas de ação que o dinheiro poderia comprar. Perdeu em tensão, mas ganhou em adrenalina. Os fãs do gênero formaram filas enormes, profundamente satisfeitos.

A trama desse segundo filme se passa cerca de 50 anos depois dos acontecimentos que levaram a Tenente Ripley (Sigourney Weaver) a testemunhar a aniquilação de seus companheiros de tripulação por um alienígena truculento e aparentemente invencível. Encontrada por uma nave de resgate, logo ela fica sabendo que o planeta que originou o monstro está colonizada pela Terra e, quando todo e qualquer contato com os humanos que o habitam é perdido, ela é enviada para descobrir o que aconteceu e, se for necessário, exterminar os algozes dos colonizadores.


Tudo em "Aliens, o resgate", é grande. A duração (mais de duas horas), os efeitos visuais, a violência. Navegando tranquilamente em sua tradicional mania de grandeza, Cameron oferece ao espectador um verdadeiro espetáculo de entretenimento. Seguindo a linha oposta ao trabalho de Ridley Scott - que optou pela sugestão em detrimento do explícito - o futuro vencedor do Oscar por "Titanic" não tem medo de orquestrar sequências de ação eletrizantes e de apavorar o público com criaturas asquerosas em número suficiente para justificar o Oscar de efeitos visuais que acabou conquistando. E além de tudo ainda encontra tempo para sentimentalismos, ao criar uma personagem que dá a Ripley um lado humano que lhe cai muito bem: uma menina órfã que vê na protagonista a figura materna que necessita para manter-se viva e amada.

É fato notável que a relação entre Ripley e sua pequena "filha" dá um gás novo e uma nuance inesperada que permite a "Aliens, o resgate" fugir da maldição das continuações. Humanizar Ripley foi um golpe de mestre de Cameron, que a aproxima mais da plateia antes de fazê-la barbarizar seus antagonistas, além, é claro, de permitir a Sigourney Weaver maiores vôos dramáticos de atuação - não à toa, ela foi surpreendentemente indicada ao Oscar por seu trabalho em um gênero que normalmente não é muito afeito a dramas pessoais.

"Aliens, o resgate" é o mais bem-sucedido comercialmente da série lançada em 1979, mas fica aquém do original no quesito suspense. É um extraordinário filme de ação, realizado com uma competência assustadora e talentos criativos inegáveis, que deixaria o mundo com água na boca, esperando um terceiro capítulo que, lançado em 1992, decepcionou público e crítica mesmo voltando às origens claustrofóbicas de sua origem.

sábado

O EXTERMINADOR DO FUTURO


O EXTERMINADOR DO FUTURO (The terminator, 1984, Orion Pictures, 108min) Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron, Gale Anne Hurd, diálogos adicionais de William Wisher. Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Mark Goldblatt. Música: Brad Fiedel. Figurino: Hilary Wright. Direção de arte/cenários: George Costello/Maria Rebman Caso. Produção executiva: John Daly, Derek Gibson. Produção: Gale Anne Hurd. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Michael Bihen, Linda Hamilton, Paul Winfield, Lance Henriksen, Bill Paxton, Bess Motta. Estreia: 26/10/84

Antes de tornar-se multimilionário com "Titanic" e auto-conceder-se a pecha de visionário com o megalomaníaco "Avatar", James Cameron era um cara legal. A prova cabal dessa afirmação é "O exterminador do futuro", um filme realizado com alguns trocados - cuja primeira ideia foi vendida por um mísero dólar - e que não apenas firmou Arnold Schwarzenegger como astro número 1 do cinema de ação mas também mostrou que em cinema, uma ideia na cabeça é muito mais importante do que efeitos visuais de última ponta na mesa de pós-produção.

E a ideia na cabeça de Cameron quando criou a trama de "O exterminador" não poderia ter sido melhor e mais intrigante. Na Los Angeles de 1984, a garçonete Sarah Connor (Linda Hamilton) é caçada - sem ter a menor ideia do motivo - por um truculento e misterioso homem que ela nunca viu antes na vida. Totalmente perdida e sem saber o que está acontecendo, ela é protegida por outro desconhecido, Kyle Reese (Michael Biehn), que depois de salvá-la diversas vezes da morte, finalmente lhe explica o porquê de tanta violência: ela está sendo perseguida por um Exterminador (Arnold Schwarzenegger) que tem a missão de matá-la porque, no futuro, ela será a mãe do líder da resistência humana contra o domínio das máquinas. Ele, Kyle Reese, foi enviado, do futuro, pelo próprio John Connor, para protegê-la e evitar assim que seu nascimento seja impedido.

Sem contar com os orçamentos milionários com os quais faria seus filmes seguintes - a começar por "Aliens, o resgate", em 1986 - Cameron demonstra, em "O exterminador do futuro" que é, sim, um cineasta talentoso, inteligente e, mais importante do que tudo, com um senso de ritmo impecável. As cenas de ação de "Exterminador" não tem efeitos visuais mirabolantes, mas são tão empolgantes quanto se tivessem. Por ter menos dinheiro - leia-se um orçamento quase ridículo em comparação com sua sequência rodada em 1991 - Cameron se viu obrigado a ser mais criativo e essa criatividade faz desse primeiro exemplar da série um clássico absoluto da ficção científica, capaz de ser ao mesmo tempo extremamente eficaz como filme de ação e nunca deixar de ser inteligente e intrigante.

É impossível, por exemplo, deixar de relacionar a caça à Sarah Connor com a matança ordenada por Herodes logo após o nascimento de Cristo e essa ressonância religiosa de certa forma eleva "O exterminador do futuro" a um patamar acima de seus congêneres, que normalmente apelam para a violência high-tech como forma de disfarçar sua falta de conteúdo. Aqui, Cameron usa e abusa da violência, aproveitando que ainda não havia em cima do cinema a pressão a favor do "politicamente correto". Schwarzenegger - em um papel oferecido a Sylvester Stallone - destrói uma delegacia de polícia, mata um grupo de punks, extermina meia dúzia de Sarahs Connors e não pensa duas vezes em arrasar o que passa à sua frente. Dá pra imaginar algo assim nos chatíssimos dias de hoje? Nem mesmo o próprio Schwarza quis comprar essa briga: na continuação, ele é o herói do filme, para não manchar sua imagem e estragar seu caminho rumo à política.

Mesmo com seu jeitão de primo pobre de suas continuações hiperbolizadas, o primeiro capítulo das aventuras de Sarah Connor e de seus exterminadores continua sendo uma origem digna e extremamente divertida. Responsabilidade da mistura perfeita entre um roteiro esperto, um diretor talentoso e um elenco perfeitamente escalado - apesar de ser uma atriz bastante limitada, Linda Hamilton segura bem as pontas de sua responsabilidade, a ponto de ter conquistado Cameron: eles se casaram um tempo depois da estreia do filme e mesmo que hoje estejam separados, ninguém tira de Hamilton o fato de ser a eterna Sarah Connor.

quarta-feira

RUAS DE FOGO


RUAS DE FOGO (Streets of fire, 1984, Universal Pictures, 93min) Direção: Walter Hill. Roteiro: Larry Gross, Walter Hill. Fotografia: Andrew Laszlo. Montagem: Jim Coblentz, Freeman A. Davies, Michael Ripps. Música: Ry Cooder. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: John Vallone/Richard C. Goddard. Casting: Judith Holstra, Marcia Ross. Produção executiva: Gene Levy. Produção: Lawrence Gordon, Joel Silver. Elenco: Michael Paré, Diane Lane, Willem Dafoe, Rick Moranis, Amy Madigan, Rick Rossovich, Bill Paxton, Mykelty Williamson, Ed Begley Jr. Estreia: 01/6/84

Algumas ideias dos estúdios hollywoodianos acabam se espatifando no caminho de tornarem-se mais do que ideias. Um desses insights que nunca passaram de projetos era o de uma trilogia de ação noir protagonizado por Michael Paré na pele do mercenário cool Tom Cody, o herói de "Ruas de fogo". O fracasso retumbante do filme inicial da trilogia, dirigido por Walter Hill, jogou a possibilidade em uma gaveta dos engravatados do estúdio, onde permanece até hoje, mesmo depois do filme ter-se tornado, com o tempo, uma espécie de cult-movie.

Passado em um lugar e uma época não identificados pelo roteiro, "Ruas de fogo" - título tirado de um verso de Bruce Springsteen - começa com o sequestro da estrela do rock Ellen Aim (uma jovem Diane Lane dublada vergonhosamente nas cenas musicais) por um grupo de motoqueiros vândalos e violentos, liderados por Raven Shaddock (Willem Dafoe). Para resgatá-la, seu empresário e atual namorado, Billy Fish (Rick Moranis) contrata o atraente e cínico Tom Cody (Michael Paré), sem saber que ele e a cantora tiveram um apaixonado caso romântico que acabou quando o rapaz foi pra guerra. Acompanhado da durona McCoy (Amy Madigan), Cody invade a vizinhança barra-pesada de Raven, dando início a uma guerra sem tréguas.

Batizado com o subtítulo de "Uma fábula do rock'n'roll", "Ruas de fogo" não agradou o público à época de seu lançamento, apesar de ter várias semelhanças temáticas e visuais com um sucesso anterior do diretor Walter Hill, "Warriors, os selvagens da noite". Deixando de lado o humor que foi o diferencial em sua maior bilheteria, "48 horas", estrelado pelo então ascendente Eddie Murphy, Hill ficou em um constrangedor meio do caminho. O roteiro de "Ruas" não se aprofunda em desenvolvimento de personagens, não tem senso de humor e nem ao menos apresenta cenas de ação antológicas. Por que então ainda permanece firme e forte no imaginário de uma boa parte da geração que assistia a filmes nos anos 80?


Basicamente, o charme maior de "Ruas de fogo" reside em sua vibrante trilha sonora, composta por Ry Cooder depois que três versões de James Horner foram descartadas pelo diretor. Não apenas pontuando a ação - em um roteiro fraquinho e sem grandes qualidades -, a música é parte integrante e fundamental na história de amor entre Cody e Ellen Aim. Canções como "Tonight is what means to be young" e "Nowhere fast" tornaram-se clássicas e são o maior destaque do filme, sobrevivendo na memória da audiência mais do que os diálogos clichê e as personagens mal delineadas do roteiro, co-escrito por Walter Hill e Larry Gross. Não é à toa que sempre que as músicas são o centro da atenção no filme, ele cresce e torna-se mais orgânico.

"Ruas de fogo" faz parte daquele rol de filmes que eram reprisados volta e meia nas tardes globais na segunda metade da década de 80 e como tal se mantém como uma espécie de relíquia quase sentimental, ainda que seja bastante fraco em termos artísticos. Tom Cody não vingou, assim como a carreira de Michael Paré. Mas ele sempre será lembrado por quem tem trinta e poucos anos..

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...