SUÍTE FRANCESA (Suite Française, 2014, Alliance/Scope Pictures, 107min) Direção: Saul Dibb. Roteiro: Saul Dibb, Matt Charman, romance de Irène Némirovsky. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Chris Dickens. Música: Rael Jones. Figurino: Michael O'Connor. Direção de arte/cenários: Michael Carlin/Véronique Melery. Produção executiva: Len Blavatnik, Christine Langan, Charles Layton, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Romain Bremond, Andrea Cornwell, Michael Kuhn, Xavier Marchand. Elenco: Michelle Williams, Kristin Scott-Thomas, Matthias Schonaerts, Margot Robbie, Sam Riley, Lambert Wilson, Alexandra Maria Lara, Harriet Walter, Ruth Wilson, Eric Godon, Deborah Findlay. Estreia: 05/11/14
Final dos anos 1990: filha de uma vítima fatal dos campos de concentração de Auschwitz, Denise Epstein aceita a proposta de doar as anotações de sua mãe, a escritora Irène Nemirovsky, morta em 1942, para os arquivos franceses sobre a II Guerra Mundial. Antes de entregar todas os seus escritos, porém, ela resolve finalmente ler o que acreditava ser um doloroso diário sobre a rotina da prisão e descobre, surpresa, que tem em mãos um livro inacabado, um romance ambicioso que tencionava retratar o período da guerra sob um olhar mais mundano e menos político, concentrando sua ação em personagens comuns vivendo situações extremas. Publicado em 2004, "Suíte francesa" torna-se um bestseller e, como era previsível, chama a atenção de Hollywood - mais especificamente dos produtores Kathleen Kennedy e Frank Marshall (colaboradores habituais de Steven Spielberg nos anos 80 e 90), que, com o apoio da Universal Pictures, chegam a contratar o roteirista Ronald Harwood (vencedor do Oscar por "O pianista"). Foi uma produtora francesa, porém, a TF1 Droits Audiovisuels, quem levou o projeto adiante, sob a direção de Saul Dibb e a produção executiva dos irmãos Weinstein (ex-Miramax e donos da Weinstein Company). A mudança de planos pode ter sido benéfica em termos artísticos (sabe-se lá quem seriam as escolhas da Universal para o elenco), mas foi um desastre em termos de marketing: pronto desde o final de 2014, o filme só estreou nos EUA na televisão a cabo, em maio de 2017 - acabando com suas chances de prêmios e bilheterias de destaque.
O lançamento equivocado de "Suíte francesa" nos cinemas - apesar de seu lançamento em mais de 30 países, ele nunca chegou a ter o merecido destaque dos produtores - apenas privou o público de uma pequena obra de arte, delicada, sensível e emocionante. Experiente em produções de época (seu "A duquesa" levou o Oscar de figurino em 2009), o cineasta Saul Dibb explora com segurança e bom gosto todas as nuances da trama de Nemirovsky - em um roteiro coescrito por ele e Matt Charman que se concentra basicamente na novela "Dulce". Mais do que apenas contar uma devastadora história de amor proibido, Dibb também apresenta ao espectador uma visão diferente do conflito, centrada em famílias atingidas indiretamente pelas bombas e pela violência. Não há, no filme, cenas sanguinolentas ao estilo "O resgate do soldado Ryan", ou contemplativas como em "Além da linha vermelha", ambos de 1998: o que interessa ao cineasta são as consequências de tudo isso no dia-a-dia principalmente das mulheres que, deixadas de lado no front, eram obrigadas a esperar notícias de seus maridos/filhos/irmãos enquanto sofriam na pele o outro lado da moeda, se vendo diante de dilemas morais dilacerantes, que transformavam seu silêncio em impensáveis concessões ao inimigo.
O inimigo, em "Suíte francesa", surge na forma pouco convencional de um homem culto, inteligente, sensível e romântico, que abala as estruturas de uma jovem até então dedicada ao marido e ao lar. Esse inimigo, vestido com o uniforme da Alemanha nazista, é Bruno von Falk (Matthias Schoenaerts), que se hospeda compulsoriamente na propriedade de Madame Angellier (Kristin Scott-Thomas) durante a ocupação germânica na França. Apesar de ser tido (justificadamente) como alguém em quem não se deve confiar, os modos elegantes de Bruno acabam chamando a atenção de Lucille (Michelle Williams), que espera notícias de seu marido - filho de Angellier e prisioneiro de guerra. Atraída pelos bons modos de Bruno e sua paixão por música, a recatada Lucille acaba se envolvendo muito mais do que deveria - especialmente quando moradores da região passam a tornar-se alvo preferencial dos soldados invasores, devido à sua insurreição. Ao tentar fazer o que suas consciências obrigam, tanto Lucille quanto Bruno se veem diante de decisões que significam a vida ou a morte - e percebem que a força da guerra pode ser tão grande ou maior do que a do amor que sentem um pelo outro.
Dentre suas inúmeras qualidades, "Suíte francesa" consegue a façanha de contar sua trama principal de forma satisfatória sem deixar de lado os personagens paralelos, cujas histórias aparentemente marginais acabam por afetar profundamente seu desenrolar. A mais importante delas diz respeito ao jovem Benoit Labarie (Sam Riley), cuja tragédia conjugal atravessa radicalmente o romance dos protagonistas e os joga em um labirinto de situações imprevistas que servem para testar seu amor. Saul Dibb conta todas as histórias de seu roteiro com delicadeza e cuidado, se preocupando em proporcionar ao espectador uma experiência vasta em emoções. Consegue atingir seu objetivo na maior parte do tempo, graças principalmente à excelência de seu elenco, que se dá ao luxo de ter a sempre fascinante Kirstin Scott-Thomas em um papel coadjuvante mas crucial - e que pega o público de surpresa com algumas atitudes que apenas reiteram a ideia central do filme: a guerra pode despertar o melhor ou o pior nas pessoas, basta que elas se deixem levar por sua verdadeira personalidade. Uma história de amor lindamente musicada (o tema principal é de Alexandre Desplat) e com um histórico pessoal poderoso, "Suíte francesa" merece ser descoberto e admirado - ao menos para que se confira a excelente química entre Michelle Williams e Matthias Schoenaerts.
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domingo
quinta-feira
MINHA QUERIDA DAMA
MINHA QUERIDA DAMA (My old lady, 2014, BBC Films, 107min) Direção: Israel Horovitz. Roteiro: Israel Horovitz, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Michel Amathieu. Montagem: Stephanie Ahn, Jacob Craycroft. Música: Mark Orton. Figurino: Jacqueline Bouchard. Direção de arte/cenários: Pierre-François Limbosch/Daphné Deboaisne. Produção executiva: Daniel Battsek, Raphael Benoliel, Charles S. Cohen, Mike Goodridge, Israel Horovitz, Russ Krasnoff, Christine Langan, Joe Oppenheimer. Produção: David C. Barrot, Nitsa Benchetrit, Gary Foster, Rachael Horovitz. Elenco: Kevin Kline, Maggie Smith, Kristin Scott Thomas, Dominique Pinon. Estreia: 10/9/14
Nada como bons atores de posse de bons diálogos e personagens com profundidade o bastante para explorar seus talentos: essa é a certeza que fica após uma sessão de "Minha querida dama", que, apesar do título nacional remeter ao clássico musical estrelado por Audrey Hepburn nos anos 60, é a adaptação de uma peça teatral feita pelo próprio autor, Israel Horovitz, estreando também - e com o pé direito - na função de cineasta. Iniciando com ares de comédia de situação e terminando como um drama familiar de proporções trágicas, o primeiro trabalho de Horovitz no cinema jamais trai suas origens no palco (diálogos precisos e marcações bem definidas na maior parte do tempo), mas consegue ir além de suas possíveis limitações, graças principalmente ao trio de atores centrais que defendem sua trama: Kevin Kline, Maggie Smith e Kristin Scott Thomas, todos eles geniais em cena.
Tendo como cenário de sua história a bela e sempre fotogênica Paris, Horovitz não perde nenhuma oportunidade de sair da claustrofobia de um roteiro originário do teatro, arejando sua própria trama sem medo de diluir a densidade dos conflitos e a força de seus personagens. Confiando nas palavras que ele mesmo escreveu e na capacidade de seus astros em dar a elas a complexidade necessária, o dramaturgo tornado cineasta brinda o público com um dos mais subestimados filmes de 2014 - e que precisa urgentemente ser descoberto por todos aqueles que encontram prazer em assistir a uma boa história, povoada por gente de verdade e não apenas por super-heróis e personagens sobre-humanos. Mas que esse mesmo público se prepare para conhecer personagens não exatamente simpáticos - ao menos à primeira vista.
A trama começa com a chegada de Mathias Gold (Kevin Kline, disparado um dos melhores atores de sua geração) à Paris. Três vezes divorciado, sem filhos, sem trabalho e sem perspectivas, ele viaja à capital francesa com o objetivo claro de vender a propriedade que herdou de seu pai e reorganizar sua bagunçada vida financeira. Logo que põe os pés na espaçosa casa que lhe pertence, porém, ele descobre que as coisas não serão tão fáceis quanto ele poderia imaginar: segundo uma lei do país, seu pai comprou a casa com um contrato que só lhe dá total poder sobre ela quando a atual dona morrer - e pior ainda: enquanto ela viver, o novo proprietário é obrigado a lhe pagar uma taxa de 2.400 euros mensais. Chocado com a descoberta - e de certa forma achando que isso é apenas mais uma vingança do pai, com quem nunca manteve uma relação das melhores - Mathias fica mais aliviado quando descobre que a inquilina, Mathilde Girard (Maggie Smith), já passou dos 90 anos de idade, o que, ao menos se espera, irá abreviar sua espera pelo desfecho do caso. Já se preparando para encontrar um novo comprador - o que não falta, graças à qualidade da ampla construção - ele encontra outro empecilho: a filha de Mathilde, Chloé (Kristin Scott Thomas), que deseja manter-se como a dona do sobrado.
Enquanto mantém sua primeira metade em um agradável tom cômico - com Mathias vendendo às escondidas os móveis da família Girard e enfrentando Chloé e Mathilde com diálogos leves e ferinos - Horovitz apresenta ao público uma divertida comédia de costumes, repleta de momentos que confirmam o extraordinário timing cômico de Kevin Kline e Maggie Smith (não por acaso já premiados com o Oscar de coadjuvantes por performances cômicas, respectivamente em "Um peixe chamado Wanda" e "California Suite"). Mas é quando a trama começa a mostrar seu lado dramático que o filme cresce e se torna ainda mais interessante. Uma sucessão de segredos do passado trazidos à tona é o suficiente para que os personagens mostrem suas reais facetas - bem mais trágicas e dignas de compaixão do que poderiam aparentar a princípio. É hora, então, de mais um show de seus intérpretes, que conseguem passar da frivolidade do humor descompromissado para a profundidade de uma quase tragédia familiar com uma espantosa naturalidade. Não vem ao caso destrinchar todas as possibilidades do desfecho - até para não estragar as surpresas - mas vale a pena dizer que poucas vezes três gêneros (drama, comédia e romance) conseguiram caminhar juntos de forma tão orgânica nos últimos anos sem prejuízo de nenhum deles. Mérito do roteiro coeso, da direção discreta e principalmente do elenco impecável - que torna tudo verdadeiro e crível. Uma bela surpresa que passou despercebida pelas salas de cinema.
Nada como bons atores de posse de bons diálogos e personagens com profundidade o bastante para explorar seus talentos: essa é a certeza que fica após uma sessão de "Minha querida dama", que, apesar do título nacional remeter ao clássico musical estrelado por Audrey Hepburn nos anos 60, é a adaptação de uma peça teatral feita pelo próprio autor, Israel Horovitz, estreando também - e com o pé direito - na função de cineasta. Iniciando com ares de comédia de situação e terminando como um drama familiar de proporções trágicas, o primeiro trabalho de Horovitz no cinema jamais trai suas origens no palco (diálogos precisos e marcações bem definidas na maior parte do tempo), mas consegue ir além de suas possíveis limitações, graças principalmente ao trio de atores centrais que defendem sua trama: Kevin Kline, Maggie Smith e Kristin Scott Thomas, todos eles geniais em cena.
Tendo como cenário de sua história a bela e sempre fotogênica Paris, Horovitz não perde nenhuma oportunidade de sair da claustrofobia de um roteiro originário do teatro, arejando sua própria trama sem medo de diluir a densidade dos conflitos e a força de seus personagens. Confiando nas palavras que ele mesmo escreveu e na capacidade de seus astros em dar a elas a complexidade necessária, o dramaturgo tornado cineasta brinda o público com um dos mais subestimados filmes de 2014 - e que precisa urgentemente ser descoberto por todos aqueles que encontram prazer em assistir a uma boa história, povoada por gente de verdade e não apenas por super-heróis e personagens sobre-humanos. Mas que esse mesmo público se prepare para conhecer personagens não exatamente simpáticos - ao menos à primeira vista.
A trama começa com a chegada de Mathias Gold (Kevin Kline, disparado um dos melhores atores de sua geração) à Paris. Três vezes divorciado, sem filhos, sem trabalho e sem perspectivas, ele viaja à capital francesa com o objetivo claro de vender a propriedade que herdou de seu pai e reorganizar sua bagunçada vida financeira. Logo que põe os pés na espaçosa casa que lhe pertence, porém, ele descobre que as coisas não serão tão fáceis quanto ele poderia imaginar: segundo uma lei do país, seu pai comprou a casa com um contrato que só lhe dá total poder sobre ela quando a atual dona morrer - e pior ainda: enquanto ela viver, o novo proprietário é obrigado a lhe pagar uma taxa de 2.400 euros mensais. Chocado com a descoberta - e de certa forma achando que isso é apenas mais uma vingança do pai, com quem nunca manteve uma relação das melhores - Mathias fica mais aliviado quando descobre que a inquilina, Mathilde Girard (Maggie Smith), já passou dos 90 anos de idade, o que, ao menos se espera, irá abreviar sua espera pelo desfecho do caso. Já se preparando para encontrar um novo comprador - o que não falta, graças à qualidade da ampla construção - ele encontra outro empecilho: a filha de Mathilde, Chloé (Kristin Scott Thomas), que deseja manter-se como a dona do sobrado.
Enquanto mantém sua primeira metade em um agradável tom cômico - com Mathias vendendo às escondidas os móveis da família Girard e enfrentando Chloé e Mathilde com diálogos leves e ferinos - Horovitz apresenta ao público uma divertida comédia de costumes, repleta de momentos que confirmam o extraordinário timing cômico de Kevin Kline e Maggie Smith (não por acaso já premiados com o Oscar de coadjuvantes por performances cômicas, respectivamente em "Um peixe chamado Wanda" e "California Suite"). Mas é quando a trama começa a mostrar seu lado dramático que o filme cresce e se torna ainda mais interessante. Uma sucessão de segredos do passado trazidos à tona é o suficiente para que os personagens mostrem suas reais facetas - bem mais trágicas e dignas de compaixão do que poderiam aparentar a princípio. É hora, então, de mais um show de seus intérpretes, que conseguem passar da frivolidade do humor descompromissado para a profundidade de uma quase tragédia familiar com uma espantosa naturalidade. Não vem ao caso destrinchar todas as possibilidades do desfecho - até para não estragar as surpresas - mas vale a pena dizer que poucas vezes três gêneros (drama, comédia e romance) conseguiram caminhar juntos de forma tão orgânica nos últimos anos sem prejuízo de nenhum deles. Mérito do roteiro coeso, da direção discreta e principalmente do elenco impecável - que torna tudo verdadeiro e crível. Uma bela surpresa que passou despercebida pelas salas de cinema.
quarta-feira
DENTRO DA CASA
DENTRO DA CASA (Dans la maison, 2012, Mandarin Films/Mars Films/France 2 Cinéma, 105min) Direção: François Ozon. Roteiro: François Ozon, peça de teatro "El chico de la última fila", de Juan Mayorga. Fotografia: Jérôme Almerás. Montagem: Laure Gardette. Música: Philippe Rombi. Figurino: Pascaline Chavanne. Direção de arte: Arnaud de Moleron. Produção: Eric Altmayer, Nicolas Altmayer, Claudie Ossard. Elenco: Fabrice Luchini, Kristin Scott Thomas, Ernst Umhauer, Emmanuelle Seigner, Denis Ménochet, Bastien Ughetto. Estreia: 10/9/12 (Festival de Toronto)
Um dos mais prolíficos e criativos do cinema francês contemporâneo, François Ozon transita sem constrangimento pelos mais diversos gêneros, brindando o espectador com um cinema elegante e criativo que vai do musical ("Oito mulheres") ao suspense ("Swimming pool, à beira da piscina") sem perder o brilho e a inteligência. Apaixonado pela arte da narrativa, Ozon encontrou na peça de teatro "El chico de la última fila", de Juan Mayorga, o material ideal para aquele que pode ser considerado, sem exagero, um de seus melhores trabalhos. Explicitando seu amor pela literatura e pelo cinema como elemento de voyeurismo - como fez Alfred Hitchcock em sua obra-prima "Janela indiscreta", homenageada carinhosamente na sequência final - Ozon faz de "Dentro da casa" um genial exercício de meta-linguagem que borra a fronteira entre cinema e literatura sem jamais perder o fio condutor da trama ou soar pretensioso. Não bastasse isso tudo, ainda tem no elenco a presença sempre forte de Kristin Scott Thomas, uma das melhores atrizes de sua geração.
O protagonista de "Dentro da casa" é Germain Germain (Fabrice Luchini), um entediado professor de Francês de uma escola pública que há muito tempo deixou de encantar-se com a profissão ou acreditar nas possibilidades dos alunos adolescentes. Casado com a bela Jeanne (Kristin Scott Thomas) - cuja carreira como curadora de uma galeria de arte está por um fio graças a uma ameaça de fechamento do local - o cansado professor se vê repentinamente intrigado pelo trabalho de Claude Garcia (Ernst Umhauer), um discreto e silencioso aluno que demonstra um inesperado talento para as letras. Ao narrar sua primeira visita à casa do colega Rapha Artole (Bastien Ughetto) - e suas impressões a respeito da dinâmica familiar que encontra lá dentro - o rapaz prende a atenção do mestre, que passa a lhe dar atenção, emprestar livros clássicos e dar dicas de como manter o interesse do leitor na história, iniciada como uma simples redação e desenvolvida, a partir daí, como um folhetim recheado de inesperadas reviravoltas. Para deixar seu relato ainda mais envolvente, não hesita em manipular seu amigo e se infiltrar na família a ponto de tentar seduzir a mãe do rapaz, a bela e aparentemente infeliz Esther (Emmanuelle Seigner).
Aos poucos, porém, as coisas começam a fugir do controle, e Claude revela uma faceta pouco confiável de sua personalidade. Para conquistar as graças do professor e o amor da mãe de seu amigo, ele não hesita em criar situações cada vez mais complicadas - que podem ou não ser verdadeiras - e confundir ficção com realidade. Quando a vida de todos se cruzam inesperadamente, caberá a Germain dar um basta no problema, mas será que ele tem interesse em acabar com algo que finalmente está dando um certo sentido à sua vida e à sua carreira? E até que ponto o jovem está disposto a seguir suas orientações para finalizar sua história sem que haja maiores vítimas?
Contar mais sobre os desdobramentos de "Dentro da casa" é privar o espectador das surpresas oferecidas por um roteiro inteligente e pela direção ágil de Ozon, que tira o máximo proveito de seu elenco afinado e da trama envolvente. Fabrice Luchini deita e rola no papel do subitamente entusiasmado professor e Ernst Umhauer entrega uma performance perfeita no equilíbrio entre a inocência e a malícia de um adolescente cujas reais intenções permanecem uma incógnita até o final coerente e adequado. Com o duelo travado entre os dois, resta a Emmanuelle Seigner e Kristin Scott Thomas (que já dividiram a tela no perturbador "Lua de fel", de Roman Polanski, marido de Seigner na vida real) enfeitar a tela com seu charme em papéis aparentemente secundários que assumem sem medo a condução da narrativa quando é preciso. Dotado de inúmeras qualidades e uma força dramática irretocável, "Dentro da casa" é um pequeno grande filme que merece ser descoberto por fãs de bom cinema.
Um dos mais prolíficos e criativos do cinema francês contemporâneo, François Ozon transita sem constrangimento pelos mais diversos gêneros, brindando o espectador com um cinema elegante e criativo que vai do musical ("Oito mulheres") ao suspense ("Swimming pool, à beira da piscina") sem perder o brilho e a inteligência. Apaixonado pela arte da narrativa, Ozon encontrou na peça de teatro "El chico de la última fila", de Juan Mayorga, o material ideal para aquele que pode ser considerado, sem exagero, um de seus melhores trabalhos. Explicitando seu amor pela literatura e pelo cinema como elemento de voyeurismo - como fez Alfred Hitchcock em sua obra-prima "Janela indiscreta", homenageada carinhosamente na sequência final - Ozon faz de "Dentro da casa" um genial exercício de meta-linguagem que borra a fronteira entre cinema e literatura sem jamais perder o fio condutor da trama ou soar pretensioso. Não bastasse isso tudo, ainda tem no elenco a presença sempre forte de Kristin Scott Thomas, uma das melhores atrizes de sua geração.
O protagonista de "Dentro da casa" é Germain Germain (Fabrice Luchini), um entediado professor de Francês de uma escola pública que há muito tempo deixou de encantar-se com a profissão ou acreditar nas possibilidades dos alunos adolescentes. Casado com a bela Jeanne (Kristin Scott Thomas) - cuja carreira como curadora de uma galeria de arte está por um fio graças a uma ameaça de fechamento do local - o cansado professor se vê repentinamente intrigado pelo trabalho de Claude Garcia (Ernst Umhauer), um discreto e silencioso aluno que demonstra um inesperado talento para as letras. Ao narrar sua primeira visita à casa do colega Rapha Artole (Bastien Ughetto) - e suas impressões a respeito da dinâmica familiar que encontra lá dentro - o rapaz prende a atenção do mestre, que passa a lhe dar atenção, emprestar livros clássicos e dar dicas de como manter o interesse do leitor na história, iniciada como uma simples redação e desenvolvida, a partir daí, como um folhetim recheado de inesperadas reviravoltas. Para deixar seu relato ainda mais envolvente, não hesita em manipular seu amigo e se infiltrar na família a ponto de tentar seduzir a mãe do rapaz, a bela e aparentemente infeliz Esther (Emmanuelle Seigner).
Aos poucos, porém, as coisas começam a fugir do controle, e Claude revela uma faceta pouco confiável de sua personalidade. Para conquistar as graças do professor e o amor da mãe de seu amigo, ele não hesita em criar situações cada vez mais complicadas - que podem ou não ser verdadeiras - e confundir ficção com realidade. Quando a vida de todos se cruzam inesperadamente, caberá a Germain dar um basta no problema, mas será que ele tem interesse em acabar com algo que finalmente está dando um certo sentido à sua vida e à sua carreira? E até que ponto o jovem está disposto a seguir suas orientações para finalizar sua história sem que haja maiores vítimas?
Contar mais sobre os desdobramentos de "Dentro da casa" é privar o espectador das surpresas oferecidas por um roteiro inteligente e pela direção ágil de Ozon, que tira o máximo proveito de seu elenco afinado e da trama envolvente. Fabrice Luchini deita e rola no papel do subitamente entusiasmado professor e Ernst Umhauer entrega uma performance perfeita no equilíbrio entre a inocência e a malícia de um adolescente cujas reais intenções permanecem uma incógnita até o final coerente e adequado. Com o duelo travado entre os dois, resta a Emmanuelle Seigner e Kristin Scott Thomas (que já dividiram a tela no perturbador "Lua de fel", de Roman Polanski, marido de Seigner na vida real) enfeitar a tela com seu charme em papéis aparentemente secundários que assumem sem medo a condução da narrativa quando é preciso. Dotado de inúmeras qualidades e uma força dramática irretocável, "Dentro da casa" é um pequeno grande filme que merece ser descoberto por fãs de bom cinema.
OS DELÍRIOS DE CONSUMO DE BECKY BLOOM
OS DELÍRIOS DE CONSUMO DE BECKY BLOOM (Confessions of a shopaholic, 2009, Touchstone Pictures, 104min) Direção: P.J. Hogan. Roteiro: Tracey Jackson, Tim Firth, Kayla Alpert, romances de Sophie Kinsella. Fotografia: Jo Willems. Montagem: William Goldenberg. Música: James Newton Howard. Figurino: Pat Field. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Alyssa Winter. Produção executiva: Ron Bozman, Chad Oman, Mike Stenson. Produção: Jerry Bruckheimer. Elenco: Isla Fisher, Hugh Dancy, Krysten Ritter, John Lithgow, Joan Cusack, John Goodman, Kristin Scott Thomas, Lynn Redgrave, Julie Hagerty. Estreia: 05/02/09
A heroína de "Os delírios de consumo de Becky Bloom" - comédia romântica baseada nos dois primeiros livros de uma série de cinco volumes escritos pela britânica Sophie Kinsela - tem traços de algumas das mais populares personagens femininas a cruzar as telas de sua época. De Bridget Jones - criada por Helen Fielding e interpretada por Renée Zelwegger em dois filmes - ela tem a nacionalidade, o azar nos relacionamentos afetivos e a dificuldade sobre-humana de tirar suas contas do vermelho. De Elle Woods - que catapultou a carreira de Reese Witherspoon nos dois capitulos de "Legalmente loira" - ela herdou o amor incondicional por roupas, acessórios e sapatos de marcas famosas e a incapacidade de sair de casa sem estar vestida dos pés à cabeça com suas griffes preferidas. De Andrea Sachs - a sofrida assistente de Meryl Streep que Anne Hathaway viveu em "O diabo veste Prada" - ela tem a mesma profissão (jornalista) e o ambiente profissional (o mundo editorial, com suas armadilhas e pressões). E com as personagens de "Sex and the city" - série da HBO que também foi transposta para o cinema - ela divide o gosto pelo luxo, pelo romance e pela sofisticação... e a cidade de Nova York, para onde foi transferida pelos roteiristas apenas para uma "maior conexão com o público norte-americano". Com tantas referências na bagagem - apertadas ao lado do figurino caprichado da mesma Patricia Field da série estrelada por Sarah Jessica Parker e do filme com Hathaway - não é de admirar, portanto, que ela tenha passado quase em brancas nuvens. Mesmo com uma bilheteria mundial de mais de 100 milhões de dólares, as aventuras da consumista mais conhecida da literatura feminina não marcou época como suas colegas de shopping-center - matando logo em seu primeiro filme uma possível marca milionária para seduzir pelo visual e pela identificação as espectadoras que leram todos os cinco romances. Culpa do excesso de semelhanças? Da falta de carisma da atriz central? Da crise que tornou a estória um tanto fora de hora? Ou simplesmente falta de interesse da plateia?
Um pouco de tudo, talvez. Mesmo que Hollywood não se canse de contar e recontar as mesmas histórias a ponto de esgotá-las, a renda dos filmes contraria a teoria do cansaço com a falta de imaginação - não se pode esquecer que estamos falando de uma indústria que despeja continuações e mais continuações a cada temporada, sempre com êxitos cada vez maiores. Será então que Isla Fisher tem sua parcela de culpa no sucesso apenas mediano da empreitada? Pode ser. Desconhecida do grande público, Fischer é uma boa atriz, mas não tem o mesmo carisma de Reese Witherspoon - que chegou a ser cotada para o papel, recusando-o por considerá-lo parecido demais com sua Elle Woods. Será que as outras atrizes consideradas para protagonizar o filme teriam melhor sorte? É possível, já que na lista constam nomes como Kirsten Dunst, Rachel McAdams, Emily Blunt, Amanda Seyfried, Lindsay Lohan e até mesmo Anne Hathaway. Mas culpar Fisher - responsável por alguns dos melhores momentos de humor físico do filme - é leviano e até injusto. Então seria a crise econômica a responsável pela recepção morna à produção, que tinha como protagonista uma consumista contumaz? Se a resposta for essa, então como explicar as bilheterias monstruosas de filmes como "Avatar", "Se beber, não case", "Sherlock Holmes" e "Harry Potter e o enigma do príncipe", todos lançados no mesmo ano? Ok, "Becky Bloom" tem uma parcela restrita de público-alvo, mas então onde entra "Lua nova" nessa equação?
Dirigido pelo australiano P.J. Hogan - cujo talento foi mais do que comprovado com o sucesso de "O casamento de Muriel" (94) e "O casamento do meu melhor amigo" (97) - "Os delírios de consumo de Becky Bloom" é uma comédia romântica bobinha e leve, e como tal deve ser considerada e apreciada, apesar do abuso de clichês. Sua protagonista, Rebecca Bloomwood, é uma jovem jornalista que, sem emprego que lhe permita pagar seus excessos financeiros, acaba por encontrar trabalho em uma revista de economia editada pelo charmoso Luke Brandon (o sr. Claire Danes) - filho de uma milionária que tenta esconder suas origens para vencer pelo próprio talento. Com o apelido de "A moça da echarpe verde", ela começa a escrever uma coluna mensal sobre finanças pessoais para leigos e torna-se a sensação da revista. Apaixonada pelo chefe e incapaz de livrar-se do vício em compras - a ponto de brigar com a melhor amiga e passar os dias fugindo de um insistente cobrador que não parece disposto a desistir da caça - ela luta constantemente contra o saldo bancário e sua frustração profissional, já que seu sonho é trabalhar na "Alette", a revista de moda comandada pela fria Alette Naylor (Kristin Scott Thomas).
O fato é que "Os delírios de consumo de Becky Bloom", apesar de alguns acertos, é apenas mais uma sessão da tarde descerebrada que se utiliza de elementos já devidamente testados e aprovados para conquistar o bolso da plateia. Não tem a ironia de "Legalmente loira", o sarcasmo de Bridget Jones, a mordacidade de "O diabo veste Prada" e as geniais sacadas verbais e sexuais de "Sex and the city". Diverte em alguns momentos - é ótima a ideia de ver as manequins das vitrines ganhando vida quando a veem e é sempre um prazer ver Kristin Scot Thomas em cena - mas não consegue evitar a sensação de "mais do mesmo" em vários outros. A decisão da Touchstone em não dar continuidade à série foi acertada: acompanhar Becky Bloom como mãe e esposa certamente não seria uma boa ideia.
A heroína de "Os delírios de consumo de Becky Bloom" - comédia romântica baseada nos dois primeiros livros de uma série de cinco volumes escritos pela britânica Sophie Kinsela - tem traços de algumas das mais populares personagens femininas a cruzar as telas de sua época. De Bridget Jones - criada por Helen Fielding e interpretada por Renée Zelwegger em dois filmes - ela tem a nacionalidade, o azar nos relacionamentos afetivos e a dificuldade sobre-humana de tirar suas contas do vermelho. De Elle Woods - que catapultou a carreira de Reese Witherspoon nos dois capitulos de "Legalmente loira" - ela herdou o amor incondicional por roupas, acessórios e sapatos de marcas famosas e a incapacidade de sair de casa sem estar vestida dos pés à cabeça com suas griffes preferidas. De Andrea Sachs - a sofrida assistente de Meryl Streep que Anne Hathaway viveu em "O diabo veste Prada" - ela tem a mesma profissão (jornalista) e o ambiente profissional (o mundo editorial, com suas armadilhas e pressões). E com as personagens de "Sex and the city" - série da HBO que também foi transposta para o cinema - ela divide o gosto pelo luxo, pelo romance e pela sofisticação... e a cidade de Nova York, para onde foi transferida pelos roteiristas apenas para uma "maior conexão com o público norte-americano". Com tantas referências na bagagem - apertadas ao lado do figurino caprichado da mesma Patricia Field da série estrelada por Sarah Jessica Parker e do filme com Hathaway - não é de admirar, portanto, que ela tenha passado quase em brancas nuvens. Mesmo com uma bilheteria mundial de mais de 100 milhões de dólares, as aventuras da consumista mais conhecida da literatura feminina não marcou época como suas colegas de shopping-center - matando logo em seu primeiro filme uma possível marca milionária para seduzir pelo visual e pela identificação as espectadoras que leram todos os cinco romances. Culpa do excesso de semelhanças? Da falta de carisma da atriz central? Da crise que tornou a estória um tanto fora de hora? Ou simplesmente falta de interesse da plateia?
Um pouco de tudo, talvez. Mesmo que Hollywood não se canse de contar e recontar as mesmas histórias a ponto de esgotá-las, a renda dos filmes contraria a teoria do cansaço com a falta de imaginação - não se pode esquecer que estamos falando de uma indústria que despeja continuações e mais continuações a cada temporada, sempre com êxitos cada vez maiores. Será então que Isla Fisher tem sua parcela de culpa no sucesso apenas mediano da empreitada? Pode ser. Desconhecida do grande público, Fischer é uma boa atriz, mas não tem o mesmo carisma de Reese Witherspoon - que chegou a ser cotada para o papel, recusando-o por considerá-lo parecido demais com sua Elle Woods. Será que as outras atrizes consideradas para protagonizar o filme teriam melhor sorte? É possível, já que na lista constam nomes como Kirsten Dunst, Rachel McAdams, Emily Blunt, Amanda Seyfried, Lindsay Lohan e até mesmo Anne Hathaway. Mas culpar Fisher - responsável por alguns dos melhores momentos de humor físico do filme - é leviano e até injusto. Então seria a crise econômica a responsável pela recepção morna à produção, que tinha como protagonista uma consumista contumaz? Se a resposta for essa, então como explicar as bilheterias monstruosas de filmes como "Avatar", "Se beber, não case", "Sherlock Holmes" e "Harry Potter e o enigma do príncipe", todos lançados no mesmo ano? Ok, "Becky Bloom" tem uma parcela restrita de público-alvo, mas então onde entra "Lua nova" nessa equação?
Dirigido pelo australiano P.J. Hogan - cujo talento foi mais do que comprovado com o sucesso de "O casamento de Muriel" (94) e "O casamento do meu melhor amigo" (97) - "Os delírios de consumo de Becky Bloom" é uma comédia romântica bobinha e leve, e como tal deve ser considerada e apreciada, apesar do abuso de clichês. Sua protagonista, Rebecca Bloomwood, é uma jovem jornalista que, sem emprego que lhe permita pagar seus excessos financeiros, acaba por encontrar trabalho em uma revista de economia editada pelo charmoso Luke Brandon (o sr. Claire Danes) - filho de uma milionária que tenta esconder suas origens para vencer pelo próprio talento. Com o apelido de "A moça da echarpe verde", ela começa a escrever uma coluna mensal sobre finanças pessoais para leigos e torna-se a sensação da revista. Apaixonada pelo chefe e incapaz de livrar-se do vício em compras - a ponto de brigar com a melhor amiga e passar os dias fugindo de um insistente cobrador que não parece disposto a desistir da caça - ela luta constantemente contra o saldo bancário e sua frustração profissional, já que seu sonho é trabalhar na "Alette", a revista de moda comandada pela fria Alette Naylor (Kristin Scott Thomas).
O fato é que "Os delírios de consumo de Becky Bloom", apesar de alguns acertos, é apenas mais uma sessão da tarde descerebrada que se utiliza de elementos já devidamente testados e aprovados para conquistar o bolso da plateia. Não tem a ironia de "Legalmente loira", o sarcasmo de Bridget Jones, a mordacidade de "O diabo veste Prada" e as geniais sacadas verbais e sexuais de "Sex and the city". Diverte em alguns momentos - é ótima a ideia de ver as manequins das vitrines ganhando vida quando a veem e é sempre um prazer ver Kristin Scot Thomas em cena - mas não consegue evitar a sensação de "mais do mesmo" em vários outros. A decisão da Touchstone em não dar continuidade à série foi acertada: acompanhar Becky Bloom como mãe e esposa certamente não seria uma boa ideia.
quinta-feira
ASSASSINATO EM GOSFORD PARK
ASSASSINATO
EM GOSFORD PARK (Gosford Park, 2001, USA Films/Capitol Films, 137min)
Direção: Robert Altman. Roteiro: Julian Fellowes. Fotografia: Andrew
Dunn. Montagem: Tim Squyres. Música: Patrick Doyle. Figurino: Jenny
Beavan. Direção de arte/cenários: Stephen Altman/Anna Pinnock. Produção
executiva: Jane Barclay, Sharon Harel, Robert Jones, Hannah Leader.
Produção: Robert Altman, Bob Balaban, David Levy. Elenco: Maggie Smith,
Michael Gambon, Kristin Scott Thomas, Camilla Rutherford, Charles Dance,
Tom Hollander, Jeremy Northam, Bob Balaban, Ryan Phillipe, Stephen Fry,
Kelly McDonald, Helen Mirren, Clive Owen, Eileen Atkins, Emily Watson,
Derek Jacobi, Richard E. Grant. Estreia: 07/11/01 (Festival de Londres)
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Altman), Atriz Coadjuvante (Helen Mirren), Atriz Coadjuvante (Maggie Smith), Roteiro Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Robert Altman)
Uma luxuosa casa de campo inglesa pré-II Guerra. Um fim-de-semana festivo, com convidados elegantíssimos e criados dedicados mas um tanto ressentidos. Um anfitrião aparentemente generoso, mas dono de segredos pouco louváveis. Esnobes britânicos e "vulgares" americanos da terra do cinema. E um homicídio misterioso cometido na biblioteca obrigando um típico inspetor a penetrar em um mundo de meias-verdades, traições e romances escusos. Parece Agatha Christie, mas é apenas "Assassinato em Gosford Park", o filme que deu ao cineasta Robert Altman sua última indicação ao Oscar, em 2002. Seguindo sua prática de trabalhar com um numeroso elenco de nomes de primeira linha - aqui atores britânicos consagrados nos palcos - ele brinca com a tradição dos romances policiais em um filme que, apesar do título e das características marcantes de um gênero específico, é mais uma dura crítica ao sistema de classes inglês do que um mero whodunit.
Com base em uma ideia de Altman e do ator Bob Balaban, o roteirista Julian Fellowes - que acabou por ganhar uma estatueta da Academia e depois tornou-se o criador da aclamada série "Dowtown Abbey" - utilizou-se de seu vasto conhecimento sobre os hábitos da alta sociedade britânica dos anos 30 para escrever uma astuciosa história a respeito não apenas de um assassinato, mas das engrenagens que moviam/movem/moverão o dia-a-dia e a rotina de patrões e empregados nem sempre felizes com suas relações de poder e hierarquia. Sutilmente explicitando tais relações em cada cena (nenhum personagem é mostrado sem que um empregado esteja por perto, por exemplo), Altman conquistou a crítica também por espalhar por seu filme uma elegância que reflete com perfeição a frieza e a indiferença dos personagens em relação à tragédia ocorrida em um dos aposentos da mansão: para os serviçais importa mais manter o funcionamento das refeições; para os aristocratas, tudo não passa de mais um aborrecimento que interrompe um fim-de-semana já movimentado o bastante por intrigas de bastidores. Essa opção do diretor apenas confirma seu estilo inconfundível, que a tantos agrada e a outros tantos repele. "Assassinato em Gosford Park" pode fascinar ou ser simplesmente chato. Depende apenas do gosto do espectador.
A história se passa em novembro de 1932, na casa de campo do benemérito William McCordle (Michael Gambon), que recebe convidados para um fim-de-semana regado a uma caçada em sua propriedade e jantares refinados, criados pela veterana cozinheira Mrs. Croft (Eileen Atkins) e organizados pela rígida governanta, Mrs. Wilson (Helen Mirren). Casado com a esnobe Lady Sylvia (Kristin Scott Thomas), o aristocrata McCordle não é exatamente um homem gentil ou delicado, mas é tratado com deferência pelos convidados, uma vez que, em maior ou menor grau, todos eles precisam de seu dinheiro,seja para manter um estilo de vida sofisticado, financiar um filme, manter uma pensão tida erroneamente como vitalícia ou evitar uma falência. Enquanto no andar de cima o jogo de interesses corre solto e pouco sutil, na parte de baixo da mansão, os criados vivem seus próprios dramas - que se misturam aos dos patrões quando o anfitrião aparece morto e a polícia surge para investigar o caso.
Em um elenco repleto de grandes atores do teatro e do cinema britânicos (o americano Ryan Philippe interpreta o criado de um astro do cinema vivido por Jeremy Northam), é difícil dizer quem está melhor. Maggie Smith e Helen Mirren foram indicadas ao Oscar de coadjuvante - a primeira pela interpretação de uma dama antipática e interesseira que vive da pensão da vítima do homicídio e não esconde seu desprezo pelos americanos e por aqueles abaixo dela na escala social, e a segunda como a líder dos empregados que esconde um segredo doloroso sobre o passado de seu patrão - mas outros nomes se destacam diante dos lúcidos diálogos de Fellowes. É o caso de Kristin Scott Thomas, mais uma vez demonstrando seu imenso talento como Lady Sylvia - uma viúva pouco propensa a sofrer pela morte do marido - e Eileen Atkins, que somente no terço final da narrativa mostra o poder de sua personagem, até então relegada a um injusto segundo plano. Dirigidos como se estivessem em uma bela peça teatral, todos brindam o espectador com trabalhos discretos e minimalistas, valorizados pelo roteiro aparentemente simples mas repleto de camadas que somente a experiência de Altman conseguiria orquestrar.
"Assassinato em Gosford Park" concorreu a sete Oscar, mas bateu de frente com "Uma mente brilhante" e "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" na busca pelas estatuetas. Foi (mais) um retorno de Altman às boas graças da crítica e da Academia, fato que não se repetiria mais até sua morte em 2006. Pode-se dizer que foi um testamento à altura de uma carreira que sempre teimou em não respeitar convenções comerciais - ou então revirá-las a ponto de torná-las irreconhecíveis. Não é um filme para todos, e sim para seus fãs - que não são poucos.
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Altman), Atriz Coadjuvante (Helen Mirren), Atriz Coadjuvante (Maggie Smith), Roteiro Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Robert Altman)
Uma luxuosa casa de campo inglesa pré-II Guerra. Um fim-de-semana festivo, com convidados elegantíssimos e criados dedicados mas um tanto ressentidos. Um anfitrião aparentemente generoso, mas dono de segredos pouco louváveis. Esnobes britânicos e "vulgares" americanos da terra do cinema. E um homicídio misterioso cometido na biblioteca obrigando um típico inspetor a penetrar em um mundo de meias-verdades, traições e romances escusos. Parece Agatha Christie, mas é apenas "Assassinato em Gosford Park", o filme que deu ao cineasta Robert Altman sua última indicação ao Oscar, em 2002. Seguindo sua prática de trabalhar com um numeroso elenco de nomes de primeira linha - aqui atores britânicos consagrados nos palcos - ele brinca com a tradição dos romances policiais em um filme que, apesar do título e das características marcantes de um gênero específico, é mais uma dura crítica ao sistema de classes inglês do que um mero whodunit.
Com base em uma ideia de Altman e do ator Bob Balaban, o roteirista Julian Fellowes - que acabou por ganhar uma estatueta da Academia e depois tornou-se o criador da aclamada série "Dowtown Abbey" - utilizou-se de seu vasto conhecimento sobre os hábitos da alta sociedade britânica dos anos 30 para escrever uma astuciosa história a respeito não apenas de um assassinato, mas das engrenagens que moviam/movem/moverão o dia-a-dia e a rotina de patrões e empregados nem sempre felizes com suas relações de poder e hierarquia. Sutilmente explicitando tais relações em cada cena (nenhum personagem é mostrado sem que um empregado esteja por perto, por exemplo), Altman conquistou a crítica também por espalhar por seu filme uma elegância que reflete com perfeição a frieza e a indiferença dos personagens em relação à tragédia ocorrida em um dos aposentos da mansão: para os serviçais importa mais manter o funcionamento das refeições; para os aristocratas, tudo não passa de mais um aborrecimento que interrompe um fim-de-semana já movimentado o bastante por intrigas de bastidores. Essa opção do diretor apenas confirma seu estilo inconfundível, que a tantos agrada e a outros tantos repele. "Assassinato em Gosford Park" pode fascinar ou ser simplesmente chato. Depende apenas do gosto do espectador.
A história se passa em novembro de 1932, na casa de campo do benemérito William McCordle (Michael Gambon), que recebe convidados para um fim-de-semana regado a uma caçada em sua propriedade e jantares refinados, criados pela veterana cozinheira Mrs. Croft (Eileen Atkins) e organizados pela rígida governanta, Mrs. Wilson (Helen Mirren). Casado com a esnobe Lady Sylvia (Kristin Scott Thomas), o aristocrata McCordle não é exatamente um homem gentil ou delicado, mas é tratado com deferência pelos convidados, uma vez que, em maior ou menor grau, todos eles precisam de seu dinheiro,seja para manter um estilo de vida sofisticado, financiar um filme, manter uma pensão tida erroneamente como vitalícia ou evitar uma falência. Enquanto no andar de cima o jogo de interesses corre solto e pouco sutil, na parte de baixo da mansão, os criados vivem seus próprios dramas - que se misturam aos dos patrões quando o anfitrião aparece morto e a polícia surge para investigar o caso.
Em um elenco repleto de grandes atores do teatro e do cinema britânicos (o americano Ryan Philippe interpreta o criado de um astro do cinema vivido por Jeremy Northam), é difícil dizer quem está melhor. Maggie Smith e Helen Mirren foram indicadas ao Oscar de coadjuvante - a primeira pela interpretação de uma dama antipática e interesseira que vive da pensão da vítima do homicídio e não esconde seu desprezo pelos americanos e por aqueles abaixo dela na escala social, e a segunda como a líder dos empregados que esconde um segredo doloroso sobre o passado de seu patrão - mas outros nomes se destacam diante dos lúcidos diálogos de Fellowes. É o caso de Kristin Scott Thomas, mais uma vez demonstrando seu imenso talento como Lady Sylvia - uma viúva pouco propensa a sofrer pela morte do marido - e Eileen Atkins, que somente no terço final da narrativa mostra o poder de sua personagem, até então relegada a um injusto segundo plano. Dirigidos como se estivessem em uma bela peça teatral, todos brindam o espectador com trabalhos discretos e minimalistas, valorizados pelo roteiro aparentemente simples mas repleto de camadas que somente a experiência de Altman conseguiria orquestrar.
"Assassinato em Gosford Park" concorreu a sete Oscar, mas bateu de frente com "Uma mente brilhante" e "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" na busca pelas estatuetas. Foi (mais) um retorno de Altman às boas graças da crítica e da Academia, fato que não se repetiria mais até sua morte em 2006. Pode-se dizer que foi um testamento à altura de uma carreira que sempre teimou em não respeitar convenções comerciais - ou então revirá-las a ponto de torná-las irreconhecíveis. Não é um filme para todos, e sim para seus fãs - que não são poucos.
domingo
O ENCANTADOR DE CAVALOS
O ENCANTADOR DE CAVALOS (The horse whisperer, 1998, Touchstone Pictures, 172min) Direção: Robert Redford. Roteiro: Eric Roth, Richard LaGravenese, romance de Nick Evans. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Hank Corwin, Freeman Davies, Tom Rolf. Música: Thomas Newman, Gwil Owen. Figurino: Judy L. Ruskin. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Gretchen Rau, Hilton Rosemarin. Produção executiva: Rachel Pfeffer. Produção: Patrick Markey, Robert Redford. Elenco: Robert Redford, Kristin Scott Thomas, Sam Neil, Dianne Wiest, Chris Cooper, Scarlett Johanssen, Cherry Jones, Kate Bosworth. Estreia: 15/5/98
Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("A soft place to fall")
Quem conhece a filmografia de Robert Redford como cineasta sabe muito bem que o galã transformado em diretor oscarizado - pelo belo "Gente como a gente", de 1980 - tem um ritmo todo particular de contar as histórias que escolhe apresentar à plateia. Foi assim, por exemplo, com "Nada é para sempre" (92), que ilustrava uma trama familiar e fraternal com o ritmo suave da pesca, e com "Quiz show, a verdade dos bastidores" (94), que escancarava a corrupção da televisão americana em plenos anos 50 como um cerebral filme de detetives da década de 70. Não houve surpresa nenhuma, portanto, quando ele lançou "O encantador de cavalos", seu filme seguinte: baseado em um romance de Nick Evans que teve seus direitos comprados por Redford antes mesmo de ser publicado, o filme se desenvolve lentamente diante dos olhos do espectador, oferecendo a ele a oportunidade de envolver-se gradualmente com a trama, os personagens e as belas imagens captadas pela câmera do veterano Robert Richardson - Oscar por "JFK", de Oliver Stone. A quem está acostumado com a edição quase alucinante da maioria do filmes pós-anos 80, pode parecer chato e enfadonho - o estilo convencional do cineasta muitas vezes é assim considerado - mas aqueles que aceitarem experimentar podem se surpreender com uma bela e emocionante história de amor e reparações sentimentais.
Logo nos primeiros minutos de projeção Redford já mostra que não está disposto a brincadeiras, com uma impressionante sequência que mostra um trágico acidente envolvendo um caminhão e dois cavalos em um estrada coberta de uma neve escorregadia e traiçoeira. O resultado do desastre - dirigido com sensibilidade e delicadeza que equilibram suas consequências funestas - é a morte da adolescente que cavalgava um dos animais (que também acaba se tornando uma vítima fatal) e a amputação de parte da perna da outra menina, a tímida Grace (Scarlett Johansson em início de carreira). Seu cavalo, Pilgrim, sobrevive, mas fica extremamente ferido a ponto de tornar-se sério candidato à eutanásia. Quem impede tal desfecho é Annie (Kristin Scott Thomas), editora-chefe de uma revista nova-iorquina que acredita que matar o animal seria o golpe de misericórdia no sofrimento de sua filha, Grace. Disposta a curar o cavalo - e consequentemente ajudar na recuperação da garota, com quem vive um relacionamento difícil - ela viaja até Montana com o objetivo de convencer o famoso "encantador de cavalos" Tom Booker (Redford em pessoa, pela primeira vez sendo dirigido por ele mesmo) a aceitar o trabalho de recuperar a saúde de Pilgrim.
Não é preciso ser especialista para adivinhar que Booker não apenas irá tratar do cavalo, mas também irá consertar a relação entre mãe e filha, colaborar na autoaceitação de Grace em sua nova condição, questionar o modo de vida urbano e estressante de Annie e, lógico, envolver-se romanticamente com ela, que passa por um período conturbado no casamento com Robert (Sam Neill). Nadando contra a corrente do cinema comercial americano, porém, Redford trata dessa sessão de terapia conjunta e atípica sem pressa, de forma quase contemplativa e onírica, que valoriza cada fotograma, cada expressão de seus atores - e entre os coadjuvantes estão os ótimos Dianne Wiest e Chris Cooper - e cada deslumbrante cenário de Montana. É óbvio que essa decisão em levar a história a seu próprio tempo estica a duração do filme a quase três horas de duração, o que pode incomodar aos mais inquietos, mas é louvável a coragem de Redford em desafiar as normas ao assinar uma produção que ainda por cima tem a ousadia de contar uma história de amor pudica e discreta, ao contrário dos amores histéricos que frequentam as salas de exibição. Tudo bem, sua química com Kristin Scott Thomas - uma das maiores atrizes de sua geração - não é das melhores, mas o fato de seu relacionamento sustentar-se basicamente em olhares e intenções faz dele um dos mais maduros e interessantes da década, apesar do fracasso do filme nas bilheterias (talvez justamente por romper os padrões comerciais do gênero).
E é interessante também como Redford encontra um generoso espaço em seu drama romântico para mostrar o tratamento que seu personagem oferece ao cavalo de Grace - e que, afinal, dá título ao filme. As cenas em que Tom Booker e Pilgrim interagem - e posteriormente incluem a menina em sua relação - são emocionantes na medida certa, evitando o sentimentalismo fácil ao mesmo tempo em que conquistam o público com sua delicadeza ímpar, enfatizada pela bela fotografia e pela trilha sonora de Thomas Newman. "O encantador de cavalos" é um filme para plateias adultas, que estão cansadas das fórmulas desgastadas expostas com ritmo de videoclipe. É suave, maduro e muito bonito.
Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("A soft place to fall")
Quem conhece a filmografia de Robert Redford como cineasta sabe muito bem que o galã transformado em diretor oscarizado - pelo belo "Gente como a gente", de 1980 - tem um ritmo todo particular de contar as histórias que escolhe apresentar à plateia. Foi assim, por exemplo, com "Nada é para sempre" (92), que ilustrava uma trama familiar e fraternal com o ritmo suave da pesca, e com "Quiz show, a verdade dos bastidores" (94), que escancarava a corrupção da televisão americana em plenos anos 50 como um cerebral filme de detetives da década de 70. Não houve surpresa nenhuma, portanto, quando ele lançou "O encantador de cavalos", seu filme seguinte: baseado em um romance de Nick Evans que teve seus direitos comprados por Redford antes mesmo de ser publicado, o filme se desenvolve lentamente diante dos olhos do espectador, oferecendo a ele a oportunidade de envolver-se gradualmente com a trama, os personagens e as belas imagens captadas pela câmera do veterano Robert Richardson - Oscar por "JFK", de Oliver Stone. A quem está acostumado com a edição quase alucinante da maioria do filmes pós-anos 80, pode parecer chato e enfadonho - o estilo convencional do cineasta muitas vezes é assim considerado - mas aqueles que aceitarem experimentar podem se surpreender com uma bela e emocionante história de amor e reparações sentimentais.
Logo nos primeiros minutos de projeção Redford já mostra que não está disposto a brincadeiras, com uma impressionante sequência que mostra um trágico acidente envolvendo um caminhão e dois cavalos em um estrada coberta de uma neve escorregadia e traiçoeira. O resultado do desastre - dirigido com sensibilidade e delicadeza que equilibram suas consequências funestas - é a morte da adolescente que cavalgava um dos animais (que também acaba se tornando uma vítima fatal) e a amputação de parte da perna da outra menina, a tímida Grace (Scarlett Johansson em início de carreira). Seu cavalo, Pilgrim, sobrevive, mas fica extremamente ferido a ponto de tornar-se sério candidato à eutanásia. Quem impede tal desfecho é Annie (Kristin Scott Thomas), editora-chefe de uma revista nova-iorquina que acredita que matar o animal seria o golpe de misericórdia no sofrimento de sua filha, Grace. Disposta a curar o cavalo - e consequentemente ajudar na recuperação da garota, com quem vive um relacionamento difícil - ela viaja até Montana com o objetivo de convencer o famoso "encantador de cavalos" Tom Booker (Redford em pessoa, pela primeira vez sendo dirigido por ele mesmo) a aceitar o trabalho de recuperar a saúde de Pilgrim.
Não é preciso ser especialista para adivinhar que Booker não apenas irá tratar do cavalo, mas também irá consertar a relação entre mãe e filha, colaborar na autoaceitação de Grace em sua nova condição, questionar o modo de vida urbano e estressante de Annie e, lógico, envolver-se romanticamente com ela, que passa por um período conturbado no casamento com Robert (Sam Neill). Nadando contra a corrente do cinema comercial americano, porém, Redford trata dessa sessão de terapia conjunta e atípica sem pressa, de forma quase contemplativa e onírica, que valoriza cada fotograma, cada expressão de seus atores - e entre os coadjuvantes estão os ótimos Dianne Wiest e Chris Cooper - e cada deslumbrante cenário de Montana. É óbvio que essa decisão em levar a história a seu próprio tempo estica a duração do filme a quase três horas de duração, o que pode incomodar aos mais inquietos, mas é louvável a coragem de Redford em desafiar as normas ao assinar uma produção que ainda por cima tem a ousadia de contar uma história de amor pudica e discreta, ao contrário dos amores histéricos que frequentam as salas de exibição. Tudo bem, sua química com Kristin Scott Thomas - uma das maiores atrizes de sua geração - não é das melhores, mas o fato de seu relacionamento sustentar-se basicamente em olhares e intenções faz dele um dos mais maduros e interessantes da década, apesar do fracasso do filme nas bilheterias (talvez justamente por romper os padrões comerciais do gênero).
E é interessante também como Redford encontra um generoso espaço em seu drama romântico para mostrar o tratamento que seu personagem oferece ao cavalo de Grace - e que, afinal, dá título ao filme. As cenas em que Tom Booker e Pilgrim interagem - e posteriormente incluem a menina em sua relação - são emocionantes na medida certa, evitando o sentimentalismo fácil ao mesmo tempo em que conquistam o público com sua delicadeza ímpar, enfatizada pela bela fotografia e pela trilha sonora de Thomas Newman. "O encantador de cavalos" é um filme para plateias adultas, que estão cansadas das fórmulas desgastadas expostas com ritmo de videoclipe. É suave, maduro e muito bonito.
sábado
RICARDO III
RICARDO
III (Richard III, 1995, Mayfair Entertainment International, 104min)
Direção: Richard Loncraine. Roteiro: Ian McKellen, Richard Loncraine,
peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Peter Biziou. Montagem:
Paul Green. Música: Trevor Jones. Figurino: Shuna Harwood. Direção de
arte/cenários: Tony Burrough. Produção executiva: Maria Apodiacos, Ellen
Dinerman Little, Ian McKellen, Joe Simon. Produção: Stephen Bayly, Lisa
Katselas Paré. Elenco: Ian McKellen, Annette Bening, Robert Downey Jr.,
Jim Broadbent, Kristin Scott Thomas, Nigel Hawthorne, John Wood, Maggie
Smith, Jim Carter, Dominic West. Estreia: 20/8/95 (Brasil)
2 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários
De todas as polêmicas que envolvem o dramaturgo inglês William Shakespeare - desde sua sexualidade até a autoria verdadeira de suas obras - duas certezas emergem soberanas sempre que um filme baseado em alguma peça sua chega aos cinemas: a perenidade de sua percepção da alma humana e a estrutura sempre moderna de seus textos, que permite que qualquer adaptação mantenha o espírito do original intocado. Um perfeito exemplo dessa afirmação é "Ricardo III", que o ator Ian McKellen levou dos palcos para as telas em 1995. Baseado em uma montagem ousada que alterava a data da ação para os primórdios da ascensão do nazismo (incutindo assim uma crítica política que em nada diminui o impacto da trama) e enxugava o texto em cerca de 50%, o filme de Richard Loncraine é um triunfo artístico, mas peca em ditar o ritmo necessário que poderia fazer dele uma das mais excitantes transposições do bardo para o cinema.
McKellen, também autor do roteiro, está espetacular como o personagem-título - reza a lenda que ele perdeu uma indicação ao Oscar 96 por apenas dois votos - o deformado e vil irmão caçula do Rei Edward (John Wood) que, na Europa dos anos 30, cobiça o trono da Inglaterra a ponto de urdir intrigas e assassinatos para alcançá-lo. Frio e cruel, ele não hesita em incluir até mesmo outro irmão, Clarence (Nigel Hawthorne), entre as vítimas que faz rumo ao poder. Sua trajetória sangrenta, porém, encontra firme resistência na Rainha Elizabeth (Annette Bening) - tornada americana na adaptação de Loncraine - e no irmão dela, Lord Rivers (Robert Downey Jr.), a quem ele considera dois arrivistas sociais. Casado com a bela Lady Anne (Kristin Scott Thomas), viúva de uma suas vítimas, Richard não medirá esforços em atingir seu objetivo e tornar-se um monarca ditatorial e fascista.
Com cuidadosa reconstituição de época - foi indicado aos Oscars de figurino e direção de arte - "Ricardo III" é uma produção que enche os olhos, conquistando o espectador logo de cara com uma sequência de ação empolgante que apresenta seu protagonista já mostrando seu lado maligno - no que muito colabora o olhar ensandecido de McKellen, um dos grandes atores de seu tempo. Conforme a história avança, no entanto, algo parece sair do lugar. Talvez os cortes no texto original de Shakespeare tenham sido exagerados, pois em vários momentos fica a impressão clara de que algo aconteceu e não foi explicado à plateia. Esse sentimento de confusão permanece até o final, e essa confiança do cineasta no conhecimento prévio do público da história que está sendo contada acaba por prejudicar sua narrativa. Não fica claro, por exemplo, os motivos que levam o protagonista a odiar tanto a Lord Rivers - exceto, lógico, pelo fato de ele ser o cunhado do rei. Tampouco é explicado o motivo que leva Lady Anne a aceitar desposar Ricardo, a despeito de ele ser o assassino de seu marido.
Essas falhas no roteiro de "Ricardo III" terminam por ser o calcanhar de Aquiles da obra, de resto um trabalho exemplar de grandes atuações e um texto poderoso enfatizado por um desenho de produção impecável e luxuoso. Shakespeare sabia como ninguém burilar as ambições e desejos humanos e poucos personagens seus são tão absurdamente apavorantes em sua sinceridade quanto o rei Ricardo, que encontra na atuação do monstro Ian McKellen a personificação ideal. Nem seu ritmo um tanto irregular apaga o brilho de seu desempenho.
2 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários
De todas as polêmicas que envolvem o dramaturgo inglês William Shakespeare - desde sua sexualidade até a autoria verdadeira de suas obras - duas certezas emergem soberanas sempre que um filme baseado em alguma peça sua chega aos cinemas: a perenidade de sua percepção da alma humana e a estrutura sempre moderna de seus textos, que permite que qualquer adaptação mantenha o espírito do original intocado. Um perfeito exemplo dessa afirmação é "Ricardo III", que o ator Ian McKellen levou dos palcos para as telas em 1995. Baseado em uma montagem ousada que alterava a data da ação para os primórdios da ascensão do nazismo (incutindo assim uma crítica política que em nada diminui o impacto da trama) e enxugava o texto em cerca de 50%, o filme de Richard Loncraine é um triunfo artístico, mas peca em ditar o ritmo necessário que poderia fazer dele uma das mais excitantes transposições do bardo para o cinema.
McKellen, também autor do roteiro, está espetacular como o personagem-título - reza a lenda que ele perdeu uma indicação ao Oscar 96 por apenas dois votos - o deformado e vil irmão caçula do Rei Edward (John Wood) que, na Europa dos anos 30, cobiça o trono da Inglaterra a ponto de urdir intrigas e assassinatos para alcançá-lo. Frio e cruel, ele não hesita em incluir até mesmo outro irmão, Clarence (Nigel Hawthorne), entre as vítimas que faz rumo ao poder. Sua trajetória sangrenta, porém, encontra firme resistência na Rainha Elizabeth (Annette Bening) - tornada americana na adaptação de Loncraine - e no irmão dela, Lord Rivers (Robert Downey Jr.), a quem ele considera dois arrivistas sociais. Casado com a bela Lady Anne (Kristin Scott Thomas), viúva de uma suas vítimas, Richard não medirá esforços em atingir seu objetivo e tornar-se um monarca ditatorial e fascista.
Com cuidadosa reconstituição de época - foi indicado aos Oscars de figurino e direção de arte - "Ricardo III" é uma produção que enche os olhos, conquistando o espectador logo de cara com uma sequência de ação empolgante que apresenta seu protagonista já mostrando seu lado maligno - no que muito colabora o olhar ensandecido de McKellen, um dos grandes atores de seu tempo. Conforme a história avança, no entanto, algo parece sair do lugar. Talvez os cortes no texto original de Shakespeare tenham sido exagerados, pois em vários momentos fica a impressão clara de que algo aconteceu e não foi explicado à plateia. Esse sentimento de confusão permanece até o final, e essa confiança do cineasta no conhecimento prévio do público da história que está sendo contada acaba por prejudicar sua narrativa. Não fica claro, por exemplo, os motivos que levam o protagonista a odiar tanto a Lord Rivers - exceto, lógico, pelo fato de ele ser o cunhado do rei. Tampouco é explicado o motivo que leva Lady Anne a aceitar desposar Ricardo, a despeito de ele ser o assassino de seu marido.
Essas falhas no roteiro de "Ricardo III" terminam por ser o calcanhar de Aquiles da obra, de resto um trabalho exemplar de grandes atuações e um texto poderoso enfatizado por um desenho de produção impecável e luxuoso. Shakespeare sabia como ninguém burilar as ambições e desejos humanos e poucos personagens seus são tão absurdamente apavorantes em sua sinceridade quanto o rei Ricardo, que encontra na atuação do monstro Ian McKellen a personificação ideal. Nem seu ritmo um tanto irregular apaga o brilho de seu desempenho.
quarta-feira
O GAROTO DE LIVERPOOL
O GAROTO DE LIVERPOOL (Nowhere boy, 2009, UK Films, 98min) Direção: Sam Taylor-Johnson. Roteiro: Matt Greenhalgh. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Lisa Gunning. Música: Alison Goldfrap, Will Gregory. Figurino: Julian Day. Direção de arte/cenários: Alice Normington/Barb Herman-Skelding. Produção executiva: Jon Diamond, Tim Haslam, Christopher Moll, Teresa Ross, Mark Woolley. Produção: Robert Bernstein, Kevin Loader, Douglas Rae. Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Kristin Scott-Thomas, Anne-Marie Duff, David Morrissey, Thomas Brodie-Sangster, David Threlfall. Estreia: 29/10/09
Qualquer pessoa minimamente
informada culturalmente sabe das principais histórias ligadas aos Beatles, uma
das mais famosas – senão A mais famosa – bandas da história da música popular
do século XX. De seu nascimento na cidade britânica de Liverpool até sua
dissolução em 1970 – depois de terem causado um furacão sem precedentes na
indústria da música e do entretenimento – os fatos que cercaram a trajetória do
grupo são quase parte de um inconsciente coletivo resultado de uma admiração
que se transmite de geração em geração e que não dá sinais de arrefecer. Porém,
mesmo com toda essa atenção a qualquer detalhe da vida de seus integrantes,
volta e meia o cinema surge com algum filme que joga luz sobre fatos menos
explorados da vida de algum dos ídolos. Foi isso que Ian Softley fez em 1994
com o pulsante “Backbeat, os cinco rapazes de Liverpool” – que acompanhava os
primórdios da banda em sua turnê em Hamburgo e contava a história da relação
entre John Lennon e seu melhor amigo Stu Sutcliffe, que abandonou o grupo para
ficar na Alemanha com a mulher que amava – e é isso que Sam Taylor faz em “O
garoto de Liverpool” (título nacional um tanto óbvio que enfraquece o bem mais
interessante “Nowhere boy” original). Ao narrar um episódio da adolescência de
Lennon imediatamente anterior aos fatos mostrados por Softley – e de importância
crucial para o futuro artístico e emocional do cantor, Taylor conquista o
público por não seguir o caminho óbvio da condescendência e, assim, mostrar a
ele um lado pouco conhecido do protagonista.
Interpretado pelo então estreante
Aaron Johnson – que casou-se com a diretora (anos mais velha) após as filmagens
e posteriormente adotou seu sobrenome – o John Lennon de “O garoto de
Liverpool” não é aquele tornado célebre através das canções que se tornaram
hinos internacionais, dos filmes que lotavam cinemas ou até mesmo das polêmicas
declarações durante e pós sua permanência nos Beatles. O Lennon iluminado pelo
roteiro de Matt Greenhalgh é um adolescente como tantos outros quaisquer que
viviam pelas ruas de sua cidade natal matando aulas, se aventurando no teto de
ônibus, flertando com as colegas e sonhando em ser Elvis Presley. Criado por
sua tia, Mimi (Kristin Scott Thomas, sempre excelente atriz), Lennon
frequentemente se vê em conflito com a vida rígida e regrada que ela lhe impõe,
em especial depois da viuvez. Os confrontos entre a rebeldia adolescente de
John e a sisudez clássica de Mimi acabam por abrir caminho para que o rapaz se
veja diante de uma situação inusitada: o reencontro com sua mãe biológica,
Julia (Anne-Marie Duff), irmã de Mimi, que o abandonou ainda criança, casou-se
novamente e formou uma nova família. Surgindo como um oásis de compreensão e
euforia na vida de John – em um radical contraste com sua rotina com a tia –
Julia (dotada de um temperamento alegre e festivo que volta e meia dava lugar a
crises de violenta depressão) é quem lhe dá o primeiro violão, lhe ensina os
primeiros acordes e o empurra em direção à vida artística. Sua lua-de-mel com a
mãe, porém, tem data de validade – e é a tragédia subsequente a essa história
de redescoberta materna o cerne de “O garoto de Liverpool”.
Quem não conhece os detalhes da
história do reencontro entre Lennon e Julia tem a vantagem de ser surpreendido
pelo desenrolar da trama, repleta de reviravoltas dignas de um melodrama barato
– mas que são tratadas com respeito e sobriedade pela direção correta de
Taylor. Quem já tem conhecimento dessa fase da biografia do cantor, porém, não
precisa sentir-se deixado de lado: o roteiro também encanta ao retratar um John
Lennon bastante falível e dotado de defeitos que deram origem à sua persona
artística (um certo narcisismo, uma rebeldia indomável, uma agressividade
latente). Seu encontro com um jovem Paul McCartney, por exemplo, é repleto de
um sentimento indisfarçável de admiração e inveja – uma mistura que acabou por
levá-los à consagração mundial com uma parceria musical em uma impressionante
coleção de sucessos. Mesmo inexperiente, Aaron Johnson desincumbe-se da
inglória tarefa com maestria: apesar de não ser fisicamente parecido com Lennon,
o jovem ator conquista o espectador em poucos minutos, captando a essência do
protagonista com segurança de veterano.
Sem apelar para o truque barato de
buscar a cumplicidade da plateia utilizando-se dos hits dos Beatles – cujo
nome, aliás, não é citado em momento algum da narrativa – Sam Taylor optou pelo
caminho mais árduo e foi extremamente feliz. Retratando John Lennon como a
pessoa comum que ele era na adolescência e não como o ícone e o ídolo que ele
tornou-se poucos anos depois, ela cria uma identificação imediata entre
personagem e público – que vê, diante de si, um jovem torturado pelo sentimento
de rejeição ao mesmo tempo em que tem seu amor disputado por duas mães (cada
uma, à sua maneira, responsável por moldar partes de sua personalidade). Já
seria um drama interessante se o protagonista fosse alguém normal –
principalmente porque a batalha entre Anne-Marie Duff e Kristin Scott Thomas é
fascinante. Sendo ele um dos maiores músicos da história o resultado fica ainda
mais empolgante. “O garoto de Liverpool” é um filme delicado, simples e
eficiente, que joga luz em um período fundamental da vida de Lennon – e
apresenta, em seus créditos finais, a bela “Mother”, que ilustra com perfeição
toda a história contada em seus 97 minutos anteriores.
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