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quarta-feira

BENNY & JOON: CORAÇÕES EM CONFLITO

 


BENNY & JOON: CORAÇÕES EM CONFLITO (Benny & Joon, 1993, Metro Goldwyn Mayer, 98min) Direção: Jeremiah S. Chechik. Roteiro: Barry Berman, estória de Barry Berman, Leslie McNeil. Fotografia: John Schwartzman. Montagem: Carol Littleton. Música: Rachel Portman. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Barbara Munch. Produção executiva: Bill Badalato. Produção: Susan Arnold, Donna Roth. Elenco: Johnny Depp, Mary Stuart Masterson, Aidan Quinn, Julianne Moore, Oliver Platt, William H. Macy, CCH Pounder, Dan Hedaya, Joe Grifasi. Estreia: 16/4/93

No começo dos anos 1990 o nome de Johnny Depp já era sinônimo de excentricidade em Hollywood - em boa parte devido ao sucesso de sua performance em "Edward Mãos de Tesoura", dirigido por seu amigo Tim Burton. Por isso, não foi surpresa para ninguém quando ele foi escalado para interpretar um dos papéis centrais do drama romântico "Benny & Joon: corações em conflito": na pele do esquisitão Sam, fã de Chaplin e Buster Keaton, calado, semianalfabeto e dono de uma grande capacidade de amar, Depp confirmou sua persona dentro da indústria (que exploraria seu estilo em outras produções de relativo êxito) e foi, provavelmente, o maior responsável pelas críticas positivas do segundo filme do diretor Jeremiah Chechik. Sensível, honesta e despretensiosa, a história de amor entre duas pessoas à margem da sociedade - e a forma com que tal romance afeta as pessoas a sua volta - não chegou a fazer grande barulho nas bilheterias, mas tornou-se cult justamente pela presença do ator, particularmente inspirado em seu desempenho. Discreto em sua forma de suscitar emoções - e evitando a todo custo o melodrama barato -, "Benny & Joon" é um pequeno grande filme, que encontrou em Depp (e no resto do elenco) sua tradução perfeita.  

Ao contrário do que o subtítulo em português dá a entender, Benny e Joon não formam a dupla romântica central do filme. Benjamin e Juniper Pearl são, na verdade, irmãos, que vivem uma vida quase medíocre em uma pequena cidade de Washington. Ele (vivido por Aidan Quinn) é um mecânico solitário que abdicou de qualquer tipo de relacionamento amoroso para cuidar dela (interpretada por Mary Stuart Masterson) desde a morte de seus pais, em um acidente de carro. Juniper (ou Joon, como é conhecida pelos amigos e vizinhos) é uma jovem com deficiência intelectual - e dom para as artes - e exige do irmão, mesmo involuntariamente, dedicação quase absoluta. Depois do abandono de várias cuidadoras - incapazes de lidar com a inconstância de seu comportamento -, ela corre o sério risco de ser posta em um lar especializado quando um acontecimento inesperado muda os rumos de sua existência. Depois de perder em um jogo de cartas, Joon é obrigada por um amigo a abrigar em sua casa o estranho Sam (Johnny Depp) e, para sua surpresa - e de um atônito Benny - os dois acabam se apaixonando.

 

Projeto relativamente antigo da MGM, "Benny & Joon" quase teve, liderando seu elenco, a dupla de astros Tom Hanks e Julia Roberts (ainda que hoje seja difícil imaginá-los nos papéis). Depois de tentar também o então casal Tim Robbins e Susan Sarandon (outro par inusitado), as coisas pareciam finalmente ter entrado nos eixos com a escalação de Depp e sua namorada, Winona Ryder (começando uma trajetória ascendente em Hollywood). O fim do namoro acarretou na saída de Winona, que foi substituída por Laura Dern (recém saída de uma indicação ao Oscar por "As noites de Rose") ao mesmo tempo em que Woody Harrelson assumia o papel de Benny. Porém, tudo mudaria mais uma vez graças a dois acontecimentos fortuitos: Dern não gostou de saber que seu nome estaria em terceiro lugar nos créditos, e Harrelson foi convidado pela Paramount para ser o marido de Demi Moore em "Proposta indecente" (1993). Com Depp ainda firme no projeto, surgiram os nomes de Mary Stuart Masterson e Aidan Quinn, ambos promissores e, como mostra o resultado final, extremamente adequados aos personagens. Com a direção pouco invasiva de Chechik (em seu segundo longa-metragem) e um roteiro delicado e repleto de uma honestidade cativante, o filme acabou por agradar em cheio aos fãs de Depp - e, por consequência, a todos que procuravam escapar dos clichês do gênero.

A maior qualidade de "Benny & Joon" - além do elenco escalado com precisão - é o modo discreto com que Jeremiah Chechik conduz sua trama, sem pressa e com uma delicadeza surpreendente vinda de quem começou sua carreira no cinema com o pouco sutil "Férias frustradas de Natal" (1989) e que chegou a ser indicado a um Framboesa de Ouro pelo medonho "Os vingadores" (1999). Com um ritmo que leva o espectador a acompanhar vidas simples e personagens com sentimentos reais, o cineasta abraça o prosaico como forma de encantar.e emocionar (porém sem apelar para o sentimentalismo barato). E, se não bastasse tal cuidado, ainda há uma das primeiras aparições de Julianne Moore no cinema, como a garçonete e ex-atriz que se envolve com Benny a despeito de seus problemas familiares. Um motivo a mais para conhecer uma produção das mais simpáticas de seu tempo.

DA MAGIA À SEDUÇÃO


DA MAGIA À SEDUÇÃO (Practical magic, 1998, Warner Bros, 104min) Direção: Griffin Dunne. Roteiro: Robin Swicord, Akiva Goldsman, Adam Brooks, romance de Alice Hoffman. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Elizabeth Kling. Música: Alan Silvestri. Figurino: Judianna Makovksy. Direção de arte/cenários: Robin Standefer/Claire Jenora Bowin. Produção executiva: Bruce Berman. Produção: Denise Di Novi. Elenco: Sandra Bullock, Nicole Kidman, Aidan Quinn, Dianne Wiest, Stockard Channing, Goran Visnjic, Marc Feuerstein, Evan Rachel Wood, Margo Martindale, Chloe Webb. Estreia: 16/10/98

Quando "Da magia à sedução" chegou aos cinemas, Nicole Kidman ainda não era a estrela que viria a se tornar depois do sucesso de "Moulin Rouge: o amor em vermelho" e "Os outros" - ambos lançados em 2001 - nem tampouco tinha o prestígio que o Oscar por "As horas" (2002) lhe traria. Em outubro de 1998, data da estreia, a maior estrela do projeto era Sandra Bullock, em franca ascensão desde que chamou a atenção do público pela primeira vez, em "Velocidade máxima" (1994). A união das duas atrizes, porém, ao contrário do que se poderia esperar, decepcionou. Com menos de 50 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias mundiais, o filme dirigido pelo também ator Griffin Dunne - e baseado em um best-seller de Alice Hoffman - ficou em um estranho meio-termo entre uma comédia romântica com tons sobrenaturais e um suspense fantástico com elementos típicos das histórias de amor que enchem os olhos dos fãs do gênero. Escorado no carisma de suas estrelas e com o apoio luxuoso de um elenco coadjuvante impecável, "Da magia à sedução" funciona como um passatempo acima da média - mas inegavelmente sofre com sua atmosfera um tanto indecisa.

De acordo com um dos roteiristas, o premiado Akiva Goldsman - Oscar por "Uma mente brilhante" (2001) - a primeira versão do filme privilegiava o lado mais sombrio da história criada por Hoffman e publicada em 1995. O marketing promovido pela Warner, porém, conduziu a produção a um resultado mais leve, de olho em um público mais amplo. Sendo assim, a saga de duas jovens irmãs lidando com seus dons de feitiçaria encontrou, no filme de Dunne, um viés mais lúdico e menos mórbido. Se por um lado é um acerto, ao explorar o talento cômico de suas atrizes, também deixa no ar a sensação de um resultado final híbrido, que não atinge todo o seu potencial dramático. Tal problema de foco respingou inclusive na trilha sonora original de Michael Nyman, que foi substituída, depois de exibições-teste, por uma música considerada menos "europeia e intrusiva", composta por Alan Silvestri. Com intenções mais comerciais, a versão que finalmente chegou às telas acabou por decepcionar o estúdio - mas tornou-se cult com o passar do tempo, principalmente devido à presença de Kidman e Bullock.

 

As duas atrizes vivem, respectivamente, Gillian e Sally Owens, irmãs que, órfãs, vivem desde a infância em uma pequena ilha na costa de Massachussets, criadas por suas tias, Frances (Stockard Channing) e Jet (Dianne Wiest). Descendentes de uma longa linhagem de bruxas, elas sabem que são amaldiçoadas para o amor e se ressentem de terem passado a vida toda sofrendo o preconceito dos outros moradores locais. Chegando à idade adulta, porém, sua união é posta à prova pelas radicais diferenças entre suas personalidades. Enquanto Sally - introvertida e romântica - desafia sua sina e vive um casamento feliz e realizado com Michael (Mark Feuerstein), Gillian - rebelde e sensual - foge da cidade com o objetivo de viver a vida longe dos olhos maldosos dos conterrâneos. A maldição que as une, no entanto, parece mais forte do que qualquer coisa: Sally fica viúva depois de um trágico acidente, e Gillian se envolve em um relacionamento tóxico e violento com o perigoso Jimmy Angelow (Goran Visjnic) - uma relação cujos desdobramentos trágicos a obriga a retornar ao lar e apresenta as duas irmãs o detetive de polícia Gary Hallet (Aidan Quinn). Sua reunião abala a tranquilidade da pequena cidade - mas pode, paradoxalmente, ajudá-las a superar o preconceito que cerca sua família e suas origens.

O que pode ser dito a respeito de "Da magia à sedução" é que, apesar dos problemas, o produto final é um delicioso programa para os menos exigentes. No auge da beleza, Nicole Kidman rouba a cena como a tresloucada e irresponsável Gillian - um contraponto aos dramas de Sally, interpretada por uma Sandra Bullock competente mas repetindo os trejeitos que fizeram dela uma grande estrela. Stockard Channing e Dianne Wiest brilham a cada aparição e a direção de Griffin Dunne faz o possível para extrair o melhor de um roteiro cuja mudança de tom no terço final prejudica mais do que ajuda. Para os fãs de suas atrizes centrais é imperdível - mas fica no ar a sensação de que poderia ter sido melhor, mais memorável ou até mesmo mais corajoso.

terça-feira

AVALON

 

AVALON (Avalon, 1990, TriStar Pictures, 128min) Direção e roteiro: Barry Levinson. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Stu Linder. Música: Randy Newman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Norman Reynolds/Linda DeScenna. Produção: Mark Johnson, Barry Levinson. Elenco: Armin Mueller-Stahl, Joan Plowright, Aidan Quinn, Elizabeth Perkins, Kevin Pollack, Elijah Wood. Estreia: 19/10/90

4 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino

 "Cheguei na América em 1914..." Mais do que a abertura de "Avalon", a frase dita pelo patriarca Sam Krichinsky no filme de Barry Levinson serve como uma espécie de mantra, uma lembrança constantemente repetida através dos anos como forma de reafirmar uma identidade nacional ameaçada pela modernidade e pela imersão em uma cultura estrangeira. Inspirado na trajetória da família do diretor e roteirista, o primeiro filme de Levinson depois da chuva de Oscar por "Rain Man" (1988) é, também, um dos filmes mais pessoais do cineasta, repleto de calor humano, personagens dolorosamente reais e momentos da mais pura magia cinematográfica. Sem apelar para o sentimentalismo barato - ainda que não evite a emoção - e com um elenco preciso, formado por atores (e não astros de ego inflado e atuações excessivas), "Avalon" se destaca na carreira do realizador justamente por nadar contra a corrente e entregar ao espectador uma deliciosa e nostálgica crônica familiar, injustamente esquecida pela Academia de Hollywood em um ano cujo maior sucesso foi o soporífero e superestimado "Dança com lobos": indicado a apenas quatro estatuetas (indicações que sublinham algumas de suas maiores qualidades), o filme é uma joia das mais preciosas, uma carinhosa ode à família e à pátria - mas sem exagero no açúcar ou no ufanismo barato.

Interpretado por Armin Mueller-Stahl com generosas doses de sensibilidade, Sam Krichinsky não é exatamente o protagonista - ao menos não o único: ao optar por uma narrativa quase episódica, Levinson espalha o protagonismo por vários membros da família, especialmente no filho de Sam, Jules (Aidan Quinn), um jovem ambicioso e empreendedor que se torna, mesmo que de forma não intencional, o responsável pela separação do núcleo familiar. Em busca de independência, Jules rompe simbolicamente com as raízes polonesas (a simplificação do sobrenome é quase um golpe de morte em seu pai) e foge da tradição profissional de gerações ao sonhar (e realizar) um negócio próprio e então inovador. Ao lado do primo, Izzy (Kevin Pollack) - também pouco arraigado a tradições que considera não práticas - e da esposa, Ann (Elizabeth Perkins), Jules representa a chegada do progresso, da tecnologia (a TV surge como catalisador de outras mudanças na rotina da casa) e de uma nova forma de enxergar o mundo e os rituais antes considerados intocáveis. Não à toa, Levinson se utiliza de eventos familiares para sublinhar as profundas transformações (igualmente representativo é o fato de que é o Dia de Ação de Graças, uma data tipicamente norte-americana, o cenário para tais momentos de humor e/ou emoção). O roteiro equilibra com maestria humor e drama - nos dois casos com parcimônia e delicadeza - e consegue, de maneira admirável, valorizar o amor à terra natal e louvar as oportunidades de um novo mundo. É comovente e lindamente fotografada a sequência de abertura, em pleno 4 de julho, quando Sam fica abismado com as luzes e o colorido de seu novo país, como o auspício de um futuro tão brilhante quanto a noite de independência.

 
Terceira parte de uma trilogia informal iniciada por Barry Levinson com "Quando os jovens se tornam adultos" (1982) e continuada com "Os rivais" (1987) - um capítulo a mais foi adicionado com "Ruas da liberdade", de 1999 -, "Avalon" chegou a figurar entre os dez melhores filmes de 1990 pela National Board of Review e foi indicado a três importantes Golden Globes - melhor drama, melhor diretor e melhor trilha sonora original -, mas foi quase esquecido pelo Oscar. Mesmo lembrado na nobre categoria de roteiro original - onde perdeu para "Ghost: do outro lado da vida", adorado pelo público -, não foi celebrado como merecia: concorreu também às estatuetas de fotografia, figurino e música (uma sensível partitura de Randy Newman que ilustra com exatidão toda a vasta gama de emoções que percorre o filme). O trabalho de Mueller-Stahl foi injustamente esnobado (e pensar que Kevin Costner estava no páreo) e a direção discreta mas emotiva de Levinson também foi deixada de lado - talvez por sua vitória ainda recente por "Rain Man". Tal resultado em cerimônias de premiação não reflete todas as suas qualidades, sendo mais um sinal inequívoco do fato de que o Oscar normalmente é um jogo de popularidade: com uma renda internacional de pouco mais de 15 milhões de dólares (que não chegou nem mesmo a pagar seu orçamento relativamente baixo de 20 milhões), era difícil disputar de igual pra igual com produções de bilheteria milionária, como os já citados "Dança com lobos" e "Ghost" e com filmes que já chegavam às telas com prestígio nas alturas, como "Os bons companheiros" e "O poderoso chefão: parte 3". Diante de tantos pesos-pesados, "Avalon" ficou praticamente invisível - para azar de quem não o descobriu a tempo.

É difícil escolher a melhor cena de "Avalon", repleta de momentos tão verdadeiros e emocionantes que soam familiares até mesmo para quem não é de descendência judaica-polonesa. Todos os encontros do clã são recheados de calor humano, humor e verossimilhança. Sam Krichinsky e sua amada Eva (Joan Plowright, excelente) são os avós que todos gostariam de ter - assim como a infância do pequeno Michael (Elijah Wood ainda criança mas já bastante expressivo), inundada de amor e aventuras que beiram o perigo. Levinson conduz o espectador por uma viagem no tempo, enfatizando aqui e ali situações corriqueiras mas que, iluminadas por seu olhar carinhoso, se tornam maiores que a vida. Amor, amizade, vida, morte, alegrias e tristezas são iguais em importância diante do cineasta - que faz, à sua maneira, uma homenagem das mais brilhantes a suas origens familiares. Sem escorregar no sentimentalismo mas investindo com inteligência no que qualquer personagem tem de mais humano, ele criou um dos melhores filmes da década de 1990, infelizmente pouco conhecido do grande público.

quarta-feira

BRINCANDO NOS CAMPOS DO SENHOR

 


BRINCANDO NOS CAMPOS DO SENHOR (At play in the fields of the Lord, 1991, The Saul Zaentz Company, 189min) Direção: Hector Babenco. Roteiro: Jean-Claude Carrière, Hector Babenco, Vincent Patrick, romance de Peter Mathiessen. Fotografia: Lauro Escorel. Montagem: William M. Anderson, Armen Minasian. Música: Zbiniew Preisner. Figurino: Aggie Guerard-Rodgers, Rita Murtinho. Direção de arte/cenários: Clovis Bueno/Dagoberto Assis. Produção executiva: David Nichols, Francisco Ramalho Jr.. Produção: Saul Zaentz. Elenco: Tom Berenger, John Lithgow, Daryl Hannah, Aidan Quinn, Tom Waits, Kathy Bates, Stênio Garcia, Nelson Xavier, José Dumont. Estreia: 06/12/91

Desde que foi publicado, em 1965, o romance "Brincando nos campos do Senhor" esteve na mira do cinema. Fascinado com o belo livro de Peter Mathiessen, que discutia temas relevantes e que estariam em voga no final do milênio, como ecologia, tolerância religiosa e racismo, o produtor Saul Zaentz imediatamente pensou em transportá-lo para as telas - mas chegou tarde demais em sua tentativa de adquirir os direitos de adaptação, comprados pela MGM. Persistente, ele viu o projeto nascer e morrer em diversas ocasiões - sob o comando de nomes fortes, como John Huston e Milos Forman e com estrelas do porte de Marlon Brando, Paul Newman e Richard Gere no elenco - sem nunca desistir de seus planos. Foi somente em 1989, porém, que o sonho se tornou realidade: mediante o pagamento de 1,4 milhão de dólares, Zaentz tinha, em mãos, a possibilidade de apresentar ao público de cinema uma história poderosa, intensa e emocionante como só os maiores épicos conseguem ser. Mal poderia imaginar, no entanto, que apesar das imensas qualidades que seu filme viria a ter, ele não conquistaria a audiência da maneira imaginada: com um custo estimado de 36 milhões de dólares e uma renda mundial de pouco mais de 1 milhão, a versão cinematográfica de "Brincando nos campos do Senhor" foi um dos mais retumbantes fracassos da década de 1990 e colocou a carreira do diretor Hector Babenco - vindo do prestígio de "O beijo da mulher-aranha" (1985) e "Ironweed" (1987) - em um hiato do qual só saiu sete anos mais tarde com "Coração iluminado" (1998).

Filmado inteiramente na Amazônia, entre junho e dezembro de 1990, o filme tomou quase dois anos da vida de Babenco antes mesmo do começo das filmagens. Ocupado em escolher locações e escrever o roteiro ao lado do experiente Jean-Claude Carrière - colaborador habitual de Buñuel -, o cineasta argentino/brasileiro ainda teria maus momentos pela frente. Da desistência de Laura Dern - que recusou-se a mergulhar em um rio com águas não exatamente limpas - às reclamações de parte da equipe, trabalhando em situação quase insalubre, a produção enfrentou problemas constantes que em nada ajudavam a amenizar o clima de constante insatisfação. Babenco, tenso e ciente da responsabilidade de comandar um projeto tão ambicioso e arriscado, orquestrava uma sinfonia das mais complicadas, com astros hollywoodianos misturados a atores brasileiros, extras locais e condições climáticas que impediam qualquer planejamento a longo prazo. Diante de tantos percalços, portanto, não apenas é notável que o filme tenha sido lançado, como que tenha resultado em um produto tão bom. A despeito de seu fiasco comercial - talvez explicável pelo teor controverso da trama -, "Brincando nos campos do Senhor" é o melhor filme da carreira do cineasta, e uma das produções mais subestimadas da década de 1990.


Em um breve resumo - que apenas dá as coordenadas para uma trama com desdobramentos complexos e surpreendentes -, o filme de Babenco conta a história de dois casais de missionários evangélicos que chegam à Amazônia com o objetivo de converter os índios locais, depois do violento fracasso de seus predecessores católicos. O líder do grupo é o ambicioso Leslie Huben (John Lithgow), que se preocupa mais em disputar os nativos com os rivais católicos do que exatamente salvar suas almas, e é ele quem recebe a família Quarrier, formada pelo idealista Martin (Aidan Quinn), pela fanática Hazel (Kathy Bates) e pelo pequeno Billy (Niilo Kivirinta) - que não demora a encantar-se com a liberdade dos indígenas, para desespero de sua mãe. O embate entre missionários e nativos deixa claro o choque entre culturas quase irreconciliáveis, especialmente quando fica claro que interesses financeiros estão por trás da chegada dos religiosos, que sem o saber, estão colaborando com empresários dispostos a dizimar tribos inteiras para ter acesso a minerais valiosos. Complicando ainda mais a situação, o piloto americano Lewis Moon (Tom Berenger) resolve se deixar seduzir por suas origens indígenas e se junta a seus ancestrais - o que não o impede de ser irremediavelmente atraído pela bela Andy (Daryl Hannah), esposa de Leslie.

A princípio a longa duração do filme - mais de três horas - pode assustar ao espectador menos paciente. Porém, tão logo as belas imagens de Lauro Escorel surjam na tela, fica claro que uma metragem menor prejudicaria consideravelmente a coerência interna e a solidez da história. Não há nenhuma cena desnecessária no filme de Babenco, e cada sequência empurra a trama em direção ao clímax - triste, chocante, infelizmente realista. Cuidadosamente produzido - seja em termos de composição visual, sonora e de construção de personagens -, o filme envolve justamente por não se deixar seduzir pelos caminhos narrativos mais fáceis. O roteiro, fluido, dá o tempo necessário a cada um de seus vários personagens, deixando claro ao espectador cada motivação e sentimento - o que, em muitos casos no cinemão hollywoodiano, é algo raro. E se em "O beijo da mulher-aranha" a mescla de atores brasileiros e estrangeiros deixava tudo um tanto caótico, o mesmo não se repete aqui: todos os atores estão em excelente momento, especialmente Kathy Bates (dona de alguns dos momentos mais catárticos) e Tom Berenger (cuja atuação é, sem favor, uma das melhores de sua carreira, apesar da opinião contrária do próprio Babenco). As caracterizações - outro ponto sensível em produções do gênero - são fascinantes e verossímeis (responsabilidade de especialistas no assunto), e a opção de colocar a Amazônia como um personagem a mais e não apenas um cenário passivo é um golpe de mestre - talvez pressionado pela própria natureza do local, mas mesmo assim brilhante.

Por fim, não é difícil entender os motivos que levaram "Brincando nos campos do Senhor" ao fracasso comercial. Não apenas o filme de Babenco foi lançado em um período complicado - final do ano, quando os estúdios mostram suas maiores armas para a temporada de premiações - como apresenta um tema bastante indigesto para o público médio frequentador de salas de exibição. É difícil imaginar famílias indo ao cinema assistir a uma produção que bate tão violentamente contra a colonização anglo-saxã e que discute com seriedade assuntos que só viriam a se tornar prementes algum tempo mais tarde. "Brincando" é um filme sério demais, feito com respeito demais para plateias acostumadas a blockbusters - ironia das ironias, o filme de Babenco é uma das maiores inspirações de James Cameron na sua concepção de "Avatar" (2010), o suprassumo do cinemão comercial feito em Hollywood. Que um dia a obra-prima do cineasta seja descoberta e avaliada como merece!

sábado

A MISSÃO

A MISSÃO (The Mission, 1986, Warner Bros, 125min) Direção: Roland Joffé. Roteiro: Robert Bolt. Fotografia: Chris Menges. Montagem: Jim Clark. Música: Ennio Morricone. Figurino: Enrico Sabbatini. Direção de arte/cenários: Stuart Craig. Produção: Fernando Ghia, David Puttnam. Elenco: Robert De Niro, Jeremy Irons, Liam Neeson, Aidan Quinn, Ray McAnally, Cherie Lunghi. Estreia: 16/5/86 (Festival de Cannes)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Roland Joffé), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Melhor Fotografia
Vencedor de 2 Golden Globes: Roteiro, Trilha Sonora Original
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes

Não é à toa que a Igreja Católica tem grande carinho e admiração por "A missão", a ponto de colocá-lo frequentemente em listas dos melhores filmes religiosos de todos os tempos: ao romantizar a exploração jesuíta entre indígenas do século XVIII e torná-la menos violenta e colonizadora do que realmente foi, a produção dirigida por Roland Joffé elege, como um de seus heroicos protagonistas, um padre espanhol dedicado e corajoso, capaz de qualquer sacrifício para proteger seus pupilos - inclusive opor-se com veemência contra o reino de Portugal, que se torna seu maior inimigo. No entanto, se como História o filme pode ser questionado em sua visão um tanto simplista, como cinema é um filme de enormes qualidades - qualidades estas que lhe renderam a Palma de Ouro no Festival de Cannes 86 (além do Grande Prêmio do Júri) e sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e direção. Uma produção imponente, séria e adulta, "A missão" comprova a tendência de seu diretor em tratar de temas relevantes e socialmente interessantes - a despeito de seu potencial comercial. Prova disso é a renda do filme no mercado doméstico (EUA e Canadá): apenas 17 milhões de dólares, uma renda que não pagou nem mesmo o custo total da produção. Seu relativo fracasso não chega a ser surpreendente: em uma época em que as salas de cinema lotavam de espectadores dispostos a aplaudir superproduções caras como "Aliens: o resgate" ou despretensiosas como "Crocodilo Dundee", o filme de Joffé surgiu como uma opção "difícil" e "densa", mirando um público mais sofisticado - que também não lhe deu a atenção devida, preferindo, assim como a Academia, o Vietnã de Oliver Stone, em "Platoon".

"A missão" é um grande filme, valorizado pela direção segura de Joffé, pela belíssima fotografia de Chris Menges (premiada com o Oscar), pela trilha sonora arrebatadora de Ennio Morricone - e pela presença magnética de Robert De Niro e Jeremy Irons nos papéis principais. O primeiro interpreta (com toda a carga dramática com que o público já está acostumado) Rodrigo Mendoza, um conhecido caçador de indígenas - a quem captura para vender como escravos na colônia onde vive, na América do Sul do século XVIII. Irons vive o Padre Gabriel, jesuíta que tem como objetivo de vida catequizar os mesmos índios caçados por Mendoza. O caminho dos dois se cruza quando o caçador, depois de uma tragédia familiar, procura abrigo nas missões comandadas pelo sacerdote: convertido ao catolicismo, ele se torna parte integrante da companhia, convivendo com religiosos e seus catequizandos - até que a Espanha vende o território onde eles trabalham para Portugal e os obriga a pegar em armas para defender a continuidade de seu projeto.


O roteiro de Robert Bolt se divide claramente em três capítulos, cada um com ritmo e desenvolvimento próprios. A primeira parte apresenta os protagonistas, sem muitos diálogos e concentrando seu foco em imagens fortes e poderosas, que estabelecem a personalidade dos personagens e sua relação com o meio em que vivem. Essa primeira etapa acaba quando Mendoza abandona a vida de caçador de escravos para tentar encontrar uma redenção espiritual - e para isso conta com o apoio de Gabriel, outros padres e a comunidade jesuítica fundada por ele. O terceiro capítulo é o mais intenso: confrontados com a possibilidade de perder tudo que foi construído até então, os dois homens tão diferentes entre si se unem - um com a palavra, o outro com a ação - para defender o que acreditam ser um bem maior. Mesmo a violência que surge a partir daí parece sagrada e justificável - e da maneira como é mostrada por Joffé, até poética.

Questões históricas e éticas à parte - é discutível o benefício das missões jesuíticas em termos de colonização, nem sempre tão pacífica como mostrada no filme -, "A missão" funciona perfeitamente como cinema. Roland Joffé é um cineasta que sabe emocionar sem soar panfletário ou melodramático, e essa característica é essencial para que o espectador não se sinta manipulado diante de uma história que já é poderosa por si mesma. O tom quase seco do diretor torna o resultado final menos impactante dramaticamente (a quem já está acostumado a catarses gigantescas e pirotécnicas), mas ressoa com muito mais potência na alma do público. Ao mostrar dois protagonistas tão opostos, o roteiro acerta em cheio, especialmente porque seus atores estão no auge do talento e da maturidade artística - De Niro já tinha dois Oscar em casa e Irons levaria o seu poucos anos mais tarde - e porque não há, entre eles, a busca pelo brilho fácil ou previsível. Assim como fez com Sam Waterston  Haing S. Ngor em "Os gritos do silêncio" - uma dupla improvável que se completa ao encontrar uma missão na vida -, Joffé deu a seus dois atores principais a chance de fugir do óbvio e do já visto. Por essas e outras é que seu filme acaba sendo uma experiência tão gratificante e inesquecível!

segunda-feira

MÚSICA DO CORAÇÃO

MÚSICA DO CORAÇÃO (Music of the heart, 1999, Miramax Pictures, 124min) Direção: Wes Craven. Roteiro: Pamela Gray. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Gregg Featherman, Patrick Lussier. Música: Mason Daring. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Bruce Alan Miller/George De Titta Jr.. Produção executiva: Amy Slotnick, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Susan Kaplan, Marianne Maddalena, Allan Miller, Walter Scheuer. Elenco: Meryl Streep, Aidan Quinn, Angela Bassett, Cloris Leachman, Gloria Estefan, Kieran Culkin, Michael Angarano. Estreia: 06/9/99 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Canção Original ("Music of my heart")

Filmes estrelados por professores que lutam contra as adversidades e conquistam o amor dos alunos mesmo desafiando as autoridades são comuns em Hollywood. Desde o clássico "Ao mestre, com carinho", estrelado por Sidney Poitier até produções menos bem recebidas pela crítica, como "Mentes perigosas", com Michelle Pfeiffer, o tema sempre emocionou as plateias, graças à força dramática sempre presente nos inspiradores roteiros. Quando a história é real, então, as lágrimas são impossíveis de segurar, especialmente quando no papel central está Meryl Streep. Como protagonista de "Música do coração", ela pega o papel inicialmente oferecido à Madonna - e que era cobiçado por Meg Ryan e Sandra Bullock - e, com a intensidade de sempre, transforma um drama convencional em mais um espetáculo digno de nota. Perfeccionista ao extremo, Streep aprendeu a tocar violino em um mês e entregou mais uma atuação memorável, que lhe rendeu uma merecida indicação ao Oscar - a décima-segunda em sua vitoriosa carreira. Na pele de Roberta Guaspari, uma professora de violino que transformou a vida de mais de mil alunos da periferia nova-iorquina com seus dez anos de aulas diárias - e que também inspirou um documentário chamado "Small wonders" - Streep comanda novamente o show, acrescentando camadas extras de sensibilidade a uma história já tocante por si mesma.

Dirigido por Wes Craven - que assustou o mundo com seus "A hora do pesadelo" e "Pânico" e resolveu testar a mão com um drama como exigência para comandar o terceiro capítulo da série estrelada por Neve Campbell - "Música do coração" não chega a ser uma produção surpreendente em termos narrativos, mas compensa essa burocracia com uma sinceridade e uma delicadeza que vão se avolumando pouco a pouco para chegar a um clímax capaz de arrepiar até ao mais indiferente espectador. É claro que o talento superlativo de Meryl ajuda muito - por melhor artista pop que seja, Madonna jamais conseguiria emocionar tanto quanto ela - mas é preciso aplaudir também o elenco juvenil, que dá garra e ar fresco a uma trama um tanto quanto repetitiva que só encontra todo seu potencial quando reúne sua protagonista - cuja força e determinação vai crescendo conforme sua autoestima também passa a se recuperar, depois de um divórcio traumático - a seus estudantes, um grupo variados de crianças e adolescentes que descobrem na música clássica uma válvula de escape de seus problemas domésticos e sociais.


Quando o filme começa, Roberta (personagem de Streep) acaba de voltar para a casa da mãe, Assunta (Cloris Leachman), depois de ser abandonada pelo marido, que deixou-a para ficar com uma amiga sua. Como forma de manter-se e aos dois filhos pequenos, ela se oferece para dar aulas de violino em uma escola do Harlem, dirigida pela rígida Janet Williams (Angela Bassett). Aceita como substituta depois que mostra seus dons como educadora e sua paixão pela música, ela passa a ensinar meninos e meninas que vivem em um ambiente desprovido de sensibilidade artística e, aos poucos, vai conquistando a admiração e o respeito da comunidade - mesmo que sua vida pessoal não reflita tanto sucesso, principalmente sua relação com um antigo amigo, Brian Turner (Aidan Quinn). Depois de mais de uma década mantendo o programa de música da escola, porém, o conselho educacional resolve cortar a verba destinada ao projeto. Desesperada com a situação, Roberta conta com a ajuda dos pais dos alunos, dos amigos e até mesmo de figuras consagradas da música para organizar um concerto beneficente e assim mudar o jogo a seu favor.

Contando com uma protagonista carismática e provida de ótimas intenções, "Música do coração" não demora em conquistar o carinho da plateia, principalmente porque não se deixa levar pela tentação de apelar para a lágrima fácil. Quando a emoção surge - e ela frequentemente se mostra, às vezes timidamente, outras nem tanto - é porque Craven consegue manipular com sucesso a fórmula que está em suas mãos, sem deixá-la passar do ponto. Dirigindo com suavidade e apostando na química entre Streep, seus jovens atores e até na cantora Gloria Estefan como atriz (na pele de uma das professoras aliadas de Roberta em seus primeiros dias), o famoso criador do temível Freddy Kruger dá um passo à frente na carreira, mostrando que talento para outros gêneros não lhe falta - ainda que até hoje ele não tenha apostado em outro drama. Bonito, sensível e inspirador, "Música do coração" fala à alma.

sábado

MICHAEL COLLINS - O PREÇO DA LIBERDADE

MICHAEL COLLINS, O PREÇO DA LIBERDADE (Michael Collins, 1996, Geffen Pictures/Warner Bros, 124min) Direção e roteiro: Neil Jordan. Fotografia: Chris Menges. Montagem: J. Patrick Duffner, Tony Lawson. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Anthony Pratt/Josie MacAvin. Produção: Stephen Wooley. Elenco: Liam Neeson, Alan Rickman, Aidan Quinn, Julia Roberts, Stephen Rea, Ian Hart, Brendan Gleeson. Estreia: 28/8/96 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original

Foi preciso o Oscar de roteiro original por "Traídos pelo desejo" e o sucesso de bilheteria de "Entrevista com o vampiro" para que o cineasta Neil Jordan finalmente conseguisse que Hollywood lhe permitisse realizar um sonho acalentado desde a década de 80: contar nas telas de cinema a história do homem que fundou um dos mais importantes grupos revolucionários do mundo, o IRA - Exército Republicano Irlandês. Apesar do tema não ser os mais atraentes (leia-se comerciais), o produtor David Geffen comprou a ideia de Jordan - ele mesmo nascido na Irlanda, portanto, grande interessado no assunto - e transformou o que poderia ser uma produção apática estrelada por Kevin Costner (que chegou a ser cotado como protagonista em determinado momento) em um thriller violento, passional e esplendidamente dirigido: "Michael Collins, o preço da liberdade", estrelado por um visceral Liam Neeson premiado no Festival de Cinema de Veneza por seu desempenho.

Previsível fracasso de bilheteria nos EUA mas um grande êxito na Irlanda - onde sua história tem maior peso e ressonância política - "Michael Collins" recebeu elogios unânimes da crítica, que louvou principalmente sua parte técnica, realmente admirável. Da belíssima fotografia do veterano Chris Menges até a impecável reconstituição de época, tudo funciona perfeitamente no filme de Jordan, emoldurando uma trama repleta de conspirações, traições e discussões políticas que, graças a um roteiro cadenciado, jamais esbarra nem no didatismo quase inevitável nem na complexidade histórica que muitas vezes condena obras do gênero ao limbo dos filmes "engajados". Nitidamente simpático à causa do IRA, Neil Jordan evita, inclusive, exagerar no desenho das qualidades de seu protagonista, mesmo que por vários momentos deixe a plateia vislumbrar sua admiração por sua personalidade carismática e intensa. Definindo seu arco dramático no período de tempo que compreende o início da luta de Collins contra o Império Britânico e pela liberdade de sua Irlanda natal até seu assassinato - cometido depois de um ato de traição que o filme torna ainda mais odioso - o diretor/roteirista equilibra seu filme entre tensas discussões táticas, violentas sequências de terrorismo (como um ataque surpresa a um jogo de rugbi) e até mesmo arruma espaço para um triângulo amoroso que coloca o protagonista e seu melhor amigo, Harry Boland (Aidan Quinn), lutando pelo amor da moderna Kitty Kiernan (Julia Roberts, cujo nome não ajudou a levantar a renda do filme no mercado americano).


Mesmo com o fato de ter como protagonista um dos pais do terrorismo moderno, "Michael Collins" jamais apela para a violência gratuita ou excessiva. Certamente não falta ao roteiro um grande número de sequências sanguinolentas, afinal trata-se de um filme sobre o surgimento de um exército que pegou em armas pesadas para garantir a independência de seu país, mas Neil Jordan é um diretor inteligente e sensível, que faz poesia de muitas de suas imagens, por mais paradoxal que a afirmação possa parecer.  Remexendo nas entranhas políticas da época em que se passa a história e explicitando o jogo de interesses que sempre existiu dentro das camadas próximas ao poder, o roteiro de certa forma justifica o uso da clava forte ao invés da justiça das palavras e do diálogo, amenizando, assim, o que poderia ser tratado como gratuidade por um cineasta mal-intencionado. Auxiliado pela fotografia de Menges - acinzentada como os céus da Irlanda em tempos de guerra - e pela trilha sonora de Elliot Goldenthal (únicas indicações do filme ao Oscar em um ano dominado pelo romantismo derramado de "O paciente inglês" e o cinismo debochado de "Fargo"), "Michael Collins" é cinema político de verdade, que transborda ideologia em cada fotograma. Talvez por isso tenha sido virtualmente ignorado pelo grande público.

Realizado com capricho e paixão, "Michael Collins" é um filme para poucos. Não põe panos quentes em um tema politicamente controverso, não deixa de mostrar sua simpatia pela busca da liberdade e nem tem medo de ser uma produção desprovida de atrativos comerciais - vale lembrar que a estrela de Julia Roberts estava em baixa durante a produção do filme. Mas é uma obra valorosa, inteligente e importante para a compreensão do mundo como é hoje.

quarta-feira

LENDAS DA PAIXÃO

 

LENDAS DA PAIXÃO (Legends of the fall, 1994, TriStar Pictures, 133min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Susan Shilliday, William D. Wittliff, romance de Jim Harrison. Fotografia: John Toll. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Horner. Figurino: Deborah Scott. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Dorree Cooper. Produção executiva: Patrick Crowley. Produção: Marshall Herskovitz, William D. Wittliff, Edward Zwick. Elenco: Brad Pitt, Anthony Hopkins, Aidan Quinn, Julia Ormond, Henry Thomas, Karina Lombard, Christina Pickles. Estreia: 16/12/94

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor do Oscar de Fotografia

Se naqueles livros que ensinam como escrever roteiros para cinema existisse um capítulo chamado "Como transformar um livro de homem em uma telenovela para mulheres" provavelmente ele estaria ilustrado com uma foto enorme do filme "Lendas da paixão". Baseado em um romance do escritor Jim Harrison - famoso por criar personagens fortes e rudes, que lidam com as adversidades do mundo rural de forma estóica - o filme de Edward Zwick transformou a história da família Ludlow e suas tragédias em um dramalhão água-com-açúcar cujo principal objetivo parece ser elevar o então ascendente Brad Pitt a astro de primeira grandeza. A julgar pela bilheteria generosa, pelos baldes de lágrimas vertidos pela plateia e pelo sucesso do ator junto ao público feminino, a missão foi plenamente cumprida. Pena que o resultado final enterre o espírito do livro junto com todas as personagens que morrem no decorrer do filme.

"Lendas da paixão" começa no início da I Guerra Mundial, quando o jovem Samuel Ludlow (Henry Thomas, o menininho de "ET", crescido e mau-ator) retorna à fazenda onde vivem seu pai, o Coronel aposentado William Ludlow (Anthony Hopkins) e seus dois irmãos mais velhos, o correto e maduro Alfred (Aidan Quinn) e o selvagem e rebelde Tristan (Brad Pitt). Mesmo ciente das contrariedades do pai a respeito do conflito que começa a tomar o mundo, o rapaz decide alistar-se e partir para a guerra. Para proteger o caçula, tanto Alfred quanto Tristan juntam-se a ele, mas a união aparentemente inquebrantável dos três irmãos sofre um abalo quando Alfred se apaixona por Susanna (Julia Ormond), a noiva de Samuel, que, por sua vez, não resiste aos encantos do indomável Tristan. Quando uma tragédia no campo de batalha muda drasticamente as relações entre Tristan e Alfred, a família inteira se vê envolvida em uma história de amor, lealdade e traição.



É inegável o cuidado da produção: a fotografia deslumbrante de John Toll - premiada com o Oscar - dá o tom exato entre o clima claustrofóbico da guerra e a vastidão das montanhas de Nevada (filmadas no Canadá). A imponente música de James Horner comenta a ação de maneira eficientíssima e a reconstituição de época é discreta e eficaz (não à toa também concorreu ao prêmio da Academia). Mas não dá para ignorar o fato de que Zwick, ao invés de privilegiar a interrelação entre os irmãos preferiu dar vazão ao romance entre Tristan e Susanna. Enquanto Pitt faz pouco mais do que deixar a longa cabeleira ao vento para seduzir a mulherada a péssima Julia Ormond tenta convencer a audiência de que uma mulher tão sem graça e sem carisma possa ter conquistado todos os homens da família Ludlow. Esse defeito é a maior pedra no sapato de "Lendas da paixão" e a que mais atrapalha em suas intenções de ser um trabalho inesquecível.

Projetado como veículo para Sean Connery e Tom Cruise - ou seja, poderia ser muito pior - "Lendas da paixão" é um filme que emociona e enche os olhos. Apesar de Anthony Hopkins estar no pior momento de sua carreira, o elenco conta com o ótimo Aidan Quinn, que tenta dar dignidade e consistência a uma personagem relegada a um melancólico segundo plano - ainda que seja responsável por algumas das mais comoventes cenas do filme. É um dramalhão realizado com tudo de melhor que Hollywood pode oferecer, mas que prefere o caminho mais fácil para atingir seu público. É bonito, mas poderia ter sido inesquecível!

domingo

FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY

FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY (Mary Shelley's Frankenstein, 1994, TriStar Pictures, 123min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Frank Darabont, Steph Lady, romance de Mary Shelley. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Andrew Marcus. Música: Patrick Doyle. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Tim Harvey/Martin Childs. Produção executiva: Fred Fuchs. Produção: Francis Ford Coppola, James V. Hart, John Veitch. Elenco: Kenneth Branagh, Robert De Niro, Helena Bonham Carter, Ian Holm, Aidan Quinn, Tom Hulce, John Cleese, Hugh Bonneville, Richard Briers. Estreia: 04/11/94

Indicado ao Oscar de Maquiagem

Entusiasmado com o sucesso de bilheteria e crítica de "Drácula de Bram Stoker" - sua visão opulenta e operística de um clássico absoluto - o cineasta Francis Ford Coppola teve a ideia de reapresentar a um público carente de boas produções do gênero alguns outros "monstros" da literatura de terror. Antes de desistir de um filme sobre lobisomens (mesmo porque o tenebroso "Lobo", de Mike Nichols, matou qualquer interesse no assunto), o diretor de "O poderoso chefão" produziu,  através de sua Zoetrope, a versão mais intensa e fiel de um dos livros mais conhecidos do estilo. No entanto, dirigido pelo irlandês Kenneth Branagh (em alta depois de ser considerado um novo Laurence Olivier, graças a suas adaptações de obras de Shakespeare), "Frankenstein de Mary Shelley" não atingiu as altas expectativas em torno de si: fracassou nas bilheterias e não empolgou a crítica.

Assim como em "Drácula de Bram Stoker" o filme de Branagh começa com um prólogo que suas versões anteriores dispensaram: no final do século XVIII, o explorador Robert Walton (Aidan Quinn) tenta descobrir novas terras, ignorando os perigos que a aventura proporciona. Durante uma viagem, ele encontra Victor Frankenstein (Kenneth Branagh), que lhe conta, sôfrego e apavorado, sua trágica história de desafio à ordem natural das coisas. Órfão de mãe desde a infância, ele sempre tentou encontrar uma maneira de reverter o processo da morte. Durante seu curso de Medicina - e depois de testemunhar a cruel morte de um mestre - ele finalmente tem a oportunidade que esperava: utilizando anotações de um professor, ele dá vida a uma criatura juntando partes de diversos corpos. Depois de rejeitá-la por considerá-la um erro, ele tenta continuar com sua vida normal ao lado da amada Elizabeth (Helena Bonham-Carter), mas o monstro criado por ele (Robert DeNiro) resolve vingar-se da rejeição da única maneira que conhece: com violência.

A história criada por Mary Shelley em uma única noite (segundo reza a lenda) tem inúmeras ressonâncias filosóficas e éticas que o roteiro de Steph Lady e Frank Darabont - este último diretor do ótimo "Um sonho de liberdade" - tenta manter, sem muito sucesso. O belo visual impresso pela fotografia imponente de Roger Pratt impressiona, mas a direção de Branagh esbarra em um erro crasso: a falta absoluta de sutileza. Não há espaço, nessa versão quase histérica, para momentos de silêncios ou discrição. Do início ao fim do filme, por exemplo, o ator Branagh surge em cena gritando, correndo e suando, enquanto seus colegas de elenco apenas tentam seguir seu ritmo acelerado (e não ágil, entenda-se). Helena Bonham-Carter, uma excelente atriz, pouco tem a fazer com sua Elizabeth, que nunca passa de uma expectadora passiva dos trágicos acontecimentos que ocorrem à sua volta até que torna-se vítima da ambição do amado. E Robert DeNiro, cujo currículo dispensa qualquer tipo de comentário, está no pior momento de sua carreira, restrito a caras e bocas exageradas que nem mesmo a maquiagem asquerosa (que concorreu merecidamente ao Oscar) consegue salvar.


Mas, então, o que "Frankenstein de Mary Shelley" tem de bom, que justifique uma sessão? Longe de ser uma porcaria, o filme de Branagh (diretor do interessante "Voltar a morrer" e da genial adaptação de "Hamlet" feita logo em seguida) não é uma obra-prima como "Drácula de Bram Stoker" mas está longe de ser de todo ruim. Como já foi dito, o visual é arrebatador, desde a fotografia sombria até a direção de arte caprichada e a trilha sonora de Patrick Doyle é sensível o suficiente para amenizar algumas sequências mais pesadas. E a história de Shelley por si mesma já é boa o bastante para prender a atenção, sem contar em algumas ideias muito interessantes do cineasta - a criação do monstro, por exemplo, apresenta uma espécie de útero em tamanho descomunal, com direito a líquido amniótico e tudo. Porém, a concepção do filme é melhor do que seu resultado final, conforme o próprio Coppola admitiu, retirando-se da divulgação do produto.

No final de contas, "Frankenstein de Mary Shelley" vale a pena por seu visual barroco e por sua história atemporal e repleta de questionamentos. Mas sem dúvida poderia ter sido um filme bem melhor.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...