DUNKIRK (Dunkirk, 2017, Warner Bros, 106min) Direção e roteiro: Christopher Nolan. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Emmanuel Delis. Produção executiva: Jake Myers. Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas. Elenco: Tom Hardy, Mark Rylance, Kenneth Branagh, Cillian Murphy, James D'Arcy, Barry Keoghan, Tom Glynn-Carney, Jack Lowden, Harry Stiles. Estreia: 13/7/17
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Christopher Nolan), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Edição de Som, Mixagem de Som, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Oscar: Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Quando chamou a atenção do público pela primeira vez, ele lançou "Amnésia" (2001), que se tornou um dos maiores sucessos do cinema independente da década. Quando quis fazer um filme de super-herói, assinou a trilogia "O Cavaleiro das Trevas", que rendeu milhares de dólares e elevou o patamar dos filmes baseados em quadrinhos. Quando brincou de ficção científica, arrasou com "A origem" (2010) e "Interestelar" (2014), dois filmes muito acima da média do cinema mainstream feito em Hollywood. Por isso, não foi surpresa para ninguém quando Christopher Nolan anunciou que faria um filme sobre um dos episódios mais famosos da II Guerra Mundial e chegou com "Dunkirk": realizado com estimados 100 milhões de dólares (um custo razoável para uma produção de grande porte) e sem nenhum astro de primeira grandeza para garantir o retorno do investimento, o filme de Nolan tornou-se mais um fenômeno em sua carreira, ultrapassando a marca dos 500 milhões de dólares em arrecadação mundial - e, de quebra, arrebatou oito indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e direção. Foi a consagração definitiva de uma obra que dosa, com habilidade de mestre, arte e entretenimento, diversão e inteligência, emoção com técnica. Lançado em pleno verão americano - período em que o público notoriamente prefere produções menos sérias e mais populares -, "Dunkirk" mostrou que, às vezes, não subestimar o cérebro da plateia pode dar muito certo.
Fugindo do tradicional formato narrativo, que acompanha um protagonista através de uma trajetória na qual se identificam claramente princípio, meio e fim, o roteiro de Nolan abraça uma outra forma de contar sua história - e que exige muito mais de sua plateia do que simplesmente sentar diante da tela e seguir uma trama. Estruturando o filme em três frentes distintas - ar, mar e terra - e dividindo seu enredo em personagens e tempos diferentes, "Dunkirk" é uma viagem sem trégua, um mergulho radical na sensação mais absoluta de estar em uma guerra. Se em "O resgate do soldado Ryan" (1998) o diretor Steven Spielberg jogava o espectador no meio do desembarque na Normandia (o famoso Dia D) sem maiores preliminares, em seu filme Nolan parece querer expandir ainda mais a experiência, atingindo níveis brutais de realismo, sublinhado pelo formato 70mm (raramente utilizado desde o surgimento de câmeras digitais), pela forte trilha sonora de Hans Zimmer e pelo desenho de som, que intercala momentos milimetricamente concebidos para causar impacto com outros de um silêncio avassalador. Tecnicamente impecável - saiu vitorioso da festa do Oscar nas categorias de edição, edição de som e mixagem de som, estatuetas merecidíssimas - e apresentado sem apelos emocionais, "Dunkirk" é um filme de guerra à moda antiga, mas realizado com todos os recursos que um orçamento generoso e efeitos de última geração podem comprar.
Ainda que não seja mandatório, é bom que se saiba um mínimo de História - mais especificamente sobre a II Guerra Mundial - para melhor se deixar seduzir pela trama de Nolan. O roteiro trata da retirada estratégica (para uns considerada derrota, para outros uma vitória moral) dos exércitos britânico e francês da cidade de Dunkirk, como forma de escapar dos cada vez maiores e mais frequentes ataques alemães, em 1940. A única saída disponível para o soldados era pelo mar, e, em situação de total desvantagem, os ingleses apelaram até mesmo para embarcações civis que pudessem colaborar na evacuação de centenas de homens. É nesse ponto que a trama se concentra em Dawson (Mark Rylance), que, contrariando as ordens superiores, resolve ele mesmo comandar seu barco, ao lado do filho adolescente, Peter (Tom Glyne-Carney), e do amigo deste, George (Barry Keoghan). No trajeto em direção à praia, eles resgatam um misterioso e traumatizado soldado (Cillian Murphy) que entra em pânico ao descobrir que a embarcação está se dirigindo justamente de onde ele fugiu. E se no mar os problemas são uns, por terra eles também não são poucos. Tentando salvar-se de uma morte certa e juntar-se aos demais soldados que aguardam ajuda, o jovem Tommy (Fionn Whitehead) une-se a outros dois colegas, Gisbson (Aneurin Barnard) e Alex (Harry Stiles), e os três passam por uma série de dificuldades inesperadas, que surgem sempre que eles acreditam estar a salvo - e sob a proteção do Comandante Bolton (Kenneth Branagh).
E por fim, também no ar as coisas estão complicadas: depois de perder seu líder, abatido por aviões inimigos, os pilotos Farrier (Tom Hardy) e Collins (Jack Lowden) enfrentam sérios problemas em defender seus aliados - e desviar de um destino semelhante a seu superior. Quando o avião de Collins cai no mar, ele acaba se tornando parte ainda maior do problema - e o ponto de intersecção entre as três linhas narrativas criadas pelo cineasta. Confiando plenamente no material que tem em mãos, Christopher Nolan apresenta ao público um espetáculo de violência sem que, para isso, seja necessário explicitá-la com vísceras e sangue em excesso. É um filme de imersão, no qual a plateia simplesmente embarca, como em uma montanha-russa das mais emocionantes. Talvez seu único defeito seja justamente optar por um viés menos pessoal e mais amplo do evento - o que diminui o impacto humano que um filme de guerra normalmente abraça e sublinha o barulho, o visual (graças à bela fotografia de Hoyte Van Hoytema) e a falta de noção temporal que um conflito provoca. Nesse ponto, é uma obra-prima incontestável que confirma (mais uma vez) o talento absurdo de seu criador.
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domingo
INTERESTELAR
INTERESTELAR (Interstellar, 2014, Paramount Pictures/Warner
Bros/Legendary Entertainment, 169min) Direção: Christopher Nolan.
Roteiro: Christopher Nolan, Jontahan Nolan. Fotografia: Hoyte Van
Hoytema. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Mary
Zophres. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Gary Fettis, Helen
Kozora-Tell. Produção executiva: Jordan Goldberg, Jake Myers, Kip
Thorne, Thomas Tull. Produção: Christopher Nolan, Lynda Obst, Emma
Thomas. Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain,
Matt Damon, Michael Caine, Ellen Burstyn, David Oyelowo, Wes Bentley,
William Devane, Casey Affleck, Topher Grace. Estreia: 26/10/14
5 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais
Em 2006, quando ainda era um projeto da Paramount Pictures, "Interestelar" seria dirigido por um tal de Steven Spielberg, que contratou Jonathan Nolan para escrever o roteiro, inspirado em teorias científicas do físico Kip Thorne. A história original, que envolvia um conceito chamado de "caminho de minhoca" e várias outras situações que também inspiraram Carl Sagan a escrever seu clássico "Contato", acabou sendo deixada de lado pelo oscarizado cineasta em 2012, quando foi parar, então, nas mãos do irmão do roteirista, um homem que, em poucos anos de carreira, já havia redefinido os filmes de super-heróis com uma sombria trilogia protagonizada por Batman e criado um dos mais fascinantes e inteligentes filmes de ação da história ("A origem"): assumindo um projeto arriscado, caro (165 milhões de dólares) e sujeito à boa vontade de uma plateia mal-acostumada com blockbusters que não exigem muito do cérebro, Christopher Nolan transferiu a produção para sua casa (Warner Bros) e, com uma equipe de confiança a seu lado, realizou mais uma obra-prima que conquistou o público. Com mais de 600 milhões de dólares arrecadados ao redor do mundo, "Interestelar" - uma ficção científica empolgante, inteligente e emocionante - também colocou seu diretor em uma posição bastante privilegiada na indústria, ao ser o quarto filme seguido do diretor eleito como um dos dez melhores do ano pelo American Film Institute.
Como é comum na filmografia de Nolan, "Interestelar" se utiliza de uma técnica impecável para contar uma história que, no fundo, tem ressonâncias emocionais da mais alta profundidade. Sua receita de sucesso - contar com personagens fortes e ligações interpessoais que conectem a plateia com a trama, por mais complexa que ela possa parecer a princípio - mostrou-se vitoriosa principalmente em "A origem" (2010), e volta a funcionar à perfeição neste que talvez seja seu filme mais difícil até o momento. Longo (quase três horas de duração), dotado de um ritmo próprio que evita os clichês de filmes de ação e repleto de explicações científicas que poderiam assustar qualquer espectador acostumado às explosões sem sentido de Michael Bay, "Interestelar" é a prova cabal de que inteligência e diversão podem tranquilamente caminhar lado a lado - e que o público não é tão avesso quanto se pensa ao ato de por o cérebro para funcionar de vez em quando. Vencedor do Oscar de efeitos visuais - concorreu também às estatuetas de edição de som, mixagem de som, trilha sonora e direção de arte - o filme seduz pelo visual estonteante, mas se torna uma experiência única quando deixa a sensibilidade falar mais alto que a tecnologia.
A história imaginada por Nolan começa como mais uma produção sobre futuros distópicos, onde a humanidade está ameaçada de desaparecer diante de uma série de catástrofes que foram minando, pouco a pouco, todos os recursos naturais da Terra. É nesse ambiente desolador que o público é apresentado ao protagonista, Cooper (Matthew McConaughey), um engenheiro e piloto de testes da NASA tornado fazendeiro no Texas após a morte da esposa, e que tenta, a muito custo, manter a propriedade da família e cuidar dos dois filhos e do sogro. Seu destino, porém, logo lhe será revelado: após investigar o aparecimento de misteriosos sinais em sua fazenda, Cooper resolve seguir suas coordenadas e acaba parando em um bunker secreto, comandado pelo veterano John Brand (Michael Caine), um cientista com quem já havia trabalhado no passado. É Brand quem convence Cooper a entrar na mais perigosa aventura de sua vida: juntar-se a um pequeno grupo de exploradores - que inclui a filha de seu ex-chefe, Amelia (Anne Hathaway) - e viajar no espaço à procura de planetas que possam servir de salvação para o aparentemente inevitável extermínio da Terra e seus habitantes. Pensando nos filhos e na possibilidade de salvar a humanidade - um plano B seria o de colonização de outro ambiente propício à sobrevivência humana - Cooper aceita a missão, para desespero de sua filha, Murphy (Mackenzie Foy), uma menina de inteligência acima da média que se recusa a aceitar a partida do pai. A viagem exploratória começa, e é a partir daí que "Interestelar" pega todo mundo de surpresa.
Durante mais de duas horas, o roteiro dos irmãos Nolan segue o padrão dos filmes de ficção científica a que o público está habituado: efeitos visuais de primeira, alguns diálogos recheados de termos complexos, sequências de ação deslumbrantes e com altas doses de suspense, personagens que não são exatamente o que parecem. São seus trinta minutos finais, porém, que o tornam especial. Com uma reviravolta que põe em perspectiva tudo que foi mostrado até então e torna essenciais cada linha de diálogo e cada detalhe mostrados anteriores, a trama fecha um ciclo que, mais do que científico e metafísico, é essencialmente familiar e emotivo, oferecendo à uma Murphy adulta (e vivida com a competência de sempre por Jessica Chastain) uma importância crucial para um desfecho de arrepiar até ao mais cínico dos espectadores. Não importa se a plateia entende os conceitos de "buraco de minhoca" ou tem domínio da maior parte das explanações científicas da trama: é a humanidade que vem dos personagens que faz do filme universal e atemporal. Mais uma obra-prima de Christopher Nolan.
5 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais
Em 2006, quando ainda era um projeto da Paramount Pictures, "Interestelar" seria dirigido por um tal de Steven Spielberg, que contratou Jonathan Nolan para escrever o roteiro, inspirado em teorias científicas do físico Kip Thorne. A história original, que envolvia um conceito chamado de "caminho de minhoca" e várias outras situações que também inspiraram Carl Sagan a escrever seu clássico "Contato", acabou sendo deixada de lado pelo oscarizado cineasta em 2012, quando foi parar, então, nas mãos do irmão do roteirista, um homem que, em poucos anos de carreira, já havia redefinido os filmes de super-heróis com uma sombria trilogia protagonizada por Batman e criado um dos mais fascinantes e inteligentes filmes de ação da história ("A origem"): assumindo um projeto arriscado, caro (165 milhões de dólares) e sujeito à boa vontade de uma plateia mal-acostumada com blockbusters que não exigem muito do cérebro, Christopher Nolan transferiu a produção para sua casa (Warner Bros) e, com uma equipe de confiança a seu lado, realizou mais uma obra-prima que conquistou o público. Com mais de 600 milhões de dólares arrecadados ao redor do mundo, "Interestelar" - uma ficção científica empolgante, inteligente e emocionante - também colocou seu diretor em uma posição bastante privilegiada na indústria, ao ser o quarto filme seguido do diretor eleito como um dos dez melhores do ano pelo American Film Institute.
Como é comum na filmografia de Nolan, "Interestelar" se utiliza de uma técnica impecável para contar uma história que, no fundo, tem ressonâncias emocionais da mais alta profundidade. Sua receita de sucesso - contar com personagens fortes e ligações interpessoais que conectem a plateia com a trama, por mais complexa que ela possa parecer a princípio - mostrou-se vitoriosa principalmente em "A origem" (2010), e volta a funcionar à perfeição neste que talvez seja seu filme mais difícil até o momento. Longo (quase três horas de duração), dotado de um ritmo próprio que evita os clichês de filmes de ação e repleto de explicações científicas que poderiam assustar qualquer espectador acostumado às explosões sem sentido de Michael Bay, "Interestelar" é a prova cabal de que inteligência e diversão podem tranquilamente caminhar lado a lado - e que o público não é tão avesso quanto se pensa ao ato de por o cérebro para funcionar de vez em quando. Vencedor do Oscar de efeitos visuais - concorreu também às estatuetas de edição de som, mixagem de som, trilha sonora e direção de arte - o filme seduz pelo visual estonteante, mas se torna uma experiência única quando deixa a sensibilidade falar mais alto que a tecnologia.
A história imaginada por Nolan começa como mais uma produção sobre futuros distópicos, onde a humanidade está ameaçada de desaparecer diante de uma série de catástrofes que foram minando, pouco a pouco, todos os recursos naturais da Terra. É nesse ambiente desolador que o público é apresentado ao protagonista, Cooper (Matthew McConaughey), um engenheiro e piloto de testes da NASA tornado fazendeiro no Texas após a morte da esposa, e que tenta, a muito custo, manter a propriedade da família e cuidar dos dois filhos e do sogro. Seu destino, porém, logo lhe será revelado: após investigar o aparecimento de misteriosos sinais em sua fazenda, Cooper resolve seguir suas coordenadas e acaba parando em um bunker secreto, comandado pelo veterano John Brand (Michael Caine), um cientista com quem já havia trabalhado no passado. É Brand quem convence Cooper a entrar na mais perigosa aventura de sua vida: juntar-se a um pequeno grupo de exploradores - que inclui a filha de seu ex-chefe, Amelia (Anne Hathaway) - e viajar no espaço à procura de planetas que possam servir de salvação para o aparentemente inevitável extermínio da Terra e seus habitantes. Pensando nos filhos e na possibilidade de salvar a humanidade - um plano B seria o de colonização de outro ambiente propício à sobrevivência humana - Cooper aceita a missão, para desespero de sua filha, Murphy (Mackenzie Foy), uma menina de inteligência acima da média que se recusa a aceitar a partida do pai. A viagem exploratória começa, e é a partir daí que "Interestelar" pega todo mundo de surpresa.
Durante mais de duas horas, o roteiro dos irmãos Nolan segue o padrão dos filmes de ficção científica a que o público está habituado: efeitos visuais de primeira, alguns diálogos recheados de termos complexos, sequências de ação deslumbrantes e com altas doses de suspense, personagens que não são exatamente o que parecem. São seus trinta minutos finais, porém, que o tornam especial. Com uma reviravolta que põe em perspectiva tudo que foi mostrado até então e torna essenciais cada linha de diálogo e cada detalhe mostrados anteriores, a trama fecha um ciclo que, mais do que científico e metafísico, é essencialmente familiar e emotivo, oferecendo à uma Murphy adulta (e vivida com a competência de sempre por Jessica Chastain) uma importância crucial para um desfecho de arrepiar até ao mais cínico dos espectadores. Não importa se a plateia entende os conceitos de "buraco de minhoca" ou tem domínio da maior parte das explanações científicas da trama: é a humanidade que vem dos personagens que faz do filme universal e atemporal. Mais uma obra-prima de Christopher Nolan.
quinta-feira
BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE
BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE (The Dark Knight rises, 2012, Warner Bros/Legendary Pictures, 165min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan, estória de Christopher Nolan, David S. Goyer, personagens criados por Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming, Craciunica Roberto. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Kevin Kavanaugh. Produção executiva: Kevin De La Noy, Benjamin Melniker, Thomas Tull, Michael E. Uslan. Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco: Christian Bale, Anne Hathaway, Michael Caine, Joseph Gordon-Levitt, Tom Hardy, Marion Cottilard, Gary Oldman, Morgan Freeman, Matthew Modine, Cillian Murphy, Ben Mendelsohn, Juno Temple, Thomas Lennon, Liam Neeson. Estreia: 16/7/12
O que falta dizer sobre "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge" que ainda não foi dito, analisado, dissecado e elogiado desde sua estreia, a maior de 2012, com uma bilheteria arrasadora que confirmou de uma vez por todas a força do personagem e do talento de todos os envolvidos? O encerramento da trilogia dirigida por Christopher Nolan - que provou que entretenimento e inteligência podem conviver pacificamente em um blockbuster, haja visto também o sucesso merecido de "A origem", que chegou a concorrer ao Oscar de melhor filme - pode não ser tão impactante quanto o segundo capítulo da série (que, afinal de contas, contava com a atuação assombrosa de Heath Ledger) mas consegue ser empolgante, comovente e surpreendente, apesar de alguns pequenos defeitos. De quantos "filmes de verão", pouco afeitos a "detalhes" como roteiro e direção de atores se pode pode afirmar a mesma coisa?
A essa altura todo mundo sabe que a trama mantida em segredo por Nolan antes da estreia começa sete anos depois dos acontecimentos do segundo filme, mostrando Bruce Wayne (Christian Bale) isolado em sua mansão e a imagem de Batman manchada pela acusação da morte de Harvey Dent (Aaron Eckhart) - na verdade obra das armações do Coringa (Heath Ledger). Batman e Wayne são obrigados a voltar à ação, no entanto, quando um mercenário chamado Bane (o impressionante Tom Hardy) passa a ameaçar Gotham City com a destruição em massa proposta por Ra's Al Ghul (Liam Neeson), mentor de ambos na Liga das Sombras. Junta-se à receita a charmosa ladra Selina Kyle (Anne Hathway na ingrata tarefa de ofuscar a Mulher-Gato de Michelle Pfeiffer no filme comandado por Tim Burton em 1992), o jovem policial idealista Blake (Joseph Gordon-Levitt) e a milionária Miranda Tate (Marion Cotillard) - que ambiciona tornar-se sócia de Wayne em seus experimentos - e pronto: Nolan oferece à audiência cenas de ação de extrema competência, dramas humanos críveis e reviravoltas em número suficiente para que as quase três horas de projeção passem voando diante dos olhos do público.
Fugindo do limitativo nicho de "filmes de super-herói", a trilogia do Homem-morcego criada por Nolan tem uma consistência rara, mantendo um nível de qualidade que encanta tanto aos fãs de histórias em quadrinhos quanto àqueles interessados apenas em um bom filme de ação. Tudo tem espaço no roteiro do cineasta, que tem óbvio carinho pelas personagens e pelos atores que as interpretam (não é à toa que o "time Nolan" está todo aqui, de Bale, Michael Caine e Cillian Murphy aos novos integrantes da troupe, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt e Tom Hardy, saídos direto de "A origem"). A história que conta é mais importante para o homem que despontou para o grande público com o fantástico "Amnésia" do que efeitos desconcertantes de câmera e efeitos especiais de ponta (e mesmo assim ele proporciona à plateia bons momentos assim). E é um desafio a qualquer um não sair do cinema bastante satisfeito com as ideias do excelente roteiro e com o final emocionante, com direito até mesmo a uma pequena e feliz surpresa. Seguindo o caminho de costurar várias linhas narrativas simultâneas e com inúmeros personagens, que pode ser bastante perigoso - caso do terceiro "Homem-aranha", de Sam Raimi - quanto bem-sucedido - como aconteceu com a trilogia "O Senhor dos Anéis", de Peter Jackson - Nolan conta com uma edição de extrema competência, que consegue dar conta de tudo mesmo quando a aparência é de uma bagunça descontrolada. Realmente existe um acúmulo de personagens, mas Nolan mantém o pulso firme até o final - e ainda consegue chocar a audiência com uma das cenas mais impressionantes da trilogia (retirada diretamente dos quadrinhos).
Difícil falar de "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge", em especial depois que tudo foi dito. Mas algo precisa ser afirmado apesar de tudo: é absolutamente imperdível e satisfaz até ao mais exigente fã do personagem de Bob Kane. É um encerramento absolutamente digno e se Anne Hathway não rouba a coroa de Michelle Pfeiffer ao menos faz bonito em cena, com beleza, carisma e talento. Uma pena, no entanto, que a personagem de Marion Cottilard seja tão pouco aproveitada e que agora estejamos todos reféns de novas e temíveis adaptações do herói para o cinema. Obrigado, Nolan, por esses anos de entretenimento de primeira qualidade.
O que falta dizer sobre "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge" que ainda não foi dito, analisado, dissecado e elogiado desde sua estreia, a maior de 2012, com uma bilheteria arrasadora que confirmou de uma vez por todas a força do personagem e do talento de todos os envolvidos? O encerramento da trilogia dirigida por Christopher Nolan - que provou que entretenimento e inteligência podem conviver pacificamente em um blockbuster, haja visto também o sucesso merecido de "A origem", que chegou a concorrer ao Oscar de melhor filme - pode não ser tão impactante quanto o segundo capítulo da série (que, afinal de contas, contava com a atuação assombrosa de Heath Ledger) mas consegue ser empolgante, comovente e surpreendente, apesar de alguns pequenos defeitos. De quantos "filmes de verão", pouco afeitos a "detalhes" como roteiro e direção de atores se pode pode afirmar a mesma coisa?
A essa altura todo mundo sabe que a trama mantida em segredo por Nolan antes da estreia começa sete anos depois dos acontecimentos do segundo filme, mostrando Bruce Wayne (Christian Bale) isolado em sua mansão e a imagem de Batman manchada pela acusação da morte de Harvey Dent (Aaron Eckhart) - na verdade obra das armações do Coringa (Heath Ledger). Batman e Wayne são obrigados a voltar à ação, no entanto, quando um mercenário chamado Bane (o impressionante Tom Hardy) passa a ameaçar Gotham City com a destruição em massa proposta por Ra's Al Ghul (Liam Neeson), mentor de ambos na Liga das Sombras. Junta-se à receita a charmosa ladra Selina Kyle (Anne Hathway na ingrata tarefa de ofuscar a Mulher-Gato de Michelle Pfeiffer no filme comandado por Tim Burton em 1992), o jovem policial idealista Blake (Joseph Gordon-Levitt) e a milionária Miranda Tate (Marion Cotillard) - que ambiciona tornar-se sócia de Wayne em seus experimentos - e pronto: Nolan oferece à audiência cenas de ação de extrema competência, dramas humanos críveis e reviravoltas em número suficiente para que as quase três horas de projeção passem voando diante dos olhos do público.
Fugindo do limitativo nicho de "filmes de super-herói", a trilogia do Homem-morcego criada por Nolan tem uma consistência rara, mantendo um nível de qualidade que encanta tanto aos fãs de histórias em quadrinhos quanto àqueles interessados apenas em um bom filme de ação. Tudo tem espaço no roteiro do cineasta, que tem óbvio carinho pelas personagens e pelos atores que as interpretam (não é à toa que o "time Nolan" está todo aqui, de Bale, Michael Caine e Cillian Murphy aos novos integrantes da troupe, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt e Tom Hardy, saídos direto de "A origem"). A história que conta é mais importante para o homem que despontou para o grande público com o fantástico "Amnésia" do que efeitos desconcertantes de câmera e efeitos especiais de ponta (e mesmo assim ele proporciona à plateia bons momentos assim). E é um desafio a qualquer um não sair do cinema bastante satisfeito com as ideias do excelente roteiro e com o final emocionante, com direito até mesmo a uma pequena e feliz surpresa. Seguindo o caminho de costurar várias linhas narrativas simultâneas e com inúmeros personagens, que pode ser bastante perigoso - caso do terceiro "Homem-aranha", de Sam Raimi - quanto bem-sucedido - como aconteceu com a trilogia "O Senhor dos Anéis", de Peter Jackson - Nolan conta com uma edição de extrema competência, que consegue dar conta de tudo mesmo quando a aparência é de uma bagunça descontrolada. Realmente existe um acúmulo de personagens, mas Nolan mantém o pulso firme até o final - e ainda consegue chocar a audiência com uma das cenas mais impressionantes da trilogia (retirada diretamente dos quadrinhos).
Difícil falar de "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge", em especial depois que tudo foi dito. Mas algo precisa ser afirmado apesar de tudo: é absolutamente imperdível e satisfaz até ao mais exigente fã do personagem de Bob Kane. É um encerramento absolutamente digno e se Anne Hathway não rouba a coroa de Michelle Pfeiffer ao menos faz bonito em cena, com beleza, carisma e talento. Uma pena, no entanto, que a personagem de Marion Cottilard seja tão pouco aproveitada e que agora estejamos todos reféns de novas e temíveis adaptações do herói para o cinema. Obrigado, Nolan, por esses anos de entretenimento de primeira qualidade.
quarta-feira
INSÔNIA
INSÔNIA
(Inmsonia, 2002, Alcon Entertainment, 118min) Direção: Christopher
Nolan. Roteiro: Hilary Seitz, roteiro original de Nikolaj Frobenius,
Erik Skjoldbjaerg. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Dody Dorn.
Música: David Julyan. Figurino: Tish Monaghan. Direção de arte/cenários:
Nathan Crowley/Peter Lando. Produção executiva: George Clooney, Kim
Roth, Charles J.D. Schlissel, Steven Soderbergh, Tony Thomas. Produção:
Broderick Johnson, Paul Junger Witt, Andrew A. Kosove, Edward L.
McDonnell. Elenco: Al Pacino, Robin Williams, Hilary Swank, Martin
Donovan, Maura Tierney, Nicky Katt, Paul Dooley. Estreia: 03/5/02
(Festival de Tribeca)
Christopher Nolan ainda não era o cineasta reconhecido por ter transformado Batman em uma das mais lucrativas séries da história do cinema quando assumiu a direção de "Insônia", refilmagem de um suspense sueco que reunia três atores vencedores do Oscar - Al Pacino, Hilary Swank e Robin Williams, este último exercitando sua escolha por papéis de vilão que direcionou sua carreira depois de alguns fracassos de bilheteria. A escolha de Nolan para a direção, no entanto, não foi gratuita: quando entrou no projeto, ele já havia assinado um filme policial que deixou de queixo caído a crítica e o público, além de ter concorrido ao Oscar de roteiro original, o fabuloso "Amnésia". Talentoso, criativo e ousado, o cineasta transformou uma trama policial comum em um instigante estudo sobre culpa, obsessão e ética que, mesmo sem ter sido um estrondo de bilheteria mostrou que o diretor tinha a manha de conseguir injetar qualidade e inteligência a um entretenimento popular - o que se comprovaria com os filmes do homem-morcego e seus demais trabalhos.
Para adaptar a trama a uma lógica convincente, "Insônia" teve o cenário de seu original - a Suécia - transferido para uma pequena cidade do Alasca chamada Nightmute. É para lá que se dirigem dois policiais de Los Angeles, Will Dormer (Al Pacino, fenomenal) e Hap Eckhart (Martin Donovan), com o objetivo de investigar o assassinato de uma adolescente local. Entre interrogatórios com os colegas e familiares da vítima, Dormer e Hap contam com a ajuda de dois colegas locais, a dedicada Ellie Burr (Hilary Swank) e o caipira Fred Duggar (Nicky Katt), que ignoram o fato de que os dois forasteiros estão passando por um turbilhão profissional: Hap está em vias de revelar a seus superiores irregularidades cometidas por seu parceiro em um caso antigo e tal possibilidade está deixando sua amizade em uma perigosa corda-bamba. Quando, durante a perseguição a um dos suspeitos do crime Dormer mata o colega com um tiro, ele entra em uma séria crise de insônia, agravada pelo fato de a cidade não ter noites. Para piorar a situação, ele passa a ser chantageado pelo criminoso, o escritor de livros de suspense Walter Finch (Robin Williams), que testemunhou o acontecido e ameaça denunciar-lhe por homicídio.
Um suspense policial bem construído e centrado em personagens fortes mais do que em uma trama rocambolesca, "Insônia" mergulha o espectador em um universo claustrofóbico de mentiras, meias-verdades e tênues divisões entre o bem e o mal, sublinhadas por diálogos de substância e uma direção firme, que nunca resvala para o clichê. Concentrando seu foco nas relações entre Dormer e Finch - e sua possível conexão forjada através das mortes a que estão ligados - e entre Dormer e a idealista Ellie Burr - que vê nele um exemplo a ser seguido até que passa a desconfiar que seu herói tem tantos defeitos quanto qualidades e se vê diante de um dilema ético e moral - o roteiro de Hilary Seitz (que sofreu alterações feitas pelo próprio Nolan) desvia-se com segurança da linha de investigação criminal que lhe jogaria fatalmente na vala das produções banais do gênero para buscar mais consistência dramática - sem nunca deixar de lado, porém, o tom de tensão necessário para manter o espectador grudado na poltrona. Ao mesmo tempo em que acompanha o trabalho policial dos personagens, o público é brindado com uma história séria e intensa a respeito dos meandros da lei e de como é flexível o limite entre o certo e o errado quando o assunto é a violência.
E para sorte de Nolan o elenco responde à altura do roteiro, com interpretações que dão o peso exato à cada diálogo e à cada cena. Se Hilary Swank pouco tem a fazer com sua personagem até o terço final, quando torna-se peça fundamental para o desfecho, Robin Williams e Al Pacino - especialmente o último - dão um show à parte, elevando o nível do filme bem acima da média do gênero. A conversa entre policial e criminoso em um barco, por exemplo, é hipnótica e é um exemplo perfeito da química espetacular entre os dois grandes atores em um ótimo momento de suas carreiras, assim como a ótima sequência em que um devastado Dormer confessa à gerente do hotel
onde está hospedado (e tentando dormir há dias, sem sucesso) os fatos
trágicos que levaram à morte de seu parceiro. É drama de primeira, unido
a uma história policial que não subestima a inteligência da plateia.
Mesmo sem o brilhantismo dos filmes posteriores de Nolan, é um
passatempo de primeira categoria.
Christopher Nolan ainda não era o cineasta reconhecido por ter transformado Batman em uma das mais lucrativas séries da história do cinema quando assumiu a direção de "Insônia", refilmagem de um suspense sueco que reunia três atores vencedores do Oscar - Al Pacino, Hilary Swank e Robin Williams, este último exercitando sua escolha por papéis de vilão que direcionou sua carreira depois de alguns fracassos de bilheteria. A escolha de Nolan para a direção, no entanto, não foi gratuita: quando entrou no projeto, ele já havia assinado um filme policial que deixou de queixo caído a crítica e o público, além de ter concorrido ao Oscar de roteiro original, o fabuloso "Amnésia". Talentoso, criativo e ousado, o cineasta transformou uma trama policial comum em um instigante estudo sobre culpa, obsessão e ética que, mesmo sem ter sido um estrondo de bilheteria mostrou que o diretor tinha a manha de conseguir injetar qualidade e inteligência a um entretenimento popular - o que se comprovaria com os filmes do homem-morcego e seus demais trabalhos.
Para adaptar a trama a uma lógica convincente, "Insônia" teve o cenário de seu original - a Suécia - transferido para uma pequena cidade do Alasca chamada Nightmute. É para lá que se dirigem dois policiais de Los Angeles, Will Dormer (Al Pacino, fenomenal) e Hap Eckhart (Martin Donovan), com o objetivo de investigar o assassinato de uma adolescente local. Entre interrogatórios com os colegas e familiares da vítima, Dormer e Hap contam com a ajuda de dois colegas locais, a dedicada Ellie Burr (Hilary Swank) e o caipira Fred Duggar (Nicky Katt), que ignoram o fato de que os dois forasteiros estão passando por um turbilhão profissional: Hap está em vias de revelar a seus superiores irregularidades cometidas por seu parceiro em um caso antigo e tal possibilidade está deixando sua amizade em uma perigosa corda-bamba. Quando, durante a perseguição a um dos suspeitos do crime Dormer mata o colega com um tiro, ele entra em uma séria crise de insônia, agravada pelo fato de a cidade não ter noites. Para piorar a situação, ele passa a ser chantageado pelo criminoso, o escritor de livros de suspense Walter Finch (Robin Williams), que testemunhou o acontecido e ameaça denunciar-lhe por homicídio.
Um suspense policial bem construído e centrado em personagens fortes mais do que em uma trama rocambolesca, "Insônia" mergulha o espectador em um universo claustrofóbico de mentiras, meias-verdades e tênues divisões entre o bem e o mal, sublinhadas por diálogos de substância e uma direção firme, que nunca resvala para o clichê. Concentrando seu foco nas relações entre Dormer e Finch - e sua possível conexão forjada através das mortes a que estão ligados - e entre Dormer e a idealista Ellie Burr - que vê nele um exemplo a ser seguido até que passa a desconfiar que seu herói tem tantos defeitos quanto qualidades e se vê diante de um dilema ético e moral - o roteiro de Hilary Seitz (que sofreu alterações feitas pelo próprio Nolan) desvia-se com segurança da linha de investigação criminal que lhe jogaria fatalmente na vala das produções banais do gênero para buscar mais consistência dramática - sem nunca deixar de lado, porém, o tom de tensão necessário para manter o espectador grudado na poltrona. Ao mesmo tempo em que acompanha o trabalho policial dos personagens, o público é brindado com uma história séria e intensa a respeito dos meandros da lei e de como é flexível o limite entre o certo e o errado quando o assunto é a violência.
E para sorte de Nolan o elenco responde à altura do roteiro, com interpretações que dão o peso exato à cada diálogo e à cada cena. Se Hilary Swank pouco tem a fazer com sua personagem até o terço final, quando torna-se peça fundamental para o desfecho, Robin Williams e Al Pacino - especialmente o último - dão um show à parte, elevando o nível do filme bem acima da média do gênero. A conversa entre policial e criminoso em um barco, por exemplo, é hipnótica e é um exemplo perfeito da química espetacular entre os dois grandes atores em um ótimo momento de suas carreiras, assim como a ótima sequência em que um devastado Dormer confessa à gerente do hotel
onde está hospedado (e tentando dormir há dias, sem sucesso) os fatos
trágicos que levaram à morte de seu parceiro. É drama de primeira, unido
a uma história policial que não subestima a inteligência da plateia.
Mesmo sem o brilhantismo dos filmes posteriores de Nolan, é um
passatempo de primeira categoria.
sexta-feira
A ORIGEM
A ORIGEM (Inception, 2010, Warner Bros, 148min) Direção e roteiro: Christopher Nolan. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Larry Dias, Doug Mowat. Produção executiva: Chris Brigham, Thomas Tull. Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas. Elenco: Leonardo DiCaprio, Marion Cottilard, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Michael Caine, Pete Postlewhaite, Tom Berenger, Cillian Murphy. Estreia: 08/7/10
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Fotografia, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Ser sequestrado por um filme e levado para um mundo à parte, como se estivesse sendo hipnotizado é uma experiência das mais raras, especialmente em um panorama comercial como o de Hollywood, que insiste em empurrar uma dieta anêmica de bobagens para consumo rápido e esquecível. Por isso - além de suas qualidades intrínsecas, logicamente - foi um susto quando "A origem" chegou aos cinemas americanos e mundiais na metade de 2010. Dirigido por Christopher Nolan - que ressuscitou a franquia "Batman" de forma assombrosa em termos de bilheteria e inteligência - o filme estrelado por Leonardo DiCaprio e um elenco de sonhos é uma das mais impressionantes manifestações cinematográficas saídas de Hollywood desde sempre, capaz de dar um nó na cabeça até mesmo do mais perspicaz dos espectadores e surpreendê-los com um final não apenas emocionante, mas também coerente e de uma inteligência rara no cinema mainstream.
O próprio Nolan é o roteirista de "A origem" - e levando-se em conta que ele também criou "Amnésia" em 2001 e "O grande truque" em 2006, dá pra perceber que o sujeito tem fetiche em confundir a mente da plateia. Nesse seu mais ambicioso e arriscado filme ele criou um universo tão, mas tão surreal que só resta ao público embarcar sem cinto de segurança em uma trama fascinante que mistura cenas de ação inacreditáveis, uma história de amor realmente comovente e um clima abstrato de dar inveja a David Lynch - porém sem as bizarrices psicológicas do pai de Laura Palmer.
A história de "A origem" é difícil de resumir. Basicamente, pode-se dizer, sem estragar as surpresas do impecável roteiro, que DiCaprio (que não ajuda nem atrapalha) interpreta um profissional que vive de invadir os sonhos das pessoas para roubar-lhes os segredos mais íntimos. Impedido de entrar nos EUA devido a trágicos acontecimentos passados que envolvem sua esposa (a sempre bela e ótima atriz Marion Cottilard), ele cede à tentação de desafiar a si mesmo e ir além do corriqueiro, plantando na mente de um empresário ideias que favorecerão seu rival profissional. Contando com a ajuda de uma equipe talentosa e bem treinada, ele entra no perigoso terreno dos sonhos dentro dos sonhos.
Mesmo com toda a complexidade do roteiro e com a sua acertada opção em não fazer concessões ao mais fácil - o que em tese poderia afastar o público médio das salas de exibição - "A origem" surpreendeu com uma bilheteria de quase 300 milhões de dólares somente no mercado doméstico, o que prova que às vezes a plateia sabe escolher seus programas. Sua excelência também refletiu-se junto à Academia, que lhe indicou a oito estatuetas do Oscar, inclusive melhor filme do ano - inexplicavelmente deixou Nolan de fora na categoria de diretor e Lee Smith na de edição. Porém, mostrando o quão obtusos seus votantes podem ser, o prêmio ficou com o intragável "O discurso do rei" - que em poucos anos será lembrado apenas como o amontoado de clichês que tirou o Oscar de "A origem" e "A rede social".
Sim, "A origem" é complexo. Sim, é uma viagem total. Sim, é necessária uma atenção total. Mas vale a pena cada minuto. É também criativo, diferente, empolgante. E é sem dúvida o melhor filme de 2010.
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Fotografia, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Ser sequestrado por um filme e levado para um mundo à parte, como se estivesse sendo hipnotizado é uma experiência das mais raras, especialmente em um panorama comercial como o de Hollywood, que insiste em empurrar uma dieta anêmica de bobagens para consumo rápido e esquecível. Por isso - além de suas qualidades intrínsecas, logicamente - foi um susto quando "A origem" chegou aos cinemas americanos e mundiais na metade de 2010. Dirigido por Christopher Nolan - que ressuscitou a franquia "Batman" de forma assombrosa em termos de bilheteria e inteligência - o filme estrelado por Leonardo DiCaprio e um elenco de sonhos é uma das mais impressionantes manifestações cinematográficas saídas de Hollywood desde sempre, capaz de dar um nó na cabeça até mesmo do mais perspicaz dos espectadores e surpreendê-los com um final não apenas emocionante, mas também coerente e de uma inteligência rara no cinema mainstream.
O próprio Nolan é o roteirista de "A origem" - e levando-se em conta que ele também criou "Amnésia" em 2001 e "O grande truque" em 2006, dá pra perceber que o sujeito tem fetiche em confundir a mente da plateia. Nesse seu mais ambicioso e arriscado filme ele criou um universo tão, mas tão surreal que só resta ao público embarcar sem cinto de segurança em uma trama fascinante que mistura cenas de ação inacreditáveis, uma história de amor realmente comovente e um clima abstrato de dar inveja a David Lynch - porém sem as bizarrices psicológicas do pai de Laura Palmer.
A história de "A origem" é difícil de resumir. Basicamente, pode-se dizer, sem estragar as surpresas do impecável roteiro, que DiCaprio (que não ajuda nem atrapalha) interpreta um profissional que vive de invadir os sonhos das pessoas para roubar-lhes os segredos mais íntimos. Impedido de entrar nos EUA devido a trágicos acontecimentos passados que envolvem sua esposa (a sempre bela e ótima atriz Marion Cottilard), ele cede à tentação de desafiar a si mesmo e ir além do corriqueiro, plantando na mente de um empresário ideias que favorecerão seu rival profissional. Contando com a ajuda de uma equipe talentosa e bem treinada, ele entra no perigoso terreno dos sonhos dentro dos sonhos.
Mesmo com toda a complexidade do roteiro e com a sua acertada opção em não fazer concessões ao mais fácil - o que em tese poderia afastar o público médio das salas de exibição - "A origem" surpreendeu com uma bilheteria de quase 300 milhões de dólares somente no mercado doméstico, o que prova que às vezes a plateia sabe escolher seus programas. Sua excelência também refletiu-se junto à Academia, que lhe indicou a oito estatuetas do Oscar, inclusive melhor filme do ano - inexplicavelmente deixou Nolan de fora na categoria de diretor e Lee Smith na de edição. Porém, mostrando o quão obtusos seus votantes podem ser, o prêmio ficou com o intragável "O discurso do rei" - que em poucos anos será lembrado apenas como o amontoado de clichês que tirou o Oscar de "A origem" e "A rede social".
Sim, "A origem" é complexo. Sim, é uma viagem total. Sim, é necessária uma atenção total. Mas vale a pena cada minuto. É também criativo, diferente, empolgante. E é sem dúvida o melhor filme de 2010.
segunda-feira
BATMAN, O CAVALEIRO DAS TREVAS
BATMAN, O CAVALEIRO DAS TREVAS (The dark knight, 2008, Warner
Bros, 152min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan,
Jonathan Nolan, estória de Christopher Nolan, David S. Goyer,
personagens de Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith.
Música: James Newton Howard, Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming.
Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Peter Lando. Produção
executiva: Kevin de La Noy, Benjamin Melniker, Thomas Tull, Michael E.
Uslan. Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco:
Christian Bale, Heath Ledger, Maggie Gyllenhaal, Morgan Freeman, Aaron
Eckhart, Michael Caine, Cillian Murphy, Anthony Michael Hall. Estreia:
14/7/08
8 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Heath Ledger), Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais, Maquiagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Heath Ledger), Edição de Som
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Heath Ledger)
Em 2005, o cineasta Christopher Nolan provou a todos que o fracasso dos filmes "Batman eternamente" e "Batman & Robin" eram unicamente culpa da concepção equivocada do diretor Joel Schumacher - que os transformou em ridículas alegorias carnavalescas e aniquilou qualquer complexidade da personagem - do que de um possível desinteresse da plateia por novas aventuras do heroi mascarado. Ao recuperar o tom sombrio da criação de Bob Kane, dando a seu "Batman begins" a seriedade apropriada, o autor de filmes criativos e inteligentes como "Amnésia" e "Insônia" não apenas imprimiu ao trabalho sua assinatura como também conquistou uma nova legião de fãs, deixando de lado a versão cartunesca de Tim Burton e cafona de Schumacher. O melhor na história toda, porém, é que esse primeiro capítulo, a despeito de suas inúmeras qualidades, foi apenas o prelúdio para aquele que Nolan transformaria na mais espetacular adaptação da personagem para as telas em seu segundo capítulo: mais longo, mais anabolizado e nem por isso menos inteligente e empolgante, "Batman: o cavaleiro das trevas" é ainda melhor do que o seu original - e, não à toa, rendeu extraordinários 533 milhões de dólares somente no mercado doméstico, tornando-se uma das maiores bilheterias da história. Nada mais justo e merecido!
Ao contrário da maioria das adaptações de quadrinhos para o cinema, que dão prioridade às cenas de ação e a piadinhas de gosto duvidoso, "Batman: o cavaleiro das trevas" - assim como seu antecessor - leva sua trama a sério, injetando complexidade narrativa e densidade psicológica a seus personagens sem sacrificar aquilo que a plateia mais anseia: sequências de pura adrenalina, filmadas com o melhor que um orçamento milionário pode oferecer (e um diretor de imenso talento como Nolan pode proporcionar). Sendo assim, nem mesmo a longa duração do filme (duas horas e meia) consegue atrapalhar a diversão - equilibrada com maestria pela direção, pelo roteiro impecável e pela escalação extraordinária do elenco (que substituiu acertadamente a chatinha Katie Holmes pela ótima Maggie Gyllenhaal no papel crucial de Rachel Dawes, a amada do heroi mascarado que é a catalisadora do clímax inesperado e sanguinolento do final, capaz de surpreender àqueles que não conhecem de cabo a rabo todas as histórias de Batman nos quadrinhos).
Um dos maiores destaques de "Batman: o cavaleiro das trevas" é, sem sombra de dúvida, a atuação nunca aquém de espetacular de Heath Ledger naquele que seria seu último filme completo - ele ainda foi visto no bizarro "O mundo imaginário do Dr. Parnassus", de Terry Gillian, mas não chegou a finalizar as filmagens, morrendo de overdose de drogas autorizadas em janeiro de 2008. Na pele do doentio Coringa, o jovem ator australiano revelado na comédia adolescente "10 coisas que eu odeio em você" deixa para trás a caracterização clássica de Jack Nicholson no filme de 1989 dirigido por Tim Burton e cria um vilão inesquecível já em sua primeira cena - um assalto a banco que termina em violência e que dá o tom exato da história a ser contada. Usando e abusando de trejeitos que dão a seu personagem uma personalidade única, Ledger tornou-se apenas o segundo ator a receber um Oscar póstumo - depois do veterano Peter Finch, de "Rede de intrigas" - em uma premiação que jamais deve ser creditada à emoção dos eleitores: seu trabalho é fascinante, escapando fácil dos clichês do gênero e atingindo um nível poucas vezes vista em filmes do gênero.
E a história, afinal, qual é? Basta dizer que Batman (mais uma vez interpretado por Christian Bale) continua aterrorizando os criminosos de Gotham City, apesar das dúvidas que circundam suas intenções. Quando um novo promotor público, Harvey Dent (Aron Eckhart) é eleito, Bruce Wayne - para quem não sabe a verdadeira identidade do heroi) - respira aliviado, acreditando que as coisas finalmente começarão a mudar em sua metrópole. Suas esperanças começam a mostrar-se infundadas, porém, quando um misterioso fora-da-lei auto-nomeado Coringa surge, disposto a disseminar o caos e a violência - e enfrentar Batman cara a cara.
Apesar da sinopse soar como mais do mesmo, "Batman: o cavaleiro das trevas" tem um roteiro inteligente, que jamais se deixa cair nas armadilhas fáceis de um blockbuster, buscando, pelo contrário, exigir do espectador mais do que o corriqueiro nos filmes do gênero. Essa sua qualidade acabou despertando polêmicas quando a Academia indicou-lhe a oito estatuetas, mas ignorou-o nas categorias mais importantes, como melhor filme e diretor. A gritaria dos fãs de certa forma incentivou o aumento do número de filmes indicados na categoria principal a partir do ano seguinte - em uma tentativa dos acadêmicos de aproximar o público mais jovem da cerimônia de entrega dos prêmios (e que ainda não se mostrou muito eficaz). O fato, porém, é que o filme de Nolan tinha qualidades suficientes para ser lembrado como um dos melhores de seu ano. Pode não ter sido um grande vencedor do Oscar, mas é, certamente, adorado pelos fãs.
8 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Heath Ledger), Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais, Maquiagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Heath Ledger), Edição de Som
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Heath Ledger)
Em 2005, o cineasta Christopher Nolan provou a todos que o fracasso dos filmes "Batman eternamente" e "Batman & Robin" eram unicamente culpa da concepção equivocada do diretor Joel Schumacher - que os transformou em ridículas alegorias carnavalescas e aniquilou qualquer complexidade da personagem - do que de um possível desinteresse da plateia por novas aventuras do heroi mascarado. Ao recuperar o tom sombrio da criação de Bob Kane, dando a seu "Batman begins" a seriedade apropriada, o autor de filmes criativos e inteligentes como "Amnésia" e "Insônia" não apenas imprimiu ao trabalho sua assinatura como também conquistou uma nova legião de fãs, deixando de lado a versão cartunesca de Tim Burton e cafona de Schumacher. O melhor na história toda, porém, é que esse primeiro capítulo, a despeito de suas inúmeras qualidades, foi apenas o prelúdio para aquele que Nolan transformaria na mais espetacular adaptação da personagem para as telas em seu segundo capítulo: mais longo, mais anabolizado e nem por isso menos inteligente e empolgante, "Batman: o cavaleiro das trevas" é ainda melhor do que o seu original - e, não à toa, rendeu extraordinários 533 milhões de dólares somente no mercado doméstico, tornando-se uma das maiores bilheterias da história. Nada mais justo e merecido!
Ao contrário da maioria das adaptações de quadrinhos para o cinema, que dão prioridade às cenas de ação e a piadinhas de gosto duvidoso, "Batman: o cavaleiro das trevas" - assim como seu antecessor - leva sua trama a sério, injetando complexidade narrativa e densidade psicológica a seus personagens sem sacrificar aquilo que a plateia mais anseia: sequências de pura adrenalina, filmadas com o melhor que um orçamento milionário pode oferecer (e um diretor de imenso talento como Nolan pode proporcionar). Sendo assim, nem mesmo a longa duração do filme (duas horas e meia) consegue atrapalhar a diversão - equilibrada com maestria pela direção, pelo roteiro impecável e pela escalação extraordinária do elenco (que substituiu acertadamente a chatinha Katie Holmes pela ótima Maggie Gyllenhaal no papel crucial de Rachel Dawes, a amada do heroi mascarado que é a catalisadora do clímax inesperado e sanguinolento do final, capaz de surpreender àqueles que não conhecem de cabo a rabo todas as histórias de Batman nos quadrinhos).
Um dos maiores destaques de "Batman: o cavaleiro das trevas" é, sem sombra de dúvida, a atuação nunca aquém de espetacular de Heath Ledger naquele que seria seu último filme completo - ele ainda foi visto no bizarro "O mundo imaginário do Dr. Parnassus", de Terry Gillian, mas não chegou a finalizar as filmagens, morrendo de overdose de drogas autorizadas em janeiro de 2008. Na pele do doentio Coringa, o jovem ator australiano revelado na comédia adolescente "10 coisas que eu odeio em você" deixa para trás a caracterização clássica de Jack Nicholson no filme de 1989 dirigido por Tim Burton e cria um vilão inesquecível já em sua primeira cena - um assalto a banco que termina em violência e que dá o tom exato da história a ser contada. Usando e abusando de trejeitos que dão a seu personagem uma personalidade única, Ledger tornou-se apenas o segundo ator a receber um Oscar póstumo - depois do veterano Peter Finch, de "Rede de intrigas" - em uma premiação que jamais deve ser creditada à emoção dos eleitores: seu trabalho é fascinante, escapando fácil dos clichês do gênero e atingindo um nível poucas vezes vista em filmes do gênero.
E a história, afinal, qual é? Basta dizer que Batman (mais uma vez interpretado por Christian Bale) continua aterrorizando os criminosos de Gotham City, apesar das dúvidas que circundam suas intenções. Quando um novo promotor público, Harvey Dent (Aron Eckhart) é eleito, Bruce Wayne - para quem não sabe a verdadeira identidade do heroi) - respira aliviado, acreditando que as coisas finalmente começarão a mudar em sua metrópole. Suas esperanças começam a mostrar-se infundadas, porém, quando um misterioso fora-da-lei auto-nomeado Coringa surge, disposto a disseminar o caos e a violência - e enfrentar Batman cara a cara.
Apesar da sinopse soar como mais do mesmo, "Batman: o cavaleiro das trevas" tem um roteiro inteligente, que jamais se deixa cair nas armadilhas fáceis de um blockbuster, buscando, pelo contrário, exigir do espectador mais do que o corriqueiro nos filmes do gênero. Essa sua qualidade acabou despertando polêmicas quando a Academia indicou-lhe a oito estatuetas, mas ignorou-o nas categorias mais importantes, como melhor filme e diretor. A gritaria dos fãs de certa forma incentivou o aumento do número de filmes indicados na categoria principal a partir do ano seguinte - em uma tentativa dos acadêmicos de aproximar o público mais jovem da cerimônia de entrega dos prêmios (e que ainda não se mostrou muito eficaz). O fato, porém, é que o filme de Nolan tinha qualidades suficientes para ser lembrado como um dos melhores de seu ano. Pode não ter sido um grande vencedor do Oscar, mas é, certamente, adorado pelos fãs.
O GRANDE TRUQUE
O GRANDE TRUQUE (The prestige, 2006, Warner Bros/Touchstone Pictures, 130min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan, romance de Christopher Priest. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: David Julyan. Figurino: Joan Bergin. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Julie Ochipinti. Produção executiva: Chris J. Ball, Valerie Dean, Charles J.D. Schlissel, William Tyler. Produção: Christopher Nolan, Aaron Ryder, Emma Thomas. Elenco: Hugh Jackman, Christian Bale, Scarlett Johansson, Michael Caine, Piper Perabo, Rebecca Hall, David Bowie, Andy Serkis. Estreia: 17/10/06
2 indicações ao Oscar: Fotografia, Direção de Arte/Cenários
Somente um cineasta do porte e da inteligência de Christopher Nolan conseguiria fazer de seu "filme de descanso" entre dois blockbusters - e no caso a expressão blockbuster assume proporções gigantescas, por se falar dos dois primeiros capítulos de sua reivenção do Homem-morcego - um trabalho tão interessante, empolgante e caprichado como "O grande truque". Carregando para o projeto sua equipe de confiança - que incluiu o fotógrafo Wally Pfister, o editor Lee Smith e o Batman em pessoa, Christian Bale, o diretor construiu um thriller de suspense elegante que fala muito mais ao cérebro do que aos músculos, comprovando seu imenso talento em criar pequenas obras-primas.
Baseado em um romance do escritor Christopher Priest - que optou por Nolan em detrimento de Sam Mendes por ser fã de seus "Amnésia" e "Insônia" - e roteirizado pelo próprio diretor e seu irmão Jonathan, "O grande truque" é daqueles filmes que exigem do espectador atenção absoluta, uma vez que brinca de maneira sagaz com as aparências e com pistas deixadas por toda a projeção. Como bom filme sobre mágicos - e em sua temporada surgiu também o pouco visto mas também interessante "O ilusionista", com Edward Norton, que dividiu com ele uma indicação ao Oscar de fotografia - o trabalho de Nolan utiliza a complexidade de sua trama para prender o espectador na poltrona desde seu arrebatador início até seu surpreendente (e coerente) final.
"O grande truque" conta, em sua essência, a história da rivalidade entre dois mágicos na Londres do século XIX, que começa com uma tragédia: o famoso Robert Angier (Hugh Jackman) perde a esposa durante um número e culpa seu então melhor amigo e assistente Alfred Borden (Christian Bale) pelo ocorrido. Sentindo-se injustiçado e ofendido por quem tinha em alto apreço, Borden inicia uma carreira paralela, sempre desejando obter mais sucesso do que seu agora rival. A disputa entre eles passa a atingir níveis extremos de suspense, até que uma nova mulher (Scarlett Johansson) surge entre eles, tornando o jogo ainda mais perigoso.
Quanto menos se souber a respeito da trama de "O grande truque" melhor a diversão. Christopher Nolan não tem medo de lançar pistas falsas e dicas verdadeiras durante a narrativa, sempre desafiando a lógica e a perspicácia da audiência com reviravoltas em número o suficiente para conquistar a todos. Dotado de um ritmo específico, sem pressa mas nunca monótono, o filme se beneficia também da palpável atmosfera criada pela fotografia de Wally Pfister e pela impecável reconstituição de época. Hugh Jackman - entrando no seleto grupo do diretor, que ainda conta com o habitual Michael Caine e o cantor David Bowie em uma participação especial como o cientista Nikola Testa - está soberbo como o quase arrogante Robert Angier, em uma atuação que o livra do estigma de uma personagem só (e no caso o icônico Wolverine) e mostra suas capacidades dramáticas e Christian Bale prova que tem tudo para ser um dos grandes atores britânicos de sua geração.
Excitante, esperto e sóbrio, "O grande truque" é um filme que merece ser visto e revisto, para que todos os seus elementos sejam devidamente degustados e apreciados. Filmaço!
2 indicações ao Oscar: Fotografia, Direção de Arte/Cenários
Somente um cineasta do porte e da inteligência de Christopher Nolan conseguiria fazer de seu "filme de descanso" entre dois blockbusters - e no caso a expressão blockbuster assume proporções gigantescas, por se falar dos dois primeiros capítulos de sua reivenção do Homem-morcego - um trabalho tão interessante, empolgante e caprichado como "O grande truque". Carregando para o projeto sua equipe de confiança - que incluiu o fotógrafo Wally Pfister, o editor Lee Smith e o Batman em pessoa, Christian Bale, o diretor construiu um thriller de suspense elegante que fala muito mais ao cérebro do que aos músculos, comprovando seu imenso talento em criar pequenas obras-primas.
Baseado em um romance do escritor Christopher Priest - que optou por Nolan em detrimento de Sam Mendes por ser fã de seus "Amnésia" e "Insônia" - e roteirizado pelo próprio diretor e seu irmão Jonathan, "O grande truque" é daqueles filmes que exigem do espectador atenção absoluta, uma vez que brinca de maneira sagaz com as aparências e com pistas deixadas por toda a projeção. Como bom filme sobre mágicos - e em sua temporada surgiu também o pouco visto mas também interessante "O ilusionista", com Edward Norton, que dividiu com ele uma indicação ao Oscar de fotografia - o trabalho de Nolan utiliza a complexidade de sua trama para prender o espectador na poltrona desde seu arrebatador início até seu surpreendente (e coerente) final.
"O grande truque" conta, em sua essência, a história da rivalidade entre dois mágicos na Londres do século XIX, que começa com uma tragédia: o famoso Robert Angier (Hugh Jackman) perde a esposa durante um número e culpa seu então melhor amigo e assistente Alfred Borden (Christian Bale) pelo ocorrido. Sentindo-se injustiçado e ofendido por quem tinha em alto apreço, Borden inicia uma carreira paralela, sempre desejando obter mais sucesso do que seu agora rival. A disputa entre eles passa a atingir níveis extremos de suspense, até que uma nova mulher (Scarlett Johansson) surge entre eles, tornando o jogo ainda mais perigoso.
Quanto menos se souber a respeito da trama de "O grande truque" melhor a diversão. Christopher Nolan não tem medo de lançar pistas falsas e dicas verdadeiras durante a narrativa, sempre desafiando a lógica e a perspicácia da audiência com reviravoltas em número o suficiente para conquistar a todos. Dotado de um ritmo específico, sem pressa mas nunca monótono, o filme se beneficia também da palpável atmosfera criada pela fotografia de Wally Pfister e pela impecável reconstituição de época. Hugh Jackman - entrando no seleto grupo do diretor, que ainda conta com o habitual Michael Caine e o cantor David Bowie em uma participação especial como o cientista Nikola Testa - está soberbo como o quase arrogante Robert Angier, em uma atuação que o livra do estigma de uma personagem só (e no caso o icônico Wolverine) e mostra suas capacidades dramáticas e Christian Bale prova que tem tudo para ser um dos grandes atores britânicos de sua geração.
Excitante, esperto e sóbrio, "O grande truque" é um filme que merece ser visto e revisto, para que todos os seus elementos sejam devidamente degustados e apreciados. Filmaço!
terça-feira
BATMAN BEGINS
BATMAN BEGINS (Batman begins, 2005, Warner Bros, 140min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, David S. Goyer, estória de David S. Goyer, personagens criadas por Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: James Newton Howard, Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Paki Smith, Simon Wakefield. Produção executiva: Benjamin Melniker, Michael E. Uslan. Produção: Larry Franco, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco: Christian Bale, Katie Holmes, Gary Oldman, Liam Neeson, Morgan Freeman, Michael Caine, Cillian Murphy, Tom Wilkinson, Rutger Hauer, Ken Watanabe, Linus Roache. Estreia: 15/6/05
Indicado ao Oscar de Fotografia
Depois do verdadeiro fiasco de "Batman & Robin", dirigido por Joel Schumacher em 1997 - e que praticamente enterrou as possibilidades do super-heroi - muita gente acreditava que a franquia do homem-morcego (tão rentável nas mãos de Tim Burton) estava acabada de vez. Foi preciso uma recauchutagem geral para que o Cavaleiro das Trevas, criado por Bob Kane nos anos 30 voltasse às boas graças do público e da crítica. Com o criativo e talentoso Christopher Nolan - recém saído do sucesso "Amnésia" e do prestigiado "Insônia" - no comando, "Batman begins" tem a inteligência de ignorar a série cinematográfica lançada em 1989 e partir do princípio da história, das origens do heroi mascarado, que viu seus pais morrerem assassinados quando ainda era uma criança.
Escalar o inglês Christian Bale (lançado por Steven Spielberg em "Império do sol", de 1987) como protagonista foi o acerto primordial de Nolan. Frio nas horas certas e com o físico adequado para o papel, Bale apaga em poucos minutoso trauma deixado por Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney (ainda que este último não tenha sido o responsável pela derrocada da série). Na pele do milionário Bruce Wayne, o jovem ator consegue ser o super-heroi que todos desejavam ver sem apelar para o escapismo tradicional mas bastante fake dos filmes anteriores. Wayne, depois da tragedia que testemunhou, foi embora da mansão de sua família, foi preso, fez um treinamento quase ninja e volta à Gotham City com a missão de salvá-la da sua destruição total pela violência. Contando com a ajuda do Comissário Gordon (um Gary Oldman envelhecido mas ainda brilhante) e da assistente de promotoria que foi sua namorada na infância (a inapropriada Katie Holmes no único erro de escalação do elenco), ele parte para o ataque contra os bandidos que querem transformar sua cidade em ruínas.
Christopher Nolan é um exímio diretor de atores, o que faz toda a diferença na transformação da sombria saga de Batman de um ralo filme de ação em um drama de personagens, mesmo que às vezes eles sejam um tanto superficiais. O romance entre Wayne e sua namorada, por exemplo, nunca empolga (culpa talvez da constante apatia de Katie Holmes). A ideia genial de Batman fazer a sua primeira (e triunfal) aparição somente depois de meia-hora de projeção, no entanto, dá vida nova e inteligente ao roteiro. Michael Caine, Morgan Freeman, Ken Watanabe, Liam Neeson e Tom Wilkinson - todos já indicados ao Oscar - são coadjuvantes de luxo em uma diversão de primeira, que prova que filmes-pipoca podem e devem ser espertos e não tratar o público como crianças. A edição, repleta de idas e voltas - que no começo até atrapalham um pouco - também ajuda o filme a fugir do óbvio, e a bela fotografia de Wally Pfister (dona de sua única indicação ao Oscar) dá o tom exato da bela obra de Nolan.
"Batman begins" pode não ter rendido tanto dinheiro quanto os primeiros filmes do heroi, mas arrebanhou prestígio suficiente para dar o pontapé inicial em uma nova e bem-sucedida série e preparar a audiência para
seu extraordinário segundo capítulo, "Batman, o cavaleiro das trevas", que deixaria o mundo de queixo caído.
Indicado ao Oscar de Fotografia
Depois do verdadeiro fiasco de "Batman & Robin", dirigido por Joel Schumacher em 1997 - e que praticamente enterrou as possibilidades do super-heroi - muita gente acreditava que a franquia do homem-morcego (tão rentável nas mãos de Tim Burton) estava acabada de vez. Foi preciso uma recauchutagem geral para que o Cavaleiro das Trevas, criado por Bob Kane nos anos 30 voltasse às boas graças do público e da crítica. Com o criativo e talentoso Christopher Nolan - recém saído do sucesso "Amnésia" e do prestigiado "Insônia" - no comando, "Batman begins" tem a inteligência de ignorar a série cinematográfica lançada em 1989 e partir do princípio da história, das origens do heroi mascarado, que viu seus pais morrerem assassinados quando ainda era uma criança.
Escalar o inglês Christian Bale (lançado por Steven Spielberg em "Império do sol", de 1987) como protagonista foi o acerto primordial de Nolan. Frio nas horas certas e com o físico adequado para o papel, Bale apaga em poucos minutoso trauma deixado por Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney (ainda que este último não tenha sido o responsável pela derrocada da série). Na pele do milionário Bruce Wayne, o jovem ator consegue ser o super-heroi que todos desejavam ver sem apelar para o escapismo tradicional mas bastante fake dos filmes anteriores. Wayne, depois da tragedia que testemunhou, foi embora da mansão de sua família, foi preso, fez um treinamento quase ninja e volta à Gotham City com a missão de salvá-la da sua destruição total pela violência. Contando com a ajuda do Comissário Gordon (um Gary Oldman envelhecido mas ainda brilhante) e da assistente de promotoria que foi sua namorada na infância (a inapropriada Katie Holmes no único erro de escalação do elenco), ele parte para o ataque contra os bandidos que querem transformar sua cidade em ruínas.
Christopher Nolan é um exímio diretor de atores, o que faz toda a diferença na transformação da sombria saga de Batman de um ralo filme de ação em um drama de personagens, mesmo que às vezes eles sejam um tanto superficiais. O romance entre Wayne e sua namorada, por exemplo, nunca empolga (culpa talvez da constante apatia de Katie Holmes). A ideia genial de Batman fazer a sua primeira (e triunfal) aparição somente depois de meia-hora de projeção, no entanto, dá vida nova e inteligente ao roteiro. Michael Caine, Morgan Freeman, Ken Watanabe, Liam Neeson e Tom Wilkinson - todos já indicados ao Oscar - são coadjuvantes de luxo em uma diversão de primeira, que prova que filmes-pipoca podem e devem ser espertos e não tratar o público como crianças. A edição, repleta de idas e voltas - que no começo até atrapalham um pouco - também ajuda o filme a fugir do óbvio, e a bela fotografia de Wally Pfister (dona de sua única indicação ao Oscar) dá o tom exato da bela obra de Nolan.
"Batman begins" pode não ter rendido tanto dinheiro quanto os primeiros filmes do heroi, mas arrebanhou prestígio suficiente para dar o pontapé inicial em uma nova e bem-sucedida série e preparar a audiência para
seu extraordinário segundo capítulo, "Batman, o cavaleiro das trevas", que deixaria o mundo de queixo caído.
quinta-feira
AMNÉSIA
AMNÉSIA (Memento, 2000, Newmarket Films, 113min) Direção: Christopher Nolan, conto de Jonathan Nolan. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Doddy Dorn. Música: David Julyan. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Patti Podesta/Danielle Berman. Produção executiva: Aaron Ryder. Produção: Jennifer Todd, Suzanne Todd. Elenco: Guy Pearce, Joe Pantoliano, Carrie-Anne Moss, Jorja Fox, Stephen Tobolowski, Mark Boone Jr.. Elenco: 20/01/01 (Sundance Festival)
2 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Montagem
Uns bons dez anos antes de dar um nó nas cabeças dos espectadores com “A origem”, o cineasta Christopher Nolan já havia demonstrado, da maneira mais feliz possível, seu fetiche em confundir a plateia. Adaptando um conto nunca publicado de autoria de seu irmão, ele escreveu e dirigiu “Amnésia”, um dos mais criativos filmes policiais da história – e por conseguinte, uma das mais bem-sucedidas produções independentes do cinema americano até hoje. Além de alçar à fama imediata seu diretor – que em seguida embalaria uma carreira das mais íntegras no cinemão mainstrean – “Amnésia” também confirmou o talento deu seu protagonista, o australiano Guy Pearce (que fez uma drag-queen em “Priscilla, a rainha do deserto” e um policial almofadinha em “Los Angeles, cidade proibida”). Sucesso absoluto de público e crítica, o filme de Nolan teve motivos de sobra para tamanho alvoroço.
A história de “Amnésia” até parece fácil: depois de um grave incidente que causou a morte de sua esposa, o investigador de seguros de saúde Leonard Shelby (vivido por um Guy Pearce loiríssimo e melhor ator do que nunca) perdeu a capacidade de manter na memória qualquer fato recente. Uma conversa, um rosto, um acontecimento, por mais importantes que possam ser, são esquecidos minutos depois de seu primeiro contato. Esse problema – já desagradável por si mesmo – não seria tão inconveniente se a intenção de Leonard não fosse tão séria: ele planeja vingar-se do homem que causou sua desgraça, um homem cujo nome ele tem certeza de ser John ou James G., segundo a tatuagem em sua perna. Sim, para não esquecer as pistas que coleta em seu caminho, Leonard tatua-as em seu corpo, além de contar com a ajuda de uma providencial máquina polaróide. Em seu caminho em busca de vingança, ele cruza com o aparentemente bem-intencionado Teddy (Joe Pantoliano) e a misteriosa Natalie (Carrie-Anne Moss), nunca deixando de lembrar-se da triste história de um antigo cliente, Sammy Jankins (Stephen Tobolowski).

O que parece fácil em “Amnésia” na verdade não é. Ao contar a angustiante história de Shelby de trás pra frente, o roteiro de Nolan (merecidamente indicado ao Oscar) acerta justamente em proporcionar ao público a possibilidade de extirpar o que mais o incomoda nas dezenas de filmes policiais que chegam às telas anualmente: é absolutamente impossível – ao menos na primeira sessão – adivinhar os caminhos que a trama irá seguir. Sua imprevisibilidade é tamanha que aqui não se tenta adivinhar o que irá acontecer e sim o que aconteceu, como e porque. Além de criativo, o roteiro ainda se dá ao luxo de reservar uma surpresa até mesmo ao mais atento espectador. E o público, que em certos momentos fica tão perdido quanto seu protagonista, chega ao final da sessão com a sensação de que, sim, é preciso revê-lo. E mais uma vez, e outra e outra.... São necessárias incontáveis sessões de “Amnésia” para que toda a sua complexidade seja absorvida. E mesmo assim, uma única resposta nunca será o bastante.
Provando cabalmente que uma boa ideia e uma equipe competente são muito mais importantes do que orçamentos milionários, Christopher Nolan começou, com “Amnésia”, uma lista de produções absolutamente imperdíveis com sua assinatura. É um dos filmes indispensáveis do começo do século XXI. E um dos melhores policiais já realizados.
2 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Montagem
Uns bons dez anos antes de dar um nó nas cabeças dos espectadores com “A origem”, o cineasta Christopher Nolan já havia demonstrado, da maneira mais feliz possível, seu fetiche em confundir a plateia. Adaptando um conto nunca publicado de autoria de seu irmão, ele escreveu e dirigiu “Amnésia”, um dos mais criativos filmes policiais da história – e por conseguinte, uma das mais bem-sucedidas produções independentes do cinema americano até hoje. Além de alçar à fama imediata seu diretor – que em seguida embalaria uma carreira das mais íntegras no cinemão mainstrean – “Amnésia” também confirmou o talento deu seu protagonista, o australiano Guy Pearce (que fez uma drag-queen em “Priscilla, a rainha do deserto” e um policial almofadinha em “Los Angeles, cidade proibida”). Sucesso absoluto de público e crítica, o filme de Nolan teve motivos de sobra para tamanho alvoroço.
A história de “Amnésia” até parece fácil: depois de um grave incidente que causou a morte de sua esposa, o investigador de seguros de saúde Leonard Shelby (vivido por um Guy Pearce loiríssimo e melhor ator do que nunca) perdeu a capacidade de manter na memória qualquer fato recente. Uma conversa, um rosto, um acontecimento, por mais importantes que possam ser, são esquecidos minutos depois de seu primeiro contato. Esse problema – já desagradável por si mesmo – não seria tão inconveniente se a intenção de Leonard não fosse tão séria: ele planeja vingar-se do homem que causou sua desgraça, um homem cujo nome ele tem certeza de ser John ou James G., segundo a tatuagem em sua perna. Sim, para não esquecer as pistas que coleta em seu caminho, Leonard tatua-as em seu corpo, além de contar com a ajuda de uma providencial máquina polaróide. Em seu caminho em busca de vingança, ele cruza com o aparentemente bem-intencionado Teddy (Joe Pantoliano) e a misteriosa Natalie (Carrie-Anne Moss), nunca deixando de lembrar-se da triste história de um antigo cliente, Sammy Jankins (Stephen Tobolowski).

O que parece fácil em “Amnésia” na verdade não é. Ao contar a angustiante história de Shelby de trás pra frente, o roteiro de Nolan (merecidamente indicado ao Oscar) acerta justamente em proporcionar ao público a possibilidade de extirpar o que mais o incomoda nas dezenas de filmes policiais que chegam às telas anualmente: é absolutamente impossível – ao menos na primeira sessão – adivinhar os caminhos que a trama irá seguir. Sua imprevisibilidade é tamanha que aqui não se tenta adivinhar o que irá acontecer e sim o que aconteceu, como e porque. Além de criativo, o roteiro ainda se dá ao luxo de reservar uma surpresa até mesmo ao mais atento espectador. E o público, que em certos momentos fica tão perdido quanto seu protagonista, chega ao final da sessão com a sensação de que, sim, é preciso revê-lo. E mais uma vez, e outra e outra.... São necessárias incontáveis sessões de “Amnésia” para que toda a sua complexidade seja absorvida. E mesmo assim, uma única resposta nunca será o bastante.
Provando cabalmente que uma boa ideia e uma equipe competente são muito mais importantes do que orçamentos milionários, Christopher Nolan começou, com “Amnésia”, uma lista de produções absolutamente imperdíveis com sua assinatura. É um dos filmes indispensáveis do começo do século XXI. E um dos melhores policiais já realizados.
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